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História

Comida como um valor para o homem

História de: Milad Alexandre Mack Atala (Alex Atala)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/12/2019

Sinopse

Nasce em São Paulo, aos 3 de junho de 1968, Alex Atala. Carrega no nome completo a ascendência árabe e irlandesa. É criado em São Bernardo, de onde sai, com 14 anos, para ganhar autonomia de voo. Carrega as lembranças do avô que pesca, caça e cozinha, dentro do respeito à Natureza; e, também, o fascínio pela parte de São Paulo que lhe apresenta e sugere um outro mundo, uma outra vida. Vai para a Europa, lá precisa ter uma profissão: torna-se cozinheiro. Apaixona-se pela cozinha e empreende uma carreira que culmina na abertura do próprio restaurante e na reunião de todos os seus conceitos, desejos e valores relativos à gastronomia, no Instituto ATA. Tem o histórico de envolver comida e valor, mas este sob o aspecto humano.

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História completa

Nasci em São Paulo, primeiro nome Milad, que as pessoas, volta e meia, chamavam Milady, mas me tornei conhecido como Alex Atala. Aos 14 anos – sou de 1968, 3 de junho – saí de casa, quer dizer, de São Bernardo do Campo, onde me criei. Foi uma saída sem dramas e sem conflitos, a pura vontade de ganhar o mundo e me tornar independente. Meu pai foi registrado em Mato Grosso, mas nasceu em terras bolivianas. Veio para São Paulo com 17 anos, para estudar, acabou na indústria da borracha, daí São Bernardo. O pai dele era palestino, viveu na Inglaterra, veio para o Brasil e aqui foi assassinado – envenenado – próximo a Rondônia. Minha mãe vem de uma família de mineradores ingleses.

A São Bernardo em que eu cresci era outra; morávamos numa espécie de chácara, cercada de árvores frutíferas e por onde corria um riozinho. Ali, hoje, é uma avenida e um shopping. Como disse, muito cedo vim para descobrir um outro mundo. Quando eu entrava na Avenida Paulista, por exemplo, eu me sentia atravessando um portal, e a partir dali é que as coisas aconteciam. Vivia, intensamente, o mundo da música, com o punk rock; e todas as outras coisas daquele universo me deslumbravam. Eu não era um bom aluno, era indisciplinado mas respeitoso, elegantemente rebelde e mal-educado. Assim, tive cinco expulsões e ia estudando onde dava. Numa dessas, eu fui parar em Interlagos. Quer dizer, São Bernardo a Interlagos, naquela época, eu passava mais tempo no ônibus do que na escola. Mas o rock, o gosto pela música e o fato de estudar, mais tarde, em Pinheiros, me levavam a transitar por aquele corredor: Paulista, Pinheiros, Pompeia, Jardins, Vila Madalena. O fascínio que eu sentia por aqueles lugares, me abria novas perspectivas e me levava a novas experiências. Como, por exemplo, a Fábrica do Som, no SESC/Pompeia. Fora que, então, eu estudava ali em Pinheiros. Aí decidi que não fazia sentido estar indo e vindo, mofando em condução, e arranjei um lugar para trabalhar: uma loja de mergulho na Mourato Coelho. Influência, talvez, da admiração que eu tinha por Jacques Costeau e a riqueza/beleza submarina – eu assistia, na TV, com meu pai. Com trabalho, consolidou-se a minha chegada nesse “admirável mundo novo”. Que, para a minha mãe, não duraria dois meses. Esse desafio, essa descrença materna, foi o motor para eu ficar em definitivo e alimentou outras possibilidades que eu fui descobrindo e concretizando. Como, por exemplo, morar na Europa. Na Bélgica, fui pintar paredes. Mas a necessidade, inclusive de não me tornar ilegal, de ter uma profissão, me levou para a cozinha. Lá eu fiz a Escola de Hotelaria de Namur. De lá eu fui para a França, depois para a Itália.

Eu não escolhi ser cozinheiro. A vida me levou a ser cozinheiro. Uma coisa é certa e eu sempre digo: “As oportunidades que eu tive na vida, eu agarrei com muita força”.

Quando eu fui cozinhar, me veio a lembrança de meu avô materno: “Você matou isso aqui? Vai ter que comer”. Existia nele uma coisa de valorizar o ato de pescar, de caçar. E não só isso: de cozinhar, também. Ele olhava a comida – ou o ato de ir à Natureza e colher – como valor. Bom, mas aí eu voltei, a passeio, para o Brasil, e conheci minha primeira mulher. Fomos para Milão. Nessa altura, eu já havia virado cozinheiro de fato e apaixonado pelo que fazia.  Não obstante, eu volto para o Brasil com pouco dinheiro, casado e quase pai. Vou cozinhar para os outros. Com paixão. Algumas passagens, por lugares que ficaram, e algumas experiências notáveis depois, eu consigo abrir o Namesa, que dá lugar ao Dom. E são vivências memoráveis. Um detalhe que ilustra as dificuldades: na inauguração do Dom, tive que oferecer canapés e champagne para os convidados porque ainda não haviam ligado o gás! Na sequência, nasce o Instituto ATA:

… O ATA nasce com essa prerrogativa de tentar reorganizar e suportar a cadeia do alimento. (…)  Aproximar o saber do comer, o comer do cozinhar, o cozinhar do produzir, o produzir da Natureza.

E, nessa perspectiva, inclusive, eu cunhei uma frase que passou a ser repetida mundo afora: “A maior rede social do mundo não é o Facebook. A maior rede social do mundo, que conecta sete bilhões neste Planeta, quase oito, é comida”.

… A cozinha colocou, em comunhão, várias fases da minha vida (…).

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