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Combatente 503

História de: Cledimilson Teixeira do Nascimento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/07/2014

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Não registrado oficialmente em documentos pelo meu pai porque eu fui abandonado pelo meu pai muito cedo… quer dizer, na realidade, minha mãe deixou o meu pai muito cedo, eu tinha um mês e três dias de nascido, segundo ela e ela foi morar com a minha avó e acabou não registrando o nome do meu pai nos documentos, meu pai era alcoólatra e ela não suportou a situação apresentada no casamento. Eu o vi uma única vez, acho que eu tinha por volta de seis anos, ele havia adquirido uma doença e estava brincando de carrinho, era uma criança. Foi a única vez que eu o vi, eu lembrei por mais de muitas vezes esses dias, hoje, já nem tanto. E ele faleceu em 78.

  Na minha infância em Piripiri nós brincávamos com o fruto do mandacaru, nós brincávamos com carrinhos feitos com latas de óleo, né, que até então, eram feitos de lata, nós brincávamos de pega-pega, de esconde-esconde, brincadeira… não tinha muita opção, não tínhamos brinquedos, essa é a grande verdade. Nós mesmos fazíamos com o que nós encontrávamos na natureza. Eu brigava muito na escola quando eu era criança, então, eu ia pra escola, ficava mais de castigo do que aprendia. Eu, na realidade, vim fazer, de fato, a primeira série, com nove anos de idade, de nove para dez anos. Até porque, escola mesmo nós não tínhamos e, Piripiri, pelo menos para a classe mais pobre era muito complicado e eu lembro que nós tínhamos lá uma professora que dava aula em uma sala e nós tínhamos que levar o banquinho de casa, que nós sentávamos no chão, colocávamos o banquinho de frente pra lousa que era a nossa carteira e o caderninho no saquinho de leite. Era essa… foi essa a minha escola. Ai depois, fizeram uma escola no bairro, mas eu já não cheguei a usufruir muito, o pouco que fui, ficava de castigo.

  Minha mãe, me deixou com a minha vó aos quatro anos de idade, veio para a cidade de Fortaleza, porque lá não tinha opção de emprego e ela veio trabalhar como domestica em Fortaleza, ela ia me visitar periodicamente, depois eu vim morar com ela, aos nove, ai depois já não queria estudar também, estava indo muito bem nos estudos, mas depois queria só jogar bola, o meu padrasto não aceitava a situação, para que não causasse atrito no casamento, eu tive que voltar pro Piaui. Ai, depois, retornei já aos 18, porque eu queria servir o Exercito, mas não queria servir Tiro de Guerra, eu queria servir o Exercito mesmo. Servi o exército por dois anos, foi um período de aprendizagem, teve lá seus contratempos, mas muito mais benéficos do que ruins, os contratempos foi porque a gente faz amigos, mas também faz inimigos, mesmo lá dentro, onde só tem homens e as opiniões são muito divergentes, um são mais homens do que outros e eu acabei arrumando algumas inimizades por não ter o mesmo conceito com alguns em relação a vários assuntos da vida, diversos assuntos da vida. Mas o grande feito mesmo foi os dois anos que eu fiquei, enfermagem que eu fiz lá dentro, fui enfermeiro por dois anos, fiz o estagio no HGF, foi muito bom pra mim, então isso foi legal e o de ruim mesmo, que na realidade, foi com os meus superiores. Na época, eu fumava, quer dizer, eu ainda fumo, né, mas na época, eu era fumante e por causa disso, muitas vezes, eu tive que ficar detido, que era uma questão pessoal e isso foi muito ruim pra mim, isso não foi legal e o cômico de uma dessas minhas detenções, era época do militarismo ainda e eu fiquei assobiando enquanto eu tomava banho pra vir embora, para ir para casa numa sexta-feira, “Pra dizer que não falei das flores”, então era considerada comunista, de Geraldo Sodré e o cabo de dia me viu assobiando, depois chamou o sargento de dia, deu a leitura do BI, com o uniforme todo bonito para ir para a casa, falei: ‘esse final de semana, eu vou pra casa’. ai, depois da leitura do BI, ai teve uma nota informando que por apologia ao comunismo, o combatente 503, que era eu, o Cledimilson, estava detido por 15 dias. Aquela coisa cômica do Exercito.

  Eu não fiz carreira, o primeiro ano foi obrigatório, engajei por mais um ano e depois, eu saí. Queria continuar na área de enfermagem, né, mas ai surgiu uma oportunidade de ir para São Paulo e eu fui, onde fiquei 26 anos, na realidade, vamos dizer que foi criada essa oportunidade. Veio o pessoal que já morava aqui, que havia ido pra São Paulo há uns 30 anos e voltaram e eu conheci, a filha desse casal, a gente acabou se envolvendo, eles não se adaptaram novamente em Fortaleza, regressaram para São Paulo, eu acabei indo junto para trabalhar, para que nós providenciássemos o desquite então, para que nós pudéssemos casar e a previsão era de um ano com os imprevistos, nós passaríamos um ano e meio em São Paulo. O que nós esperávamos não aconteceu e eu fiquei 26 anos.

  A primeira impressão ao chegar em São Paulo: medo! Medo, porque aqui, nós andávamos por todo lugar e quando eu cheguei, me falaram muitas coisas sobre São Paulo, né, os perigos, muito grande também, não conhecia nada, então era muito complicado e não me envergonho de dizer que durante um ano, eu chorei pra vir embora, chorava todos os dias com saudades de casa, da minha mãe. Às vezes, eu deitava no travesseiro e: “Minha mãe, me leva de volta!”, falava isso do fundo do coração. Então… mas ai depois, eu tive que aprender a conviver com a situação, a pior situação que eu encontrei em São Paulo, a principio, foi o clima, eu sai daqui de camiseta e bermuda, cheguei lá com frio de 11 graus, nunca tinha visto isso na minha vida, foi terrível! Então, você punha duas meias, calça legging por baixo do jeans, e mesmo assim, os dedos pareciam duros de tanto frio. Foi difícil acostumar com essa situação. Em São Paulo trabalhei como segurança, trabalhei como ascensorista, trabalhei como metalúrgico, trabalhei como conferente em loja, “pacoteiro”, de tudo eu fiz um pouco, ajudante de pedreiro, ajudante de marcenaria.

  Eu queria entrar para trabalhar nos Correios, nessa época não tinha concurso ainda, eles estavam pegando em São Paulo e eu fui no edifício sede, e fiquei das sete da manhã até às dezesseis e quarenta e cinco, precisamente. Encarei uma fila enorme, passei por várias etapas, para na ultima entrevista, a entrevistadora olhar pra mim e falar assim: “Você, infelizmente, não pode trabalhar conosco, porque você não tem o perfil da empresa, porque você só trabalhou em empresa privada e interno. Nós precisamos de alguém que tenha experiência em contato com o publico”. Eu estava tão esperançoso que quando ela me disse isso, fiquei tão atônito, nem consegui falar para ela que como testemunha de Jeová, eu tinha contato com o publico, não tinha nenhuma dificuldade em me expressar, conversar, mas nem isso saiu na hora. Eu sai, fui até o final da rua, cheguei na avenida, olhei para aquele logotipo e falei: “Um dia, eu entro nos Correios, um dia eu ainda vou provar que eu sou capaz de trabalhar como carteiro”. Ai, quando foi em 94, teve uma oportunidade, prestei concurso, ai passei. Prestei em maio, fiz a prova em junho e quando foi em novembro, eu recebi um telegrama pedindo para eu comparecer dia 28 de novembro de 94 no edifício sede. Eu fazia conferencia de objetos internacionais que chegavam ao país, trabalhei junto com a Policia Federal em apreensão. Eu era responsável por tudo o que era apreendido, nós conferíamos junto, apreendi muita maconha… aliás, maconha, até que pouco, mas muita cocaína. Ela vinha em vídeo cassete, não tinha a parte interna, era só pasta, no lugar do motor do liquidificador, era pasta também. Nós apreendemos, na época, duas exposições, primeiro teve a exposição na Espanha e passaram muitos quadros e no fundo do quadro, tinha a fita, né, que fechava o quadro, mas na realidade, não era… por baixo daquela fita eles colocavam o pó.

  A droga apreendida nós guardávamos, eram lavrados documentos, e depois, era entregue a Policia Federal, depois de um certo tempo, era retirado, eles faziam a retirada disso. Nós tínhamos drogas, nós tínhamos tíquete ao portador, nós tínhamos livros que vinham, ai quando você abria o livro, na realidade, só tinham as bordas, o conteúdo havia sido retirado para drogas ou até mesmo para valores. Era esse o meu trabalho.

  Meu sonho hoje é concretizar o meu casamento, né, oficializar o meu casamento, conseguir o que nós viemos realmente atrás, que é prosperidade e uma velhice tranquila.

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