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História

Com satisfação, nada é fardo

História de: João Carlos Basílio da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2020

Sinopse

Industrial terceirista na área de artigos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos. Área da indústria que gera oportunidades de trabalho, que representam 2,5% da população economicamente ativa. Constante participação na vida sindical e em associações de classes, pautadas na incorporação da biodiversidade, desenvolvimento e exploração auto sustentável, não-predatória e controle sanitário. Mira o mercado internacional.

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História completa

P – A gente costuma pedir para que as pessoas se identifiquem por si. Dizendo nome completo, data e local de nascimento.

R – Meu nome é João Carlos Basílio da Silva. Nasci aqui em São Paulo no dia 20 de julho.

P – Em que lugar, em que região?

R – Nasci na Santa Cecília. Na Praça Marechal Deodoro, no Hospital Santa Cecília.

P – E cresceu em Santa Cecília também?

R – Não, vivi nas Perdizes. Sou um perdigueiro. Saí das Perdizes para casar.

P – E morou nas Perdizes ali perto da PUC?

R – Morei perto da PUC. Morei na Rua Itapicuru, no início da minha vida até os meus 5 anos de idade. E depois eu vivi na Rua Ministro de Godoy que é fundos da PUC, durante 17, 18 anos. 

P – João Carlos, qual que é sua atividade, a sua formação e hoje a sua atividade?

R – Eu sou químico industrial. Hoje sou industrial, tenho uma indústria que chama-se Química Astro. Sou um terceirista, fabrico para terceiros. Sou presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. Sou presidente fundador. Sou presidente do Sindicato das Indústrias de Perfumaria, artigos de Toucador no Estado de São Paulo. Estou entrando em meu quinto mandato. Estou virando móveis e utensílios. 

P – [risos] 

R – Sou vice-presidente do Conselho de Administração da Cetesb [Companhia Ambiental do Estado de São Paulo]. Sou diretor do Ciesp [Centro das Indústrias de São Paulo], no qual sou diretor titular do Núcleo de Ação Política. Coordeno também centro do Ciesp um projeto que discute os temas, o núcleo temático que discute os temas mais nevrálgicos da indústria de um modo geral.

P – Puxa. 

R – [risos] 

P – Como, essa é uma boa pergunta. Como que você consegue conciliar tantas atividades?

R – Fazendo isso tudo com muita satisfação. Nada é fardo. É muito gratificante. E eu tenho equipes em todas as áreas muito boa. E isso então não, a gente sempre encontra tempo para coisas prazeirosas.

P – Bom, pela sua narrativa, quer dizer, você não teve de fato uma experiência ligada à venda direta. Mas você trabalha com empresas que estão...

R – Não. É, a minha vida profissional está ligada ao setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos. Eu sou um dos fundadores da Perfumaria Rastro. É uma empresa que foi marcante no cenário nacional brasileiro. Foi uma das primeiras empresas que lançaram produtos voltados para a classe média brasileira, e que tiveram sucesso durante muitos anos. Por circunstâncias da vida acabei vendendo a marca. E hoje eu sou um terceirista, como eu já disse. Fabrico para terceiros. E abracei a vida sindical como um desafio que tem me empolgado muito. E por isso a gente tem uma relação muito direta com todos, dentro do nosso setor, a venda direta tem uma representatividade muito significativa. Talvez dentro da venda direta o setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos seja aquele que mais se destaca. Aquele que representa o maior faturamento dentro desse canal de distribuição que é a venda direta. Então a nossa relação é muito estreita. O presidente Rodolfo [Gutilla] faz parte da minha Diretoria. O presidente anterior que era o Paulo Quaglia fazia parte da minha Diretoria. Então nós trabalhamos muito próximos. E convivo com as experiências da venda direta em toda a minha vida. 

P – E qual que é o papel de uma Associação como a ABEVD em apoio às outras associações a que você está vinculado. Como é que interage? Existe alguma interação?

R – Sem dúvida nenhuma. Existe, a que mais nos liga evidentemente é, e aquela que o, infelizmente que o consumidor brasileiro mais suporta que é a carga tributária. Nós temos uma carga tributária que a gente pode usar a palavra pesada, porém real que nós temos uma carga tributária que é escorchante. E ela necessita ser revista constantemente. E a venda direta, com esse verdadeiro exército esparramado em todo o país contribui, muito e nos fornece muita informação para que a gente possa estar negociando com as nossas autoridades. E mostrando as características da nossa indústria. Nós somos uma indústria que gera oportunidades de trabalho. Níveis bastante significativos. Nós representamos 2,5% da população economicamente ativa. Muitas vezes quando se fala da venda direta se associa à uma certa informalidade, ao mercado informal de pessoas que trabalham e não recolhem impostos e coisas semelhantes. O que não é real. O que não é verdadeiro. Existem regras preestabelecidas em relação à responsabilidade pelo recolhimento de impostos. Que hoje está na mão da indústria, através da substituição tributária. Quando uma revendedora da venda direta vende um produto a empresa fabricante, ou a distribuidora, ela é obrigada a recolher antecipadamente esses impostos. Então no estado que a revendedora está operando a responsabilidade do recolhimento desses impostos é da indústria ou da distribuidora que a representa naquela região. Então o índice de informalidade é muito baixo, quase que nenhum. E isso é bastante representativo. Porque acaba fazendo com que ela tenha a necessidade de declarar o seu rendimento, porque ele está transparente e enfim. E isso através de outras consequências faz com que esse verdadeiro exército de mais de um milhão e quatrocentas mil pessoas em todo o Brasil contribuam de uma maneira significativa, né? Até para a diminuição do desemprego no país.

P – O setor de higiene, de cosméticos tem crescido muito, né? A que se deve esse crescimento? Vocês têm indicadores? Quais são os que mais...

R – É, o crescimento da nossa indústria, ele não se restringe a um único aspecto. São diversas ações que fazem com que nós tenhamos tido resultados bastante expressivos e significativos nos últimos tempos. De 12 anos para cá nós tivemos significativas reduções de carga tributária. Vou dar um exemplo mais expressivo das conquistas que nós tivemos. Há 12 anos atrás o IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados] de um protetor solar era de 77%. Então sobre um preço 100, que já vinha embutido impostos de PIS [Programa de Integração Social] Cofins [Contribuição para Financiamento da Seguridade Social] e ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços], você ainda agregava mais 77%. Hoje é zero. Isso evidentemente fez com que esse produto tivesse seus preços reais reduzidos de uma maneira bastante significativa. Fazendo com que uma parcela maior da população brasileira pudesse ter acesso a esses produtos. O que não ocorria anteriormente. E o protetor solar, praticamente, é o único produto que protege a sua pele da camada de ozônio. Que provoca consequências que hoje a sociedade de um modo geral tem total conhecimento. Essa é uma das conquistas, esse é um dos vamos dizer, dos itens que provocaram ou provocam que o nosso setor mantenha índices de crescimento bastante significativo. Nós tivemos, nesse período de 12 anos, nove reduções de cargas tributárias. Em tempos diferentes. E isso evidentemente, dada a concorrência que o mercado enfrenta, por ser um mercado bastante competitivo – tenho certeza que você na sua cabeça e na sua memória, você se forçar um pouco, é capaz de lembrar de 30 marcas, 40 marcas diferentes de produtos das mais variadas origens. Nós somos um setor muito competitivo. A participação da mulher na população economicamente ativa, que vem crescendo. Também tenho certeza que você pode buscar esse exemplo na sua própria família. E verificar o perfil. É completamente diferente. A sua postura em relação à postura da sua mãe, da sua avó. Os tempos mudaram, a realidade é outra. Você participa mais ativamente hoje da atividade econômica. E isso obriga que você tenha a necessidade de se apresentar bem. E isso evidentemente gera maior consumo dos nossos produtos. Você, a aparência é um fator importante, né? Se eu tiver duas pessoas de bom nível, de bom conhecimento para um cargo que esteja sendo oferecido eu vou procurar no final, a decisão vai ser pela aparência. A gente gosta de conviver com gente bonita, de boa aparência, com boa apresentação. 

 

[pausa]

 

R - ...que eu mas ele era um artista.

P – É. Até os vidros, né? A embalagem.

R – É, tinham características totalmente diferentes. Nós fomos líderes de mercado. Uma coisa...

P – Durante muitos anos, não é? 

R – Durante muitos anos. 

P – A gente passava na Bandeirantes, não era, tinha um escritório? 

R – Tinha um escritório, isso. Exatamente.

P – E eu lembro que os meninos gostavam. Porque tinha um glamour, né?

R – É, verdade. 

P – Muito interessante.

R – Foi um projeto muito gostoso. Comecei eu e uma funcionária e chegamos a ter 600 funcionários. 

P – Partiu da viagem de dois irmãos? Da ideia de dois...

R – É, não. Meu irmão começou com...

P – Não. Já trabalhava...

R – RASTRO ...uma loja na Rua Augusta. O meu irmão era um estilista. Tinha uma loja que chamava-se Rastro. Que não tinha nada de perfumaria. E essa loja foi uma das precursoras da Rua Augusta. Aliás vai ter um lançamento no dia 6 de dezembro  agora no Clube Paulistano de um livro chamado Rua Augusta. E conta um pouco a história e meu irmão foi um dos precursores da Rua Augusta. E a loja fez muito sucesso. E ele resolveu um dia ter uma colônia da casa. E a partir daí começou. Eu estava fazendo Química. Ele me chamou e começamos esse projeto e foi um, momentos muito agradáveis na vida assim, muito grande. Muito gostoso.

P – A essência dos perfumes continua sendo desenvolvida hoje ainda por você, mas terceirizando a produção? Ou não é isso? 

R – Não, não, a marca não é mais nossa. Nós não somos mais donos da marca. A marca hoje nós comercializamos ela é, os proprietários são a Dorsay-Monange. 

P – Hum, hum. Mas ela ainda está no mercado?

R – Eles ainda estão no mercado. Com a linha mas com características diferentes, né?

P – Quais são os desafios para os próximos anos? Quer dizer, a ABEVD está fazendo 25 anos. Nesses 25 anos teve um crescimento, se a gente pensar, da década de 90 passando os anos 80 completamente conturbado. As empresas do setor tiveram um crescimento realmente grande. Tem muitos desafios aí. Quais os desafios que você acha que são...

R – Olha, acho que o maior desafio e aquele que nós de uma certa maneira estamos enfrentando é inserir a indústria de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos no cenário internacional. Fazer com que nós venhamos a participar desse processo. Nós éramos uma indústria muito voltada para o mercado interno. E estamos é, é, nos projetando e nos lançando no mercado internacional. E os resultados estão sendo maravilhosos. Extremamente positivos. Nós vamos atingir nesse ano de 2004 exportações que vão superar a casa dos 300 milhões de dólares, com um crescimento de 35% em relação ao ano passado. As nossas projeções sinalizam crescimento de 20 a 25% em 2005, 2006. Quando o mercado cresce 2, 3%. O mercado mundial. Então cada vez mais nós estamos conseguindo inserir a indústria brasileira no cenário internacional. Que também é um desafio bastante interessante e extremamente motivador.

P – A indústria ela está ligada também como todo esse processo de desenvolvimento sustentável? Existem diretrizes?

R – Sem dúvida. A nossa entidade tem uma diretoria de meio-ambiente. Nós trabalhamos fortemente. E uma das estratégias que a nossa indústria usa é exatamente incorporar nas suas formulações componentes da nossa biodiversidade. Óleos, extratos, componentes ativos. Que possam nos diferenciar em relação aos nossos concorrentes internacionais. Nós não temos a pretensão de imaginar que a nossa indústria possa brigar impondo tecnologias novas. Nós temos que levar inovações. Nós temos que ser criativos e oferecer ao mercado inovações e esse foco da biodiversidade buscando a exploração auto-sustentável, não predatória.  A Abihpec tem parceria com o Imaflora [Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola], nós temos assento no Conaflor [Conselho Nacional de Autorregulamentação da Terapia Floral]. Nós temos uma parceria com os Amigos da Terra para certificação. Temos uma atividade bastante intensa nessa área. Porque quanto mais nós comprovarmos ao mercado mundial de que a nossa indústria está trabalhando de uma forma, com responsabilidade social, com respeito ao meio ambiente e projetos economicamente viáveis, isso nos traz ainda mais benefícios. Porque nós vamos ser uma exceção à regra. Eles lá fora já acabaram com as florestas deles, né? A nossa intenção e a nossa indústria está na luta de manter a floresta em pé. E economicamente viável.

P – Que bom isso. Isso é responsabilidade social. 

R – Isso é responsabilidade, é uma das responsabilidades sociais. Nós temos outras atividades. Nós trabalhamos com, há uma concentração muito forte dentro do Estado de São Paulo. O Estado de São Paulo hoje detém 84% da produção do nosso setor. Mas nós temos mais de 1200 indústrias esparramadas pelo Brasil. Então nós estamos criando núcleos regionais onde nós vamos até eles. Porque eles por tamanho ou por incapacidade financeira, seja incapacidade até de tempo, porque são empresas familiares onde o dono assobia e chupa cana ao mesmo tempo. E o projeto nós vamos até lá. Nós levamos o conhecimento mais moderno que esteja ocorrendo dentro da nossa indústria. E nós estamos com um projeto Porto Alegre, Nova Iguaçu, Diadema, Uberaba, Belo Horizonte, Salvador, Belém do Pará. Estamos implantando Feira de Santana, Goiânia, Curitiba. É um projeto maravilhoso, extremamente gratificante, em que nós procuramos em um primeiro momento fazer com que essas indústrias possam entrar na formalidade mas no que diz respeito ao aspecto sanitário. É fazer com que nós tenhamos, no nosso país, indústrias que fabriquem produtos de boa qualidade. A indústria de um modo geral, a grande indústria e as empresas que estão muito mais próximas de nós, já fazem isso. E nós queremos que essas pequenas empresas, esses núcleos regionais também se incorporem nesse processo. Eles são fundamentais e importantes, porque são eles que descobrem pequenos nichos de mercado. Fazem o verdadeiro trabalho de formiga, onde as grandes empresas não se interessam em explorar esses mercados, porque eles são muito pequenos. Mas esse trabalho quando bem feito ele vai se consolidando, ele vai crescendo, né? Esse bolo vai crescendo. E tem uma hora que a grande empresa entra nesse processo e ela tem que ir buscar outro nicho, outra novidade para que ela possa se viabilizar, e por isso a nossa indústria também tem um aspecto dinâmico. Porque há um número muito grande de pequenas empresas sempre procurando novidades que possam contribuir para o desenvolvimento da nossa indústria.

P – É revolucionário, né?

R – É revolucionário. Chega a ser revolucionário.

P – Chega a ser revolucionário.

R – É.

P – João Carlos, infelizmente eu vou ter que encerrar.

R – [risos] 

P – Porque a gente tem outras pessoas.

R – Lógico.

P – Mas eu acredito que em breve a gente deva se encontrar de novo para conversar aí mais sobre a tua indústria, sobre a Rastro. Sobre a sua história de vida. 

R – O maior prazer.

P – Vai ser um grande prazer. Eu te agradeço.

R – Imagine, é um prazer estar aqui com você.

P – E eu queria te fazer um pedido...

------------FIM DA ENTREVISTA-------------

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