Busca avançada



Criar

História

Com muita dedicação, Sr.Milton segue plantando, cultivando e cuidando, no dia a dia, do futuro de sua família.

História de: Entrevista de Milton José Erton
Autor: Thalyta Pedreira de Oliveira
Publicado em: 22/06/2021

Sinopse

Milton aprendeu no campo, desde cedo, a lidar com a terra, através de muitos aprendizados foi plantando, regando e colhendo. E, na rotina do dia a dia, tem acompanhado os frutos de seu trabalho e de seus sonhos; e é ali na roça o lugar onde pretende continuar com sua família, para poder passar para as próximas gerações, o seu legado.

Tags

História completa

Projeto ICC Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Milton José Erton Entrevistada por Luís Egito Alpestre-Rio Grande do Sul, 07 de abril de 2011. Código: HV_ICC005 Transcrito por: - Revisado por: Anna Christina Madrid ENTREVISTA P - Bom dia Milton, obrigada por ter aceito dar esse depoimento para nós. Eu queria que para início de conversa você dissesse o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R – Meu nome é Milton José Erton, eu nasci aqui mesmo, né, no município de Alpestre que naquela época eu acho que era município de Iraí. Nasci em 25 de Julho de 1965. P – O nome dos seus pais, por favor? R – O pai é Arlindo Erton e a minha mãe é Nelci Erton. P – O que fazia o seu pai? R – Agricultor. P – E o que ele cultivava, o que ele produzia? R – Bom, naquela época, ele produzia feijão e milho; nós tínhamos também uma quantia de cana de açúcar, fazia melado, essas coisas. P – E a sua mãe? R – Ela ajudava, ela também trabalhava, ela sempre trabalhava junto na roça, com o pai também, e em casa, ela sempre fazia as coisas de casa. P – Você conheceu os seus avós? R – Sim, conheci, mas bem pouco, eu era bem pequeno. R – Você sabe o nome deles? R – Eu não tenho, a Irene Erton que era a avó, eu não me lembro bem o nome deles. P – Da parte do seu pai? R – É, essa é, e o Arnoldo Erton que era da parte do pai (Irene Erton e Arnoldo Erton que eram da parte do pai). P – Certo. E a parte da sua mãe? R – Teolinda Bon era minha avó, o do vô não me lembro do nome. O vô eu era bem “pequenininho”, quando ele faleceu e nunca mais foi falado sobre ele. P – Sei. Você sabe de onde eles vieram, como é que eles vieram aqui para a região? Teu pai contava essas histórias para você? R – Bom, essa parte não, eu sei que eles vieram de Birubá, acho que a parte da avó veio de Birubá (a avó por parte de mãe, mãe da minha mãe), né, eles vieram de Birubá. P – Birubá, fica onde? R – É no Rio Grande do Sul, mais para fronteira. P – Certo, e da parte do seu pai? R – Eu não sei. Não sei de onde eles vieram, não me lembro disso. P – Como é era seu pai fisicamente, assim, como ele era? R – Era mais “tipo” eu assim. O mesmo cabelo, meio branco também desde guri, né? A mesma fisionomia. P – Certo. E como era a casa que vocês viviam? R – De madeira, normal assim, “tipo” a que nós temos aqui, assim, às vezes com algum tipo de banheira, essas coisas de material, eram assim. P – E ficava onde esse local da sua infância? R – É aqui, logo acima, nessa mesma rua que se chama “Barra dos Buracos”, é o nome da localidade. P – Você poderia descrever essa casa, como ela era e como ela era distribuída? R – Ela tinha os quartos, né, cozinha e, tinha o quarto do pai e da mãe. Naquela época os filhos dormiam de dois a três, pois nós éramos em seis irmãos, né? Daí, tínhamos as meninas em um quarto e os “piá” em outro, além da sala, cozinha e banheiro, essa era a maneira que funcionava. P – E desses seis irmãos, onde você se localiza nessa escala aí, nessa “escadinha”? R – É, eu sou o mais velho, né, daí vem os outros. P – A família trabalhava junto, como era? Os pais pediam para as crianças ou as crianças ajudavam na ida do pai? R – Eu desde os sete ou oito anos trabalhei na roça, assim, ajudava na roça, claro. Cada um no serviço que podia fazer, né? P – E qual era o serviço que você podia fazer? R – Carpir, até plantar, né. Com aquelas máquinas de plantar à mão, nós plantávamos, carpíamos e fazíamos esses tipos de serviços. Todos eles no mesmo sistema, no mesmo jeito, assim, quando todos chegavam aos sete ou oito anos, íamos juntos na roça, porque “a gente se criava”. Nosso pai e mãe, nos criaram na roça, íamos juntos e eles nos levavam; quando não conseguíamos caminhar, eles nos deixavam lá numa sombra e depois íamos ajudando a trabalhar, quando podíamos. P – Começavam a andar e começavam a ajudar. R – É, fazíamos isso, só que a gente gostava, né? Achávamos bonito aquilo, gostávamos e era uma coisa bonita sendo que hoje em dia é proibido, né, mas nós gostávamos, “se criava” trabalhando e fazendo o serviço. P – Certo. E como eram as brincadeiras dessa meninada, que tipo de diversão vocês tinham? R – Como eu, nós gostávamos muito de jogar bola, né? Eu sempre acho que nasci já olhando para o lado de uma bola e assim nós fazíamos uma bola de meia ou de qualquer coisa e brincávamos, né? Jogava bola e brincava sempre lá em casa, onde vinha bastante “piazada” e a gente se divertia assim; brincando de se esconder era esse tipo de brincadeira que tinha naquela época, em que nós éramos mais “piazada”, era assim na colônia. P – Oh Milton, e tinha muita festa, assim, festa religiosa ou outro tipo de festa? R – Tinha. Como aqui, neste caso, tinham as festas do ano, né, a festa da Igreja e a festa da escola e, nós íamos. Funcionava assim. P – Vocês são católicos? R – Católicos. P – E essa escola, quando você começou a estudar? R – Eu comecei aos seis anos. P – Onde era essa escola? R – Ali, em cima mesmo, pertinho. Naquela época, tínhamos escolas em cada comunidade, a “Barra dos Buracos”, era onde eu ia nas aulas. Lá, onde eu comecei, fui até a quarta série que era o que tinha, era tudo junto, né.? E daí na quinta série, eu vim estudar na “Baralhante”. P – Conte-me dessa escola, dessa sua primeira escola, tem alguma professora que você tem lembrança? R – Tem, tem a Marlise, era quem lecionava quando nós íamos na aula e ela mora ali para cima, no município de Alpestre. E ainda, tinha a Teresa, que também foi nossa professora. P – E você, era um bom aluno? R – Acho que era, porque nunca teve muita reclamação (risos). R – Sei. E você, deixou a escola por quê? R – Bom, naquela época era difícil, neste caso era difícil o transporte e nós trabalhávamos, né, e não tínhamos “aquele” interesse também. Hoje apesar de ter que ir, na verdade eles estudam porque é um pouco por obrigação, né? Porque, tendo a facilidade de ir à escola, naquela época tínhamos que ir longe, como nós, que tínhamos que ir até Alpestre. E, como não tínhamos transporte, não tínhamos como ir. P – Isso seria, da quinta série em diante? R – É, na quinta série, neste caso eu ia até a Barra Granita. Eram quatro quilômetros, daí eu ia a pé ou de bicicleta. P – Quatro quilômetros para ir e quatro para voltar? R – É. P – E aí, quando você precisou ir para Alpestre, qual era a distância? R – Eram 13 quilômetros, mas daí como não tinha transporte naquela época, não tinha como ir, né? P – Aí a opção foi ficar em casa e trabalhar com os pais? R – É, porque a gente gostava, né, não sentimos falta da escola não. Hoje, nós sentimos falta, se tivéssemos estudado mais, seria bom, né? P – Sei. E esse gosto, de onde veio? Veio desse acompanhamento aí de criança, veio de ver o seu pai realizar as suas coisas, de onde veio esse gosto? R – Eu sempre gostei da roça, não sei direito...Pois desde criança eu gostava de lidar com boi, lidar com roça sempre foi uma coisa que eu gostava, nunca fui de gostar da cidade, desses negócios assim. Eu gosto da colônia e de serviço, na verdade a gente foi “pegando” junto com o pai e com a mãe, e foi indo. Eu fui trabalhando e aquilo foi, não sei, a gente parece que é feito para isso e pronto, eu gosto, gosto da colônia. P – E tinha alguma cultura ou algum trabalho que lhe chamasse mais atenção, que lhe agradasse mais a fazer? R – Bom, nós plantávamos feijão e milho. Na verdade, nem tudo (não sei) me lembro desta parte, de gostar mais de um ou de outro; eu acho que não. P – Certo, e na vida adulta quando você começou a trabalhar por sua própria conta? R – Eu tinha vinte anos, daí foi o ano que nos casamos, eu e a Érica. Casamos e daí eu comecei a trabalhar para mim, né, antes eu trabalhava com os pais. P – Sua senhora, chama-se Érica? R – Érica. P – Como você a conheceu? R –Na verdade nós já nos conhecíamos, né, porque ela morava aqui e eu morava há três quilômetros de distância. A gente saia juntos, tinha reunião da juventude, daí nós fomos nos conhecendo e depois começamos a namorar e, acho que depois de nove ou dez meses, que namoramos e nos casamos. P – E como foi esse dia, essa festa de casamento? R – É uma coisa...É bonito, né? P – Descreve, vamos lembrar para gente. R – É, na verdade, eu lembro até o dia em que nos casamos, a igreja estava em reforma, né, então casamos em um salão. Só que é um dia que nós não esquecemos, é um dia bonito, né, assim, fizemos a festa; foi feito a festa em um galpão aqui mesmo, que foi limpo e enfeitado, onde foi feito a festa na parte de baixo, no chão batido, o qual levantava poeira porque dançávamos, né? P – O que teve nessa festa? R – A nossa festa foi feita com vinho e guaraná, carne né, e a brincadeira à tarde. P – Teve um “fandango”, lá? R – Sim, as danças, teve até meu sogro que era gaiteiro, né, tocou gaita e também teve um tio que tocou “bandoião”; foram eles mesmos que tocaram. P – Então, o negócio foi até tarde? R – É. P – Está certo. Oh Milton, então você disse que a partir do seu casamento, que você começou a trabalhar por conta própria, o que você decidiu fazer e onde foi? R – Bom, quando nós começamos como arrendatários, entregava a renda, né, para os outros; até uns três anos de casado nós trabalhávamos desta forma. Depois, que nós viemos morar aqui, porque o meu sogro tinha só um casal de filhos, né, e daí eles precisaram de alguém que “tocasse” isso aqui, e nós fomos; eles até nos pediram para morarmos aqui, aí fizemos a casa onde viemos morar e começamos a trabalhar e a “tocar” essas coisas aqui, desde a indústria. P – Deixa só eu voltar um pouco nesse período de arrendatário. Como funciona esse processo, só para que nós registremos esse processo. R – No caso, no ano em que nos casamos, nós pegamos um pedaço de terra e nós fomos lá e entregamos “tantos” sacos de milho por ano, daí nós plantamos aquela quantia; depois nós entregamos por parte, vamos dizer, trinta por cento para o outro que nós colhíamos, né, como: feijão e milho, sendo que o que era plantado nós tínhamos que entregar trinta por cento. P – Certo. E se a safra, por algum motivo tivesse algum problema, chuva demais ou chuva de menos? R – Como esses trinta por cento era trinta por cento (do que era plantado), se desse pouco, era o que nós entregávamos. Quando era um ano mais sofrido, porque tinha umas coisas como, uns produtos davam e outros não, mas nós entregávamos aquela quantia (que era possível), né, daí era mais complicado. P – Aí sobrava pouco para vocês? R – Sobrava pouco, na verdade sobrar nunca sobra, né, sempre é complicado na colônia. Desse jeito, é complicado. P – Sobretudo quando você não é dono do seu pedaço, né? R – É. Como hoje em dia, já está complicado sendo o dono e, não sendo o dono, é bem pior. P – Sei, e que tipo de complicação você acha que existe mais? R – Hoje em dia? P – É. R – É que hoje em dia, tem muita coisa que é complicada de fazer, né? Como a fruta, um ano tem preço no outro não tem. Sendo assim, o ganho no caso é pouco, você tem que fazer vário tipos de coisas para sobreviver, pois um ano “dá” a seca, um ano “dá” a chuvarada demais; isso é a parte complicada, na colônia essa é a parte que mais complica, né? Você vai plantar alguma coisa, você já olha para cima para ver se não vai chover demais ou se não vai ter a seca, então é complicado. P – Está certo. Você disse que quando veio trabalhar com o seu sogro, já era um negócio próprio seu e da Érica, né? O que vocês produziram? R –Nós começamos também a produzir fumo, foi um ano que nós fizemos um galpão para o fumo. Tivemos uns anos bons de fumo, o fumo dava dinheiro, mas em alguns anos, nós também entregávamos uma porcentagem para o meu sogro, né, mas era do que sobrava e não do total. Foram alguns anos assim, depois quando ele se aposentou, daí nós não precisamos entregar mais nada. P – Você disse então, que quando começou a trabalhar por conta própria, com o seu sogro, você primeiro começou a produzir fumo, né, e você trabalhava para ele como se fosse um arrendatário, é isso? R – É, no começo nós dávamos uma porcentagem e, do que sobrava, né, nós vendíamos o produto, pagávamos o insumo, pagava as despesas que dava e daí nós dávamos uma porcentagem do que sobrava. Mas depois nós começamos a criar vaca de leite, a plantar milho e a plantar feijão. P – Nessa propriedade aqui? R – É, tudo era feito aqui. P – Que tamanho tem essa propriedade? R – São 15 hectares. P – E dava para tirar bastante leite, como era? R – A produção era sempre pouca, tinha meio; de tudo um pouco, plantava feijão, tinha vaca de leite, tudo um pouco, daí não acontecia de ficar, se uma coisa não dava certo, com a outra você conseguia salvar o ano. P – Era você sozinho com a sua senhora, ou tinha mais gente com você? R – É, primeiro era eu e a Érica que tocávamos, agora tem o rapaz, né, o André que tem 19 anos, mas ele começou bem depois a ajudar também. Neste caso, ele começou como nós começamos, assim, ajudava quando podia. P – Certo, e nesse princípio de vida aí como era sua rotina diária, que horas vocês acordavam, que hora vocês comiam, como era? R – Bom, aqui tem um pouco de horário, levantamos de manhã, às seis horas, mas se é um dia que está chovendo levantamos até mais tarde, daí tomamos um chimarrão, depois tiramos o leite, tratamos dos porquinhos, dos bois, né, no caso a gente trabalha com os bois na “canga”, né? Trabalhamos na roça, tratamos e depois da roça, por volta das sete ou sete e meia, depende da época e do serviço também, e seguimos trabalhando no caso até onze ou onze horas e meia, depois nós voltamos para casa, faz-se a comida, almoçamos, “dá” uma descansadinha depois do meio dia e, de tarde, voltamos de novo. P – Certo, e vai até que horas? R – Até o sol entrar, nessa parte não olha muito horário, vai até o sol entrar. Daí voltamos, fazemos novamente o trato dos bichos, tiramos leite de novo, daí jantamos e olhamos algum programa de televisão, daí depois vamos dormir. P – E nesse período aí, quero dizer, você já casado e já tratando do próprio negócio, como você foi evoluindo do ponto de vista de identificar novas culturas, quero dizer, no início era só o fumo, depois você foi para o cultivo de “um pouco” de feijão e “um pouco” de milho. Como você chegou na cana, por exemplo? R – É, nós fazíamos melado batido há anos já, assim, lá no galpão e neste caso era batido no “muque”. Com isso bastante gente, sempre vinha, por gostar de melado e para comprá-lo. O melado tem um pouco a ver com a terra também, porque dependendo do tipo de terra, tem-se uma mudança na qualidade do melado. P – Ah é? R – É. E daí nós fomos fazendo o melado, até que um dia veio o pessoal do EMATER [Qualidade em extensão rural] para olhar como ficava o ponto do melado, pois eles gostavam do jeito que nós fazíamos o melado; foi aí que começamos a conversar sobre isso para construir a agroindústria, isso foi em 2005/2006. Foi daí que nós começamos a pensar em um jeito de melhorar ao fazer a agroindústria, né. Começamos com a cana e com isso plantamos mais canas e começamos a produzir na agroindústria. No entanto, nós chegamos a um ponto em que, fizemos e construímos uma parte para depois chegarmos numa outra etapa, em que nós terminamos. P2 – Por conta do recurso, né? R – Ficava “patinando”, e com isso, não conseguíamos terminar e tínhamos que fazer as coisas. P – Certo, e isso foi uma relação com a EMATER, né? R – EMATER, sim. P – E como surgiu o Sebrae e o Instituto Camargo Corrêa, nessa história? R – Eles vieram, por volta de um ano e meio a dois anos, com a ideia do projeto, né, para ajudar até com dinheiro, pois nós compramos a moenda com o projeto e, como para nós isso era caro, esse projeto que trouxeram nos ajudou a comprar a moenda. Esse recurso, que veio do Chapecó do Instituto Camargo Corrêa, é uma parte da administração também, que faz parte dos cursos, onde nós fomos nos aperfeiçoando, né, e assim melhorarmos nessa parte de produção. P – E como se dava essa articulação? Vocês faziam reuniões periódicas, tinham assistência técnica, como funcionava? R – Com o Sebrae? P – Isso. R – Eles fizeram visitas e com os cursos que nós fizemos com o Sebrae, foram para melhorar nessa parte. E, neste caso, os cursos, também não tinham custo, né, pois o Sebrae vinha e nos davam os cursos sem nenhum custo, sendo uma coisa que nos ajudou bastante. P – A sua família e outras famílias também? R – É. P – Vocês tinham essa relação, trocavam ideias, conversavam, como se dava isso? R – É, daí fizemos visitas também, né, em outros lugares, fomos visitar para ver como funcionava nesses lugares e a gente foi aprendendo uma coisa aqui outra lá, e assim fomos melhorando nessa parte do processo, né, com a cana. P – Essas visitas foram feitas onde, Milton? R – Bom, eu fui até Santa Rosa de Lima, em Santa Catarina. Um dia nós fomos visitar um negócio também de cana e depois, um de turismo rural, Severiano de Almeida. Quase todos os lugares que nós fomos, era para conhecer essas “coisas”. P – E essa troca de idéias serve para alguma coisa, é importante? R – É importante, porque sempre tem coisas que achamos difícil e com isso aprendemos a ver de um jeito diferente, mais fácil de fazer as coisas, né. Às vezes o melado em que nós fizemos o ano todo, acaba por ter algum probleminha, né, e com essas visitas, vamos conversando, sabendo que também com eles aconteceram esses mesmos tipos de problemas e, com isso, vamos “pegando”, conversando e achando uma solução, onde diziam para a gente também, como tinha acontecido com eles. P – E aqui na região essa troca de ideias, está agora mais intensa, e mais próxima? E as famílias, se reúnem? R – Sim, no caso desde quando começaram os cursos, que estamos mais juntos e trocando ideias, onde cada um vai “pegando” as coisas boas do outro , e assim um ajuda o outro, né, e assim vamos fazendo. P – O poder público tem alguma participação nisso, a Prefeitura ou o Governo do Estado tem algum tipo de participação? R – Por enquanto, é pouco a ajuda deles, eles vão dar mais apoio, né, mas agora, no começo, é quase nenhum ajuda, bem pouquinho mesmo. P – E o que eles estão planejando em apoiar agora? R – Bom, agora eles estão entrando em um projeto. Enquanto aqui, tem a ideia deles nos apoiarem, em uma ampliação que precisamos fazer aqui, né. Eu acho, pelo menos do que foi falado é que eles vão entrar com uma parte de recurso para nos ajudar nessa parte, né? P – Ampliação da agroindústria? R – É, temos que ampliar para legalizar, né, tem que ter umas ampliações que precisam ser feitas. P – Está certo. Diga-me uma coisa, como foi a chegada da Camargo Côrrea aqui na região? O que isso significou, como essa barragem grande, para a sua vida, para o seu negócio? R – Por enquanto nestas partes, nós achamos que está ajudando bastante, né. Mas agora eu acho que mais para frente, mesmo através do município, teremos mais recurso e o negócio de turismo vai funcionar, né, e isso vai nos ajudar em várias “coisas” de agora em diante. Nessa parte do projeto, se não fosse por eles, terem vindo e terem feito essa parte, nós estávamos perdidos e não estávamos andando. Então, não ia funcionar se eles não tivessem vindo com esse projeto para fazer estas “coisas” e, não estariam funcionando; agora estamos começando a andar mais depressa e melhor. P – Quando essas equipes do Instituto Camargo Correa chegaram aqui, qual foi a primeira impressão, assim, o que você pensou? “Isso vai dar certo” ou “Não vai dar certo”? R – Bom, a gente é como... Mesmo com o Sebrae também, tiveram várias vezes muitos casos assim, que aconteceu de virem, de lançarem uma semente e irem embora, né. Nestes casos, nós ficamos depois, meio perdidos e, agora não, agora eles vieram, ajudaram com o recurso e vão continuar um bom tempo ainda. Então é uma coisa diferente, né, é um jeito diferente. No começo a gente fica meio...Já passamos muito por isso e “apanhamos” muito nessa parte. Então, no começo ficamos, meio com pé atrás, né? Até que se começa a confiar e depois com isso, vamos embora. P – Está certo. Essa construção da confiança é o pulo do gato, né? R – Sim, essa parte “é o que é”. E, é uma coisa que não pode ser de hoje para amanhã, sabe, para nós aqui tudo demorado, né? Tudo para nós termos o ganho de fato, é sempre demorado, né, não é tão rápido. Pois a maioria das leis, são feitas em gabinete, né, elas não são feitas na nossa realidade. São feitas lá no gabinete entre quatro paredes e mandado para nós, e quando isso chega aqui, é bem fora da nossa realidade em muitas coisas, e aí complica-se tudo, né? P – Certo. O que mudou, assim, na estrutura produtiva aqui da região, da sua pequena região aqui à sua volta, depois que essa articulação aconteceu, depois que o Instituto apareceu. O que mudou? R –Agora nós já temos uma idéia do que podemos fazer e o quanto podemos crescer, né. Antes nós estávamos sempre só em “roda”, agora nós vamos em outros lugares e com isso nessa parte, começamos a ver que tem jeito de crescer, né? Tem como fazer mais coisas e, assim melhorou. E, com isso temos uma perspectiva melhor, para frente. Foi assim. P –E como funciona essa parceria Milton, quer dizer, vocês estabelecem metas, tem objetivos, como isso se estrutura? R – Nós temos, né. Nós temos a cooperativa e, neste caso, junto com ela nós temos algumas ideias de crescer, né, de fazer as coisas, de trabalhar mais em conjunto, as coisas precisam ser feitas mais em grupo, embora eu acho que produzir em grupo é complicado, porém vender em grupo como: eu produzo o melado, um outro produz a mandioca, um outro produz o açúcar, e como tem os panificados com isso tentamos fazer um grupo para poder vender para fora, né? Pois se eu sair somente com o meu produto, não funciona, então temos que ter vários tipos de produtos para vender. Essa é uma idéia que nós temos agora em diante, e sentimos que nós temos que começar a vender em grupo esses produtos. P – E essa ideia, está sendo praticada na cooperativa? R – Por enquanto não, ainda não chegamos bem nesse ponto, mas a ideia é chegar, né. Temos poucas coisas e somente a mandioca, por enquanto, está legalizada, né, onde é descascada, embalada e depois vendida. A ideia é legalizar algumas, como a cana, panificados, além de outros que nós temos; queremos legalizar para depois saímos para vender esses produtos também. P – Essa cooperativa, foi formada há muito tempo ou é recente? R – Faz três anos, eu até sou sócio fundador dela. P – Como é o nome da cooperativa? R – Extremo Norte. P – O nome completo dela? R – Agora não me lembro o nome dela. P – Cooperativa do Extremo Norte? R – Sim, é daí o nome dela, foi uma ideia do pessoal que fez o curso, eles possuem um grupo que fizeram o curso de zootecnia, né. Nisso, o Vagner que é o coordenador de lá, tinha a intenção de formar essa cooperativa, a qual foi realizada e formada e assim, as “coisas” começaram a andar. P – E vocês tem reuniões periódicas, como a “coisa” funciona? R – Tem, sempre que acontece alguma “coisa” assim, é feito uma reunião, onde são discutidos a forma de andar as “coisas”, para podermos tocar para frente, né? P – E ela, quem coordena o crédito, micro crédito, como o fomento à produção funciona? R – É mais a cooperativa no caso quem coordena, ela quem faz essa parte de chegar em cada produtor. P – Chega em cada produtor, estuda a situação e propõe uma alternativa, é assim que funciona? R – É, vamos dizer, cada um, por exemplo: eu tenho a minha alternativa, o negócio de cana, outros tem o trabalho com estufa, agora tem outros que no município estão produzindo bastante mandioca, né, e que vão continuar a produzir. Então eles organizam onde é a área produtiva, os que estão coordenando, né, para poder chegar em um ponto onde as pessoas tenham como vender. Já aconteceu muitas vezes de virem pessoas de fora, que mandavam plantar, “plantam, plantam, plantam” e depois iam embora e não apareciam mais, né. Com isso existia a produção, mas não vendíamos, né. Já agora, é feito um contrato de compra e venda, de quem vai plantar e de quem vai vender, né? Senão você planta e daí na hora você vai com aquela expectativa de colher, de fazer algum dinheiro e depois não vende e isso, aconteceu muitas vezes. P – E a cooperativa estuda esse mercado, ela quem sugere o que produzir ou é uma demanda natural que surge? R – Como o Sebrae é quem está fazendo mais essa parte de meio de campo, neste caso, eles estão vendo como está o mercado e com isso tem os consultores e, nós também trabalhamos juntos nessa parte de ir vendo. Temos as vendas, só que hoje em dia nós temos que encontrar os pontos de vendas, né. Conhecer onde é, onde tem as “coisas” e assim por diante, para poder vender. P – E quem faz esse tipo de identificação, é o pessoal da cooperativa? R – Da cooperativa com o Sebrae, né. P – Com o Sebrae. Certo. E o Instituto como entra nisso? R – O Instituto também, no entanto agora, ele está entrando mais com o recurso da reforma, para ajeitar, construir, legalizar, comprar como no caso da mandioca, que nós temos que comprar a máquina para descascar, por enquanto está sendo feito tudo “no braço”, sendo mais complicado. Eles entram com mais recursos também, né? P – E como se dá essa relação com o Instituto, vem uma pessoa conversar, procura, estuda seu negócio, vê as suas necessidades? Como isso funciona? R – Na verdade vem tudo com o Sebrae, né. Neste caso, justamente nessa parte eu não participo muito, mas eles ajudam em tudo, assim que precisamos, eles estão sempre juntos nos ajudando. P – E como funciona esse processo do crédito de financiamento da sua produção e das suas instalações? Como você consegue o recurso, como você convence o financiador de que você merece aquele recurso? R – É, como a moenda, que foi comprada por esse crédito que veio do Instituto, e uma parte da construção nós fizemos com o Pronaf, né. Enquanto a outra parte, foi de recursos próprios, né. Sendo que pouca coisa foi financiada e o resto, a maioria foi de recursos próprios, né, de coisas que nós tínhamos e fomos fazendo aos poucos, né? P – Certo. E vai acumulando, né? R – É. P – E o que você acha que mudou na estrutura produtiva daqui da região? Essa nova visão, aparecimento da cooperativa, o papel do Instituto, o que isso mudou nesses últimos três ou quatro anos? R – Na verdade a Alpestre é um produtor de fumo, em outra época foi feijão, capital do feijão, agora é a capital do fumo e, neste caso, do fumo também está indo para o mesmo fim. Pois esse ano tiveram muitos problemas e, com isso estão entrando outras alternativas, né. Isso tem sido um jeito que nós encontramos; quando chegarmos em um determinado ponto em que nós precisamos mudar, para não corrermos o risco do mesmo que aconteceu com o feijão e daí foi um jeito de ter que mudar de ter que fazer alguma coisa diferente, e foi aí que começaram a entrar essas novas alternativas onde nós começamos a entrar nessas coisas. Temos que fazer, né, e temos que mudar, senão temos que ir para a cidade como a maioria está fazendo, né? P – Certo. Houve uma evasão grande de pessoas, muita gente saiu daqui? O que aconteceu com o feijão nessa época que você relatou? R – Bom, o feijão naquela época era produzido por pequenos agricultores, enquanto hoje é por apenas um grande; ele vai lá e produz para o município inteiro de Alpestre, e daí começou, a oferta e a procura, né. O preço caiu muito e nesse caso, como aqui um cara que colhe cem sacos de feijão é considerado um grande produtor e com isso ganhava, passando depois a ganhar pouco e com isso não conseguia mais manter as contas com o feijão, com isso fomos mudando para o fumo, né? Foi um ano em que todos começaram a mudar para o fumo e as pessoas começaram a ir embora para a cidade, já que diziam que na cidade estava muito melhor, pois Alpestre tinha entre 16 a 17 mil habitantes e, hoje, tem por volta de 7,5 mil habitantes, então ficaram poucas pessoas na colônia. P – Isso foi desde quando Milton? R – Isso foi de uns 12 a 13 anos para cá, 15 anos talvez, que foi aí que o pessoal abandonou. Depois que alguns, começaram mudar para o fumo, tiveram algumas épocas ruins de novo e as pessoas começaram a mudar para a cidade e foi “todo mundo”. P – Quer dizer, o pessoal saiu do feijão para o fumo? R – É. P – E o que aconteceu com o fumo, piorou a situação também? R – Teve uma época em que o pessoal foi tanto para o fumo, que não plantavam nem milho para o consumo próprio, né, vamos dizer, para tratar um “bichinho” ou alguma coisa. E, o fumo na verdade, é apenas uma colheita por ano, e no final eles colhiam o fumo e compravam os alimentos, ficando sem dinheiro novamente. Essa parte começou a ficar complicado... Nisso, o pessoal começou a plantar novamente um pouco de feijão, pelo menos para consumo próprio, pois em algumas épocas, tinha ficado complicado. P – E essa virada aconteceu quando, em quais circunstâncias? Essa virada de diversificar de começar a buscar outras culturas? R – É, começou com a fruticultura, né, primeiro. O pessoal veio, e na verdade foi a necessidade de cada um, pois você percebe quando está em uma cultura onde você começa a não ver dinheiro mais, né, então começa na verdade a ter a necessidade de mudar, a necessidade que nos obriga a mudar, pois o bolso começa a ficar vazio e daí temos que nos mexer, senão... P – Agora com essa articulação, você acha que com esse diagnóstico, esse entendimento do mercado e da produção, fica mais claro e mais efetivo? R – É, por enquanto nós não temos uma certeza ainda, né, porque ainda é o começo, temos muitas coisas para “andar” ainda. Mas assim, pelo que dá para notar, parece que temos uma luz de novo, né? Nisso começamos a ver, que na verdade, não se ganha muito em coisa nenhuma na colônia, em nada temos muito lucro, porém nós temos uma luzinha de novo que começa a aparecer e, que por tal caminho vai dar certo de novo. Então é uma idéia diferente, uma coisa que para nós no caso, ainda é novo, mas é uma idéia que eu acho, eu na minha opinião, vai dar certo, né. É uma coisa que vai funcionar. P – Você tem reparado algum movimento de retorno das pessoas que saíram da colônia e passam a voltar, exatamente porque tem esse tipo de perspectiva? R – Sim, tem pessoas voltando. Só que esse ano, novamente por conta dessa quebra do fumo, tem pessoas que voltam, que vem porque acreditam nisso enquanto tem pessoas que não querem entrar nessa parte e estão indo embora de novo. O que tem de gente, indo embora novamente de Alpestre, como tem pessoas que estão vindo para ajudar, que estão vendo que vai dar certo essa parte aí, né. Pois estão achando que é por aí, que as coisas vão funcionar de novo. P – A respeito dessas pessoas que você mencionou que saíram daqui e foram para as cidades, elas iam para fazer o quê? R – A maioria foi para Farroupilha, Caxias, Bento etc, trabalhar em fábrica, né, de calçados, de móveis, então a maioria, como Farroupilha só tem pessoas de Alpestre, né? Com isso você conhece todo mundo, só pessoas vindas de Alpestre, são vilas inteiras. P – Foram trabalhar como operários em fábricas de lá? R – É. P – E esse pessoal quando volta, o que encontra de diferente? R – É, quando eles voltam aqui, eles ficam com saudades, né? Porém, hoje em dia, se for para voltar para trabalhar na colônia novamente, eles não teriam mais condições, né, pois venderam as terras, venderam tudo e foram embora. Hoje, se for para eles venderem o que tem e comprarem tudo de novo, não sei se conseguem, né? Pois teriam que “começar do começo” e, não é fácil. Pois para nós, que já estamos instalados não é tão fácil, então imaginem sair de uma cidade e vir aqui, não conseguem. Tem muita gente que está se aposentando e está vindo morar aqui novamente, porque o lugar é bom, calmo, tranquilo e o pessoal gosta desse lugar. P – Está certo. Sobre a cooperativa quando foi formada, deve ter mudado muito as relações, tanto humanas quanto de produção aqui na região, né? As pessoas se encontram com frequência, e a cooperativa faz reuniões periódicas, como funciona? R – Sim, tem reunião todo mês. Só que a cooperativa neste caso, está no começo. Uma coisa é que estamos todos nós aprendendo juntos, pois não é fácil iniciar algo novo e, para nós é novo, então nós estamos todos aprendendo né? Em tudo, desde o projeto, nós vamos fazendo as coisas e vamos “apanhando” e aprendendo. Desde as coisas que estão sendo feitas, por exemplo, você olha no papel e é uma coisa e quando vamos fazer é outra. E isso sempre foi assim e sempre será assim, né, nós temos que aprender com o andar da carruagem como dizem, né? P – Mas você acha que hoje, houve uma mudança na qualidade dessas relações a partir dessa articulação das famílias e tudo mais? R – Sim, sim, nós na verdade somos uma família, né, todos nós temos que fazer e temos que trabalhar juntos, então um precisa conhecer o outro e assim vamos. E é assim que está funcionando. P – Essa relação melhorou, digamos... R – Dos associados da cooperativa? R – Melhorou, mesmo tendo alguns que não participam, a maioria vai, funciona e ajudam, né. Não é simples e não é fácil também, pois trabalhar em grupo tem alguns” probleminhas também, mas ... P – Mas é também uma força maior, né, você tem também um poder maior que o poder individual, né? R – Sim, porque às vezes achamos que temos problemas, mas o outro também tem, todos nós temos alguns “probleminhas”, mas “vai” funcionando. P – Está certo. Você mencionou aí de passagem essa idéia do turismo, o que está sendo pensando sobre turismo, aqui para a região? R – Faz um tempo, “volta e meia” vem o pessoal aqui, querendo fazer o turismo rural, né. Mas não adianta ser somente nós daqui, precisa ser uma região inteira para que todos estejam indo para o mesmo lado, então nós fomos conhecer alguns lugares que trabalham com turismo e daí surgiu a ideia de começarmos a nos organizar com as propriedades e, assim, fazer uma rota turística, né, como: aproveitando agora o lago, o acesso pois agora temos a ponte, com um acesso mais fácil. Está ficando mais fácil nessa parte em criar uma rota turística, nestas propriedades e, também fazer um café colonial, algumas coisas deste tipo, como algumas pousadas na colônia também. P – E esse plano está sendo estimulado pelo Sebrae? R – É, tem a Prefeitura também, além do Sebrae, é uma ideia que está no comecinho, né, que está sendo pensada ainda. P – Na verdade é um momento de construção, né? R – É, por enquanto nós temos que melhorar as nossas “coisas”, porque nós temos muito por aprender, né? Estamos aprendendo e, com o tempo, nós vamos fazendo “as coisas” funcionarem. P – Essa nova realidade, quer dizer, na verdade é uma realidade que está em mudança e em processo de transformação, ela ajuda vocês? Vocês, que eu digo, as famílias aqui da região, do grupo, a criarem um elo de confiança maior, quer dizer, vocês tem hoje uma maior participação nas decisões mais comuns? R – Quer dizer da comunidade, assim? P – Isso, isso. R – Tem, mas ainda é pouco, eu acho que teria que ter mais. Neste caso, são poucas pessoas ainda que se interessam em melhorar e em fazer as coisas. Hoje em dia ainda temos pouco, né, porque na verdade temos pouca juventude e a maioria desta juventude foi para a cidade, sendo que nessa parte eu acho que faltam pessoas, enquanto as pessoas com mais de idade, acima dos cinquenta anos, já não tem muito interesse, então faltam pessoas mais jovens para “pegar junto”, para poder fazer essas “coisas”. Ainda sentimos bastante falta de pessoas colaborando, são poucas, em cada comunidade temos poucas pessoas que se interessam e muitos sem interesse nessa parte, isso tem sido uma falta que nós sentimos. P – Mas você avalia que, por exemplo, o quadro de hoje é melhor que três anos atrás? R – Melhorou e bastante. Há três anos atrás, nós também estávamos parados, né, hoje nós estamos já nos “mexendo” em algumas coisas, fazendo, melhorando, em tudo ainda falta bastante mas já estamos fazendo e, sabemos onde podemos ir, né? Sabemos onde podemos começar, melhorar e, essas coisas, são assim mesmo elas são devagar, né? P – Mas Milton, enfim, hoje com todo esse processo que ainda está em construção, existe uma perspectiva real aí pela frente, né? Tem alguma possibilidade de crescimento, você faz essa avaliação também? R – Tem, tem, como eu disse, já tivemos uma luz e agora estamos tendo uma nova luz. Nós chegamos em um ponto que nós não tínhamos mais direção, onde estávamos andando meio tonto, não sabíamos para que lado ir e agora, como eu, temos algumas “coisas” que eu vou parar de produzir e vou trocar algumas coisas, como: seguir com a agroindústria e com a vaca de leite , vou ficar nisso. Pois estou vendo que nessa parte as coisas vão andar, vão funcionar, porque tudo que fazemos tem que ter ganho, né, pois não dá para trabalhar e não ter ganho. P – Claro. E a agroindústria tem essa perspectiva? R – Tem, porque nós sempre tivemos uma saída boa do produto, do melado. E as pessoas que vem de fora, hoje em dia vem de Farroupilha, Bento e Caxias, sempre vem buscar melado aqui, porque a maioria é de gente conhecida, né, pessoas que saíram do município e, hoje quando voltam, eles gostam do produto da colônia, né, então eles vem aqui buscar, né? P – Milton, o que o teu melado tem de tão especial? R – A gente sempre fez o melado no capricho, né, fazemos bem este negócio e este produto bem; é um produto colonial, né, um produto puro que não tem nada de produto químico, ele é feito da cana, depois cozido, batido e embalado, sendo sem qualquer tipo de produto químico. Então eu acho que é esta parte aí que ajuda. P – Como é o processo da moagem, da cana até o melado pronto, como é o caminho da produção? R – É, temos que moer. Depois da cana cortada, transportamos para cá, moemos e depois é cozido no fogo, onde começamos de manhã indo até depois do meio dia para ficar pronto. De duzentos litros de garapa, tiramos uma média de trinta quilos de melado, pois o resto é água. Temos que cozinhar, bater no batedor e depois de batido é colocado nas embalagens, é esse o processo do melado. P – E nessa redução da garapa, o que gera? É vapor, uma borra, uma “sujeirinha”, é isso? R – É, porque o restante é água, e nós temos que tirar esta parte e deixar somente o açúcar, o teor do açúcar que tem na cana vai ficar ali; depois quando chega num determinado ponto, nós cuidamos e retiramos para bater. P – E essas impurezas que ficam ali na superfície da garapa, quando ela está no fogo o que você faz com isso? R – Nós usamos na roça, aquilo serve de adubo, né. Também dá para colocar junto da ração dos animais, como exemplo para o porco. Misturamos em algum alimento pois não podemos dar somente ele (puro) pois pode até matar. P – E o bagaço da cana, o que você faz com ele? R – Eu coloco no meio das frutas, né, além de ser adubo também não deixa o mato crescer, depois com o tempo ela se decompõe e surge uma matéria orgânica. P – E quais frutas você tem aqui? R – Nós temos laranja bergamota, mais para o nosso consumo, temos um pouco de tudo. Já para vender, temos esta mesma laranja, mas em pequenas quantidades. P – E onde você vende essa produção de fruta? R – A laranja o pessoal utiliza para fazer suco, e às vezes para mesa (consumo). A bergamota, está sendo vendida para Passo Fundo e também tem uma parte que vai para Chapecó. P – E o seu melado, você faz o que com ele? R – Bom, o melado a maioria eu vendo em casa, vendo aqui mesmo na agroindústria, o pessoal vem buscar, depois, quando já estiver legalizado, aí vamos levar para os mercados, né. E tem sido assim, o ano inteiro e, é difícil alguém chegar aqui e não encontrar o melado, poucas vezes acontece, por isso as pessoas nunca perdem a viagem. Geralmente, as pessoas vem do município inteiro buscar melado, e mesmo as pessoas que já foram embora, ainda hoje voltam para buscar o melado daqui quando estão à passeio. P – A idéia de vender o melado fora daqui, seria onde? Você entregaria nas mãos de algum atacadista? R – Bom, essa parte nós não chegamos a pensar, mas é uma ideia e pode ter alguém que revenda, né? Alguém que pegue e revenda, ou até nós mesmo podemos sair para vender, né? P – E esse é um produto lucrativo, ele rende para você? R – É uma coisa que, podemos dizer, uma das coisas que mais rende, né, pois em uma pequena área de terra dá bastante, e neste caso, a cana produz bem por aqui, né? Não é um ganho grande, mas eu acho que é um dos melhores ganhos o da parte da cana. Para nós aqui, está ficando bom. P – Você mencionou lá atrás essa possibilidade que a cooperativa tem em contribuir fortemente nessa distribuição da produção, né, o que vocês estão pensando para o futuro, o que vocês pretendem fazer? Fazer essa venda casada, conjunta, como é esta história? R – Essa é a ideia, e assim com o tempo queremos comprar um caminhão, uma câmera fria, né. E, depois sair para vendermos esses produtos. Pois assim podemos levar uma quantia grande com mais produtos, não apenas um, né? Porque para levar só o meu produto é muito pouco, temos que levar outros tipos de produtos em conjunto, né; pois nós já fomos olhar para a Seara [Empresa do ramo alimentício], em como eles lidam com isso e tem a produção como nós temos aqui, cada um produz o seu produto e na hora de comercializar é colocado em um bloco, em um lugar em comum onde todos ficam, juntos, vendendo os seus próprios produtos. P – Cria um ponto de venda? R – Sim, é como criar um ponto de venda e vender todos juntos e assim fica mais fácil para vender, por que o nosso produto neste caso, é um produto orgânico e a cana não tem produto químico, não vai veneno, não vai nada, ela é plantada, em seguida é feito uma limpeza de enxada ou de arado e, depois é cortado para ser feito o melado; na verdade ele é um produto orgânico por não ter produtos químicos. P – O que já é uma vantagem competitiva, né? R – Sim, é um produto que você vai comer, vai consumir e não vai fazer mal, né? Não tem nada. P – Milton, já encaminhando para o final, como você enxerga esse futuro que você está construindo? Porque no fundo, no fundo, você está construindo um futuro, né? R – É, uma idéia que eu tenho, mas ainda estamos tentando, e para as “coisas” andarem, eu procuro segurar nossos filhos junto de nós. Eu tenho um casal de filhos e o mais velho, o André, sempre diz querer ficar aqui e nos ajudar a “tocar”, pois nós vemos que isso dará dinheiro, né? Todos querem fazer um dinheiro, quero dizer, um dinheiro honesto e um dinheiro não tão difícil, como estava sendo o nosso, pois plantar fumo é complicado, leva um ano inteiro, onde ficamos insistindo naquilo ali, usando produto químico, veneno, então penso que temos que sair desse “negócio de veneno”. Com o melado, por ser um produto limpo, eles não vão se intoxicar e nem se envenenar, né? É um jeito que estamos procurando mais fácil de viver, com menos correria, porque hoje na colônia não está fácil essa correria por ser grande e por termos que fazer muitas “coisas” e, no final, termos pouco lucro. E com a cana, dá para ver que vai dar dinheiro, né, é uma coisa que você vê que é um dinheiro diário também que entra todos os dias, quero dizer, todos os dias vende, torna mais fácil as “coisas”. P – Você disse que tem um casal de filhos, o André de 19 anos, né? R – E a Ana Paula, ela tem 14, vai fazer 15 agora em abril. P – Eles estão estudando? R – O André completou agora o segundo grau, né, ele fez o segundo grau e está vendo alguns cursos, quero dizer, que sirva para ajudar no trabalho daqui da propriedade, né, ele está vendo nesta parte de como produz os alimentos, através desse tipo de curso. Já, a Ana, está no primeiro ano do segundo grau e depois vai fazer o concluir segundo grau também. Depois, ela irá decidir se vai querer continuar a estudar, ou se vai querer ficar, pois o André disse querer ficar aqui. P – Mas de todo modo é um movimento inverso àquele que tínhamos antes, né, quer dizer, agora é uma garotada querendo se especializar para trabalhar em um negócio próprio. R – É, daí eles ficam, porque neste caso o que está acontecendo em Alpestre é que os jovens com 17 ou 18 anos, estão indo para a cidade, pois não querem mais ficar em casa, né, chega num certo ponto que as “coisas” ficam complicadas, eles tem os gastos deles. E, é nesta parte que nós queremos mudar, através de todo esse projeto queremos ver se muda essa parte, ao invés do pessoal ir embora, queremos que ele continuem e que trabalhem com os pais em casa, para evitar essas saídas de irem embora para a cidade. P – É porque agora, vocês tem uma perspectiva, né, Milton? R – É, assim temos uma luz que vai dar certo e as “coisas” agora vão começar a funcionar, ao menos temos ajuda, pois quando estamos sozinhos é complicado. Agora, com o Sebrae e o Instituto Camargo Correa ou Chapecó, que estão trazendo mais recursos e aprendizagem e, ainda mais por estarmos fazendo os cursos é o que ajuda, pois vamos aprendendo, para poder melhorar as “coisas” e não ficar sempre naquela situação: se você não quiser aprender e se não for atrás, ou não for buscar conhecimento, não vai conseguir as “coisas”, né? P – E depois de tudo isso, todo esse conhecimento acumulado acaba fazendo com que ande com as próprias pernas, né, quero dizer, que as pessoas comecem a produzir por si próprias? R – É, e neste caso, facilitam as “coisas”. Pois, se percebemos que estamos trabalhando de modo errado e que podemos melhorar, podemos facilitar, não precisa ficar só naquele modo, por exemplo o braçal; pois sempre falam que “quem trabalha muito não tem tempo de fazer dinheiro”, né? Então, é um jeito de mudar, de fazer as “coisas” de modo mais fácil, porque na colônia é pesado, você tem que gostar e, se não gostar, você não aguenta, não fica. Então é uma idéia de mudar, facilitar as “coisas”. Seja um jeito ou uma ideia de diferenciar. P – Bom, gostar pelo jeito vocês gostam, né? R – Eu sempre fui da colônia, eu não me vejo em uma cidade. Eu não gosto de ir nem em Alpestre e nem de ficar lá um dia inteiro na cidade. Nós vamos quando precisamos, mas não é uma coisa que faço com gosto. Nós até moramos na beira do Rio Uruguai, né, que faz divisa, onde tem os acampamentos e o pessoal tem casinhas na beira do rio e, esse pessoal gosta demais de vir para cá , para conviver junto com nós e é bom assim, nessa parte. P – E vende melado, né? R – Sim, vendemos melado. E mais uma coisa, o pessoal vem e leva. Levou uma vez, aí vem sempre buscar de novo, isso é uma ideia boa e que está funcionando. P – Hoje que tamanho tem a sua produção? R – Eu estou na base de uns quarenta ou cinquenta quilos semanais, quero dizer, quase duzentos quilos por mês de melado. P – E isso é uma produção que pode crescer? R – A ideia é essa, de crescermos bastante. Por enquanto não, porque nós não estamos legalizados, por isso estamos indo devagarinho. A capacidade de produção é muito grande, capaz de produzir mais de cem quilos por dia. P – Por dia? R – É, no caso da instalação com a parte do tacho, mais essas “coisas” que podem produzir acima de cem quilos por dia. P – Hoje você conseguiria isso? R – Sim. Só que neste caso teríamos que ter mais matéria prima, porque a matéria prima por enquanto não chega e, eu não consigo fazer isso, mas a capacidade da agroindústria é para mais de cem quilos por dia. P – E o dia que você precisar dessa matéria prima, você tem onde buscá-la? R – Hoje nós já estamos fazendo parceria com um pessoal “de roda”, pessoas que estão plantando cana, né? E eles também estão com um “pezinho atrás”, porque eles querem primeiro ver as coisas andarem, né, aí depois eles vão. Mas já temos um irmão que está plantando, então isso já é um começo, agora o pessoal da cooperativa, também está incentivando alguns a plantarem cana também, né? P – Vão trocando informações, né, Milton? As pessoas vão procurando saber do que as outras precisam e vão criando uma cadeia, né? R – Pois até no plantar a cana, tinha uma época em que plantávamos de forma errada e isso nós já não erramos mais. Tivemos um pessoal do EMATER, que veio nos mostrar como se faz a cana, trazidas pelo pessoal do EMATER, né. Trouxeram para cá outros tipos, nisso fomos vendo quais eram as melhores e fomos plantando e assim foram melhorando esses tipos de cana também. E, assim vamos distribuindo para outras pessoas que queiram plantar, alguma “coisa” acabamos fazendo. P – O importante é trocar essas informações, né, ter essa articulação aí mais efetiva. Está certo. Oh Milton, o que de mais importante você faz hoje? R – Na área de produção? P – Ou na sua vida pessoal, o que você acha que é a coisa mais importante que você faz hoje? R – Bom, hoje já estamos, na área de recursos, já melhorando, né? Temos algumas coisas ainda por fazer e melhorar, mas o melado de hoje nós já temos uma boa saída, né? Assim, com o negócio de turismo e também algumas “coisinhas” que estamos começando e aprendendo a lidar, estamos aprendendo, né? Porque na verdade, nós éramos um bicho do mato. E, hoje, nós temos ainda que melhorar nessa parte também, né? P – Você tem que vender também, né? Perfeito. Milton, quais são os seus sonhos, como você vê o futuro, o que você sonha para o futuro? R – O meu sonho maior, o sonho que tenho mesmo, é o de segurar os meus filhos conosco aqui, né? Quero ver eles casarem, eu já tenho até uma casa aqui que para um filho caso eles queiram ficar. É uma ideia de vivermos juntos, né, de não deixar acontecer como está acontecendo com a maioria dos pais, de verem os filhos crescerem e irem embora; pois meu maior sonho é esse, dos meus filhos ficarem juntos de nós, trabalhando juntos. É essa minha ideia. P – Mesmo porque vocês vão ter um negócio grande para “tocar”, né? R – É, estamos ajeitando essas “coisas” para eles, porque para nós já foi mais difícil, então agora a ideia é que eles não tenham tantas dificuldades como nós tivemos, para eles poderem “tocar” algumas “coisas” e não precisarem sofrer como nós sofremos. Melhorar essa parte para eles, é um sonho que já podemos ver que estamos conseguindo realizar. P – É, da mesma forma quando se constrói um avião enquanto voa, esse tipo de construção vai ocorrendo no dia a dia, né? R – É. P – Muito bem Milton, eu estou satisfeito, alguma coisa que você gostaria de dizer que eu não perguntei para você? Alguma coisa que você achava importante dizer? R – Uma coisa que nós temos que fazer é de agradecer ao SEBRAE, ao Instituto Camargo Correa, Chapecó, e a Cooperativa Extremo Norte, porque neste caso, uma coisa é o que nós montamos, e outra coisa, é que hoje se não fosse por eles, nós estaríamos ainda do mesmo jeito. Algumas vezes eles vem puxando a orelha e, isso, eu acho que é uma coisa importante porque na verdade nós hoje em dia enxergamos muita “coisa”, só que mesmo assim ainda falta, as pessoas de fora virem falar “Oh, está bom ou tem que melhorar.”, são algumas coisas assim, eu acho que está começando a funcionar e nós temos que agradecer a eles também. P – Está certo. Muito bem Milton, e como foi para você contar a sua história? R – Muita dificuldade para nós, não por falar da história, pois aconteceu de verdade. Tem “coisa” que nós não lembramos muito, mas é a história do que nós passamos, né, então não se torna difícil. P – É uma história de trabalho. R – É, uma luta que nós temos há anos, do que nós passamos, coisas que nós convivemos, com tudo isso. P – Está certo, lhe agradeço bastante. Muito obrigado! R – Eu quem agradeço a oportunidade de contar a história, né? P – Espero que tenha gostado. R – Bom, obrigado. FINAL DA ENTREVISTA
Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+