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Comerciante de softwares

História de: Gerson Luiz Spiandorelli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/08/2008

Sinopse

Identificação. Convivência com os avós e com amigos da rua. Fabricação de pipas para venda. Adolescência marcada pelos jogos de futebol com o time do bairro. Lembranças de empórios e armazéns. Viagens com a família. Histórico escolar e formação em Matemática na Unicamp, onde teve os primeiros contatos com computadores. Entrada de softwares industriais no comércio e início da internet. Os trabalhos voltados para o comércio. Paixão pelas viagens. A esposa que conheceu em uma dinâmica de grupos. Transformações na área da informática. Primeiras impressões de Campinas e perfil dos clientes. Campinas e região.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Eu me chamo Gerson Luiz Spiandorelli, nasci em Valinhos, em 5 de março de 1953. Agradeço poder participar de um trabalho tão interessante.

FAMÍLIA
Meus pais são Luiz Spiandorelli e Rafaela Ancântara Spiandorelli. Meus pais são brasileiros, mas o meu pai é descendente de italianos com espanhóis, então, é Spiandorelli com Hernandez. E do lado da minha mãe, a minha avó é descendente de italianos com alemão, Schneider, Terine Schneider. E o meu avô materno é tipicamente brasileiro ou português, Alcântara, bem antigo. Eu convivi muito com meus avós, embora, os homens tenham falecido mais cedo, eu me lembro perfeitamente do meu avô materno, que sempre me acompanhava, me levava pescar, fazer caça e outras atividades. Muito bacana para os adolescentes. E o meu avô paterno era um pouco mais sério. Mas era muito interessante, eu gostava muito, porque ele é agricultor e ele entendia muito de fazer enxertos de plantas. Eu ia sempre com ele, fazia esse trabalho no sítio, era muito interessante também. E já as minhas avós viveram muito. A minha última avó materna faleceu faz pouco tempo, aos 97 anos. E a minha avó paterna faleceu aos 86 anos, há uns 10 anos atrás. O meu avô paterno era sitiante, veio muito novinho da Itália. O irmão mais velho dele que o trouxe, junto com o resto da família. Eles se sediaram em Valinhos e montaram alguns sítios, onde eles plantavam figo e uva. Meu pai, inclusive, trabalhou muito levando figo ou uva para o Ceasa de São Paulo, porque era o centro de distribuição da produção de Valinhos. Já o meu avô materno era marceneiro, carpinteiro, na verdade, Ele tinha uma oficina onde inicialmente ferrava cavalo. Ele desenvolvia carroças, rodas, fazia roda de carroça. Aprendi muita coisa interessante com eles nessa parte artesanal, no trato da madeira. Tanto que até hoje eu trago comigo um monte de ferramentas em casa pra trabalhar a madeira. Eu adoro trabalhar a madeira por causa dele. Uma atividade, que hoje praticamente, já não existe. Um pouquinho antes dele falecer, estava desenvolvendo carrocerias de caminhão. Minhas avós sempre foram do lar, trabalhando em casa. O que eu me lembro bastante é que, principalmente a minha avó materna, gostava muito de cozinhar e ela dominava um fogão a lenha como ninguém. Eram comidas fantásticas. Nos fins de ano, principalmente, havia o costume de juntar todas as famílias, os filhos. Eles tiveram três filhos e cada filho teve quatro, então, éramos em 12 primos, mais os pais e os avós, que juntavam na casa do avô e era aquela festa no Natal, Ano Novo, uma beleza. Tenho mais três irmãos. Sou o mais velho. É o Silvio, que é engenheiro civil e trabalha na Prefeitura de Valinhos; o Luiz Roberto, que é da mesma área que eu, ele é analista de sistemas, embora tenha feito matemática, também como eu, e trabalha para a Iton, atualmente; e o Marcos, que também fez matemática. Acho que a minha influência foi meio grande. Ele foi para área de informática também e hoje trabalha na 3M.

INFÂNCIA
Eu nasci em Valinhos e nós morávamos numa casa ligada à casa dos meus avós. Isso foi até os seis ou sete anos de idade. E eu me lembro de algumas coisas muito interessantes nessa fase. Eu tinha um amigo que morava em frente, o pai dele era dono de uma transportadora. Nós aprontamos uma boa nessa época, que todo mundo se lembra na cidade, inclusive. Quando tínhamos, acho que uns cinco anos de idade, nós nos escondemos embaixo de um caminhão que estava sendo carregado com frutas. A lona cobria toda carroceria, então nós nos escondemos embaixo do caminhão. Isso era próximo da hora do almoço, então a minha mãe e a mãe dele começaram a nos chamar: “Oh, Zezinho, vamos almoçar Gerson, vamos almoçar” E nenhum dos dois aparecia. Nós combinamos de ficar quietos e ficamos ali embaixo. Naquele tempo, o pessoal ficava um pouco desesperado, porque não era comum as crianças saírem muito longe de casa. Aí, uma pessoa falou: “Olha, eu vi os meninos ali na beira do rio.” Todo mundo foi para beira do rio e não achava. Aí alguém falou: “Eu os vi passando pela ponte que vai pra Vila Santana.” Que era um bairro já longe. Foi todo mundo pra lá, aquela história. Conclusão, eram umas duas horas da tarde e ninguém nos achava. Todo o bairro nos procurando e nós ali, não tínhamos saído do lugar. Até que a coisa começou a ficar um pouco estranha, percebemos que era complicado e saímos debaixo do caminhão. Ninguém teve a idéia de procurar embaixo do caminhão e foi aquela surra. Muito interessante essa passagem. Depois, nós mudamos, fomos para um bairro mais afastado do centro. Aí, eu comecei a freqüentar a escola. Eu me lembro que eu andava cerca de três ou quatro quilômetros para freqüentar o grupo escolar. Era muito bacana porque eram bairros novos, com muitos sítios ainda em volta, e havia o costume de você apanhar frutas no sítio do vizinho. Essas coisas eram muito agradáveis. E nessa casa nós vivemos bastante tempo, aliás, praticamente até eu me mudar pra Campinas. Durante a adolescência e o comecinho dos 12, 13 anos, acho que começou um pouco da minha atividade empreendedora. Eu comecei a fazer pipas pra vender na garagem de casa e vendi bastante. Só que todo mundo copiou e começou a vender pipa. Aí fomos à falência. Eu gostava de futebol. Futebol foi muito gostoso, principalmente, nesse bairro novo. E nessa mesma idade, 12 até os 15, 16 anos. Havia o time do bairro e era chão batido, trave de eucalipto, que nós mesmos cortávamos, e a bola de capotão, como chamávamos. E até é interessante o fundador da rede Frango Assado, o Guilherme Mamprim, ele era influente na cidade e gostava muito de futebol. Então, ele nos presenteou com camisa e bola de futebol pra montarmos o timinho do bairro. Havia aqueles campeonatos inter-bairros, que eu participava. Fora o futebol, eu sempre gostei muito de natação e de mergulho. Isso com mais idade, quando eu tinha mais um pouco de dinheiro e consegui viajar para a praia. Acabei fazendo cursos de mergulho, inclusive, aqui no próprio Sesc. Tem uma piscina muito boa. Fizemos um treinamento de mergulho e o batizado foi no mar. E sempre gostei muito de fotografia, mas fotografia também foi depois dos 17, 18 anos. Dos meus amigos de infância, hoje, eu convivo com muito poucos porque a maioria foi embora. Tinha um grupinho muito interessante, nós somos em quatro ou cinco pessoas. Até hoje, todas as quartas-feiras nos reunimos pra conversar, falar de futebol, de mulheres. Coisa de homens. Mas é um grupo que já está junto há mais 40 anos. O Antonio Carlos, o Batota, que inclusive é muito conhecido na cidade de Valinhos. O Fainhane que também é conhecido, tem uma serralheria. O Arnaldo Martini e outros que são mais recentes na turma. Antes de mudarmos pra essa casa longe da casa dos meus avós, eu praticamente não ia fazer nenhum tipo de compra, mas quando nos mudamos, eu já estava maiorzinho e minha mãe pedia pra ir ao empório do Pozuto. O Armazém do Pozuto era aquele armazém típico, com um balcão, tinha algumas caixas com arroz, que era a granel, arroz, feijão, sardinha, camarão seco, essas coisas. E havia a tal da caderneta: “Oh, seu Francisco, minha mãe pediu dois quilos de arroz, um de feijão e um pouco de camarão seco. Marca na caderneta.” Marcava na caderneta e no final do mês fechávamos a conta. Isso não existe mais.

ADOLESCÊNCIA
Era muito raro fazer compras fora de Valinhos. Aliás, quem introduziu isso lá, praticamente, fui eu. Quando jovem, aos 18 ou 19 anos, a independência vem e você começa a ficar antenado nas coisas do momento, então, São Paulo era um grande chamariz. Íamos à São Paulo pra comprar aeromodelos, carrinhos de montagem, essas coisas. Tem uma empresa que existe até hoje, inclusive, chamada Aeroglass. Comprei muito na Aeroglass. Acho que é na Avenida Ipiranga. Os meus pais não iam. A idéia era comprar mesmo por perto. Uma vez, quando nós fizemos uma reforma, aí sim, o meu pai soube de um supermercado de construção que já havia na época em São Paulo. Era muito mais barato comprar lá do que na região de Valinhos ou Campinas. E de fato, com o preço de uma maçaneta pagou a viagem e quase todo o resto da das compras que foi feita.

TRANSPORTES
O meu avô materno sempre teve automóvel. Ele tinha um Ford 36 e eu sempre ia pescar com ele no Rio Atibaia. O meu avô paterno não tinha automóvel, mas o meu pai seguiu muito o meu avô materno e acabou comprando. Ele tinha um Fusquinha 62, que usávamos pra viajar. Nós íamos pra Santos, para o Guarujá. Mais para Santos que era, na época, a praia da moda. Mas era um bate e volta. Não ficávamos em pousadas, hotéis. Naquela época era muito mais difícil, então, saíamos de madrugada e levávamos a lancheira. Levávamos uma cesta contendo lanches e fazíamos um piquenique na praia. E a tarde, quando o sol já estava pra se por, voltávamos. Fizemos algumas viagens a Nossa Senhora da Aparecida [SP] ou ali perto, Guaratinguetá. Algumas vezes a Campos do Jordão, quando eu era bem pequeno. Também, aqui para o lado de Pirassununga, Cachoeira das Emas. Chegamos a ir à Tambaú, algumas vezes, mas não era muito freqüente como é hoje. Eram coisas mais planejadas e mais espaçadas. Não havia tanta facilidade. Eu não me lembro muito das estradas porque, acho que as crianças não prestam muita atenção nisso. Eu me lembro muito da Anhanguera, acho que pelo fato, inclusive, de andar muito nela. O meu avô uma vez, andando pela Anhanguera, parou o carro achando que estava com defeito, e não era. Era o cimento. Como eram placas o carro fazia com um trem, pá pá pá pá e ele achou que era um defeito quando na verdade era o piso da estrada que fazia o barulho.

FORMAÇÃO
Freqüentei o grupo escolar Antonio Alves Aranha, que era lá em Valinhos. Na época era um prédio que hoje já não existe, foi demolido. Era próximo à estação ferroviária, a um riacho que tinha lá. E nós freqüentamos ali durante quatro anos. O primeiro ano nem foi lá; na verdade, foi num barracão, bem simples. Eu me lembro da professora Olga. Era muito gostoso, eu gostava muito. Era um salão enorme, tinha muitos alunos, acho que eram uns 80 alunos do primeiro ano. Depois, já no segundo ano do grupo escolar, que foi nesse prédio que já foi demolido, aí já foi mais bem dividido. Tenho colegas dessa época ainda que são formados também na minha área e em outras áreas, nos encontramos de vez em quando. E o ginásio foi uma continuação normal. O problema maior foi o colégio, não existia em Valinhos nessa época, então nós tivemos que vir para Campinas e eu fui para o Ataliba Nogueira. Do Ataliba Nogueira, fizemos um movimento, quer dizer, não no Ataliba Nogueira, mas o pessoal que era do ginásio, inclusive, uma das minhas colegas da época, que hoje é diretora de colégio, mais uma turma. Inclusive fizemos um trabalho junto à Secretaria do Estado de São Paulo, um abaixo assinado, para montarem um colégio em Valinhos, porque não havia. Tínhamos 14 para 15 anos e íamos a São Paulo falar com o Afonso Celso Pastore. Brigar com ele para conseguir um colégio em Valinhos. E acabamos conseguindo. Na verdade, obteve-se uma extensão do Vítor Meireles. Então, eu tive que sair do Ataliba Nogueira, fomos para o Vítor Meireles, uns seis meses, mais ou menos. No mesmo ginásio, que era o Ciro de Barros Rezende se colocou a primeira sala do colégio novo, que era o Colégio Ciro de Barros Rezende. E então, a minha turma foi a primeira turma de colégio em Valinhos. Inauguramos o colégio. Fizemos os três anos. Era científico, na época, e aí veio o vestibular O pessoal se separou bastante. Uns foram fazer Medicina, em Londrina; outros foram fazer Engenharia, na Poli; e eu acabei entrando em Matemática, na Unicamp. Foi direto, nós não fizemos cursinho, nada, acabamos passando. E comecei a ter contato com computador lá na Unicamp. VOCAÇÃO PARA O COMÉRCIO Ao mesmo tempo que eu fazia colégio, eu entrei no SENAI também. Então, eu fazia colégio à noite e SENAI durante o dia. No SENAI era interessante porque eram seis meses de aula, cinco meses na empresa trabalhando e um mês de férias. A minha área no SENAI foi eletricidade. Eu gostava muito de eletricidade, física e era muito ligado nessas coisas. Fiz um curso por correspondência de eletrônica, no tempo da válvula. E esse curso por correspondência mais a prática do SENAI me levaram a montar um laboratório de eletrônica na minha casa. Antes cheguei a ter laboratório de química também. Quase matei a minha mãe de susto, essas coisas. Mas no laboratório de eletrônica, eu montava aparelhos de som, rádios e vendia. Era um por vez ou a cada dois meses. Eram bons os aparelhos e já estava começando a época do transistor. Foi uma novidade, porque todo mundo só conhecia válvula e nós começamos a implantar a parte de transistor lá em Valinhos. Então nós vendíamos alguns amplificadores, comprávamos os aparelhos, os toca discos Garrard, que na época eram muito famosos, e a gente montava. Montávamos o amplificador de som, as caixas acústicas. Nós éramos detalhistas, a gente media até o volume de magnetismo que havia nos alto-falantes. Nós íamos comprar os autos-falantes em São Paulo, adquiria da Pioneer que vendia numa casa em São Paulo. Eu e um grande colega meu, grande amigo que hoje vive nos Estados Unidos, fez física na Unicamp e engenharia mecânica. Acabou indo pro Canadá. Trabalhou comigo na Elo por um tempo, mas ele não tinha lugar aqui no Brasil; acabou voltando pros Estados Unidos, está lá até hoje. De vez em quando a gente se encontra, mas a gente mesmo antes de ir pra faculdade, a gente vendeu alguns aparelhos de som e eu gostava muito disso. Nós montamos também um grupo, eu e esse colega. Na época, a gravação era em fita cassete e fazíamos bailinhos em fundo de quintal, fundo de garagem, com os nossos aparelhos de som. Montamos luz negra, luz estroboscópica, essas coisas. Chegamos a fazer festa em São Paulo. Uma vez, alugamos uma Kombi, a Kombi do Hélio, uma Kombi 66 e não passava de 60 quilômetros por hora; levamos três horas pra chegar a São Paulo; quase chegamos atrasados na festa. Na volta, fomos parados porque havia muitas luzes penduradas na Kombi e era proibido. O guarda parou. Então, já tinha um tino comercial nesse aspecto. Fizemos muitas festas em Campinas. Quando eu comecei a trabalhar, isso acabou. TRABALHO COM INFORMÁTICA Eu me interessei muito pela área de informática. Comecei a aprender e até hoje é uma área muito complicada, exige uma reciclagem muito grande, você tem que estar o tempo todo antenado e estudando. Todas as áreas são assim, mas essa, principalmente, acho que é uma das piores, é uma das que mais exige. Eu fiquei um tempo me dedicando muito à empresa em si, havia muito trabalho e também a faculdade. Esse lado empreendedor ficou meio de fora até que eu desenvolvi um projeto, dentro da empresa na qual eu trabalhava - que era a Clark - e desenvolvi um projeto muito interessante. Existe um produto chamado gerenciador de banco de dados que administra os arquivos, as informações armazenadas no computador e, na época, eram softwares muito precários; hoje está muito avançado, muito desenvolvido, mas na época eram softwares relativamente precários, difíceis de usar e eram muito caros. Aconteceu uma coisa interessante: por volta de 76, 77 o software que a minha empresa utilizava deixou de ser comercializado pela empresa que o representava aqui no Brasil; a empresa perdeu a representação e ela não conseguia comercializar os software, nem dar manutenção. Então, o software ficou na empresa sem manutenção e eu assumi esse software. Passei a dar manutenção e acabei desenvolvendo um novo, porque começou a ficar muito complicado usar esse software, não atendia mais. Aí eu fiz uma proposta de desenvolver um novo. Foi desenvolvido e ficou muito bom, ficou muito interessante, tanto que ele foi utilizado por 20 anos na empresa. Eu montei, ele entrou em operação em 78, 79 e foi até 2000. Em 2000, inclusive, eu fui convidado pela empresa pra desligar, quando ele foi convertido pelo Oracle. Todos os dados que estavam nele foram transferidos para o Oracle e eles me convidaram pra fazer isso, mas esse desenvolvimento me chamou muito a atenção. Na época, eu queria ter um parceiro que visse que o software era uma coisa genérica, não era uma coisa só pra empresa onde eu trabalhava, ele era um software que poderia atender muitas empresas e que poderia ser vendido, mas as empresas daquela época eram muito fechadas, introspectivas, viviam para elas mesmas, achavam que as empresas não eram do mercado, que eram dela. Por exemplo, a empresa em que eu trabalhava fazia auto-peças, então só tinha que fazer auto-peças, não tinha que se meter a desenvolver software ou coisa do tipo. Até houve um problema porque a própria IBM, que é fornecedora de um software desse tipo, na época criticou muito a diretoria da empresa em deixar que se fizesse um software desse tipo dentro da empresa, porque não daria manutenção etc. Mas a minha intenção foi das melhores. Foi atender um problema momentâneo e depois surgiu a idéia até de comercializar isso. Não foi visto como tal, quer dizer, ninguém achou que aquilo era comercializável. Isso era lá pra 80, 80 e pouco. Em 82, 83, eu comecei a receber muito material dos Estados Unidos falando da evolução dos computadores e no Brasil nada; todo mundo estava parado ainda no mainframe, ninguém usava o PC, que era o Personal Computer. Se ouvia falar e a própria IBM falava que aquilo era um motim; usar o PC era um motim. Eu achava que aquilo não era um motim, achava que era o que vinha mesmo e não ia ter jeito. O meu antigo gerente lá da Clark, ele saiu em 83, e achou que seria interessante... Me convidou pra montar... Quando nós começamos a pensar seriamente em montar uma empresa, montamos a Elo Informática e adquirimos o nosso primeiro computador. A empresa surgiu meio que tirada a fórceps... Não havia um investimento, não conhecia, era muito novo e em 83 eu resolvi assumir e nós montamos a Elo. Ficamos com a Elo por 20 anos até 2003, até nos juntarmos com a Kaisen, pra formar a Elo-Kaisen. No começo foi muito difícil porque era uma área nova, era caro. No nosso primeiro computador pagamos 4 mil dólares financiado. Era muito caro até pra vender a idéia pras empresas de que aquilo funcionava. Também os recursos eram precários, as linguagens de programação não eram produtivas, demorava-se muito pra desenvolver alguma coisa e chegava até a desanimar um pouco. De 83 a 87, nós passamos basicamente em incubação, vamos dizer assim, tentando algumas coisas, tentando ver como a empresa poderia se sair bem com isso. Eu, nessa época, trabalhava na Clark; eu só saí de lá em 87 quando eu senti que eu poderia assumir a empresa. Foram quatro anos pra tomar essa decisão. Nesses quatro anos a gente fez algum trabalho pra área de controle de rota de ônibus na cidade de Campinas. Fizemos um trabalho pra uma loja de distribuição de produtos de armarinhos em geral, roteiros de entrega, fizemos um trabalho também pra uma empresa que distribuía chocolate, porque o grande problema era o quê? Era fazer justamente o roteiro de entrega, que ele tinha que fazer na mão, então era difícil, e a gente através dos mecanismos de informática conseguiu organizar muito bem. Por exemplo, a distribuição: “Ah, como o motorista vai entregar melhor?” Eram dezenas de bares e restaurantes que o cara ia entregar o chocolate, então tinha que ter uma maneira de organizar a carga e fazer um roteiro pra entrega. Isso começou a fazer um certo sucesso. O pessoal começou a acreditar mais e começamos a entregar alguns sistemas nessa área. Cheguei a trabalhar pra algumas empresas de construção civil, alguma coisa na área de controle de condomínio, controle de gastos de construção, etc, mas muito precário, tudo muito simples e começou a ficar muito bom a partir de 87, porque aí o PC já era conhecido de todas as empresas. As empresas queriam e daí havia um problema, não tinha pessoal pra usar. Então, arrumamos outro nicho no mercado, eu montei alguns cursos, tanto de programação como de uso de ferramentas já prontas, tipo, planilha de cálculo ou processadores de texto. Foi uma fase muito produtiva, muito interessante pra empresa, nós treinamos muita gente. Eu fiquei na Embraer durante seis meses treinando o pessoal. Treinei mais de 300 pessoas na Embraer. Fomos pra 3M - aí com mais gente, eu e mais pessoas - treinamos cerca de umas 400 a 500 pessoas na 3M, na Bosch, a própria IBM veio contratar a gente pra treinamento. A IBM ficou fechada no mainframe, não viu, não entendeu que o PC ia ser um produto que ia explodir no mercado. Então, o pessoal não tinha treinamento nessa área e nós colaboramos com a IBM. A Unicamp também fez treinamento com a gente e muitas outras empresas da região. Nós atendemos mais de 20 ou 30 empresas da região. O comércio demorou um pouco pra entrar nesse esquema porque ainda era caro e o comércio como sempre trabalhou com margens muito pequenas, ele demorou um pouco. A partir de 88, 89 começou. Eu comecei a atender mais o pessoal de lojas e tem até um grande amigo, lá em Valinhos, que tem o sistema até hoje rodando e que atende a loja dele, que é uma loja de armarinhos, roupas e esses produtos de material de embelezamento. Foi uma fase que houve um incentivo do governo pra treinamento na área de informática e que durou até 90 e pouco, até o Collor assumir. Quando o Collor assumiu foi uma tristeza; eu me lembro perfeitamente. Nós estávamos em março e já estávamos com a carteira completa até novembro pra dar treinamento, quando a Zélia Cardoso anunciou o plano, aquele plano do congelamento. Ficamos dois dias atendendo telefonemas de cancelamento dos contratos. Não foi uma época tão ruim porque a gente atendia prefeituras e prefeituras continuaram. Nós fizemos um trabalho muito grande na prefeitura de Jundiaí, mas no comércio e na indústria, nós ficamos praticamente durante um ano alijados do processo. Depois voltou naturalmente e voltamos a trabalhar bastante. A gente começou a ficar mais ambicioso a partir de 93, 94. Nós fizemos um projeto muito interessante, em 88, pra uma montadora multinacional. Ele acabou sendo visto pelas filiais fora do país e levaram o produto, acharam interessante, só que ficou velho porque na informática tudo fica velho muito rápido. Naquela época levava quatro ou cinco anos pra ficar velho; hoje leva seis meses. Mas quando foi 93, 94 eu senti uma crítica muito grande ao produto que a gente tinha colocado. Aí eu fiz um proposta, eu me antecipei ouvindo essas críticas e escrevi uma carta pro presidente da empresa fazendo uma proposta. Na verdade, eram três alternativas: eu forneci uma de radicalmente mudar tudo; outra, de dar uma pincelada; e outra de dar uma melhoradinha. Aí eles acharam interessante e pediram pro diretor da América Latina, de área de informática, vir conversar comigo para saber o que eu estava pensando exatamente. Porque até então, nós não tínhamos Windows rodando a pleno vapor; o Windows estava começando, em 91, 92 foram as primeiras versões de Windows no Brasil e tudo era no antigo e velho DOS, muito limitado com relação a imagens, com a interface gráfica. Já em 94, então, com essa proposta, eles acharam muito interessante e nos deram uma conta muito boa. Pediram pra remodelar o software completamente. Fizemos um fórum onde foram convidadas todas as empresas do grupo. Veio gente do México, do Chile, da Argentina, dos Estados Unidos, da Malásia. Antes de eles virem, na verdade, eu elaborei um projeto de como seria o sistema novo, abrangendo todas as áreas, desde vendas passando por faturamento, compras, estoque, produção. Fizemos o seminário onde todo mundo avaliou o projeto e cada um deu os seus palpites. Alguns foram introduzidos e outros descartados. Aí saiu um projeto final. Ficamos durante um ano, um ano e meio desenvolvendo e em 96 começamos a entregar. No Brasil foi instalado em 18 fábricas desde Porto Alegre até Belém do Pará. Nós viajamos muito, fomos pra Malásia, pros Estados Unidos, fomos para o México, Chile instalando esse sistema e ele foi interessante porque foi desenhado pra indústria.

PRODUTO
Esse software foi desenhado para a indústria, porque havia um conceito naquele momento, em 95, 96, que o bom era ter pequenas indústrias espalhadas, então, teria um grande centro de distribuição, que seria o estoque e pequenas indústrias num local onde seriam vendidos esses produtos fabricados; basicamente, eram persianas e cortinas. Só que o software ficou interessante e acabou entrando no comércio, de certa forma, porque as lojas que revendiam esse material feito pela indústria eram muito ligadas à indústria e ao consumidor. Nós acabamos fazendo alguns módulos do programa para instalar nessas lojas que atendiam o consumidor. Era muito interessante, esse sistema, ele era bem inovador, porque ele conhecia o produto, não era um sistema de informática, era um sistema que conhecia o produto, então, na hora que você ia vender ele já tinha todos os conceitos do produto lá dentro do sistema. Por exemplo, uma cortina assim ou assado, pode vender, daquele outro jeito, ou que não existe como fabricar uma cortina de tal tamanho, ou, coisa do tipo. Então o programa conhecia bem o produto e fez muito sucesso porque chegava na empresa, na indústria, já tudo certinho para fabricar. Eram produtos por encomenda. A velocidade de atendimento ficou muito grande. Então, o cliente pedia e em dois dias ele já tinha o resultado na casa dele. Ficou muito interessante e funciona muito bem. Começamos a usar a Internet, nessa época, então, os próprios vendedores sabiam como estava o produto dele dentro da indústria. Através da Internet ele acessava: “Eu mandei um pedido aí pela Internet, como é que está?” “Ah, está em produção.” Ou: “Ah, esse produto usa matéria importada, está com falta no material. Está chegando. Vai chegar daqui tanto tempo.” Então, nem telefone eles usavam mais, acessavam a Internet e tinha o status, a situação dos pedidos e também a situação financeira de cada representante, de cada vendedor. O comércio nem sempre foi muito forte para nós. Acabamos desenvolvendo alguma coisa na área de distribuição de medicamentos. Tivemos um software, por exemplo, quando surgiu o atendimento telemarketing para entrega de medicamentos em casa. Nós pusemos um sistema que funcionou aqui em Campinas e chegou ser a ser utilizado também em São José dos Campos. Tínhamos seis ou sete atendentes. Hoje ela digita, já é mais fácil, mas na época, ela via pelo bina o número e o colocava no sistema. Ela digitava e já aparecia o nome de quem estava ligando: “Ah é a senhora tal?” “Ah, sim.” E já aparecia o que ela tinha comprado da última vez, porque esse sistema de atendimento de entrega de medicamento em casa é cíclico. As pessoas, todo mês precisam comprar o medicamento. Então a pessoa já sabia o que tinha sido comprado o mês passado: “Ah, a senhora está precisando do medicamento tal? Já vamos entregar.” Então, ficou muito simples, porque era fácil o atendimento e muito ágil. Isso foi bastante produtivo nessa área de atendimento ao comércio. E hoje, ainda, nós atendemos uma loja grande. Por exemplo, a Célia Magazine é nossa cliente e está na área de comércio. Atendemos também outras empresas do centro de Campinas.

FUSÃO
Em 2003, nos fundimos com a Kaizen, e aliamos um outro conceito. A consultoria ajuda muito a informática e vice-versa. A consultoria vai buscar a necessidade que o cliente tem e tem uma capacidade de abstrair essas necessidades, mais do que o pessoal de informática, porque o pessoal da informática vê a necessidade do cliente, mas ele já tenta adaptar para como ele pode fazer melhor e mais fácil. E nem sempre o caminho mais fácil é o melhor caminho e o usuário nem sempre sabe falar. Já o consultor consegue extrair isso do cliente e passa para nós. Aí fazemos a coisa melhor, fica mais com a cara do cliente, fica bem melhor.

APLICAÇÕES DE SISTEMAS NO COMÉRCIO
Sempre trabalhamos por indicação; alguém nos procura ou nos indica. Eu sempre gostei muito de desafios, nunca me preocupei com quem eu estava atendendo, eu sempre achei: “Bom, essa é uma área que eu não conheço.” Eu cheguei a desenvolver software para cálculo de mapa astral. O filho do falecido Omar Cardoso, continuou com a atividade de desenvolver mapa astral das pessoas etc. Ele nos procurou e fizemos um sistema que, baseado nas datas e local de nascimento mais outras coisas, se extraia o mapa astral da pessoa. Cheguei a desenvolver, por exemplo, para o pessoal de fazenda, um sistema que controlava inseminação artificial, através de uma árvore genealógica do animal. Eu fazia o histórico de quem eram os filhos, os pais, os avós de todos os animais da fazenda. Fazia um controle até de produtividade do próprio animal baseado na árvore genealógica dele. Qual era o casal que mais rendia leite, por exemplo. Então, eu me lembro que atendia vários segmentos. Sempre atendi lojas, inclusive, várias lojas de auto-peças. Hoje nós temos lojas de auto-peças aqui na região de Aparecidinha, que tem o nosso sistema. E já faz muito tempo. E todas as áreas, no fundo são desafiantes, porque cada uma tem a sua particularidade. E o comércio, em especial tem um problema muito sério, que é o atendimento ao cliente, então, o sistema não pode falhar nunca, porque se o cliente está no balcão e o sistema não funciona, a bronca vem com certeza. O primeiro sistema da área de comércio que eu fiz foi em 87. Acredito que era em Clipper, um sistema bem antigo. E nós fizemos um trabalho para a Picoloto, que existe até hoje. Fizemos um trabalho na área de vendas. Na época, acho que eles estavam implantando a loja lá no shopping. Fizemos um trabalho pra eles e um trabalho pra Caprioli, também. Na verdade, o primeiro trabalho mesmo, eu não me lembro o nome da empresa, era uma distribuidora de armarinhos, que era de um amigo nosso, o Clodô. Eu só me lembro o nome Clodô, ele já não trabalha mais com isso. Eu sei que ele era de Santos, mas morava em Campinas. O Clodô e o Alemão montaram uma loja de distribuição de armarinhos e fizemos um sistema para eles justamente pra controlar a logística de distribuição. Foi em 85, 86. Foi o primeiro sistema pra área de comércio. Em 83 foi quando começamos a trabalhar e a tentar vender alguma coisa. Fomos primeiro pra uma indústria e montamos alguma coisinha pra uma indústria muito pequena. Foi aqui na Vila Georgina, eu não me lembro do nome, era uma indústria pequena que trabalhava com metalurgia. Depois, nós fizemos um trabalho do roteiro dos ônibus na cidade de Campinas, mas eram uns recursos muito precários, feitos em Basic, nem era Visual Basic, era Basic, um sistema muito antigo, que não tinha recurso nenhum, era muito pobre em recursos. E funcionava pouco tempo porque era muito difícil de usar e o pessoal acabava desistindo. Mas para área de comércio esse foi o primeiro que realmente funcionou bem. Esse da logística de distribuição, que foi em 85. Aí, já com a primeira versão de Clipper, que foi a versão Summer 85. Era uma coisa muito boa, funcionava muito bem. Para dizer a verdade, foi a primeira vez que eu fiz um sistema que me agradou porque até então, no PC [Personal Computer] era muito difícil trabalhar e não saía coisa muito boa. Com essa nova linguagem, as coisas começaram a fluir e saíram muitas coisas boas. Mas essa foi a primeira da área de comércio. Depois fizemos para uma loja de Valinhos que distribuía chocolate, em 87. São alguns pontos que me chamaram a atenção, mas não tinha muita expressão. Nesse caso do chocolate teve uma boa expressão. Nós tivemos muita interação, trabalhamos muito. Trabalhamos também com aluguel de equipamentos. Em 88, 89, nós começamos a alugar e comprar equipamentos, impressoras. Começamos a comprar computadores e alugar. Quando começou o notebook, a Telesp, por exemplo, foi nossa cliente. Alugamos uns 20 equipamentos pra eles. A área de aluguel floresceu bastante, também, junto com a área de treinamento. Mas comércio nunca foi o que nos dava uma margem muito boa de lucro, a não ser que você já tenha o produto só pra instalar. Por exemplo, depois que já tinha feito um sistema pra posto de gasolina, foi instalado em vários postos a preços muito barato. Nós temos, por exemplo, um sistema de escola de inglês, que também é muito barato, mas são sistemas que não exigem muita manutenção. Nós não temos que estar perto. Instalamos deixamos o cliente usar sempre do mesmo jeito, é muito simples. Já a indústria vive em constante mutação, eles nos exigem muito. Então, chega a ser um pouco mais vantajoso trabalhar pra indústria do que para o comércio. A não ser grandes lojas, como é o caso do Célia Magazine, que hoje, eu diria é um dos nossos maiores clientes.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL
Como Valinhos é muito perto de Campinas, na época, eu fiz o colégio e estava terminando, junto, o Senai. E nessa época do Senai, eu acabei sendo a admitido como funcionário da empresa que eu trabalhava na área de manutenção elétrica. Eu gostava muito dessa área, achava muito interessante. Mas quando eu entrei na Unicamp não tive como trabalhar durante o dia, já que o curso também era durante o dia. Eu abandonei o emprego e fui pra Unicamp unicamente pra estudar. E fiquei um ano estudando e acabou o meu dinheiro. Comecei a fazer aqueles aparelhos de som para vender etc. Eu fazia sábado, domingo e rendia bem, mas não era não era suficiente. Era muito difícil você sair e vender. E também era muito precário, não era muito profissional; a pessoa pedia e você fazia. Aí quando terminei o primeiro ano na Unicamp, achei por bem voltar a trabalhar à noite. Foi então que eu consegui trabalhar, inicialmente, como digitador. Na época era cartão perfurado. Foram seis meses terríveis, é um trabalho muito ruim, eu não gostava daquilo de jeito nenhum, eu não suportei muito. Mas dentro da própria empresa houve uma oportunidade, fiz um teste e passei. Mas eu não podia assumir, porque tinha que ser durante o dia, então eles me ofereceram um outro trabalho à noite, operação de computador, um trabalho um pouco melhor do que o de digitação, só que era de madrugada, pra variar Fomos trabalhar de madrugada e estudar durante o dia. Foi bastante complicado, porque foram oito meses. Eu trabalhava da meia-noite às seis e meia da manhã e estudava das oito às seis da tarde. Então, dormia 4 horas por dia. Foram oito meses e eu falei: “Não dá. Está me atrapalhando a escola.” Então houve outra oportunidade dentro dessa mesma empresa pra fazer exatamente o que eu estava querendo que era programação de computador no horário normal da minha noite, das seis à meia-noite. Aí, foi bom. Eu estudava durante o dia na Unicamp e à tarde ia direto pra fábrica, porque tinha um analista que ficava das duas da tarde às nove da noite e eu ficava com ele das seis às nove. Foi quando eu aprendi, porque na época um passava para o outro. A Unicamp tinha cursos, mas era muito demorado. E nessa época, eu me lembro muito bem do Barros, ele era uruguaio e foi ele que me introduziu nessa área de programação. E eu me desenvolvi muito bem. Foi uma paixão à primeira vista e não larguei mais. Isso foi em 72. E comecei a trabalhar com a informática e até eu sair da Unicamp, em 76, eu fiquei à noite. Depois eu assumi durante o dia e houve a deslanchada geral. Em 83, acabei montando a minha empresa. Não teve jeito.

JUVENTUDE
Eu sempre gostei muito de viajar e sempre viajei bastante. Todo o dinheiro que eu ganhava, eu separava, comprava alguns dólares e punha debaixo do colchão. Eu tinha poupança, que era a moda da época, guardava o meu dinheiro. E um ano eu fazia uma viagem pra fora do país, o outro pra dentro do país. Eu fazia assim, quando eu tirava as minhas férias, elas eram sagradas e eram os 30 dias viajando, ou mais. Eu gostava muito de acampar, nunca fui muito ligado a luxo. Lógico que é gostoso ficar num hotel cinco estrelas, mas na época, nós púnhamos a barraca dentro do carro e íamos Brasil afora. Ou ia de moto ; cheguei a ir até o Paraguai de moto. De carro fomos até Fortaleza, Porto Alegre. E na época, a minha atual esposa, que eu conheci em 81, 82... Aliás, foi no meu aniversário... Mas antes disso, eu já viajava muito, sempre viajei. E era com colegas de Unicamp, namoradinhas e os amigos. Sempre em turma. Acampávamos muito nos arredores de Campinas. Ou quando havia férias fazíamos uma viagem pra Bahia, Belém, coisas do tipo. Sempre foi muito agitado, com certeza, mas fim-de-semana, por exemplo, sábado, domingo: “Como é que está o tempo? Está bom? Pega a moto e vamos pro Guarujá.” Era comum, não tinha preguiça. Eu encontrei a Carmem em 82 e me amarrei mesmo, não teve jeito.

NAMORO E CASAMENTO
O destino é bastante diretivo. O interessante é o seguinte, eu conhecia os irmãos mais velhos da Carmem, há muito mais tempo, sem saber que ela existia. Eu vinha de moto passear em Campinas e conhecia os irmãos de passeio de moto. E nós tínhamos um amigo em comum, que era o Márcio, que inclusive fez curso de mergulho comigo aqui no Sesc. A partir desse curso de mergulho fizemos muita amizade. Fomos pra praia várias vezes e havia um treinamento na época, que se chamava dinâmica de grupo, que era um era um treinamento muito ligado a entrosamento entre as pessoas, ao conhecimento das pessoas, relacionamento. E eu sempre achei interessante essa área e marquei o curso várias vezes, mas não conseguia vir. Marcava e na última hora aparecia alguma coisa que me tirava do caminho e eu não vinha fazer o curso, até que um dia, tive um curso marcado e o curso começava bem no dia do meu aniversário. E era aqui em Campinas, na casa de um padre. E nesse mesmo dia a Carmem, por influência do irmão, também foi fazer o curso, mas nenhum sabia do outro. E ela também já tinha hesitado várias vezes de fazer esse curso. Coincidiu e fomos juntos. Ela já namorava. Na época eu não estava namorando, mas durante o treinamento houve uma interação muito grande, entre a Carmem e eu, e me interessei muito e ela também. Mas ela namorava, então mantive certa distância. Só que dessa reunião surgiram várias outras reuniões em outros locais. E depois eu saía com ela para tomar um sorvete, um suco, uma cerveja. Isso foi em março, em junho eu estava com uma viagem marcada para Europa. Fui viajar, normal e de lá escrevi muitos cartões pra ela, comprei alguns presentes. Quando eu voltei, ela falou: “Oh, terminei com o meu namorado.” E fomos pra um barzinho que se chamava Clube da Esquina. Uma boatezinha muito gostosa. Ali começamos a namorar. Isso foi em junho de 81 ou 82. A partir daí namoramos um tempo, brigamos depois de noivos, demos um tempo, voltamos e casamos em junho de 85. Em 86 tivemos a Luana, nossa primeira filha.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL
Em 83, montei a minha empresa. Eu já conhecia a Carmem, então havia um interesse muito grande de realmente ter a minha empresa aqui em Campinas também por causa da Carmem. Mas era muito complicado, porque eu trabalhava à noite. Era um tal de trabalhar um tempo, depois ir namorar, depois no outro dia, trabalhar, porque eu trabalhava na Clark. E fim-de-semana eu trabalhava um pouco e viajava, às vezes. É até quando eu casei e ainda estava na Clark e a empresa não estava amadurecida, inclusive, eu assumi a empresa quando estava para nascer a minha segunda filha. Isso foi em abril de 87, assumi a empresa e a Lílian nasceu em junho de 87. E foi muito interessante, porque quando eu resolvi sair da empresa o pessoal ficou surpreso. A diretoria veio perguntar: “Mas por que você está saindo? Você não está contente?” Falei: “Não, pelo contrário, eu adoro.” Sempre gostei muito da empresa, tenho muitos amigos lá até hoje, mas eu falei: “É minha oportunidade, Chegou, porque pintaram alguns projetos lá na minha empresa. Não tem como eu não assumir, eu tenho que assumir a empresa.” E foi justamente o trabalho de treinamento na Embraer e alguns desenvolvimentos mais fortes, mais completos, mais integrados, que exigiam uma presença muito maior de maneira geral e alguns desenvolvimentos na área da Picoloto e pras outras lojas aí que fizemos; inclusive a Caprioli foi dessa época também. E com isso nasceu a Lílian em 87 e o Leonardo em 89. Sempre muito corrida a minha vida, mas eu gosto da correria.

FAMÍLIA
A minha esposa fez Fonoaudiologia. Quando começamos a namorar ela estava se formando nessa área. Quando nos casamos ela não trabalhava. Ela começou trabalhando num consultório lá em Sumaré. Ela atendia muito na área de fala de meninos que tinham problemas e dificuldades de falar. Ela é muito boa nisso, sempre fez isso muito bem feito e com bastante produtividade, sempre achei interessante. Só que quando ela engravidou, começou a complicar, começou a ficar difícil a viagem até Sumaré. Aí ela fechou lá e abrimos aqui em Campinas, na Rua Paula Bueno, junto com um primo dela que era pediatra. Foi até interessante, mas ela resolveu parar.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL
Eu fiz uma coisa, que eu não sei se eu devia ter feito, mas tinha que fazer uma hora, que foi levar um computador pra casa. Quando levei o computador pra casa e mostrei a ela como funcionava, ela começou a aprender e se encantou. Ela começou fazendo trabalhos. Nós fizemos muitos trabalhos e teve uma época que fomos parceiros do Magalhães Teixeira, ex-prefeito de Campinas, já falecido. Ele nem era prefeito na época, mas ele tinha o poder de juntar uma equipe, um grupo muito coeso e muito interessante. E um dos meus sócios era muito amigo dele, então, começaram a surgir alguns trabalhos, na época, a respeito de meio ambiente. Era o RIMA, o Relatório de Impacto do Meio Ambiente e o EIA, que era o Estudo de Impacto Ambiental. Algumas pessoas no grupo eram especialistas nesses assuntos. E isso gera muito texto, muita documentação, então eu falei: “Oh Carmem, você pode fazer, porque em casa dá pra fazer.” Eles traziam os manuscritos e ela transferia para o computador e montava. Então, nós montamos muitos relatórios, isso sem ela sair de casa. E ela acabou se entusiasmando muito, estudou bastante, aprendeu demais, tanto que foi uma atividade muito importante pra ela. O governo tem um programa chamado PEMAT, que é o Programa de Modernização e Atualização Tributária, um programa do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] em que eles financiam as prefeituras na compra de equipamentos de informática e de treinamento, de capacitação. Credenciamos-nos na área de capacitação. E basicamente, a Carmem dá o curso. Ela deu muitos cursos, foi pra São Roque, pra Artur Nogueira, pra São José dos Pinhais, Monte Mor. Treinamos muitas prefeituras. Aqui em Morungaba. Então ela acabou abandonando a Fonoaudiologia e entrou de cabeça na área de office, vamos falar assim, da informática, que é a parte ligada com textos, apresentação de imagens. E ela curte muito fazer, é montar esses PowerPoints, essas apresentações. Da empresa, hoje, quem faz esse trabalho é ela.

FUNCIONÁRIOS
As empresas crescem e diminuem. Inicialmente, de 83 até 87, eu não diria nem que foi uma empresa, estávamos aprendendo. Foi a maneira que eu vi pra aprender a trabalhar com essa tecnologia nova que estava chegando. Porque onde eu trabalhava só se utilizava Mainframe. E a partir de 82, comecei a receber muitas revistas, principalmente, uma revista chamada Byte, uma revista americana, trazendo muitas novidades na área e eu não via nada disso no Brasil. Falei: “Mas não é possível que não tenha nada aqui.” Porque o mercado era muito fechado. E fiquei com aquilo na cabeça, que eu tinha que ter uma forma de ter acesso a essa tecnologia. E a oportunidade aconteceu quando o Freitas, que foi o meu primeiro sócio, José de Oliveira Freitas, me convidou para montar uma empresa com ele. “Ah, vamos montar uma empresa, a gente compra um PC e vamos montar.” “Está bom.” Compramos um PC e um Apple, fizemos um financiamento, quatro mil dólares, era uma fortuna. Foi nesse momento que começamos a trabalhar. Éramos só nós dois. Ele vendia e eu produzia. Só que ele como vendedor, era péssimo; ele não vendeu quase nada, vendeu muito pouco, ele ia na confiança dos amigos e tal e fomos mais por indicação. Então fomos só nós dois durante três ou quatro anos. Em 87, o Freitas resolveu sair. Ele foi trabalhar como empregado novamente, numa na região de Piracicaba. O Arnaldo e o Fausto chegaram pra mim e falaram: “Olha, nós vamos entrar na empresa, você continua com a gente?” “Continuo.” “Está bom, então, como é a proposta?” “Ah, nós vamos arrumar trabalho e você vai fazer. O Fausto administra e o Arnaldo arruma os contatos.” “Está bom.” Aí nós começamos a crescer e começamos a contratar pessoas. Em 87 nós já tínhamos secretária, recepcionista, dois programadores e um pessoal na área de venda. Chegamos a ter no primeiro ano umas 10, 12 pessoas. A partir desse momento nós alugamos uma casa grande e montamos treinamento. Essa foi uma grande jogada, porque o treinamento é rápido, ele traz as pessoas, você treina e libera. Não é como um desenvolvimento de software, que o cara te contrata, nem sabe se você vai realmente fazer alguma coisa e você fica lá escrevendo, escrevendo e o cara não vê nada. Um dia, você chega com o sistema: “Ah, não era bem isso que eu queria.” No treinamento você faz, o cara absorve e vai embora, não tem uma manutenção. Isso foi uma grande sacada que alavancou a empresa e nos deu a oportunidade de contratar programadores, treinar gente etc. De 87 até 94, nós crescemos bastante. Chegamos a ter 60 e poucas pessoas no grupo. Dessas, tinha muita gente que não era da área de informática. Tinha pessoal da área de pesquisa, os pesquisadores de campo, porque trabalhamos muito na área de estatística. Nós fizemos trabalho, por exemplo, para prospectar se era viável ou não montar o shopping de Limeira. Nós é que fizemos a prospecção inicial, a pesquisa de viabilidade de instalação do shopping. Aqui em Campinas mesmo, várias lojas fomos nós que fizemos o levantamento, a pesquisa etc. E também esses estudos de meio ambiente, exigia pesquisadores de campo, historiadores, pessoal de geografia. Então teve gente de vários tipos na nossa empresa. Aí caiu um pouco, em 94, 95, nós fomos pra outra empresa e só ficou o pessoal que era fixo mesmo, porque nós agregamos até a parte de manutenção. Começamos a dar manutenção de equipamento. Por quê? Porque, como alugávamos o equipamento, já alugava com a manutenção embutida no preço. E começou a dar defeitos nos equipamentos, então, nós tivemos que montar uma equipe de manutenção. Essa equipe ficou conosco uns quatro anos, cinco anos. Então nós ficamos numa casa na Avenida Brasil. Aí ficou estável em mais ou menos umas 25 a 26 pessoas. E em 98, o treinamento na área de informática foi muito incentivado pelo governo. Escolas, empresas, começaram a dar esse treinamento também na base. Então, o treinamento começou a cair um pouco, porque as empresas já não davam treinamento mais, pediam pessoas treinadas. E o nosso forte era treinar nas empresas. Não percebemos muito o mercado, foi uma falha nossa. Não percebemos que o mercado deveria se dirigir pra fora das empresas. E isso diminuiu um pouco, em compensação, o software aumentou muito. Foi quando desenvolvemos aquele software pra fora do país, começamos a viajar muito e isso nos encantou. Então, o software ficou muito forte nessa época. E o que acabou acontecendo foi que pra não perder o que tínhamos já investido em treinamento, em salas, equipamentos, carteiras, quadro negro, projetores; resolvemos abrir uma escola de Inglês. Estava na moda abrir escola de inglês. Então, nós procuramos uma bandeira e adotamos o Real-Time, que teve uma iniciação muito boa, foi uma explosão. Nos três primeiros anos eles abriram cerca de 70 lojas no Brasil todo e nós tínhamos aberto três lojas de inglês. Duas em Campinas, uma no próprio local onde nós estávamos, na Avenida Brasil. Abrimos uma em Paulínia e uma outra em Campinas. A minha esposa foi gerenciar essa lá no bairro Proença, perto do bairro Ponte Preta. Nós tivemos vários problemas aí. Ao mesmo tempo em que o inglês estava aumentando bastante, em Paulínia nós tivemos um problema. Paulínia é uma cidade muito rica e a prefeitura começou a dar curso de inglês de graça. Então ninguém ia pagar na minha escola. Se bem que lá nós montamos inglês e informática. Informática ainda sobreviveu um pouco, mas o investimento que nós fizemos lá foi perdido, nós não tivemos retorno. E aqui em Campinas ainda continuou um tempo. Mas houve um problema na rede da Real-Time e os sócios da marca brigaram e dividiram. Não era uma franquia, nós pagávamos a licença. Quando eles dividiram ficou 40% de um lado e 60% de outro. Acho que isso enfraqueceu a rede e nós enfraquecemos junto. Nós tivemos problemas também, porque sempre fizemos tudo muito certinho, contratado pela CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] etc. E descobrimos que não era bem assim que funcionavam as escolas em inglês. O pessoal dava aula como bico. E para nós não, eles eram contratados, pagamos treinamento para o pessoal, pagávamos tudo pra eles. Resultou que não havia retorno, não tínhamos a informática e ficamos sustentando o inglês por muito tempo. Aí resolvemos fechar o inglês e ficar só com a informática. Demos uma boa encolhida. Quando havia o inglês foi pra 30 e poucas pessoas. Chegamos a ter 11 professores de inglês, mas quando terminou reduziu inclusive a parte de informática. Porque nós perdemos algumas contas grandes também, nós tivemos muita concorrência de empresas muito grandes que vieram de São Paulo. Nós tínhamos um trabalho dentro das empresas, inclusive, no comércio. Várias empresas tinham o nosso sistema e uma pessoa pra dar suporte. Acabou acontecendo que essas empresas vieram de São Paulo com o sistema muito mais barato que o nosso e nos fez perder várias contas. Depois tivemos de nos reposicionar no mercado. Demos uma encolhida e ficamos quietinhos no nosso canto nos arranjando. Até que apareceu o pessoal da Kaisen e nos convidou pra fazer uma sociedade. Agora estamos juntos aí. Hoje nós estamos pequenos ainda, nós estamos com 13 ou 14 pessoas trabalhando no grupo, mas hoje o esquema é diferente. Não trabalhamos mais com funcionários, são pessoas que se juntam nos projetos. Então, há momentos que estamos com 30 pessoas. São autônomos e se juntam para um projeto, fazem o projeto. Acabou, partem para outra atividade e assim vai.

COMÉRCIO DE CAMPINAS
Eu usava o ônibus desde que entrei no Senai, aos 14 anos, que era a idade mínima. Aprendi a tomar ônibus, mais ou menos, com essa idade, entre 13 e 14 anos. O Senai era em Campinas e eu vinha. Então, a minha percepção de Campinas nessa idade, com 14 anos, isso lá em 1969, 70 por aí, era interessante. Porque nós descíamos no Senai e eu almoçava no centro de Campinas, vinha a pé até aqui atrás da igreja matriz, onde era o comércio de Campinas, que se resumia a Rua Treze de Maio, Costa Aguiar. Inclusive, a maioria das lojas está lá ainda até hoje. Não havia shopping, Iguatemi, Unimart, Campinas Shopping. Não havia nada disso, o que havia era o centro de Campinas e muita gente andando a pé. Havia os carros, é claro, porque era tudo aberto, ainda não era fechada. Eu me lembro muito bem. Eu almoçava, às vezes, nas Americanas. Tinha os lanches. Tinha um restaurante, eu não me lembro o nome, que foi onde, pela primeira vez, comi carne de tubarão; não existe mais esse restaurante, era muito gostoso lá. Eu comprava muito na Treze de Maio. Comprava os meus discos, comprava tudo na Treze de Maio. Eu me apaixonei depois por uma loja da Barão de Jaraguá, porque eles tinham um aparelho, um Marantz, que foi muito famoso, um aparelho de som que era a válvula e ele resistiu anos. Ele punha o disco pra tocar e o aparelho era uma caixa enorme de som e tinha um som fantástico. Eu ficava encantado. Todo mundo trabalhando com transistor e ele a válvula, ali tocando os discos. Então, eu não me lembro o nome da loja, mas eu passei a comprar os meus discos ali, por causa do Marantz que ficava na frente da loja. Não ficava muito longe do Largo do Rosário. Mas eu ia muito mesmo ao convívio, era o lugar que eu mais ia. E eu tive um professor de artes, Bernardo Caro, que tinha uma loja na Costa Aguiar. Ele é um artista plástico, espanhol, muito famoso inclusive em Madri. Tem uma rua com o nome dele. Em São Paulo, nas faculdades Ibero, tem uma sala com as obras dele. Então eu ia visitá-lo ali na Costa Aguiar numa loja que vendia lonas. Chamava Palácio das Lonas, se não me engano e almoçava por ali. Então, as lojas que eu conhecia eram dali. Tinha o Meireles que vendia ferramentas. Eu adorava comprar ferramenta, parafuso e ia lá no Meireles. Tinha a Baby que era ali perto. Tinha um português que vendia uma azeitona fantástica lá na Costa Aguiar. Vendia no barril. Eu ficava encantado de ver aquele cheiro delicioso da azeitona no barril, ia comprar azeitona e bacalhau lá. Eu comprava muito na Ezequiel. Meu pai gostava da Ezequiel. Eu me lembro que tinha um bonequinho com chapeuzinho. Comprei o meu primeiro terno na Ezequiel. E meu primeiro relógio, acho que foi o Mappin, que tinha uma loja perto do Largo do Rosário. Você comprava um terno e ganhava um relógio, Então, na minha formatura de colégio, eu comprei meu terno no Mappin e ganhei o relógio. Havia os cinemas. Os cinemas eram muito interessantes, eu gostava muito do Cine Windsor, ficava do lado onde era o Tribunal de Justiça. Tinha o cine ali na Campos Sales, que eu não me lembro o nome, que ficou muito sem vergonha depois, passando só filmes pornôs. Tinha o Ouro Verde, um cinema enorme. Todo mundo adorava aquele cinema, também já fechou, ou seja, os cinemas mudaram muito o perfil. Eram salas grandes, hoje são salas pequenas, foram para os shoppings, não se vai mais ao centro. As lojas do centro ainda continuam, mas naquela época elas eram bem diferentes, era muito gostoso. Eu passeava muito de sábado. Todo sábado de manhã eu vinha circular pelo centro de Campinas. Havia a loja Sears, loja Regente, onde hoje é a Seller, Pernambucanas e milhares de lojas pequenas. Milhares é exagero, mas dezenas de lojas pequenas pela Costa Aguiar e pela Treze de Maio. Na minha época, o interesse era muito pela área de som, então, eu comprava muito ali na Lacerda Saraiva, que tinha uma loja que vendia transistores, resistores, capacitores, essas coisas. Eu vivia comprando ali. Em Valinhos quase não havia comércio, quando se tinha que comprar uma roupa um pouco melhor, eu vinha com o meu pai a Campinas, isso era certeza. E era na região ali da do Rosário ou no onde é hoje é o convívio, na Costa Aguiar e na Treze de Maio. Hoje nós temos vários clientes aqui em Campinas e temos clientes no Rio de Janeiro, Santa Bárbara, São Paulo, vários lugares. Em Leme acabou se tornando um pólo, por exemplo. Então nós viajamos muito para lá. Lá é basicamente indústria, porque as indústrias exigem um trabalho um pouco mais longo, porque são muitas atividades que você tem que desenvolver. No comércio não são muitas atividades, é basicamente o contato do vendedor com o consumidor, o controle do estoque e a administração geral da loja, vamos dizer assim. Então, não tem muitas atividades, mas são atividades que exigem muita atenção e, em algum alguns momentos, são até muito complicadas de serem desenvolvidas. O relacionamento com o cliente é uma coisa complicada, tem que se prestar muita atenção em como você está atendendo o cliente pra não cometer gafes. Agora a indústria é muito mais rica em processos. Ela tem a produção, que é uma coisa riquíssima, envolve desde as pequenas máquinas, a logística de distribuição, compras, o estoque. Embora eu tenha um estoque na loja, o da indústria é mais complicado, porque o da loja só tem uma fonte de saída, que é a venda, para o cliente, na fábrica o estoque tem dois clientes: a própria fábrica e a saída final para o consumidor. É interessante, porque essa história de quem indica vale muito. Em Leme começamos com um cliente, aí ele indicou para outro, que indicou para outro, e foram agregando mais empresas. Hoje temos viajado muito a Leme. Fui a Bauru outro dia, prospectar. Fomos ao Rio de Janeiro prospectar clientes, se bem que Campinas é muito rico, está valendo mais a pena ficar em Campinas. Então, hoje saímos também, porque é um jeito, também de você perceber como o mercado está fora. É importante você viajar, ir a outros centros pra saber o que acontece lá, mas é importante também você percorrer o local onde você está. Campinas é muito grande, mas também é muito visada por todo mundo, ou seja, a concorrência é grande, então, ao mesmo tempo em que você tem um mercado grande, você tem muitas empresas concorrendo com você, e o cliente não tem muita percepção de quem vai lhe atender melhor e fica meio desconfiado. Aí que entra, por exemplo, a indicação. “Olha, vai que o pessoal é bom.” E ele tende a te admitir. Mas também tem a concorrência dos outros, que também são indicados, isso é um jogo.

FIDELIDADE
Existe uma fidelidade sim e é importante manter essa fidelidade. O grande problema é que as empresas vão e voltam. Por exemplo, uma boa parte das empresas de comércio são mais voláteis. Boa parte das empresas que atendemos, já não existe hoje. Teve uma dessas distribuidoras de remédio, ela começou a crescer, cresceu bastante até, mas eu não sei se o dono da empresa vislumbra um ganho fácil e começa a fazer umas retiradas indevidas na empresa, desvia pra outros negócios, compras de imóveis etc. Muitos não são cabeça boa e começam a gastar com o que não devem. Acaba que ele sangra muito a empresa e chega um momento que ela não consegue sobreviver. Vi várias empresas sendo fechadas por causa disso e também porque o mercado muda e a pessoa não percebe. A concorrência ganha e ele não aceita que a concorrência vai derrotá-lo, continua no mesmo estilo e acaba sendo derrotado. Não tem como você falar, às vezes, até tentamos, mas a pessoa não aceita, é difícil. Mas em geral os clientes são fiéis. Desde que você os atenda e crie um relacionamento bom, eles vão com você até o fim. Mas é aquela história, você tem também, que antever o que o cliente está precisando, tentar ajudá-lo a fazer a coisa da melhor maneira. Não deixá-lo na mão. Mas de vez em quando ocorre uma falha, e isso é inevitável. Hoje, você até tem como medir essas falhas, existe uma perseguição da falha zero etc. Mas, mesmo assim, ainda existem várias falhas. Tanto de sistema, como de equipamento, como da pessoa. E você tem que atender num tempo mínimo essas falhas e resolver. Se você consegue fazer isso de tal forma que não perturbe muito o relacionamento do seu cliente com o cliente dele, não tem problema, a fidelidade continua. Mas, se houver uma percepção de que o que você está fazendo não está resolvendo muito pra ele, ele cai fora, com certeza.

IMPLEMENTAÇÃO DE SISTEMAS
Existe um período para os ajustes e ele é sempre bastante traumático, de certa forma. São vários fatores. O ajuste do software em si, que é uma adaptação para os processos do cliente, que por mais que seja muito parecido sempre têm algumas diferenças. Por exemplo, uma auto-peças trabalha de um jeito, outra auto-peças trabalha de uma maneira um pouco diferente, mesmo que o sistema seja o mesmo implantado nos dois, você tem que tem que ter um diferencial, porque um cliente trabalha de uma certa forma, o relacionamento com o cliente dele é de um jeito, o do outro é de outro. Então, não tem como você implantar e falar: “Está implantado.” Você tem que fazer uma adaptação, ver quais são os processos do cliente e isso, dependendo do cliente, é rápido, coisa de uma semana, duas você já faz. Outros, levam dois, três, quatro meses. Alguns, você não consegue nunca atender, porque o cara está sempre mexendo. Esse não tem jeito, esse você fica a vida inteira lá mexendo. E existe o treinamento das pessoas, que é muito importante. Porque dependendo do nível das pessoas que são colocadas pra trabalhar com o sistema, você as treina facilmente e elas saem rodando muito rapidamente. Eu tenho clientes que mostrei: “Nossa, como é legal, muito bom, gostei.” E já sai operando o sistema. Outras, por outro lado, não conseguem entender o que está acontecendo Vieram de outros vícios, outras formas de trabalhar e demoram muito pra se adaptar. Ficam procurando erro no sistema. E tem aquelas pessoas que em vez de colaborar, querem prejudicar. Mas não é a maioria, é a minoria. As empresas que reciclam muito, trocam muito o funcionário, fica difícil, porque pagam muito pouco, a margem delas é muito pequena, então elas ficam trocando de funcionário. E é um trabalho pra nós, por quê? Toda pessoa nova que assume nós temos que ir lá treinar. Sempre vira problema do sistema. É comum eu estar fazendo alguma manutenção e o cara, que não quer atender o cliente, diz: “Ah, estou com problema no sistema, me liga mais tarde.” Está com problema coisa nenhuma, é que virou moda falar que problema é no sistema, e aí não tem jeito. Mas eu diria que tipicamente numa loja de comércio o sistema tem que ser implantado em um mês. Um mês é para você instalar e treinar a pessoa e pra sair rodando, três meses. Pra tirar todos os pepinos, ou pelo menos deixar atendendo 90% do que a pessoa precisa. Porque um o sistema nem sempre consegue atender 100%. Há sempre uma particularidade que vai ter que fazer de uma forma diferente. O sistema não vai atender. Mas ele tem que atender pelo menos 90%. Hoje os sistemas estão ficando muito sofisticados e estão atendendo bastante; a tendência é daqui a pouco você comprar máquinas especializadas, já com o sistema pronto, que é o que está acontecendo. O celular, hoje, é uma máquina especializada, tem um programa super sofisticado dentro do celular. Eu acredito que daqui a alguns anos nós vamos comprar um computador com o software específico lá dentro. Isso vai demorar um pouco na indústria, mas no comércio já temos isso. Você compra uma padaria, por exemplo, tem duas, três dezenas de sistemas de padaria que são muito bons, que já poderiam ser incorporados na máquina e vende com a máquina. Locadora de vídeo, que são negócios muito conhecidos e sempre mais ou menos do mesmo jeito. Então, nesse caso é possível você fazer uma máquina que venha com o sistema dentro. E isso vai acontecer.

INADIMPLÊNCIA
O problema do fio de bigode é que antigamente, muito pouca coisa era escrita. Valia a conversa que se teve e o trato que se fez verbalmente. Hoje, é importante termos um contrato, ele tem que existir de todos os lados, tanto para o nosso lado como para o lado do cliente. Porque fica muito nas entrelinhas o que se vai fazer. O acontece? O sistema de informática pode ser tão sofisticado quanto se queira ou tão simples quanto se queira. Então, quando você fala: “Ah, eu quero um sistema que me ajude no balcão a vender.” Tudo bem, se tiver uma planilha de cálculo claro que está fazendo isso. Mas não é isso que a pessoa quer, o pessoal quer que faça tudo ao menor custo possível. Então, é você tem que dar os limites, porque se você não der os limites, você vai ficar trabalhando a vida inteira para o cara e não vai conseguir terminar o sistema que ele quer. Isso é um problema Então, tem que haver um contrato: “Olha, eu vou trabalhar tantas horas por mês etc. Nesse limite eu consigo te atender.” E aí, você vai melhorando para o cara. Existe um valor que é estabelecido e aí depende muito de quanto o cara te usa. Então, o valor está muito ligado ao volume de trabalho que você tem com aquele cliente. Porque, basicamente, o nosso valor é o nosso tempo, porque o software já acabou. Hoje em dia o software, praticamente tem um custo do desenvolvimento, mas depois que ele foi implantado o que vale é a manutenção, a dedicação que você vai dar para melhorar os novos apêndices que você vai colocar no software pra atender um processo novo que o cliente precisa. Enfim, o que acontece é o seguinte, você tem, normalmente, um contrato mensal de pagamento que nem sempre é respeitado, principalmente, pelo pessoal do comércio. Por quê? Boa parte do comércio é sazonal, então nós temos clientes que vendem muito de outubro a novembro, porque ele atende, principalmente, ao fim e começo do ano seguinte. Chega em abril, ele não fatura nada, aí é um horror pra nós e pra ele também, claro. Ele não consegue nos pagar, então, fica abril, maio, passa aquele inverno horroroso e não queremos nos desfazer do cliente, fica aceitando prorrogação. Mas, existe sim a inadimplência e não é pouca. E hoje parece que ficou meio institucionalizado. Antigamente, era difícil haver inadimplência, as pessoas se preocupavam com isso, hoje já não se preocupam muito. Em função de uma série de coisas que estão acontecendo. Primeiro, que as pessoas também ficaram mais permissivas: “Ok, você está me devendo? Ah, me paga o mês que vem, está tudo certo.” Antigamente era mais: “Não, você tem que me pagar, você tem que me pagar.” Hoje ficou meio que institucionalizado essa defasagem nos pagamentos. Acaba se acertando tudo um dia. Mas existe sim mais inadimplência hoje do que no começo. Por exemplo, a caderneta que eu comprava quando era menino era respeitada religiosamente. Dia primeiro você estava lá pagando a cadernetinha, somava tudo, inclusive, a confiança era muito grande, porque o cara marcava só marcava na caderneta dele. Eu não levava nada comigo, ele somava: “Ficou tanto.” Você pagava. Havia muita confiança, coisa que hoje já é mais complicado, hoje é tudo na base do carnê, tem dos dois lados. Porque você tem que ter esse respaldo, senão você não consegue administrar. Mas de fato antigamente era mais era mais fácil. Mas não sei se era mais fácil, mas pelo menos era mais respeitado o contrato verbal.

DESAFIOS
A minha formação sempre foi mais técnica, Eu sempre fui mais para o lado da Física. Eu sempre gostei muito de Matemática e tal e fui menos pelo lado da política. Quando eu digo da política, é da política de relacionamento, de conhecer as pessoas, o que ela querem dizer quando elas falam as coisas. Sempre fui mais de ciências exatas, então, se a pessoa falar assim: “Ah, eu quero um sistema que faça isso.” Eu entendo que ela quer um sistema que faça aquilo e nem sempre é só aquilo. Isso até acabou gerando alguns atritos, de vez em quando. Mas eu diria que eu tive vários desafios. Os maiores desafios foram os técnicos. Foi assumir que eu faria a coisa e ter que fazer. Eu tive uns três grandes desafios. O primeiro, nem foi para terceiros, foi quando eu fiz a sugestão de substituir o gerenciador de banco de dados que estava obsoleto por um novo que eu iria desenvolver na Clark. Foi um desafio, porque era uma responsabilidade muito grande. Naquela época havia cerca de seis mil programas de computadores que atendiam toda a administração da empresa. Havia cerca de 600 arquivos de cliente, de peças etc. Tudo amarrado e que eram usados por esses seis mil programadores. Eram umas 500 tabelas todas relacionadas. Então esse software teria que administrar essas 500 tabelas. Na verdade, ele ia se interpor entre os programas e as tabelas e sem modificação dos programas, essa era a idéia. Bom, aí o pessoal ficou em dúvida, levaram dois meses para decidir se eu faria ou não. “Bom, o que você precisa fazer?” Eu falei: “Ah, eu preciso de três meses e uma sala isolada, sem perturbação. Eu vou fazer só esse projeto.” Era um tempo exíguo para época. Enfim eles toparam. Dois meses depois me puseram numa sala e eu desenvolvi o sistema. Desenvolvi, funcionou e foi muito interessante, foi um trabalho muito bacana, porque a responsabilidade era muito grande e eu também não tinha certeza de que a coisa ia funcionar bem, não tinha a menor idéia. Quando começamos a usar, evidentemente, houve alguns problemas. Nós tivemos que resolver algumas situações de caos gerados inicialmente, mas foi rápido. Eu não me lembro exatamente, mas eu creio que em dois ou três meses depois de implantado ele já estava estável e funcionando bem. E eu vinha de um trabalho de sete ou oito meses desgastantes. Estava trabalhando muito e estava na minha época de férias, eu falei: “Eu quero férias.” Eles não queriam me dar férias. Na época não tinha celular, aí disseram: “Bom, você sai de férias, mas você tem que todo dia dar uma ligada pra empresa, saber como está.” Eu tinha escolhido ir para um lugar próximo a Parati, um lugar chamado Trindade, fui acampar. Não tinha nem casa, nem luz elétrica. Todo dia eu tinha que sair de Trindade, ir até Parati e ligava para perguntar se estava tudo em ordem pra poder voltar para as minhas férias. Mas foi interessante, foi bom, foi um desafio muito grande, eu achei interessante. Foi daí que eu tive a idéia de fazer um trabalho que apresentado no 14º Congresso de Informática que teve lá no Anhembi, em São Paulo. O desafio foi falar pra aquele monte de gente que estava lá, era muita gente. O assunto era muito interessante na época e toda a comunidade de informática queria ver isso. Na verdade é o seguinte, havia vários bancos de dados; havia o Datacom, o Órion nem tinha nascido ainda, surgiu logo depois, tinha Adabas, tinha o DB2 da IBM [International Business Machines Corporation], um monte de softwares já renomados, o próprio Total da Sincol, que foi o que eu substituí. Eram softwares caros. Para comprar a licença do software da Sincol, era 250 mil dólares e já estava barato porque ele começou com um milhão de dólares e veio caindo. A concorrência aumentou, então caiu rapidamente, como tudo na informática. Hoje você compra um notebook pelo preço que você pagava num desktop há um ano atrás e vai cair mais. Então, era um assunto muito empolgante na época, porque toda comunidade estava ávida por novas tecnologias e queria saber o que estava acontecendo: “Quem é esse louco que fez um gerenciador de banco de dados?” E encheu a sala. Era um dos auditórios lá, eu não me lembro mais, mas eu fiquei muito nervoso. Era uma palestra curta, de duas horas, não era tanta coisa, só que era muito assunto pra falar e eu tive que dividir. Acabou dando tudo certo. Eu fui as minhas expensas lá, porque o pessoal não bancou. Eu fui, porque eu já tinha assumido o compromisso. E foi muito interessante, foi até fui contatado por várias empresas, só que eu não podia vender, porque o software não era meu, era da outra empresa. Depois houve um pedido, a Prefeitura de Campinas quis usar, inclusive para desenvolver os aplicativos dela, mas logo começaram a surgir novas tecnologias. Mas pra época foi um avanço esse sistema. E ele funcionou tão bem e veio até o ano 2000. Em 2000, o diretor financeiro da Clark me chamou, falou: “Olha, eu quero que você desligue o sistema pra mim. Você vai pegar todas as tabelas que estão lá.” Porque eles tinham mudado para o Oracle. Como a Iton comprou a Clark e a Iton já tinha uma orientação, já vinha de fora com o uso dos aplicativos do Oracle e o banco de dados também era Oracle, então ele não tinha porque ficar com esse banco lá. Aí eles vieram e falaram: “Olha, sobrou alguma coisa aí da conversão.” Já estava quase tudo em Oracle, mas faltou guardar os arquivos históricos que eles queriam manter. Então, me chamaram pra desligar o sistema. Fiquei lá dois meses. Foram dois meses convertendo todas as tabelas do sistema antigo para o Oracle. Desligamos o computador e foi entregue o computador da IBM. É esse foi um grande desafio que deu muito certo, foi muito interessante, me animou bastante. Um outro projeto que foi bastante desafiador foi esse do desenvolvimento desse sistema para atender a Hunter Douglas em nível mundial. Eles queriam montar para pequenas empresas, pequenas a fábricas, vamos dizer assim, porque a fábrica vendia para os representantes, os representantes vendiam para o comércio. Não, teriam um estoque central distribuindo para todo mundo, mas esse estoque central já era administrado por outro sistema. O nosso era para essas pequenas empresas, eram empresas da ordem de 60 a 100 funcionários em que administraríamos toda a empresa, menos a parte Fiscal e a parte de Recursos Humanos. Mas a parte de vendas, de estoque, tudo seria controlado pelo sistema, a parte de produção. E havia um desafio que era o seguinte: esse sistema tinha que falar várias línguas, mas é lógico, se ele ia ser instalado nos Estados Unidos ou no México, tinha que falar inglês e espanhol. Então, antes de começar a desenvolver, houve um trabalho muito forte de engendramentro, de como seria tudo isso. Nós passamos quase oito meses só definindo o sistema e aí, montamos toda uma arquitetura. Ficou muito bacana, porque a idéia era que por terminal ele falasse a língua que o cara quisesse. Então, por exemplo, o sistema está em rede, tem um terminal aqui; lá tem um mexicano e tem um inglês aqui e cada um poderia falar com o sistema na língua que quisesse. Esse foi um desafio grande. E tinha um outro desafio ainda, que era um recurso inexistente na época, que era trabalhar com fórmulas, por exemplo, você escreve uma fórmula, uma equação qualquer no papel e resolve, por exemplo, a área da esfera vezes dois, alguma coisa assim. Você inventa uma fórmula e põe lá. E tinha que pedir para o computador desenvolver para você essa fórmula. Hoje existem ferramentas pra isso, você tem o AutoCad Fire, o APL, tem várias linguagens que fazem isso. Só que eu não poderia usar essa linguagem, tinha que usar o que foi me dado como recurso, que na época era linguagem de programação que foi estabelecida pela Hunter Douglas, o tal do Visual Basic. E ele não tinha esse recurso, então nós tivemos que desenvolver uma rotina que interpretasse fórmula pra poder trabalhar com a estrutura dos produtos. Porque parece simples fazer uma cortina, uma persiana, mas não é. Inclusive, uma persiana inclinada você tem que recolher horizontalmente até um ponto, então, você tinha que calcular; você tem que usar seno e cosseno para calcular ângulo, calcular um monte de coisa. É uma coisa complicada. Então isso foi sendo implementado na correria, porque o pessoal ficou ávido por desenvolver novos produtos e tínhamos que absorver esses produtos no sistema. Foi um desafio muito grande, trabalhamos nesse projeto mais de dois anos até ter um software com a primeira cara funcionando. E a implantação foi uma outra barreira, porque apesar de eu ter desenvolvido para trabalhar com um inglês, com um espanhol, falávamos um pouquinho de inglês, falava um pouquinho de espanhol, mas a cultura é diferente. Fomos para a Colômbia implantar o tal do sistema. Foi muito difícil até entender o que o pessoal quer falar. Foi realmente um desafio grande, porque tinha um tempo pra implantar isso tudo que tornaria viável o projeto. Então, enquanto eu fui para a Colômbia, o meu sócio foi para a Venezuela, o outro foi para o Chile e assim foi. Eu diria que foram os dois maiores desafios que enfrentamos. Todo o resto depois, como o sistema novo que temos hoje com a EloKaizen, já foi um subproduto de todo esse enfrentamento que tivemos antes. Agora ficou mais fácil, já não se reduz a um desafio, se reduz mais a um aproveitamento do conhecimento que você tem. Houve um problema sério também, em 94, 95. Havia uma versão da linguagem que a Microsoft disponibilizava, que era o VV4. Nós começamos a desenvolver e os equipamentos eram fracos, eles eram lerdos. Não tinha Pentium ainda, eram uns 486 da vida. O sistema era muito lento, o usuário falou: “Não vamos usar isso.” Então, o nosso desafio foi convencer o usuário que aquilo ia funcionar um dia, porque, inclusive, tinha um defeito muito sério no próprio VV4 que veio da Microsoft, tinham umas rotinas que simplesmente não rodavam, elas não davam o resultado esperado. Fazíamos passo a passo e funcionava tudo, na hora que mandava o usuário rodar, não funcionava. Então nós pedimos até um auxílio pra própria Microsoft, pedimos pra filial aqui de Campinas um especialista pra investigar o nosso software. Saber o que estávamos fazendo errado que não rodava, não funcionava. E era caríssimo. Aí, eu mandei um trecho do programa pra ele analisar e o cara nem apareceu. Não sei o que aconteceu, não quiseram enfrentar o problema e ficamos a mercê do cliente cobrando o prazo e nós tentando resolver e não conseguíamos. Chegamos ao ponto de querer trocar tudo: “Vamos sair da Microsoft, vamos pular pra outra tecnologia.” Mas também não deu certo. A nossa sorte foi que a própria Microsoft, acho, que reconhecendo as falhas do próprio sistema dela, lançou uma nova versão em menos de oito meses. Compramos a versão zero bala, estava saindo no mercado. Aí pegamos a versão 5, inclusive nós fomos aos Estados Unidos buscar. Nem tinha chegado ao Brasil ainda. O pessoal da Hunter mesmo comprou para nós. A conversão era instantânea. Era só sobrepor o software antigo e rodar. Funcionou tudo as mil maravilhas, foi a nossa salvação. Conseguimos implantar e mesmo assim nós tivemos um atraso razoável. Mas conseguimos implantar e a velocidade de implantação foi boa. Os sistemas ficaram mais rápidos, mesmo porque começaram a sair máquinas mais rápidas e aí obtivemos sucesso, mas foi um desafio grande. O desafio foi cumprir o que havíamos prometido. Porque não sabia onde ia chegar essa dificuldade que nós tivemos, com relação a essa versão que veio muito falha. Quando você compra um produto, você não sabe se ele tem falhas ou não. Você compra um carro e quer sair rodando com ele. Se ele tiver falhas estruturais não tem jeito.

CIDADES / CAMPINAS / SP
Falando sobre Campinas e região, hoje é a terceira praça financeira do país. O volume de dinheiro que roda em Campinas é muito grande. Ele só é sobreposto pelo Rio de Janeiro e, em primeiro lugar, por São Paulo. Então, é por isso que tem uma grande concentração de empresas e de pessoal de alto ganho na Região Metropolitana de Campinas. Nós temos aqui empresas de porte elevado tipo Petrobras, as auto-peças, temos a Honda. Mas demorou um pouco pra chegar até aqui uma empresa de automóvel. É uma região altamente desenvolvida com muito boas universidades, a Unicamp, a PUC e agora as outras, Unip, FAC, Facamp, Policamp, um monte de universidades. Todo mundo vem pra Campinas. O comércio é muito forte. A impressão que eu tenho é que nós vamos nos transformar em São Paulo muito rapidamente, haja visto o trânsito. Antigamente, eu levava cinco minutos pra chegar no meu trabalho; hoje, eu já estou levando quase 40 minutos dependendo do horário. Então, o crescimento de Campinas é muito forte e tem um poder aquisitivo muito bom. Acho que é um grande centro, onde o comércio tem grandes possibilidades e um comércio de uma clientela exigente. Vou falar pelos bares, o campineiro não é fiel ao bar. Quando eu falo de dessa fidelidade, eu estou falando de novidades. O campineiro gosta muito de novidades. Então, por exemplo, se você monta um barzinho diferente no primeiro instante lota, depois já diminui até o cara fechar. É a mesma coisa com restaurante. A não ser alguns casos já consagrados. Você tem ali no Cambuí, no centro da cidade alguns casos muito consagrados de bares muito antigos, lojas muito antigas que sobrevivem. Pode montar o que for, o cara está lá, ele tem a sua clientela fiel. Mas não é o padrão, eu acho que o padrão é essa novidade chegando, os shoppings, essas coisas todas. E vejo Campinas com muito bons olhos. Eu acho uma cidade muito organizada, muito limpa, apesar de ter aumentado muito a criminalidade. Eu até passei por isso, inclusive, já tive uma experiência muito ruim há uns tempos atrás, mas é um mal de cidade grande. Ao mesmo tempo ela é uma cidade gostosa, uma cidade que tem muito recurso, uma cidade em que você tem muita oportunidade. Tem que procurar bastante, mas você acha muita oportunidade e depende muito da criatividade. Então, se você tiver criatividade, um pouco de dinheiro, você consegue fazer bons negócios em Campinas. Essa é a visão que eu tenho. E não só Campinas, eu digo a região, porque hoje o campineiro quer sair da cidade, então os restaurantes, as boates têm grandes oportunidades nas cidades da região. O comércio de venda não. Esse você tem que ficar em Campinas. Os shoppings, o centro. É interessante aquele centro de Campinas, eu acho muito saudável aquelas ruas ali, a Costa Aguiar e a Treze de Maio. Gosto de andar lá, eu acho muito bonito o pessoal circulando e comprando. E se vende muito ali, se vende muito mesmo. E eu acho saudável, porque as pessoas, inclusive se comunicam mais, mais do que em shopping até. É mais fácil você conversar com as pessoas, embora, claro, não desprezo o shopping. Você acaba pesquisando muito os preços na Treze de Maio e na Costa Aguiar e acaba comprando lá, porque nos shoppings é mais caro. Mas, às vezes, marca você tem que procurar nos shoppings.

MEMÓRIAS DO COMÉRCIO DE CAMPINAS
Eu tenho tudo para elogiar. Acho que é uma coisa muito interessante e importante para a cultura não só da nossa região. É uma preservação da história. Nós fazemos parte da história e as pessoas não podem simplesmente passar por aqui e ir embora, serem esquecidas; eu acho que todos temos uma participaçãozinha. Todos contribuem para a evolução. Os tempos mudam, é claro. As pessoas também vão mudando junto, mas é importante você saber como foram os seus antecedentes, eu acho que isso engrandece muito. Você me perguntou hoje, quem são seus ascendentes? Itália, Portugal, Alemanha, Espanha. Hoje, meus filhos são puramente brasileiros. E eu acho que isso só engrandece, quer dizer, você vai transformar o Brasil numa nação de primeiro mundo na hora que todos forem conscientes do papel que eles têm na sociedade para isso. Eu acho que o mais importante de tudo é a educação. A educação se faz com as próprias pessoas, com a história que elas montaram, com a história que elas criaram. Eu tenho vergonha, hoje, do que acontece em Brasília, por exemplo. Tenho vergonha de falar do Senado ou da Câmara dos Deputados, mas tenho orgulho de falar do que se construiu. Campinas constrói na área de indústria e comércio. A população se desenvolveu. O que importa é a educação que o povo tem e o que as pessoas agregam a sociedade, a honestidade, o conhecimento. Divulgar isso é que precisa ser feito. Então, isso que vocês estão fazendo, eu acho um trabalho de extrema importância, porque tem que fazer parte do acervo, da história nacional. Vocês entrevistaram outras pessoas que devem ter, com certeza, trazido muitas informações importantes, e eu tenho orgulho de estar aqui podendo prestar um pouquinho de informação pra vocês. Dou todo o meu maior apoio, eu acho que vocês estão absolutamente corretos nessa proposta.

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