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História

Comandante do Rio São Francisco

História de: José Celso da Cunha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/04/2009

Sinopse

Em sua entrevista, José Celso fala sobre sua infância em Juazeiro da Bahia e sobre seus diversos trabalhos na adolescência como sapateiro e comerciante, este último em Salvador. Á seguir, conta como entrou no universo da sua paixão: a navegação. Através do casamento de sua irmã, é admitido como tarefeiro em 1936 num navio que fazia rotas no Rio São Francisco. A partir daí, o morro foi apenas acima: em 1953 já era comandante do Juraci Guimarães, um enorme navio à vapor. Depois, José conta diversos causos e histórias que aconteceram ao longo dos anos e do Rio, descreve as diversas vegetações e paisagens do Velho Chico e fala de sua aposentadoria, em 1968. Por fim, conta sobre seu casamento e seus sonhos para o futuro.

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História completa

Tem uma lenda muito conhecida dos antigos remeiros do Rio São Francisco, eles tinham uma lenda muito bonita, eles trabalhavam remando aquelas embarcações, seis meses de viagem, aquelas barcas cansativas para Jamboaba para buscar rapadura, e eles cantavam enquanto trabalhavam remando eles cantavam “Juazeiro da Lordeza, Casa Nova da Caristia, Santa Rita da Nobreza, Remanso da Valentia, Pilão Arcado da Miséria, Chic-chic dos bundões” era uma família que era considerada, chamada de bundão. “Chic-chic dos bundões, Itacu só da coco e Barra só tem barão.” Quando tava na vista de uma pessoa de Barra dizia que Barra só tem Barão mas quando tava na vista dizia “Pilão Arcado da Miséria, Chic-chic dos bundões, Itacu só da coco e Barra só tem ladrão. Bom Jardim da rica flor, Rio Branco da Santa Cruz, triste do povo da Lapa se não fosse o Bom Jesus, Carinhanha bonitinha, Malhada também é, nasce dois e morre um, paga imposto em Jacaré, que é hoje Itacaré. Januária da cachaça, São Francisco dos caloteiro. Januária da cachaça, São Francisco dos caloteiro... São Romão dos caloteiro e Pirapora... Januária da cachaça, São Francisco da Pirataria, São João  dos caloteiro e Pirapora da putaria. Quando tava na vista do povo de Pirapora tinha outro nome mas, porque Pirapora era sede de mulherios de vida livre do povo da navegação e foi considerado cidade da putaria.” De maneira que essas lendas a gente não esquece, decora e fica gravado como um computador.

À bordo eu nunca fiz casamento, fiz atestado de óbito, fiz atestado de criança, atestado de nascimento, certidão de nascimento, fiz várias coisas, e eu vou contar a vocês uma Historinha curta também, ai vocês viram ali um navio que eu mostrei, só ele viajava pro Rio Preto, Jansimelo, aquele Jansimelo conduzia as professoras que não existiam naquelas cidades, em Santa Rita nem Formosa, não existia professora, elas iam todas daqui de Salvador, de Petrolina, de Barra, elas iam todas de vapor para ir para lá, levavam sempre uma irmã, uma mãe, qualquer coisa para ter com ela durante o ano, no fim do ano elas desciam de férias, né, e naqueles tempos que iam não só as professoras, mas também como iam os estudantes que estudavam, que existia três grandes Colégios no Rio São Francisco, o Colégio das Freiras Nossa Senhora Auxiliadora daqui de Petrolina, onde era o celeiro da Formatura de são Francisco, o Colégio também religioso, da cidade da Barra, é onde formava também toda aquela região, daqui até a Barra era Petrolina, da Barra até Januária era a Barra aqui em formosa, vinha esse povo todo daí, de Januaria o Colégio também, de maneira que esse povo embarcava os estudantes, enchia o vapor, como não tinha lugar para dormir, sentava rodeado dos bancos da mesa e aproveitava aquelas pessoas para jogar cartas, essas coisas tudo, e saindo da Barra cheio de professores e alunos, cheinho, e o vapor só existia dois camarotes, e esses dois camarotes era usado para troca de roupa, de sanitário, troca de roupa, essas coisas, e botar bagagem, bom, e esse pessoal ficava todos ali rodeados, á noite aquele silencio, ficavam sem dormir até tarde, esse navio era feito um vagão, uma porta de banda de um lado, e uma porta do outro, você olhava o rio de uma lado, e olhava o rio de outro, aquela banda evitava, você fazia feito um balançado na banda da porta para baixo, havia ventilação, havia as janelas, as venezianas, havia ventilação boa, num certo trecho de Barra para cima, aquelas professoras e alunos escolheram a senhora de idade que ia, que ela se mostrou saber botar cartas, e todo mundo ali desejava que ela dissesse alguma coisa sobre as cartas, e ela pegou a botar cartas, 20 léguas acima de Barra, é onde nós entramos para o bom fluido de Rio Preto, e entramos em Rio Preto, é um rio que a água é tão escura, que você vê uma moeda lá no fundo, um prato você vê que parecendo uma moeda, de tão fundo que é, porque é cascalho, cascalho se rebolando na correnteza da água, esse rio é tão corrente que de Boqueirão para Santa Rita, são 16 léguas, você leva quatro dias para subir, e para descer para passar em Santa Rita cinco horas da manhã e meio dia você chega, para você ver a velocidade das águas, quatro dias subindo e meio dia descendo, precisa o remunero ser muito bom motorista para poder dirigir naquelas voltas, naqueles pontos estratégicos, entramos para o córrego de Rio Preto, já escuro, quando chegou na madrugada, o vento naquela banda de porta, e aí o vento deu, na hora que estava botando as cartas ali, para uma professora, e uma dama de paus voou e caiu dentro da água, e aquela senhora de idade encabulou que era ela que ia cair na água, que ia morrer afogada, é por isso que eu disse a vocês a pouca hora, que é muito comum pessoas enlouquecer a bordo, não sei o que é, acontece que ela enlouqueceu, aí chamamos quatro marinheiros, porque a vontade dela era pular a porta e cair dentro da água, aí acabou o negócio de botar cartas, o povo ficou tudo assombrado, foi quando chamei quatro marinheiros, botei dois de um lado de uma porta e dois no outro para amanhecer ali feitos vigilantes, para evitar o desastre, mas ela iludiu o marinheiro, uma hora que cochilou, ela pulou dentro da água, o vapor viajando, escuro, a gente não pode, a gente parou o vapor, botou os marinheiros demais, que a ma gela é estreita, a gente botou os marinheiros de um lado e de outro, correndo á margem para ver se achava, dentro da água o vapor desceu umas léguas, descemos e não encontramos a mulher, aí levantamos o inventário dela, todo mundo ficou ali assombrado, levantamos o inventário dela, fizemos o levantamento de morte dela, de como foi, juntamos todos, chegamos no destino dela que era Formosa, que era Santa Rita, deixamos a bagagem dela com os parentes e deixamos tudo ali, seguimos viagem Santa Rita, seguimos viagem á Formosa, depois de seis de uns seis a oito dias nessa viagem, nessa tragédia, chegamos em, de Formosa recebi um telegrama que essa mulher apareceu, boa e sã, lá naquela fazenda e que estava debaixo de um arvoredo, calçando as sandálias feito das folhas de bananeira, pra você vê?, Voltamos, chegamos á Santa Rita, pegamos a bagagem dela na delegacia que entregamos os laudos, para fazer a causa morte, tomamos, chegamos cá no porto dito, empossamos, chegamos lá, apanhamos ela, embarcamos ela, para trazer de novo para Barra, onde ela embarcou, ela boazinha, ela nos contou que aquela hora ela enlouqueceu, ela caiu dentro da água, ela diz que viu todo mundo procurando ela, ela se agachou debaixo do arvoredo que sombreava a água e ali ficou, quer dizer, são histórias do nosso cotidiano de São Francisco, trouxemos ela e entregamos para eles na Barra.

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