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História

Com o gado é preciso ser valente

História de: Bertino Gomes da Cruz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/12/2010

Sinopse

Neste depoimento, Seu Bertino fala sobre sua infância em Juruti, quando tinha a presença forte e protetora de seus pais. Sua mãe, como diz, foi sua professora, incentivando ele e seus irmãos a lerem toda noite, à luz de velas, após um dia de trabalho com a roça e o gado. Seu pai os ensinou toda a cultura do gado - que Bertino nos mostra aqui um pouco - da pesca e da mandioca. Além disso, foi um exímio contador de histórias e causos, além de um fabricador de canoas. Como podemos ver aqui, foi a pedra angular de Bertino na construção de sua própria família. Além disso, Bertino nos fala do cotidiano da pecuária: a criação, vacinação, transporte, alimentação, venda e até os momentos de relação afetiva com o gado. Também vemos em seu depoimento o seu casamento, as festas, brincadeiras e lendas da região de Juruti, interior do Pará. Ao fim, Seu Bertino nos fala sobre a importância da preservação ambienal, o valor de se contar uma história e, finalmente, seus sonhos para o futuro.

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História completa

 

P/1 – Senhor Bertino, o senhor nos diz o seu nome completo.

 

R – Bertino Gomes da Cruz.

 

P/1 – Quando o senhor nasceu?

 

R – Cinco de setembro de 1928.

 

P/1 – Onde?

 

R – Em Juruti.

 

P/1 – Juruti. E seus pais? O nome deles.

 

R – Ademar Gomes da Cruz e Honorata Almeida da Cruz.

 

P/1 – Eles trabalhavam com o quê?

 

R – Eles eram agricultores.

 

P/1 – Fala um pouquinho deles.

 

R – Eles trabalhavam em roça, em agricultura, essas coisas. Naquele tempo do atraso, era o único trabalho que o povo jurutiense aderia, era agricultura, trabalhar em roça. O produto era farinha de mandioca, mas meu pai sempre foi agricultor e pecuarista. Trabalhava na roça, mas nós tínhamos o gado, tínhamos retiro, fornecíamos carne, o leite e era uma beleza, sabe? A vida rural é uma vida fantástica. Por aí, nós fomos nos criando. A educação naquela época é como você disse. Meu pai foi nosso professor. Homem exemplar e deixou para nós exemplos de um bom cidadão. Não devia pra ninguém, não roubava nada de ninguém, trabalhava pra não ser pesado a ninguém. Esse foi o exemplo que ele nos deixou. É por essa razão que eu lhe digo: “Quem quiser tomar uma sugestão, venha aí.” Essa mocidade ia ver... Eu, na idade que estou, 83 anos, tenho uma longa história de minhas experiências que posso contar às pessoas e dar uma sugestão. Eu deixo um caminho exemplar. Eu criei 12 filhos, casei com uma mulher que é minha mulher até os dias de hoje. Eduquei meus filhos, hoje, são todos formados, um sargento, outros são cantores, dois são cantores, são diáconos da igreja, uma família exemplar. Tem outros que são empregados, um empregado na Bertolini. Esse que chegou agora está empregado na Camargo Correa, lá em Jirau. Mas, por aí, na minha infância, sempre, o meu maior aprendizado foi o trabalho. Olha, você vê essas terras por aqui, todos dizem: "eu quero ser o dono de tudo", mas por quê? Porque de todos, eu comprei. Comprei e paguei. Sabe de quantos eu comprei? De 13 pessoas. Todos vinham: “Olha, compra minha terra?” Só que eu comprei, tudo eu comprei. Então, eu sou um exemplo para todos, não devo pra ninguém. Tenho um patrão. Compro só de um e não compro além do que eu posso pagar. Quando eu chego lá, eu pago aí ele me dá guaraná: “Eita rapaz...”

 

P/1 – Como assim, comprar de um patrão?

 

R – Eu compro a prazo. A senhora não conhece o Santana de Juruti, conhece o Santana? Pois ele é meu patrão. Quando eu não tenho, eu vou lá e compro toda despesa, quando eu tiro o meu dinheiro e pago, compro de novo. Então, o meu trabalho até agora, com essa idade, é a pecuária. Eu tirei dinheiro do banco, paguei o banco, sempre pagava antes do tempo, gerente achava graça, dizia: “Mas senhor Bertino, o senhor é muito apressado.” “Não. Comigo é assim.” Aí o que ele dizia: “Senhor Bertino, o banco está a sua disposição, a hora que o senhor precisar...” Só que agora eu não posso mais fazer isso por causa da minha idade, meu filho trabalha com isso. Mas é besteira deles porque eu posso pagar. Então por ai. Agora, a história de Juruti é uma história antiga, complicada.

 

P/1 – Antes de falar dessa história, senhor Bertino, o senhor falou do seu pai. E da sua mãe?

 

R – A minha mãe também. A minha mãe é uma mulher que não deixava... Nos criamos juntos, era um exemplo. Tem um ditado que diz assim: “Tal mãe, tal filha”.

 

P/1 – Que lembrança que o senhor tem dela?

 

R – Hoje, minha irmã, a lembrança é que a gente nem pode dizer, porque a saudade... Ela faleceu em Óbidos.

 

P/1 – Sei.

 

R – Naquele tempo, era mais atrasado. Quando a levei ao médico, o médico também já morreu, ele disse: “Olha, rapaz, não adianta mais, não tem mais jeito.”

 

P/1 – O senhor já era adulto?

 

R – Já. Já era casado e tinha a primeira filha. E, olha, ela era um exemplo. As mães de hoje não exercem os cinco padrões que uma mãe tem. Primeiro, a mãe é a professora da sua casa. Segundo, a mãe é profeta da sua casa. Terceiro, a mãe é o exemplo. Quarto, a mãe constrói a família. Agora deu pra entender? As mães de hoje, não. Quem tem a responsabilidade de ensinar os filhos é a professora e a mãe acha que não está sob a responsabilidade dela. Mas enquanto a melhor professora é a mãe.

 

P/1 – O senhor se lembra de algumas coisas que ela falava para o senhor?

 

R – Ih! É por isso que eu sou feliz.

 

P/1 – É? Então conta pra mim.

 

R – Olha, quando eu fui casar, ela dizia-me assim: “Meu filho, procura uma moça. Não case com mulher solteira, nem com viúva porque a mulher solteira está acostumada com uns e outros e a viúva porque o primeiro marido já a criou e pra você a acostumá-la no seu costume dá problema. Procure uma moça de família.”

 

P/1 – Como é uma mulher solteira? É diferente da moça?

 

R – A mulher solteira é a mulher da vida. Deu pra entender? Pois é. Mulher solteira é com esse, é com aquele. Tá solteira, não tem embaraço, né? Deu pra entender. Agora a viúva...

 

P/1 – E a moça?

 

R – A moça não. A moça casou e o marido vai criá-la no costume. Aí eu fui, pedi a moça... Só que na minha idade, o conselho da minha mãe era este: “Meu filho, respeita tua noiva porque o casamento abençoado por Deus é o casamento de honra, é você casar com uma moça. Respeite sua noiva. Depois de casado sim, ela é a sua mulher, aí sim.” Hoje não.

 

P/1 – E quando foi que o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – Quando eu a enxerguei e ela me enxergou, não teve jeito. Eu fui noivo três vezes e não deu certo.

 

P/1 – Com outras moças?

 

R – Com outras moças. Agora, e nunca prejudiquei minhas noivas. Eu a enxerguei, ela me enxergou, não teve jeito.

 

P/1 – Aonde foi?

 

R – Foi aqui em Juriti mesmo. Ela é filha de Juruti. Foi de vontade de pai, de mãe da minha parte, dos irmãos, do pai dela. O pai dela, a mãe dela... O pai dela era meu pai, era minha mãe e minha mãe e meu pai eram... Meus cunhados são meus irmãos, nós somos uma família unida. Quando nós nos encontramos: “Ô cunhado, eita.” Aquela alegria, viu? Outra coisa, a professora, como mãe, cria seus filhos. A nossa professora que era a mãe dizia assim: “Olha meu filho, não brigue com seu irmão. Se você brigar com seu irmão, você vai ser um brigador, você vai brigar com outro lá fora. Não brigue.” E, nessa parte, eu criei meus filhos. Segundo, os irmãos devem ser amigos uns dos outros. Se, um exemplo, irmãos que são inimigos, e aí? Como é que vão viver juntos?

 

P/1 – Quantos irmãos o senhor tem?

 

R – Eu tenho cinco.

 

P/1 – Cinco.

 

R – Mas olha, tem um que chora, quando eu não vou visitá-lo... Tem outro que quando ele vem aqui: “Ô meu irmão...” E a gente se abraça. Outro morreu em Manaus, desejava muito que eu fosse lá, mas eu não pude ir. Então, a união da família é que faz a felicidade de ser uma família feliz.

 

P/1 – Vocês eram cinco irmãos?

 

R – Cinco irmãos e duas irmãs. Nós éramos sete.

 

P/1 – Vocês eram sete?

 

R – Sete. Olha, pois eu falei que a mãe é a professora. Minha mãe chamava: “Olha, vem cá minha filha.” Ela cortava o pano: “Agora, venha costurar.” Ia a menina. Olha, não demorou e elas estavam fazendo calcinha. Hoje, uma mora em Santarém e é do que ela vive? É de costura, é uma grande costureira. Ela fazia: “Vem cá. Vem cá” e fazer. Depois, elas já faziam igual, igual. Porque é a professora... Hoje não. A nova era mudou tudo, pra lá que quando vê uma queixa da professora a mãe ainda fica brava: “Ah, só porque é meu filho... É por isso... É porque é minha filha...”. A culpa está em casa.

 

P/1 – Senhor Bertino, a sua mãe ensina a costurar?

 

R – Costura tudo, tudo. Lava a roupa. Chamava: “Vem cá. Venha, vou arrumar a roupinha.” Se ela dizia: “Olha, um dia, vocês vão ter a casa de vocês. Um dia, vocês vão ter o marido de vocês. Um dia, vocês vão ser donas de casa.” Deu pra entender?

 

P/1 – Deu. E os homens aprendiam com que mais? Além desses ensinamentos com sua mãe que o senhor falou sobre o trabalho...

 

R – Com o pai.

 

P/1 – O que o senhor aprendeu com o seu pai?

 

R – Olha, naquele tempo, os filhos eram obedientes: “Vamos.” “Vamos.” “Vamos fazer.” “Vamos fazer.” “Vamos ver o gado.” Nós íamos ver o gado.

 

P/1 – Conta pra gente, senhor Bertino, desde que o senhor se lembra, como era o dia-a-dia do senhor e seus irmãos com seu pai?

 

R – O dia-a-dia com nosso pai?

 

P/1 – Quando o senhor era criança.

 

R – Era de noite. De noite, ele sentava, deitava na rede, ele contava uma história, aquelas histórias. Por meio daquelas histórias, ele dava uma lição pra nós.

 

P/1 – O senhor se lembra de alguma?

 

R – Ele contava história de Camões... Ele também era um homem instruído e contava as histórias de imperadores, histórias assim... Sempre ele contava aquelas histórias. E olha, quando ele chamava a gente e aconselhava... “Papai dê licença...” E veja bem como era: “Papai dê licença pra nós irmos à festa?” “Onde?” “Lá na casa do Fulano.” “Ele convidou vocês?” (risos) “Vocês são convidados? Como é que vocês vão se vocês não são convidados? A gente só vai onde convidam a gente porque quem convida se responsabiliza pela gente e quando você chega lá você não é convidado, seria enxotado de lá e tem razão.” “Não papai...”. Aí, ele deixava. Chegava lá: “Mas fale com o dono, fale com o dono.” Olha, veja bem como os filhos da antiguidade eram assim, chegava lá, fuxicava lá, na tua brincadeira. “Brincadeira não. O caso é sério”. A gente falava assim: “Brincadeira? Aqui não é brincadeira, aqui o caso é sério”. Era festa, tinha que respeitar. Então, ele aconselhava.

 

P/1 – O senhor se lembra de alguma história que marcou assim quando ele contava?

 

R – Bem... Não. Essa história, até hoje, esse exemplo eu dei para os meus filhos, eu não os deixava ficar de casa em casa, só se fosse mandado ou se fosse convidado. Era assim que meu pai dava: “Jeová, vai levar para o pai...” Por exemplo, “Vai lá, não demora.” Chegava lá, dava e... “Já chegou já papai, já chegou.” Bem mandado. Ele dizia assim: “Quem é mal mandado em casa, lá aonde você chega você é mal mandado. Se você é preguiçoso em casa, lá aonde você chega você é preguiçoso e ninguém vai gostar. Se você for bem mandado, você for esperto, lá aonde você chega, você chega encontra paz, você encontra amor, você encontra... Porque todo mundo gosta. É por essa razão. Olha, está aqui o sargento. O sargento quando eu chego lá no exército ele disse: “Papai, o que eu aprendi em casa, me serviu lá no exército.” Quando era cinco horas da manhã, eu disse: “Olha, vocês querem beber leite? Vão tirar.” Eles já iam para a beira do curral, cinco horas da manhã, pra soltar o gado cedo, já pra lá já estavam tomando leite, já estavam lá, tiravam o leite. Então, nesse costume, meus filhos estão. Outra coisa, não deixe sua filha dormir até dez horas. Por quê? Porque ela não vai prestar pra ser uma empregada, ela vai chegar fora de hora, vai perder o emprego. Acorde cedo. Além disso, acordar cedo é saúde, é movimento, principalmente quem está na fase de crescimento... Porque ninguém podia parar, ninguém para. Então, foi um exemplo que eu deixei. Aprendi com meus pais e ensinei para os meus filhos: “Não mexa. Chegue à casa da pessoa, não mexa. Não mexa.” Olha, eu tinha uma filha que ela ficava, a primeira filha, se a senhora desse uma coisa pra ela, ela não pegava. Ela pegava na mão da mãe dela, era a mãe dela que pegava e dava pra ela. Chega em casa, tá mexendo pra cá, tá mexendo pra ali, depois vai na casa do vizinho, tá trazendo as coisas do vizinho. Tá vendo? Tudo... Mas...

 

P/1 – Senhor Bertino, e o senhor falou que encontrava mais seu pai à noite...

 

R – É. À noite. Papai...

 

P/1 – E durante o dia o que vocês faziam? 

 

R – Durante o dia, nós estávamos no trabalho, na horta. Olhe, no trabalho...

 

P/1 – O senhor e seus irmãos?

 

R – No trabalho, a gente não podia conversar, palestrar. É coisa e tal, trabalhava. Chegava a noite, então... Porque ele era homem que nunca gostou de trabalhar forçado. Dava quatro, cinco horas, tomava banho. Agora o almoço, nunca ele deixou a gente ir trabalhar com fome. É prejuízo trabalhar com fome, é prejuízo, se tivesse ia trabalhar, senão ia procurar ter um trabalho. Ele gostava de quem comesse bem, mas que trabalhasse também.

 

P/1 – E o senhor trabalhava com ele quando o senhor era criança?

 

R – Trabalhava.

 

P/1 – Conta um pouco como era?

 

R – Olha, era na roça. Hoje a senhora procura farinha, aqui tanta gente tá passando fome, porque não quer trabalhar mais.

 

P/1 – E como era lá quando o senhor trabalhava com ele na farinha? Ou na roça?

 

R – Na farinha, nós tínhamos... Na roça, tudo bem tratado. A roça pra dar resultado tem que ser tratada, planta limpa, viu? Eu tirei dinheiro do banco pra fazer roça, pra derribada, plantio, limpeza e colheita. Faz o roçado, planta, limpa bem, paga gente pra limpar, se não limpar não presta, o serrado toma conta, fica tudo feio. Na colheita, a mesma coisa, estar limpa a colheita, tudo bem limpo. Fiz o empréstimo no banco, o senhor Wilson, um camarada muito... Eu sou conhecido também... “Pra quando o senhor quer, senhor Bertino? Eu quero pra quatro, quatro hectares.” “Faça cinco pra sobrar para o senhor.” Tirei, paguei gente, fizemos. Com 12 sacas, eu paguei o banco, ainda ficou roça aqui... (risos) Ele achava graça.

 

P/1 – Isso foi quanto, senhor Bertino?

 

R – Olha, 1965, por aí. Agora, o banco mudou, se não tiver avalista... E ninguém quer ser avalista.

 

 

P/1 – O senhor falou que agora o senhor não pode mais pegar empréstimo?

 

R – Não. Por causa da idade. Meu filho trabalha nisso, o Amaral trabalha nisso. Eu não posso fazer por causa da idade, acham que o velho não pode mais pagar o banco... Mas é besteira deles.

 

P/1 – Senhor Bertino, eu vou voltar um pouquinho pra sua infância, ainda tem muita coisa pra contar.

 

R – Sim. Sim.

 

P/1 – Durante o dia, eu não entendi bem, o senhor ia trabalhar com o seu pai, ou não? O senhor ficava na casa?

 

R – Íamos. Íamos trabalhar com papai.

 

P/1 – Na roça ou em outras coisas? Conta para a gente.

 

R – Olha, veja bem, a história da professora diz assim, a professora era Maria Augusta: “Não tem criança rude, tem criança preguiçosa.”

 

P/1 – Foi sua professora?

 

R – A senhora fez uma pergunta muito importante. De dia, nós trabalhávamos. De noite, nós íamos pra mesa, estudar. Nós estudávamos à noite. Veja bem então. Por quê? Porque nós tínhamos interesse em saber. Hoje não, chega da escola, jogam o livro: “Vem fazer teu dever, Fulano, vem.”

 

P/1 – Como era esse estudo à noite, com quem vocês estudavam?

 

R – Eu tinha uma prima, ela era muito inteligente, ela não era formada, ela tinha quarta série, mas ela tinha muita experiência e nós éramos, como se diz, aprendizes. Naquele tempo, nós tínhamos... A senhora conheceu o paleógrafo? Pois era isso que nós tínhamos. Cada um se puxava para escrever pra escrever melhor do que outro essa era a discussão... A gente se puxava por isso. Hoje não, o aluno tem que se esforçar...

 

P/1 – Como era, conta um pouco assim esse momento.

 

R – Olha... Esse momento era assim, tinha o traslado, era a cópia. Tirava uma cópia, fazia com o lápis a letra, agora a gente ia com a caneta por cima: “Faça igual, não é pra borrar, rapaz, olhe.” Não demorava a gente estava escrevendo igual a cópia. Letra, ele fazia assim as letras maiúsculas e minúsculas, tudo com lápis e a gente ia por cima, fazendo bonitinho. Hoje não, tudo feio que a gente não entende, rapaz.

 

P/1 – Então, a escola, na verdade, era nesse momento?

 

R – Era. Nesse momento, à noite. Nós já éramos rapazinhos, mas nós tínhamos muito interesse em saber, tínhamos livros. Tinha aquele de Felisberto de Carvalho, Dirceu Felisberto de Carvalho, era o único livro. Lindas histórias. Nós tínhamos a matemática, tínhamos paleógrafo, tudo. Tinha o ABC: a, b, c, d, e, f, g, h e bê-á-bá. Hoje: “Soletre.” Não sabe soletrar!

 

P/1 – E as brincadeiras, senhor Bertino, quais eram?

 

R – As brincadeiras sempre tinham. Entre irmãos, a gente lutava, formava bloco pra lutar. Quando mexia uma briga nós éramos... Pronto. Hoje não, nem isso faz, qualquer coisa... Você não sabe se defender. Eu tinha meu irmão, ele pisava no pé do outro, mas aquilo não tinha nada na mão. Então, ele dizia que a arma do homem: “Plah!”, uma chamada... Hoje não, a geração não sabe se defender de outro homem. Minha irmãzinha, uma vez nós pegamos uma briga, o cara me pisou aqui, foi a única parte, porque ele me pisou do lado. Pá. Deitou no poleiro, eu rodei, pisei-lhe aqui, só dei nele de pé, me pulava e saía fora. Ia à festa, ninguém levava um prego no bolso.

 

P/1 – Saía briga nas festas? Por que saía briga, senhor Bertino?

 

R – Muitas vezes, a confusão era por causa de dama. Ah, por causa de dama. Na festa, começa logo namorar e, às vezes, ia puxar a namorada e outro já ia, saía, ia na frente, aí... Quando não, pisava logo no pé dele. Ah rapaz, aí... Olha, só que a dança daquele tempo era bonita, as moças, a vestimenta delas eram bonita. Conheceu a saia serpentina? A saia baiana?

 

P/1 – Como que era a saia serpentina?

 

R – Assim larga. Quando ela rodava assim, ela fazia... Saiona bonita naquele tempo. Dançava que ela rodava assim, aquela saiona bonita que fazia a moça bonita. Ela podia ser até feia de cara, mas a vestimenta a fazia bonita. Então, uma vez, na igreja, uma moça começou, eu digo: “Não, você é a princesa da igreja, você com uma vestimenta dessa. Faça uma saia bonita, que você usa senão você fica feia.” Ela voltou. Beleza. Hoje não, a nova era mudou tudo, está vendo?

 

P/1 – E a música, como era assim?

 

R – Ah, a música se tivesse aquí: “La lara lari lari lari lari lari lari lari la la la.” Era divina. Eita! O violão daquele tempo tocava picado. Hoje é: “Dja dja dja dja.” Não tinha isso aí. Não. Olha, era uma música, era violino. Tinha cara bom de violino aqui, rapaz. Tinha um tocador aqui, já morreu, era o Eusébio Nunes, tocava violino, tocava violão, tocava cavaquinho, tocava banjo, tudo ele tocava. Quando ele pegava o violino, eita! “Bis, bis, bis!” Tocava... Isso existia. Agora, três coisas não me deram prejuízo: mulher, vício e festa. Eu ia à festa mas quando vinha na festa, por exemplo, pra cá, no centro, chegava por lá, quando eram sete horas eu estava lá na fazenda, deixava o carro lá amarrado. Três horas da madrugada: “Não, tenho muitos compromissos.” Ficava a namorada, ficava a festa e sete horas eu estava no trabalho, não me deu prejuízo. Segundo, vício eu nunca me acostumei. Eu bebia, às vezes, vinho, cerveja e outra coisa, cigarro, eu tinha nojo de cigarro, nojo de cigarro, me fazia tonto, me fazia tonto. Então, não me deu prejuízo, três coisas. Então, o homem precisa reconhecer o seu valor. É como já falei, os bons costumes fazem o bom cidadão.

 

P/1 – O senhor falou que ia para as festas e saía de madrugada...

 

R – Não. Eu chegava lá, por exemplo, eu ia à festa, chegava lá sete horas e aquele movimento. Quando eram três horas da madrugada, deixava tudo, o meu trabalho, gado preso da fazenda que tinha que ter um bocado de...

 

P/1 – E o senhor andava à noite assim escuro...

 

R – Não. Pegava carro...

 

P/1 – Ah, o carro. Em alguma dessas noites aconteceu alguma coisa inesperada?

 

R – Não. Nunca me aconteceu nada.

 

P/1 – Eu tô lembrando agora das visagens que as pessoas...

 

R – Ah, visagem não. A visagem a senhora sabe o que é a visagem? Quem que faz a visagem é você mesmo, o medo. Olha, aqui tem uma visagem, é sério mesmo, aparece o fogo, ele voa por aqui, entra aqui, sabe o que é? Minério. Porque aqui é a maior bacia do mundo. Eles dizem que todas essas ilhas têm minério. Ali, aquelazinha, tem minério, é um fogo: “Ah, visagem...”. Não, não é.

 

P/1 – Como é que vira fogo assim, senhor?

 

R – Onde tem minério aparece o fogo, aparece, senhora. Às vezes, você vê um grito, você vê uma pedrada e é a natureza. Você que fica com medo, mas não é nada. Eu sempre encontro meu genro que trabalhou na mineração, lá tinha um grito, mas era um grito que não tinha medo. Quando foi uma noite, eles estavam lá, eles estavam em 20 na clareira: “Olha, lá vem o grito.” “Hoje nós vamos matar esse bicho”. Veio gritando, veio gritando, eles fizeram um fogo, veio, gritou no meio deles e não viram nada. O grito lá... “Ora bolas!” Ficava o grito. Então, é a natureza.

 

P/1 – E o que era?

 

R – É a natureza. A natureza é viva. Aí você vê uma conversa... Tinha um cara, ele mora em Juruti Velho, eles trabalhavam no Tapajós fazendo roçado, eles eram 40 homens. Uma noite, ele foi caçar, não estavam lá derribando roçado onde estavam trabalhando, derribando e era aquele grito, pau caindo e... Aí ele chamou o capataz: “Cadê o pessoal?” “Estão aí dormindo.” “Mas, rapaz, estavam derribando o roçado lá.” “Rapaz, é a natureza. Tu queres ver?” Quando foi no outro dia, nem um cipó cortado. Então, a natureza... A visagem quem faz é o medo.

 

P/1 – Senhor Bertino, mas como assim, a natureza é viva desse jeito que o senhor está falando?

 

R – É porque ela grita, ela urra, mas não é nada. Olha aqui, dá pedrada na calha. Agora, eu só tenho medo é do mar porque tem a cobra grande.

 

P/1 – Do mar que o senhor fala?

 

R – É do rio. Esse Amazonas aí tem umas cobras grandes bravas que correm em cima do povo e se duvidar ela come.

 

P/1 – Ah é? Como chama essa cobra?

 

R – Cobra grande. Uma cobra grande, contou-me um rapaz que eles mataram uma no Rio Negro, ela tinha 49 metros. A frente dela era da altura de um homem assim e era uma tora, 49 metros. Ela tirava gado do batelão. Quando foi uma noite, eles pediram um ajuda da marinha, esse rapaz trabalhava lá. Deve ser uma pesquisa porque estava dando prejuízo, escangalhava motor. Eles foram, subiram o Rio Negro, enxergaram fogo. Disse: “Olha, vem o bicho.” Ele deu uma ligada, era um sargento que era responsável pela metralhadora, quando chegou à distância de uns cem metros ele deu uma jarrada. Sumiu o fogo. Aí eles foram ao quartel que eu estava, aí o tenente disse: “Olha, rapaz, nós demos uma jarrada no fogo.” Eles foram lá, ele pegou, fez a pesquisa. Com três dias ela buio. Ele me disse, rapaz, da grossura de um pneu desses de...

 

P/1 – Que rio foi esse, senhor Bertino?

 

R – Rio Negro. Aí eles foram lá, pegaram a corveta, meteram no reboque, chegaram lá, pegaram um trator desses pequenos e não arrastou. Foram buscar um daqueles possantes e levou. Ele disse: “Olha, conseguimos arrastá-la assim ó, de lado.” 49 metros! Quem quiser acreditar, a foto dela está no quartel em Manaus. Está lá até.

 

P/1 – E aqui no Rio Amazonas?

 

R – Tem.

 

P/1 – Já teve história assim?

 

R – Tem. Aqui tem a sucuriju, filha dela. Olha, uma noite que eu fui subir lá no cajueiro, fui pegar a galinha lá em cima onde quase doem os braços assim. Estava cheio da cobra galho, porque da pequena que vem a grande, né? Aqui tem, mas é só que o pessoal aqui não duvida e a gente não duvida também. Eu não duvido de que eu tenho medo, tenho receio, olho jacaré. Aqui tem um monstro do tamanho dessa canoa, tinha uns bodes ali o rapaz veio: “Olha, matou a sua cabra lá.” O desgraçado foi buscar lá em terra a cabra, tira um pedaço assim. Estava lá o animal, calcular de uns 8 metros. É um crocodilo. Ele passou aqui, o menino atirou. Então, o mar... Eu tenho mais receio da marinha do que da onça. Nossa, diz o meu genro que trabalha aí pra dentro, eles já estão acostumado, elas vão passar.

 

P/1 – O senhor já encontrou uma onça pelo caminho?

 

R – Já. Já matei uma.

 

P/1 – Como foi?

 

R – 18 palmos. Dei um tiro no pé do ouvido da bicha... A carga de uma canoa. Mas Deus o livre, o poço dela, quando que a gente atraca. O peito dela parecendo tinha 18 palmos.

 

P/1 – O senhor estava sozinho?

 

R – Não. Tinha um companheiro. Uma bala no pé de ouvido, com uma bala; matei. Lindo o bicho.

 

P/1 – Onde vocês estavam?

 

R – Aí pra fora, no lago. Ela ia atravessando. Um bichão, ela é uma onça.

 

P/1 – Ela ataca, senhor Bertino?

 

R – Ataca. Aqui já comeu gado. Nossa... Ela anda aqui só que a gente já tá acostumado, mas ela já comeu aí, ela foi pra ali o rapaz matou ela.

 

P/1 – Senhor Bertino, o senhor sempre morou nessas terras?

 

R – Morei.

 

P/1 – Aqui eram as terras que seu pai também morava?

 

R – Não, senhora. Onde meu pai morava era aquela ilha lá que a senhora tá enxergando, aquela ilha azul. Que saber o nome dela?

 

P/1 – Quero.

 

R – Moela. Moela. Que moela?

 

P/1 – O que é moela?

 

R – A galinha tem, não tem?

 

P/1 – Tem.

 

R – Pois é. Essa é a moela.

 

P/1 – E o senhor sabe por que esse nome?

 

R – É porque ela tem 100 metros de comprimento. É uma moela!

 

P/1 – Quando o senhor saiu de lá?

 

R – Depois de ter filhos. Nós tínhamos uma casa bonita. Fiz uma casa bonita lá, assoalhada, coberta com telhas, tudo e tal. Mas não dava, o gado... Ficava difícil porque o gado vinha pra cá... Aí eu resolvi mudar pra cá.

 

P/1 – Quando o senhor casou, o senhor continuou morando lá.

 

R – Lá.

 

P/1 – O senhor estava dizendo do seu casamento e a gente não continuou. O senhor disse que olhou pra ela, ela olhou para o senhor. Ela era de Juruti...

 

R – É, de Juruti.

 

P/1 – E como foi? Onde foi que o senhor a conheceu? Conta um pouco. Como é que foi esse namoro?

 

R – Olha, nós estávamos numa festa de aniversário, aí quando eu cheguei lá... Eu sou assim, não sei por que, tudo me gosta. Tinha umas moças lá e coisa e tal. Era a Valdomira, era Darci... Elas começavam dizer: “Hoje o Bertino vai ser meu, hoje, ele vai ser meu.” Aí ela veio e disse: “Olha, eu vou casar com esse rapaz, porque eu quero que ele seja crente.”

 

P/1 – A sua esposa?

 

R – A minha esposa. Aí pronto, olhei pra ela. Eu tinha um amigo, ela trabalhava numa marcenaria com ele e era muito meu amigo, era sargento, ele era expedicionário, teve pela guerra. Um dia, eu fui lá, ele disse: “Olha irmão, com essa moça eu quero que o senhor case. Nós a conhecemos, ela é uma moça distinta, comportada.” Depois, o pai dela foi se informar com um camarada que também era meu amigo, senhor Alfredo Brelase. Aí nos ouvidos deles disseram que eu tinha companheira, tinha essa coisa. Aí ele foi se informar com o senhor Brelase. O senhor Brelase era muito meu amigo, trabalhava com ele e me gostava muito. Tinha Abdoral, Abmael, Iradeni, Denil, era uma família. Disse: “Olha, se ele tem alguma mulher por aí por fora, ele é solteiro. Agora companheira, não. Agora eu vou te dizer uma coisa, faz tua filha casar com o Bertino. Porque que o conheço desde o trabalho. Ele trabalha comigo e eu sei que ele é um bom rapaz, caprichoso.” Nesse tempo, eu tinha um lotão de gado e beleza. Olha, pronto! Quando eu pedi, o velho, prontamente, foi de acordo dos irmãos, dela, dos meus irmãos, da minha família. Olhe irmão, eu tive filhas, tive uma filha que ela casou gestante, aí o pastor me chamou: “Você sabia?” Eu disse: “Não. Se o senhor perguntar do meu, eu sei te contar, porque o meu casamento eu respeitei minha noiva como minha irmã. Eu tenho certeza que quando a igreja orou por mim, que a igreja disse amém, os anjos disseram amém. Se o senhor perguntar do meu, eu sei lhe explicar. Porque o meu casamento eu honrei.” Então, esses princípios eu herdei dos meus pais, porque aconselho. E eu aconselho, eu tenho um filho que... Mas todos são casados, as filhas todas casadas. Olhe, eu vou lhe contar uma história, deu certo. Eu tinha um irmão, ele tinha um filho amigado, já tinha filhos e nunca ele chamou a atenção, aconselhar pra ele casar. Na hora da morte minha irmã, ele não podia morrer, ia e voltava. Aí o filho dele mais velho: “Papai, o que está acontecendo, papai? Essa agonia.” Ele disse: “Ah, meu filho, quando eu quero passar, representam grande lençol negro na minha frente, eu não posso passar. Mas eu já sei o que é. Teu irmão que está tanto tempo amigado e eu nunca consegui o aconselhei pra casar. Chame-o”. Chamou-o, aconselhou. Então o casamento, olha: “Estado civil? Casado.” Não tem amigado, nem camaradado, mas casado. Solteiro. A bíblia diz: “Quem casa não peca”. E Deus fez o casamento, homem e mulher.

 

P/1 – O senhor foi criado na igreja?

 

R – Não. Eu fui católico. Ah, Deus o livre, catecismo eu tinha de cor. Eu era um padre de primeira, semana santa não saía pra canto nenhum. Então, olhe, o que significa a palavra católico?

 

P/1 – O que significa?

 

R – É. O que significa a palavra católico? E por que existiu a palavra católico?

 

P/1 – E o senhor aprendeu isso?

 

R – Aprendi isso. A palavra católica que dizer cauteloso, aquele que se acautela. Então, quando surgiu o cristianismo, que houve a divergência entre igrejas e igrejas, houve a separação. Os cautelosos diziam que os protestantes eram hereges, então, foi criada a igreja católica, os cautelosos, viu? Acautela-se, acautela-se. Então, se o católico for um bom elemento, ele é uma pessoa boa, porque se acautelar ele não rouba, ele não mente, ele não briga. Tem lá, minha senhora, no catecismo.

 

P/1 – Quando o senhor aprendeu o catecismo?

 

R – Ah, mas eu era católico. Nós tínhamos que ser católicos. Era eita! Adivinha, aquelas coisas. Meu pai ia lá à igreja daquele jeito, daí o padre veio, tomava a bênção do padre. Olha, se o católico preservar a doutrina vai ser uma boa pessoa.

 

P/1 – Vocês iam à missa? Como era?

 

R – Mas só tinha uma diferença, nós íamos à missa, chegava lá dobrava o joelho, saía de lá ia beber cachaça. Mas não era pra se acautelar disso? Por isso que eu estou lhe dizendo.

 

P/1 – Mas vocês, a sua família, como é que era?

 

R – Toda, até a minha avó, toda, Deus o livre. Ela tinha um oratório tamanho dessa casa, tinha santo branco e santo preto, tinha São Benedito que é o preto que só, tudo lá. Tinha dente de jacaré, tudo eram os santos, já sabe como é. Então, nós aprendemos que a palavra católico, cauteloso, se acautela, é uma pessoa cautelosa. Então, eles criaram a igreja pra não se misturar, não se misturar com a igreja protestante.

 

P/1 – Aí o senhor casou com a dona Lucinda? E ela disse o que mesmo para o senhor, quando o senhor a ouviu dizer?

 

R – Não, eu vou casar com esse rapaz porque eu quero que ele seja crente.

 

P/1 – E como foi isso?

 

R – Aí ela era da igreja Batista e eu ainda não era crente, eu era católico.

 

P/1 – E como que foi?

 

R – Eu me converti na idade de 17 anos, fui pra igreja Assembleia de Deus e ela era da igreja Batista. Depois nós casamos, ela passou pra igreja Assembleia de Deus e até hoje.

 

P/1 – Que idade o senhor casou?

 

R – Trinta e um anos. Eu já tinha juízo. É por isso que eu aconselho: “Não case demais novo. Não case com uma cunhatã”. Minha mãe dizia: “Olha, se tu casares com uma cunhatã, quando chegar à fase dela querer namorar, ela enxergar outro rapaz mais bonito, ela vai querer te cornear.”

 

P/1 – E o que é cunhatã?

 

R – É mocinha. Eu tô falando no idioma indígena tandá. Não case com tandá. O que é tandá? O moço sabe o que é.

 

P/1 – E o que é?

 

R – Cunhatã. Moça pequena. Moça pequena. Tandá, miri. Miri tandá, tandá miri, tandá miri, tandá cunhatã, miri curumim. Então não case com uma... Não. Quando eu casei, ela estava com 19 anos, mas... Porque, olha, como já se viu, é o costume que faz a pessoa.

 

P/1 – O senhor é descendente de índios, de algum grupo indígena?

 

R – Eu sou.

 

P/1 – Sério?

 

R – A senhora é índia? Não?

 

P/1 – Eu sou sim. (risos)

 

R – (risos) Olhe, tinha um professor... Mas sei que a gente conversa pra entender, né? Ele era um professor, formado, falava um inglês... Ele era formado mesmo, mas só que ele bebia muito. Quando foi um dia, ele chegou lá num comércio, tinha lá um maranhense. Olhou, ficou olhando, ele era assim: “Quem é índio aqui?” Aí outros abaixaram. Aí esse moreno que era mais preto, mas não é besta: “Você é índio mesmo? Você é índio?” “Sou”.  Então me dê uma flechada bem no coração, bem no coração. Veja bem, aí ele chamou o caixeiro, põe aí um copo cheio da bicha. Oh, flechada bonita, ainda cai junto. É por isso que: “Você é índio?”. Somos, mas somos civilizados, mas a nossa descendência brasileira. Os verdadeiros brasileiros são os índios. Sabe, não mate um índio. Mexa com índio e você vai ver. Você vai ser preso. Eu tenho uma neta que ela mora em Roraima e ali tem índio. Agora já tem índio professor, tem índio deputado, o deputado Juruna... O índio é gente, o verdadeiro brasileiro, só que eles são selvagens porque...

 

P/1 – O senhor falou que sua mãe falava com essas palavras.

 

R – É. É sim. Ela aconselhava, por isso que eu estou lhe dizendo, a professora da casa, viu? E a bíblia diz assim: “A mulher virtuosa edifica sua casa, mas a louca destrói.” Virtuosa, o que é virtuosa? Explique aí.

 

P/1 – Daqui a pouco eu é que vou contar minha história, viu senhor Bertino? Vamos falar do seu trabalho, senhor Bertino? Que agora eu quero muito saber, que o senhor falou que tem gado, falou algumas coisas várias vezes. Agora eu queria que o senhor contasse muito sobre isso em detalhe. Quando que o senhor começou a trabalhar com gado, pode contando desde o comecinho mesmo, quando o senhor começou a mexer com gado.

 

R – Eu vou lhe dizer, sempre digo para vocês, quando Deus perguntou assim: “Quem quer trabalhar?” “Eu quero.” “Crie gado.”

 

P/1 – Por que senhor Bertino?

 

R – O gado dá trabalho. É um animal muito bonito, mas é um trabalho que você não pode falhar, viu? Tem que tratar, tem que apascentar. Hoje em dia, o gado não está mais dando resultado pra gente, só a gente cria porque a gente está acostumado, está na jogada.

 

P/1 – Por que não dá mais resultado?

 

R – Por quê? Vacina. Todo remédio pra gado está caro, é tanta cobrança. Olha a senhora, até pra passar dali pra cá tem que tirar o Guia de Trânsito Animal (GTA) do gado.

 

P/1 – O que é isso?

 

R – É tirar o registro, tudo, tudo. Dois anos ninguém fez isso, pagamos uma multa de 160 reais. Agora, paga trabalhador, mas eu vou lhe levar lá nos campos. Diário, se não limpar, não presta; se não plantar, não tem. O alimento do gado tem que ser... Olha, no ano passado, nós trabalhamos muito, a peste veio e dividiu nosso gado. Perdemos 52 reses.

 

P/1 – Que peste foi essa?

 

R – Não se sabe, porque aqui nós não temos veterinários. O gado morria gordo lá onde ele deitava e aqui nós somos ricos em pastagem. Essa pastagem a gente puxa para o gado comer, têm os campos, intera com isso. Agora vacina, brucelose, tuberculose, vermes, tem mais, fraqueza, né? Tudo é comprado, tudo, tudo e é diário.

 

P/1 – O senhor ainda vende o produto?

 

R – Vendo. Vendo.

 

P/1 – O que o senhor vende?

 

R – Vendo o gado. Quando tem o gado de corte na idade de vender, não pode acumular, até isso. Paga 30 reais de matadouro, 50 de cada rês pra levar, agora veja, tudo por aí hoje.

 

P/1 – O senhor vende já o gado cortado?

 

R – Vendo em pé. Em pé. Eles pesam o gado em pé. Já tem a balança que já registra tudo. Agora, eles não pagam o couro, eles não pagam o miúdo, pagam nada. Só pagam a carne, quatro reais o quilo. Já é melhor criar peixe, porque o quilo do tambaqui grande está dando dez reais, o quilo do pirarucu está dando 12 reais.

 

P/1 – O senhor ainda leva o gado. Conta como é essa parte?

 

R – Leva. Leva o gado. Chega lá, deixa lá.

 

P/1 – Onde?

 

R – Lá no porto de Juruti tem o porto de desembarque, lá tem o curral. De lá, o carro pega e leva para o matadouro que fica lá no centro. Que de antes era aí no porto de Juruti, mas era feio, por causa do mau cheiro, sangue, coisa e tal. Aí a saúde... Acho que aí mudaram.

 

P/1 – Leva pra onde agora?

 

R – Lá para o matadouro aí pra trás. Lá para o matadouro.

 

P/1 – Depois que mata que eles te pagam?

 

R – É. Eles matam, pesam, vendem, depois que eles pagam.

 

P/1 – E o couro e as outras partes ficam lá.

 

R – Couro eles não pagam, fica lá tudo, eles vendem. Uma rês dá 12 quilos de miolo. Nós temos base. Não pagam o mocotó, não pagam cabeça, não pagam o miúdo tudo e tudo isso eles vendem. E a gente que cria e faz o sacrifício...

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho, quando o senhor começou a trabalhar com gado?

 

R – Desde a idade de já poder pegar numa corda.

 

P/1 – Que idade mais ou menos?

 

R – O meu pai criou gado, quando eu abri meu olho já foi... Não digo, não nasci no curral porque minha mãe não era vaca. Mas já me criei já bebendo leite, fui, fui, fui... Criamos gado. Só que o gado daquele tempo era diferente, o leite era gostoso, não tinha peste no gado, não se falava em peste. Então, nós nos criamos num retiro grande. Gado gordo que era uma beleza, leite gostoso, numas vacas que... Hoje é diferente...

 

P/1 – Quem tirava o leite?

 

R – Era o velho. Tinha a vaca, ele amarrava, quando tava chovendo metia o bezerro aqui em baixo de casa, aí chamava ela, ela vinha debaixo de casa, botava o banco e... Era mansa, olha... Desde aí, nós fomos nessa atividade. Agora, nós não desistimos, sabe por quê? Porque nós gostamos do gado. Você tem que gostar, toda a sua atividade você tem que gostar de fazer, se você não gostar, desista. Então, o gado porque nós gostamos. Eu tenho um vizinho, tem outra vizinha, disse: “Ah rapaz. Eu me lembro de acabar, mas eu gosto do gado e quando eu estou na pior eu meto a mão”. Eu acho, é isso mesmo, é barato, mas... Dá até pra comer que quando dá muita fome, mata um. Como neste ano que nós matamos uma vaca... É pra isso. Então, o gado é um tesouro, na hora mais que você está com a corda no pescoço. Ah Jesus eu vou lá com o prefeito. Chega lá o prefeito ainda dá uma esculhambação. (risos)

 

P/1 – Senhor Bertino, o senhor falou que quando o senhor já podia trabalhar com gado, começou. O senhor se lembra do primeiro dia que o senhor fez alguma coisa...

 

R – Não. Da idade de sete anos, eu já trabalhava, assim como meus filhos, e o gado gosta de criança.

 

P/1 – É? Como assim, senhor Bertino?

 

R – Gosta de criança. O gado cheira, a criança vai e o gado gosta. Eu tinha um filho que mamava na vaca, eita. A vaca mansa...

 

P/1 – Como mamava?

 

R – Pegava no bico da vaca e... Então, o gado gosta de criança. Já quando ele enxerga uma pessoa, principalmente gente assim, de fora, ele chega e fica espantado, mas a criança... Eu tenho uma vaca mansa que fica lá. Então, da idade de sete anos, nós fomos e a gente gosta de gado.

 

P/1 – Conta um pouco como era. O que o senhor fazia ou o que o seu pai fazia que o senhor observava?

 

R – Não. Olha...

 

P/1 – É para o senhor contar como era o seu dia de trabalho.

 

R – De trabalho. Certo. O trabalho...

 

P/1 – Como era, quando o senhor via com o seu pai, depois a gente veio pra hoje.

 

R – Quando meu pai trabalhou, a dificuldade era que ninguém tinha campo. Vai e colocava gado naquelas ilhas e era cortado esse capim pra dar pro gado. Eram quatro meses cortando capim pro gado porque ninguém tinha campo como tem agora. Era essa a dificuldade. E, com chuva ou não, tinha que ir porque senão o gado morria de fome. Isso o braço da gente era formiga, formiga na canarana, formiga no capim para o gado. Então, o trabalho forçado, você tem que fazer. Se você desistir, é melhor não se meter.

 

P/1 – E vocês cortavam que tipo de...

 

R – O canarana, olha está aqui ó. Beleza aqui, azul, desse tipo. Nós íamos buscar lá na Canoa, Canoa Grande pro gado. Quando a gente terminava de jogar, eles já estavam urrando de fome de novo. Lá ia... Nem me lembro disso.

 

P/1 – Vocês iam de canoa buscar o capim?

 

R – De canoa. Não tinha rabeta. Agora não...

 

P/1 – E ele ficava só em terra?

 

R – Só em terra, nas ilhas. Naquela ilha ali, naquela outrazinha lá... E era porção de gado, eram duas barcadas de manhã, às vezes, uma a tarde e ainda ficavam com fome.

 

P/1 – E mudava o gado de lugar?

 

R – Pra várzea. Pro retiro. Quando vazava, a gente passava o gado dia cinco, dez de abril pra cá, pra terra firme. Morava do retiro para a várzea. Quando era julho, agosto, a gente voltava com eles pra lá, pro retiro. Passava de motor. As primeiras vezes, como a senhora falou, era de batelão de falha.

 

P/1 – Como assim?

 

R – Embarcava o gado e remo de falha. Já tendo aí uma ideia é um remo comprido, esse comprimento assim: “ohh”. Aqui ela vai e a gente faz o cabo roliço. Aqui tem uma forqueta, coloca aqui e era aqui.

 

P/1 – Mas o gado ia aonde?

 

R – No batelão, todo amarrado.

 

P/1 – Quantos?

 

R – Pegava 18, 12.

 

P/1 – Pra atravessar?

 

R – É. Pra levar pro retiro.

 

P/1 – O que é o retiro?

 

R – Retiro é o terreno da várzea. Terreno da várzea, a gente chama retiro porque retira o gado pra lá, né? Retiro.

 

P/1 – E por que retirava?

 

R – Porque a terra firme vinha só pra passar cheia, entendeu?

 

P/1 – Entendi.

 

R – É pra passar a cheia. Olha agora o nosso gado está pra cá, mas o retiro é ali. Todo aquele mundo que está no fundo é pra lá que eles vão no verão. Isso aqui que a senhora tá vendo fica tudo terra. Esse lago aí fica terra aí cai aqui nessa beirada por aqui, deixa-os ali. Pronto. Aquela ilha é nossa, aquela outra é nossa, lá é a pastagem.

 

P/1 – Porque quando vem a cheia tem que...

 

R – É. Olha, está tudo no fundo, daí tem que trazer pra cá.

 

P/1 – É várzea?

 

R – É várzea.

 

P/1 – A várzea é o lugar dele mesmo?

 

R – É o lugar dele lá.

 

P/1 – E na várzea ele come o que tá lá?

 

R – Come. Come a pastagem que está lá. Olha, essa pastagem é da várzea aí. Assim tem pra lá. Lá aquela pastagem azul que você vê toda por lá eles comem no verão. A casa é ali, o retiro é lá. Se a senhora viesse no verão ia lá, o retiro é lá naquela ponta que é a casa do retiro.

 

P/1 – Senhor Bertino, ainda é do mesmo jeito?

 

R – Não. Agora mudou.

 

P/1 – Essa parte de levar... Por que...

 

R – Já mudou o transporte. Por que mudou? Porque agora...

 

P/1 – Não. Como que era e o que mudou?

 

R – O que mudou? Sabe, porque, naquele tempo, a gente passava de motor. Agora não. Agora o gado vem por terra e é preciso cuidado. Olha, cuidado com o gado senão eles vêm mesmo. Só que aí a vizinha tem a cerca, tudo é cerca, o gado vem, dá na cerca, eles param, mas se eles puderem passar eles vêm bater aqui. E quando é no dia da passagem é só abrir ali, tem porteira, abre a porteira e coloca o cavalo na frente, mas é só uma carreira. Tem essa facilidade.

 

P/1 – Mas por quê? O que fizeram que não tinha antes?

 

R – O que não tinha antes? Ninguém tinha terreno aqui. Terreno era lá... Senhora tá enxergando aquela mata grande lá?

 

P/1 – Sim.

 

R – Era pra lá que o gado ia. Atravessava dois rios. Aquela mata grande azul é uma restinga que era pra lá que era o nosso retiro, pra lá que o gado ia. Por isso que era longe, tinha que ir de batelão e trazer de batelão.

 

P/1 – O senhor fala assim, que agora tem terreno e antes não tinha o terreno. Era o que antes?

 

R – Não. Não tinha. Ninguém tinha aqui. Tudo era dono, é como eu já lhe falei, depois eu fui comprando, fui comprando, fui comprando... Tudo é nosso. Só tem essa ilha aqui que ainda é daquele morador lá. Mas tudo por aí, é só uma terra. Então hoje é essa facilidade. Agora nós temos campo.

 

P/1 – Quando o senhor fala que antes não tinha o terreno era o que antes?

 

R – Antes, isto aqui era do Estado.

 

P/1 – Era floresta?

 

R – É. Era floresta. Isto aqui era uma floresta enorme. Era do Estado. Meu pai não tinha esse pensamento de fazer um campo. Quando eu vi a situação, depois, apareceu o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) cadastrando. Camarada tirava a terra, eu tinha um primo que trabalhava e até faleceu. Foi que eu tirei os terrenos, cadastrei, pagava os impostos. Quando este dono daqui quis vender, ele se mudou pra Parintins, eu comprei tudo isso aqui. Aí ele passou o cadastro pra mim, aí eu fui lá ao INCRA, eles fizeram só um cadastro, agora é só um terreno. Aí eu fui fazer campo. O gado vinha, tá com... Passamos dia seis de março o gado está gordo. Agora temos oito hectares plantados.

 

P/1 – Agora não precisa mais atravessá-lo?

 

R – Não. Agora não precisa mais atravessar. É como eu estou lhe dizendo, já é o cuidado. Porque se ele achar a porteira aberta ele...

 

P/1 – Aquela estrada que agora construíram aqui, o gado não passa ali?

 

R – Não. É todo cercado, o meu terreno está todo na cerca. Antes, quando não tinha cerca, eu pagava prejuízo, o gado ia invadir roça. Aí apareceu o arame farpado. Aí eu coloquei, eu digo: “Eu vou cercar meu terreno.” Comprei arame e comprei, agora é tudo na cerca, agora pode soltar. Eles vão dar na cerca. Mas meu terreno é pequeno, 72 hectares. Eles vieram aqui, está tudo demarcado. Então, é como eu lhe falei, veio o INCRA, viu? Aí era o Silvio Carneiro, ele veio dar uma vistoria por aqui, veio aqui comigo: “Embora no campo.” Levei-o no campo. Disse: “Rapaz, o terreno mais bem atualizado é o teu”. Meu gado era gordo...

 

P/1 – Que época foi isso, senhor Bertino?

 

R – De 1965 pra cá.

 

P/1 – O senhor falou do transporte do gado, né?

 

R – É.

 

P/1 – E que outros instrumentos, outras coisas que vocês usavam pra trabalhar com gado?

 

R – Olha, os instrumentos que nós usávamos sempre para trabalhar com o gado eram corda, a verruma...

 

P/1 – O que é a verruma?

 

R – E... Agora, cavalo...

 

P/1 – O que era a verruma?

 

R – Cavalo. Furou chifre, dá broca. Broca é uma doença que come o sabugo do chifre da rês. Quando acaba, a rês morre. Nós usávamos a verruma, pegávamos creolina, pronto. Era esse material que a gente trabalhava, viu? Então, tinha o benzocreol, tinha creolina, eram os produtos do gado daquela época. Dava purgante, furava o chifre, colocava no sal, eram esses produtos.

 

P/1 – E hoje, senhor Bertino? No lugar da...

 

R – Hoje é tanta vacinas.

 

P/1 – Que o senhor já falou.

 

R – É tanta vacina que: “Oh, meu Deus!” Tem que vacinar a vaca quando está coberta, tem que vacinar bezerro com 15 dias, com três meses. Tudo vacinado e tudo registrado, tem que apresentar.

 

P/1 – O senhor se lembra de alguma história dessa época que o senhor acompanhava o seu pai, alguma história que foi muito diferente, marcante?

 

R – A história marcante que eu encontrei na vida foi criar filho.

 

P/1 – Mas da época que o senhor ia... Assim, um fato, episódio...

 

R – Ah sim. Quando eu era solteiro. Não.

 

P/1 – Quando o senhor acompanhava o seu pai pra transportar o gado, alguma coisa divertida?

 

R – Olha, era esse trabalho era divertido. A senhora sabe por quê? Naquele tempo, como eu já falei, nós éramos católicos. A bebida que nós usávamos, assim azeda que ela faz meio porre, era o caiçuma.

 

P/1 – Como era essa bebida? Era feita do quê?

 

R – O caiçuma é feito de mandioca, viu? Aquela bebida, quando ela está azeda, ela dá na cabeça do cara. Nós mandávamos fazer naqueles potes... Aí naquele trabalho a gente... Às vezes, a gente comprava... Que não sentia... Porque olha, quando a gente é novo, a gente não sente. Nós trabalhávamos dia e noite. Aí tiveram vezes que, quando chegava com o gado, ainda íamos à festa porque nós éramos novos. Quando a gente é novo...

 

P/1 – E aconteceu alguma coisa engraçada em alguma dessas viagens aí com o gado?

 

R – Não. Graças a Deus nunca nós tivemos problemas porque nós trabalhávamos com cuidado.

 

P/1 – Era muito gado, senhor Bertino?

 

R – Era um bocado de gado. A gente tinha um bocado.

 

P/1 – Quantas cabeças mais ou menos?

 

R – Eram umas cento e poucas. Tinha do vizinho, ainda tinha do vizinho. Nós nos juntávamos...

 

P/1 – Quantos dias vocês levavam pra...

 

R – Olha, até uma semana.

 

P/1 – E depois que ficava no retiro, como que era o trabalho? Tinha que ficar alguém lá junto ou não?

 

R – Ficava. Eu ficava lá com o gado.

 

P/1 – Quanto tempo?

 

R – Olha, passava o gado em julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, março. Nove meses. Tinha que ficar lá, tomando conta. Ela chegava lá: “Eita, cadê o leite?” “Tá aí na panela.” Aquele leite gostoso.

 

P/1 – E quem ficava com o gado esse tempo todo?

 

R – Eu. Mas eu mesmo. Por isso que eu não tenho medo de visagem.

 

P/1 – Mas o senhor ficava sozinho?

 

R – Só eu e Deus. Nunca vi visagem nenhuma.

 

P/1 – Esse tempo todo?

 

R – Agora tinha uma coisa, era muito influenciado porque tinha muito peixe. Pirarucu eu matava um pirarucu como esse que meu filho matou... Eu pescava então aquela coisa tão alegre. Tinha ovo de tracajá, tinha filha de marreca, heim? Tinha vezes que: “Olha, domingo vamos pegar filha de marreca pra comer.” Conhece, né? Então, era uma vida alegre. Hoje não, é diferente porque não tem mais nada.

 

P/1 – Senhor Bertino, mas o senhor ficava esse tempo todo com mais quem?

 

R – Olha, tinha vezes que eu ficava só mesmo. Só que em casa nunca saiu gente porque tudo gostava. Um pecado que eu não tenho é ser escasso. A senhora chegava em casa, às vezes, chegava o pessoal: “Cadê o leite?” “Tá aí rapaz. Pode tomar.” Às vezes, chega uma depois: “Cadê o leite?” “Tá aí olha. Sabe tirar o leite? Vai.” Iam pra lá, tiravam, bebiam até não querer mais. Então, lá era uma vida alegre, a gente não sentia a solidão.

 

P/1 – O senhor ficava direto assim ou voltava pra casa e...

 

R – Ficava direto, às vezes, eu... Olha, como eu estou dizendo, o velho tinha os irmãos: “Vai lá com o Fulano, vai dizer pra ele pegar os peixes lá pra trazer pra...” Tambaqui era em quantidade porque tinha muito peixe. Naquele tempo, não existia malhadeira. Não. O que veio derrotar foi malhadeira, porque quando deram com a malhadeira pegava pra estragar. Era isso que aconteceu. Naquele tempo, não. Eu ia matar pirarucu, ele mandava buscar. Quando nós vínhamos trazer, buscava lá... Não sentia nada.

 

P/1 – E o senhor dormia como?

 

R – Ah, em casa.

 

P/1 – Construía algum abrigo?

 

R – Não. A casa lá era boa.

 

P/1 – Já tinha a casa lá pro senhor ficar.

 

R – Já tinha a casa. O velho ia fazer o seguinte, o velho ia pra lá: “Vamos endireitar a casa.” Depois de tudo pronto, entregava a casa. Lá, eu era comandante, tudo era comigo, qualquer coisa era comigo. Depois que apareceu a juta, aí ficou povoado.

 

P/1 – O senhor começou a transportar o gado e a ficar esse tempo todo sozinho cuidando quando o senhor levava ele pro retiro, não é isso?

 

R – É. Pro retiro.

 

P/1 – Que idade mais ou menos o senhor começou a fazer esse trabalho?

 

R – Olha, vamos dizer que da idade de 15 anos.

 

P/1 – E tinha algum conselho, algum truque, algum conselho especial com o gado que o seu pai dava pra você?

 

R – Tinha.

 

P/1 – O que era?

 

R – Era o leite. Olha, eu sempre fui cauteloso. Por isso que eu digo que eu que sou católico. Meu dinheiro eu não jogava fora, era ambicioso por causa de dinheiro. Eu vendia leite três meses pra Juruti, outubro, novembro e dezembro. Olha, um monte de dinheiro. Quando eu fui casar, eu ajuntei naquela altura, quando eu fui conferir o dinheiro eu estava com 17 contos. Era dinheiro que naquela época... Eu vendi dez garrotes. Eram três meses. Olha, eu adquiri dinheiro pra passagem do gado, dinheiro pras despesas durante o tratamento do gado e do leite. Então, era um produto que dava certo e eu não tinha... E olha, era de remo. A senhora sabe que de lá de onde eu morava chegar a Juruti são duas horas de remo. Eu ia, acordava uma hora da madrugada, tinha relógio despertador lá: “Prrrriiiiiiii!” Pulava e, quando eram quatro horas, eu saía. Leiteira de 30 litros. Tinha vaca leiteira que só. Chegava lá e ia só entregando. Eita. O meu leite tinha fama porque era leite bom e eu caprichava bem. Outros levavam e ficavam, mas leite que saía era Coroca.

 

P/1 – O que é isso?

 

R – Leite lá do Coroca porque lá o nome do meu avô que era africano. O nome dele era Coroca, Benedito Coroca. Porque ele era preto que só um carvão, parecia assim o Renato mais ou menos. (risos) Era preto, ainda o conheci, ele era africano mesmo. Então o chamavam de Coroca porque ele era preto. Então, o retiro lá ficou conhecido como retiro do Coroca. “Da onde é o leite?” “Lá do Coroca.” “Ah, é leite bom. Eu quero dois litros. Eu quero três litros. Eu quero quatro litros.” E não demorava... Ainda colocava na unha, mas quanto? A prova do leite quando tem água a senhora coloca aqui e faz assim. Quando não tem água coloca aqui, mas quando? Ele não cai. Pode fazer assim, não cai. Colocava na unha: “Leite do Coroca.” Então, era esse o produto.

 

P/1 – E matava também? Tinha de corte também?

 

R – Tinha de corte, só que naquele tempo era difícil vender porque não tinha matadouro. Juruti nessa altura era apenas um povoado. Pra senhora ter uma ideia, tinha casa de farinha no meio da cidade lá do povoado. Ih, aquelas mulheres estão no fogo. Ainda conheci... Hoje é a diferença. E só não está mais bonito porque o prefeito é um cara ruim. Olha, tinha a empresária daí da Camargo Correa era companheira, ela esteve há uns tempos. Então, ela disse assim: “Olha, o prefeito foi um besta. Quando a empresa quis assinar um convênio com ele, ele dividia o imposto e eles preparavam a cidade. Ele não quis.”

 

P/1 – O prefeito anterior a esse?

 

R – Não. Esse aí.

 

P/1 – Senhor Bertino, voltando que o senhor falou que levava esse leite todo e vendia. Então, vocês criavam mais o gado pra leite.

 

R – Pra leite. Certo.

 

P/1 – E como foi mudando isso, senhor Bertino? O senhor falou que depois não ficou mais bom. O que aconteceu?

 

R – Olha, foi mudando. Depois, foi mudando. Juruti apareceu o mercado. Aí eles já iam comprar de mim lá.

 

P/1 – De onde?

 

R – Tinham os compradores. Eu só avisava: “Olha, tenho um boi lá, tenho dois bois, tenho uma vaca...” Eles já iam lá, os açougueiros iam lá. Iam buscar, matavam...

 

P/1 – Que época foi essa, senhor Bertino?

 

R – Essa de 1980 pra cá, faz tempo. Matavam o gado aí na frente, não tinha matadouro, na rua. Às vezes, matavam lá, ainda deixavam o miúdo pra mim e levavam só a carne. Apareceu essa facilidade. Aí foi mudando. Antes não, era preciso você procurar: “Não quer comprar uma rês? Não quer comprar uma rês?” “Não. Não posso. Não quero.”

 

P/1 – E o senhor disse assim: “Eu continuo porque eu gosto.”?

 

R – É. Gosto.

 

P/1 – O que é que foi acontecendo que foi ficando assim, como o senhor está falando?

 

R – É coisa. É o preço. Olha, quatro reais está entrando.

 

P/1 – E esse preço caiu tanto por quê?

 

R – Porque tem muito. Naquele tempo, minha senhora, era... Agora tem muito gado.

 

P/1 – E tinha mais gente que...

 

R – Oriximiná tem estoque de gado. Óbidos tem estoque de gado, viu? Tudo tem. E aqui em Juruti tem curral cheio, tem que ter vez. Tem vez que o gado passa até semana lá pra matar, pra pegar a vez de... Porque tem muito. Naquele tempo, não; era pouco gado.

 

P/1 – Agora, eles compram mais de onde agora, senhor Bertino?

 

R – Daqui mesmo. Daqui já foram umas quatro vezes que o rapaz comprou, trocou e já foi pra lá.

 

P/1 – Agora o senhor estava dizendo, Juruti teve uma época que teve bastante criação ou não?

 

R – Não, teve época que não tinha. O que tem agora, não tinha. Agora, tem muito gado, Isaías tem um bocadão de gado. Tudo tem. Nós temos. Olha, toda desde lá. Do Amazonas, passando no verão, tudo é casa de criador. Não tem fazendeiro, tem criador, mas um tem 30, outro tem 40, outro tem 50, outro tem cem, outro tem 200. Agora, amontoa isso. É muito gado.

 

P/1 – O senhor falou que teve uma época que diminuiu por causa da juta, foi isso?

 

R – A juta, eu vou lhe dizer. A juta veio trazer até uma boa atividade. Na época da juta, teve muita saída. Tinham os japoneses que trabalhavam com muita gente, eles compravam o gado da gente pra comer no trabalho. Eles iam lá ao curral: “Vende vaca?” Levavam, matavam pro trabalho. Deu certo.

 

P/1 – A juta não atrapalhou a pecuária?

 

R – Não atrapalhou. Agora, é como eu estou lhe dizendo, quando apareceu a juta, apareceu gente. Tinha vezes que a minha casa ficava cheia de mulherada. Trabalhavam na juta capinando, aquelas mulheradas. De domingo, iam lá pedir leite e beber leite e era aquela... Aí apareceu gente. Aí lá onde eu moro ficou povoado. Todo aquele mundo era gente trabalhando, então apareceu muita gente. Então, a juta veio trazer um bom impulso, viu? Apareceu dinheiro, apareceu a facilidade do comércio. Eita, apareceu...

 

P/1 – E pra pecuária não fez diferença ou...

 

R – Não. A pecuária era o seguinte, naquele tempo… Agora é que não prestou mais, mas eu fazia o empréstimo no banco, como já lhe falei, pra limpar meus campos. Eu aguentava o gado, tirava o dinheiro do banco, pagava pra fazer a limpeza toda, pagava a pessoa. Quando chegava no tempo, eu vendia o gado e pagava o banco. Agora não porque agora não dá mais, porque precisa avalista, mas por quê? Porque o mau costume, como eu já lhe falei, faz o mau cidadão. Teve gente que não pagou o banco. Como eu estive lá com a gerente, a moça me explicou, disse: “Olha, senhor Bertino, o banco está num prejuízo grande, das 18 pessoas que tiraram dinheiro do banco pra juta, só quatro pagaram, o resto ficou todo ali.” Então, é por essa razão que o banco está... Está vendo? Então, um arruína a situação mas, naquele tempo, não. Chegava principalmente pra pecuária. Agora está difícil porque o banco não se fia mais em ninguém. Agora eu fui lá, estive a última vez e bateram: “Pá, pá, pá!” Não devo nada. Tem que ter avalista.

 

P/1 – Senhor Bertino, só pra gente entender, porque é uma história importante de Juruti, né? Na época da juta, a pecuária continuou do mesmo jeito ou teve alguma coisa que prejudicou ou que foi boa?

 

R – Não. É como eu já lhe falei. Ela deu um bom impulso porque aí o gado teve valor, teve saída. Apareceu o dinheiro e apareceu o consumo. É. Apareceu o consumo.

 

P/1 – Senhor Bertino, o senhor foi uma pessoa que viveu com a pecuária, o senhor cresceu, como o senhor falou, que abriu os olhos e já estava lá e até hoje, o senhor ama esse trabalho. Se o senhor tivesse que dizer de tanto que o senhor conhece esse trabalho, algumas coisas que só o senhor sabe dizer da pecuária, do trato com o gado. Sabe aquela coisa especial...

 

R – É. A senhora sabe, é a qualidade. Só daqui que saía novilho bonito, era do meu gado.

 

P/1 – Mas qual era o seu truque?

 

R – Era introduzir o reprodutor.

 

P/1 – Introduzir o quê?

 

R – O reprodutor.

 

P/1 – Como assim?

 

R – Pro rebanho. Olha, naquela época ainda era bem... Todos se admiraram e disseram que eu era louco porque eu comprei um mamote por 22 mil, 22 contos. Disseram que eu estava doido. Foi o maior novilho que essa região conheceu e, nesse tempo, o meu gado ficou beleza, gado graúdo. Todos se admiravam e era só daqui que saía garrote bonito e todos queriam comprar por causa da qualidade. Eu tinha um novilho que era um monstro e um fazendeiro que era Maralzinho, ele tinha gado bonito, mas quando ele enxergou de longe ele ficou virado. Só sossegou quando ele levou. Era um novilho preto que tinha gosto, o bicho, viu?. Então a qualidade, viu? Tinha mamote que com um ano e meio pesava 170 quilos. Então, a qualidade.

 

P/1 – Qualidade do quê?

 

R – De graúdo, gado graúdo, do novilho pesar 220 quilos, 230. Só gado... Hoje mudou. Hoje entrou a raça, o tal de siamês. É um gado forte, é só carne, você o olha... Agora entrou o Nelore. O Nelore só serve pra criar. Azure é assim, brabo, brabo... Os nossos bezerros são beleza, mas coloca corda pra você ver. Porque ninguém tira leite.

 

P/1 – O senhor se lembra de alguma história que o senhor teve que ficar valente mesmo com o...

 

R – No trabalho com gado, você precisa ser valente, se você for frouxo você... É melhor você não se meter. Agarra um mamote desses e eu agarrava um mamotão desses aí. Agarrava mesmo. Então, o camarada pra trabalhar com o gado tem que ser valente, se ele for medroso, melhor ele nem ir pra lá.

 

P/1 – Como é que o senhor conhecia os animais? Tinha alguma coisa assim que o senhor percebia de um e de outro?

 

R – Não tem que perceber, tem que conhecer o gado.

 

P/1 – Como?

 

R – Qual é o manso, qual é o brabo, qual é o coiceiro. Hoje em dia, se você passar e esbarrar numa Nelore você vai pegar um pisão.

 

P/1 – O senhor tinha algum, que o senhor teve um carinho especial?

 

R – Ah tem. Tinha. Esse que eu estou lhe dizendo foi o maior novilho que essa região conheceu. Todos tinham inveja dele. Era tão manso. Uma vez, ele fugiu lá do retiro pra cá, bem ali lá onde está aquela casa. Aí eu vim procurando ele. Cheguei lá com o dono, era seu Antônio: “Seu Antônio, eu vim buscar meu novilho. Tá pra cá.” “E tu vais levar esse bicho?” Brancão que ele me chamou: “Tu vais levar esse bicho, Brancão? Olha lá o que tu vais fazer.” Eu digo: “Eu levo, senhor.” Cheguei lá, joguei a corda nele, fiz a cabeçada, coloquei no reboque do cavalo aquele monstro, o bicho era manso de fazer... Puxava qualquer... Manso. Manso. Era bonito, o bicho. Então, dava inveja. Com o gado precisa, ser valente, se você tiver medo... Eu não tinha medo de gado, mas quando eu era... Perigoso mesmo. Eu vou lhe dizer, quando eu pegava um bezerro assim, fora do lugar, eu o colocava aqui, nas costas, e ia levar no curral. Porque eu tinha pulso. Meus filhos são assim olha, cada machão. Então, outra coisa, é não ter medo. Era amansador de cavalo brabo. Todos tinham medo de cavalo brabo, mas eu não tinha.

 

P/1 – Como é que o senhor fazia?

 

R – Pulava nas costas dele, agarrava aqui na crina e mandava-o jogar. Ele jogava, jogava, jogava. Ia assim “Iiiiiiii.” Era amansador de cavalo. Agora eu... Segunda coisa, cuidado. Cuidado. O gado é manso, você é valente, mas tenha cuidado.

 

P/1 – Por que, senhor Bertino?

 

R – Porque se ele lhe der uma chifrada ou lhe der um pisão... Eu vi um camarada pegar um pisão na boca. E outro camarada foi tirar o leite da vaca, vaca mansa, ele se fiou demais. Cuidado. Quando ele meteu a mão que tirou, ela fez assim. Meteu o chifre bem por aqui. Ele ficou espetado. Vaca mansa.

 

P/1 – E por que será que aconteceu isso, senhor Bertino?

 

R – Eu acho que é o descuido, ele se fiou muito e ela tinha... Outra coisa, a vaca, quando você vê uma vaca do chifre muito apontado, pega a serra e... Porque a arma dela é o chifre e o pé. O bezerro Nelore pisa com os dois pés. Vai passando e... Então, é o cuidado. Valente, mas cuidadoso. Cuidadoso porque, durante o tempo de trabalhar com o gado, eu peguei um baque de um garrote brabo porque os companheiros eram frouxos. Eu os coloquei pra trás com uma corda, o garrote era brabo mesmo, era um garrotão, eu passei na frente. Quando eu passei na frente que soltaram o garrote, ele voou em cima dele, aí soltaram a corda e, quando eles gritaram, que eu olhei o bicho: “Pá!” Ele me jogou lá. E eles deixaram a corda. “Pô, mas os homens são frouxos, deixaram a corda.” Foi que me bateu. Falta de cuidado.

 

P/1 – O que é deixar a corda, senhor Bertino?

 

R – Ele soltou. Ao invés deles agarrarem, eles soltaram, aí o garrote... Mas ele era brabo. Quando eu nem esperei, ele me pulou nas costas. Eu quis sair, mas quando? Garrote, viu? O garrote é diferente da vaca. A vaca se você defende, ela passa, mas o garrote se você defende, ele acompanha e pega. Essa é a diferença. A pior diferença da vaca... Foi a única coisa que eu peguei esse baque.

 

P/1 – Eu soube que o senhor tinha uma vaca “cabra seca, cobra...”

 

R – Cobra Seca.

 

P/1 – O que é isso?

 

R – Todo gado tem nome. Todo gado tem nome. Tudo na fazenda, aqui tem a Mansinha, viu? Tem a Araçatuba, tem a Nelore. Tudo tem nome.

 

P/1 – Mas é a raça ou é o nome de cada um?

 

R – Não. É nome. Na fazenda, tudo tem nome.

 

P/1 – Cada um tem um nome?

 

R – Cada um tem nome. Tudo por aí tem nome. Olha, tinha um fazendeiro por aí, ele chamava pelo nome. Tirar o leite: “Fulana.” “Muuuu.” Ela já vinha. Tirava daquela e voltava: “Fulana”. Era assim e não mudava. Ele não mudava, chamava pelo nome: “Fulana.” O gado acostuma, o gado conhece... Agora, o gado quer carinho. Ele pode até ser brabo, mas se você acarinhar ele fica manso, fica domado. Eu tenho bezerro que você passa perto dele, mas coloca a corda nele. A que o Renato ia tirar leite, mais eu achava graça. Prendia o bezerro, quando ele ia soltar o bezerro testa, né? Até que ele conseguia. Então, cuidado.

 

P/1 – O senhor não colocava corda?

 

R – Coloco a corda sim. O gado sem a corda você não leva. Só se você... Olha, tinha um ladrão aí, ladrão profissional, ele não precisava de corda, mas ele tinha parte com o cão. Ainda é vivo esse peste. Chegava numa rês e pegava na orelha assim, pegava: “Vamos embora. Vamos embora.” Ia na outra: “Vamos embora...” Era ladrãozinho. Ainda é vivo esse peste. Aí tinha o búfalo do Amaralzinho, porque o búfalo é a pior fera que tem, quando ele é brabo, ele é traiçoeiro. Amoitou-se no rio, e agora? Quando eles gritavam, ele saía lá e já vinha e o pessoal se defende. Aí, foram chamá-lo: “Vamos lá.” “Olha, tem corda boa.” Chegou lá, gritou, o bicho saía ele só fez assim, foi, chegou lá, pegou o colocou nas costas do boi: “Vamos embora. Vamos embora rapaz. Vamos embora.” Chegou lá, meteu a corda: “Tá aí o boi.” Ladrãozinho.

 

P/1 – E a sua Cobra Seca?

 

R – A Cobra Seca era uma vaca que não teve jeito. Ela era boa de leite, boa criadeira, mas era velhaca. Quando ela estava de filho novo, muito velhaca. No curral era uma beleza, mas pra ela ficar no curral, tirava leite das outras, deixava-a por último. Se tirasse primeiro dela ela começava a querer furar. Quebrava e ficava olhando. Eu colocava pau no pescoço dela. Acabei vendendo porque era Cobra Seca.

 

P/1 – E esse nome é por que, senhor Bertino?

 

R – Porque foi do primeiro nome. Cobra Seca. E o cara me empurrou ela por causa disso. E ele ainda disse: “Eu vou dar essa Cobra Seca pro Brancão pra ela tirar a caatinga dela.” Mas não teve jeito. Acabei vendendo a peste.

 

P/1 – O que é isso? Tirar a sua caatinga.

 

R – Tirar o meu hábito, tirar aquela fiança de trabalhar só acostumado com gado manso. Então, ele tira. Tem no rebanho, principalmente do búfalo, senhor Pedro Baranga me aconselhou assim: “Se aparecer um brabo no lote, tira logo ele antes dele te matar.” Porque quando ele é brabo, ele é traiçoeiro. Se você cair na água, ele cai atrás. Cai sim.

 

P/1 – Senhor Bertino, o senhor tem alguma coisa mais que o senhor gostaria de falar sobre o gado? Porque eu vou perguntar de outro assunto depois.

 

R – Não. Olha, o gado é como eu já lhe falei, você precisa gostar dele. Pode fazer o que fizer, mas se você gostar dele, você o tolera, você o desculpa. Às vezes, a vaca faz uma besteira... Olha, nós temos uma novilha muito bonita, mas quando ela quer passar pro outro cercado, pois ela o fura e vai lá pro cercado, mas é bonita, é mansa. Tolere-a. Tem isso, você tem que ter paciência, cuidado, paciência! Não lambe o gado. Tinha um fazendeiro que se você lambasse uma vez, ele ia jogar do cural. O gado tem que ter amor no gado, você tem que domá-lo pra ele gostar de você. Você enxergar o gado e ele ir pra sua banda. Mas se você escorraça, ele o enxerga, ele corre de medo. É igual gente, viu? Eu vou lhe fazer uma pergunta? Qual é a criança escorraçada?

 

P/1 – Ela vai ficar revoltada.

 

R – Revoltada. Nós aprendemos assim, escute bem, Deus deu pra essa fase aí. Se a mãe, se a outra pessoa agride a criança, por quem ela chama?

 

P/1 – Pela mãe.

 

R – Mãe. “Ai, mamãe...” Corre pra banda da mãe. E se a mãe agride a criança?

 

P/1 – Ela não vai ter a quem...

 

R – Não tem. Ela fica desesperada, ela fica... É capaz de que fique lesa. É essa razão de o japonês não ralhar com o filho dele, não espancar filho dele, não. Porque a criança escorraçada fica... Prejudica o intelecto da pessoa.

 

P/1 – Mas o senhor ia falando então do gado...

 

R – Então, o gado é assim. Você tem que domá-lo, tem que querer bem, acarinhá-lo. Tenho vaca aí que a gente a agarra, agarra a orelha ela. Acarinhá-lo, aí ele fica... Você entra no curral e... Viu? E aquela escorraçada você entra no curral e ela até tem medo da gente. Então, é uma coisa muito interessante o trabalho com o gado, você tem que ter paciência com o gado. Foge, vá buscar. Se você não tiver cuidado, morre bezerro de fome. Morre bezerro sem mamar porque tem vezes que a vaca dá cria e o bezerro não pode mamar. Se você não tiver paciência de amamentar... Olha, teve vaca que, nos primeiros meses, era um trabalho porque elas tinham muito leite, o bezerro mamava num bico, o resto tinha que... Tirava baldada, jogava na água, a gente joga na água. Era até ele conseguir dar conta do leite. Então era uma paciência. Às vezes, ela enjeita. Enjeitado. O Adercílio teve um vaqueiro que, quando aparecia enjeitado, ele matava todos eles. Matou oito deles. Ele ficou bravo. E nós não. Quando enjeitava, a gente vazia mamar noutra. A gente criava enjeitado noutra vaca porque a gente queria vê-lo... Porque onde está o lucro da gente é no bezerro. Se a vaca não der cria um ano, dois anos, é prejuízo. Nós tínhamos uma vaca muito bonita e muito grande, uma Nelore. Três anos não deu cria. Aí o filho tira... Linda a vaca de se olhar, mansa que era uma beleza. Então, era prejuízo. E se ela morresse? Não deixava descendência. Então, o cuidado. O lucro da gente está no leite e no bezerro. Do bezerro que vem a vaca, do bezerro que vem o boi e pronto. Neste ano, nós perdemos 52 vezes. Oh meu Deus... O lucro da gente precisa a gente ter paciência. Veja bem, pra vender um boi inteiro são três anos. Veja o que eu estou lhe dizendo. Nesses três anos, você faz despesa, você paga limpeza de campo, você paga o medicamento, paga o cuidado, o trabalho. Com três anos, que a senhora vai vender e ainda vende por quatro reais o quilo. É porque a gente gosta do gado, viu? Mas quem não tiver paciência não se meta. Desista.

 

P/1 – Senhor Bertino, eu vou falar só mais um pouquinho com o senhor sobre a rabeta.

 

R – A rabeta trouxe uma grande vantagem. Tanto ela prejudicou um pouco porque você sabe que o pessoal de agora é braço fino. Porque o remar é uma física muito boa pra você. Quem rema é quase... Porque o remo faz com todo o corpo da gente. A rabeta não: “Rrrrrrrrrr!”. Pronto, sentado. Agora até pra ir pescar: “Rrrrrrrrrr!” Vai pra Juruti: “Rrrrrrrrrr!” Então, a tecnologia trouxe uma facilidade, mas, por outro lado, é o que está trazendo a carestia porque quando a gasolina sobe... Agora a senhor não anda, anda na rabeta, na moto: “Rrrrrr!” E de antes não, era... Em Juruti, não servia, agora você pode andar. Foi o que a juíza disse, numa cidade tão pequena como Juruti, tanta rabeta, tanta moto.

 

P/1 – O senhor falou da moto e da rabeta, tem alguma coisa a ver uma com a outra?

 

R – Tem.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque a rabeta não dá prejuízo. Olha, essa minha aqui passa um ano no fundo. (risos) O Jero pegou um acidente, outro motor pá, ela tchup. Passou a cheia, nós tiramos. A moto não, se ela der pá ou uma morre o que vai em cima dela, ou mata o que está lá adiante.

 

P/1 – Então, a rabeta o senhor falou que não dá prejuízo?

 

R – Não dá prejuízo. Só dá gasto porque gasolina daqui pra Juruti são dois litros.

 

P/1 – O senhor vai com ela até lá?

 

R – Daqui pra lá são 40 minutos. O menino foi cedo hoje lá, foi comprar o gelo, não deu... Antes de você chegar, a gente tava aqui ainda fui buscar vocês lá. E ele saiu daqui já era dia. Então é uma facilidade.

 

P/1 – Juruti, onde o senhor pegou a gente?

 

R – Não. Juruti é lá a cidade.

 

P/1 – O senhor vai até lá com a rabeta?

 

R – É. Saio aqui, pego e vou embora. É bonito aí que é só limpo. Aí é um trânsito, é motor grande. Agora, é noite e dia motor aí, subindo e descendo. Aqui pra cima tem uma cidade, Juruti Velho. Tem uma cidade bonita, lá que é bonito.

 

P/1 – E dá pra ir com a sua rabeta?

 

R – Ih, dá. Vai motor grande lá.

 

P/1 – Quanto tempo daqui lá com a sua rabeta?

 

R – Daqui pra lá, de rabeta, deve dar umas duas horas. É meio longe.

 

P/1 – E o senhor vai de vez em quando até lá?

 

R – A gente vai. Eu tinha um motorzinho de centro, agora é só rabeta, nós íamos muito dentro.

 

P/1 – Desde quando o senhor começou a andar com rabeta?

 

R – Olha, está fazendo uns três anos porque eu tinha motor de centro.

 

P/1 – O que é isso?

 

R – Motor de centro é um motorzinho dentro... Tem o casco, né, senta o motor bem no meio e é de manico: “Tapapapa!” Esse é rabeta, isso é chicote raaaaa. E o motor de centro é de manico: “Tapapapa!”. Tinha nove sentados num casquinho. Andava que era uma beleza.

 

P/1 – E dirigir é diferente?

 

R – Diferente. Aqui pra esse carro, né? O leme lá atrás, vai dirigir essa aqui que é a roda de leme, tudo bonitinho. Tem o cabo que dá lá, sobe aqui e só vai... E anda aqui na proa.

 

P/1 – Qual que é melhor, senhor Bertino? A rabeta ou esse outro, em sua opinião.

 

R – Ambos. Olha, eu tenho esse grande aí da Associação, uma beleza esse barco. É só uma ligada na chave.

 

P/1 – Senhor Bertino, o senhor navega nesse rio, lago, desde criança?

 

R – Desde criança. É como eu estou lhe dizendo, era no remo. Nem se sonhava. Mas eu vou lhe dizer, de uns antigos já tinha gente que profetizava pros dias de agora. Veja bem como o ser humano é. Ele pode ser analfabeto, ele pode morar lá pelo mato. Minha vó, mulher desse africano, dizia assim: “É meu filho, você ainda vai ver ferro falar.” O rádio! “Vocês ainda vão ver ferro voar, meu filho...” (risos)

 

P/1 – Senhor Bertino, o senhor chegou a fazer canoa já?

 

R – Não. Nunca fiz isso.

 

P/1 – Quem fazia as canoas?

 

R – As canoas, a gente compra. Aqui em Juruti tem uma oficina de canoas.

 

P/1 – Mas quando o senhor era criança.

 

R – Quando era criança, meu pai fazia. Ele fazia só que eu não aprendi, mas eu digo que se eu experimentasse, eu faria. Olha, tem esses cascos assim bonitos aqui, daí faz uma canoa. Aqui em Juruti tem um carpinteiro que faz, o seu Chico. De todo esse pessoal ele faz aí.

 

P/1 – Ele faz?

 

R – Faz. Tem aí desse projeto, tem aí. Meu filho tem uma, o vizinho, o fiscal, todos eles têm a rabeta do projeto.

 

P/1 – O senhor sempre remou e, quando começou a andar com esses barcos, vou chamar de barco com motor, qual foi a sua sensação?

 

R – A sensação que eu tive foi a tranquilidade. Está chovendo eu puxava o encerado: “Embora. Tá chovendo. Vamos embora.”

 

P/1 – E com a canoa?

 

R – Com a canoa danou tudo, era um batelão de oito metros e meio. Arriava a sanefa, colocava a família nela.

 

P/1 – E o que é isso que o senhor acabou de falar?

 

R – A sanefa? Sanefa. Sabe o que é sanefa? Sanefa tá ali, ó.

 

P/1 – Como é?

 

R – É aquele arriado. Você amarra aqui, aqui está amarrado e arria. Nós vamos comprar pra cá, ó. Sanefa de arriar. Plástico, né? Sanefa do motor, sanefa. Tudo arriado aquele grande.

 

P/1 – Sim.

 

R – Tudo é sanefa de encerado. Arria. Pronto.

 

P/1 – E o senhor disse que com a rabeta foi mais tranquilo. O senhor ficou mais tranquilo?

 

R – É. A rabeta é na facilidade. Agora tem uma coisa, você vê a chuva, você pega a chuva, a não ser que tenha sombrinha, né? Pega chuva você tem que encarar a chuva mesmo.

 

P/1 – O senhor falou que tinha mais tranquilidade, então eu não entendi.

 

R – É. Mais tranquilidade o motor de centro porque vai na sombra, tem o toldo. Olha, esse motor grande dali se for pra Juruti, pode chover, pode dar sol quente, temporal. Assim é o motor de centro, então... Agora essa rabeta é porque anda ligeiro, né? Agora você tem que ter o quê? Encerado pra cobrir. Se vier uma chuva cobre a bagagem, tem umas vestes de plástico...

 

P/1 – Afinal o senhor gosta mais mesmo é de qual?

 

R – Olha, da rabeta. Rabeta porque eu até vendi esse meu motor de centro. Eu vendi e comprei uma rabeta, já adquiri três rabetas com essa. A primeira, a segunda minha filha, nós fomos pra Juruti, eles foram pra Juriti e deixaram lá na beira, roubaram. Foi roubo, é só tirar. Roubaram a rabeta.

 

P/1 – Senhor Bertino, são muitas coisas que a gente gostaria de perguntar pro senhor porque o senhor sabe muito. Mas desse lugar todo que o senhor já navegou desde a sua infância, o que o senhor tem pra contar pra gente?

 

R – Olha, desse lugar aqui, eu tenho uma história pra contar e todas essas áreas que a senhora tá vendo, várzea e terra firme, têm um princípio: o cuidado.

 

P/1 – Por quê?

 

R – O cuidado.

 

P/1 – Mas por quê? Cuidado com o quê?

 

R – Aqui tem a surucucu, cobra venenosa. Cuidado. Aqui no mar, tem a arraia. Ali meu sobrinho foi lavar a malhadeira lá na portela: “pááá!” no pé dele. Conhece arraia? Pois é, dona. Isso eu já peguei oito. Peguei aqui que varou pra cá, peguei aqui que varou pra cá...

 

P/1 – Arraia?

 

R – É isso que é o cuidado. Isso é uma história que... “Cuidado, olha a arraia, heim. Olha a arraia porque senão, heim...” O remédio dela é o grito.

 

P/1 – Como assim?

 

R – Grita de dor. A senhora grita sem querer, chora sem querer, fala míngua sem querer e chama pai e mãe, chama sem querer porque dói. É isso que eu tô lhe dizendo. Aqui o menino: “Olha, cuidado com a arraia porque aqui tem. Aqui tem”. Aquilo, pega. Eu peguei uma na malhadeira, ela solta aquele ferrão... Então, é o cuidado porque a arraia dói, mas a dor passa, são duas horas pra passar. Agora, a doença são três meses porque se inflamar fica um buraco que é muito profundo. Tem que ter remédio pra ele sarar de dentro pra fora. Se a senhor colocar o remédio aqui e tapa, aí inflama. Mais é um tratamento rigoroso. Eu peguei esse aqui ó, eu levei três meses que eu não andava.

 

P/1 – O que o senhor passava pra sarar?

 

R – Olha, o remédio dele... Injeção de terramicina, primeira coisa. Injeção de terramicina e sebo de holanda. Conhece sebo de holanda? Aquelas velas assim que tem no comércio. Aquelas: “Tem sebo de holanda?” “Tem.” Viu? Quer saber das vistas? Enxerga bem? Quer enxergar bem?

 

P/1 – Quero.

 

R – Sebo de holanda.

 

P/1 – Ah é?

 

R – A senhora compra e toda noite passa nessa fonte. É o meu remédio. Por isso que eu leio de noite e enxergo, ler de noite é tudo e meus filhos já não liam, eu leio até com isso. Sebo de holanda toda noite, moça.Pode perguntar lá no Santana: “Tem sebo de holanda?” “Tem.” São umas velas. Até tenho aí. Toda noite... É muito bom porque a falta de vista é a fraqueza, a menos que tenha catarata, essas coisas, né? Então, o remédio da arraia é a injeção. São três injeções. Quando tinha aquela que... A senhora sabe a cantiga da penicilina? Cante aí pra eu ver.

 

P/1 – Não sei.

 

R – Não sabe? (cantando:) Penicilina cura até defunto, petróleo grosso faz nascer cabelo... Penicilina cura até defunto, petróleo grosso faz nascer cabelo.

 

P/1 – Opa.

 

R – Então, é a penicilina. Agora, já tem a terramicina, tem a benzetacil. Se ele ferrar, outra coisa, corra lá pro hospital. Chega lá, a enfermeira pega a pinça e tira toda aquela gosma que é o veneno. Aquilo que faz inflamar. Minha filha é enfermeira, Iracema. Ela pega, tira, tira tudo aquilo porque ela anestesia, né? Já adormece aí ela limpa tudo e tira. Pronto. Agora, a dor... Ai, mamãe! Eu fui varar uma canoa assim com o piloto, eu passei tinha uma poça d água aí ela pegou aqui. Espirrava sangue... Aí ele gritava: “Compadre, ela me ferrou. Ai mamãe. Ai mamãe! Ai compadre...”. (risos) Mas dava pra rir, mas... Mas com a perna por cima assim, então a doença... Cuidado com a arraia! E tem. Aqui tem, lá tudo tem. Esse é o perigo.

 

P/1 – Senhor Bertino, só pra gente ir encerrando, quando o senhor vai caminhando por essa água toda, que o senhor conhece há muito tempo, tem algum sentimento que o senhor guarda dessas águas?

 

R – Não. Olha, o sentimento que a gente preservava antigamente, antes de aparecer a preservação do meio ambiente aqui, era fome.

 

P/1 – Era o quê?

 

R – Fome.

 

P/1 – Fome? Por quê?

 

R – Não tinha mais nada. O pessoal invadia, colocava malhadeira, limpava o lago. E hoje, eu não quero que aconteça. Por isso, um dos meus filhos é fiscal, tem os fiscais, colocou malhadeira, ele pede pra tirar. Tem o tempo determinado, é no mês de agosto que suspende tudo quanto é malhadeira pra gente não voltar pro que era, porque não tinha nada... Olha, este ano se a senhora viesse no verão, muito peixe. Por quê? Porque a preservação foi efetuada. Então, a gente fica assim: “Não. Não quero que... Olha, senão vai voltar pro que era. Não. Olha rapaz...” Agora não. Por isso que eu ajudo a preservação. Depois que foi a tarrafa aqui, a tarrafa. Malhadeira não.

 

P/1 – Tarrafa de pegar peixe?

 

R – Tá aqui. Eu tenho uma aqui.

 

P/1 – A tarrafa não teria problema?

 

R – Não.

 

P/1 – Por que não? A tarrafa é melhor?

 

R – Porque a tarrafa pega o que ela pega. “Tcha!” E não escorraça o peixe. “Tcha!” Pega, por exemplo, Eu ia com o Renato, nós pegávamos dez curimatá. Ih, dava pra almoço e janta e a malhadeira, não. Coloca, você pega 50, 100, ela tira tudo e acaba. Pirarucu, surubim, depois que apareceu a preservação, houve a fartura, a tranquilidade. É como eu estou lhe dizendo do tracajá. Tem um camarada que caiu na besteira, pegaram aí, mas deu uma palha pra acertar, foram chamados e a senhora sabe quanto que é uma multa de um tracajá? 300 paus. Isso se ele não for pra cadeia. Temos o chefe aí, o Cantarelli, ele é do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Perigoso. Então, a preservação deu certo e a gente fica tranquilo. Agora, olha, capivara, a senhora passa ali naquele... Veja lá. Um monte de capivara que tem quantidade. É da comunidade, tá na preservação: “Não mexa!” Olha que já chegou aos nossos ouvidos que tiveram uns que atiraram a capivara pra estragar. Ela morreu, mas parece que já foi feita a reunião pra não fazer isso. De antes não servia nada, nada. Olha isso aqui ó. Pirarucu. Não se via porque eles pegavam circuladeira...

 

P/1 – Quando que começou a escassear?

 

R – Olha, está fazendo uns dez anos. Já tivemos reuniões.

 

P/1 – Mas e depois quando é que começou a voltar?

 

R – Foi de dez anos pra cá.

 

P/1 – Mas quando que começou a ficar sem que começasse a destruição?

 

R – É porque não era proibido.

 

P/1 – Mas quando o senhor era criança...

 

R – Não, foi de um tempo pra cá, deve estar fazendo uns 20 anos. Teve gente aí que ficou rico porque não era proibido. Tem tal de Judeu, ele tinha uma circuladeira de 300 metros. Onde dava cardume de pirarucu, ele cercava. Malhadeira da grossura, a linha nessa grossura. Não tem pirarucu que arrebente, pegava todinho e não era proibido. E só tirava a carne, o miúdo que dá para aproveitar, ele jogava tudo fora. Não se via, não se via... Agora não. Olha, meu filho foi de repente. Tem um aqui, eu tinha no presídio ali cinco, fugiram quatro e agora com essa chuva que depois não sai ele boia por aqui. O menino o tira a braçadas, gastava grandão assim. Deu uma enxurrada que ele... Tava na natureza, tá aí, deixa-os estarem aí.

 

P/1 – Senhor Bertino, só mais uma coisa, disseram que o senhor é um bom motorista de rabeta.

 

R – Não. Aqui, olha, toda essa mulherada. Essa minha neta Rute, ah! Essa é um perigo... Ali do vizinho, as filhas dele... Então, é fácil. Se tu vais funcionar é só arrebitar ali e puxar: “Rrrrrrr”. É a gasolina, tem vela. A vela que dá o fogo pra explodir, né? Puxa, agora agradou aí só vai... Você quer dobrar pra cá, você quer dobrar pra lá, é fácil. Pois é, minha senhora, então, essa coisa que a senhora falou que eu não quero que aconteça mais. Porque olha, no meu tempo, não tinha tanta gente como tem agora. Ali, naquela comunidade, são 80 crianças, tudo pra comer. E se a gente acabar? Pra onde vai? Aí vai invadir o terreno nosso. Nós estivemos em reuniões, ele disse assim: “Preserve o que tem no seu terreno pra você não invadir terreno do outro. O que tem no seu terreno preserve. A madeira, a caça, o peixe, pra depois você não ir mexer no do outro.” Bom conselho. E o pirarucu? O pirarucu tá liberado pra anzol e pra arpão, mas pra circuladeira está proibido mesmo. Olha, esse foi o critério. Então o que acontece? Voltou. E ela está em todo canto. Juruti Velho, eu perguntei lá pra um amigo: “E aí rapaz? Deu certo aí a preservação?” “Rapaz, deu certo.” Agora, a gente já tem peixe porque quando não era proibido vinha pessoal de Parintins com o arrastão. Passavam semanas, enchiam as caixas, freezer e o pessoal ficava... Agora não. Não vá lá porque você vai correr de lá porque tem por todo canto os fiscais de lá, meu filho é que é o fiscal. Ele tira malhadeira, é teimoso que só.

 

P/1 – Muito bem, senhor Bertino. E essas águas aí têm algum segredo?

 

R – A água tem segredo? Tem.

 

P/1 – Dá pra contar pra gente?

 

R – Dá pra contar. Porque a senhora sabe que aqui é uma região que tem as fontes de água. Aqui, nós não temos necessidade de beber lama porque tem o igarapé grande que passa bem na frente da comunidade, a senhora pula na água em tempo de verão. Eita! Aquela água tão linda que é uma beleza! Aqui, atrás do meu terreno, tem outra fonte de água mineral. É água limpa, bonita. Então, a gente não tem necessidade dessas coisas porque temos fartura de água. Água boa... Lá tem poço. Todo ali, a vizinha tem poço. Aqui nós temos o poço, uma água limpa, boa. Agora, aí fora não. Esses moradores lá de fora têm o poço porque a água do igarapé suja. É muita correnteza, suja. Eles tiram água do poço. Nós aqui temos aqui... Porque a senhora já vai, senão nós íamos passear aqui ó. Tem outra casa ali. Bonita lá, tem piso, tem tudo.

 

P/1 – E pra navegar aqui nessa região toda? Tem algum segredo, alguma manha?

 

R – Ah, nem é bom a senhora se lembrar disso. Quando é mês de outubro, a senhora vai pegar a condução na beira do igarapé grande, lá que hoje fica tudo terra. Pra ir ali pro retiro vai por aqui. Tudo terra. O Renato pega o cavalo e... O pessoal daqui tudo por terra porque fica baixo... Agora mudou, como a senhora falou a rabeta, porque quando fica rio, eles levam a canoa para lá porque é rabeta. Facilitou por isso, mas quando seca muito que não pode entrar rabeta é tudo por terra. Eles pegam ali e pulam porteiro. Espinho, espinho, espinho... Se a senhora viesse no verão... Conhece o juqueri? É uma erva desse tamanho, o espinho é assim ó. Espinho, espinho, espinho. Se a senhora pisa, pelo amor de Deus! Então, é essa a dificuldade aqui. Agora, facilitou porque já é por ali. Tá aí meu filho já. E foi este 2009 que apareceu essa facilidade, mas de antes era só por aqui.

 

P/1 – E nessa parte que vai enchendo e diminuindo, rabeta e canoa são iguais?

 

R – É igual.

 

P/1 – Não tem diferença?

 

R – Olha, essa cabeceira fica terra. Fica tudo terra aqui. Tem o riacho aí, fica terra, essa praia grande. Pra ir lá pra cabeceira é por terra. Tudo por terra. Agora, se fosse no meio de outubro a senhora ia andando até chegar lá.

 

P/1 – E aí só começa a encher quando?

 

R – Até quando ela começa a encher? Mês de dezembro. Dezembro, janeiro, fevereiro, março, abril e maio. Quando é em junho, ela vai pra recuo. São seis meses de enchente e seis meses de vazão. Fica terra, fica bonito tudo.

 

P/1 – Senhor Bertino, a gente já tá encerrando...

 

R – Tá bom. Olha, foi um prazer a gente estar por aqui, porque uma palestra dessas é gratificante. Porque a gente tem como responder e tem como perguntar, né? Eu fiz algumas perguntas, mas até ficou embaraçada, né?

 

P/1 – Fiquei.

 

R – É. A gente explica, pronto. Quer dizer que aprendeu numa palestra dessas. Vale a pena.

 

P/1 – Pra mim valeu muito.

 

R – Então, agora a senhora é...

 

P/1 – O meu nome?

 

R – Não. É de onde? São Paulo?

 

P/1 – Do Museu da Pessoa. Eu nasci e sempre morei em São Paulo.

 

R – São Paulo.

 

P/1 – Morei um pouquinho no Rio de Janeiro, mas depois voltei pra São Paulo.

 

R – Qual é maior? São Paulo ou Rio de Janeiro?

 

P/1 – De cidade? São Paulo, né?

 

R – São Paulo. É. Eu tenho um sobrinho que mora em São Paulo. Ele me disse que de lá onde ele mora pra chegar lá no aeroporto é uma hora de ônibus, dentro da capital.

 

P/1 – Pois é. Senhor Bertino, o senhor tem algum sonho que o senhor quer deixar registrado aqui?

 

R – Não. O meu sonho é que vocês continuem isso, porque isso é uma coisa que vale muito. Essas histórias são esquecidas. Tem gente aí que não sabe contar uma história dessas. Por quê? Porque não são curiosos. O que faz a senhora aprender as histórias é a senhora ser curiosa pra querer saber. Se não quiser, deixa pra lá. Eu sou assim. Eu sou curioso, eu pego uma revista, na televisão... Tudo isso é uma escola pra gente, viu? Então, as histórias estão dentro dos livros. É como a senhora vai imprimir um livro, essa história vai estar dentro do livro e vai passar pra este, vai passar para aquele, todos vão saber! Não vem aqui, mas, pra onde ele for, a história tá registrada. Então, as histórias estão dentro das letras dos livros. A Bíblia Sagrada, por exemplo, a senhora quer saber, é uma história do começo do mundo? Está dentro das letras. A senhora pega: “Ah, agora eu sei como é.” Por quê? Porque teve alguém que escreveu. Pra alguém saber a senhora tem que... É o que está parecendo, né? Isso que as histórias já estão sendo... Eu gosto de apreciar as histórias. Então valeu a pena, é gratificante e nós estamos por aqui. Senhora querendo aparecer e se você se lembrar de mim assim: “Ah, eu vou lá”. Nós estamos por aqui.

 

P/1 – Com certeza. E pra nós também, viu? Foi muito importante.

 

R – Olha, não deu pra nós irmos lá no gado porque a senhora quer ir...

 

P/1 – Nós vamos lá. Não. Nós vamos lá ainda. E a sua história vai ser uma fonte de conhecimento pra muita gente.

 

R – É. De conhecimento. Certo. A gente tem que conhecer. Olha, a senhora não chegou nem na metade.

 

P/1 – Quem sabe a gente faz outro volume depois.

 

R – É. Nós precisamos passar pra natureza, o que tem de valor a natureza. A senhora sabe o que tem de valor a natureza? Qual é o valor dela pra nós. Por isso que a lei da preservação do meio ambiente luta pra preservar a natureza, por quê?

 

P/1 – Porque é vida, né, senhor Bertino.

 

R – É vida. E olha, muitos produtos vêm daqui. Chegou aqui o técnico da mineração, ele é agrônomo, técnico que trabalha lá, doutor. Chegou aqui, olhou bem aqui nessa árvore, o ipê, disse: “Ah rapaz, mas esse é um grande remédio. O remédio da gastrite, o remédio do sangue. Um grande remédio está perto aqui no terreno.” Pra esse que dá na junta, como que é?

 

P/1 – Reumatismo?

 

R – Reumatismo. O chá da casca, viu? Nós temos a carapanaúba, nós temos... Lá em Manaus, o cara foi desenganado do médico, era gastrite, úlcera. Era úlcera. “Vai morrer na tua casa, rapaz. Não tem mais jeito.” Aí ele foi pra casa, tinha um embrulho de folha de casca sacaca, na natureza tem muito aí. Aí ele disse pra mulher dele assim: “Olha, faz um chá dessa casca. Eu quero morrer bebendo essa casca. O médico me desenganou.” Aí ela fez um chá. Primeiro, segundo dia, ele sentiu... Com oito dias, ele voltou no médico. O médico o enxergou e disse: “Rapaz, ainda não morreste?” “Não, doutor, eu estou bem melhor.” “O que tá acontecendo?” “Eu vim pro senhor fazer um exame novamente porque eu me senti muito melhor.” Aí o médico colocou, fez o exame e disse: “Rapaz, eu não sei o que está acontecendo. Eu sei que está tudo sarando, tá tudo preto.” Aí ele disse: “E o que tu estas fazendo?” “Tomando um chá”. Ele tomou um ano, com três anos ele... Só com a casca sacaca. Então, a natureza tem as folhas, tem a seiva, conhece o mururé? Conhece o mururé? É um leite, é bom pra reumatismo. Conhece a casca preciosa? É bom pra insônia. Se nós fossemos passar pra natureza... Olha, é por isso que eu não consinto cortar essas árvores. Na história diz: “Não ofenda.” Ela é vida. Preserve a vida da natureza. Por quê? Porque a natureza preserva a terra, não deixa a terra ser seca, não deixa acabar o amônio dela. Ela sombra, ela puxa, ela... À noite, ela desprende o aroma... É vida. Na cidade, é só combustão, é só gasolina. Aqui, a natureza... Olha, quando é tempo das flores, a senhora chega numa floresta dessas é um aroma agradável. É porque todas elas estão com flores, esse pau d´arco, dá flor que é uma beleza. Nós temos essa planta ó. Aquilo é o lírio. Isso dá um aroma que é uma beleza à noite. Preserva a terra. Aquela ali assim, tá vendo? A vassourinha.

 

P/1 – Beleza.

 

R – É o chá da próstata. O chá dela, teve um homem que foi desenganado do médico ele passou, tomou três meses ficou bom.

 

P/1 – Senhor Bertino, a gente acho que vai ainda dar uma volta por aí pro senhor poder falar mais de todas essas plantas, do gado e, com certeza, a gente poderia ficar aqui um bom tempo. O senhor tem muito mais coisas pra nos contar, né?

 

R – Ah, mas eu tô dizendo a senhora... Tem muita coisa ainda.

 

P/1 – A gente vai precisar encerrar agora e mais uma vez muito obrigada, senhor Bertino, pela sua história.

 

R – Estou à disposição pra senhora. Não ficou nem na metade.

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