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História

Com gostinho da Itália

História de: Anna Maria Amato Nardelli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/05/2013

Sinopse

A entrevista de Anna maria Amato Nardelli foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 25 de abril de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Anna Maria é imigrante italiana da Sicília, aonde seu pai trabalhava como químico em um laboratório que mandava produtos aqui para o Brasil. Anna conta que seu pai sempre gostou no Brasil, simpatizava com o país. Com a guerra declarada em 1940, seu pai achou melhor sair de Gênova, devia a ser um pólo de indústrias de aramas e metalúrgicas. Anna conta que durante o período da guerra sua família ia fugindo e que tinham medo em muitos momentos, como por exemplo quando tocava o alarme para ir para os abrigos. No depoimento ela descreve muito esse período complicado durante a guerra que passaram. A depoente vem para o Brasil em 1950 com uma irmã. Anna conta que gostou muito daqui e no fim acabou abrindo um restaurante italiano típico da Sicília, que na época não tinham muitos com o menu completo, como fazem por lá.

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História completa

Eu me chamo Anna Maria Amato Nardelli, eu nasci em Messina, Itália, cidade que se encontra na Sicília, ilha localizada na região sul da península italiana. Nasci em 24 de maio de 1933. Meu pai tinha um laboratório químico que, casualmente, mandava produtos aqui para o Brasil, para uns amigos que também tinham laboratório químico, como o Vicente Amado Sobrinho. Ele sempre adorou o Brasil, tinha conhecimento sobre o pais, tinha livros, e então esses contatos o aproximaram. Ele iria vir em 1939, mas foi declarada a guerra e ele desistiu. Me lembro que ele comprou aquele baú, porque viria de navio. Não sei se você sabe, mas antigamente se usava viajar com um baú que ficava em pé e abria em duas partes. Era como um armário. De um lado tinham gavetas e do outro a roupa pendurada. Dentro tinha mais um saco com elástico, onde você colocava outras coisas. Isso era chamado de baú de cabine. Você fechava e o baú ia diretamente para a sua cabine no navio. Isso, claro, viajando de forma melhor. Os imigrantes, coitados, não tinham esse espaço. Não tinham nem a cabine particular. Então eu me lembro desse baú que era lindo, maravilhoso! Era todo acabado, tinha uma fitinha a cada gaveta, que abria. Era tudo mole mas tudo forrado, uma delícia. Depois, este baú também serviu para nós virmos para cá. Nós guardamos este baú. Então quando foi 1939, a guerra se aproximou e foi declarada em 1940. Então o meu pai achou que Gênova seria muito perigoso, porque lá tinham indústrias de armas, metalúrgicas, um porto importante. Embora Mussolini dissesse que era uma guerra que durava uns seis meses, todo mundo estava apavorado. Se chamava guerra lampo, como se fosse ‘guerra relâmpago’. Como era verão, todos os anos nós íamos a Sicília. Lá é assim, as férias escolares começam em junho e acabam em setembro, então nesses meses, cada um vai fazer as férias onde acha melhor, e nós íamos visitar o meu avô materno, que ficou lá na Sicília. E então fomos para lá e meu pai achou melhor não voltarmos para Genova. Como era perigoso e a guerra seria rápida, ele optou por passar este tempo na nossa terra. Mas isso não foi assim. Então a guerra começou e logo se formaram duas frações, no eixo eram Itália, Alemanha e Japão, e nos aliados, só os ingleses e franceses. Que depois se aliaram aos Estados Unidos. Talvez, se os Estados Unidos não tivesse entrado, talvez a guerra não teria tido este desfecho, porque as forças americanas eram muito superiores em equipamentos bélicos. No começo, em 1941, 1942, o inimigo do eixo era praticamente só os ingleses. Nesse período nós íamos fugindo. Eu tinha medo só quando apareciam os aviões, as excursões. Mas eu fantasiava muito ainda. Eu gostava de viajar e ver lugares novos. Eu estava com medo apenas quando tocava o alarme e tínhamos que ir para o abrigo. A minha mãe estava com medo, ela disfarçava mas eu sentia. A minha irmã do meu também. Quando o alarme tocava, nem que fosse no meio da noite, nós tínhamos que nos levantar e ir para o abrigo, seja perto de casa ou não. Era num túnel, ou debaixo de uma rocha, bem fortificada, coisa assim. A minha irmã nunca acordava para ir para o abrigo. Às vezes o meu pai precisava levá-la no colo, mas ela não acordava. Ela me dizia: “me deixa aqui! me deixa aqui!”. Mas era impossível deixá-la lá. Quando acontecia isso a noite era triste! Naquela época ela deveria ter uns treze anos, imagina, pesadíssima. . Enfim, continuando a história, naquela noite nós recebemos o telefonema do bombardeio, vindo de um coronel, sei lá, que a minha tia conhecia da aeronáutica. Então nós saímos correndo e seguimos de trem até Bolzano, que é bem lá em cima, quase perto da Áustria. E lá entramos numa fazenda maravilhosa. Um campo com colonos e uma casa grande, o qual tínhamos alugado. Fomos nós, com este casal de amigos e um filho de um ano e meio, mais ou menos. Isso é uma parte da minha adolescência, dos oito aos doze, tempo que durou a guerra. Meu pai, em 1948, antes de ter algo para trabalhar, pensava quanto tempo ficaria naquele lugar. Então, como ele já tinha esse contato no Brasil, foi chamado e veio. Então em 1950 eu vim com a minha irmã. A minha outra irmã e minha mãe ficaram, pois ela ainda estava estudando. A entrada no Rio de Janeiro foi uma coisa deslumbrante. Naquela época tinha muito mais mata e não tinham tantos arranha céus, então era muito romântico. Mas nos gostamos ainda mais de Santos, porque o porto tinha aqueles canais, com várias bananeiras, um cheiro estranho, de flores, matas, ervas, forte e profundo. Era muito tropical. Quando chegamos no cais, armazém 16, onde chegavam todos os imigrantes, já vimos pessoas de cor. Nós gostamos muito, muito de São Paulo. Naquela época a cidade era ótima! Tinham coisas que, por exemplo, quando você saia do túnel da Avenida Nove de Julho, era tudo terreno, com um pouco de lixo, até. Não tinham prédios, nada. Então você via um contraste: No centro, o viaduto do chá, o Martinelli, era tudo fantástico. A primeira coisa que o meu pai nos mostrou foi o Martinelli. Na Avenida São Bento com o Martinelli o meu pai tinha um escritório. Então ele nos levou para conhecer o escritório, o edifício Martinelli, onde subimos lá em cima para ver a vista, o vale do café. São Paulo era lindo! A rua Barão de Itapetininga e Rua Direita tinham lojas maravilhosas, todos eram palacetes franceses. Era lindo! Então nós não estranhamos nada por esses pedaços. Nos estranhávamos um pouco quando pegávamos esse ônibus e passávamos pela avenida Nove de Julho, que tinha apenas o túnel, poucas casas, alguns prédios começando a construção, mas não era habitado. Quando chegávamos a avenida Rebouças, tinha uma ilha central muito grande. Hoje tem um ilha, mas é muito pequena. Antes começava no Jóquei Clube e ia até a Consolação, com pista para os cavalos do Jóquei andar. A avenida Rebouças tinha casas, mas não como é hoje. Tinha uma casa, depois alguns terrenos livres, tudo assim. Na rua Francisco Leitão, Joaquim Antunes e rua dos Pinheiros eram ainda casinhas. Tinham muitos terrenos. A região era pequena, com casas muito boas. Lá moravam médicos, os nossos amigos. A região até a Teodoro era muito boa. Aonde eu moro hoje, na Vila Madalena, ir da rua Francisco Leitão até a Vila Madalena era uma viagem! Eu me lembro que era um lugar ermo, diferente. Minha mãe dizia que tinha um ar diferente naquele lugar. E subíamos e descíamos ladeiras. Na rua Cardeal Arcoverde passava um bonde, que vinha pela rua João Moura, alguma coisa assim. Então naquela época era uma viagem. Moramos por lá muito tempo e depois fomos para o largo do Arouche, na rua Vieira de Carvalho. Eu pensava em estudar aqui, mas o meu pai ainda tinha receio. Para eu revalidar os estudos, primeiro eu tinha que fazer geografia, história e português. Depois ver aonde eu poderia fazer. Aqui era complicado. Eu teria que ter feito um ano de ensino médio, para depois fazer o tal do cursinho e entrar na faculdade. Se passou muito tempo e o meu pai não se decidia. Eu gostava muito de desenho, mas não tinha faculdade de arte por aqui. Chegou só em 1957. Tinha um instituto onde se ensinava o desenho, mas não como as coisas que se tem hoje. Depois as minhas irmãs se casaram e numa certa hora voltamos para a Itália com a minha mãe. E aí eu revi um amigo de infância, que estudava no meu colégio. Eu encontrei com ele, fiquei lá um pouco e depois de um ano, nos casamos. Ele é engenheiro, trabalhava em uma firma americana. Depois o meu filho foi estudando, foi passando o tempo e em 1980, eu que sempre gostei de gastronomia, decidi abrir um restaurante, lá na Alameda Tietê. Você não pode lembrar, mas as pessoas de mais idade podem. O restaurante foi um sucesso grande. Fiquei lá por cinco anos. Este casal foi embora e eu convidei a minha irmã para ajudar. Quando eu abri, a intenção era de um restaurante vegetariano, mas como eu te disse, isso era um pouco a frente do tempo. No começo era, mas as pessoas começaram a pedir carne e servíamos comida Italiana e Sicíliana. Mas mesmo assim, eu tinha um menu verde e um vermelho. Eram menus completos: entrada, prato principal, frutas e sobremesas, de maneira que a pessoa sabia o que gastava. E nós tivemos muito sucesso. Naquela época não tinha tantos restaurantes italianos.

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