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"Comecei a entender a minha capacidade"

História de: Maria Jucá dos Santos Jucá
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/06/2007

Sinopse

Maria Jucá trabalhava com os pais na lavoura e gostava de ouvir Luiz Gonzaga. Não sobrava muito tempo para brincar ou estudar. Aos quinze, se casou e teve de sofrer com a violência do marido. Ao conhecer uma associação de mulheres local, descobriu seus direitos e sua capacidade e se engajou no Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Sertão Central. 

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História completa

 

P/1 - Nós estamos aqui com Maria Jucá dos Santos Jucá, do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Sertão Central. Vamos começar, Maria? Diga seu nome, data e local de nascimento, nome de seu pai e de sua mãe.

 

R - Eu sou Maria Jucá dos Santos Jucá, conhecida por Maria Jucá. A data do meu nascimento é dez de outubro de 1947.

 

P/1 - Onde você nasceu?

 

R - Nasci em Sítio Olho D'Água de Dentro, distrito de Jericó, Triunfo, Pernambuco, Brasil.

 

P/1 - Qual o nome do seu pai, da sua mãe e dos seus avós?

 

R - Meu pai é Eliseu Benedito dos Santos, minha mãe Margarida Lopes dos Santos. Meus avós maternos: José Lopes de Oliveira e Doroteia Maria da Conceição. Meus avós paternos: Benedito Rosa da Silva e Isabel Pereira Paz.

 

P/1 - Vamos começar pela família de sua mãe. O que você sabe sobre a origem da família de sua mãe? 

 

R - Da minha mãe, eu sei que eles são uma família de índios. A minha avó era sempre magrinha, cabelo liso, mas meu avô tinha semblante de índio. Ele era claro, com o olho claro também, mas tinha semblante de índio - a boca grande, a maçã do rosto bem alta. Era uma pessoa muito brincalhona. Onde ele estivesse, ninguém tinha tristeza. Já a minha avó era uma pessoa meio diferente, era estúpida. Ele falava: “Eu amansei muito boi bravo, mas nunca consegui amansar a Bela.” Era Doroteia, mas a gente chamava de Bela.

 

P/1 - E eles vinham de onde, você sabe de que região?

 

R - Minha avó era da Salgada e o meu avô era da Paraíba.

 

P/1 - E a Salgada é onde?

 

R - A Salgada é extremando com a Paraíba, perto de Santa Cruz da Baixa Verde.

 

P/1 - Essa era a família da sua mãe?

 

R - Da minha mãe.

 

P/1 - E do seu pai?

 

R - Do meu pai, eu sei que a minha avó era do Caldeirão dos Barros, na Paraíba também. Meu avô também paraibano, porque Jericó fica muito perto da Paraíba e a origem do povo de lá quase todo é da Paraíba.

 

P/1 - E o que você sabe do dia a dia dos seus avós?

 

R - Os meus avós paternos ou maternos?

 

P/1 - Do que você se lembra e do que você queira falar, um dos dois.

 

R - Os paternos eu sei que era um pessoal muito rígido, tinha uma tradição de muito respeito. Eu lembro que a minha avó contava que a avó dela não foi morta porque entrou debaixo de uma cama. Ela ficou viúva, arrumou um caso com uma pessoa e queriam matar. Era assim, uma tradição muito forte: casou, tinha que viver, respeitar o marido, senão morria. Era uma coisa muito forte.

 

P/1 - É o que você mais se lembra?

 

R - É o que mais me lembro. E minha avó, eu lembro, ela tinha o cabelo grande, tinha boca grande, o nariz comprido. Acho que ela também tinha alguma mistura com índio. Era muito rezadeira, muito religiosa, tinha muita fé.

 

P/1 - Sabia muita oração.

 

R - Sabia muita oração e, para mim, foi tudo. Até dez anos eu morei perto dela; ela gostava muito de mim, muito. Também, eu fazia as vezes de homem, não tinha serviço que eu torcesse para não fazer. E eu gostava muito da minha avó, muito mesmo, da avó paterna.

 

P/1 - Você sabe como é que foi o nascimento e a infância da sua mãe?  Ela contou alguma coisa?

 

R - Contou. A minha mãe nasceu no Saco do Romão, no Distrito de Flores. Ela tinha uma voz muito fina e deixou de morar no Saco do Romão porque tinha gente que se irritava com a voz dela. E ela tinha um problema de muita ferida na cabeça. Acho que era uma coisa hereditária, naquele tempo ninguém descobria. Hoje dizem que é sífilis quando nasce assim, mas naquele tempo ninguém sabia e tratava com remédio caseiro. E ela foi uma pessoa muito trabalhadora. 

A minha avó materna, que era a mãe dela, ia para a roça trabalhar. Os irmãos ficavam em casa e se aquele irmão fizesse um mal-feito, fizesse uma coisa errada, ele apanhava e os outros iam chegando e apanhando. A minha avó pegava um por um e dava uma surra em cada um. Dizia: “Pra não rir dos outros." 

Eu achava isso esquisito demais. Minha mãe queria seguir o mesmo regime, eu achei muito esquisito. Eu achava muito amarga a minha avó materna.

 

P/1 - E sua mãe?

 

R - A minha mãe seguia o mesmo regime, queria criar a gente do mesmo jeito e criou. A gente apanhava. Eu era a mais velha e sofri mais do que todo mundo;  ninguém podia fazer errado porque eu é que pagava primeiro, era a primeira que era pega. Ela dava uma surra e depois batia nos outros. 

Eu achava isso erradíssimo, achava uma injustiça maior da vida. Eu chorava muito de amargura, porque eu apanhava sem merecer. Eu cuidava de tudo na casa, cuidava das crianças e ainda apanhava sem merecer. 

Eu tenho saudade da minha infância... Por quê? Das minhas bonecas e outras coisas assim, eu gostava muito de andar a cavalo. Eu tenho saudade, mas não queria voltar a ser criança para passar aquelas coisas que eu passei.

 

P/1 - E pelo lado do seu pai? Como era a vida da sua avó paterna?

 

R - A minha avó era uma pessoa de um coração muito bom. Ela era meiga, muito carinhosa, e sei que meu avô era muito namorador. Ela teve algumas coisas na vida dela que marcou, que ela contava pra gente. Uma vez, ele arrumou uma mulher bem pertinho de casa, fez uma palhocinha e colocou a mulher lá. A minha avó ficou sem falar com ele. Um dia, ela estava com dor de dente e ele colocou a mulher para dormir na rede em casa, com ele. 

Minha avó se levantou, olhou, viu a rede muito larga e até a dor de dente passou, mas ela se controlou. Eu acho a minha avó controlada, meu pai é muito controlado também. São umas feras quando estão com raiva, mas ela se controlou até o dia amanhecer. A dor de dente parou, não sentiu mais nada naquela noite, nem dormiu. 

Quando o dia amanheceu ela, calada, foi lá. Foi lá e disse à mulher: "Vai embora, tire suas coisas. Vai embora hoje, agora, porque à tarde eu venho aqui botar fogo nessa palhoça." E a mulher foi embora. 

Ela não brigou com ele, não teve discussão com ele, mas ficou muito tempo intrigado e, às vezes, ele mandava dizer para a minha tia mais velha: "Vá perguntar à princesa se eu já posso dormir com ela," A menina chegava, perguntava e ela: "Não." Era muito opiniosa, não tinha medo de nada. Com homem ela brigava, tinha isso não, tinha medo não. Pra falar a verdade, nunca teve mesmo. 

Era uma pessoa muito meiga, mas muito de falar a verdade. Nas horas precisas, ela falava a verdade e não tinha medo de nada.

 

P/1 - E você sabe sobre o nascimento e a infância do seu pai?

 

R - O meu pai nasceu no Sítio Olho D'Água de Dentro também. Ficou sem pai com dez anos e tomou conta da minha avó e de um filho da minha tia; a minha tia morreu muito nova, e esse filho dela chama-se Expedito. Eu lembro que quando nasci, ele estava morando dentro da casa do meu pai. O meu pai ficou morando com a minha avó até casar e quando eu nasci me lembro desse primo - eu chamei de primo-irmão, porque foi o meu pai que o criou. Com doze anos, ele já colocou numa roça, trabalhou desde esse tempo até a velhice. Agora que tem 89 anos, ainda pega a enxada e trabalha.

 

P/1 - O seu pai?

 

R - É. Meu pai.

 

P/1 - E você sabe como é que seus pais se conheceram?

 

R - Meus pais se conheceram na feira do Distrito de Jericó. Minha mãe morava no Espírito Santo e o meu pai morava no Sítio Olho D'Água. Eles iam para a feira de Jericó, tinha uma feira antigamente e eles iam para a feira. A minha mãe vivia de vender banana, porque o meu sítio no brejo dá muita banana, caju, laranja, essas coisas. Ela ia vender fruta e o meu pai ia, porque homem sempre vai procurar namorar mesmo; ele se encontrou com a minha mãe e também deu um casamento – se conheceram, se gostaram e se casaram... E até hoje dura.

P/1 - E o que eles contam sobre o seu nascimento? Você nasceu em casa, de parto normal, como foi?

 

R - Eu nasci em casa, de parto normal. Eu nasci num domingo de manhã, entre cinco, seis horas - não tinha relógio naquela época, mas tinha cálculo na cabeça do pessoal. O relógio era a cabeça.

 

P/1 - Cinco, seis horas da manhã?

 

R - Entre cinco, seis horas da manhã, eu nasci. Nasci em casa. A minha avó foi a parteira que me pegou, como o povo falava, né? Eu nasci de parto normal. 

Nasci muito pequena. Meu pai me colocava na mão e o povo, quando vinha me visitar, falava: "Essa aí não dura oito dias, parece uma boneca." Cabia na mão do meu pai, era uma coisinha muito pequena. Até hoje eu não cresci, acho, porque eu nasci muito pequena.

 

P/1 - Onde você passou a sua infância, Maria, como era esse lugar?

 

R - Pedaço da minha infância eu passei no Sítio Olho D'Água, onde eu nasci. Até os dez anos, eu fiquei lá. Era um lugar muito cheio de altos e baixos. No baixo, a gente tinha o riacho e esse riacho era onde a gente lavava roupa, tomava banho, dava banho nas crianças, nos meus irmãos. E eu lembro da casa: era uma casa de taipa mesmo, daquelas casas antigas que hoje ninguém mora mais – tinha o barbeiro. Eu lembro que a minha porta era fechada para o sul, a porta da sala; a porta da cozinha era virada para o norte. Tinha uma janela de um lado, o sul mesmo. Tinha um quarto, a cozinha, depois foi feita outra cozinha e a sala, [em] que eu dormia de rede. Tinha uns bancos - a gente, às vezes, dormia no banco para depois ser colocada lá na rede. E a gente tinha uma cerca de pedra na frente, [em] que a gente avistava a vila de Jericó. 

Um som que naquele tempo chamava difusora, e a gente ouvia as músicas do Luiz Gonzaga. Dormia em cima da cerca ouvindo as músicas do Luiz Gonzaga, porque achava muito bonito.

P/1 - Você se lembra de algumas das músicas que você...

 

R - Lembro de Asa Branca, Cheiro de Xandu [Xanduzinha] e outras. Todas as músicas de Luiz Gonzaga daquela época, as mais velhas, eram tocadas. A gente ouvia, chegava até a dormir.

 

P/1 - Você teve irmão, Maria?

 

R - Tive treze irmãos.

 

P/1 - Você se lembra do nome deles?

 

R - Lembro: Júlio, Auzenir, Francisco, Floriso, José, Sinésio, Joaquim, Paulo... Quantos? Vamos olhar?

 

P/1 - Oito.

 

R - Luiz, Luiza, Francisca, Nazaré, Marcos.

 

P/1 - Dez.

 

R - Ainda faltam quatro. Minha mãe teve dois abortos e esse não tem nome, são doze. Estão faltando dois: eu e o outro. Está faltando um que eu não estou lembrando o nome agora, só sei que foram treze irmãos.

 

P/1 - E como era a rotina da sua família quando vocês estavam todos em casa?

 

R - A rotina da gente?

 

P/1 - Sim.

 

R - Quando estava todo mundo em casa?

 

P/1 - Todo mundo em casa, como era a rotina da sua família?

 

R - A rotina era trabalhar.

 

P/1 - Trabalhar em quê?

 

R - Na roça. A gente começou indo para a roça. Não conhecia o que era feijão, nem milho e arrancava tudo. Quando o pai dava uma enxadinha, a gente arrancava tudo. Apanhava e ele andava com o cipó na cinta. Quando a gente arrancava tudo ele batia na gente e ensinava o que era que a gente podia arrancar, definir o mato da lavoura. E a gente fazia isso. 

Quando chegava em casa, era eu mesma, porque era a mais velha, que ia moer milho para fazer o cuscuz, a polenta - como a gente chamava, era o angu. E varrer a casa, varrer o terreiro, catar o feijão para colocar no fogo; às vezes, quando era angu, fazia e cozinhava o feijão. Não tinha arroz, não tinha o macarrão. 

A gente comia um pedacinho de carne de mês em mês, comia rapadura com cuscuz e de manhã tomava café com cuscuz. A rotina era assim. E teve um tempo que a gente passou muitas dificuldades. O meu pai sempre foi muito trabalhador, mas teve um tempo que a gente passou dificuldades. Foi nos anos de 58 a 59.

 

P/1 - O que você chama de passar dificuldades?

 

R - As secas. A gente não tinha o que comer. O feijão que tinha o meu pai plantou e perdeu e a gente ficou sem feijão. Quando fazia angu para comer puro, ninguém aguentava. A gente ficava chorando para não comer aquilo ali puro.

 

P/1 - Era ruim demais.

 

R - Era ruim demais. Não tinha sabão para lavar roupa, a gente tinha que ir lá no riacho passar água naquela roupa sem sabão. Tudo era mais difícil: a gente não tinha um rádio, a gente não sabia o que era um rádio nem uma televisão, nem nada. E a escola da gente também não era perto era longe. 

 

P/1 - E nisso todo mundo estudava?

 

R - Não.

 

P/1 - Quem estudava na sua casa?

 

R - Na minha casa, quem começou a estudar fui eu. 

Eu queria que a minha irmã estudasse. Fui na roça, colhi algodão; fui à venda, vendi, comprei material escolar para mim e para ela. Era num salão de dança perto de uma venda, pegado a uma venda. 

E eu fui estudar e, para mim, foi a melhor coisa de toda a vida. A melhor coisa que eu podia fazer na minha vida era estudar e eu não tinha como estudar, porque eu tinha que ir para roça. Eu tinha um dia ou dois para estudar; o resto era na roça, ajudando o meu pai.

 

P/1 - Como você descreve seu pai, Maria? 

 

R - A pessoa do meu pai… Ele é uma pessoa calma, se estiver sem raiva; se estiver com raiva, ele é uma pessoa muito bruta. Eu acho que é de família, é uma família que diz que não leva desaforo para casa, não quer ser desmoralizada. 

Ele mesmo era a pessoa que fazia os acordos da família inteira, porque eram todos briguento e houve até morte na família. Foi morto um irmão dele, e esse pessoal saiu do lugar porque eles - não o meu pai, mas os outros que eram violentos - se juntaram e tiraram o pessoal. O meu tio, um dos meus tios, era casado com uma das pessoas dessa família e meu tio perdeu tudo. O pessoal perdeu tudo, os terrenos todos, casa, tudo. Para não morrer, eles saíram, porque era um pessoal que perdeu o irmão e não queriam por nada que ficasse assim. 

Só que o meu pai era o homem do acordo e ele falava. Quando tinha um no meio de uma briga, ele chegava e eles atendiam, podia ser o mais velho e podia ser o mais novo. Os mais velhos atendiam ao meu pai porque ele sempre foi o homem do acordo, era quem arrumava a vida deles nas violências; era ele quem ia fazer o acordo, pedir para parar com aquelas brigas. Também os sobrinhos eram violentos e ainda hoje são, mas ele sempre foi o homem do acordo.

 

P/1 - Como é que você descreve a sua mãe?

 

R - Minha mãe é um pouco violenta, com raiva ou sem raiva. Ela bebia e era muito difícil. O meu pai nunca bebeu, mas minha mãe bebia. Começou bebendo, acho, quando foi terminar o resguardo, o primeiro resguardo, que foi quando eu nasci. Em trinta dias, tinha aquele resguardo. Tomava uma pinga para tomar um banho,  ela tomou essa pinga e aí gostou, ficou tomando pinga. 

Até pouco tempo, ela não tomava pinga, mas tomava vinho. Ainda hoje, ela toma uma cervejinha e, quando ela bebe, ela fica violenta, batendo nas coisas, brigando, sei lá. Toda vida foi assim, parece que ela tem um espírito batedor. Até um tempo desse ela falava em quebrar a minha cara. Eu saia para as reuniões e, quando eu chegava: "Eu ia quebrar a cara dela". Outro dia, ela ainda me deu um empurrão porque eu ia saindo para trabalhar e ela não queria. Eu cheguei pra lavar a mão na pia e ela me empurrou: "Sai daqui!", bem aborrecida. 

Uma vez, eu falei para ela. Ela não tem carinho, acho que ela nunca deu um beijo no meu pai. Ela disse que beijo não é coisa de gente de vergonha, acha que é uma coisa, sei lá, de gente desmoralizada. Eu chegava das reuniões, os meus filhos me abraçavam e me beijavam, e ela falava: "Eu nunca tive essas frescuras." Um dia, eu disse para ela: "Mãe, desculpe eu lhe dizer, mas a senhora foi criada por uma burra que só sabia morder e dar coice e a senhora criou a gente assim. Hoje eu sou diferente, porque eu participei da sociedade lá fora, do movimento que me ensinou." 

Eu acho que já nasci meiga. "Na hora que eu nasci eu já nasci diferente de todo mundo, principalmente da senhora." Eu acho que machucou um pouquinho, mas ela ficou calada, não me deu nenhuma resposta. E, desse tempo para cá, ela maneirou a barra, mas ainda fala em bater. Se ela pudesse, ela ainda me batia.

 

P/1 - O que você gostava mais de fazer quando você era criança, Maria? Além de gostar das músicas de Luiz Gonzaga...

 

R - Eu gostava de brincar de boneca, porque não tinha boneca. Eu vestia um sabugo e eram as minhas bonecas. E quando eu aprendi a fazer bonecas, aí era o forte. Era brincar de boneca e também quando eu estava brincando na roça. Quando eu ia para a roça tinha uma carreira de árvore, tinha um cerco e eu pulava, gostava muito de pular de um para outro. Era uma diversão tão boa pular de uma árvore para a outra! E subir em árvore era comigo mesma. Andar a cavalo, correr a cavalo. Eu era bem pequenininha, mas em cima de um cavalo parecia que eu me segurava em não sei o quê. Eu gostava de correr de cavalo, eu cuidava dos animais com muito prazer.

 

P/1 - E a escola, Maria? Você se lembra da sua primeira escola, da sua professora?

 

R - Eu me lembro. Minha primeira escola foi nessa sala onde eu fui colher o algodão que eu vendi. Era um salão de venda pegado com uma venda. E a professora era uma negra chamada Maria Diniz. A gente chamava Dona Maria, porque a gente respeitava muito. Eu gostava muito, muito dela, sempre gostei muito dela. Hoje, ela não é mais viva, mas eu tenho muitas lembranças dela, foi onde eu comecei e eu gostava. E ela me trazia em casa, enfim, [tinha] muito carinho por mim.

 

P/1 - E onde ficava esta escola?

 

R - Ficava no Sítio Riacho do Meio.

 

P/1 - Era longe?

 

R - Era um pouco longe.

 

P/1 - Quanto tempo você andava?

 

R - Eu andava uma meia hora para chegar e era subindo ladeira para chegar lá.

 

P/1 - E o dia a dia nessa escola com os seus colegas, como era?

 

R - Eu achava bom, só o que eu achava ruim era na hora... Era difícil, eu não fazia a minha tarefa. Pelo tempo que eu ia para roça, eu chegava com a minha tarefa sem terminar e tinha uma palmatória, uma coisa grande de madeira com um cabo. Era uma tábua arredondada, com um cabinho e ela dava ‘bolo’ na gente. Eu ficava irritada quando eu levava aqueles ‘bolos’ e chorava.

 

P/1 - Achava injusto?

 

R - Achava injusto. Quando acabou essa história de palmatória, eu dei graças a Deus. Se eu pudesse, eu jogava aquela palmatória no meio do mato, mas eu não tinha condições e não tinha acesso para chegar nem perto. Era dentro de uma gaveta, complicado.

 

P/1 - Tem alguma cena da sua escola que você gosta de lembrar, que você gostaria de contar?

 

R - Olha, eu gostava muito quando havia piquenique.

 

P/1 - Como eram os piqueniques?

 

R - Os piqueniques eram debaixo de uma mangueira grande. A gente ficava num lugar chamado São Benedito, que era longe também. Vinha a pé, não tinha acesso a nenhum transporte; a gente vinha de manhãzinha e voltava de tarde, e era bom. Ali a gente ficava se divertindo. Tinha alguns joguinhos, quem tinha um dinheirinho ficava jogando aquelas pescarias. Era bom demais: a gente chupava manga, era uma mangueira enorme que tinha. Eu só tinha medo do gado quando vinha.

P/1 - Quantos anos você tinha, Maria, nesse período?

 

R - Eu comecei a estudar com cinco anos. No tempo que eu comecei a trabalhar na roça, eu comecei a estudar também.

 

P/1 - Você começou a trabalhar na roça com cinco anos?

 

R - Cinco anos. Não conhecia nada. Com oito anos foi que eu me atualizei a conhecer o que era milho, feijão e limpar o mato, deixar o legume, a lavoura. 

Eu comecei assim a ir um dia, dois… Eu chorava para ir para a escola, que era pra mim era a melhor coisa que tinha na vida. Eu tinha um dia, dois para ir para à escola, mas eu ia com muito prazer, eu gostava muito de estudar e quando eu vim para desenvolver também eu já tinha uns oito anos. Do jeito que eu me desenvolvi para conhecer a lavoura na roça, foi quando eu desenvolvi para conhecer as letras. Era carta de A, B, C, depois a cartilha e era aquela coisa, meu primeiro livro. 

Eu me desenrolei mais quando tinha doze anos; fui para o colégio e fiz a primeira série B, que chamava. Aí eu desenvolvi e já fui para a terceira série.

 

P/1 - E sua juventude, Maria, como foi sua juventude?

 

R - Minha juventude foi um pouco difícil, porque eu já estava morando em Saco dos Bois, que hoje é Canaã, é o terceiro distrito de Triunfo. Lá, a gente chegou em 59 no sítio e a gente trabalhava muito, quase não estudava. Nessa época, a gente plantava cana, mandioca, milho, feijão, e foi um pouco difícil, porque eu passei por uma dificuldade que eu nunca esqueço.

 

P/1 - O que foi?

 

R - Porque veio um menino. Ele já era rapazinho, sei que ele tinha uns dezesseis, dezessete anos. Eu tinha doze anos, ele veio e disse umas piadas comigo e o meu irmão disse ao meu pai. O meu pai, naquela brutalidade, daquela tradição deles,  chegou, pegou uma faca e queria me matar. Deu uma surra, me bateu o quanto pôde porque o rapaz queria entrar dentro de casa.

 

P/1 - E o rapaz tinha dito o que, Maria?

 

R - Ele chegou dizendo que queria ficar comigo, né? Aí se apresentando, se mostrando, meu irmão viu esta cena. Todos que estavam em casa: eu, a Auzenir, o Júlio, que era o mais velho, o Zé, que era o pequeno, mas os dois irmãos mais velhos viram a cena. Eu o mandei embora, mas viu e disse ao meu pai, e o meu pai achou que eu tinha dado apoio. 

Naquele tempo não tinha essa história de dar apoio, se acontecesse uma coisa dessas era uma surra mesmo. Meu pai começou me batendo e depois pegou a faca para me matar; minha mãe tomou a faca, jogou no mato por onde ela alcançou, não sei nem onde foi que ela jogou. E minha mãe disse: "Não faça isso." 

Isso eu nunca me esqueci, porque eu não devia nada. 

Foi uma cena que marcou minha vida para sempre. Eu até disse a Roberto Martins outro dia. “Disso pode sair alguma coisa, eu posso ter alguma sequela ainda, pode sair nos filhos?" Ele disse: "Pode, pode sair." Isso foi na minha juventude e aí eu achei que pronto... Acho que o meu casamento foi sem futuro por conta disso.

 

P/1 - E qual era a diversão da sua juventude, Maria?

 

R - As diversões... Naquela época, a gente não tinha diversão. 

 

P/1 - Era onde, mesmo, que você morava?

 

R - Era já no Saco dos Bois. Naquela época, não tinha diversão nenhuma. Era tomar banho no riacho, cantar, subir nos cajueiros e cantar. 

Com todas as dificuldades que eu passei, isso marcou a minha vida, porque acabou a minha alegria. Eu fiquei muito deprimida. Estudava, trabalhava, mas eu não tinha mais nem como ter. A diversão que tinha depois foi se preparar para a primeira comunhão e eu achava que... Sei lá. Porque naquele tempo eu casei por causa de um beijo, ele nem está sabendo disso ainda.

 

P/1 - Não vai saber. E as festas na sua comunidade?

 

R - As festas eram assim. No São João...

 

P/1 - Você participava?

 

R - Não.

 

P/1 - Tinha as festas, mas você não participava.

 

R - Não participava, mas sabia que tinha o São João. Quando eu morava onde eu nasci, lá no Olho D'água, eu assistia Reisado, achava muito bonito.

 

P/1 - Você lembra como vocês se vestiam?

 

R - Eu me lembro. Era um vestidão franzido, um casaco apertado aqui, uma blusa de mangas. Era muito composto, franzido, comprido.

 

P/1 - Comprido mesmo?

 

R - Era bem comprido. Quando eu comecei a usar curto, o meu pai me achou ridícula. Quando eu comecei a pintar a unha, o meu pai achou que eu estava fazendo coisa errada, queria me dar uma surra.

 

P/1 - Ainda queria te bater.

 

R - Queria bater. Eu apanhei já com a aliança no dedo dele.

 

P/1 - E o trabalho, a rotina do trabalho na sua juventude, qual era?

 

R - Na minha juventude era na roça, estudando e cuidando dos irmãos. A gente ia para a roça com uma irmãzinha. A gente levava a garrafinha de leite dela - que não era nem mamadeira, leite com sal ou então com rapadura -, armava a rede dela de um cajueiro para o outro e trabalhava até o meio-dia. Meio-dia [ia] para casa, para fazer o almoço ou então cozinhava alguma coisa para comer.

 

P/1 - E voltava à tarde?

 

R - Voltava à tarde novamente, para trabalhar. Minha mãe esteve doente um tempo e ficou na casa da minha avó; era eu quem era a dona da casa.

 

P/1 - E as noites, Maria? Ia para a roça de manhã e à tarde. E à noite, o que você fazia?

 

R - Dormia, ia dormir.

 

P/1 - Dormia cedo.

 

R - Ia dormir. Dormia cedo, naquelas camas de vara com palha de coco. Por cima, a gente dormia e se machucava, se mexia, mas era uma tristeza.

 

P/1 - Tinha cama para todos?

 

R - Não. Só tinha uma cama, essa caminha de vara com palha de coco, e tinha a cama da minha mãe e do meu pai. Quando a minha mãe estava doente, o meu pai dormia numa rede e a gente dormia na cama deles. O colchão era de saco cheio de palha de bambu mesmo e quem não tinha cama dormia numa esteirinha no chão ou, às vezes, forrava um paninho e dormia ali. A vida era essa.

 

P/1 - Você disse que se casou por causa de um beijo, como foi isso? Como você conheceu o seu marido e por que se casou com um beijo?

 

R - Eu o conheci através de uma lavagem de roupa. Eu lavava roupa muito distante. A gente levava, talvez, quase duas horas para chegar nesse local onde se lavava roupa. Chamava-se “O Grito”.

 

P/1 - Por que era tão longe para lavar roupa?

 

R - Nesta época, a gente já tinha mudado para a casa da Carnaubinha, era mais no sítio e lá não tinha água; tinha umas cacimbas, pouquinha água salgada. A cacimba que tinha água, que a gente podia lavar roupa, também era distante; a gente achava que era melhor lavar roupa na água boa, água que descesse, que tinha em Saco dos Bois. Naquele tempo, a gente colocava a roupa e estendia para quarar. E eu ia com a minha concunhada - que não era concunhada, era vizinha da minha mãe, casada com o irmão desse que foi o meu marido. E eu comecei indo para a casa deles com essa pessoa e a gente lavava roupa, secava no lajeiro e depois voltava para casa deles, almoçava. Eu vinha para casa à tardezinha. E lá eu conheci esse moço.

 

P/1 - Qual o primeiro nome dele?

 

R - Joaquim Paulino. Ele tinha 26 anos.

 

P/1 - E você?

 

R - Eu tinha quinze, na época. Era menina, não tinha vindo nem a minha primeira menstruação. Eu comecei a lavar roupa, eu acho que não tinha quinze anos ainda. Depois ele começou assim, me olhando, e depois falou se eu queria namorá-lo. E eu pensei assim: "Eu vou pensar." 

Com oito dias, eu fui lavar roupa novamente - eu só ia lavar roupa de oito em oito dias. Fui novamente e aí ele tornou a falar: "Já pensou?" E eu disse assim: "Eu acho que vou ver, eu não sei nem namorar. Eu sou uma menina, eu nunca namorei ninguém." Às vezes, eu tinha aquele namoro só em pensamento, gostava de uma pessoa e achava que estava namorando, mas era um de lá e outro de cá, cada um no seu pensamento. 

Sei que a gente começou a namorar. No dia 25 de janeiro, começamos a namorar. Quando foi no dia dez de março ele me pediu em casamento. Meu pai deu uma bronca, disse que não ia fazer casamento de menina, que não estava doido. Eu era uma menina.

 

P/1 - Você já tinha menstruado?

 

R - Não, não tinha menstruado. O meu pai falou com ele e me chamou. A minha mãe não queria. Depois, a minha mãe era quem queria. 

O meu pai começou a presenciar as cenas dele, muito ciumento. Meu pai me chamou atenção e disse: "Você usava roupa sem manga, usava curto, usava esmalte, usava batom. Você se arrumava bem direitinho, você não está se arrumando, por quê? É ele que proibiu? Se foi, desista, que ele não presta." Disse logo assim. E a minha mãe disse: "Não, é um rapaz direito, para casar só tem ele.” E aí já queria, né? 

E eu sei que no dia primeiro de abril eu vi a minha primeira menstruação e aí fiquei animada: "Já vou casar." Ele era a pessoa que eu tinha na minha vida, não pensava em outra coisa, eu não sabia nem o que era um casamento. 

Um certo dia, ele me deu um beijo, roubou um beijo na minha testa. Ah, meu Deus, já tinha outra pessoa que tinha ido para delegacia por causa de um beijo. Disse que estava perdida, porque quem fosse beijada, naquela época, não era mais moça. Aí, pronto, eu me senti perdida. "Eu já não sou mais moça, ganhei um beijo, se o meu pai souber ele vai me matar." 

Um dia, ele disse uma brincadeira que eu não gostei e eu disse: "Tome sua aliança." Ele disse: "Não recebo e se eu receber eu vou falar com o seu pai, porque eu já lhe beijei." Sabida das cenas dos outros, das coisas que estavam acontecendo... Foram umas seis pessoas nessa época que casaram por conta de um beijo. Eu sei que assim eu fiquei me sentindo presa a ele, mas não tem mais jeito não. E ele cada dia mais exigente: parou de dançar dizendo que tinha feito promessa e não ia mais dançar e eu também tive que parar, porque ele proibiu e o meu pai perguntava sempre. "Olha, se foi ele que proibiu, desista. Você não pense que casamento você vai para o céu, não, casando." Aí eu dizia: "Ah, pai, eu vou para o céu, sim."

Depois, de aliança no dedo, a minha mãe ainda me deu umas duas surras e aí eu pensava: "Eu vou sair desse inferno". Aí tem outro pior. 

Sei que chegou o casamento. Dia dez de novembro eu me casei.

 

P/1 - E como foi esse dia?

 

R - Esse dia, para mim, foi uma coisa muito boa. Fugir com o noivo depois de casada, a noiva.

 

P/1 - Estava de traje de noiva?

 

R - De traje de noiva, com véu e grinalda, vestido branco, tudo branco, e aí eu saí rasgando o vestido. As entradas eram aquelas coisinhas estreitas, cheias de mato. Sai rasgando o vestido e fui para a casa do pai dele. O meu pai e minha mãe ficaram revoltados. Minha família inteira ficou revoltada que o povo saiu de Jericó para ir para Canaã assistir ao meu casamento e à festa.

 

P/1 - E por que eles ficaram revoltados?

 

R - Por quê? Porque eu fugi, foi uma revolta para a casa inteira.

 

P/1 - E por que você fugiu?

 

R - Ele me chamou para ir pra casa e eu disse: "Vou não. Eu vou passar oito dias em casa porque é o costume, é a tradição."

 

P/1 - Casava e ficava oito dias em casa?

 

R - Ficava oito dias em casa. Eu dizia: "Eu não vou, não.” Ele disse assim: "Se não for, eu vou arrumar outra". Aí eu pensei, "Ôxe, eu casada e ele arrumar outra? Eu vou, já estou casada mesmo...", aí tomei a decisão e fui. 

Foi intriga na família, meus pais ficaram intrigados comigo e com ele também.

 

P/1 - E onde vocês foram morar?

 

R - Na casa do sogro.

 

P/1 - Você morava na casa do seu sogro?

 

R - Eu morava na casa do meu sogro, ele não tinha casa. Era uma loucura, era um casamento de loucura. 

Fui morar na casa do meu sogro. No começo foi muito bom, mas do meio para o fim era muita coisa. Ele começou a namorar e aí o bicho pegou, porque cada um vivia uma coisa. Eu tinha uma cunhada que eu gostava muito e parecia que ela gostava de mim, mas, quando ele começou a namorar, ela dizia: "Namora, Quinca, para fazer raiva a essa amarela." E eu ficava muito deprimida com aquelas coisas. 

A minha cunhada mais velha, que ainda hoje é viva, nunca gostou de mim. Ela tinha um espírito de rico e eu era pobre, ela dizia. A mãe dele dizia a mim também: "Tanta moça bonita que ele namorou, moça rica, e casar com uma pelada dessas, que não tem nada." E aí eu ficava assim, pensando: "Um dia eu dou uma resposta. Eu vou trabalhar e vou dar uma resposta, porque eu não sou uma pelada, não." Ele não tem nada, é igual a mim; eu também não tenho e quer apurar o quê?

 

P/1 - Você queria ganhá-lo?

 

R - Queria demais da conta, para mim era o homem que existia na minha vida. Eu não sei como é que pode. Quando ele começou a me trair, para mim, foi a pior coisa do mundo. Isso marcou demais.

 

P/1 - Sofreu muito.

R - Sofri muito.

 

P/1 - Você teve filhos?

 

R -  Tive doze.

 

P/1 - Você se lembra do nascimento de seu primeiro filho?

 

R - Lembro. Foi com uma parteira, uma tia dele. 

Eu lembro que eu comecei a sentir dores numa noite e ele foi nascer na tarde do outro dia. Eu não me lembro a hora que ele nasceu porque eu desmaiei; sei que quando ele nasceu eu achava esquisito aquele menino feio, toda criança quando nasce é feia. Tinha uma pessoa que a gente queria muito bem, um velho que tinha o nome de Benedito Nazário, e diziam que meu filho parecia com ele. Ele era bem pretinho, feio; uma pessoa muito boa, mas era feio e diziam [que] o menino era a cara dele. 

 

P/1 - Por que começaram as brigas, Maria? 

 

R - Porque ele me trancava em casa e ia passear.

 

P/1 - Trancada com a criança.

 

R - Era. A criança nasceu no dia dezenove de setembro. No dia 24 de dezembro ele foi pra festa em Triunfo - tinha aquela festa tradicional, eram nove meses de novena. Ele chegou e disse uma brincadeira: "Eu sonhei que estava na festa hoje." "E mais quem?" "Sozinho". E eu "estava". Mas parece que essa palavra ofendeu tanto que ele disse que ia jogar as minhas coisas no mato fora da casa e deixou-se ir embora. 

Eu chorei a noite inteira. Ele foi para festa, chegou no outro dia; já estava namorando e eu não sabia. Ele já tinha uma filha, não sei se é mais velha do que o meu primeiro filho. Eu sei que essas coisas machucavam muito. 

Quando chegou no outro dia, o menino tinha sentido uma disenteria e estava quase morto, aí ele foi chorar. Daí por diante começou. Começou nesse momento e, pronto, acabou nunca mais. Às vezes, começava prometendo de bater e terminou batendo. Eu sei que foi muito sofrimento, a vida inteira.

 

P/1 - E como a sua rotina se transformou com a maternidade, no serviço que você fazia em casa, na roça com os próprios filhos, como foi?

 

R - No primeiro, ele ficou doente nessa época e eu tinha horas que eu não podia fazer nada, com o menino chorando, gritando com dor. Depois que eu tive todos, eu deixava em casa. Eu tinha desgosto porque, quando eu tinha um, a gente não tinha nem o direito de ter um carinho que já vinha outro, não tinha o direito de mamar. Teve deles que mamou até o outro chegar e minha rotina pesou demais, porque eu não conseguia mais dormir.

Eu tinha sono pesado porque eu era nova – a gente nova tem muito sono – e muitas vezes eu acordava com ele me dando pesada para eu levantar e cuidar dos meninos - ele não cuidava, nem balançava os meninos, tinha que ser tudo eu. Eu tinha que ir com um barrigão, com um menino no braço, fazer o mingau do menino com um fogão de lenha. Acendia o fogo e, muitas vezes, a panela virava e derramava dentro do fogo, ia acender de novo chorando. Muitas vezes, ele não pegava nem o menino que estava no meu braço. Outras vezes, ficava pelas casas das namoradas e eu sozinha que tinha que lutar com essas coisas. Isso pesou muito. 

Hoje eu estava dizendo, Deus me fez de ferro, porque eu me sinto uma heroína. Tudo o que eu passei na vida foi muito difícil, momentos bons foram poucos.

 

P/1 - Como é o nome dos seus meninos?

 

R - Antônio, Alaíde, Antônia, a Ana morreu e aí nasceu a Ana Maria, André, Eliseu, Rita, Elizabete, João e Adriano. Foram meus filhos.

 

P/1 - E você viveu toda vida com este homem, como foi?

 

R - Eu vivi 27 anos, entre separação. Quando ele estava aborrecido de mim ele dizia: "Eu vou procurar outras, eu já estou abusado de você." Ele me dava uns tapas ou me dava uma surra, me deixava em casa e me mandava ir para a casa do meu pai. Eu ia e com dois, três meses, ele ia atrás. O meu pai ficava com raiva, não era para eu voltar, mas eu pensava: "Eu tenho meus filhos. Eu vou voltar, eu vou cuidar dos meus filhos" A última separação eu passei dois anos e dois meses.

Ele me pegou com filho no colo. Eu estava amamentando o André e ele chegou. Eu fui buscar água e lá eu reclamei, chegou em casa e "Por que você estava me gritando?" Eu disse: "Porque você estava errado. E eu não gritei, eu falei." "Não faça isso não." Ele chegou, me pegou com criança e com tudo me pegou pelos cabelos e me esfregou pelo chão. 

Teve um momento que eu me revoltei e quis pegá-lo também. Ele puxou a faca e disse: "Se você tentar me judiar eu lhe mato." “Então me solte." Ele me soltou e [eu disse]: "Vamos embora. Se você tiver vergonha não dê um passo atrás de mim." Aí ele disse, "Deus lhe leve." Ficou os quatro filhos chorando: Alaíde, Antônio, que era o mais velho, a Antônia e a Ana Maria, que a gente chama de Neném. Ana Maria tinha dois anos, estava se arrastando, ainda não andava e eu fui embora com o André, porque eu não aguentava. 

Mandei chamar o meu pai e fui para outro sítio chamado São Crispim. Lá eu mandei cortar o cabelo, porque não tinha como: estava todo arrancado. Mandei cortar o cabelo para poder tomar um banho, saí descalça com o menino nu, do jeito que o menino estava, sujinho, pelado. Eu cheguei e fui amamentar. Eu saí e uma comadre minha me deu uma sandália e um pano para cobrir o menino. Mandei chamar o meu pai e disse para um vizinho: "Se ele vier aqui e me mandar para casa, diga a ele que não venha.” 

Ele chegou e ainda tentou. Eu disse: "Se for os pedaços pode levar para casa, agora eu não volto, não." Ele disse: "Você tem muitos filhos, são cinco filhos. Os filhos são sempre pela mãe. Faça isso não, volta." Eu digo: "De jeito nenhum. Quando os filhos crescerem, eu não tenho nem mais osso. Toda semana ele quebra a minha cara e arranca os meus cabelos e eu não aguento. E eu não dou motivo, se eu desse motivo... Se eu fosse uma mulher safada e vivesse o traindo, eu admitia. Se eu fizesse tudo isso, eu ficava quieta, calada, ficava morando com ele, mas eu não devo. Eu não aguento, eu vou embora." 

Fui embora para Jericó, para onde eu moro hoje. Passei três meses na casa de um primo meu, trabalhando na roça - menstruada, do jeito que estivesse, eu trabalhava das cinco da manhã às cinco da tarde. Sofri que só. 

Depois, o meu pai comprou um terreno, foi morar [nele] e eu fiquei lá. Passei dois anos e dois meses, depois voltei e arrumei mais seis filhos. Já tinha tido seis, morreu uma e eu tinha cinco, fiquei com esse e ainda falava em tomar. E eu voltei: mais seis filhos nessa segunda remessa. 

Nesses 27 anos, com separação e tudo que eu vivi com ele eu sofri muito. Hoje, graças a Deus, estou aqui inteira, mas...

 

P/1 - Um dia, você resolveu se separar de vez?

 

R - Resolvi. Depois de um certo tempo eu resolvi me separar, porque quando eu conheci os meus direitos e conheci a capacidade que eu tenho, aí eu pensei: "É agora que eu vou deixar." 

Às vezes, eu pensava: "Mas se eu deixar como é que eu vou criar esses filhos todos?" Mas eu sempre acostumei, eu sempre trabalhei na roça. Eu sempre fiz alguma coisa na minha vida para assumir meus filhos e até ele também. Ensinei Mobral um certo tempo. Eu sempre comprava a roupa dele, o calçado e a comida para ele e os filhos. E eu decidi: "Eu tenho capacidade, por que eu estou com este homem? Hoje eu vou decidir que eu vou deixar de uma vez." 

O meu filho mais novo sempre falava… Quando eu voltei dessa separação de mais de dois anos, eu falava: "Eu agora só me separo quando os meus filhos souberem  porque eu me separei", porque teve revolta dos primeiros. Quando o mais novo tinha oito anos eu disse: "É agora, me separei". Aí decidi. 

Esse homem… Muitas vezes, até os tios dele falavam: "Bota umas pontas nesse infeliz e vai embora pelo mundo. O que você está fazendo apanhando desse homem? Você não merece, você é uma pessoa direita, tem coragem de trabalhar e vivendo com esse homem bruto desse jeito. Não é gente, é um animal.”

Eu dizia a ele: "Um dia a casa cai. Você me trai, me engana há dez anos ou mais, mas um dia a casa cai." Ele dizia: "Cai nada." Ria da minha cara. 

Certo dia, ele passou um mês e oito dias fora de casa. Quando chegou com quatro quilos de feijão, eu estava criando o meu primeiro neto e ele me obrigou a criar esta neta que me ajudava. Vivia fora de casa e chegou com quatro quilos de feijão; me deu dois quilos para eu comer e passar não sei quanto tempo com aquelas crianças: meus seis filhos, minha neta e eu - oito pessoas. 

Eu chorei naquele momento, mas pensei: "Meu Deus, me ilumine. Hoje é o dia de eu fazer qualquer besteira. Hoje eu vou arrumar uma pessoa, vou ficar com uma pessoa e vou arrumar uma feira para os meus filhos, que eu não vou deixar meus filhos morrerem de fome.” Porque eu não tinha o trabalho, as costuras estavam um pouco fracas. Eu sempre costurei, mas não era todo tempo que tinha. "Hoje eu arrumo a comida dos meus filhos." Fiquei com uma pessoa, peguei dinheiro, fiz uma feira, deixei com eles e viajei. 

Quando eu voltei, estava a briga. Ele me esperando com um revólver e disse que ia me matar. A minha concunhada disse que eu não fosse, que eu fosse para casa dela e eu fui para casa. "Eu vou pra casa, seja o que Deus quiser." Eu dizia a ele: "Você sempre me enganava, mas no dia que eu fizer eu não lhe engano.” Eu disse: “Eu fiz e também não quero mais morar com você, quem vai se sentir envergonhada sou eu. Nunca mais eu moro com você, vou fazer pra você sair da minha vida." E ele não acreditava. Mas nesse dia, quando eu cheguei… Eu trabalhava na FETAPE [Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado de Pernambuco], eu era do conselho fiscal. Pensei: "Eu vou, acho que eu recebo um dinheirinho e aí eu completo a minha feira." 

Fui e aí cheguei, paguei as contas todas que estava devendo. Ele comprava e não pagava; quando pagava era com algum objeto que eu tinha dentro de casa. Já tinha ido um chão, um pedaço de terreno que eu tinha para ser paga uma conta, aí eu disse: "Pronto, agora vão as minhas máquinas e eu vou costurar em quê? Sustentar os filhos com o quê?" 

Cheguei, paguei a conta e ele no meu pé. Eu já sabia que ele estava com um revólver me procurando para me matar. Eu disse: "Se eu morrer, morro em cima da verdade. Morro satisfeita, mas vou falar a verdade." 

Ele voltou para casa comigo e aí eu disse: "Agora eu vou na casa da minha concunhada, ali na casa da comadre Iraci." Ele foi também. No meio da estrada, onde não tinha casa nenhuma, ele pegou nos meus dois braços e disse: "Olha, o que estão dizendo você diz se é verdade. Não precisa falar mais do que sim ou não." Eu falei "sim". Nessa hora, o povo… Muitas vezes, as minhas colegas… "O que aconteceu na sua vida?" "Se ele quisesse me matar ele tinha, mas eu morro em cima da verdade. Eu não o engano como ele me enganou." 

Para mim, foi a coisa pior da minha vida. E eu sei que ele se desmanchou. "Por que você fez isso? Você acha que se vingou de mim?” “Eu não lhe bati, eu não deixei você passar fome, eu não lhe explorei, eu não lhe usei sexualmente quando você não queria, como você fez comigo, que foi estupro. E eu não me vinguei não, eu fiz pra você sair da minha vida." Aí ele começou a chorar. "Mas eu ainda gosto de você, eu não dou você nos meus doze filhos." "Pois eu não dou um braço de um filho meu num cento de homem igual a você. E eu não confio mais em homem nenhum." 

E não quis mais homem nenhum na minha vida. Ainda namorei, mas querer homem para morar comigo na minha casa? De jeito nenhum. Eu sou muito amorosa aos meus filhos. Eu acho que se não fosse bater nos meus filhos eu aguentava. Ele batia e eu não gostava.

 

P/1 - Quantos anos faz que você se separou?

 

R - Isso foi em 90. Ele passou seis meses no meu pé, sem me deixar. Eu passava uma semana em Serra, outra em Mirandiba, outra em Belmonte e o povo dizendo: "Ele vai te matar." Mas graças a Deus a gente se separou. Isso foi no final de 90.

 

P/1 - Dezesseis anos...

 

R - Dezesseis anos tem agora.

 

P/1 - Maria, vamos agora falar do movimento de mulheres. Quando você começou a participar do movimento de mulheres, como você se envolveu?

 

R - A primeira vez eu fui convidada por Vanete Almeida para participar de um Primeiro de Maio. Ah, eu gostei demais. Nesse momento, eu já fui convidada para uma reunião no final do ano - uma preparação do primeiro encontro, que ia ser em novembro. Eu gostei, participei do primeiro encontro e nunca mais perdi. Só perco quando eu não estou no estado, se eu estiver fora eu perco.

 

P/1 - E por que você gosta, Maria?

 

R - Eu gosto porque foi no movimento que eu aprendi como me respeitar. Saber quais eram os meus direitos, que eu não sabia. Eu achava que era aquela tradição que os meus pais me ensinaram, que mulher tem que viver debaixo de pé de homem. Mulher era da porta do meio para lá, onde tem homem mulher não fala, foi assim que eu vivi com o meu marido. Quando ele estava negociando, até mesmo se fosse um objeto meu - no dia que ele tomou a minha aliança e foi negociar, eu saí para falar. Depois ele me bateu porque eu disse que a aliança não era dele, que ele tinha me dado. 

Quando eu comecei a entender quais eram os meus direitos. Meus deveres eu já achei - achei não, eu tive a certeza que eu cumpri os meus deveres, e eu precisava saber quais eram os meus direitos. Eu comecei a entender a capacidade que eu tenho. Quando eu entendi a minha capacidade eu fui adiante, por isso que eu me envolvi até a alma no movimento, até hoje.

 

P/1 - Em quais atividades você se envolvia no movimento?

 

R - As que eu mais me envolvi foi quando a gente começou a falar do nosso corpo, principalmente dos nossos direitos, mas do nosso corpo – como era o nosso corpo e quais eram os direitos que o homem tinha [sobre] a gente. Porque eles achavam que tinham todo o direito e que a gente era um objeto para eles usarem, e não é assim. 

Quando eu comecei [a] ver nos encontros que convidavam as médicas para vir falar do corpo da gente, aí eu me envolvi. E também quando eu vi aquelas mulheres conversando, cada uma contava uma história. Eu achava que a minha história era a pior do mundo - e foi uma das piores -, mas tinha pessoas também [com] uma história muito sofrida. As pessoas tinham como sobreviver e sair daquela história ruim. E eu fui aprendendo e fui me envolvendo.

 

P/1 - Você se lembra de um momento que você queira contar que foi importante na sua atuação? Pode ser um momento bom ou um momento ruim, uma coisa que marcou você no movimento.

 

R - O primeiro oito de Março, que foi em Belmonte. Foi uma coisa tão marcante que eu nunca esqueci. Aquelas mulheres falando. Mulher de idade que chegava, pegava o microfone e falava. Para mim, aquilo foi uma coisa muito marcante.

 

P/1 - Oito de Março.

 

R - O primeiro oito de Março e outros momentos também. Eu estava lembrando agora de um movimento que foi importante. Quando a gente também foi para Recife, aquela luta pela aposentadoria. Para mim, aquele foi um momento muito marcante. Mariana foi lá na frente e falou, quase analfabeta; Mariana falou ali de muitas coisas, principalmente cobrando a aposentadoria das mulheres, as de 55 anos. Ali foi um momento marcante, muito bom.

 

P/1 - E o que mudou na sua vida depois que você começou a participar do movimento. Maria?

 

R - Até a maneira de criar meus filhos mudou. Os mais velhos ficam falando: "Mamãe criou a gente batendo." Do jeito que a minha mãe me ensinou. Mas quando eu comecei a participar do movimento, eu aprendi que não era batendo que eu criaria meus filhos. Eu mudei totalmente até o jeito que a tarefa de homem, a tarefa de mulher era dividida, que era a tradição. Tarefa é de todo mundo. Todo mundo come, todo mundo precisa lavar o prato, todo mundo precisa lavar a roupa, passar a ferro, fazer a comida. Para mim, já mudou totalmente. 

Nem tudo o que eu aprendi… Até fazer o meu segundo grau eu não comparo ao que aprendi no movimento, porque eu aprendi muito. O jeito de ser, o jeito de receber as pessoas, respeitar as diferenças das pessoas como elas são... Isso, para mim, foi importante demais, marcou.

 

P/1 - E qual foi a trajetória até hoje, como foi esse caminho?

 

R - Esse caminho foi muito marcante porque teve altos, teve baixos. Teve rosa, teve espinho, teve choro, teve alegria, teve de tudo. Foi uma trajetória que foi assim: a gente crescendo, muito alegre, vendo o movimento crescendo. Hoje este movimento está no mundo inteiro, a gente tem a nossa história no mundo inteiro e, para mim, isso foi muito difícil. 

A gente começou assim, cada uma se esforçava por sua conta. A gente, muitas vezes, não tinha o dinheiro nem do transporte e mesmo assim... Não tinha projeto, a gente começou carregando tudo nas costas. O fardo que a gente carregava nas costas era muito pesado. Fomos arrumando projeto, as coisas, foi tudo mudando. Nossos relatórios eram umas coisinhas simples e hoje são muito ampliados, são muito bonitos; a gente tem foto, a gente tem tudo. Eu me sinto muito orgulhosa com tudo isso, porque foi um caminho muito bem andado. A gente aprendeu muito, ensinou, a gente é aluno e é professora neste movimento. Foi uma trajetória muito boa.

 

P/1 - Maria, nesse movimento você participou do sindicato?

 

R - Sim.

 

P/1 - E do que mais?

 

R - Participei do sindicato. Participei da direção da FETAPE também, participei da direção do Nordeste em nível nacional e, desse movimento, eu participei até em nível internacional. Não sei se é hora de falar isso.

 

P/1 - Pode falar.

 

R - A viagem da Bolívia. A gente passou dez dias de trabalho na Bolívia.

 

P/1 - Mas antes da Bolívia, você no sindicato você sofreu uma discriminação, um atropelo. Você quer falar?

 

R - Eu sofri no sindicato de Triunfo, quando a gente estava, eu e o marido, na chapa. Foi aquela discriminação. E ele mesmo falou: "Você fica no Conselho Fiscal, eu fico na direção efetiva."

 

P/1 - Ele que determinou?

 

R - Ele determinou. "Eu fico na efetiva e você fica no Conselho Fiscal." Na efetiva, ele ganhava o dinheiro dele e fazia o que queria. No Conselho Fiscal, eu ganhava o meu dinheiro, que dava para pagar a passagem e, muitas vezes, não dava para pagar nem o lanche. E a gente preparava tudo ali, era uma coisa muito organizada.

Eu gostei de participar. Naquele tempo, não tinha aquelas coisas que nem hoje, hoje é um apunhalando outro pelas costas. No fim, a gente era como irmã ali dentro, foi muito bom. 

Quando eu passei a morar em Serra Talhada, eu comecei a fazer um trabalho voluntário lá dentro do sindicato. Eu recebia por diária, porque lá os diretores – falando como era em Triunfo, que fazia ata do Conselho Fiscal, fazia ata do mesmo o jeito da diretoria efetiva – se interessaram a ensinar para o Conselho Fiscal de lá e para fazer trabalho mesmo lá dentro. Eu sabia fazer o trabalho e comecei. Trabalhava muito. 

Comecei a namorar o presidente do sindicato. Ele, desde antes de morar em Serra, começou a querer namorar comigo. A gente estava há três meses namorando e, depois que eu passei para Serra, a gente continuou. 

Esse namoro deu um auê muito grande, porque juntou os diretores do sindicato todos - não o presidente - e queriam me tirar de lá, do serviço que eu tinha. Eu sei que juntou os amigos dele e no momento da reunião… Tiveram uma reunião, e era Penha, também, que estava lá dentro. Era uma falsidade triste, Nezinha também sabia de tudo, mas se omitia de falar; ela dizia que gostava muito de mim, mas era omissa em tudo. Eu cheguei no dia da reunião e era um conchavo: uma turminha num canto, uma turminha em outro e aquele cochichado. Eu perguntei para Nezinha o que estava acontecendo e ela não me disse nada.

 

P/1 - Do que era a reunião?

 

R - A reunião era para me tirar do sindicato. Eu fazia um trabalho voluntário, eu não era diretora. Era para me tirar, porque eu estava "comendo" o dinheiro do sindicato. Falaram da minha vida particular, que não cabia, mas eu tive que falar. Fui em cima de Manoel Santos e eu disse a ele: "Você brilhou na reunião da Sudene, mas aqui você apagou. Não pense que porque você é homem que eu tenho medo de falar para você a verdade, você não tem que se meter na minha vida particular. Se for pra falar da minha vida particular, no início eu já disse, eu saio da reunião." Eles insistiram e eu sei que era todo mundo, cada um se levantava e falava alguma coisa contra mim.

 

P/1 - Os homens.

 

R - Os homens. As mulheres não, as mulheres se omitiram de tudo, cada uma ficava mais calada. Eu achei a maior falsidade, porque se fosse eu, tinha me levantado e eu tinha me prevenido. Eu não aguento falsidade. Para mim, a pior coisa do mundo é a falsidade, eu tenho pavor. 

Falei muita coisa para Manoel Santos, coisas que eu nem deveria ter falado na hora, mas eu falei. Enfrentei, eu disse a ele que eu estava com o rabo dele na minha mão, porque eu sabia dos podres dele. Teve um momento que ele disse: "Então diga." E eu disse: "Eu não digo porque eu não baixo o meu nível, porque o seu nível é muito baixo." 

Ele ficou muito irritado, mas o Seu Raimundo Teotônio, que na época era vivo, falou muito contra. Todo mundo falou contra, todos os diretores falaram contra e ainda chamaram uma turma que não era da direção, uns trinta homens, para falarem todos contra mim. 

Quando eles acabaram, cada um disse uma coisa, eu estava exausta. Eu pedi a palavra e falei. Fui mesmo em cima de Manoel Santos e falei que não era verdade o que os outros estavam dizendo ali. Eu estava fazendo um trabalho no sindicato, eu nunca tinha ficado com o presidente dentro do sindicato, mas que eu já tinha visto coisa pior ali. 

Eu disse: "Quando eu entrei, já era um cabaré o sindicato de Serra Talhada. Hoje é e vai continuar sendo, não vai deixar de ser. Eu vou sair, mas no sindicato não fui eu que fiz o cabaré. Ele é um cabaré e vai continuar sendo, porque aqui entra todo mundo pra transar, menos eu, eu entro aqui para trabalhar." 

Eu sei que no final da conversa não sabia nem sair de dentro do sindicato. Não chorei no momento, mas depois eu tive que chorar. Eu liguei pra Giselda e perguntei por Vanete, ela tinha viajado e o meu consolo naquela hora foi falar com Giselda. Parece que aquelas palavras de Giselda desceram do céu, porque foi a que me consolou. 

Eu saí, mais Maria Pereira. Ela quis falar, mas eles disseram: "Você não é daqui, você não fala." Ela ficou engasgada, saiu louca de dentro do sindicato.

 

P/1 - E o movimento, depois, fez alguma coisa?

 

R - Olha, veio carta de todo lugar. Veio tanta carta que o presidente disse: "Eu vou ter que sair, eu não aguento. É tanta pressão." "Não é em cima de você, mas eu sou diretor." E eu disse para Manoel no momento: "Quer dizer que eu posso sair e ele não sai? Por quê? Se sair, saem os dois. Eu não sou da direção, mas ele sai do sindicato também se eu sair." Eu sei que no final, quando veio… Olha, veio carta da Oxfam – era onde a Celina trabalhava na época, não era?

P/1 - Não.

 

R - Era do SOS. Vieram também cartas perguntando que diretores eram eles, que tratavam assim as mulheres. Por que não os homens e só as mulheres eram tratados daquela maneira? Veio do CETRA [Centro de Estudos do Trabalho e Assessoria ao Trabalhador], do Ceará; de todas as organizações das mulheres, veio carta. A única carta que não chegou foi a da FETAPE, que veio com a Lucinha e eu não sei que fim levou. Não sei se foi a amizade dela com o Manoel, por isso que naquela assembleia eu não votei com Lucinha, não.

 

P/1 - Veio uma carta e não chegou?

 

R - Veio uma carta e não chegou, e eu guardei tudo isso. As minhas coisas são guardadas. Eu não fico encrencando com o outro, mas eu guardo e eu guardei comigo. 

Quando chegou a vez de eu votar na Lucinha, eu votei contra por isso. Porque a carta que veio por ela da Fetape, eu perguntei a todas as pessoas que assinaram a carta, mandaram a carta, veio por ela e não chegou. Ela tinha um afeto muito grande por Manoel Santos e acho que por isso nunca entregou a carta, deu um fim.

 

P/1 - E a proposta era também de você entrar na mesma direção?

 

R - Era de entrar na direção e ainda me chamaram. Quando chegou o momento, porque você os chamou, fez uma reunião e disse que Manoel tinha botado cocô no ventilador e pintado a cara pra melar.

 

P/1 - É, tinha feito merda.

 

R - Tinha feito merda. Chamou o Seu Raimundo Teotônio, perguntou o que ele fazia com uma bíblia debaixo do braço, pregando a palavra de Deus e discriminando a mulher. Quer dizer que eu fui a Madalena naquele momento, todo mundo me atirou uma pedra e eles todos, cheios de pecado. Você perguntou: "Quem de vocês não traiu a mulher ainda?" Ninguém respondeu, abaixaram a cabeça. Eu sei que a sua reunião valeu, e as cartas que vieram de todo canto valeram também. Eu sei que Raimundo terminou deixando o sindicato, deixou de trabalhar. 

Quando foi formar a chapa, me chamaram. "Não, é o momento de eu me transferir para Triunfo." Eu me transferi para Triunfo e fiz um pacto comigo e com Deus que nunca mais ia entrar em sindicato, porque eu sofri muito. Eu estava ensinando e o que foi que eu ganhei? Quer dizer, minha vida particular não tinha nada a ver com o que eu estava fazendo dentro do sindicato. No momento, eu disse: "Quer dizer que trabalhadora não pode namorar e assessora pode namorar com diretor do sindicato?” Também não abaixei a cabeça no momento. "Seu rabo é dentro da minha mão, o seu rabo é aqui. Você não pode falar nada de mim, não, porque eu sei de seus podres."

 

P/1 - Maria, essa foi a sua trajetória dentro do sindicato e há coisas que lhe machucaram muito. E, as redes rurais, como que você conheceu a Rede LAC?

 

R - Pela preparação para o primeiro encontro. Eu não estou lembrada se foi em Serra Talhada essa preparação.

 

P/1 - Discutiu-se muito, né?

 

R - Discutiu-se muito. Depois do primeiro encontro a gente cresceu, e cresceu muito.

 

P/1 - Você foi?

 

R - Fui para Fortaleza, foi maravilhoso.

 

P/1 - O que você fazia lá, você era delegada?

 

R - Era delegada.

 

P/1 - Qual foi a sua participação?

 

R - Achei muito importante o primeiro Encontro, apesar de muitas vezes eu não estar entendendo o que estava sendo falado, por causa do idioma diferente.

 

P/1 - Por causa das línguas?

 

R - É, os países, cada um tinha uma língua diferente - uns [era] mais fácil, dava para entender, e outros que não dava para entender tudo. Eu senti um pouco de dificuldade, mas o que a gente discutiu eu achei muito importante, foi muito bom. Só o fato de a gente ver tantos países juntos, discutindo todos os direitos das mulheres, tudo o que as mulheres precisam conhecer, isso é muito importante.

 

P/1 - Tem uma cena neste primeiro encontro que você lembra?

 

R - A abertura eu achei muito bonita. Na abertura e no encerramento, a gente sempre gravava uma coisa. No encerramento, a gente sempre tem aquelas despedidas e a gente já vai sentindo ali, como é que se diz? A separação da gente, cada uma vai para o seu país. 

Foi muito bom, marcou muito.

 

P/1 - Depois do primeiro encontro você participou de quê? O que aconteceu?

 

R - Na Bolívia.

 

P/1 - O que era na Bolívia?

 

R - Na Bolívia era a preparação para o segundo encontro.

 

P/1 - Quantos dias você passou na Bolívia?

 

R - Dez dias. Muito trabalho.

 

P/1 - Era onde?

R - Era em Santa Cruz de La Sierra. Fui com o meu neto, a gente passou dez dias. Nenhum dia desses a gente dormiu antes de duas horas da manhã: trabalho, trabalho. Lembrar tudo o que tinha acontecido no Brasil e ter que passar tudo para a frente no papel. Isso foi muito importante. 

Também a participação de outros países, tinha cinco países, mais a gente. A participação dos países foi muito boa e a preparação mesmo do próprio conteúdo foi muito boa.

 

P/1 - Era a primeira vez que você estava saindo do seu país?

 

R - A primeira vez.

 

P/1 - E aí, como foi para você chegar em outro país?

 

R - Foi um pouco difícil. Eu achava que seria mais difícil, mas passei um dia na Casa da Mulher, um dia só com advogada, recebendo as mulheres que eram espancadas pelos maridos. Eu achei ridículo num momento que veio um soldado que tinha violentado a mulher e ele não queria dar o direito dela, não queria dar a pensão para ela. A advogada, que era mulher também, falou pra ele que ele estava obrigado a fazer aquilo, era uma obrigação dele e perguntou o que ele tinha aprendido, era bater na mulher de pé? Ela estava toda cheia de manchas, porque ele bateu de pé, pisou a mulher. 

Foi bom, porque também até a gente andando lá dentro eu aprendi. Eu voltei para a Casa da Mulher sozinha. O meu táxi...

 

P/1 - Com medo?

 

R - Não. Fiquei à vontade, porque se eu tivesse ficado com medo eu nem tinha voltado. No momento eu fiquei com um pouco de angústia, mas sabe de uma coisa? Eu sou uma mulher vivida, eu tenho que fazer as coisas que precisar na minha vida e o que vier eu tenho que aceitar. “Eu vou voltar para a Casa da Mulher.” E voltei.

 

P/1 - Algo mudou na sua vida depois que você teve essas participações na Rede e dessa viagem pra Bolívia? Alguma coisa mudou?

 

R - Sempre muda, porque cada dia que você participa de uma coisa diferente você aprende até mesmo a conviver com a sua família, respeitando as diferenças, as coisas, as pessoas mais velhas, tudo isso e de outros países mesmo. Cada um tem um costume diferente, todo o mundo é diferente; ninguém é igual, por mais que tenha um comum, mas igual não.

 

P/1 - E na sua organização, mudou alguma coisa nesses últimos tempos?

 

R - Mudou muito, Vanete.

 

P/1 - No Sertão Central.

 

R - Mudou muito, porque eu passei um tempo fora estudando e descansando um pouco, cuidando dos pais. Mesmo assim, mudou muita coisa. A sociedade muda todo dia, né? A gente acha: “Está tudo do mesmo jeito.” Não, todo dia tem uma coisa diferente, cada dia a gente aprende alguma coisa diferente. E essas coisas que a gente aprende são boas para a vida da gente. Cada dia você cresce mais. Você aprende, você conhece, você clareia mais a vista.

 

P/1 - Você acha que atualmente as mulheres têm mais participação, Maria?

 

R - Cada dia que passa as mulheres participam mais, participam ativamente e sabendo. 

Eu vejo o crescimento de Cícera Nunes, eu admiro. Eu sei de pessoas que participam assim: começam de pouquinho e daqui a pouco elas estão participando, elas sabem se expressar. 

Valdeci, eu admiro demais Valdeci. Ela dizia: “Eu não sei falar, eu não posso falar. Eu quero dizer uma coisa, mas não sai da minha boca.” E hoje Valdeci abre a boca, fala, se for possível, [por] meia hora. Valdeci fala tudo, ela está segura do que está falando. Eu acho superimportante isso. Para mim, é um crescimento total mesmo, é uma coisa que está avançando cada vez mais.

 

P/1 - E no futuro, você vê alguma coisa para a Rede? Como que você acha que vai ser no futuro?

 

R - O futuro é um pouco obscuro, mas pela organização que a gente tem eu acho que a Rede tem como crescer muito, porque já tem a sede lá no Recife, é um crescimento muito bom para a gente. A gente está de parabéns. Sendo Brasil a sede e você lá dentro, participando; mais mulheres daqui, de Serra Talhada e de lá também, eu acho que tem como crescer cada vez mais. Vai ser um crescimento inesperado, eu acho.

 

P/1 - Maria, você tem algum sonho para a Rede, para as mulheres rurais, para você? Tem algum sonho, algo que você aspira? 

 

R - Eu acho que a gente deve continuar muitos encontros. Teve o primeiro, o segundo... Não deve parar por aí. Meu sonho é que cresça cada vez mais, cresça e apareça, como se diz. Não aparecendo para se mostrar melhor, mas para crescer e aparecer mesmo. Não com orgulho, mas com muita esperança, muito amor, carinho e afetividade.

 

P/1 - Por último, Maria, o que você achou de contar um pouquinho da sua história? Só um pouquinho.

 

R - Só um pouquinho. 

 

P/1 - O que você achou de contar um pouco dessa sua história?

 

R - Contar um pouco dessa história é maravilhoso. O mundo inteiro saber do que a gente, algumas mulheres, passam - algumas não, todas as mulheres têm uma história a contar. E essa história foi contada… Um pedaço, mas ter registrado eu acho superimportante.

 

P/1 - E a sua história, né, Maria?

 

R - Minha história, a história da minha vida. Eu agradeço de coração tanto a quem pediu para contar como a você, que fez essa entrevista comigo, eu agradeço de coração.

 

P/1 - Eu é que agradeço a você, Maria, por ter se deslocado da sua casa e vir passar este dia comigo, para a gente fazer esta gravação. Muito obrigada.

 

R - Foi com muito prazer.

 

 

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