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História

Com garra, unhas e dentes

História de: Joaquim Pires Figueira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/12/2004

Sinopse

“Casinha de pau a pique, cobertura de folha de buriti”, é assim que Seu Joaquim descreve a casa da infância em Centralina, onde morava com o pai e o cachorro, como conta. Trabalhou arduamente: no transporte de porcos, com o pai; na lavoura, colhendo arroz; na construção de ponte, em Itumbiara e, por fim, na CTBC. Após duras penas advindas das condições dos serviços anteriores, foi no também árduo trabalho na CTBC que Joaquim se estabilizou. Hoje aposentado e tendo construído a casa em que reside, faz bicos para preencher o tempo e reserva dois dias da semana para o sagrado forró, além de ter voltado a estudar para se alfabetizar. Contente com o trabalho dos filhos na CTBC e com sua casa, o olhar para trás retoma sua história de vida de muita luta e cansaço.

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História completa

P/1 – Bom, senhor Joaquim , vamos começar. Eu vou lhe fazer algumas perguntas que a Norma já lhe fez, mas eu queria que o senhor repetisse apenas para que a gente tivesse registrado. Queria que o senhor dissesse o seu nome completo, o local e data do seu nascimento.

 

R - Meu nome é Joaquim Pires Figueira, sou de 1931, estou com 69 anos.

 

P/1 - E onde o senhor nasceu?

 

R - Sou nascido na Comarca de Monte Alegre, lá em Centralina.

 

P/1 - O nome do seu pai e da sua mãe, senhor Joaquim, por favor?

 

R - O nome da minha mãe é Bárbara Figueira. Meu pai José Pires Moreira.

 

P/1 - O senhor conheceu seus avós?

 

R - Conheci. Carolina Pires... O que é que eu falei para você, Norma? Acho que eu...

 

P/2 - De Amaral.

 

R - Amaral, Carolina Pires de Amaral. Agora, meu avô eu não lembro bem do nome. Eu sou lerdo de nome. E do avô do lado do meu pai a gente não teve intimidade. Agora, do lado da minha mãe a gente teve intimidade que... É Avelina Figueira, né? E Manoel, Manoel Figueira.

 

P/1 - Certo. O seus avós, o senhor tem informação se os seus avós eram mesmo lá de Monte Alegre, ou eles foram para lá?

 

R - É que naquela época todo Monte Alegre era a Comarca de Canápolis e Centralina. Aliás, Centralina e Canápolis era Comarca de Monte Alegre, certo? Então, de forma que tudo cita Canápolis e Centralina.

 

P/1 - Certo.

 

R - Lado do meu pai é Centralina e lado da minha mãe é Canápolis.

 

P/1 - Qual que era a atividade do seu pai, senhor Joaquim?

 

R - Era mexer em curral, mexer com animal, essas coisas brabas. Quanto falava assim: “Quero um cavalo bravo, um burro bravo”, é o que ele gostaria. Quando falasse assim: “Eu tenho um boi lá que é bravo, ninguém está dando conta de vencer ele, então eu gostaria que nós tirássemos ele lá do meio do capão do mato, essas coisa”. Então essa parte era com o meu pai. Ele gostava de enfrentar o que era braveza no meio do mato.

 

P/1 - Sei. E são quantos irmãos na família?

 

R - Do lado do meu pai eram cinco.

 

P/1 – Cinco. Mas irmãos seus, seus irmãos?

 

R - Sou filho único.

 

P/1 - Ah, o senhor é filho único?

 

R - Sou filho único. Quando minha mãe faleceu eu estava com 11 meses.

 

P/1 - Ah, sei. Como é... Como é que era a casa que o senhor morava nessa época?

 

R - Ah, nessa época era uma casinha de pau a pique, folha de... A cobertura era folha de buriti. A gente não tem bem lembrança, mas era toda amarrada com cipó, porque naquela época a gente não ouvia quase falar em arame, era... Passava aquelas ripas na cabeça das madeiras e outra no meio e amarrava arame com cipó. Outra hora saía: tecendo, no meio dos paus assim, para poder segurar os paus pra não fechar, encavalar um no outro e nem cair. E aquele era um serviço que a gente _______escondia de baixo daquelas casas de pau a pique.

 

P/1 - E o senhor vivia sozinho com seu pai?

 

R - Vivia. Quando a gente era menor tinha a minha avó, do lado do meu pai. Depois minha avó faleceu e eu fiquei sozinho mais o meu pai.

 

P/1 - E aí o senhor ajudava o seu pai na lida? Como é que era essa história?

 

R - Uai, a gente... A gente ajudava ele de... Foi uma parte que estorvou a gente de estudar. Eu estava falando com a Norma que a gente... Quando eu era pequeno, que podia estudar, estudava um mês, meu pai falava assim: “Filho, você não vai estudar agora não, você vai ajudar a buscar uma porcada lá no Baú.” Então a gente saía de Centralina, passava Canápolis, descia para o lado do Baú. Outra hora era Baúzinho, eles falavam assim. Outra hora era _______ das Flores, a gente ia buscar a porcada. A gente ia lá, buscava 150 porcos... E sendo só nós três, nós dois e um cachorro. Ele tinha um cachorro que falava assim: “Olha, entra no mato”... Eu não lembro bem, mas acho que era o Leão. Falava: “Leão, olha lá, vai buscar.” Ele jogava o cacete assim, o Leão ia lá e pegava naquele povo, jogava cá no meio da manada. E assim, eu lá na frente, em cima do cavalo, com _________ de milho em cima do arreio e, de vez em quando, chamando: “Cuche, cuche, cuche.” Jogava três, quatro grãos de milho, os porcos quebravam aquilo no dente e eu achava aquilo... Até eu achava bonito. Os porcos ajuntavam em cima de um grãozinho de milho. Aí reunia tudo e eu estendia. Eu sempre em cima do cavalo chamando os porcos: “Cuche, cuche, cuche, cuche.” E aquilo dobrava o espigão. Quando chegava nas baixadas, quando tinha córrego, aonde tinha aquele lugar de poço de lama, os porcos se juntavam naquele poço de lama para beber água, para lamear, para refrescar, aí a gente deixava eles descansarem ali um pouquinho e continuava a empreitada. Aquilo era o dia inteiro, às vezes até um pedaço da noite, até chegar em um lugar que tinha um lado de fechar, que se não tivesse a gente tinha que tocar, às vezes, até a noite inteira.

 

P/1 - E quanto tempo demorava essa vigem de Monte Alegre até o Baú, ida e volta?

 

R - Para ir a gente gastava um dia, porque ia a cavalo. Agora, para a volta nós gastávamos dois, três dias, que era tocando os porcos, então aquilo era lento. Era lento, não era assim uma toada corrida. Quando os porcos, às vezes, queriam descansar porque estavam sentido calor, muito cansados com aquele calor, eles paravam. Às vezes davam uma sombrinha, todos... Eles todos queriam fuçar ali debaixo daquela sombra para se esconder, para refrescar, e aquilo era a nossa vida. Eram três dias uma viagem dessa, de Centralina à Bauzinho.

 

P/1 - Senhor Joaquim, como é que fazia de noite para manter os porcos juntos?

 

R - De noite eles não saem, não entram no mato.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - É. À noite você pode tocar que eles não se atrevem a entrar no meio do mato, porque eles têm medo de cair nos buracos. O porco não sai da estrada à noite. Pode jogar qualquer porco na estrada, sendo lugar de mato, pode jogar ele na estrada que ele não entra no mato. À noite você pode tocar tranquilo. Às vezes nós até preferíamos a noite para viajar do que durante o dia. O dia ele queria correr no meio dos matos para achar coisa de comer, e à noite não, a tendência dele é só andar.

 

P/1 - Certo. E o esquema era o senhor no cavalo, na frente lá, e o seu pai, a pé ou a cavalo também?

 

R - Meu pai a pé, atrás, tocando, mais o cachorro.

 

P/1 - Ah, sim.

 

R - Então, quando não tinha porco nenhum – porque às vezes, ia entrar no mato, o cachorro estava de párea com eles –, enquanto o porco entrava no mato, muitas vezes, eu falava: “Meu pai...” Só mostrava para ele. Entrou... Quando eu mostrava, ele já falava, mandava o cachorro ir lá buscar: “Vai lá buscar, Leão.” O cachorro ia lá, mordia, vinha para a estrada de novo. E aquilo, então, era a nossa rotina. E tinha dia também que, às vezes, estava [dia] de chuva. Esse já era mais péssimo. Quando era essa vez, a gente, que trabalhava no tempo de chuva, buscava capado. Nós gastávamos, às vezes, para tocar os capados. Era aí, 30, 40 capados, porque não tinha condução naquela época. A gente tocava, e gastava, às vezes, até mais de semana para chegar. Saía lá de Canápolis, vinha para Centralina. Saía lá de Canápolis não, saía lá do Bauzinho. Até Centralina gastava oito, dez dias.

 

P/1 - Por que demorava mais?

 

R - Porque os capados eram gordos. Não podia tocar, tinha que esperar a vontade dele de andar, porque, naquela época, não tinha carro, não tinha nada.

 

P/1 - E não perdia muito peso em uma viagem dessas?

 

R - Perdia, perdia, mas depois que a gente chegava lá, fechava eles, sei lá... A gente praticamente já buscava tudo encomendado. A pessoa comprava aqueles capados já com aquele peso lá. O que perdia na estrada já era por conta do comprador, não era por conta de quem vendeu.

 

P/1 - Como é que fazia para alimentar, ou os capados, ou os não capados? Como é que fazia para alimentar esse bando de porco no meio da...

 

R - Não alimentava. Só jogava aqueles grãozinhos de milho para eles terem mais fome para poder andar, acompanhar a gente na estrada. Porque, se alimentasse, eles não queriam andar, eles ficavam mais tranquilos. A gente tinha que debulhar, às vezes, uma espiga de milho para 150 porcos, de modo que... Você esparramava os grãos de milho, eles mastigavam, cada qual queria catar um mais depressa que o outro, e aquilo era o alimento deles, era uma espiga de milho.

 

P/1 - E corria atrás para comer a comida mais adiante, né?

 

R - Corria para ver se achava. Mas, às vezes, não encontrava esse grão de milho para ele comer, como se diz, para eles se entreterem, aí a gente tocava. Quando chegava a vez, certa altura que ele estava cansado, outra hora queria caçar coisa de comer, é a hora que ele entrava no mato e o cachorro ia atrás.

 

P/1 - E o seu pai negociava porcos, como é que era?

 

R - Não, só era o comissário, só era o comissário para buscar porco. Somente.

 

P/1 - E levava para onde esse, essa...

 

R - A gente ia buscar lá no Baú, lá no Bauzinho, a gente buscava para Centralina. Centralina, Canápolis. Outra hora eram umas fazenda que tinha perto de Centralina. A gente já buscava e já entregava, era só comissário.

 

P/1 - Mas levava para criador ou levava para abate?

 

R - Para revendedora. Ele ia lá e comprava. Como naquela época não tinha condição, ele empreitava para a gente ir buscar a tocada, igual antigamente. Antigamente tocava aí uma boiada de dois, três mil bois. Boi, vaca, bezerro, garrote, tudo. Tocava aí pelo corredor, até mês. Levava 30 dias para entregar uma boiada, e a mesma coisa eram os porcos.

 

P/1 - E seu pai ia buscar boi também, além do porco?

 

R - Nós tocávamos. De vez em quando aparecia um bando de gado para a gente tocar.

 

P/1 - Aí já é uma coisa mais complicada, né?

 

R - Dá mais trabalho, né? E tinha que ser mais gente e mais cavaleiros. Tinha que ser uma faixa de seis, oito cavaleiros. Por exemplo, para tocar aí 1000, 1600 bois, 1800 bois, tinha que já ter... Ser outro cavaleiro para poder acompanhar as talhas do gado, porque se não, não dava conta.

 

P/1 - Sei. E que trajeto vocês faziam com mais frequência?

 

R - A gente saía lá de Itumbiara, ia até Barretos.

 

P/1 - Quanto tempo demorava isso?

 

R – Olha, nós gastávamos 18 dias de Itumbiara à Barretos. E aquilo ali, contando que o gado a gente não pode tocar à noite... Porque o gado investe para o meio do mato para esconder. O gado a gente só tem que tocar durante o dia.

 

P/1 - E o senhor ainda era menino quando fazia isso?

 

R - Era. Eu estava com meus 12... 12 a 15 anos.

 

P/1 - Qual era a sua função na comitiva?

 

R - Minha função era chamar. Chamar, outra hora tocar o berrante para o gado acompanhar, essa era a minha função.

 

P/1 - E qual é o segredo de manter a boiada junta para não dispersar?

 

R - Mais é o pique do berrante. Quando o gado sente que o berrante, está tocando, é o que faz acompanhar. Fazia, né? Hoje já não faz mais, porque hoje é tudo na base do carro, do caminhão.

 

P/1 - Nas suas comitivas, senhor Joaquim, quando parava de noite, o que vocês comiam? O que era...

 

R - Tinha o capataz, que fazia a janta, o capataz que fazia o almoço e ali ele acabava de atender nós e depois que todo mundo tinha almoçado, o gado estava lá no piquete esperando a gente fazer o quilo do almoço. Então a gente acabava de almoçar, fazia um quilinho ali e depois montava todo mundo à cavalo, soltava o gado e ia embora.

 

P/1 - E o que é que comia, o que tinha na refeição?

 

R - Olha, tinha carne, arroz, feijão. As carnes eram jabá, não era essa carne, como se diz... Que hoje a gente come fresquinha. Porque na estrada não podia carregar ela fresca, tinha que carregar só carne salgada, carne salgada com feijão cozido. Muitas vezes rapadura com carne e farinha. Esse era o alimento nosso de manhã.

 

P/1 - E como é que era o dia, assim? Tenta lembrar como é que... Que horas acordava, que horas almoçava, jantava?

 

R - O dia... Quando o dia clareava, a gente já tinha que estar de pé. O dia amanheceu, como se diz. Hoje a gente não vê quase ninguém falar “o dia amanheceu”, né? Mas, o dia amanhecendo, a gente levantava e já ia dar uma volta no piquete, pegar os animais. Pegava os animais, arriava e já começava a rodear o gado para levar.

 

P/1 - Aí tomava o café de manhã?

 

R - Tomava. Ali, quanto a gente ia rodear os animais, arriar, o capataz já estava coando o café. A gente já tomava o café e já estava, praticamente, arriados, os burros para a gente sair. Acabava de tomar o café, punha uma sacolinha de farinha na garupa, na cabeça do arreio e saía comendo aquelas carnes com farinha. Aquilo ali quando a gente ia almoçar era 12 e 30, 13 horas, 14 horas.

 

P/1 - Aí parava durante quanto tempo?

 

R - Negócio de meia hora, 40 minutos quando muito. Não podia parar muito tempo, senão atrasava muito a viagem.

 

P/1 - Certo. E quando precisava vadear rio, essas coisas, como é que fazia?

 

R - Jogava o gado na água e acompanhava. Atravessava igual era o Parnaíba. Nós atravessamos o gado muitas vezes no Paranaíba. Tem gado que prancheia, tem rês que prancheia, que não aguenta, que, às vezes, está com o sangue quente, joga na água e prancheia, ele não aguenta. As pernas endurecem, resfria o corpo, endurecem as pernas, então não tem como ele se movimentar para nadar. Aí ele pega, joga para ele pranchear, joga a cabeça em cima da pá e fica lá. Se ninguém arrastar ele, ele roda rio a baixo.

 

P/1 - Daí como é que faz para segurar um bicho desse?

 

R - Tem que pegar a canoa e ir lá arrastar, porque, geralmente, quando vai atravessar um gado no rio... Naquela época tinha canoa já para arrastar aquela rês que prancheava.

 

P/1 - Quer dizer, geralmente, quando ia atravessar, atravessava sempre no mesmo ponto, assim?

 

R - Sempre no mesmo ponto. Sempre eu tenho aquele ponto. “Vamos atravessar lá no lugar, Fulano?” “É.” “Vamos atravessar lá no Porto Sumidor?” “Vamos.” Então, esse Porto Sumidor é para baixo de Centralina. Lá era rasinho, naquela época eram 2000 metros de fundura, e dava 140 metros de largura.

 

P/1 - Nossa!

 

R - Lá era um golfo mesmo, lugar fundo.

 

P/1 - E costumava perder muita cabeça nessas viagens assim, não?

 

R - Não, não perdia. Quando perdia muito era dois, três, porque, às vezes, um não queria andar, ficava para trás. Às vezes a gente ia longe da viagem, não tinha condição para buscar, aí quando a gente voltava já não achava mais aquela criação.

 

P/1 - E o senhor ficou nessa lida até quando com seu pai?

 

R - Ah, eu fiquei até os 12 anos. Dos 12 anos em diante eu comecei a trabalhar na roça, “engajobar” arroz. Eu saí escondido dele. Um dono de roça lá me convidou para ir “engajobar” arroz para ele, então falei: “Meu pai, olha se o senhor não me ver amanhã é porque eu estou saindo para trabalhar.” “Não, você não vai, você não vai.” Eu falei: “Não, eu vou.” Saí escondido dele no romper do dia e fui “engajobar” arroz. Aí, quando a gente voltava para casa, já era lá para às 20, 21 horas que a gente ia ajudar aquele dono de roça a ensacar o saco de arroz, pôr tudo no saco e esconder debaixo da palha, de modo... Para poder ficar guardado, para não tomar sereno ou chuva, se caso viesse.

 

P/1 – “Engajobar” arroz é ensacar o arroz?

 

R - Não. “Engajobar” a gente... Por exemplo, saía com o cutelo cortando, certo? Fazendo aqueles moinhos assim. Cortava uma linha e a outra e jogava lá. Cortava uma linha e a outra e jogava lá. Então sempre a linha da esquerda ia na frente, para a gente poder, quando cortar a linha da direita, só dobrava o arroz, ele caía. E assim... Era a luta da gente, né? Então, quando a gente fazia aquelas “gajobinhas” assim, depois a gente saía com a mão catando elas para fazer aqueles montes maiores. Enquanto a gente aguentasse no braço, a gente estava “engajobando”. Acabava a linha, já soltava aquele e já passava para lá por cima e catava outro. Os outros carregadores vinham atrás, catando aqueles montes, aqueles feixes.

 

P/1 - E isso era lá perto de onde o senhor estava morando, não é?

 

R - É perto de onde eu estava morando.

 

P/1 - E era arroz de sequeiro, assim?

 

R - Não, era arroz verde. Na época, era arroz verde. Só secava depois que a gente cortava.

 

P/1 - Sim, mas não dava no brejo, dava no seco?

 

R - No seco, dava no seco. No meio da roça de toco, né? Roça de toco, terra arada... Porque naquele tempo eles aravam com boi. Tinha aí quatro, seis bois para arar, conforme o tipo da terra. Quando era terra bruta tinha que ser seis bois para arar. Quando era terra macia, quatro bois aravam. Então sempre revezava, deixava dois bois para ficar descansando para poder engordar.

 

P/1 - Na época tinha muito arroz aqui na região?

 

R - Naquela época, o arroz... Quase não existia perca. Veio existir perca em 1953, em 1953 é que deu uma perca boa de arroz.

 

P/1 - Por conta de que?

 

R - Por conta do sol. Enquanto o arroz estava emborrachando, que estava soltando o cacho, estava um tanto assim para fora, veio aqueles veranico de sol, daqueles bravos mesmo. Então secava, um tanto assim do cacho do arroz secava. Aí já não tinha como aproveitar nada, não vinha chuva, a gente perdia aquele.

 

P/1 - Essas roças eram sempre roças dos outros que o senhor trabalhava para eles?

 

R - Eu tocava um alqueire e meio por minha conta, eu sozinho. Para mim, sozinho, e trabalhava com o homem que me deu esse alqueire de meia... De terra, para eu tocar. Eu trabalhava com ele nas horas vagas, eu terminava os meus e ia ajudar ele. Era limpar milho, limpar arroz ou feijão.

 

P/1 - Quem é que era essa pessoa, senhor Joaquim?

 

R - Esse chamava de Lico.

 

P/1 - E onde é que era a terra dele?

 

R - Era lá na beira do Córrego da Areia, para baixo de Centralina.

 

P/1 - Perto de Centralina, ainda no seu pedaço ali, né?

 

R - É. Em roda lá do serviço da onde a gente morava mesmo.

 

P/1 - O senhor vivia lá nessa terra que o senhor cultivava?

 

R - Vivia. A gente, quando saía lá nesse lugar que a gente trabalhava, vinha para Centralina, que era a oito quilômetros de distância. Então a gente, às vezes, vinha a pé, outra hora de bicicleta, outra hora vinha a cavalo, vinha para Centralina. Ficava o sábado e domingo em Centralina, e quando era domingo à noite, a gente ia embora trabalhar.

 

P/1- E como é que era o alojamento lá no local de serviço?

 

R - A gente dormia em um paiol de milho. Era uma semana. A gente jantava lá na casa do patrão e quando resolvia ir dormir, ia lá para o paiol de milho, estendia a cama e dormia. No amanhecer do dia, já estava pronto para outro.

 

P/1 - Era mais gente além do senhor?

 

R - Nós éramos em três.

 

P/1 - E essas idas para Centralina no final da semana, o que é que vocês faziam lá?

 

R - Nessa época a gente era solteiro, era meio perdidão. Bebia, às vezes, e, nessa época, a gente bebia, às vezes, até um litro de pinga, dois litros de pinga na noite. E no outro dia estava bom para beber mais (risos). Esse era o nosso batido. Agora, hoje, quem me conhecia nessa época e me vê hoje, não fala que era eu que era o bebedor. Hoje, para eu tomar uma pinguinha desse tamanho tem que ter um pedaço de carne, se não eu não tomo. Cerveja eu tomo um copo, dois. Já chega desses copos americanos, já não tomo mais.

 

P/1 - Lá em Centralina, nessa época, vocês ficavam aonde? Vocês alojavam aonde?

 

R - A gente tinha uma casinha em Centralina, uma casinha pequena que era só para mim e o meu pai, que o meu pai ficava em Centralina e quem saía perdido para o mundo era mais eu, porque eu não tinha parada em lugar certo.

 

P/1 - E o seu pai continua fazendo a mesma coisa lá, quando...

 

R - Continuava. Ele só ficava... Nessa época que eu passei a trabalhar, ele passou a ficar mais quieto em Centralina, já não trabalhava mais tanto com animal. Ele ficava mais sossegado.

 

P/1 - Como é que era a cidade, senhor Joaquim? Como é que era a Centralina nessa época do senhor jovem?

 

R - É tudo... Quanto era jovem, Centralina era toda de terra. Depois que entrou um prefeito é que veio aquela formação de prefeito, de tomar posse do lugar, que aí passaram a cascalhar. Então era aquele cascalhinho fininho na rua toda para todo o lado. Era uma cidadezinha pequena. Você não podia correr que era muita trepidação. Como dizem as falas, “costela de vaca”. Então o carro ficava “tun, tun, tun, tun”. Não podia correr, tinha que andar devagarzinho. A nossa vida era essa.

 

P/1 - Mas já tinha muito carro lá na cidade?

 

R - Não, não tinha. Era muito pouco, pouco carro que andava. Quando andava era daqueles ricaços, eles já tinham que andar devagarzinho.

 

P/1 - Quando o senhor já estava lá no arroz e essas épocas... Esses finais de semana em Centralina, além da pinga, o que é que mais vocês faziam? Tinha baile, tinha alguma...

 

R - Tinha, tinha baile. Tinha baile, mas a gente era meio perdidão, né? A gente não ia para dançar, ia só para olhar, para ver o movimento e passar a noite, para entreter, porque a gente não aguentava ficar quieto em casa para dormir, de modo... Para poder no outro dia à tarde trabalhar. Então a gente tinha que sair para poder beber a noite e de dia dormir, essa era a vida da gente.

 

P/1 - Quem eram os companheiros do senhor, assim, que o senhor se lembra que eram os amigos?

 

R - Era só o Sebastião Gonçalves. Só ele. Nós éramos só em dois. Eu e um outro. Eu nunca gostei de andar com companheirada. Para mim, companheiro era um só. Se eu tivesse um companheiro, eu não arranjava outro. Se eu mais aquele companheiro não dava certo, aí eu ia ver um que ia servir para eu andar junto mais ele e ele mais eu.

 

P/1 - E o seu Sebastião, como é que era esse seu amigo?

 

R - Considerava como um irmão, um dos íntimos. Irmão mesmo, porque nós tínhamos confiança um com o outro, e ali o que nós contássemos um para o outro era só para nós mesmo, não tinha ninguém mais a saber.

 

P/1 - E ele trabalhava com o senhor no arroz?

 

R - Trabalhava. A gente andava... Fala assim: trabalhar é andar. Era só nós dois juntos. Nós pegávamos... Às vezes pegava um empreito... Antes de eu entrar nessa roça, eu pegava empreito, eu mais ele. Enquanto os outros ganhavam 17 mil réis por semana, nós ganhávamos 40, 60 mil réis por semana. Nós ganhávamos o dobro do que eles ganhavam porque a gente trabalhava. Quando amanhecia o dia, a gente já pegava. Almoço a gente não fazia quilo. Então água é só quanto bebia a água e virava para trás. E trabalhar na parte da tarde, enquanto estava claro, a gente estava trabalhando. Mas a gente ganhava. Enquanto eles estavam ganhando 17 mil réis por dia, nós estávamos ganhando 30, 35, 40 mil réis, porque naquele tempo era mil réis, não era cruzeiro.

 

P/1 - Senhor Joaquim, e essa seca de 1953, como é que foi para o senhor? Porque aí deve ter desestruturado...

 

R - Para mim foi prejuízo... Para mim e os outros mais que estavam lá por perto. Aí eu desanimei, eu desanimei de trabalhar em roça. Foi aí que apareceu senhor Chiquinho, trabalhando na telefônica. Falou: “Eu estou precisando arranjar uns companheiros, coisa e tal, uns (quiloto?).” Mas ele queria ver. Eu mandei esse Sebastião falar com ele para arranjar serviço para nós. Ele foi. “Mas você tem que ir lá, Joaquim. Você tem que ir lá.” Eu tive... Para ver se ele gosta do jeito da pessoa. Então o senhor Chiquinho falou: “Não, vocês dois me servem.” E começamos, entramos na firma e eu fiquei até aposentar. Quer dizer, antes de aposentar a gente teve um tempo que a gente saiu um ano e três meses. Aí voltou e ficou até aposentar. Aí não pudemos sair mais.

 

P/1 - O senhor já conhecia o senhor Chiquinho, não?

 

R - Antes não. Eu vim conhecer esse dia que ele estava precisando de companheiro.

 

P/1 - Lá em Centralina?

 

R - Lá em Centralina. Isso foi mês de abril de 1961, que ele nos procurou.

 

P/1 - E ainda nessa seca de 1953 até 1961, o senhor continuou no arroz?

 

R - Continuei arrancado toco na roça para os outros. Arrancando toco e trabalhando lá na Ponte de Itumbiara. Todas as pontes que tem de concreto armado a gente trabalhava no tempo da seca. Eu trabalhei naquela do Tijuco, trabalhei lá na do Ribeirão dos Porcos, que é lá perto do Prata, trabalhei lá em Jacupiranga perto de São Paulo, em uma ponte, e trabalhei lá naquela ponte... Antigamente era Construtora Goitacá que fazia aquela ponte lá de Itumbiara. Só lá eu trabalhei 11 meses.

 

P/1 - Ah, tá.

 

R - Então, todo tempo de seca, tempo das... Tempo de seca que eu não estava trabalhando com alguma companhia de ponte, eu estava arrancando toco para os outros. Nunca levei minha vida, como se diz, uma vida... Fala assim, malandrada, nunca levei. Sempre trabalhando e enfrentando as dificuldades em frente mesmo, enfrentando de garra, unha e dente, como se diz, não podia dar moleza não.

 

P/1 - Está certo. E o senhor trabalhando em ponte, ficou sempre em uma firma só, ou ficava em várias...

 

R - Em ponte eram várias firmas. Lá no Tijuco, por exemplo, a gente trabalhou na (Cavalosque?). Lá na ponte de Itumbiara era a Construtora Goitacá. E lá no Estado de São Paulo era Ferraz de Cavalcanti. A gente ficava em um e outro, né? Aparecia, a gente... Tinha aquela vaga, a gente ia trabalhar. A gente não tinha aquela vida, como se diz... Falar que fica à toa, depois olhar no bolso e não tinha dinheiro.

 

P/1 - Está certo.

 

R - O prazer da gente era contar que tinha, ao menos, um centavinho no bolso.

 

P/1 - O senhor estava solteiro aí?

 

R - Estava solteiro. Eu vim casar agora, em 1968.

 

P/1 - Ah, tá. E esse negócio de trabalhar em ponte, por que só ponte? O senhor acabou se especializando em...

 

R - Não, não é porque é só ponte, é o lugar que a gente tinha mais companheiro. Tinha mais companheiro que trabalhava na construção de ponte. Às vezes tinha muitos conhecidos que chamavam: “Vamos para lá! Tem vaga, vamos para lá, trabalhar lá! Largar de mão de trabalhar no meio de mato aí, arrancando toco. Lá é mais fácil, melhor.” Às vezes não era mais fácil nada. É porque era melhor. Você estava no meio da população, eram mais companheiros. Tinha condição de, [por] ponte, nós contarmos aí, 100, 120 pessoas, certo? Um fazia uma coisa, outro fazia outra e aquilo a gente, às vezes, tinha... Quando era tempo de concreto, dia de concreto, a gente trabalhava a noite inteira, trabalhava 24 horas. Então, nessas 24 horas, você ganhava mais 24 extra, era dobrado. Porque hoje eles falam que... Eu pago hora extra, coisa e tal, mas você trabalha uma hora só, é só aquela que você recebe né? Mas o certo não é esse. A extra é aquela hora que você trabalha e mais outra dobrada, aonde você fala hora extra, é isso. A gente, às vezes, torcia para trabalhar em ponte por causa disso.

 

P/1 - Na concretagem não podia parar, né?

 

R - Não podia parar. Eram dois turnos, dois, três turnos. Você trabalhava uma turma, tinha que ir na betoneira. Trabalhava um turno até tantas horas da noite ou, às vezes, até a noite inteira. A outra turma pegava de manhã e ia até de tarde. Ali, para vencer aquele período noturno, tinha que ter outra turma para poder retribuir das 14 e 30 até às 18 horas. Às 18 horas a turma noturna pegava de novo e ia até às cinco horas da manhã.

 

P/1 - O senhor se especializou ou ficou fazendo um trabalho mais específico, assim, ferragem, concreto? O que é que o senhor gostava mais de fazer?

 

R - É, a gente sempre trabalhava de ajudante de armador. Era, como se diz... Distribuía ferragem dentro da ponte, amarrava com araminho fino, esse araminho 18 cozido. Isso, então, era o que a gente fazia. Mas, tirando aquilo ali, a gente enfrentava qualquer serviço que eles falassem. O encarregado vinha para falar com a gente, a gente enfrentava qualquer tipo de serviço. Era furar um buraco, fazer uma fundação para poder levantar uma coluna, trabalhar dentro de um ar comprimido... Igual eu trabalhei lá em Itumbiara, aquela ponte lá de Itumbiara. Eu trabalhei dentro de 330 libras de ar, lá no fundo do... 35 metros de fundura de água. A gente trabalhava lá no fundo. Às vezes, com sede e suando, e a água em roda da gente até em lá em cima, entendeu?

 

P/1 - Tinha algum equipamento de segurança?

 

R - Tinha... Segurança não tinha equipamento, só tinha mesmo o ar comprimido, que era uma... Tipo de uma coluna de ferro descendo dela, de cimento, que descia em cima da areia lá embaixo. A gente tinha que recuar aquela areia toda para fora. Recuar aquela areia para fora para poder cavar as pedras que estavam bambas, até dar na rocha dura. Quando dava naquela rocha, a gente trabalhava com martelete lá dentro dessas 350 libras... 330 libras, 350 libras. Trabalhei com martelete lá dentro para chumbar concreto e poder prender aquela pilastra lá dentro. A gente fazia alicerce, ajudava fazer o alicerce, e aquele pilar já ficava chumbado lá dentro. A gente já saía daquele e passava para o outro lado.

 

P/1 - Quantas pessoas cabiam nesse...

 

R - Oito pessoas. Essa era a função; uns puxando o balde para jogar lá em cima no cachimbo para poder jogar para fora e outros cavando para encher os baldes.

 

P/1 - E não tinha muita fumaça ali, de martelete batendo _________?

 

R - Não, não apresenta fumaça nenhuma. Para começar que, quanto o professor está trabalhando do lado de fora, que o senhor entra, já entra com o ar fechado. O senhor entra na cabine, já tem que parar o fogo todinho e dar um assopro para o ar não entrar pelo vidro, para não dar esgotamento de sangue. Então essa era a nossa função.

 

P/1 - E quanto tempo ficava lá embaixo?

 

R - Ficava 12 horas.

 

P/1 - Direto?

 

R - Direto,12 horas direto. Às vezes, contava umas... Folgava, uma turma trabalhava seis horas, outra turma trabalhava seis. Mas, quando estava apertado mesmo, eram 12 horas direto, das 6:00 às 18:00. Já almoçava lá dentro. Ia café, ia lanche para nós, mas lá dentro. Nós não saíamos porque não podia sair até que abrissem a comporta para a gente sair, perdia muito tempo. Então tinha que esperar, trabalhar lá dentro até vencer... Quando era muito apertado.

 

P/1 - Aí quanto tempo o senhor ficava sem descer de novo?

 

R - Eu ficava uma noite e outro dia inteirinho. Aíeu ia descer em outra noite.

 

P/1 - Que é para não afetar muito...

 

R – É, para não afetar o organismo, porque a gente sua, não tem... Respira, mas, como se diz, o trabalho é muito. Você respira, sai no suor, então não tem como você alimentar, certo? O corpo fica... Sente fraco.

 

P/2 - E o senhor Sebastião Gonçalves foi trabalhar nas pontes também?

 

R - Não. Senhor Sebastião trabalhava só na oficina da telefônica.

 

P/2 - Não, aquele seu companheiro de trabalho.

 

R - Ah, esse trabalhava. Ele trabalhava, mas não descia lá para baixo não. Ele não gostava. Eles mandavam ele entrar lá: “Não, vocês marcam qualquer serviço para mim aqui de fora, tudo bem. Mas entrar lá dentro não.” Agora, eu, como não comandava muito com a coisa... Não sei se é porque eu era sozinho, se é porque eu tinha coragem demais. Então, para mim, não era bicho de sete cabeças não. Eu entrava de qualquer jeito. Eu já fui furador de cisterna, 120 palmos de fundura na cisterna. Eu furei 60 palmo só em uma piçarra. Uma cisterna. Olhava lá em cima, um cara lá de baixo olhava lá em cima, o buraco... A boca estava desse tamanhozinho. Você olhava lá de cima, lá em baixo o poço de água estava desse tamanhozinho também. É pititinho.

 

P/1 - E não tinha acidentes nessa...

 

R – Não, graças a Deus. Se eu contar para você, nunca quebrei, nunca quebrei um dedo, nunca quebrei uma perna, um braço.

 

P/1 - Mas o senhor viu colega seu passar apuro?

 

R - Vi, colega meu já vi passar apuro, de ficar fechado dentro de um barranco, assim. Eu já vi ele ficar fechado, amarrado daqui assim para baixo e você não poder arrancar porque na areia se enterrou um tanto assim pra cima do pé, você já não arranca. Já fica, fica lá. Se não tirar aquela areia em roda do pé dele, ele não sai. Você pode pegar nos braços dele que ele não sai. Pode juntar duas, três pessoas que não consegue arrancar ele para cima.

 

P/1 - Bom, e o senhor ficou nessa lida das pontes até voltar para Centralina?

 

R - É, até voltar para Centralina. Eu estava trabalhando lá na ponte de Itumbiara, na construtora, a Goitacá, eu saí e vim embora para Centralina. Deixei o serviço lá e vim embora para Centralina. E aí apareceu que o seu Chiquinho queria a gente. A gente pegou e veio embora. Eu fui lá e acertei com o patrão. O encarregado, o encarregado ainda não queria acertar comigo. Foi preciso eu dar uma bronca danada nele, eu falei: “Se o senhor não acertar comigo amanhã, eu volto aqui e eu vou quebrar esse escritório aí. Eu quero a minha carteira.” Aí ele foi e deu um jeitinho de entregar a carteira.

 

P/1 - Por que ele não queria acertar com o senhor?

 

R - Eu não sei. Era política dele, né? Que, certamente, ele não gostava de pagar o que devia, como de fato não pagou. A gente saiu e não recebeu. E nem deu baixa na carteira também.

 

P/1 - Certo. E o senhor foi encontrar o seu Chiquinho aonde?

 

R - Em Centralina.

 

P/1 - Como é que foi esse primeiro encontro?

 

R - Ah, esse primeiro encontro surgiu, porque a cidade era pequena, então surgiu que ele estava precisando de uns funcionários para trabalhar. O nosso teste no serviço, a gente... Ele olhava a cara da gente e via se gostava, se gostasse, ele falava: “Vocês me servem. Pode ir. Você começa amanhã?” “Começo.” A gente começava. Depois que a gente começou e ele passou a gostar da gente, a gente continuou com o serviço. Aí tinha lá um soquete de dez quilos que era o nosso teste. A gente pegava aquele soquete, era o dia inteiro socando o pé do poste. Quando era... No outro dia já era outro, e aquilo era batidão direto. Levantava aí, 50, 60, 70 poste por dia. Poste e trilho.

 

P/1 - Soquete o que é que é mesmo, seu...

 

R - Soquete de ferro. Um soquetão, isso assim de grossura e isso assim de comprimento para a gente pode socar no pé do poste.

 

P/1 - Ah. Para firmar?

 

R - Para firmar. Um cabo, mais ou menos, dessa espessura assim. A gente pegava e socava aquilo ali o dia inteiro.

 

P/1 - Aí o senhor foi morar em Centralina de novo, na casa de seu pai?

 

R - Aí eu voltei. Quer dizer, eu já estava... Lá da ponte eu vinha todo dia de tarde, ficava lá em casa, em Centralina. Eu entrei na firma, fiquei trabalhando na firma e morando em Centralina. Aí apareceu: “Nós estamos indo para o Prata, nós damos transferência para você. Você, Fulano, Fulano, Ciclano e Ciclano.” Falei: “Olha, vocês topam ir?” “Topamos.” Nós fomos para o Prata. Ficamos acampados lá no Prata. Do Prata, fomos até Frutal, trabalhando.

 

P/1 - E o que é que consistia esse trabalho? Esticar linha?

 

R - Era enfincar poste, depois esticar linha. Depois de esticar linha, era subir lá em cima para amarrar a linha no isolador. Depois de amarrar linha no isolador, já vinham aqueles... O negócio de colocar protetor, de colocar faiscador na ponta das linhas para depois entrar na Central.

 

P/1 - E esses postes já eram postes de trilho, seu Joaquim?

 

R - Poste de trilho. Tinha poste de trilho, poste de madeira, poste de cimento, tinha de tudo. Conforme o local que a gente ia trabalhar, mas, geralmente, quando era pela CTBC, era só poste de trilho. Tinha algum poste de cimento para reforçar algum lugar, mas a maioria era poste de trilho. Outra hora era poste duplo, né? Porque são dois trilhos num só.

 

P/1 - E o senhor foi esticando linha do Prata até...

 

R - Eu comecei lá em Itumbiara, fui até Centralina. Depois de Centralina, fui até o Trevão. Do Trevão nos viramos, fomos paraTutaba. Depois de Tutaba nós voltamos, fomos para Frutal. Aí, antes desse intervalo de nós irmos para Frutal – nós estávamos morando no Trevão –, nós fomos para... Viemos até Monte Alegre primeiro. Viemos para o lado do Frutal, do Prata, fizemos Prata, mudamos para o Prata e já fizemos Frutal.

 

P/1 - Nossa, então fizeram uma volta grande?

 

R - É. Depois do Prata nós fomos... Nós trabalhamos 28 quilômetros, seu Chiquinho estava junto. Depois a gente veio para cá fazer um serviço daqui de Uberlândia à Araguari. Depois, de Araguari à Catalão. Aí eu estava nesse setor. Um dia, seu Alexandrino chegou lá: “Chiquinho, eu quero um funcionário para eu mandar para Campina Verde. Quem eu mando? Quem você manda para min? Eu preciso de um. Você se vire, Chiquinho. Você se vire que eu preciso de um funcionário para ir para lá.” “Então eu tenho que te mandar Joaquim Pires.” “Então manda o Joaquim Pires.” Aí, me mando e eu fui para... Quando eu saí daqui, eu fui para Campina Verde. De Campinas Verde, vim fazer o serviço da metade do Prata até Campina Verde e desci para Iturama. Aí fiz o serviço levantando poste de madeira. Nessa época era poste de madeira. Levantamos até Iturama. Acabou o serviço de Iturama, viramos a levantar até Alexandrita. De Alexandrita até Carneirinho e de Carneirinho, fomos até a (Poço Alencar Castro?), que é Santana do Paranaíba.

 

P/1 - Lá no Mato Grosso?

 

R - Mato Grosso. Então a gente não tinha parada.

 

P/1 - Vivia-se como? Vivia-se no acampamento, direto?

 

R - Muita das vezes a gente ficava na pensão por conta da firma, e muitas vezes a gente arranjava acampamento. A maioria era mais na pensão por conta da firma. A gente chegava de tarde e tomava o banho, jantava. No outro dia cedo saía e quando chegava o dia de sábado que a gente não fosse trabalhar, a gente ia para casa, o sábado e o domingo. Na segunda a gente estava cedo lá, pegando de novo no trabalho.

 

P/1 - E quem levava e transportava até lá?

 

R - Às vezes... Muitas vezes era a gente mesmo. A gente tinha o transporte, tinha caminhonete para carregar. Depois que a gente aprendeu dirigir, a gente já passou a carregar tudo.

 

P/1 - Era preferível trabalhar com poste de trilho ou poste de pau?

 

R - Pela norma... Tanto era pesado um como o outro, mas como o trilho era mais fácil porque é um peso só, era preferível o poste de trilho, porque o poste de madeira uma hora o senhor pegava um que era mais fino, outra hora pegava um grossão. Por exemplo, lá perto de Iturama eu levantei uns 32, 35 postes que davam a tábua de 30 centímetros. Então se vê que era poste de Aroeira, não era poste de outra madeira não. Era poste de Aroeira de oito metros e meio, nove metros de altura. Você vê que dava trabalho. Punha na traseira de um caminhão, o caminhão custava a dar conta de ir para um lado para levantar. Quando levantava ele de um lado, ele caía para o outro porque era pesado demais, ele caía para o outro lado.

 

P/1 - O trilho tinha uma altura... Que altura padrão ele tinha?

 

R - Ah, o trilho tinha... Tem ele de sete metros. Tinha ele de sete metros e nove metros. E tinha de dez também. Quando dava dentro daqueles buracos, dava de dez metros, 11 metros, 12 metros. Uma travessinha de linha de ferro de 14 metros de altura que eles exigia, o tráfego rodoviário... Ferroviário exigia que ele fosse alto, que se caso arrebentasse o fio lá, não ficasse no meio dos trilhos para estrovar.

 

P/1 - Como é que era o processo, seu Joaquim? Descreve para nós como é que... Tem aqui o poste, o fio, a cruzeta. Como é que eu faço para ir levantando isso, ir juntando um com o outro, para ir montando essa linha? Como que é o esquema?

 

R - Olha, a linha para a gente fazer era o seguinte; a gente punha... Por exemplo, eu mesmo fui o bambuzeiro – a gente tratava de bambuzeiro. Quando era esse poste de 14 metros, a gente tinha que subir, parava, subia lá em cima, puxava na corda. Porque o bambu não dava altura, né? Agora, quando era esses postes de sete metros, oito metros, nove metros, a gente tinha um bambu para pôr lá em cima. A gente tinha um gancho no bambu que enganchava ali e caía aqui, e a gente levava lá em cima do poste. Vinha, pegava outro, enganchava lá em cima e aí era o dia inteiro. Uma turma de quatro, seis, oito na frente, arrastando um cabinho, um cabinho de alumínio, outra hora era fio de alumínio. Quando era fio de alumínio eram quatro, três, quatro. Às vezes, cinco, conforme a turma que tinha.

 

P/1 - Mas o senhor jogava... Quer dizer, com o bambu, o fio lá em cima, mas não tinha que amarrar na cruzeta, não tinha que passar no isolador?

 

R – Não. Depois que nós espichávamos ela, a hora que acabasse o rolo, a gente ia amarrava num toco. Ou um toco, ou uma árvore, ou um... Mesmo o poste, a gente amarrava. Ou no poste de cerca, de arame, a gente amarrava aquela ponta de linha. Dali, a caminhonete já estava de parelho com a gente para a gente poder continuar para frente. A gente já soltava mais dois rolos, por exemplo, que eram dois fios. Soltava mais dois rolos na desenroladeira, já ia para a frente. Andava aí mais dois, três, quatro quilômetros. Quando chegava esses dois, três, quatro quilômetros, essa turma já estava quase cansada de tanto puxar o fio. Aquilo ali, passando por dentro do buraco, por dentro de córrego, dentro de lagoa, no meio dos espinhos, e aquilo continuava o dia inteiro. Quando fosse no outro dia, nós vamos amarrar... Às vezes acontecia da gente puxar fio dois dias para poder adiantar o serviço, que quando nós pegássemos a amarração lá atrás, nós éramos o mesmo para amarrar lá atrás. Nós tínhamos que puxar fio, às vezes dois dias para valer um que nós estávamos amarrando. Então ali nós jogávamos a escada no ombro, saía de um poste, passava para o outro, saía do poste passava para o outro e amarrando, subindo e amarrando. Carregava uns amarrios desse tamanho assim, 40 centímetros de fio para amarrar. Fio cozido para a gente subir lá e amarrar no isolador. Então o isolador estava assim, a gente punha o fio, vinha, dava volta, amarrava um lado, dava volta, tornava a amarrar do outro lado. E aquilo ali a gente continuava o dia inteiro. Tinha dia que nós amarrávamos cinco, seis quilômetro de fio.

 

P/1 - Os postes, quem é que carregava?

 

R - Era o caminhão. Nessa época já tinha o caminhão para carregar. Era um GMC velho, 1951. Esse caminhão é que carregava poste para nós; de madeira, de ferro, outra hora de cimento.

 

P/1 - Sim, mas ele não entrava no mato?

 

R - Ficava na beira da estrada, na beira da rodovia. Ele jogava no chão, distribuía aí 50, 60 postes, às vezes 30, 35, conforme tivesse poste duplo. Então eram 30, 35, 40 postes. Quando era só poste simples eram 50 postes que carregava, ele distribuía na beira da rodovia que não tinha asfalto, jogava ali na beira da rodovia. Depois a gente pegava na beira da rodovia e levava lá para a beira da cerca, que era a lateral da rodovia. Ali a gente, na cerca da rodovia... No eixo da rodovia eram 40 metros. A gente obedecia, punha com 39 e meio. Meio metro só da cerca no poste de trilho aonde a gente ficasse. Poste de trilho, poste de madeira, fosse o que fosse, a gente tinha que respeitar 50 centímetros.

 

P/1 - E quantas pessoas eram para carregar um poste desse?

 

R - Conforme as grossura do poste, tinha que ter oito pessoa; seis, oito pessoa. E quando era mais fino, às vezes, quatro, cinco carregavam.

 

P/1 - E o trilho?

 

R - O trilho são dois, três, quatro. Quando era duplo, aí tinha que ser oito, às vezes até mais. Mas tinha poste duplo que a gente nem dava conta de carregar, tinha que arrastar. Tinha que pôr no chão e sair arrastando aquilo com dificuldade até chegar lá no lugar. Outra hora, procurar jeito para o caminhão levar... Largar lá no local. Ali a gente tinha que amarrar a corda na ponta dele; um saía pra cá, outro saía para cá, outro saía para lá assim, para puxar aquelas cordas. “Força, força.” Ou então o poste chegava a fazer assim, envergava para levantar. Porque os que estavam lá na frente estavam fazendo força, e os outros embaixo, empurrando naquelas curvas do poste para poder levantar. Quando o senhor olhava para cima assim, eram 14 metros de altura, tudo levantado na mão.

 

P/1 - Isso com o buraco já feito, né?

 

R - Com o buraco já feito. Buraco de um metro e cinquenta, um metro e sessenta de fundura.

 

P/1 - E que tamanho tinha esse buraco?

 

R - Eram, mais o menos, 20 centímetros de grossura, o buraco. A gente fazia uma rampa assim... Rampa que se fala era cavado com enxadão, enxadão de dez centímetro de largura quando era um poste simples. Quando era um poste largo, tinha que ser um e meio de enxadão para cavar, para fazer a rampa e poder levantar aquele poste, porque não tinha munck naquela época, a gente tinha que levantar tudo na mão.

 

P/1 - Na mão, no muque?

 

R - No muque, no muque de mão. Muque humano, no muque humano.

 

P/1 - Está certo. Seu Joaquim, esse caminho que se levava lá no meio do mato, vocês tinham algum tipo de equipamento de segurança? Quer dizer, trabalhavam com roupa especial, com luva, ou com bota?

 

R - Nessa época não tinha. Nessa época tinha o EPI [Equipamento de Proteção Individual], mas eles não exigiam nada da gente.

 

P/1 - O que é EPI?

 

R - EPI era o departamento de segurança que tinha antigamente. A gente pagava, mas não era beneficiado dele.

 

P/1 - Ah sim, entendi.

 

R - Certo. Era tipo do INSS. Depois é que passou a ter o INSS que a gente passou a participar.

 

P/1 - Mas, por exemplo, o senhor ia para o mato para fazer todo esse serviço. Como é que o senhor se vestia?

 

R - Vestia roupa grossa, outra hora... Vestia o que tinha. Por exemplo, às vezes era até roupa remendada, ou roupa rasgada, contanto sim que fosse botina, né? Não podia ser chinelo, nem descalço, tinha que ser botina. Era a especialidade. E quando era poste de trilho tinha que ter luva para a gente pegar no poste, porque a gente não aguentava. Ou, muitas vezes, não tinha luva assim... Das primeiras vezes, a gente enrolava a camisa na mão, arrancava a camisa, enrolava na mão para poder pegar lá. E muitas vezes pegava com uma mão só para levantar para levar no ombro. Outra hora pegava, arrebentava folha de capim para poder jogar o poste no ombro para carregar. Outra hora fazia... Pegava umas cangas de madeira – isso assim, mais ou menos, de grossura –, atravessava no poste, um de cá e outro de cá e saía com aquele poste, carregando feito bandeira. Quando estava muito quente, a gente fazia isso também, tinha dia que fazia. E quando não dava, às vezes, era um lugar cheio de montanha, de descida, tinha que pegar de um só. Esse colega que a gente tinha, que é o Sebastião Gonçalves, eu mais ele pegávamos um poste sozinho. Eu ajudava ele a colocar do lado dele e eu colocava do meu lado, colocava sozinho uma ponta. Um poste de nove metros de trilho.

 

P/1 - E o que é que botava no ombro aqui para proteger?

 

R - Assim, uns pedaços de mulambo, outra hora folha de capim, outra hora um pedaço de pau. A gente punha por baixo do poste para poder carregar e não queimar. A gente tem, até hoje, cabelo de carregar os postes.

 

P/1 - Cabelo? (risos)

 

R - Né? Isso aqui era grande, então você vê que está com dez, 14... Está com uns 16 anos que eu larguei de carregar. Ainda continuam os cabelos grandes no ombro.

 

P/1 - Ai, que engraçado. É de tanto friccionar aí, né?

 

R – É, de tanto relar e queimar. Então cria aquela... Os cabelos.

 

P/2 - Seu Joaquim, aí o senhor, separando do seu Chiquinho, montou uma equipe separada?

 

R - Eu montei uma equipe. Eu montei a equipe e o senhor Alexandrino arrumou outro que trabalhava comigo, um tal Jorge Cursino... Jorge José da Silva, lá do Prata. Esse era outro que trabalhava, eu não sei se ele é vivo ainda. E tinha o Jorge Cursino também, que é cunhado do senhor Rivalino. Esse deve estar lá na Parada de Minas, se caso vocês for fazer alguma entrevista lá, ele deve estar lá.

 

P/2 - Tá.

 

P/1 - Seu Joaquim, como é que foi o seu primeiro encontro com o seu Alexandrino?

 

R - Meu primeiro encontro com o seu Alexandrino foi que ele chegou lá no serviço levando o material para o seu Chiquinho e falou para o seu Chiquinho: “Chiquinho, mande seus homens descarregar a caminhonete, passar esse material para a sua caminhonete. Então a gente foi descarregar aquela caminhonete, porque ele estava nela para passar para a nossa, para caminhonete que a gente trabalhava. Depois disso a gente teve mais uns encontros com ele que ele chegava: “Seu Chiquinho, eu preciso de um funcionário para levar, ajudar a descarregar um caminhão lá em Uberlândia.” Às vezes a gente estava aqui perto de Monte Alegre, outra hora está indo para... Lá em Tutaba descarregar o caminhão, ou carregar... Porque nessa época não tinha... Tutaba não era nosso, mas a gente já tinha linha física até lá, e a gente tinha que fazer aqueles percursos que ele mandasse, que, de vez em quando, ele chegava. Depois disso que eu passei a ser chefe de equipe, depois eu passei a trabalhar de Monte Alegre à Batinguara. Aí, foi os encontro mais que a gente teve, mais contato com ele, foi essa época que a gente estava em Batinguara.

 

P/1 - Como é que o senhor se transformou em chefe de equipe?

 

R – Me transformei em chefe de equipe pelo seguinte, que eu não tinha aquele negócio de parar: tanto fazia o patrão estar junto, como não estar, para mim meu jeito de trabalhar era um só. Então, às vezes, eu sentia mais prejudicado se o patrão estivesse junto comigo, porque, às vezes, ele queria que eu desse atenção à ele e eu não podia dar essa atenção, senão o meu serviço não saía. Então, se ele era meu patrão, estava conversando com ele e trabalhando. Agora, se eu fosse andar, aí falava: “Olha, eu estou apertado, estou precisando acabar esse serviço, coisa e tal.” Podia ser ele, podia ser outro chefe, era o meu sistema. Eu chegava no serviço, eu queria que rendesse. Então, nessa vez que eu estava no Monte Alegre, que eu fui trabalhar do Monte Alegre à Batinguara – essa é uma passagem interessante que a gente acha. Naquela época tinha passado pelo Trevão, a estrada, mas não era asfaltada ainda não. E foi ele e a dona Maria levar... Às vezes eles iam levar pagamento para nós lá no serviço e aquilo estava... A chuva estava que caía, e aquelas estradas de areia cheias de buraco. E ele com a calça arregaçada até em cima assim, “Dona Maria, toca para cá, dona Maria. Para cá, para cá. Dona Maria, toca pra cá.” A dona Maria era motorista dele. Saiu daquela vez e não tinha buraco mais daquele setor, e uma distancia boa. “É, dona Maria, deixa eu olhar aquele buraco.” Aqueles poço de água, para ver se a Simca passava, era aquele Simca Tufão, era dos primeiros carros de luxo que saiu, aquela Simca Duas Andorinhas, Três Andorinhas. Aquele carrão “granfo”, né? A gente olhava dentro, cheirando... Bonito, né? É do dinheiro mesmo, comprar um carro desses. A gente não conhecia. E a dona Maria tocando aquela Simca foi levar o pagamento para a gente. Acabava de fazer o pagamento para a gente, ele voltava. Aí não, nós vamos lá em Centralina. Ia lá em Centralina, voltava, vinha pela estrada de terra. Não passava mais por aonde ele tinha passado naquela época.

 

P/1 - Enfiava o carro de luxo nos buracos de terra?

 

R - Não, enchia, enchia o carro todo de água, de barro. Porque descia lá em baixo, dentro da água. Quando ele saía, quando ele saía da rodovia, o carro estava completamente cheio de barro. Ele não tinha dó não, ele mandava tocar mesmo.

 

(Troca de fita)

 

P/1 - O senhor estava falando do Seu Alexandrino, de ele ir lá fazer o pagamento para o senhor e o senhor disse que aí, depois que o senhor virou chefe de equipe, passou a conviver mais com ele, né?

 

R - Passei a conviver mais com ele. Quando ele queria o serviço de maior emergência, ele pedia. Falava: “Manda o Joaquim Pires fazer para mim.” “Olha, esse serviço é assim...” “Olha, eu quero Joaquim Pires lá na granja com a equipe dele.” Então era a vez que a gente ia lá para a granja. Aí é que a gente passou a ter bastante contato com ele. Quando o dia estava clareando, ele estava lá em roda da... Que a gente estava dormindo lá na granja, a Granja Marileusa, aí ele: “Joaquim, você já levantou?” “Já, seu Alexandrino.” Eu já saía e já cumprimentava ele. “Vamos ali que eu quero te mostrar um serviço.” Era para drenar o brejo lá da granja. “Vamos ali que eu quero te mostrar um serviço que eu tenho que ir viajar, eu tenho que ir pra São Paulo, tenho que ir para Belo Horizonte...”, outra hora ir para outro canto. Então eu sempre tinha os compromissos apertados dele, e ele: “Você olha isso pra mim, faz isso, isso, aquilo, aquele outro.” Me mostrava aquela etapa pra aquele dia, até que ele voltasse. A hora que ele voltava, ele procurava se aquela etapa já estava terminada. E eu disse para ele: “Olha, já está drenado, já está... Foram postos os cavacões de pedra, foi posto capim e já está chegada a terra por cima. Está pronto.” Aí ele: “Vamos lá ver o fim.” Lá onde a manilha está escorrendo. A gente ia lá, ele tinha que ver que estava correndo água, se não estivesse correndo água, não tinha resultado do serviço que a gente fez. Não tinha feito o efeito... A manilha, a gente colocou lá, ficou uma manilha perdida se não corresse água. Então tinha que pegar o lugar para correr a água que era para secar a terra para poder formar capim, formar brachiaria, ou grama, o que ele quisesse.

 

P/1 - Ele era bom de trato, seu Joaquim?

 

R - Muito bom. Bom de trato, bom para pagar. O que a gente tinha para receber ele pagava. Podia ser um centavo que ele pagava. E outra, ele torcia para o lado do funcionário. Não que era assim... Falar assim que ele dava colher de chá para o funcionário, ele não dava. Ele era severo, mas ele reconhecia. Se ele fosse errado, ele reconhecia que o funcionário tinha direito. Ele chegava... Para mim mesmo ele chegou a falar: “Joaquim, eu me arrependi porque eu não deixei você fazer aquele serviço.” Isso já tinha mais de ano, ele ainda retribuiu isso para mim: “O, você tinha falado para mim que queria fazer aquele serviço daquele jeito, eu me arrependi. Por que é que eu não deixei você fazer do jeito que você queria? Me arrependi mesmo.” Ele falava: “Eu arrependi mesmo.”

 

P/1 - O senhor se lembra que história era essa? O que tinha sido?

 

R - Era uma linha, uma linha lá em Campinas Verde. A gente tinha marcado uma reta, porque a gente fincava... A gente saía roçando nas beiras da estrada. Quando era rodovia era beira de estrada. Por exemplo, do Prata à Campina Verde foi essa época. A gente ia roçando as beira, acompanhando as estrada. Quando dava uma vez um atalho para sair lá a diante, a gente queria atalhar, ele falava “não, não vamos atalhar não, vamos dar a volta.” Depois falava que aquilo ali, se a gente tivesse atalhado, tinha ficado melhor. Quando, na chegada de Campina Verde dava uma reta muito bonita... Porque o povo tinha entusiasmo naquela época, e eu mesmo sentia entusiasmo do que eu fazia. Quando chegou no alto assim para descambar para Campina Verde, a gente olhava se a reta para sair lá na igreja... As Igrejas dos Padres. Aí eu marquei, a reta ia sair em cima de uma casa. Ele foi, falou: “É Joaquim, você marcou uma reta para sair em cima dessa casa, mas nós podíamos ter passado por cima da casa. Por que é que eu não deixei você fazer?” Então, depois de um ano, ele repetiu isso comigo: “Por que eu não deixei você fazer, passar em cima da casa?” Porque não pegava nada. Na casa, você ia ficar mais alto do que a casa. “O senhor ia passar por cima, mas não tinha nada.” Então nós temos que fazer uma tortura. Quando chegou na casa, nós tivemos que fazer uma tortura. E aí saiu de estética da linha.

 

P/1 - Certo.

 

R - Saiu de estética assim, porque não ficou aquela carreira de poste bonito conforme a gente de cá tinha visão que é lá no alto, né? Aí reclamou por causa disso.

 

P/1 - Vocês andavam com algum agrimensor, tinha...

 

R - Não, agrimensor era a gente mesmo.

 

P/1 - Era o olho?

 

R - Era o olho mesmo. A gente colocava duas balizas... Por exemplo. A gente media quatro, cinco metros conforme o tipo de estrada. Às vezes até oito metros, dez metros, a gente media aquela distância e ficava uma baliza aqui. Já tinha uma noção da estrada lá adiante como é que estava. Vinha aqui, colocava a outra. Então, quando você colocava essa aqui, ela já estava na reta lá para adiante. A gente já pegava um monte de vara assim, jogava no ombro e ia para lá. Já tinha as medidas na beira da estrada de 80 metros. Chegava lá na beira da estrada, olhava a medida, ia lá na distância para ver aonde dava o alinhamento. Quando dava quase em cima da estrada, a gente tinha que voltar lá atrás e falar: “Não, ainda está dando em cima da estrada.” A gente enfincava umas duas, três ou quatro. Às vezes tinha que voltar. Daí fincava até umas dez balizas – a gente falava baliza –, fincava umas dez balizas, ainda tinha até que mexer neles, jogar mais um pouquinho para poder não cair dentro da estrada. Às vezes, em uma baixada, alguma coisa, né? Então a gente seguia aquilo. Depois que levantasse os postes é que a gente ia notar o tanto que tinha ficado mais bonito. Não sei se é porque é o que a gente trabalhava ou gostava... Então, quando eu enfincava aquele horror de baliza que ficava retinho, a gente, na volta do dia, olhava, estava aquele horror de estaca assim, retinho uma com a outra, igual o senhor falou: agrimensura, né? Mas é só o próprio olho! Muitas vezes, nem não fechava o olho. Ficava só assim, (olhava e dobrava?). Aquilo ali era dois, três, quatro, cinco quilômetros, nós fazíamos balizando e sempre saindo das curvas das estradas para não montar em cima da estrada.

 

P/1 - Certo. Tinha que acompanhar o leito da estrada.

 

R - É, acompanhando o leito da estrada.

 

P/1 - O senhor, quando olha os postes hoje assim, o que é que o senhor vê?

 

R - Hoje já está... Já mudou muito né Luíz? Porque a gente... Já não se vê mais poste, já arrancaram, de forma que quando eu ia para... A gente vai, às vezes, daqui para Tutaba, a gente tem uma recordaçãozinha do trio para lá, está tendo uma recordaçãozinha daquela (trial?) para lá, porque para lá ainda tem uns postes. Mas, de lá para cá, eles já arrancaram tudo, aí a gente sente aquela falta dos postes. Quando a gente vai de carro ou ia de ônibus, tinha aquele... Parece que aquele entusiasmo de ir do lado da linha para poder ficar olhando a linha para ver como é que está. A gente tinha entusiasmo com aquilo. Agora, hoje a gente não se vê. A gente parece que sente que tirou um pedaço de vida da gente lá naquele serviço que a gente fez [e] foi desmanchado. Você entendeu?

 

P/1 - O senhor trabalhou sempre na construção de linha. Na manutenção o senhor não fez?

 

R - Fiz manutenção de linha, eu fazia, mas mais era construção. Depois passei para a manutenção. Passei para a manutenção aqui em Uberlândia, lá em Batatais, em Ribeirão, lá em Franca, tudo dei manutenção de linha. Lá em Jundiaí, aquele meio para lá, São Sebastião do Paraíso...

 

P/1 - O senhor continuava solteiro, seu Joaquim?

 

R - Não, lá eu já era casado.

 

P/1 - O senhor conheceu a sua senhora aonde?

 

R - Lá em Piaçú.

 

P/1 - Ela resolveu casar com o senhor, mesmo o senhor...

 

R - Ela (engradou?) com o velho, falou assim: “Esse velho é do trecho, vou gostar desse velho.” E aí eu fiz uma exigência para ela, achei que ela não ia aceitar. Ela ia me abandonar, mas teve que resolver andar pelo meu domínio. Ela quis ficar no meu domínio, falei: “Não, essa serve para eu casar com ela.” Aí eu me casei.

 

P/1 - Qual é o nome dela?

 

R - Nancy. Nancy Maria Figueira.

 

P/1 - E a dona Nancy aguentando essas viagens do senhor aí, direto?

 

R - É, direto. Depois que vieram os dois filhos ela teve que desprezar a gente. A gente lá no serviço e ela ficou em casa, de forma que os meus filhos eu vim ter mais contato com eles foi de 15 anos para cá. Eles estão com trinta... Um está com 30 anos e a outra está com 32, já vai para 32 anos.

 

P/1 - Qual é o nome deles?

 

R - Anderson e Ana Maria Figueira. Então, de forma que a gente não viu eles crescerem. Eu fui ter contato com eles foi de 14, 15 anos para cá, que a gente passou a vir trabalhar em Uberlândia. Mas o resto é ela mesmo que aguentava as pontas. Levava no médico, levava para a farmácia tomar injeção, segurava daqui, segurava dali, ia no banco para receber... Porque a gente estava longe, já tinha que receber, tinha que largar aqueles meninos sozinhos. Então, o que é que fazia? Para não depender do vizinho, ou não depender de um parente, levava a chave da porta, trancava, e os dois meninos ficavam lá dentro, trancados. “Vocês ficam aí! Não vão brigar vocês dois!” Então muitas vezes eles ficavam lá e não brigavam. Ou, se brigava, a gente nem sabia... Ela nem sabia. Mas a porta ficava trancada, quem chegasse lá não sabia que tinha menino lá dentro, porque ficava tudo caladinho.

 

P/1 - Seu Joaquim, quando foi... Essas linhas físicas foram terminando, né? Quer dizer...

 

R - Foram.

 

P/1 - Aí começou a chegar uma coisa mais avançada...

 

R - Passou a... Antes, quando as linhas começaram a progredir, tinha a Embratel. A Embratel era lá em cima, acho que tem ela lá ainda, né? Lá para o lado de lá da (Oscar _______?). Então a gente levava um circuito de linha para lá. Um circuito de linha eram dois fios, que era para transmissão, um para ir e outro voltava. A gente distribuía muito fio daqui para a Embratel, lá em cima. Depois passou que a Embratel veio aqui para baixo, para perto da 234. Aí, quando ela veio aqui para baixo, já foi sistema de rádio que a gente jogava, lá era rádio. Passou aqui para baixo e nisso a CTBC começou a montar rádio também. Antes de ela passar para baixo, a CTBC já tinha a linha VHF [Very High Frequency], que é intermédio de torre.

 

P/1 - Para Patos?

 

R - É, tinha daqui para o Prata; do Prata, Campina Verde, Tutaba e Iturama. É tipo de uma transmissão pelo DQ12. Então, se uma linha daquela cruzasse, o DQ12 não funcionava.

 

P/1 - Certo. Mas, desse sistema, já não precisava levantar tanto poste?

 

R – Não, era só até sair da cidade, porque para pegar o circuito lá da cidade até a torre. Isso já não tinha... Muitas vezes Ituiutaba era tudo pelo cabo, já não tinha nem que levantar poste, era subterrâneo.

 

P/1 - Sei. E como é que ficou o serviço do senhor?

 

R - Olha, aí o meu serviço ficou... Porque eu fui ficando velho, e acabou. Não sei se é bem essa hora, mas o serviço da gente foi aperfeiçoando e a gente passou a trabalhar aqui dentro da cidade. Nisso que a gente passou a trabalhar aqui dentro da cidade, já foi aquele negócio, lançar cabo para aquilo, lançar cabo para ali, lançar, vai lá, liga uns assinantes, se vai ser instalado hoje, coisa e tal. Vamos instalar uns telefones, vamos. E aquilo, foi aquela luta nossa para instalar.

 

P/1 - Quando é que o senhor mudou aqui para Uberlândia?

 

R - Foi... 14 anos? Foi em 1986.

 

P/1 - Certo. Até então o senhor estava meio que ficando em qualquer lugar, né?

 

R - É, antes eu estava nesse setor, no Triângulo aqui até a Parada de Minas. Parada de Minas, a gente teve depois que fazer manutenção de duas linhas lá, depois que a gente teve que... Ficou aqui um tempo morando em Uberlândia. Trabalhamos umas quatro temporadas lá na granja e depois fomos trabalhar lá em Parada de Minas, dar manutenção para duas linhas, porque lá tinha os funcionários, mas não sabia dar manutenção nas linhas, então a gente foi para lá. Aí tornamos a voltar para Uberlândia e eu fiquei só aqui em Uberlândia.

 

P/1 - O que é que era dar manutenção nas linhas? Que tipo de trabalho?

 

R - É quando um fio está bambo, o outro está espichado, outra hora ele está mal emendado, outra hora ele está escapulido do isolador, outra hora tem um isolador quebrado, outra hora não tem uma transposição feita, então a transposição pega um fio daqui, vai aqui, pega outro daqui e vem aqui... Porque a transposição é para transpor a linha. Então aquilo que a gente tem que fazer é regular os fios. Por exemplo, se tem dois fios, se tem quatro fios, pôr tudo niveladinho.

 

P/1 - Aí tem que percorrer a linha verificando?

 

R - Percorrer a linha de ponta a ponta. Chega lá na ponta da linha do lado que a gente começa, olhar para ver se os faiscador está bom. Protetor vai dois fiozinho de vidro, naquela época, né? Então a gente olhava se os fiozinhos estavam limpos, se os faiscadores estavam bom... Tinha que trocar, se não estivesse bom tinha que trocar.

 

P/1 - Um... Troca um poste por poste?

 

R - Não, os faiscadores e o protetor ficavam em um poste só. É só na ponta da linha. Aí, depois a gente saía poste por poste, né? Se precisasse subir, a gente estava subindo. Era para emendar um fio lá em cima, é para arrumar o isolador, ou para trocar um isolador, ou trocar um pino em cima na cruzeta.

 

P/1 - E como é que subia?

 

R - Subia na escada. Colocava a escada, tirava a escada. Da caminhonete levava lá no poste, encostava no poste e subia. Subia lá e amarrava.

 

P/1 - Sempre dava para levar a escada?

 

R - Sempre dava para levar a escada. E quando não dava, a gente tinha que fazer do coração os braços, tinha que levar de qualquer jeito. De todo o jeito você tinha que levar lá, porque como é que fazia? Ou, muitas vezes, tinha que jogar uma corda lá em cima no poste. Quando não dava para colocar a escada no chão mesmo, tinha que jogar uma corda em cima do poste e subir na corda até chegar lá em cima do poste.

 

P/1 - Quando o senhor mudou para Uberlândia, a dona Nancy deve ter gostado muito, não é?

 

R - Nossa! Ela achou bom. E ela não fala que é lá de Piauçú, ela fala que é de Uberlândia. “Não sou de Piauçú não, eu sou de Uberlândia.” Ela não fala que é de Piauçú não.

 

P/1 - A família veio morar aonde?

 

R - Estou morando aí no bairro de Brasília. É só eu e ela, né?

 

P/1 - Mas estão na mesma casa ainda?

 

R - Estamos na mesma casa. Desde que nós casamos, em 1968, estamos lá, pelejando. Estamos pelejando lá com um pedacinho de casa... Assim, com dificuldade, mas evoluindo, graças a Deus.

 

P/1 - Mas aqui em Uberlândia, seu Joaquim, o trabalho era mais para a linha urbana mesmo? Aí já era só para...

 

R - Não, aqui dentro de Uberlândia...

 

P/1 - Para distribuição?

 

R - O mesmo trabalho, mas era só cabo. Só lançamento de cabo, tirar cabo, lançar mais cabo, consertar um cabo que os ladrões roubaram. Outra hora, tinha que abrir uma rede... A maioria é mais pro fim, já quase na época de eu aposentar, mais foi ladrão que estava roubando linha demais. O ladrão roubava aqueles cabos, estava roubando linha. A gente repunha muita linha aqui em volta de Uberlândia. Depois, passou a roubar cabo. Nós passamos a repor cabo, né? Aquilo ali era... Você tinha que estar com uma equipe, então nessa época eu já estava na Engeset. Aí você já tinha que ter uma equipe suficiente, ou quando não tinha, falava com o encarregado. Ele mandava mais gente para a gente lançar o cabo. Era cabo de 200 (pares?), 220 (pares?), aquelas coisas assim.

 

P/1 - Seu Joaquim, que recordação mais forte assim, que o senhor tem do seu Alexandrino?

 

R - Que recordação mais forte eu tenho dele? Olha, a recordação mais forte que eu tenho dele... Quando nós fomos fazer uma posteação. Essa eu me lembro como fosse hoje, essa posteação lá de Campina Verde. Nós pegamos... Tinha 100 postes de trilho de sete metros. Ele era o aprumador de poste, eu era o alinhador. Então, cedo eu comecei assobiando – nós éramos em oito pessoas –. Cedo eu comecei assobiando, ele chegou. Ele me telefonou lá em Campina Verde: “Joaquim, você vem cá para o trecho que eu vou chegar aí... Lá para às 7:30, 8:00 devo estar chegando aí. Você vai preparando... Você já furou os buracos?” “Já.” “Então você vai preparando, põe tudo no jeito para nós levantarmos os postes tal dia.” Nesse dia ele falou: “Eu estou indo para aí amanhã.” E ele foi. Nesse dia tinha 100 postes já “encruzetados”, uns 120 buracos furados. Ele chegou cedo: “Vamos lá, Joaquim? Vamos ver o que a gente faz?” Falei: “Vamos, ué.” E eu era jovem ainda nessa época. Eu achei que aquele serviço estava bom demais e eu comecei assobiando. Esse foi um trecho que me marcou muito na vida, até hoje, sabe? Ele aprumando os postes para mim, olhando... Punha um companheiro dentro da caminhonete, levava lá para o outro poste e os outros dois ficava atrás, socando, e eu alinhando. Quanto aqueles dois chegavam com a caminhonete, com ele, eu e mais aqueles dois já levantava um poste de sete metros. Eu já ia para frente, aqueles dois ficavam lá segurando o poste para alinhar e pôr no lugar para os outros que chegavam atrás irem jogando terra. E aquilo, ele olhando. Quando foi na volta do... Mais ou menos ali para às 14 horas, ele: “Ué Joaquim, você parou de assobiar? Por quê? Estava tão bom você assobiando.” Esse foi um dia marcante na minha vida, que eu me lembro, e essa vez nós levantamos 70 postes de trilho de sete metros. Tem a quantidade até hoje de setenta postes. Enquanto nós não completamos os 70 postes, nós não paramos. Já era 18 e 15, 18 e 20 mais ou menos que nós, no dia, tínhamos levantado aquele tanto. Eu estava com 52 postes, e ele: “Não, vamos levantar... Nós vamos [levantar] mais?” Eu falei: “Vamos.” “Tem quantos postes ‘encruzetados’?” Eu falei para ele, falei: “Olha, tem mais 19 postes ‘encruzetados’.” “Nós então vamos levantar esse?” Olhava no relógio: “É, está meio passado da hora, mas 19 postes dá para a gente levantar?” Eu falei: “Dá.” Ainda animadão, ainda; tinha parado de assoviar, mas estava animado. Levantamos mais 19 postes. Isso era das 17 e 15, 17 e 20, mais ou menos; nós pegamos esses 19 postes para levantar e levantamos. Quando levantamos, fomos embora para a cidade. “Vamos lá para o restaurante. Vocês vão tomar banho e vamos para o restaurante, vamos jantar.” Aí, fomos para lá, fomos jantar.

 

P/1 - Com ele?

 

R - Com ele. Então esse foi muito marcante na minha vida. E mais uma coisa que é muito marcante quanto era em uma festa, ele torcia muito pela gente, sabe? Então, ele quanto estava em uma festa da Telefônica, “eu quero o Joaquim Pires aqui na festa. Joaquim, você é um dos meus primeiros convidados. Você vai me ajudar a preparar o churrasco.” Nessas horas de festa ele estava sempre em contato... Ele e dona Maria, quanto a festa era lá na granja. A gente estava sempre em contato com ele; “Joaquim, leva a carne para o Fulano. Joaquim, como é que está lá nas mesas?” “Está tudo bom, seu Alexandrino.” “E cervejas, tem? Refrigerante tem?” Eu falei: “Tem.” Então esses eram dias muito marcantes na vida da gente, tanto no trabalho como nas festinha dele, ele deixava a vida muito marcante.

 

P/1 - E o doutor Luiz, seu Joaquim, você teve contato com ele?

 

R - Tive bastante, mas não era tanto igual ao seu Alexandrino. Com o doutor Luiz eu só lembro de uma vez que ele esteve lá na... Em Santa Vitória, ele esteve lá em Santa Vitória. Ele pousou lá na fazenda e a gente dormia em uma casinha para baixo. Ele amanheceu o dia lá, a caminhonete estava encravando, até que eu saí lá da casa lá de baixo com a caminhonete patinando demais e que eu cheguei a cair em cima. Já era umas sete e meia, mais ou menos, e o nosso horário de pegar era seis horas da manhã. Ele ainda procurou por mim: “Joaquim, o que foi que você se demorou?” Falei: “Ah, doutor Luiz, a caminhonete está encravando lá na saída, porque tinha uns buracos lá e estava patinando.” Porque era na beira do rio Tijuco. Aí, até que saí, caí em cima, ele procurou para mim: “Você demorou, Joaquim.” Aí eu procurei para ele: “Uai, mas você veio dormir aqui, doutor Luiz?” “É, eu cheguei aqui ontem era umas 22 e 30, 23 horas.” Ele chegou e ficou lá na fazenda. Depois, no outro dia, cedo, que a gente foi ter contato, mas a gente tinha muito contato com o doutor Luiz. Doutor Luiz, dona Ofélia, Zé Leonardo – que é cunhado do doutor Luiz também. É um que enfrentou muito batente lá, sabe? Eu não tenho nada a clamar da família, só tenho muita vantagem que eu e seu Alexandrino tomávamos água. Eu bebia um pouco de água, deixava um pouco para mim. Outra hora ele mandava eu beber e ele bebia a minha sobra de água. Eu bebia a sobra dele e ele bebia a minha, nem parecia que era dono. De conforto igual ele era, né? Ele, uma vez... Levava, às vez, um lanche para ele, ele repartia com a gente. Aquilo é uma coisa que sempre a gente lembrava. Quando ele chegava perto da gente, ele cumprimentava: “Ô, como é que vai você? Como é que vai você? Como é que vai aquele outro?” E hoje, a gente vê, às vezes um chefe que nem no... Não serve para substituir metade do que eles eram. Que chega, passa perto da gente com o corpo, que a gente não é nada. Eu acho que a gente, a vida humana, é uma coisa só.

 

P/1 – É, está certo.

 

R - Eu admiro a família Garcia porque, ao menos comigo, eles foram, toda vida, muito bacana. Todos eles muito atenciosos com a gente.

 

P/1 - Certo. Seu Joaquim, quando foi chegando perto do tempo da aposentadoria, como é que foi a... Depois de tantos anos ali, como é que o senhor resolveu, internamente, intimamente, essa decisão?

 

R - Veio o tempo, né? Porque o governo veio praticando essas leis novas, cortando as aposentadorias, cortando aqueles direitos que a gente tinha adquirido. Tinha de querer, então a gente se sente, às vezes, acanhado de falar que vai ficar mais na firma, e ele, depois, mais adiante, muda a lei e você não tem nem direito de aposentar. Então eu fui para o (leio?), assinei bonito para aposentar, e eu queria arranjar um advogado. Depois achei outra pessoa que me falou que não precisava arranjar advogado, porque ele... A gente mesmo resolvia no INSS [Instituto Nacional do Seguro Social], aí eu marchei para lá. Cheguei lá um dia, entrei três horas da manhã, já tinha dois dormindo dentro de um carro lá, estava na fila. Aí quiseram criar causo comigo porque esperar tinha que ser na porta do INSS, e eu... Eles não esperaram, estavam dormindo dentro do carro, e eu fui para a porta do INSS. Ele foi, falou: “Quem está na frente somos nós, nós dois.” Eu falei: “Se vocês estavam na frente... Eu não posso declarar que vocês estavam na minha frente, porque eu vi vocês dormindo no carro, e eu não sei o que vocês... Não sei se vocês estavam bêbados para dormir, ou se vocês estavam cansados, ou se vocês estão aí só passando umas horas. Então não posso refletir nada de vocês, o primeiro sou eu.” Eles foram, começaram a criar caso. Eu falei: “Não, por causa disso eu não vou brigar com vocês e nem criar causo, porque eu quero amizade com vocês. Vocês podem ir na frente, se vocês estava na frente, vocês pode ir, porque um ou dois a mais que eu ou dois a menos que eu, para mim não faz diferença. Aí, continuei, fiz a minha contagem de tempo e requeri o tempo de aposentadoria. Chegou para mim dentro de 37 dias, chegou para mim a ordem de pagamento e eu passei a receber. Aí já descansei um pouco de tempo, mais ou menos uns seis meses, e passei a fazer servicinhos para os outros. Para aqui, para ali, para poder entreter, encher o tempo. Aparece coisa que aquele trabalho que a gente tinha... Aparecia uma casa para pintar, eu fazia. Aparecia um cano de água para consertar, eu consertava. Aparecia uma energia para eu arrumar, eu arrumava. Uma tomada está ruim, eu trocava. Uma torneira estava dando vazamento, eu ia lá para trocar ela: “vou pôr mais isolante nela, aquela veda rosca para poder firmar e não vazar.” Assim levei a minha vida até agora, e sempre nesses servicinhos para aqui, para ali, e reservando sempre dois dias, que é a segunda e quinta.

 

P/1 - Para quê?

 

R - Para forró (risos).

 

P/1 - Para forró?

 

R - _______ (o modão?).

 

P/1 - O senhor é chegado em um forró?

 

R - Eu gosto. Olha, eu vim aprender a dançar depois de 65 anos. Aprender a dançar xote, dançar vanerão, andar bolero. Isso a gente vem aprendendo depois de velho, agora, ler... Vem outra parte que está sendo mais interessante para mim, né? Depois de 68 anos ir para a escola para aprender a ler – que eu já tinha que ter visto isso há quatro, cinco anos, ou mais, mas eu não cheguei a essa conclusão, que eu tinha que ter visto isso atrás, esses tempos atrás.

 

P/1 - Eu queria insistir um pouco mais, primeiro, nessa sua amizade com o seu Alexandrino, essa relação que tinha. Como é que foi a falta dele?

 

R - Para mim, ele era muito severo comigo. Ele era muito severo comigo como [com] os outros. Mas, antes dele ter essa falta, falava para mim: “Ô Joaquim, o dia que eu me afastar da companhia...” – Isso ele falou para mim bem uns oito a dez anos antes de se afastar da companhia. – “Joaquim, você observa, se nós estivermos vivos daqui até lá, ou se você for vivo mais do que eu, você vai ver que baderna vai virar a companhia. A companhia não vai funcionar igual está na minha administração, porque o Luizinho é formado e eu passo ele debaixo do braço, seu Joaquim.” De fato, passava mesmo. Ele falava para mim: “Você vai observar que a companhia vai mudar. A hora que eu me afastar a companhia vai virar uma baderna e a administração vai ser muito diferente. Ela pode não acabar, mas a administração vai ser muito diferente, muito mais esquisita que a minha.” Então viu que caiu na realidade, porque quando ele se afastou... Antes de acabar de se afastar, o Mário Grossi chegou, já passou... Chegou podando todo mundo, o que serve, o que não serve. O que serve vai para lá, o que não serve vai embora. O outro que serve vai mais para ali, no lugar de... Fulano vai para o lugar do Beltrano, e assim foi indo, mudou tudo. Com isso, a gente, depois que ele ficou lá na granja afastado – porque sofreu os problemas dele lá –, a gente foi lá visitar ele umas duas vezes. Ele não conversava com ninguém, mas eu cheguei lá, a dona Maria procurou para ele: “Alexandrino, se você conhecer o Joaquim, você aperta a mão dele. Se você apertar, ele sabe que você está entendendo o que eu estou falando.” Ele pegava e apertava. Não era muito não, mas apertava. E isso foi umas duas vez que eu fui lá antes dele falecer. E eu fui lá no dia que ele faleceu, voltei lá para ver ele... Para mim foi assustador, porque eu vi que a falta dele... Mesmo eu, como aposentado, ainda sinto falta dele até hoje, porque eu acho que ele era um homem que tinha que estar junto com a gente ainda, pelo menos até hoje, certo? Ele foi um homem que me deu as escolas do mundo, ele me ensinou muito a viver. Ele falava assim... Ele me saltava qualquer uma cidadezinha dessa aqui perto: “Joaquim, você vai falar ‘isso, isso’, com o prefeito.” “Joaquim, você vai resolver isso aí.” Eu tinha que resolver. “Joaquim, se você ganhar a gasolina com o prefeito, eu te dou o caminhão para você ir trabalhar.” Mas isso eu já estava cansado, porque eu ganhava gasolina do prefeito. Eu chegava como foi lá no Piauçú, chegava no prefeito: “Seu Zé, o seu Alexandrino vai nos dar um caminhão, mas o senhor tem que dar a gasolina.” E o caminhão da prefeitura lá de Piauçú era velho, mais dava defeito do que fazia o serviço. O seu Alexandrino vai e nos dá o caminhão, mas o senhor tem que dar a gasolina e o óleo, se caso precisar. Para trocar o óleo, essas coisas. Não pode... "Pode ir lá buscar o caminhão, pode falar com ele e buscar o caminhão que eu dou a gasolina." Então o que passou: as prefeituras davam a gasolina para a gente e a gente ia trabalhando com o caminhão da companhia. A gente viu muito o lado da firma, ele pedia para a gente segurar as coisas para ele, fazer... Puxar mais, explicar para o povo, para os companheiros como é que se deve fazer, que a gente tinha que ser mais alerto, ter mais contato com os outros, tanto assim que hoje, o que ele me ensinou... Hoje eu não sei passar perto de uma pessoa... Porque, às vezes, que aquela pessoa tire até o rosto para o outro lado, mas sempre ainda tem aquele contato de gesto de cumprimentar. Isso foi uma grande coisa que ele ensinou à gente, certo?

 

P/1 - Aí, quando o senhor deixou... Que dia o senhor deixou a companhia? Que ano o senhor deixou, que mês? O senhor tem ideia?

 

R - Deixei agora, em 90... 2000 está com quatro anos: 1996.

 

P/1 - 1996.

 

R - Vai para quatro anos, 1996 eu deixei. Mês de março, mês de março eu deixei...

 

P/1 - Vai para cinco anos.

 

R - Vai para cinco anos.

 

P/1 - O senhor, quando se aposentou, estava fazendo exatamente o que?

 

R - Fazia ampliamento de cabo. Quanto eu aposentei, carregando companheiro para aqui, para ali, fazendo ampliamento de cabo. Isso era o serviço da gente.

 

P/1 - Nessa sua fase de aposentado eu queria duas coisas; como é que o senhor aprendeu a dançar? E eu queria também que o senhor contasse... Primeiro, como é que o senhor aprendeu a dançar? Como é que foi essa história?

 

R - É, veio uma parte de esforço, porque da minha família quase todos são tocadores, quase todos... Assim, parte masculina gostava demais de tocar, do lado do meu pai. Então a gente tinha aquelas gravações todas. Sempre que toca a gente tinha aquela... Na gente dançar... Parece qualquer (curtinho?), tipo daquele toque na cabeça, e a gente via os outros dançarem, achava, como era o marcado, como deveria ser. A gente escolhia aquelas damas que a gente via que sabia marcar melhor pela (encurtição?) que a gente já tinha no toque, a gente via o jeito que elas marcavam mais a dança e a gente passava a chamar elas na vez para dançar. Dançava com ela e começava a acompanhar o passo, até que ela ensinava a gente. Depois a gente praticou e já passou... Como se diz, já escolher aquelas pessoas que sabem dançar mais. A pessoa que não tem aquela grande prática para dançar ou que não tem aquela esperteza para dançar, a gente já se sente acanhado para chamar porque ele não sabe dançar devagar e a dança é só com ele. Por exemplo, para mim a melhor dança e que não sente canseira é o vanerão, e é o que eu mais gosto.

 

P/1 - Vaneirão que chama?

 

R - É, vanerão. É dança corrida, e quem gosta de dançar bem marcadinho... Eu acho bom. 

 

P/1 - Onde são os bailes que o senhor vai?

 

R - Na segunda Fazendão e na quinta Girassol. Olha, tirando os dia que eu estou de folga, que eu não tenho compromisso nenhum... Na terça-feira eu vou lá no Chico Xavier, lá no Jardim Brasília. Dia de quarta-feira eu vou no Brasileirinho quando dá certo e assim, de vez em quando, a gente encasqueta para um canto. Tem lugar demais para escolher. "Forró depende de querer, né? Parceira?" "Vamos cantar? Vamos". (risos)

 

P/1 - E a dona Nancy, tudo bem?

 

R - Ela acompanhando também. Ela é meu freio de mão de lado, que se soltar, você já viu, né? Se soltar o velho, ele quer virar criança, quer pular daqui para ali (risos).

 

P/1 - Seu Joaquim, como é que está sendo essa experiência de ter o contato com as letras, aprender a ler? Como é que...

 

R - A gente que não tinha... Tem aquele contato por letra... Pelo tanto que a gente viajou, achava até que aqui era fácil, mas enfim, não é não. A gente, pela idade que está, ter contato com as letra está sendo muito cansativo. E, principalmente, para a gente que é acostumado a correr para aqui, para ali, pula aqui, pula ali. Não sabe falar que fica dois, três minutos sentado, ou meia hora, ou uma hora sentado, não. Eu, por exemplo, se eu ficar em roda da televisão, eu durmo, porque me sinto... Parece que os nervos vão relaxando, que não... Fica quieto, não sente reação nos nervos, nem nada. Para mim, me dá sono, não gosto de assistir. Não gosto de assistir novela, nem jornal, é muito difícil eu assistir o jornal completo, porque sempre que eu posso assistir um pouquinho que eu não cochilo é a segunda edição. Mas o outro eu chego quase... Comparando uma palavra meio boba, mas eu chego quase a babar (risos).

 

P/1 - Quase o que?

 

R - Babar (risos).

 

P/1 - Babar. Está certo. Seu Joaquim, e o seu dia hoje, como é que é o seu cotidiano, o seu esquema de vida hoje?

 

R - O meu esquema de vida, graças a Deus, eu não esperava que seria tão bom igual está sendo, porque a gente, enfrentado essa luta com cansaço... Mas esse estudo leva tão bem... Bem assim, um cansaço que não é uma coisa que você guarda da cabeça para aqui, para ali. Porque a gente podia ler uma página de um livro toda... Apesar de que está com quatro dias hoje que eu vou na aula. A gente, uma vez por dia, lê uma página do livro. A gente lê só duas, três histórias, já esquece para trás, então está sendo cansativo. A gente tem que ficar embaixo, lendo. Volta lá, já vem... Não chegou na metade já tem que voltar atrás para recordar o que é que está lendo. Então está sendo bastante cansativo, mas na vida de casa e vida de aposentado, graças a Deus, vai bem. Eu e mais a patroa, graças a Deus, nós nos entendemos bem. A gente trata um ao outro muito bem, com carinho e...

 

P/1 - Está bom. O senhor tem algum sonho, assim, seu Joaquim? Coisa que o senhor ainda quer fazer, que você está...

 

R - Não, o sonho que eu tenho... Que eu tinha: eu sentia muita preocupação em acabar o meu sobradinho. Então, antes de eu passar para dentro dele, eu tinha desespero que eu perdia noite de sonho, porque eu via... Eu entrava lá dentro para fazer limpeza nele, ou para aproveitar um material que estava desperdiçando... Por exemplo, eu fiz um sobradinho com nove cômodos; são três quartos lá em cima e três banheiros; duas suítes e um banheiro social; uma sala grande, uma sacadinha em cima. Embaixo: cozinha, lavanderia, uma copa, uma sala e uma garagem para dois carros. Eu, fazendo esse sobradinho, se eu desperdicei um metro de material foi o máximo. Talvez nem isso. Não deixava o pedreiro quebrar tijolo, um servente deixar tijolo cair. Pedia mesmo, encarecidamente, para não deixar tijolo cair. E isso era eu de cima. Um cimento, uma massa de cimento que estava lá em roda: “Vamos aproveitar ela, coar ela, vamos assentar aquele tijolo, ou vamos rebocar aquela parede com aquela massa.” "Dá para pegar?" "Dá." "Então vamos aproveitar aquela massa para assentar, para rebocar a parede." Esse era o meu tormento antes de eu mudar para a casa. Depois que estava a cerâmica toda assentada, parede rebocada, cerâmica assentada, veio o meu tormento para montar as pias, porque são quatro banheiros, cada um tem uma pia. E a gente ficava com aquele tormento meio forte. Para não ficar devendo, ia montar, querer aquilo. Igual agora, eu, sábado passado, fui lá na marmoraria requerer as pedras, comprei as pedras para a escada, 860 reais. Então dei 200 reais de entrada e mais o restante com três meses. Então, quando vencer os três meses, eu acabo de pagar as pedras, aí a gente vai partir para o muro da frente da casa.

 

P/1 - Está certo.

 

R - E a gente está dormindo lá em cima, está se sentindo tranquilo agora. Depois que a gente acabou a casa é que deu para mudar para frente. A gente está dormindo lá em cima, abre a janela vem aquele ar fresquinho. Está dormindo lá em cima, sossegado, graças a Deus. Não tem barulho, não tem atormentação de nada.

 

P/1 - Está certo.

 

R – É, foi uma vida meio cansativa até a gente chegar lá, passar lá para cima, mas está valendo.

 

P/1 - Está valendo. Seu Joaquim, com toda essa vivência que o senhor teve na CTBC, como é que o senhor vê... Para aonde é que ela vai? Como é que o senhor vê o futuro dessa empresa?

 

R - Olha, eu vejo o futuro dela muito dinâmico, quer dizer, aplica pelo... Pela fazenda, pela indústria. Pela indústria, por um... Uma roça de primeira. Aliás, ‘de primeira’ a gente falava na roça, hoje se fala ‘lavoura’. Eles puxam muito para isso, pela lavoura. Tem a fábrica de óleo lá em cima, que para eles está sendo uma grande indústria e para a gente também. Que acha ela muito boa... Inclusive o meu filho é torneiro lá. Eu acho muito bacana.

 

P/1 - Certo. Seu Joaquim, se o senhor estivesse na frente de uma pessoa que fosse entrar hoje para trabalhar na CTBC, o que é que o senhor poderia dizer para essa pessoa?

 

R - Que ela é uma boa firma. Depende deles (cogitar?) e ter inteligência para ele continuar lá, certo?

 

P/1 - Está bem, seu Joaquim, eu acho que a gente está satisfeito. Tem alguma coisa que o senhor gostaria de ter dito e que não disse?

 

R - Bom, não. Eu gostaria de ver... Mas uma satisfação que eu tenho é que os meus dois filhos trabalham no grupo. E eu me sinto muito satisfeito, muito tranquilo deles trabalharem no grupo.

 

P/1 - Eles estão no grupo?

 

R - Estão no grupo, graças a Deus.

 

P/1 - Então, aonde é que eles estão?

 

R - Graças a Deus e ao papaizinho, doutor Luiz, que nos ajuda.

 

P/1 - Aonde é que eles estão?

 

R - O menino está lá na Abc Inco, e a menina está na Abc Propaganda.

 

P/1 - Ah, está certo.

 

R - Eu me orgulho muito disso, graças a Deus, deles dois continuarem no grupo, eu aposentar e eles dois continuarem no grupo. Me sinto muito satisfeito e muito tranquilo com isso, ver os dois lugares que eles estão.

 

P/1 - Seu Joaquim, o que é que o senhor achou de ter dado esse depoimento para nós?

 

R - Olha, eu achei muito bacana, e acho que deve ter mais encontros desses. Igual, a gente tem muito mais colegas por aí que, às vezes, pode ter outra semelhança, quase igual essa minha, que, às vezes, não seja _______ a essa, mas quase igual. Porque a gente tem muito colega por aí com quem eu acho que não foi feita entrevista.

 

P/1 - Ah sim, nós vamos atrás deles. Mas e o senhor?

 

R - Vai ser difícil vocês encontrarem todos. Muitos vão ficar sem vir...

 

P/1 - Mas e o senhor, como é que o senhor se sentiu falando assim, lembrando dessas coisas?

 

R - Bem, graças a Deus, eu me senti muito bem, me sinto muito satisfeito de estar dando essa entrevista com vocês e saber que a gente está, praticamente, firmado, com essa representação. Acho que é uma coisa que deve ser dita. E para mais alguns colegas que talvez ainda não foram... Não deram representação. Vai se ver, vai achar que foi uma grande vitória que a gente teve.

 

P/1 - De verdade.

 

R - Né?

 

P/1 - Muito obrigado.

 

R - E eu agradeço muito a excelentíssima ali que nos esforçou bastante, faltou amarrar a gente com a corda e trazer até aqui (risos). Eu agradeço a ela.

 

P/1 - Muito obrigado, seu Joaquim.

 

R - Não há de que.

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