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História

“Com o tempo você vai se transformando no mais velho"

História de: Alexandre Augusto de Faria Machado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/10/2011

Sinopse

Alexandre Machado acompanhou o crescimento de São Paulo a partir de meados do século vinte. Em seu depoimento relembra a paisagem de Pinheiros durante a época em que havia poucos casarões e pelas ruas passavam vendedores de leite de cabra. Recorda com carinho o ambiente familiar e o pequeno paraíso da infância: um quintal repleto de árvores frutíferas, onde podia estudar em cima de um pé de nêspera na companhia de Carolina, uma arara-azul. Em sua narrativa aborda a convivência com a família e destaca personalidades que marcaram sua vida, entre elas o poeta nadador Kenichi Sato. Em sua narrativa traz acontecimentos políticos e mudanças de comportamento na sociedade nas últimas décadas e narra com muito humor episódios marcantes dos tempos de escola, da juventude e da carreira de jornalista.

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História completa

P/1 – Vou pedir para você dizer o seu nome inteiro, a data do seu nascimento e a cidade onde você nasceu.

 

R – Meu nome completo é Alexandre Augusto de Faria Machado. Eu nasci em São Paulo, em 9 de outubro de 1945. Então, a história começa do começo: eu nasci no bairro de Vila Mariana, meus pais moravam na Rua Morgado de Mateus, mas eu não cheguei a conhecer essa casa porque, com seis meses de idade, eu me mudei para a Avenida Rebouças, na casa de número 2133, onde hoje é uma agência do Banco Santander.

 

P/1 – E a casa ainda existe? Mas totalmente descaracterizada?

 

R – Totalmente descaracterizada, quer dizer, para quem conheceu a casa percebe o formato dela... mas era uma casa de uma época em que a Avenida Rebouças, naquele trecho ali próximo da Rua Joaquim Antunes, depois da Avenida Brasil, naquele pedaço ali, as casas rareavam. Basicamente a Rebouças ia até a Avenida Brasil, que era uma avenida que tinha as grandes mansões dos milionários da época, aqueles milionários do pós-guerra, não é? Eu estou falando... eu nasci em 1945, estou falando de 1946, quando entraram as grandes fortunas do pós-guerra. Elas estavam localizadas ali. E ali, e na Rebouças para baixo, tinha algumas casas e muitos terrenos baldios. Até porque lá para o fundo, onde depois se transformou... surgiu a Faria Lima, não é? O Iguatemi... antigamente já era uma região próxima da várzea do Rio Pinheiros, onde havia o quê? Campos de futebol. Os famosos campos de várzea. Ali onde tem hoje o Shopping, aquele Shopping Eldorado, aquele shopping enorme, aquilo tudo era um descampado, com pouquíssimas casas. Eu nasci então na Vila Mariana, nasci na Maternidade Cruz Azul, que fica na Aclimação, Cambuci, não é? E fui morar logo pequeno, com seis meses de idade, já fui morar na Avenida Rebouças. Na Avenida Rebouças eu morei até o... no 2133 até os seis anos de idade, e dali datam as primeiras lembranças da minha vida, porque eu tenho lembranças que são lembranças muito precoces de alguns fragmentos da minha infância mais tenra; porque eu me recordo, por exemplo, de brincar no cadeirão. No cadeirão eu me recordo perfeitamente de mexer nas continhas do cadeirão, me recordo de quando transformaram o cadeirão numa... ele era desdobrado e ficava parecendo um carrinho.

 

P/1 – Nossa, um super cadeirão esse que você tinha!

 

R – É, eu me lembro perfeitamente disso. E na minha casa tinha uma piscina que, mais tarde, eu fui verificar que era uma piscina mínima e que me parecia uma piscina enorme. Era uma piscina de sete metros por três, que foi onde eu comecei a nadar, com dois anos e meio. Com dois anos e meio eu já nadava e mergulhava e tinha um domínio da natação muito rápido. Comecei a nadar muito cedo. Nesse lugar onde eu morava, tinha atrás... onde é a Rua Sampaio Vidal hoje, ela ia somente até... ela não se chamava Sampaio Vidal, ela se chamava rua Doutor Rosa, e ela ia só até um determinado lugar onde, de repente, se interrompia. E daí era um eucaliptal grande e que não tinha continuidade da rua. Tanto que as pessoas... os alunos da Escola Britânica, que fica ali atrás, na Rua Atibaia, acho que chama... eles vinham da Rebouças e atravessavam o eucaliptal, não havia uma rua ali para passar. Outra lembrança também muito precoce da minha infância é que a minha casa ficava próximo da Rua Joaquim Antunes, e que tinha sua primeira esquina na rua Doutor Rosa e, em seguida, tem onde é hoje a rua Santa Cristina. Eu me recordo de ir com a minha babá... eu ia com a babá até lá para ver as obras de canalização do córrego Santa Cristina.

 

P/1 – Ah, ali era um córrego!

 

R – Era um córrego. Tanto que ali é uma região de casas muito boas, muito bonita, é um lugar lindíssimo para morar, mas é um lugar tradicional de enchentes também. Porque ali é um pequeno vale, então para ali corriam as águas do Santa Cristina. Então, com a canalização, sempre que chove sofre com aquilo. Essa fase da minha vida era uma fase em que a minha casa era uma casa de muitas festas. O meu pai era um médico...

 

P/1 – Como é que ele chamava?

 

R – Meu pai se chamava Álvaro de Faria Machado, era carioca, casado com a minha mãe – Esther Sampaio Machado, também carioca. Os dois vieram do Rio de Janeiro na época... por volta de 1930, 1931, 1932... 1932. O meu pai nasceu em 1900, e minha mãe em 1906. E o meu pai fez parte da primeira turma de Medicina da Escola da Praia Vermelha, ou seja, a primeira turma de admissão da Escola de Medicina da Praia Vermelha. Meu pai se formou em 1920, 1921, por aí... e ele começou a trabalhar no Rio de Janeiro. Mas ele tinha um irmão, Aurélio Machado, que veio para São Paulo, se deu muito bem, e era o presidente de uma empresa chamada Moinho Inglês, que era dona dos biscoitos Aymoré, que, na época, os biscoitos Aymoré eram uma grande instituição em São Paulo. Os biscoitos Aymoré rivalizavam com os biscoitos Duchen o controle do mercado paulista de biscoitos, porque naquela época não havia esse mercado de nacionais, os mercados eram absolutamente locais. E eu frequentava muito o Rio de Janeiro, ia desde cedo muito ao Rio de Janeiro. E, no Rio de Janeiro, era onde você tinha o controle dos biscoitos Piraquê, e aqui em São Paulo eram os biscoitos Aymoré e Duchen. E esse meu tio, que era o tio Aurélio, fixou-se em São Paulo e deu muito certo aqui. E meu pai era médico, era proctologista, ele cuidava de doenças do intestino. E tratou do meu tio, do irmão dele. E em função do sucesso do tratamento, meu tio começou a chamá-lo de vez em quando, quando tinha um amigo ou outro com problema; daí ele começou a vir para São Paulo e resolveu mudar para cá porque percebeu que tinha um mercado muito mais forte do que o mercado carioca. O meu pai era de família… o pai dele era brasileiro também, os avós dele, portanto meus bisavós, eram portugueses. E o pai dele era dono de uma farmácia, era farmacêutico no Rio de Janeiro. E minha mãe... a família da minha mãe era do Nordeste, o pai – que era meu grande ídolo da vida, e dos meus irmãos também - que era o vovô Ioiô, chamado Francisco Sabino Coelho Sampaio, nascido no Pará, era filho de um funcionário público, porque meu bisavô era chefe de alfândega e teve filhos em várias, vários...

 

P/1 – Porque ele ia mudando de cidade...

 

R – Ele ia mudando de cidade, então ele teve filhos... mas a família toda era da Bahia. A família toda era da Bahia, inclusive esse meu bisavô era primo-irmão do Castro Alves, do poeta Castro Alves; portanto, o parente mais próximo, na linha mais próxima, de Castro Alves, porque ele não teve descendentes (…) era essa família próxima, que era da Bahia. E esse meu avô era casado com a minha avó Rosa, que era mineira. Então eu tenho na minha família uma coisa meio Chico Buarque de Holanda, que fala: “Meu pai era isso, minha mãe era aquilo”. Então, meu avô era paraense, minha avó era mineira, o meu bisavô era baiano, e assim vai, não é? E a família da minha avó era de Minas Gerais. E o meu avô tinha uma participação muito forte na vida da minha família, porque ele era... ele começou trabalhando... ele teve um problema quando estava prestando serviço militar, que estourou um canhão do lado do ouvido dele. Ele ficou com problema de surdez e aí teve que dar baixa no Exército. Então, ele teve muitos problemas na vida, foi trabalhar numa função muito humilde: era chefe de estação de trem, ele cuidava de estação de trem. Mas a grande faceta do vovô Ioiô é que ele era um grande contador de histórias! E ele se aposentou relativamente cedo, e até o final dos seus dias, nos finais de tarde... ele morava no Rio de Janeiro, no bairro de Andaraí, morava na rua Uruguai... ele reunia as crianças, no fim da tarde, para contar histórias.

 

P/1 – As crianças da rua?

 

R – As crianças da rua, que vinham da rua, sentavam na varanda... as crianças sentavam todas ali, junto com ele, e ele todas as tardes contava histórias! Ele tinha uma lembrança de histórias antigas, e também era um criador de histórias. E isso daí, certamente, foi uma das coisas que motivou a vida da minha irmã, uma das minhas irmãs, que é a escritora Ruth Rocha – que é uma contadora de histórias também. Nós fomos cinco irmãos: a mais velha se chama Hilda – o nome dela é Hilda Machado Lorch, ela enviuvou relativamente cedo e tem três filhas. A minha irmã Ruth é casada, já há uns cinquenta anos, com o Eduardo Louzada Rocha, daí o sobrenome dela, não é? Eu tenho um outro irmão, que é médico e mora no Rio de Janeiro – chama-se Álvaro Machado Filho. Ele foi casado com a Ana Maria Machado, que é escritora, acadêmica, e teve filhos – dois filhos – com ela: o Rodrigo e o Pedro. E em segundas núpcias, ele casou com uma diretora de escola do Rio, uma dona de escola, chamada Nery Ferraz. E depois eu tenho uma irmã, que é formada em Direito mas começou a carreira dela, profissional, como jornalista na Revista Veja, chamada Eliana Machado, que casou com um publicitário chamado Neil Ferreira, com quem ela é casada até hoje e tem também dois filhos, que são o Zé Bento e a Juliana. A Juliana é bióloga e o Zé Bento é filósofo, é formado em Filosofia, é professor de Filosofia. Eu casei, em primeiras núpcias, com a Edith Elek Machado. Eu tenho uma filha chamada Madalena, que mora em Barcelona, ela é designer – chama-se Madalena Elek Machado. E o meu filho é Cassiano Elek Machado, que é jornalista e hoje é editor da Cosac Naify, da editora de livros Cosac Naify. Bom, então essa é a minha família. E daí voltamos...

 

P/1 – E você é o mais novo?

 

R – Eu sou o mais novo. Eu sou o chamado “caçulinha”. Quer dizer, na minha idade já fica meio esquisito falar o mais novo...

 

P/1 – Ah, mas você é o mais novo!

 

R – Mas eu sou o mais novo, para efeito familiar eu sempre fui o mais novo. Apesar de que a minha irmã, a Ruth, uma vez falou: “Com o tempo você vai se transformando no mais velho, porque com o tempo você acaba cuidando dos outros irmãos, você acaba ficando uma referência para os outros irmãos”. (…)  A minha irmã mais velha já tem oitenta e dois anos, a Ruth tem oitenta, então, já são pessoas que têm alguma idade. Apesar de que, na minha família, é todo mundo longevo, todo mundo vive até muito tarde. Muito bem...

 

P/1 – Você estava falando das festas...

 

R – Eu estava falando das festas porque o meu pai, quando veio para São Paulo –  era um médico carioca, e tal – ele teve uma adaptação engraçada. Porque logo que ele chegou aqui teve a Revolução de 32, e havia um antagonismo muito grande entre São Paulo e Rio de Janeiro. Então, para comprovar sua adesão à cidade, ele fazia parte com os inspetores de cartel, que eram uns rodízios que as pessoas que participavam da milícia paulista... então, ele participou disso tudo. E, às tantas, ele conheceu amigos que o levaram para o Rotary Clube de São Paulo. O Rotary Clube, nessa época, era a organização civil, da cidade, mais poderosa porque congregava os principais industriais, que eram os industriais que fizeram fortuna durante o período da guerra, não é? Então, José Ermírio De Moraes, os Bardella, os grandes empresários da época... e ele, em 1945, foi eleito presidente do Rotary Clube de São Paulo. E, nesse meio tempo, as minhas irmãs já eram universitárias, então...

 

P/1 – Em 1945?

 

R – Já por volta, nesse período...

 

P/1 – Nossa, então você é muito mais novo!

 

R – Sou. Eu estou falando desse período dessa casa que a gente teve na Avenida Rebouças, eu estou falando do período entre 1945 e 1950, estou falando desse período, não exatamente 1945. Porque eu tenho uma diferença de dezesseis anos da minha irmã mais velha, então, logo que eu nasci ela tinha dezesseis anos, e, logo em seguida (…) ela entrou na Escola de Sociologia e Política, na época. A minha irmã Ruth também – as duas foram estudar Sociologia. Então, a minha casa era uma casa de adolescentes e de um profissional que tinha uma vida social relativamente intensa, não é? E nesse período, por volta... nesse período entre 1945 e 1950, começo de 1950, aconteceu um outro fato... que o meu pai, como presidente do Rotary Clube, foi o primeiro presidente da Fundação dos Rotarianos de São Paulo, que surgiu em função de uma doação do velho senador José Ermírio de Moraes, que doou um colégio, que é o Colégio Rio Branco. Ele queria doar esse colégio, ele tinha comprado o colégio, resolveu doar, e o Rotary Clube não podia ter propriedades. Então, foi criada a Fundação dos Rotarianos e meu pai foi o primeiro presidente da Fundação dos Rotarianos e se transformou também no diretor-superintendente do Colégio Rio Branco. Bom, o que é que era  esse período dos primeiros anos da minha vida, na Avenida Rebouças? Primeiro, para lembrar que na Avenida Rebouças, no centro da Avenida Rebouças, havia um canteiro bem largo, porque ainda havia o hábito das pessoas que andavam a cavalo, não é? E eu cheguei a ver uma vez... houve um problema na Estrada das Boiadas, que é aqui perto de onde nós estamos, e passou uma boiada, que mesmo naquela época era uma coisa estranha, mas eu me recordo disso! Assim como naquela época ainda havia um hábito de se comprar leite de cabra; então, era comum os vendedores de leite de cabra, que andavam com as cabras, com os sininhos no pescoço, que era assim que a gente ouvia que estava chegando o vendedor de leite de cabra, não é? A Avenida Rebouças tinha esse espírito, quer dizer, era um lugar de poucas casas, muito simples. Ou seja, eram casas bonitas e tudo, mas havia muitos terrenos baldios ali perto. 

 

P/1 – E os terrenos eram grandes, das casas?

 

R – Relativamente grandes. Não muito, mas... não eram terrenões não. Eram lotes, não era uma coisa grande... e daí havia muitos terrenos vazios. Data dessa época uma coisa interessante: porque havia, na esquina da Joaquim Antunes com a rua Doutor Rosa, hoje Sampaio Vidal, uma padaria que durou até pouco tempo, que era a Padaria Regência, que foi muito conhecida, foi muito famosa, inclusive fazia pãozinho, bisnaguinha, para vender em supermercado e tal. Era uma organização muito conhecida! E naquela época moravam ali, na Rebouças, pessoas que moraram muitos anos: morava o meu pai, que era o doutor Álvaro; morava na casa ao lado – uma casa depois – o doutor Paula Souza; ao lado, do outro lado, morava o doutor Homero; moravam pessoas que tinham... que ficaram muitos anos morando ali. E a Regência fazia as entregas, as encomendas em casa, então, as entregas eram na casa do doutor Álvaro, na casa do doutor Paula Souza, e por aí... e muito bem. Muitos e muitos anos depois, no meu segundo casamento, eu fui morar na rua Sampaio Vidal e reencontrei o dono da Regência, hoje já falecido, o Emílio, que tinha ainda um funcionário, que deve ter ainda uma banca ali na esquina da Joaquim Antunes com a Sampaio Vidal, e daí eles me contaram que, mesmo depois de tantos anos, aquele lugar tinha se transformado em outras coisas: em loja de venda de fraques, sei lá, de... que as encomendas eram dirigidas ainda aos antigos proprietários, ou seja: “Tem encomenda para a casa do doutor Álvaro”. Então... 

 

P/1 – Ah, eles indicavam as casas ainda pelos nomes!!

 

R – É, ainda pelos nomes, não é? Que é uma coisa que dá uma ideia de como houve uma transformação muito grande na vida das pessoas, não é? Bom, nesse período também, quando eu tinha uns seis anos de idade, o meu pai vendeu essa casa na Avenida Rebouças, porque o plano dele era morar no centro de São Paulo, em um prédio que tinha sido projetado pelo Oscar Niemeyer, chamado Copan. E ter uma casa de fim de semana num lugar que um amigo dele, chamado Nilzo Viana, estava abrindo, um loteamento que era chamado Granja Viana. Então, ele vendeu a casa, nós fomos morar um pouco mais acima, na Avenida Rebouças de novo, num apartamento alugado, numa esquina da Rebouças com uma ruazinha que hoje é chamada Chabad, que é uma ruazinha estreitinha, que na época tinha outro nome, chamava rua Giacomo Carrilli, era o nome dessa rua. E era um prédio de esquina que hoje já virou... tempos depois, sede de uma empresa de telefonia.

 

P/1 – É um prédio de três andares? Com uma sacada grande na frente?

 

R – É, é um prédio baixo, mas era um prédio (…) Isso, isso! Virou depois... era uma época Telespark, uma coisa assim... depois que deixou de ser residência, não é? É quase na esquina da Capote Valente. E aí nós fomos morar lá, enquanto acontecia a construção do Copan e a construção da nossa casa na Granja Viana. Acontece que vocês devem ter registro, em algum lugar, do que foi o drama da construção do Copan. Porque naquela época não tinha nenhuma proteção às pessoas que compravam imóveis, e os contratos eram a preço de custo. E então, a obra não andava e ia mudando o valor da prestação, e ia aumentando, aumentando, aumentando... e nesse meio tempo ficou pronta a casa na Granja Viana e não ficou pronto o Copan, então, nós nos mudamos e eu fui passar um período ali; entre os doze anos de idade até os catorze, quinze, a gente morava na Granja Viana, que era um lugar muito distante! Era muito mais longe do que é hoje, não é? Porque ali, para você ter uma ideia, ainda era o caminho da Raposo Tavares, ainda era o caminho para o Paraná. Não havia a Régis Bittencourt, então todo o caminho para o Litoral Sul de São Paulo também, para Apiaí, para (…) para o Vale do Ribeira... era tudo por ali. Então, todos os ônibus que iam para essas regiões – para Curitiba, para Sorocaba... porque não havia a Bandeirantes também, não havia nada disso, então era tudo pela Raposo Tavares. Que era uma estrada estreita e com uma característica também de época que é interessante, porque é um lugar com um clima completamente diferente, não é? Era muito mais fresco na Granja Viana do que em São Paulo, você tinha uma diferença certamente de dois, três graus de diferença em relação à São Paulo, por conta da cobertura vegetal que havia, aquilo lá era mato! Você também tinha pouquíssimas coisas... eu me recordo de que quando começou a construção do Jardim Bonfiglioli, que era o comecinho ainda, tinha uma ou outra casa... e também aquela... logo que você entra na Raposo Tavares, aquele bairro que é da Previdência – Jardim Previdência – que eram todos iguaizinhos também; eu me recordo da construção disso também. E nós, eu e meus irmãos, estudávamos... fomos estudar no Colégio Rio Branco, onde meu pai era o diretor-superintendente. E então, nós saíamos de casa tipo... lá da Granja Viana, tipo seis e meia da manhã para conseguir chegar em São Paulo a tempo: sete e quinze para pegar o começo da escola, entrar na escola.

 

P/1 – E antes disso você sempre estudou no Rio Branco? Quando você estava na Rebouças também?

 

R – Também na Rebouças. É que eu me mudei da Rebouças 2133 para a Rebouças lá de cima  não me recordo o número do apartamento – foi justamente a época em que eu entrei no primeiro ano primário. Mas ali eu estudei até mais ou menos o quarto ano primário, eu estudei morando na Rebouças ainda.

 

P/1 – Depois que você foi para a Granja...?

 

R – E eu lembro que ia num ônibus... o Rio Branco tinha vários ônibus para buscar os alunos, e o ônibus em que eu ia era o número um, que era o mais moderno de todos, era um ônibus maior, era um ônibus...

 

P/1 – Porque ia mais longe?

 

R – Não, não, cada um tinha um itinerário. Eu não sei como era essa distribuição, mas eu lembro que o motorista era uma pessoa muito carismática, era um motorista que trabalhou muitos e muitos anos no Colégio Rio Branco! Chamava José Flausino. E era uma pessoa assim muito carismática, uma pessoa muito interessante! E aí eu fico com várias lembranças desse ônibus, porque o número um era considerado, assim, o mais elegante de todos os outros. Eram vários ônibus: tinha o ônibus do Rubens, que era um microônibus; tinha o ônibus do seu Rubano – o seu Rubano além de ser motorista do ônibus, era uma pessoa que trabalhava como vigilante do colégio, ou cuidava da papelaria do colégio também. Cada um tinha a sua característica lá. Mas uma lembrança forte que eu tenho dessa época, foi em 1954, quando aconteceu a morte do Getúlio, e eu estava esperando o ônibus na hora em que vieram me chamar que não ia ter aula, que morreu o Getúlio. E naquela época a gente usava um avental, que era o uniforme do colégio, você usava um avental em cima da roupa. E eu estava com uma bandeirinha pedindo a renúncia do Getúlio, então aquilo me lembrou muito, porque eu me senti com um certo complexo de culpa com relação à essa coisa. E também eu me senti um pouco em culpa porque esse meu avô, vovô Ioiô, era um getulista fervoroso, tinha inclusive foto do Getúlio em casa. O Getúlio despertava uma paixão em parte da sociedade brasileira, não é? E então... 

 

P/1 – E por que é que você estava pedindo a renúncia, assim; em cima de que contexto?

 

R – Era o clima da minha casa, era o pensamento do meu pai, que achava que o governo do Getúlio era corrupto... quer dizer, havia um clima... a minha casa sempre teve um clima de muita politização, de muita discussão sobre as questões nacionais, e muita conversa. Na minha casa sempre teve muita conversa, sempre! Desde pequeno, quer dizer, é um hábito de família das pessoas terminarem o almoço e ficarem conversando na mesa... e também era um hábito que as crianças ficavam juntas com os adolescentes e com os adultos...

 

P/1 – O que não era comum naquela época, não é?

 

R – É, você não tinha uma separação que agora era conversa para criança e não sei que lá... e eu tinha nas minhas irmãs mais velhas... porque havia... eu fui um filho temporão, não é? Então, quando eu nasci minha mãe tinha quarenta anos e meu pai quarenta e cinco, que naquela época era o portal da velhice, não é? Quer dizer, era uma coisa rara uma mulher de quarenta anos ter um filho, e mais raro ainda um homem de quarenta e cinco ter um filho também, que é algo que marcou muito a vida do meu pai, porque os colegas dele de profissão e tal o recriminaram muito, dizendo: “Você não vai ter como criar esse filho, você é louco!”. Então foi nessa época que ele parou de fumar, que ele começou a fazer esporte, e ele morreu com noventa e dois anos de idade; então, deu para criar os filhos tranquilamente, não é? Mas as minhas irmãs, de toda forma, elas eram mais velhas mesmo para o padrão de pai e mãe da época, o que não causou grandes problemas, mas na verdade nós tínhamos uma relação não de filhos com as minhas irmãs, mas elas participavam muito da nossa educação e da nossa formação pessoal, quer dizer, eu me recordo, por exemplo, que minha irmã mais velha, a Hilda, era minha madrinha também. E com isso ela era madrinha, e madrinha da minha irmã Eliana. Então, ela tinha um cuidado especial com os dois, ela se sentia sempre, não na obrigação, mas no papel de cuidar... então, por exemplo, quando a gente foi morar na Rebouças lá em cima, eu tive que ir dormir junto com a Hilda, porque não havia quarto para todo mundo, porque nós éramos cinco. E além disso, nós... durante todo esse período, morou conosco também uma prima, que veio do Rio de Janeiro, a Vilma – então, nós éramos seis. Era muita gente e então eu dormia junto com a Hilda. E a Hilda sempre antes de dormir, ligava o rádio nessas rádios que tinham concertos à noite; então, era a Rádio Excelsior, era a Rádio Gazeta, eram aquelas rádios que tinham concertos à noite, que você ficava ouvindo aqueles concertos e tal... e ficavam explicando quem eram os grandes compositores e contando as histórias todas. Além disso, ela fazia também umas gincanas entre nós para saber... para dizer... para mostrar os pintores, os quadros dos pintores, e tal. Ou seja, ensinar o que era o impressionismo... e fazia umas brincadeiras para ver quem é que descobria melhor quem eram os autores.

 

P/1 – Olha! E ela mostrava onde? Nos livros?

 

R – É, nos livros. Então havia livros, eu lembro que tinha uma coleção de impressionistas, que tinha todos os grandes pintores impressionistas: Renoir, Rillaut(?) ... Em suma, todos os grandes pintores impressionistas; e então ela fazia essa competição para ver quem é que acertava mais, não é? E, além disso, como o meu pai era um médico que a vida dele foi muito marcada pela medicina e eu não me recordo dele ter tirado férias uma só vez na vida, então, quando nós tirávamos férias...

 

P/1 – Quando vocês iam para o Rio, ele não ia junto?

 

R – Não. Geralmente eu ia e ficava na casa das primas da minha mãe, que eram minhas tias, ou então a gente viajava para a praia e quem tomava conta da gente eram minhas irmãs. Então, nós íamos todos juntos: íamos para Ubatuba, íamos para Itanhaém, íamos para... fomos uma vez... como é que chama aquela cidade? Bom, para essa cidade – depois eu posso lembrar. Mas eram essas cidades do litoral aqui de São Paulo, e elas que iam com a gente. Então, de vez em quando, eles vinham nos visitar no fim de semana…

 

P/1 – Sua mãe ficava com seu pai?

 

R – Ela ficava com meu pai, eles ficavam juntos. Minha mãe morreu com noventa e seis anos, meu pai com noventa e dois, e os dois viveram a vida inteira... os dois tiveram a vida conjugal muito amorosa.

 

P/1 – Na verdade, ela morreu pouco tempo depois dele então, não é? Porque eles tinham seis anos de diferença, não é?

 

R – É, ele morreu em 1992, porque ela nasceu... ela era mais nova que ele, não é? Então, ela com noventa e seis anos, ela fez... é ao contrário a conta, você está fazendo a conta ao contrário. Ela morreu em 2002, dez anos depois dele. Ele morreu em 1992, aos noventa e dois anos, e ela morreu em 2002, com noventa e seis anos, não é? Então eles foram sempre muito ligados, tiveram uma vida, assim muito... bom, e aí eu estudei no primário no Colégio Rio Branco, que era um colégio que tinha uma porção de coisas. Porque o meu pai teve uma participação muito grande nessa história do Colégio Rio Branco, que foi doado pelo Zé Ermírio de Moraes e estava um pouco abandonado, o colégio. Então, o meu pai, que era médico, se colocou na posição de ter que transformar o colégio num colégio de qualidade. E tem vários aspectos que são importantes desse trabalho que ele teve, porque um deles, que eu acho importante, é que nesse período da vida de São Paulo, os colégios... os principais colégios de São Paulo não aceitavam judeus. Ou porque eram colégios religiosos ligados à Igreja Católica, ou porque eram ligados à colônia italiana, como o Dante Alighieri, ou eram ligados à colônia alemã, como o Porto Seguro; então, os judeus não tinham acesso a essas escolas, que eram algumas das principais escolas de qualidade da cidade de São Paulo. E o meu pai foi um artífice desse trabalho de transformar o colégio num colégio absolutamente laico, sem nenhum traço religioso. E eu me lembro, garoto ainda, meu pai contando as pressões que ele sofria; na época, o cardeal de São Paulo, Dom Carlos Carmelo Vasconcelos Motta – e a Igreja era uma instituição muito mais forte na sociedade da época, não é? Inclusive, um chavão que havia na imprensa, de quando havia uma solenidade, era assim: “Estavam presentes as mais altas autoridades políticas, militares e eclesiásticas”. Era um bordão que havia da época e que era isso mesmo! Quer dizer, quem eram as pessoas importantes nas grandes solenidades? Eram os políticos, as autoridades militares e o Cardeal – o Cardeal era uma coisa importante. Então, houve uma pressão da Igreja Católica no sentido de que o Rio Branco: “Tudo bem, pode receber os judeus, mas tem que ter aula de religião”. E o meu pai foi uma pessoa que batalhou para só colocar aulas de religião católica se pudesse colocar para todas as religiões: então, que fosse uma coisa ecumênica. E isso, na época, tinha um peso, uma emoção em torno disso, que eu acho que marcou muito a formação dos filhos que ele teve...

 

P/1 – Você teve muitos colegas judeus então?

 

R – Muitos! Na época de primário um pouco menos, mas no curso ginasial, nos dias de feriados judaicos, geralmente nós tínhamos mais ou menos metade da classe. Cerca de metade dos alunos do Rio Branco eram judeus. E ainda era no bairro de Higienópolis, então já tinha uma concentração grande. E era o único colégio de alta qualidade, um colégio laico e que não fazia qualquer tipo de restrição aos judeus. Então era muito, muito, muito judeu! E o meu pai era um grande admirador dos judeus, ele falava sempre para a gente: “Olha, vocês precisam aprender bastante com os judeus, porque os judeus carregam duas coisas – em função de toda a história dos judeus – eles carregam o ouro e a sabedoria, o conhecimento. O ouro vocês não vão ter porque o seu pai não tem, mas então vocês têm que estudar e ter o conhecimento para...” Então, ele falava isso: que os judeus carregam o ouro e a sabedoria, o conhecimento, então que a gente tratasse de estudar para... e nós éramos uma família de pessoas estudiosas e fomos todos muito bons alunos! Eu era o pior aluno, mas era um aluno que tirava... no primário tirava médias nove, nove e meio, não é? E no Ginásio, colegial, tinha médias sete e meio, oito... Era um aluno, não era um aluno assim... Meus irmãos sim, meus irmãos eram alunos que tiravam média no fim do ano de nove ponto oito, nove ponto nove, tiravam dez em tudo, eram muito estudiosos! E... e aí eu estava falando... você falou do bairro de Pinheiros e eu lembrei de contar, porque ali na Rebouças tinha uma praça que chamava Praça Portugal, que era na esquina da Avenida Brasil com a Henrique Schaumann – a Henrique Schaumann era uma ruazinha pequena que corria, que não tinha ainda a “Henrique Schaumann”. Era uma ruazinha que ia serpenteando até o meio do morro...

 

P/1 – Até o muro do cemitério?

 

R – Até eu não sei onde que ela ia, ela ia longe. Eu sei que ela se embarafuscava ali para dentro, não sei até onde ia a Henrique Schaumann, mas era uma ruazinha... não havia a Avenida Henrique Schaumann e nem a Avenida Sumaré, isso aí foi quando eu já era adulto, velho. E ali tinha uma igrejinha, que era uma igreja e tinha... é uma recordação também dessa época, que quando fizeram essa praça – não sei por qual razão – mas era constante acontecerem acidentes ali. A tal ponto que fizeram uns muros de concreto porque, volta e meia, descia um carro da Rebouças e entrava. Não sei se era má sinalização, não sei o que era, mas é uma lembrança da minha época de muito garoto, desse período entre os sete anos de idade, dez anos de idade.

 

P/1 – Que agora a Praça virou uma ilha na verdade, não é? Não existe mais, só existe a placa da praça.

 

R – Exatamente! E ali havia a igreja e havia uma agência do Banco da América. O Banco da América, que depois foi comprado pelo Banco Sulamericano e que virou o Banco Itaú. E até hoje você tem o Banco Itaú ali, que é desde aquela época que era o Banco da América.

 

P/1 – Sim, tem um Itaú enorme do outro lado.

 

R – Sim, exatamente! Ainda como parte de lembrança interessante dessa época: quando eu tinha uns doze, treze anos, o meu pai... nós saímos da Rebouças e ficamos morando oficialmente na Granja Viana, e aí a minha irmã Ruth, que já era casada, morava na Rua da Consolação, ali perto da Avenida Paulista, em frente a onde surgiu o primeiro supermercado de que eu tenho lembrança em São Paulo, que era o Sirva-se, que ficava do outro lado da rua. Porque ali, vindo da cidade em direção ao bairro, logo depois que passa a Paulista, ali não existia todo aquele... esse anel viário que tem ali e tal. Ali você tinha uma praça que era uma praça meio abandonada e tal, e começava a Doutor Arnaldo. E ali em frente...

 

P/1 - Do outro lado da rua, onde tem o supermercado hoje, mesmo?

 

R – Exatamente, onde tem o supermercado; do lado oposto tinha o apartamento onde morava a minha irmã Ruth, já casada com o marido Eduardo. Nesse prédio morava também o grande compositor Francisco Mignone! Eu me lembro dele velhinho, andava com um bonezinho, fumava cachimbo, andava bem devagarzinho. E o meu pai alugou um apartamento nesse prédio, porque quando a gente saía do colégio, muitas vezes a gente ia almoçar na casa da Ruth e depois é que a gente pegava o ônibus para voltar para a Granja Viana. Então, nós andávamos, pegávamos um ônibus Cometa – a gente tinha que pegar uma passagem para São Roque e descia no meio do caminho, na Granja Viana. Então, quando chegava na entrada da Granja Viana... e a casa que o meu pai construiu lá foi a segunda casa da Granja. Foi no começo, não tinha praticamente nada! Eu jovem, andando lá, eu andava, tinha o loteamento todo, que foi todo feito... eram ruas de terra e eu andava de bicicleta por ali, porque ficava muito solitário naquele lugar, não tinha amigos morando por ali.

 

P/1 – Porque aí a sua casa não era mais a sua casa das festas, não é?

 

R – Aí não era mais a casa das festas. A casa das festas foi a da Rebouças, quando eu era pequeno, que foi a época em que as minhas irmãs davam muitas festas e recebiam muitos amigos que iam lá estudar, que iam lá fazer reuniões políticas. As minhas irmãs participaram muito da vida político-estudantil universitária, participavam da UEE... para você ter uma ideia, tem uma história muito engraçadinha que aconteceu com a minha irmã: a minha irmã teve um namorico com um cavalheiro chamado José Gregori, mais tarde ministro da Justiça, tudo isso, até hoje casado com a Maria Helena Gregori. O Zé foi candidato à UEE e o seu oponente era o também político Almino Álvares Afonso. Que era um político mais ligado às hostes trabalhistas, enquanto o Gregori tinha um corte mais da democracia cristã. E a minha irmã, então, namorava o Zé Gregori. E aí os dois foram candidatos à presidência da União Estadual dos Estudantes. E na hora em que estava sendo feita a apuração, estavam os dois ali competindo voto a voto, voto a voto... Quando faltavam quatro, cinco votos para terminar a apuração, minha irmã entrou em choro convulso e aí foram saber o que é que era: é que ela tinha votado no Almino. Ela era namorada do Zé, mas tinha votado no Almino.

 

P/1 – (risos) E aí bateu a dor na consciência... (risos)

 

R – E aí, por sorte, o Almino ganhou. Mas ele ganhou por três votos de diferença, então, o voto dela... mesmo que ela tivesse votado nele, ele teria ganhado por um voto. E essa é uma brincadeira... Até outro dia eu encontrei com os dois, no aniversário de oitenta anos do Fernando Henrique, e aí comentamos, relembramos essa história – porque eles continuaram amigos a vida inteira, são amigos até hoje. Mas a minha irmã acabou trabalhando com o Almino, são todos amigos desde essa época. Então, a minha casa era um local onde se dava muita festa, era um local muito alegre, muito contente. Daí nós mudamos para outro lugar na Rebouças, que já era um lugar mais acanhado, e mais adiante o meu pai alugou um apartamento na Consolação apenas para os dias em que, eventualmente, a gente não conseguisse voltar para a Granja Viana, para ter um lugar para dormir, mas era no mesmo prédio da minha irmã. Então o apartamento era só um ponto para ficar, mas não tinha uma configuração de uma casa toda montada, tinha uns beliches, os quartos e tal, e a gente comia, inclusive, na casa da minha irmã, que tinha uma empregada que era uma cozinheira fantástica e inesquecível na história da nossa família, porque ela era... o nome dela era Terezinha Marinho de Jesus. Terezinha de Jesus Marinho. E depois, mais tarde, ela casou com um outro... um cidadão que era... um homem que o sobrenome dele era... ele era um cara modesto também, consertava geladeiras e tal, mas o sobrenome dele era Rodrigues Alves, então ela ficou com o nome:  Terezinha de Jesus Marinho Rodrigues Alves, ela tinha um nome pomposo! Mas a Terezinha era uma pessoa... ela deve estar viva até hoje! E era uma pessoa encantadora e fazia uma... Então, todo mundo ia comer lá, a casa da minha irmã era um ponto para todo mundo! E quando não dava para a gente ir embora, a gente ficava em São Paulo. Mas, em geral, nós pegávamos... cada um de acordo com cada programa de cada um, do que é que tinha para fazer, a gente pegava o ônibus da Cometa, que era o ônibus de Sorocaba, e a gente pegava esse... Tinha um outro ônibus, que era o ônibus que ia para Cotia, mas era um ônibus que fazia parada em cada estação. Então era muito demorado, o ônibus! Por isso que a gente ia de Cometa e parava na entrada da Granja Viana, que era um lugar ainda muito vazio, tinha... a chegada da Granja Viana, no quilômetro 24 da Raposo Tavares, tinha uma igrejinha no fundo dessa reta, na parte próxima à estrada, tinha a chamada colônia, porque eram os empregados dos Viana, que tinha um lugar lá que tinha um conjunto de casas onde eles moravam. E havia poucas casas: tinha a casa do meu pai; tinha a casa vizinha, do doutor Tomás Martins; tinha uma casa atrás, que era do professor João Villa Lobos e da professora Maria da Penha Villa Lobos. Tinha, mais lá atrás, a casa de um fotógrafo muito famoso, que morreu recentemente: Francisco Albuquerque, o Chico Albuquerque, que era um grande fotógrafo cearense! Que teve um estúdio de fotografia aqui na Rebouças durante muitos anos e que depois se transformou no estúdio da Editora Abril. Ele foi o fotógrafo que deu o padrão das revistas da Editora Abril no seu início: a Revista Cláudia – todas as fotos de decoração, de moda... tudo isso era feito no estúdio do Chico Albuquerque. Inclusive, a minha primeira mulher chegou a trabalhar com ele quando ela era editora de decoração da Cláudia. Ela foi editora de decoração da Cláudia e uma coisa interessante é que um assistente que tinha lá, que era uma graça de menino, talentoso, jovem!... que era o Robertinho, veio a ser o Bob Wolfenson, que trabalhou com eles lá. Mas, então, a Granja Viana era um lugar onde tinha muito pouca gente e a gente fazia esse trabalho de ida e vinda pelo Cometa. De manhã saía com o meu pai cedinho, e na volta tinha esse retorno. Nesse meio tempo eu estudava no Colégio Rio Branco, que era um colégio de muito boa qualidade. E... 

 

P/1 – Mas e a tua vida social, como ficava?

 

R – A minha vida social nessa época era muito pobre porque eu morava longe, quer dizer, não era sócio de clube, não.... então eu ia, às vezes, estudar na casa dos meus colegas, e era nessas ocasiões que eu ficava em São Paulo. Mas eu vivi essa contradição de você morar num lugar que é meio paraíso, porque você tinha muitas árvores, a minha casa... Meu pai, logo que ele comprou esse terreno, ele plantou esse terreno todo com árvores frutíferas. Então, a minha casa da Granja Viana – eu seria capaz até de redesenhar onde ficava cada árvore –  você tinha pessegueiros, ameixeiras, macieiras, pereiras, você tinha pés-de-caqui, no fundo tinha café, tinha cana-de-açúcar, tinha horta com todo tipo de coisas, tinha abacateiros, tinha... Eu me recordo que era costumeiro na minha vida estudar trepado num pé de nêspera, tinha vários pés de nêspera que ficavam ao lado da casa e eu ficava trepado naquelas árvores lá em cima, estudando. Então eu estava ao mesmo tempo num lugar paradisíaco, num silêncio absoluto... nós tínhamos lá na Granja Viana uma arara, que essa arara foi herdada do meu cunhado, era da casa do meu cunhado antes. Era uma arara que atendia pelo nome de Carolina, e a Carolina era uma arara azul com o peito amarelo e ela ficava presa numa corrente, mas era uma corrente que ficava presa em um arame, então ela tinha um raio de ação enorme! Ela fazia companhia, ela ficava junto,  ficava muitas vezes estudando eu e a Carolina, ela era minha companheira de estudos, e a gente passeava, com a corrente, ela era uma arara maravilhosa, era um bicho supercarinhoso, um bicho que gostava de carinho, que coçava o meu cabelo, coçava toda hora. Era um xodó da casa, era uma arara! Essa arara teve, inclusive, períodos interessantes, porque ela teve períodos em que ela teve vontade de chocar os ovos, e nós tínhamos um galinheiro ali na casa e aí tinha um preto velho que trabalhava lá, “seu” Joaquim, que era um velhinho já, bem velhinho, tipo preto velho... Nós estamos aí falando que está relativamente próximo do fim da escravatura, porque...

 

P/1 – Nem tanto, nem tanto! (riso)

 

R – Eu estou falando de década de 1950, um sujeito que tinha uns setenta anos de idade, quer dizer, ele nasceu lá atrás, então muito próximo do tempo e da postura, porque também a gente tem que pensar que... Eu falei agora há pouco da diferença que havia entre Rio e São Paulo no mercado de consumo, a diferença. Eu, quando comecei a trabalhar como jornalista, que foi em 1964, a diferença que havia entre a postura das pessoas em São Paulo e no interior de São Paulo era uma coisa hoje incompreensível, quer dizer, a ideia do caipira e da pessoa mais ingênua, aquela coisa da pessoa do interior, aquela pessoa que não tinha maldade... As pessoas eram muito diferentes, não é? Eu lembro que a gente ia à Bragança Paulista, que é aqui do lado, as pessoas que moravam em Bragança eram completamente diferentes das pessoas que moravam em São Paulo; as pessoas que moravam em Campinas eram muito ingênuas também, elas não tinham essa mesma... Hoje você tem uma equalização dos costumes e das informações, é completamente diferente! E o “seu” Joaquim era aquele preto velho, de cabelinho branco, chapéu, fumava cigarro de palha. E o “seu” Joaquim pegou uns ovos galados e colocou para a Carolina chocar, ela chocou os ovos, nasceram os pintinhos e eles ficaram um pouquinho com ela e tal. Depois acho que chegou barulho do galinheiro, uma hora eles foram embora, mas é isso, não é? É uma lembrança que eu tenho também desse período da minha vida, mas era uma vida social muito pouco ativa. Eu tinha alguns amigos que encontrava de vez em quando, lembro que tinha um amigo que até eu reencontrei recentemente, que é médico hoje, doutor Izaac. E o Izaac morava ali perto da Brigadeiro Luis Antônio, e é uma coisa também que é uma lembrança interessante, porque eu lembro que a gente ia estudar na casa dele, e de vez em quando a gente ia na padaria, que era a Padaria Pão de Açúcar, que era onde ficava o “seu” Valentim, que era o pai do Abílio Diniz.

 

P/1 – Que era lá embaixo, já nos jardins.

 

R – Lá embaixo, lá nos jardins. Quer ver onde? Descendo em direção ao bairro, passando as alamedas... 

 

P/1 – Eu sei onde, só não sei a rua. Depois da entrada de quem vira para o Ibirapuera, à esquerda.

 

R – É, um pouco antes... é, também... mas eu lembro perfeitamente que era Pão de Açúcar, e eu era muito ligado ao Rio de Janeiro, então era uma coisa de uma lembrança muito forte, não é? Eu tinha alguns amigos com quem eu me encontrava, mas a minha vida social era restrita muito à vida no colégio. E no colégio eu tinha uma vida muito ativa, porque tinha um grêmio, o Rio Branco tinha... o Centro Rio Branco, que era onde tinha as mesas de ping-pong, as coisas de esporte e tudo isso. Que eu, inclusive, no segundo clássico, quando eu estava no segundo clássico, eu ganhei a eleição e fui presidente do Centro Rio Branco, fui eleito presidente do Centro Rio Branco. Então eu tinha uma vida muito ativa no colégio também. Mas a vida social fora do colégio eu praticamente não tinha. E isso muito incentivado pela minha família, que tinha uma noção de que nós éramos privilegiados por sermos tão amigos e tão felizes em conjunto. O que era verdade, mas ficou faltando talvez um pouco dessa coisa, e que eu conseguia recuperar um pouco nas férias quando ia para o Rio de Janeiro.

 

P/1 – É, como eram essas viagens? Porque daí você cresceu um pouco, ainda tinha seu avô que contava histórias, mas tinha outras coisas também?

 

R – É, mas eu estou... Eu comecei a ir para o Rio quando tinha uns oito anos de idade, que eu ia para a casa de uma tia, chamada tia Carlice – Carlice, filha de Carlos e Alice. A tia Carlice, Carlice Nabuco Ferreira. E ela era diretora de escola pública, morava no Botafogo, no Rio de Janeiro, numa travessa da Rua São Clemente. A Rua São Clemente, no Rio de Janeiro, era a rua das grandes embaixadas, até hoje...

 

P/1 – Sobraram aqueles casarões, não é?

 

R – Eram os casarões, não é? E aí, às tantas, onde fica o Morro Dona Marta, tinha uma entradinha que era uma ruazinha que fazia uma volta, que chamava rua Barão de Macaúbas, que era onde morava essa minha tia Carlice, num prediozinho modesto, um prédio sem elevador, um prédio de três andares, quatro andares... E aí é um recorte de uma época, porque ela teve uma filha, que era a Eli, e ela foi casada com o doutor Gastão Ferreira, que era um advogado e que teve uma atitude muito comum naquela época, que vira piada um pouco, que é a história do sujeito que foi comprar cigarro na esquina e não voltou nunca mais. E ela morava então nesse apartamentinho.

 

P/1 – Porque o marido tinha desaparecido.

 

R – Desaparecido. Aí, ele foi encontrado anos depois aqui, morando aqui em São Paulo. Depois a gente acabou conhecendo o Gastão e até ele fez parte de uma história muito interessante da minha vida, porque quando eu tinha... eu comecei a trabalhar em jornalismo em 1964, trabalhava no Diários Associados, num diário chamado Diário da Noite, que já não existe mais. E nesse Diário da Noite eu conheci uma mulher chamada Donatella Berlendis, que era uma jornalista – eu tinha... isso daí foi em 1964, eu tinha dezenove anos. Mas eu comecei a namorar com ela quando eu tinha mais ou menos vinte, vinte e um... e ela era oito anos mais velha do que eu, ela tinha vinte e oito anos. Então, um rapaz namorando uma mulher de vinte e oito já era uma coisa um pouco escandalosa. Mas havia mais: porque ela foi casada, teve um filho e se separou do marido. Separou-se em condições muito tranquilas, o marido dela era um publicitário, o Tom. E aí começamos a namorar e eu ia dormir na casa dela – ela morava na rua Sabará, então, eu vinha do centro de São Paulo, pegava um ônibus elétrico, subia e descia ali na rua Maranhão e subia a pé até a rua dela, a rua Sabará. Acontece que isso daí era muito mal visto, porque nós não éramos casados, ela era uma mulher separada, e o síndico do prédio impôs uma condição de que eu tinha... quando eu chegava, o porteiro chamava a Donatela, a Donatela descia e aí eu podia subir. Porque eu chegava tarde, eu vinha do jornal, então eu chegava meia-noite, onze horas, por aí. Então ela tinha que descer – isso era só para chatear, para chatear a gente, para mostrar que eles não gostavam daquilo. Quando foi um dia, eu cheguei, e era um dia de Natal, e aí eu fui na casa da minha família e tal, depois eu ia encontrar com ela, eu ia jantar com ela no dia de Natal, e daí o porteiro falou que ele tinha uma ordem do síndico, que nem chamando, nem descendo, que eu não ia entrar, que era uma ordem dele. E daí eu havia reconectado a minha relação com esse meu tio, Gastão Ferreira.

 

P/1 – Que morava aqui em São Paulo.

 

R – Ele morava aqui em São Paulo, tinha recomposto família aqui, tinha filhos aqui, ele estava morando aqui em São Paulo. E ele era delegado de polícia. Ele era delegado da delegacia que fica na rua Marquês de Paranaguá, que pega aquela jurisdição. Então eu liguei para ele e em alguns minutos tinha um monte de viatura com sirene ligada, foi um escândalo! Foi todo mundo para o chamado Páteo do Colégio, que era onde ficava a central de polícia; então, foi o síndico, a mulher do síndico, o porteiro, a minha namorada, a Donatela, eu, tal. Quando chegamos lá, o delegado de plantão falou: “Quem é o sobrinho do Gastão aí?”. Aí fui lá. Ele falou: “O que é que aconteceu?”. Aí contei.  Ele falou: “Mas qual era o problema? O que é que acontecia? Vocês faziam um escândalo lá?”. Eu falei: “Não, não fazia escândalo nada!”. “Mas vocês se agarravam no meio do prédio?”. “Não, não!”. “Então vocês podem ir embora”. Daí eu sei que ele deixou o pessoal de castigo ali até o fim da noite, e aí...

 

P/1 – (risos) Aí, passaram a noite de Natal lá?

 

R – Passaram a noite de Natal na delegacia de polícia lá. E aí eles foram convocados para ir no dia seguinte se apresentar na delegacia do meu tio, Gastão Ferreira, que aí deu uma canseira neles também. Porque ele falava assim: “Mas, escuta, eu não estou entendendo: o que é que o rapaz fazia? Ele gritava?”. “Não, não gritava. Mas é que ele não é casado com ela”. “Sim, mas qual é o problema? Mas o marido dela reclamou?”. “Não.” .“Mas eles faziam o quê? Não, não estou entendendo, volta aqui amanhã de novo”. Eu sei que ele deu uma canseira, até que a mulher do síndico veio me procurar pedindo para “pelo amor de Deus parar com aquilo, que o marido dela era cardíaco, estava passando mal”. E eles pediram para parar. Parou. A partir daí eu chegava, descia na rua Maranhão e, na hora em que eu descia ali, o porteiro, que era um japonês, ficava abanando para eu chegar na casa. Que é uma outra informação de época, que é muito... como essas questões dos costumes, num período de vida... quer dizer, eu já tenho idade, mas eu não estou falando de uma coisa de outros tempos, não é? Eu estou falando da década de 1960, quer dizer, estou falando... eu comecei a trabalhar em 1964,  estou falando de 1965. E como existia esse preconceito em relação à mulher separada, à possibilidade de ter uma pessoa mais jovem namorando outro e tal... era uma coisa muito forte!

 

P/1 – Onde você conheceu essa mulher? No jornal?

 

R – No jornal. Ela era repórter do Diários Associados, a Donatella...

 

P/1 – Só que ela fazia outro horário? Você trabalhava até tarde e ela saía mais cedo...

 

R – Eu fechava o jornal e ela não, ela trabalhava em outras áreas, na área feminina, fazia outras coisas. Fazia reportagem política também. Era uma italiana,  morreu recentemente, era dona de uma editora chamada Berlendis, que era tocada pelo filho dela, um dos filhos. E, bom... nossa, por onde a gente continua agora?

 

P/1 – Ah, porque você contou toda essa história para falar do seu tio, que você estava no Rio e ele saiu andando para comprar cigarro e não voltou mais. E você encontrou...

 

R – E aí é uma história interessante também, por costumes. Porque eu casei... meu primeiro casamento foi com a Edith Elek Machado, que foi jornalista e tal, hoje em dia ela não trabalha mais, mas depois nós tivemos uma vida muito pontilhada com problemas sérios, nós perdemos um filho por falha médica, ela teve câncer, foi um período muito difícil, que se for o caso a gente até conta a respeito disso. Mas aí, às tantas, a gente resolveu se separar, e a minha mãe quando... minha mãe era uma pessoa antiga, nascida em 1906, mas era uma pessoa muito tolerante, uma pessoa muito amorosa, e daí eu contei para ela e ela falou: “Puxa, eu fico triste e tal, que pena, eu gostava tanto da Edith, eu gosto tanto dela e tal, é uma boa mulher e tudo isso... mas vocês são jovens, essa coisa da juventude é assim mesmo hoje em dia. Mas é uma tristeza que me dá!”. E aí eu comentei com ela a respeito das primas dela e das irmãs dela, que todas tinham uma história horrorosa, só que era dentro de padrões da época: era a minha tia que o outro veio embora e saiu andando...

 

P/1 – Mas a culpa não era dela, não é?

 

R – Não, era uma coisa que ele virou um canalha, quando na verdade o que é que acontecia? A pessoa não tinha condição de enfrentar uma situação em que a pessoa não estivesse bem no casamento, não é? Ela tinha uma irmã, a tia Zilda, que  era casada com o Hélio, e aí o Hélio desaparecia de casa, voltava e fazia mais um filho. E desaparecia de novo. Aí voltava, fazia mais um filho e desaparecia de novo. Teve três filhos assim. E que era uma coisa absurda! Era uma coisa... você não pode aceitar uma coisa dessas, é inaceitável, mas as pessoas carregam os padrões de época, porque eu lembro que eu estava comentando com ela e ela falou assim: “Ah, mas o Hélio deixou a Zilda muito bem! Deixou a casa onde ela mora, deixou a pensão dele...”. Como se fosse uma coisa justificável, não é? Depois tinha um outro, que era uma prima dela, irmã da tia Carlice, que era a tia Nancy, que era casada com o Pedro, e o Pedro, sabia-se...  o Pedro sabidamente tinha outra mulher, e tinha outra... tinha casa fora, essas coisas assim. E isso tudo passava: “Ah, o Pedro é terrível”. Mas não se falava, então se passava a vida em uma infelicidade danada porque essas mulheres viviam sozinhas e largadas, e sem que isso se oficializasse de uma maneira saudável. As pessoas se deram mal no casamento, separa, não é?

 

P/1 – Em que ano você casou? Esse primeiro casamento?

 

R – Eu casei em 1967.

 

P/1 – E você se separou logo depois?

 

R – Não, eu separei depois de dezesseis anos de casado.

 

P/1 – Então essa conversa que você teve com ela foi depois, já foi na década de 1970, no final da década de 70...

 

R – Não, pode fazer essa conta: 1967 mais 16, 1983...

 

P/1 – Eu estou péssima de contas! (risos)

 

R – Mas então, essa fase já era uma fase em que supostamente já havia muito mais compreensão dos problemas existenciais do que antes, vinha de um processo de transformações que marcou muito a década de 60, 70. Foi uma época de grandes transformações, mas ainda alguns registros eram muito marcados pelo passado. Era como se tinha... mesmo que você percebesse como era agora, antigamente era de um outro jeito e você carregava aquilo com tudo junto, não é?

 

P/1 – Principalmente uma mulher que na década de 1980 já era uma senhora...

 

R – Já era uma senhora, quer dizer, em 1983 ela tinha setenta e sete anos... Setenta e sete anos em 1983 é muito mais do que hoje. Hoje é quase uma jovem. Com setenta e sete você encontra mulheres atuantes profissionalmente, com outra postura como mulheres, com namorados, com... não é? Antigamente, você com cinquenta já era velho, já tinha roupa diferente, já não podia usar roupa colorida, tinha que usar meia branca só, não podia ter nada, não é? E eu lembro isso muito do colégio em que eu estudei, porque era um colégio que tinha excelentes professores mas tinha alguns códigos de disciplina que eram terríveis. Quando eu estava no curso ginasial para o colegial – equivalente hoje à oitava da passagem para o segundo grau, não é? – você tinha algumas coisas que pensa que surgiu nessa época: o rock and roll, a mudança das vestimentas, dos cabelos. Quer dizer, até então todo mundo usava o cabelo curtinho, era o penteado Príncipe Danilo, não é? Então, de repente, era aquele topetinho de lado, de repente começou a crescer o cabelo, começou a ter... Eram sinais de rebeldia da época. Então, uma das coisas que era sinal de rebeldia era você usar sapato sem meia, e que era proibido no colégio. A outra coisa que era proibido no colégio era usar sapato com meia vermelha – meia vermelha era considerada uma coisa absolutamente insuportável, não é? Outra coisa que os jovens não podiam usar era barba, barba era visto como uma coisa...

 

P/1 – Porque vocês continuaram... aí você não usava mais avental, você não usava mais nada?

 

R – Não, isso era no primário. Do ginásio para cima você podia usar qualquer tipo de roupa que quisesse, não tinha nenhum tipo de uniforme. Mas tinha esses marcos disciplinares que eram absurdos, que chegaram… por exemplo, tem um professor da Unicamp, que é o Alonso, que foi chamado na diretoria porque usava barba. Então ele não podia... e ele não cortou a barba, ele voltou, foi chamado de novo, que aquilo era um ato de indisciplina, então foi suspenso. Aí voltou, não cortou a barba. Aí chamaram o pai dele para uma entrevista, e o pai dele era um desembargador que usava uma barba branca e: “Qual é o problema?”. Então, nós tínhamos uns problemas dessas passagens, que foram problemas que hoje em dia não se tem essa noção de quanto mudou todo o comportamento das pessoas, não é? E todos os critérios, não é? Então, o Rio Branco tinha esse problema da questão disciplinar. De outra parte, era um colégio que cultivava demais os melhores valores educacionais. Então você tinha grandes professores! Eu tive professores fantásticos, como o professor Antônio Salles Campos, que foi um professor de Português que era um professor maravilhoso, não é?! Para você ter uma ideia, naquela época, o curso Clássico... poucos homens faziam o curso Clássico, normalmente os homens iam para as exatas, para o Científico, não é? Para estudar Medicina, Engenharia, essas coisas que eram consideradas mais sérias.

 

P/1 – E você já tinha certeza de que não queria isso?

 

R – Já. Eu queria as Letras, eu gostava de estudar Latim, eu gostava de História, eu gostava de estudar essas coisas. E na minha classe nós tínhamos... nós éramos cinco homens só, no Clássico. Desses, quatro se transformaram em jornalistas: Roberto Pompeu de Toledo, Luiz Roberto Closet, Sebastião Costa Aguiar e eu. Então todos foram encantados pelas Letras, não é? E isso tinha muito a ver com esse ensino que nós tínhamos, que era um professor que fazia um… tratava os alunos de uma maneira muito especial e todas as semanas você tinha que escolher uma coisa que você iria ler em público: então um trecho, uma poesia, um trecho de um livro, ele discutia aquilo com as pessoas. Então, havia um envolvimento com Letras muito especial! E era um colégio realmente de um nível muito elevado, tanto que a maior parte dos alunos entrava nos vestibulares naquela época sem fazer cursinho, não precisava fazer cursinho. Já era uma época em que o cursinho era fundamental. Mas eu não terminei o colégio lá, eu fui até o segundo colegial e daí eu fui estudar num colégio que era daqueles colégios vagabundos que existiam.

 

P/1 – Por que é que aconteceu isso?

 

R – Porque... era um pouco o seguinte: eu tinha uma relação muito forte com o Rio Branco, uma relação muito forte que era dada pelo convívio, tudo isso, mas a presença do meu pai como diretor-superintendente do colégio foi ao mesmo tempo uma coisa que me aprisionava em termos... na minha personalidade. Porque tudo era: “Ah, mas você é o filho do doutor Álvaro”. E ainda que o meu pai sempre falasse que a ordem que ele dava é que não houvesse nenhuma diferenciação entre eu e os outros alunos, e que não devia ter nenhum tipo de proteção, e que, ao contrário, tinha que ser mais rigoroso com os filhos dele do que com os outros, mas era uma coisa que sempre criava um certo mal estar. Eu me recordo, por exemplo, de uma ocasião em que alguns colegas foram suspensos por um ato de indisciplina e que eu não fui suspenso. E daí eu fui reclamar que não tinha sido suspenso.

 

P/1 – Mas você tinha culpa também?

 

R – Tinha, eu tinha menos culpa, mas eu estava com eles. Mas era uma coisa que era ofensiva. Essa minha...

 

P/1 – Era mais ofensivo você não ter sido suspenso?

 

R – É, eu preferia a bronca de ter cometido a indisciplina do que não levar. E aí o diretor de disciplina na época, que era o vice-diretor do colégio, ponderou que eu não tinha a mesma culpa que eles, que ele não estava fazendo porque estava me protegendo, mas porque os outros tinham mais culpa do que eu. E eu falava: “Mas eu estava com eles”. Então tinha um estado assim, tinha uma coisa que... bom, a minha irmã, a Ruth, era diretora da biblioteca, ela era orientadora educacional e diretora da biblioteca. Uma excelente diretora de biblioteca! Isso era uma das coisas que meu pai fez e que ele tinha muito orgulho: de transformar o Rio Branco na melhor biblioteca de colégio que havia em São Paulo. E isso por conta também do diretor, que era um professor de Filosofia, que era um homem fantástico, chamado João Batista Penna. Ele que montou a biblioteca do Rio Branco, que era uma grande biblioteca! Era uma biblioteca com muita qualidade! E a Ruth dirigiu, durante um período, a biblioteca. Ela não era diretora propriamente, mas ela era orientadora educacional e fazia muita coisa. Então aquilo dava um caráter um pouco familiar que, então, de repente, a ideia de ir para um colégio noturno e desvinculado de tudo foi uma ideia libertadora para mim, não é? E eu tinha essa desculpa, porque então eu ia fazer cursinho para Administração de Empresas, que era um cursinho que ficava entre o Científico e o Clássico porque era uma coisa que então eu precisava fazer um cursinho. E aí eu saí, foi uma farra, porque era uma farra no colégio, que era um bandalha. Fui para lá em 1963.

 

 

R – Vou voltar para contar uma historinha só porque tem uma... eu acho que tem uma marca de época que talvez seja interessante. Eu já contei aqui que, na minha casa, eram os meus pais e cinco filhos – três mulheres e dois homens – e que, além das três mulheres, tinha uma quarta mulher, que era uma prima que morou conosco, que veio do Rio de Janeiro e foi criada em casa; então, eram quatro mulheres. E tem uma marca de época que é muito forte na minha lembrança de infância que é a seguinte: naquela época, não havia a indústria de confecção como existe hoje, então, a roupa era feita em casa, não é? Agora, imagina para esse bando de gente o que era fazer roupa para todo mundo, não é? Eu contei aqui, da outra vez, que na minha casa tinha muita festa e então as minhas irmãs foram... que eram, para a época, avançadas, em termos de costumes. Porque elas eram universitárias; elas foram estudar em faculdades; fazer faculdade, que naquela época era raro uma mulher fazer; as duas foram estudar Sociologia... mas elas foram fazer um curso de Corte e Costura, um curso que existiu aqui em São Paulo e que foi um curso de muita... muito importante, era uma coisa muito conhecida em São Paulo, que era o curso da dona Lila. A dona Lila era uma italiana que desenvolveu um sistema de fazer corte de roupa. Então, tinha os moldes, tinha as coisas todas, e um sistema de ensino. E parece que funcionava muito bem, porque as minhas irmãs faziam roupas e faziam coisas. Então, havia na minha casa um hábito constante quando eu era criança – e eu estou falando da época em que morei na Rebouças, na primeira época da minha vida, até os seis, sete anos de idade – que era, no corredor que havia no segundo andar da minha casa, um lugar onde as pessoas ficavam fazendo roupa. Então, a minha mãe, as minhas irmãs, a minha prima...

 

P/1 – Todo mundo foi fazer o curso ou não, só as suas duas irmãs?

 

R - As minhas duas irmãs. A minha mãe já sabia, minha mãe já sabia costurar, mas esse foi um upgrade que as duas tiveram com esse método da dona Lila, não é? Bom, e ali era um estar das coisas da casa; então, até hoje acho que sou um homem feminino muito em função dessas coisas, porque eu ficava muito ali, brincando por ali e ouvindo as conversas, não é? Então, até hoje eu sei os termos todos relativos à costura: uma saia com viés, um redingote, então, todas essas coisas, termos ligados à costura, eram muito presentes na minha vida. E na minha casa também tinha o que a minha mãe, na linguagem de época, chamava... tinha uma costureira que vinha diariamente, que era a costureirinha. Quem era a costureirinha? A costureirinha era a que fazia bainha de roupa, fazia...

 

P/1 – Era que nem uma diarista?

 

R – Era uma diarista que vinha para pregar botão, para apertar ou alargar roupa, fazer esses pequenos consertos, não é? E aos sábados vinha a modista, que era a que vinha para trabalhar com as roupas mais... de maior qualidade. Eu quero só ressaltar que o meu pai não era rico, não é que a modista era uma modista fantástica, mas era um tipo de trabalho que eu acho que desapareceu, assim como estão desaparecendo os alfaiates ao longo do tempo. Esse tipo de profissional havia naquela época. Claro que você tinha os grandes ateliês, você tinha Madame Rosita que, antigamente, era uma grande referência da moda em São Paulo. Mas você tinha essas profissionais que eram pessoas que tinham conhecimento mais apurado de costura, mas que não eram grandes, grandes modistas... mas então tinha essa modista. E outra lembrança de época que para mim é muito forte, que também desapareceu com o tempo, é que havia um produto chamado Toni. Esse Toni era uma coisa que as mulheres colocavam... eram uns papelotes que colocavam com esse Toni para ficar o cabelo crespo, e aquilo tinha um cheiro, tinha um cheiro muito forte, que eu tenho certeza de que as pessoas da minha idade, as pessoas que viveram isso, lembram até hoje. Porque é um cheiro irreprodutível, é uma coisa... tinha um cheiro, tinha um cheiro...

 

P/1 – Que nem líquido de permanente depois?

 

R – Era um liquido de permanente, mas era um produto específico que eu imagino, com a minha lembrança de criança, que fosse um produto muito bem sucedido, que era uma coisa... tinha anúncio dele.

 

P/1 – Todas as mulheres da sua casa usaram isso?

 

R – Ah, todo mundo eu não sei, eu não sei te dizer especificamente, mas eu lembro que aquele cheiro era um cheiro que atravessou esse pedaço da minha vida, não é? Então essa é uma lembrança que eu tenho da minha casa, que é muito constante. Bom, então vamos voltar para onde eu parei porque eu queria contar só essa historinha que eu lembrei e contar também uma outra coisa dessa época. Eu não sei se eu cheguei a falar que eu comecei a nadar muito cedo... Então, e aí em seguida eu estudava no Colégio Rio Branco. E o Colégio Rio Branco ficava na rua Doutor Vila Nova, que é hoje onde você tem o Sesc Anchieta, e você tem um outro prédio, que é da Faculdade de Economia e Administração da USP, na Vila Nova, aquilo tudo era o Colégio Rio Branco. O Colégio Rio Branco tinha... onde tem o Teatro Anchieta era um pátio, era o pátio onde os alunos brincavam e tudo isso. Bom, e o Colégio Rio Branco fez um acordo com um técnico de natação chamado Kenichi Sato. O Kenichi Sato era um grande personagem de São Paulo que viveu durante muitos anos aqui. Ele veio para o Brasil e foi... ele era técnico de natação e foi técnico de natação do Pinheiros, Esporte Clube Pinheiros, e foi dez vezes campeão paulista com o Pinheiros. Mas aí ele era um zen, ele era um poeta, ele era uma pessoa que tinha um conhecimento de artes, era uma pessoa absolutamente fora do padrão. E o Sato fazia um curso de natação que era um curso de férias. Todos os verões ele ficava... de janeiro até início de março ele tinha um curso de natação com dezenas de crianças e adultos também, tinha gente desde pessoas adultas até crianças bem pequenas, que cada uma tinha o seu horário, tinha a sua aula. E aquilo era uma grande atração na minha vida, eu fiz grandes amigos naquela época, são amigos até hoje, são meus amigos até hoje. Você pega, por exemplo, o Ricardo Ohtake. O Ricardo Ohtake fazia parte dessa...

 

P/1 – Você conheceu nas aulas de natação?

 

R – É, ainda com o apelido de Kao – o apelido dele era Kao. O irmão dele, o Rui Ohtake, também grande arquiteto, não é? O Rui Ohtake já era da turma mais velha, que era a turma, por exemplo, em que estava a minha irmã. A minha irmã é Ruth Rocha, escritora, e ela fazia esse curso de natação também nessa época. E o Sato era uma figura, ele tem livro sobre o Sato (Sato, o Poeta Nadador), já escrito, e ele era uma pessoa que trazia ensinamentos e pensamentos. Ele falava com muito sotaque de japonês, e ele me chamava de Alexandro – “Alexandro!”. E aí falava: “Alexandro, gordo!”, ele falava que eu tinha que emagrecer, e tal. E ele falava... ele tinha umas frases, algumas que eu lembro até hoje. Como uma frase que ele dizia, que era a seguinte: “A terra é do fazendeiro, mas a vista é do poeta”. Ele falava coisas desse tipo, então eram coisas... e volta e meia ele se colocava em algumas elucubrações em que ele falava, falava, e não dava para entender porque o Português dele era muito ruim. E ao final ele falava assim... como é que ele falava? Ele falava... ele perguntava se você tinha concordado, se tinha concordado. Eu falava: “Sim, Sato”. Ele falava assim: “No, acho, Alexandro!”. “Acho, Sato!”. Ele falava: “No, Alexandro, no acho!”. Porque ele estava contando uma coisa e não entendia nada, não é? Mas...

 

P/1 – Que era para você dizer que não?

 

R – É, e eu falava que sim. Bom, e assim era com as pessoas. Mas ele era muito amado, ele era uma pessoa que até o fim da vida, até os... ele viveu até os noventa e poucos anos de idade, ele dava também um curso na Faculdade de Medicina, inclusive ele... faculdade lá do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, e queriam fazer até uma estátua dele lá, e ele falou que não queria que fizesse estátua, porque estátua só serve para fazer xixi atrás; ele falou que não queria estátua, não é? E o Sato, nessa época... todas as férias que podia eu ia lá no curso de férias. E ele, às tantas, criou uma instituição chamada Centro Esportivo Bandeirantes. O Centro Esportivo Bandeirantes era uma coisa absolutamente inacreditável, porque era o seguinte... ele falava assim: “O artigo principal do Centro Esportivo Bandeirantes, ninguém manda em ninguém” (risos). Era a primeira coisa. E você, para fazer parte do Centro Esportivo Bandeirantes, tinha que achar que você fazia parte; então, você estava fazendo parte. Era uma coisa assim meio vaga, e muito interessante também. E o Sato é uma história da cidade fantástica, porque ele tinha muitos ensinamentos e eu lembro de uma outra coisa: quando eu entrei na faculdade, fui contar para o Sato que tinha entrado na faculdade...

 

P/1 – Então você ficou bastante tempo?

 

R – Ah, continuei amigo dele, dos filhos, durante toda a vida, não é? Aí, eu falei para ele. E ele falou para mim uma coisa que eu também não esqueço – ele falou assim: “Faculdade bom, importante, mas faculdade cultura segunda mão. Mais importante, Alexandro, é cultura do primeira mão, cultura do observação”. Então, ele saía todos os dias quatro, quatro e pouco da manhã, de casa, para andar pela cidade para olhar as coisas, para olhar as pessoas, para olhar os passarinhos, para olhar as árvores, para olhar... e ele tirava disso ensinamentos interessantes e  refletia muito sobre as coisas, não é? E ele tinha... nesse curso de verão tinha uma coisa também que eu acho que existe uma fita sobre isso, que é o seguinte: ele era um nadador absolutamente excepcional, ele entrava na piscina e nadava, não espirrava uma gota de água, nadava, ele deslizava na água de uma maneira fantástica. E durante todo o curso de férias ele não nadava na frente de ninguém, mas no último dia tinha uma grande festa e era uma festa que tinha... eles  colocavam refrigerantes no fundo da piscina, então, as crianças podiam mergulhar para pegar refrigerante. E depois havia uma exibição de aqualoucos e havia as provas também, tinha competição com medalha. E aí, quando se encerrava isso, tinha um momento solene em que ele nadava, fazia uma ida e volta, então ficava todo mundo em silêncio, ele nadava ida e volta na piscina, com aquela classe, porque com aquilo ele mostrava como é que se nadava efetivamente. Então é uma lembrança...

 

P/1 – Todo ano assim?

 

R – Todo ano assim, todo ano assim, e ele teve isso durante muitos anos. Depois ele saiu do Rio Branco, o Rio Branco foi... saiu de lá, quando o Rio Branco se mudou para a Avenida Higienópolis – devolveu, porque era alugado lá – e aí ele começou a fazer esse curso na Faculdade de Medicina, justamente aí ele emendou na Faculdade de Medicina e fez durante muitos anos lá, ali na... atrás da...

 

P/1 – Sim, que hoje em dia as pessoas chamam de Clubinho.

 

R – Então, no CAOQ(?).

 

P/1 – Isso, no CAOQ(?).

 

R – Então ele continuou fazendo lá, mas aí eu já não fazia porque depois, quando eu fiquei mais velho, passei a viajar todos os anos para o Rio de Janeiro, que era... a grande paixão também que eu sempre tive foi o Rio de Janeiro, porque eu tinha uma vida cercada de muito afeto, de muito amor aqui em casa, e meus pais sempre muito amorosos, minhas irmãs foram... já contei aqui, que eram muito amorosas também, meus irmãos, tudo isso. A gente morava numa casa gostosa, a gente foi morar depois na Granja Viana e o meu pai sempre falava que tinha pena das pessoas que tinham que ir para o clube tal, porque o bom era que tudo acontecesse dentro de casa, porque você é muito mais protegido, você está entre pessoas de que você gosta e que gostam de você, e tudo isso. E isso era uma armadilha afetiva muito difícil de ser tratada por uma criança como eu, porque eu reconhecia nisso a boa fé, o carinho, tudo que meus pais tinham, mas, de repente, eu comecei a ir para o Rio de Janeiro, e eu tinha primos, a minha família é do Rio de Janeiro, e o Rio de Janeiro a vida era toda na rua, era toda uma vida que, para mim, era uma atração fantástica, não é? Porque a minha mãe tinha regras da hora que você tomava sol, tinha hora de alimentação, tinha uma vida muito organizada aqui, e tudo fazia sentido, tudo muito correto. No Rio de Janeiro eu tinha primos da minha idade que saíam e iam jogar futebol de salão com aquele calor do Rio, começavam a jogar às oito horas da manhã e iam até às três da tarde, ficavam roxos de sol e tal, felizes da vida e ficavam na rua porque a turma se encontrava na rua e ficava batendo papo na rua até oito horas da noite, nas férias, não é? Então, você ficava até tarde na rua e, com isso, eu fui me afeiçoando muito ao Rio de Janeiro, que é uma paixão que eu tenho até hoje, é um lugar onde eu talvez me sinta... Eu gosto de São Paulo, mas o lugar onde me sinto melhor é no Rio de Janeiro. Quando eu vou para o Rio de Janeiro... agora não tenho mais aquela coisa que tinha antigamente, porque agora tem os fingers, no aeroporto Santos Dumont, mas era uma coisa para mim muito prazerosa quando eu ia para o Rio, eu gostava, na saída do avião, ficar na porta do avião, porque quando abria aquela porta vinha aquele bafo quente do Rio de Janeiro, aquele cheiro de mar misturado com cheiro de fumaça de aviação, que eu ficava numa alegria... falava: “cheguei em casa, estou em casa”.

 

P/1 – Você voltou a morar lá depois?

 

R – Morei, morei lá. Morei lá duas vezes. Morei lá num período em que fui diretor de jornalismo da TV Educativa do Rio, e num outro período – que foi agora mais recente, foi de 1999 até... 1998, acho, até 2001, 2002. Fui trabalhar na Petrobras lá, nesse período, e cuidava da parte de comunicação da Petrobras, tá? Bom, então voltando ao fio da história, eu estava no Colégio das Bandeiras, não é isso?

 

P/1 – Que você contou que escolheu estudar lá justamente para se livrar um pouco das amarras...

 

R – Exatamente, das amarras da história do meu pai ser diretor do colégio e também porque eu tinha essa vontade de andar pelo mundo, não é? E isso se transformou numa vida de muita boemia, porque o pessoal... Era um colégio em que eu estudava à noite, então você saía e todo mundo ia sair para a noite, para beber, para fazer as coisas que se faziam à noite, não é? 

 

P/1 – E você ainda estava na Granja Viana?

 

R – Eu estava na Granja Viana ainda, mas eu estava já... meus pais já estavam voltando para cá, mantiveram a Granja Viana.

 

P/1 – É, aí você falou daquele apartamento que você tinha na...

 

R – Que tinha na Consolação, mas depois eles voltaram mesmo, nessa altura... eu estou falando de 1963; 1963 os meus pais já estavam, eu acho... já tinham voltado, eles mantiveram a casa como casa de fim de semana e vieram morar no Bairro de Higienópolis, na Rua Martinico Prado. E aí eu já estava morando aqui em São Paulo já, já tinha voltado para São Paulo. Bom, nesse período, estava uma bagunça, aquele negócio, e eu tinha uma absoluta falta de noção do que eu pretendia da minha vida. Então, fiquei entre a Faculdade de Direito e a Faculdade de Administração da Getúlio Vargas. Primeiro eu fiz o exame na Faculdade de Direito, que até hoje eu não consegui entender o que aconteceu porque eu era bom aluno – não era um grande aluno, mas eu estava muito preparado – e justamente eu não consegui a nota na prova que eu acho que fiz a melhor prova de todas, que foi a prova de História. Porque, durante esse período de adolescente, na minha casa se lia muito, e uma das coisas que marcou muito a minha adolescência, essa minha meninice aí, é que existia um folhetim chamado Cavaleiro de Pardagnan, que era um folhetim escrito por um escritor francês, Michel Delacourt, e esse folhetim... o Michel Delacourt é anterior ao Alexandre Dumas. Então era um capa e espada, era uma história desse cavaleiro Pardagnan em que a história do folhetim era uma história fantasiosa, uma história bem alucinada, de capa e espada, mas cruzava com os fatos históricos de época. Então, os fatos históricos eram verdadeiros. De tempos em tempos saía mais um episódio da série do cavaleiro de Pardagnan. O meu pai trazia, lia primeiro, aí depois passava para as minhas irmãs, “na, na, na”, e depois passava para mim. Então todo mundo lia e esse trabalho, essa curtição desse livro, me deu um domínio de um período da história da França, que é absolutamente desproporcional ao que se aprende nas escolas. Porque eu sabia detalhes das coisas, de cada coisa que tinha acontecido na história da França e tal, durante um período grande da época da guerra dos três Henriques, época da Catarina de Médici; e essas coisas eu sabia em detalhes: quem era casado com quem; quantos filhos; quem é que morreu primeiro; quem é que tomou o trono do outro; eu sabia tudo. E caiu numa prova de História que eu fiz na Faculdade de Direito uma coisa justamente sobre a guerra dos três Henriques, e eu fiz uma coisa que era para responder um pouquinho, eu respondi em, sei lá, duas páginas. Eu fiquei escrevendo, escrevendo, escrevendo, escrevendo, escrevendo, escrevendo, escrevendo, escrevendo, e não sei se é porque a minha letra era feia... porque quando era garoto, eu era canhoto. E, no primeiro ano primário, a professora do colégio me propôs que eu mudasse para a mão direita. E eu topei, porque ela me propôs um presente, que ela ia me dar um presente – eu achei legal essa história e fui aprender a escrever com a mão direita, que, aliás, eu ganhei de presente um porquinho da índia que ela me deu e que foi comido, no dia seguinte, por um gato do vizinho. Foi o trauma da minha vida, um trauma muito pesado da minha vida, que até hoje...

 

P/1 – Para uma mudança tão radical, hein, que é mudar de...

 

R – É, e que é uma coisa hoje em dia absurda, ninguém aceita, é uma coisa que é perigosa inclusive. A pessoa pode ter problemas de gagueira, pode ter problema de perda de orientação, pode ter um monte de coisa, eu acho até que a minha loucura, em parte, tem a ver com esse processo, mas eu sou...

 

P/1 – E hoje em dia você é o que? Você...

 

R – Eu sou destro, eu sou destro. Até o Ginásio eu fui mais ou menos escrevendo com as duas, eu fui ambidestro, fazia muito... gostava de desenhar com as duas juntas e tal, mas depois acabei ficando... mas eu sempre tive a letra muito feia e, talvez por causa disso... não sei se foi por isso, não sei por que foi, sei que passei no exame da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, mas não obtive classificação, e a nota ruim que tive foi a nota justamente dessa prova, tá? Bom, aí eu não fui… então, a minha turma toda foi para a Faculdade de Direito – os meus amigos, que estudavam comigo – e aí eu fui então fazer... no meio do ano tinha o exame da Fundação Getúlio Vargas, estava começando a Escola de Administração de Empresas, era uma coisa moderníssima...

 

P/1 – Você só prestou São Francisco?

 

R – Só São Francisco. Aí eu fui fazer... então fui fazer cursinho para a Getúlio Vargas e tal, e eu era, nos simulados do cursinho – era o cursinho que eu fazia na rua Augusta, eram alunos já da FGV – e eu era assim um dos, sei lá, cinco melhores alunos do cursinho, dos simulados que eram feitos e tal. Até que chegou às tantas eu fui fazer o exame e, na parte de Matemática simplesmente me deu um claro, um bloqueio e eu não consegui lembrar de nada. Eu não consegui e fiz um exame péssimo, consegui uma nota mínima de Matemática, mas eu passei, fiquei como excedente... na época havia essa figura do excedente. E depois, mais tarde, eu fui entender que aquilo... esse bloqueio tinha a ver com o fato de que eu não tinha o menor interesse naquilo ali, era uma coisa que estava muito torta na minha vida. E aí, passa um tempo, a minha vida universitária foi muito problemática, porque aí depois então eu prestei... antes eu prestei um exame e entrei na Faculdade de Economia, e me aconteceu a mesma coisa – eu tive ótimas notas, mas na hora de fazer o exame oral que havia naquela época, de Matemática, eu não lembrava das coisas, simplesmente. E o cara falava assim: “Mas você tem notas ótimas, propõe o problema, não sei o que lá. Faz o que você quiser para eu te dar uma nota mínima!”. Nada, não vinha nada. Daí eu fui fazer...aí nessa altura da vida eu tinha hábitos pessoais muito caros, porque eu gostava da noite, saía, bebia, eu era da noite, não é? E o meu pai começou a achar que eu estava ficando caro, porque eu pedia dinheiro para ele, pedia dinheiro para ele, pedia dinheiro para ele, pedia dinheiro para ele, e ele falou: “Não posso, não posso te dar tanto dinheiro, você tem que dar um jeito na tua vida!”. Porque eu estava meio entre parênteses ali, não é? Aí eu falei: “Bom, então eu vou trabalhar, quero trabalhar”. “E quer o quê?” .“Eu quero ser jornalista”. Mas isso era uma convicção muito pequena que eu tinha, de que gostasse disso. Só que teve uma época em que um cunhado meu, marido da Ruth Rocha, Eduardo Lousada Rocha, conseguiu a concessão da revista do Clube Pinheiros. E eu fui ajudá-lo a fazer a revista. Então, eu ia lá para ajudar, de farra. E, também, no Colégio Rio Branco, onde eu estudei até o segundo colegial, eu fazia uma revista que era chamada Rio Branco, que é uma revista que eu tenho até essa revista ainda, e que nessa revista os meus colaboradores, os meus colaboradores, nós fazíamos juntos... tinha o Roberto Pompeu de Toledo, que é da Veja hoje...

 

P/1 – Que você falou que era o seu colega, foi seu colega no Clássico.

 

R – Por falar nisso eu tenho um exemplar do Rio Branco, e tem uma poesia do João Saad, que hoje é presidente da Fundação Padre Anchieta, tem uma porção de gente que participava disso; então, eu tinha alguma vivência de mexer com revista e tal. Falei: “Bom, quero ser jornalista”. E o meu pai era médico do presidente do Diários Associados da época, Edmundo Monteiro – o Diários Associados era aquela Organização do Assis Chateaubriand, e o responsável por São Paulo chamava-se Edmundo Monteiro. O Diários Associados era o que é equivalente hoje à Globo, porque tinha a TV Tupi, tinha a rádio Tupi, rádio Difusora, tinha o Jornal Diário de São Paulo, tinha o Diário da Noite, era uma Organização muito grande... tinha O Cruzeiro, tinha jornais pelo Brasil inteiro, tinha uma agência de notícias própria, chamada Meridional, enfim, era uma Organização enorme, superbagunçada, era uma confusão, era uma coisa caótica, mas muito poderosa. E aí ele falou: “Bom, se você quiser eu falo com o Edmundo para ver se ele arranja alguma coisa para você”. E aí ele: “Você quer trabalhar com que área?”. Eu falei: “Eu quero trabalhar com futebol, não é?”. Porque eu achei que era a coisa que eu sabia mais, eu gostava muito de futebol. E ele falou: “Tá bom, falo com o Edmundo Monteiro”. O Edmundo Monteiro me colocou como estagiário na redação do Diário da Noite. Na minha primeira reportagem me mandaram entrevistar uns juvenis do Corinthians. Então, era um grupo de juvenis que tinha um centroavante chamado Osmar; um zagueiro chamado Mendes; um quarto-zagueiro chamado Batista; tinha um ponta-direita chamado Sérgio Echigo – que depois virou milionário no Japão – e tinha um meia chamado Roberto Rivelino, que deu a primeira entrevista dele para mim. E foi a minha primeira entrevista também. Uma coisa banal, porque era um grupo, não estava falando com o Rivelino, estava falando com esse grupo todo...

 

P/1 – Que eram uns meninos?

 

R – Eram uns meninos, que eram do juvenil do Corinthians. E comecei a trabalhar como jornalista no Diários Associados, no Diário da Noite, fazendo futebol. E, apesar de ser são-paulino, a minha tarefa era cobrir o Corinthians, porque era um jornal popular...

 

P/1 – Castigo!

 

R – Ah, para mim era uma farra, não é?

 

P/1 – E você não mudou de time nem assim?

 

R – De forma alguma. Sou são-paulino. Você sabe que eu sempre brinco que  sempre tive vontade de fazer uma tatuagem, mas nunca fiz. Bom, primeiro porque não era da minha tribo mesmo, não é? Apesar de eu ter muitos amigos tatuados, mas outra coisa que é difícil de você estabelecer são as coisas definitivas, não é? E as coisas que para mim são definitivas, são muito bregas para fazer tatuagem. Uma delas é o escudo do São Paulo, porque a coisa mais brega do mundo é você fazer uma tatuagem do seu time, não é? Mas então, era o escudo do São Paulo, a cara dos meus filhos, a foto da minha mãe, o meu avô, não é? (risos). Ficaria uma coisa meio esquisita. Mas aí eu cobria o Corinthians e trabalhava com uma equipe que era influente no jornalismo popular na época. Então, tinha o editor do jornal, que era um cara chamado Antonio Guzman, que era o editor de esporte e que tinha uma coluna chamada 20 notícias, uma coluna que tinha muita repercussão no meio do esporte. E ele era um cara que brigava com o presidente do Corinthians, com o diretor do Palmeiras, então era uma coisa muito viva essa coluna do 20 notícias, do Antonio Guzman. E ele era o chefe da coisa. E aí você vai por fim se acostumando com aquilo, com aquele trabalho, fui aprendendo a fazer, trabalhava com um cara que era muito amigo do Pelé, então, era uma coisa... era um jornalista negro, o que era raro naquela época  o Odair Pimentel, muito amigo do Pelé e que faleceu muito cedo, coitado – o Odair morreu de câncer muito jovem ainda, uns quarenta e poucos anos de idade. E aí eu, nessa coisa de fazer futebol, comecei a andar, viajar com os times, conhecer o interior de São Paulo, porque tinha Campeonato Paulista na época, era uma coisa muito importante e tal, você ia para todas as cidades do interior. E havia uma diferença muito grande de época entre o que fosse uma cidade do interior e a Capital, não é? Uma distância muito grande de conhecimento, as pessoas do interior eram muito ingênuas, eram muito bobas. E eu lembro de uma história de um repórter da TV Tupi, chamado Juarez Soares, depois foi vereador, foi militante em política e tudo isso. Porque a gente era jovem, então uma das atrações que tinha no interior era a zona, a zona de prostituição, porque era o lugar mais importante da cidade do interior – era a zona, não é?

 

P/1 – Mais poderoso, não é?

 

R – É. Então o Juarez fazia isso em todas as cidades onde ele ia: ele chegava para o cara e falava assim: “Por favor, o senhor podia me informar onde é que fica a casa do padre?”. “Pois não, a casa do padre fica ali, ali, ali”. “Ah, não brinca, a casa do padre fica do lado da zona?”. O cara falava: “Não, a  zona fica ali, tal e tal”. “Brigado!” (risos). E ia para a zona. Então, andava pelo interior, era uma farra, porque eu era um garoto, tinha... fui trabalhar lá, comecei a trabalhar como jornalista com dezoito anos de idade, não é? E aí andava, viajava, ia para vários lugares, principalmente interior de São Paulo, tal, viaja muito, não é? E fiz uma carreira muito rápida, porque com pouco tempo, sei lá, seis, oito meses, eu fui promovido a subsecretário do jornal. Então, tinha o secretário de redação e ele tinha vários secretários – subsecretário geral; subsecretário de polícia, que era o forte do jornal, não é? E aí eu fui chamado e acabei virando subsecretário do jornal. Subsecretário do jornal e, inclusive, convivi, nesse período, com... porque aí aposentou-se o subsecretário de polícia, que era um velho já, daqueles caras malandros, que sabia tudo, era um velhinho chamado Erasmo Trielli. E aí ele se aposentou antes que se colocasse um novo subsecretário de polícia, eu fiquei respondendo pela subsecretaria. E eu trabalhava com alguns dos repórteres policiais mais famosos da época em São Paulo, que era...

 

P/1 – Que era um gênero na época que era forte.

 

R – Fortíssimo, muito forte, não é? Então, no Diário da Noite, trabalhavam, por exemplo, o Nelson Gato, que era uma figura mítica, porque o Nelson Gato... eu comecei a trabalhar lá em 1964 e o Nelson Gato pouco antes ele foi... ele era responsável pela área eu acho que era de portos, de contrabando, de contrabando, que ele cuidava no Governo Federal em São Paulo, que era o governo do João Goulart. E aí, quando aconteceu o golpe de 1964, aqueles que eram os caras chaves do governo começaram a ser presos, não é? E ele teve um episódio que foi muito famoso, porque ele foi para... ele estava no prédio da Telefônica e ligou para o Comando do Segundo Exército para avisar, para pedir orientações e avisar o general Amaury Kruel, o comandante do Segundo Exército, sem saber que o Amaury Kruel tinha traído o João Goulart e estava do lado do golpe. E aí o Amaury Kruel mandou prendê-lo, e ele saiu pelo prédio da Telefônica e subiu pelo teto e ficou fugindo pelos telhados dos prédios da 7 de Abril...

 

P/1 – Onde era? Na 7 de Abril?

 

R – Na 7 de Abril.

 

P/1 – Onde foi muito tempo.

 

R – O Diários Associados, por exemplo, ele estava no prédio em frente da Telefônica...

 

P/1 – Não, a Telefônica foi, porque depois que virou Telesp continuou na 7 de Abril.

 

R – Exatamente, está naquele prédio, e ele ficou lá, não é? Então levou –  não lembro quanto tempo –  mas horas, horas e mais horas, até que ele fosse preso. Aí, ele foi preso, ficou preso um tempão, não é? Outro repórter que era lendário da reportagem policial era um repórter chamado Orlando Criscuolo. Orlando Criscuolo era um grande repórter e, naquela época, o grande repórter tinha uma relação muito próxima com a polícia. O repórter e polícia eram mais ou menos a mesma coisa e não primava muito pela honestidade, nem mesmo pela correção dos fatos, muita história era cascateada e tal, não é? E o Orlando Criscuolo era uma figura. E ele era importantíssimo dentro... até recentemente o meu filho, que é diretor da Cosac Naify – meu filho é diretor editorial mas está trabalhando na Piauí – ele esteve às voltas com o Orlando Criscuolo, porque o Orlando Criscuolo ficou de posse de uma máscara mortuária do Assis Chateaubriand, que é uma peça que ele estava tentando localizar e tal. Depois, o Criscuolo morreu. E, nessa época, a redação do Diários Associados era uma coisa absolutamente... eu lamento profundamente não ter tido a oportunidade de documentar o que... a redação do Diários Associados era uma das coisas mais malucas já vistas, acho que na história. Porque eram... na mesma redação você tinha o Diário da Noite, que era um jornal policial, esportivo, era um jornal popular – tinha primeira, segunda edição – e tinha o Diário de São Paulo, que era um jornal voltado mais para a aristocracia do interior. O Diário de São Paulo foi, durante muito tempo, numa época em que as tiragens eram muito pequenas, ele tinha tiragens de cem mil exemplares, quer dizer, era uma coisa enorme para a época, e com assinantes. Tanto que a marca do Diários Associados era a frota que o Diário Associados tinha, que era enorme, e quando chegava a hora em que começava a sair o Diário de São Paulo saía aquela frota que ia para o interior todo, para distribuir o jornal por todo o interior de São Paulo. E, junto, você tinha também o “Grande Jornal Falado Tupi”, que ficava dentro da redação que era desse... como é que chama essa rua aí que vai para Osasco? Rua Coriolano, como é que é? Corifeu de Azevedo Marques, que era um velhinho e tal, que tem um episódio lindo que eu vivi com ele também, não é? No primeiro ano em que trabalhei lá,  fui escalado para cobrir a São Silvestre. E aí, no dia 31, eu, distraído, fui para a redação ao invés de ir para a Cásper Líbero – porque a corrida saía da Cásper Líbero, onde era a antiga Gazeta, não é? Gazeta Esportiva, a Gazeta, então fui para a redação sem me dar conta de que não tinha ninguém; se tinha era na redação.

 

P/1 – Porque era meia noite mesmo, não é?

 

R – É, fui mais cedo, devia ser umas nove horas, dez horas, nove horas da noite, sei lá, oito, não lembro que horas eram. E aí eu chego, e era uma redação enorme – uma redação enorme – que tinha só um conjunto de luzes que estavam acesas e estava o Corifeu de Azevedo Marques, que é uma história que eu estou contando aqui e não sei se... porque é uma coisa que eu não sei o quanto é sigiloso isso, mas aconteceu comigo...

 

P/1 – Só tinha umas luzes acesas...

 

R – Então... e lá estavam o Corifeu de Azevedo Marques, que era um velhinho, pequenininho, junto com uma amiga, eu não sei qual era a relação que eles tinham, mas estavam os dois tomando um champagne, sozinhos, na redação do Diários. E aí eles me chamaram para tomar junto com eles, e eu era um garoto, tinha uns dezoito anos de idade, dezenove, sentei ali com aquele cara que era uma lenda do rádio, não é? Que fazia o Grande Jornal Falado Tupi, ele tinha uma voz meio fina assim, muito forte, marcante, e sentei ali morto de vergonha, não é? Primeiro, por não ter previsto que a redação estivesse vazia; segundo, por estar ali com aquele homem; terceiro, porque estava sendo invasivo naquela hora, que era uma hora, presumivelmente, de intimidade, não é? Bom, e estou ali, peguei um copo – esses copinhos de plástico, sei lá – e ali tomando um champagne, mas  louco para cair fora quando, num gesto grandiloquente, abre a porta – pow – o Edmundo Monteiro fazendo uma visita à redação, que ele também não tinha ideia de que não tinha ninguém. E aí ficamos nós quatro: o Edmundo Monteiro, o Corifeu de Azevedo Marques, a amiga do Corifeu e eu, tomando um champagne. Aí eu saí correndo e fui embora – é o episódio. Outro episódio fantástico, que se repetiu várias vezes, é que durante esse período os jornalistas e polícias do jornal Diários Associados tinham influência muito grande e uma vivência muito grande no mundo do crime, no mundo dos bandidos, da polícia, uma coisa, uma convivência toda muito pouco... muito próxima, não é? E aí havia um grande ladrão em São Paulo chamado Gino Amleto Meneghetti, ele era o famoso ladrão que andava pelos telhados e que fazia roubos de joias e tal. E ele era amigo do Criscuolo; então, as poucas vezes que o Amleto Meneghetti, que o Meneghetti saía da cadeia, porque ele passou, somados, cerca de quarenta anos na solitária – a história dele é fantástica – ele ia visitar o Diários Associados. Então, eu conheci pessoalmente, nessa coisa, o Meneghetti. E o Meneghetti era uma pessoa tão famosa na época, que era... o nome Meneghetti virou sinônimo de ladrão – “Ó, ô Meneguetti!”. “Ó, ô Meneguetão!” – se falava na época. Porque o Meneghetti  era uma figura que tinha essa força, não é? Outra história que eu vivi lá – porque eu tenho várias histórias com o Meneghetti, que até contei para o meu filho, meu filho até está pensando em fazer uma biografia do Meneghetti – mas outra história que eu tive lá também era uma coisa que só quem é da época é que lembra o que foi uma coisa chamado “crime do rio Pinheiros”. O crime do rio Pinheiros foi o seguinte: um repórter que tinha lá, um repórter louco de pedra, pessoa genial, malucão, chamado Chico Neto. O Chico Neto, um dia, passava pela ponte do rio Pinheiros, e o rio Pinheiros, na época, era uma coisa distante, era um lugar... não tinha casa, era um descampadão que tinha aquela ponte que ligava a Raposo Tavares, que era uma coisa que começava ali e que era a estrada que levava para Curitiba, que levava para todos os lugares, onde depois surgiu a Régis Bittencourt, surgiu...

 

P/1 – Mas era a única saída?

 

R – Era a única saída. Mas não tinha nada por lá, era um lugar... o Instituto Butantan era uma chácara Flora, quer dizer, aquela rua Vital Brasil você tinha uma coisa que, quando eu era criança, eu fui... o meu pai estava começando a construir a casa na Granja Viana e eu assisti uma coisa, que era uma coisa fantástica que tinha, porque ali tinha... antes da Vital Brasil, tinha a paineira, tinha uma paineira enorme, que existiu durante não sei quantos anos; depois acabou aquela paineira, mas era uma enorme de uma paineira, e aí tinha a Vital Brasil. Na Vital Brasil, o meu pai ia sempre fazer compras num lugar chamado depósito Tamoio, que existe até hoje. E aí, próximo ao depósito Tamoio, você tinha vários hotéis, que eram hotéis que recebiam os porqueiros. O que eram os porqueiros? Os porqueiros eram os caras que vinham do interior com caminhões, com engradados de madeira, e que traziam os porcos todos uns em cima dos outros, apertados. Eles vinham do interior e, quando chegavam nesses hotéis, os hotéis tinham uns chiqueiros, onde o caminhão parava, dava uma ré, parava, abria e os porcos saíam esbaforidos dali de dentro, eles estavam todos apertados lá dentro, sem comer, sem beber. E ali tinha alimentação e água, porque aí os porcos ficavam comendo um dia, dois dias, para pegar corpo, para engordar. E eles faziam as viagens, iam transportando os porcos aos poucos. E eu ia muito, muitas vezes parava ali para ficar olhando, e era uma coisa que eu nunca vi registro dessa história, que é uma história tão fantástica, não é? E que é uma história de São Paulo. Mas, então, voltando ao Chico Neto, ali era uma região que tinha muita neblina, pela falta de casa, porque tinha muita árvore e tinha muita neblina, era uma lugar meio misterioso, meio... você passava, havia pouca iluminação. E o Chico Neto atropelou um cachorro. Ele atropelou o cachorro, parou, olhou que tinha atropelado o cachorro, passou a mão no cachorro, esfregou o cachorro na ponte e jogou o cachorro no rio. E aí voltou com uma história do crime do rio Pinheiros, que era uma história que tinha um crime, que tinha um mistério e ele, até que viesse o exame desse sangue para descobrir que era o sangue de cachorro... e as autoridades policiais não puderam contar que era sangue de cachorro porque elas já estavam comprometidas na investigação e já tinham dado entrevistas, e aí começaram a achar que era uma coisa, uma briga de uns chineses. Então, que tinha uns chineses... que tinha uma briga entre chineses, e aí a polícia começou a interrogar os chineses. E o Chico Neto, então, com esse negócio...

 

P/1 – A história já estava muito longa para eles voltarem atrás?

 

R – É, então eles não podiam voltar atrás; essa daí tem registro no Diários, não sei onde que está a coleção do Diários, mas tem, era uma história… aí começou... começou um negócio de procurar, porque havia uns chineses que moravam na Liberdade, junto com os japoneses, e que aí teria uma máfia dos chineses. Foi uma história maluca que o Chico Neto, que era um bandalho, achava graça em tudo. Bom, nesse cenário todo, eu tinha uma... eu gostava muito de beber, não é? E uma lembrança que eu tenho, de algo que me aconteceu, é a seguinte: que teve um dia que o Guzman queria ir embora cedo e não sei o que lá, e ele falava assim: “Escuta, você fecha as vinte para mim?”. Eu dizia: “Fecho, e tal”.

 

P/1 – Que horas você saía de lá?

 

R – Eu saía tipo dez, onze horas da noite, não é? Falei: “Claro que fecho, e tal”. E ele falou: “Ah, está tudo meio encaminhado, só precisa fazer uma ou outra nota, e tal”. As matérias já estavam todas escritas, então tinha que fazer a paginação e fechar, não é? E aí eu desci, tinha uns bares ali embaixo da 7 de Abril, e aí tinha um, era aniversário de um cara da gráfica e eu fui; e aí ele me ofereceu um vinho,  ele estava oferecendo, era um vinho Capelinha, que era um vinho muito ruim, muito popular. E eu não gostava de tomar vinho, mas achei que seria indelicado não tomar vinho com o cara; e comecei a tomar vinho com ele. Eu sei que tomei um pileque que acabei indo embora, esqueci de fechar o jornal, fui embora. E eu estou contando isso só para ver como é que funcionava aquele negócio, que era uma coisa completamente fora do esquadro. No dia seguinte, fiquei na dúvida se voltava para pedir desculpas e tal, ou se nem ia lá, não é? Porque era um absurdo. Quando eu acordei, falei: “Puts, não fechei a porta, fui embora, deixei as matérias tudo na gaveta, e fui embora”.

 

P/1 – E aí?

 

R – E aí quando eu cheguei, o porteiro, meio assim desinteressado, disse: “Ô, Alexandre, o Aderbal quer falar com você”. O Aderbal era o chefe de redação. Falei: “Vou lá”. Resignado, não é? Aí eu entrei, e o Aderbal era um cara espalhafatoso, falou: “Alexandre faz muito tempo que eu não me divertia tanto”. Falei: “Pô, tá de sacanagem comigo”. Vem uma porrada daqui a pouco. E ele falou: “Não, porque eu meti o pau no presidente do Corinthians”. Ele era corinthiano, o presidente era o Wadih Helu, ele deu uma cacetada no técnico, não sei o que lá, contou essa história. E aí é isso aí. Aí, eu estava saindo, ele falou: “Ó, da próxima vez que você fizer um negócio desses, você avisa – que você não vai fechar. Sacanagem, pô, você não avisar!” (risos).

 

P/1 – E ficou por isso?

 

R – Ficou por isso. A bagunça na redação do Diários Associados era tamanha que, às tantas, descobriu-se que tinha um cara que tinha... que montou um escritório de advocacia dentro da redação. Ele tinha uma mesa, que era do doutor fulano, e como tinha vários jornais e rádio, ninguém sabia direito o que as pessoas estavam fazendo lá. E o Diários tinha muitos funcionários fantasmas, os caras que recebiam e você não sabia, havia pessoas apaniguadas. A Organização era muito grande, e pessoas que iam bater, ponto que você nunca tinha visto aquelas pessoas, então, era uma bagunça, não é? E aí um dia descobriram que tinha um cara, que era advogado, que... e eu conhecia o cara, era o doutor fulano, sabia que tinha o doutor fulano. E quando chegavam as pessoas para falar com o doutor fulano, o porteiro sabia quem era o doutor fulano. Dizia: “Doutor fulano, a pessoa quer falar com o senhor”. “Ah, pode entrar, não sei o que lá”. Mandava servir um cafezinho e tal. E descobriu-se que ele passou anos fazendo isso, não é? Então, outra história de que o Diários Associados era um lugar fantástico, e se eu tiver um pouco de tempo eu conto duzentas histórias como essa...

 

P/1 – Alexandre, como chamavam os bares na época ali embaixo? Os mais assim... você não lembra?

 

R – Tinha um que...

 

P/1 – Galeria Metrópole já tinha?

 

R – A Galeria Metrópole estava começando. Um pouco depois, quando eu fui trabalhar no Jornal da Tarde, foi a época... 1967... foi quando começou a Galeria Metrópole.

 

P/ 1 – Ah, eu achei que ela era anterior, por conta até do visual dela.

 

R – Não, não, ela era acho que... mas tinha os bares que eram os botequins, porque aquela região era uma região da cidade em que todo mundo trabalhava lá, não é? O centro da cidade era o centro da cidade, quer dizer, era considerado... ali era considerado o centro novo. O centro velho era a área da Praça da Sé, João Mendes, tudo isso que migrou, às tantas. Porque a história de São Paulo é uma história de criação e abandono, não é? Vai destruindo e reconstruindo outra coisa. Então, depois que saiu do centro novo foi para a Avenida Paulista, foi para… e foi largando tudo para trás, não é? Vai largando tudo, não é? E aquela era a época em que o centro de trabalho de São Paulo era: 7 de Abril, Barão de Itapetininga, 24 de Maio, Dom José de Barros, Marconi; era onde tudo acontecia na cidade. A Avenida São Luís era a avenida mais chique que tinha em São Paulo, até contei aqui que quando meu pai... quando ele vendeu a casa da Avenida Rebouças, ele tinha plano de morar no Copan, que era um projeto do Oscar Niemeyer, que era uma coisa que era para ser um lugar muito chique que tinha ali, não é? Depois é que deteriorou o centro e o Copam levou muitos anos para ser construído, não ficou com essa mesma imagem. Mas a São Luís, a Barão de Itapetininga, eram os lugares onde tinha as lojas mais elegantes de São Paulo. E a São Luís tinha coisas que eram marcos da cidade como, por exemplo, a agência da Air France, que durou muitos anos e que era um prédio muito elegante, até hoje é um prédio muito bonito, e que fica ali no centro...

 

P/1 – E a Panair.

 

R – A Panair eu não lembro onde é que era. Mas então, o nome dos...

 

P/1 – Não, não tem problema, pega de onde você...

 

R – Tinha um que eu deveria lembrar, que era o que ficava bem em frente ao Diários, porque o Diários na época...

 

P/1 – E que, imagina, uma redação e aí você tem uma concentração de...

 

R – Mas tinha um botequim na esquina da Marconi com a 7 de Abril que era um botequim onde todo mundo ia beber, que acho que não tinha nem nome, acho que era um botequim que tinha o nome do cara, nem lembro, não lembro não. Mas tinha um, na frente, que tinha nome e todo mundo vivia ali, quer dizer, tinha um bar muito elegante que ficava na Praça Dom José Gaspar, a praça da biblioteca, que era um bar chamado Pari Bar.

 

P/1 – Que eles reabriram agora?

 

R – Reabriram agora, não é? E perto do Pari Bar tinha um outro lugar que era muito bacana, chamado Cremerie, que era... chamava Leiteria Paulista, era Cremerie, e que era um lugar de lanches e tal, e que era um lugar também... ali tinha lojas...

 

P/1 – Onde iam as senhoras assim... uma coisa...

 

R – Era aberto, tinha... era aberto, ia todo mundo, mas era um lugar de boa qualidade, com bons produtos e tal, não é? E ali, da Dom José de Barros até a 7 de Abril, eram lojas de muita qualidade, eram lojas de roupa masculina e tal, lojas elegantes, não é? Tinha uma camisaria, Aurélio, que era uma coisa assim muito bacana; tinha uma outra que chamava... é uma que, depois, teve durante muitos anos na Rua Augusta, que era uma... que vendia malha de cashmere; tinha... era um lugar muito elegante ali, não é? Mas ali embaixo, na coisa do Diários Associados, o Diários Associados tinha uma outra coisa, tinha uma participação muito grande na cidade. É que a apuração das eleições era no saguão do Diários Associados. O saguão do Diários Associados era um local onde aconteciam grandes eventos; aconteceu, por exemplo, quando teve na época do golpe – aquela campanha do “ouro para o bem do Brasil”, que foi toda feita ali. Outra coisa que aconteceu e que depois saiu de moda, mas que acontecia de vez em quando, é que tinha uma coisa que volta e meia tinha um faquir, um faquir que desafiava... aquele de bater o recorde de fome; então, colocava a urna do faquir no saguão do Diários Associados. Tinha um faquir chamado Silk, que era um grande faquir da época, aparecia no O Cruzeiro e tal, e ele fazia as provas dele no Diários Associados.

 

P/1 – Aí, toda manhã você chegava e tinha um...

 

R – Não, cada...

 

P/1 – Tinha um homem morrendo de fome?

 

R – Não, isso acontecia de tempos em tempos, outra hora eram as apurações, outra hora era campanha, sempre tinha um grande evento no saguão do Diários dos Associados, não é? E naquela época a apuração, que era “a marcha das apurações”, não é? Que é como se chamava em todos os jornais. Falavam: “A marcha das apurações”. Porque demorava muito, eram votos manuais e que vinham do interior. Então, tinha umas lousas nesse salão do saguão do Diários Associados e que você tinha cidades; então, os caras subiam numas escadas para anotar o resultado que chegava: chegou o resultado de Botucatu, então ia lá...

 

P/1 – E aí ficava toda a imprensa de todos os ... e tal, ficava todo mundo ali?

 

R – Ficava todo mundo, era um lugar bem importante na vida da cidade.

 

P/1 – Quanto tempo você ficou lá?

 

R – Eu fiquei de 1964 até 1966 para 1967, quando fui trabalhar no Jornal da Tarde, que estava surgindo. O Jornal da Tarde surgiu em 1966, primeiro como uma edição de esportes do Estado de São Paulo. Então, foi para lá o Mino Carta e começou a fazer isso. Era o Mino Carta, o Mesquita que tomava conta desse projeto – o Carlão Mesquita – que foi um dos Mesquita que morreu cedo, porque ele era um cara que bebia muito, que era boêmio, não sei o que lá, um cara muito boa gente, Carlão muito querido. E ele... e deram esse projeto para o Carlão e quem tocou o projeto foi o Mino Carta. E o Mino Carta... De 1966 para 1967 nasceu o Jornal da Tarde, que foi um dos projetos mais importantes da história do jornalismo brasileiro, que mudou, inovou em tudo, inovou na paginação, inovou no texto, inovou no tipo, na forma de fazer jornalismo, foi uma coisa completamente nova. E a formação da redação do Jornal da Tarde foi uma formação também diferente da habitual, porque ao invés de começar com pessoas que não tivessem experiência, eles foram garimpando em veículos de Minas, do Rio, do Rio Grande do Sul, talentos do jornalismo, não é? Então, era o secretário de redação, que era o segundo – era o Murilo Felisberto, que morreu cerca de uns três anos – que era um grande jornalista, um jornalista que tinha... ele era um grande diretor de arte, o Murilo foi a alma do jornal, na criação do desenho do jornal, junto com o Mino Carta, que também já era um jornalista importante, que já vinha de sucessos na Editora Abril. Ele fez a Quatro Rodas, na Editora Abril. Mais tarde ele fez a Veja. Ele foi um dos jornalistas que mais criou no Brasil, não é? Mino Carta, que hoje tem a revista dele, que já não é tão importante assim, mas foi ele quem fez a Veja, foi ele quem fez a IstoÉ, ele quem fez o Jornal da República. E na época, ele era um jornalista assim... era um cara muito diferenciado porque tinha uma cultura artística muito grande, o Mino era muito voltado para a questão da arte; então, ele tinha um apuro visual muito grande, não é? Junto com o Mino Carta e o Murilo Felisberto vieram o Fernando Mitre, diretor da Bandeirantes hoje; o Ivan Ângelo, que também é escritor; o Carlos Chagas, que agora não trabalha mais com jornalismo, mas que é um grande jornalista que trabalha na Veja também há muitos anos.

 

P/1 – E você foi convidado...

 

R – É, eu fui convidado, vindo do Diários Associados, em função do meu trabalho como jornalista esportivo. Eu já não era mais, dentro do Diário da Noite, jornalista esportivo, eu já estava trabalhando na subsecretaria, era subsecretário, mas havia a memória dos meus trabalhos, porque eu, como jornalista esportivo, cobri, por exemplo, toda a fase de preparação da Seleção Brasileira que foi para a Copa do Mundo de 1966. Então alguém falou, quer dizer, foi um negócio de boca a boca, e eu fui para uma equipe de esportes que era uma equipe fantástica, era uma equipe que tinha alguns jornalistas de alta qualidade, que o chefe, o editor, era um talento que morreu alguns anos atrás, coitado, o Hamilton de Almeida Filho, que foi um grande jornalista e que morreu de Aids por conta de uma contaminação de transfusão de sangue. Tinha o Sérgio Pompeu, que era também um grande jornalista, irmão do Renato Pompeu, que é um grande escritor, um grande jornalista, trabalhou comigo muitos anos na Veja depois. E aí eu voltei a fazer esporte, Jornal da Tarde, junto com o Vital Batalha, um grande jornalista também, o José Maria de Aquino... era uma equipe, todas as pessoas que trabalhavam no Jornal da Tarde naquela época... eu era um iniciante, era da turma... não era foca, mas era da turma que ganhava menos e tal. Mas eram todos talentos, eram todos jornalistas já do ramo, e jovens dispostos a fazer. E todos eles privilegiaram muito a questão do texto, então, você tinha que escrever bem, você tinha grandes copy desks também, que faziam também... reescreviam as matérias, e eram grandes histórias que se faziam; então, você tinha coberturas de páginas e páginas. Se você tinha um grande acontecimento, você mandava três fotógrafos com uma equipe de oito pessoas, era uma loucura, nós éramos assim os Beatles e os Rolling Stones na época, porque a gente chegava nos lugares com todas as condições. O Estado de São Paulo tinha poder, tinha grana naquela época, e apostou, e pagou. Uma época de jornalismo que eu acho que em poucos lugares... acho que, no Brasil, foram pouquíssimas as ocasiões em que aconteceram coisas equivalentes ao que aconteceu com o Jornal da Tarde. E ganhava todos os prêmios, ganhava todo Prêmio Esso, ganhava tudo, não é? E lá eu trabalhei. Mas, antes, só queria contar que, na época em que eu estava no Diários Associados tem um episódio que eu queria contar. Porque, quando já estava trabalhando como subsecretário eu fiz... eu comecei a namorar uma moça, chamada Donatella Berlendis...

 

P/1 – Você contou.

 

R – Contei?

 

P/1 – A história do porteiro?

 

R – Contei a história do porteiro, ah então está bom.

 

P/1 – É ótima essa história.

 

R – Então está bom. Então, faz parte desse contexto do Diários Associados. E só mais uma história que eu queria contar do Diários Associados, é que tinha... o Diário da Noite era o jornal popular, mas tinha uma seção de Literatura, não é? E a seção de Literatura estava a cargo de um senhor, que era um senhor elegantíssimo, de cabelinho branco, que usava gravata borboleta, chegava impecavelmente lá e trazia a coluna dele, entregava, cumprimentava as pessoas todas e ia embora. E era uma pessoa muito respeitada lá, uma pessoa muito querida lá, e era um homem de grande saber, tudo isso. Bom, às tantas, eu não lembro em que circunstância, mas foi a Donatella até que me contou, por isso que eu lembrei agora dessa história, descobriram que o Herculano, que era esse cara, ele tirava xerox, ele tirava, fazia com carbono, e ele repetia um monte de vezes as mesmas crônicas. E nunca ninguém percebeu que ele tinha colocado aquilo lá, que ele já tinha publicado determinadas coisas três, quatro, cinco vezes. E ele vinha com aquela cara séria, de um homem probo e tal, e entregava aquela coisa que era a mesma coisa sempre, não é?

 

P/1 – Porque acho que ninguém dava bola para essa parte do jornal.

 

R – Ninguém lia, chegava, olhava o tamanho, desce e ninguém lia, os leitores não liam, ninguém lia e ficava por isso mesmo. Mas é uma história interessante também. Mas aí eu fui trabalhar num lugar completamente diferente, que era o auge do profissionalismo, o auge da graça, o auge do sucesso, do espanto que foi para o jornalismo todo. Eu lembro que mesmo o Diários, quando surgiu a edição de Esportes, mexeu tanto com a... até com o jornal bagunçado como aquele, que o Diários começou a fazer até uma edição de Esportes aos domingos, e aí era uma loucura, porque a tecnologia da época era uma coisa doida, não é? Precisava de telefone e tinha que passar, aí descobriram que, às tantas, tinham comprado um equipamento que era para passar radiofoto. Então, começaram a usar esses equipamentos que estavam lá jogados num canto do Diários para fazer as fotos do interior chegarem à São Paulo a tempo de você poder publicar. Então, a gente competia com a rapidez da edição de esportes do Estadão, que começou a ganhar tudo, eles ganhavam, eles tinham uma estrutura profissional, porque aí os jornalistas já iam com máquinas de escrever, já iam escrevendo durante o jogo de futebol, e aquilo já era passado por telefone, aquilo na época era rapidíssimo.

 

P/1 – Como se fosse um laptop?

 

R – Como se fosse um laptop, páá, de antigamente. Mas eu sei que esse tipo de coisa hoje não se faz mais com todo o avanço tecnológico, você não tinha... você terminava jogo de futebol às seis horas da tarde, sete horas você tinha uma edição com todos os jogos, com fotografia, com texto, com tudo dos jogos, não é? E o que o Diários fazia de uma forma absolutamente artesanal, maluca, e os motoristas que vinham do interior com as fotos eram uns loucos varridos, o Diários tinha umas peruas Rural Willis, e os caras tomavam altos...

 

P/1 – Que as estradas eram péssimas...

 

R – E os caras tomavam altos pileques, vinham que nem uns doidos a cento e sessenta quilômetros por hora, eram uns doidos, e era uma coisa alucinada. O Estado de São Paulo fazia de uma forma ordenada, fazia de uma forma profissional, com uma tecnologia que havia na época, não é? E aí eu fui trabalhar lá no Jornal da Tarde e fiquei trabalhando lá. Quando eu comecei a falar dessa história, estava contando da... eu contei da Donatella...

 

P/1 – E a Donatella, você continuou namorando?

 

R – Eu fiquei com ela durante... até eu ir trabalhar no Jornal da Tarde. E nesse período em que eu estava com ela, às tantas, ela resolveu que ia fazer exame para a Faculdade de Direito no Mackenzie. E eu estava meio à toa, só trabalhando no jornal, e tinha um amigo, um cara que estudou comigo no colégio, que foi presidente do Centro Acadêmico, um alucinado, que era o Luiz Roberto Alves Ferreira – tinha o apelido de Luiz Carimbo. Ele tinha esse apelido de Luiz Carimbo porque era um cara voltado para a burocracia. Ele foi presidente do Grêmio, a primeira coisa que fez foi comprar caixas de carimbos, por isso que ele ficou... tudo tinha um carimbo diferente. E o Carimbo falou para mim assim: “Não, vamos fazer esse exame aí, e tal”. Porque a Donatella ia fazer o exame para Direito do Mackenzie. Aí eu falei: “Pô, não tenho saco para fazer papelada”. Ele falou: “Eu faço tudo”. Ele tinha espírito de despachante, de burocrata e tal. E aí eu fui lá fazer exame e entrei na Faculdade de Direito, e fui estudar Direito. Mas fiquei pouco tempo porque era de manhã e eu trabalhava à noite, e era difícil isso, não é? E aí, no Jornal da Tarde, fui para lá. Aí, meu namoro com a Donatella terminou quando conheci uma jovem repórter chamada Edith Elek, que é mãe dos meus filhos e com quem eu comecei a namorar. Então, eu e a Donatella terminamos, comecei a namorar com a Edith. E aí foi um namoro assim muito forte, muito intenso, eu casei com ela seis meses depois de conhecê-la.

 

P/1 – Olha! Quantos anos você tinha?

 

R – Eu tinha vinte e dois...

 

P/1 – E ela também era jovem?

 

R – Ela também vinte e dois. E ela era uma figura assim que, na época, era um espanto. Porque você tinha, na redação do Estado de São Paulo, três mulheres, quatro: você tinha a Bruna Benfeluti, que era uma tradutora; você tinha a Hilda, que era uma cartunista, que foi uma cartunista muito importante do Estado de São Paulo; você tinha a Maria Cecília Mesquita, que era dona do jornal, e você tinha a Maria Lúcia Fragata, que era a editora do suplemento feminino. Mas, na redação mesmo, como repórter, não tinha nenhuma repórter, e a Edith foi trabalhar lá porque a família dela era amiga de um articulista do jornal O Estado de São Paulo, que era um padre chamado Nicolas Bouer, um padre húngaro que era do colégio Santo Américo, um cara de linha muito próxima dos Mesquita e que facilitou a entrada da Edith...

 

P/1 – E como era? Como que ela foi recebida?

 

R – Ah, era um espanto...

 

P/1 – Porque era um ambiente bastante machista...

 

R – Supermachista, e ela era uma jovem... a Edith era muito alta, tinha umas pernas muito bonitas e, naquela época, época da minissaia, ela aparecia com minissaia e era um espanto completo, era uma coisa, e ela recebia carta de amor e as pessoas ficavam alucinadas com aquela mulher lá. O Jornal da Tarde já começou a trazer mulheres, já era uma visão diferente, já era uma coisa que tinha muito mais mulher no Jornal da Tarde, mas, no Estadão... ela era a única repórter do Estadão. Então era uma coisa assim muito, muito... e aí eu fiquei namorando com ela, mas aí eu não aguentava mais fazer esporte, eu não aguentava mais, eu não tinha saco para falar com jogador de futebol, já estava... e eu não conseguia mudar de seção. E aí, quando a gente resolveu... e eu entrei também nessa, depois de ter feito um pouco da Faculdade de Direito no Mackenzie, eu... aliás, eu contei uma coisa errada: não era a Donatella que ia fazer, o Carimbo que me levou para fazer Direito no Mackenzie; a Donatella me levou para fazer exame foi na primeira turma da ECA, primeira turma da ECA. Então, ela ia fazer junto comigo, nós fizemos o vestibular – ela não fez o vestibular, eu acabei fazendo – e eu entrei. E conheci a Edith ao mesmo tempo na faculdade, e eu no Jornal da Tarde e ela no Estadão...

 

P/1 – Porque ela fazia ECA...

 

R – Na primeira turma, da mesma turma. Essa minha turma, uma turma que teve alguns jornalistas que seguiram adiante: teve o Ricardo Cocha, que era dessa turma; o Tom Camargo; o Armando Sarem, que já morreu... tinha algumas pessoas que prosseguiram. Mas era a primeira turma da ECA. E daí a gente começava... a gente se encontrava de manhã na faculdade e ela ia trabalhar, à tarde, no Estadão. E eu entrava à noite no Jornal da Tarde, não é? Ou entrava à tarde, mas ia até de noite. Então, um namoro assim muito intenso e muito difícil de compatibilizar os horários, porque você não tinha hora para namorar propriamente, não é? E, naquela época, era uma época tão atrasada que não existia ainda a instituição do motel. Então, isso impunha uma dificuldade para a vida dos namorados.

 

P/1 – E você estava morando com os seus pais ainda?

 

R – Eu tinha voltado, porque eu morava com a Donatella na casa dela, quer dizer, a minha casa...

 

P/1 – Ah, você chegou a morar com a Donatella?

 

R – É, a minha casa, quer dizer, meus pais, moravam em Higienópolis. E a minha residência oficial era na casa dos meus pais, mas eu dormia... eu dormia sempre na casa dela, ficava quase o tempo todo com ela. Quando terminamos o namoro eu voltei para a casa dos meus pais, e a Edith morava com os pais dela, na Rua Amauri  – um lugar que já foi demolido, onde alargou a Faria Lima, e tal. Bom, aí a gente tinha uma dificuldade para namorar, era difícil namorar naquelas circunstâncias, a gente não tinha hora para ficar junto, não é? E, naquela época, havia uma rigidez muito grande, eu lembro uma vez que a minha... a mãe dela, que depois se transformou na minha sogra, fez um escândalo porque nós ficamos fazendo um trabalho para a faculdade à noite e o meu carro ficou na porta da casa, então, ela achou que os vizinhos todos iam achar que eu estava dormindo lá. Então, era um escândalo. Hoje em dia, a gente não tem noção de como isso era uma coisa grave na época, de como isso aí movimentava as mentes das pessoas. E aí nos encaminhamos então para o casamento, fomos para o casamento, e, nesse meio tempo, eu estava trabalhando no Jornal da Tarde, estava cansado com o negócio de futebol, surgiu na minha vida o seguinte: a minha irmã Hilda tinha uma cunhada chamada Marion, que era casada com um inglês chamado Michael Stom, que era dono de uma empresa de distribuição de filmes para a televisão. Ele distribuía as séries todas mais importantes da televisão na época, que eram a Missão Impossível, Maniacs, Big Valley, Startrack - Jornada nas Estrelas, Os Intocáveis, I Love Lucy, ele era distribuidor de todos esses filmes. E ele tinha filhos muito pequenos ainda, e sugeriu que eu fosse trabalhar com ele para ganhar dinheiro. Ele ganhava muito dinheiro, a vida inteira foi um homem muito rico, ganhou muito dinheiro com isso, com esse negócio. E aí eu resolvi tentar a minha vida, porque estava querendo casar, então eu resolvi ir trabalhar com ele e larguei o jornalismo. Fui trabalhar, e passei a ser vendedor de filmes para televisão, que foi uma vivência também muito diferente do que se possa imaginar que seja hoje, porque naquela época ainda não havia rede de televisão mesmo. Por exemplo, a Tupi tinha a Tupi São Paulo e a TV Tupi Rio, eram emissoras que tinham direções completamente à parte, e a Tupi de São Paulo era dirigida... o diretor artístico era o Cassiano Gabus Mendes, que tinha como segundo o Walter Foster, que ficou famoso por ter sido o galã que deu o primeiro beijo da televisão brasileira na Vida Alves, não é? E no Rio de Janeiro o diretor artístico era um cara chamado José Rabal, que tinha como segundo o Geraldo Casé, que é pai da Regina Casé. E a TV Tupi do Rio ficava no prédio do Cassino da Urca, não é? E as emissoras todas eram isoladas: você tinha em São Paulo a representação da emissora de Curitiba, da emissora de Londrina, da emissora do Recife, você tinha algumas empresas que eram representações, que representavam mais do que uma emissora. Tinha outras que era só o escritório daquela emissora, e eu era o vendedor.

 

P/1 – Daí você tinha que ir em cada um...

 

R – Tinha em cada um... eu tinha os clientes. Quer dizer, o Michael ficava só com os grandes negócios, com as emissoras de São Paulo – de São Paulo, fundamentalmente – e quando tinha São Paulo e Rio como uma compra conjunta, ele que vendia. Depois surgiu a TV Excelsior, que foi a primeira a negociar a compra dos filmes em pacotes, não é?

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