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História

Com quem Jesus estaria?

História de: Jalmir Matias de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/02/2021

Sinopse

Origem da família. Lembranças da casa onde morou na infância. Momentos difíceis e histórias de quando era criança no litoral de São Paulo. História de vida dos pais. Religiosidade. A decisão de ser padre e sua iniciação na carreira eclesiástica. Ingresso no curso de Filosofia e mudança para a cidade de São Paulo. Primeiro trabalho. Envolvimento em causas sociais na época da ditadura. A questão racial e a teologia.

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História completa

Tenho a lembrança do meu avô numa tapera, uma casa de barro muito pobre, de chão de barro . A minha vó materna é de origem indígena, ela estava deitada em um colchão que era feito com o próprio mato mesmo. Essa minha avó que depois trabalhou na casa dos padres, como domésticas tanto que eu tenho até hoje um terço que foi deixado de herança. Esse meu vô que era um negro tão alto que não passava da porta e essa minha vó que me deixou o terço tiveram a minha mãe, mas por poucos recursos que tinham pra criar doaram ela pruma família italiana. Então a minha nessa família italiana ela era a única mulher no meio de 5 homens, então ela teve que passar, cozinhar, preparar, tudo dobrado pra família.

Eu cresci em São Vicente, que é meio uma periferia de Santos, meu primeiro trabalho foi uma coisa na escola. Eu reparei que as pessoas não eram muito boas de matemática. então eu comecei a dar aulas de reforço pros meus colegas, e com isso comecei a tirar um troco, Era uma mixaria, mas já era algo que ajudava, a condição da minha família era algo muito batalhadora, meu pai que sendo ferroviário quase perdeu a mão num acidente, e os diretitos trabalhistas eram tão ruins na época que sugeriram pra ele amputar a mão pra poder receber benefício, mas ele não aceitou de jeito nenhum, conseguiu salvar uma parte da mão e foi realocado de posto.

Eu com 15 anos já estava querendo ser padre, mas não contava muito pra família, foi mais no momento de ter que escolher o vestibular e um irmão meu já tinha passado numa boa universidade e havia aquela expectativa para que eu estudasse medicina, mas então veio a bomba de que eu iria ser padre, minha mãe até a última hora veio com um concurso do Banco do Brasil, mas eu estava decidido. Hoje, ela super apoia os padres, mas nem sempre foi assim

Eu então recebi a carta de que havia sido admitido no seminário, mas logo vinha o aviso de que era pra eu aprender a datilografia porque vindo pra estudar eu precisaria também trabalhar, e não era com coisa de igreja não. Era preciso que eu estudasse a filosofia na faculdade, mas que tivesse um trabalho e mais que isso, uma vida de trabalhador, andasse de ônibus e conhecesse como é um trabalhador não ficasse naquela coisa isolada, então logo quando cheguei em São Paulo a primeira coisa que pensei foi: Preciso arranjar um emprego!

Dentro do seminário havia um envolvimento cultura, não era porque tinha palavrão ou conteúdo explícito que a gente não se inteirava. A discoteca lá nossa tinha Caetano, Gil e etc... Lembro uma vez que disseram que estava passando o Macunaíma, e aí fomos do seminário de Kombi todos nós, não importava se tinha nu ou não, se passava algo importante ou algum livro sempre insistiam de que a gente se inteirasse sobre isso.



E nessa época, era também a época da ditadura. E tinha todo um envolvimento, por exemplo o emprego que arrumei foi em banco e se discutia as nossas condições nesse grupo, assim como as situações de greve em que a gente aderia pra ter melhoria. E nas manifestações já tivermos que fugir até da cavalaria, de bomba de gás de gás lacrimogéneo, o centro de São Paulo que eu conheço é um centro de São Paulo dos possíveis esconderijos de fuga que eu tinha.

Quando eu tinha saído do seminário "Verbo Divino" o padre me perguntou se eu havia saído do seminário por ser negro, isso é, ele já me via como negro, porque até então em exército essas coisas estava sempre registrado: Pardo, pardo, pardo... E pardo é cor de papel. O Batista, quando ainda não era padre, era diácono se aproximou de mim e falou: Você também é negro. Não adianta ficar disfarçando, olha o seu cabelo, o seu beiço, é negro também. Então eu comecei a avançar com esses pensamentos sobre a condição do negro. Eu li a "Teologia Negra" e um outro livro chamado "Deus Negro" onde o deus é colocado como negro e isso nos aproximava a figura de deus da gente... Nessa época já tinha também os agentes pastorais negros. E aí com esses contatos foi me voltando a memória o meu bisavô largado naquela choupana sem recurso nenhum...

Nós começamos a ter encontros e esses encontros começaram a se expandir, e teiveram um efeito até terapêutico, da gente conversar e se escutar, falar o que tinham passado e pessoas que nunca tinham sido escutadas. Era uma potência muito grande. É importante falar desse trabalho da Pastoral Afro porque ele ajuda a converter a igreja. Eu sempro penso em Jesus que tenho que estar onde Jesus estaria. E onde Jesus estaria? Estaria com os mais pobres, e na nossa sociedade quem são os mais pobres entre os mais pobres? Os negros, e eu sei da minha história e ao lado de quem eu quero estar, é ao lado de quem Jesus estaria.

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