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História

Com a responsabilidade da tradição

História de: Solidonio Narcizo dos Reis Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/08/2016

Sinopse

Solidonio Narcizo dos Reis Neto conta de sua grande família, do lado do pai, são 33 irmãos. Narcizo narra também como foi a infância em Ilhabela, quais eram suas brincadeiras e passa-tempos favoritos. Por conta de uma promessa de sua mãe, Narcizo participa da congada há 55 anos e ele conta como é a festa, quais são as tradições e como é feita a concertada, uma bebida típica, bebida apenas depois da subida do mastro em homenagem ao São Benedito. Bebida essa que é passada de geração em geração, e que Narcizo vai ensinar seu filho na próxima edição da festa. Além dessa festa, Narcizo conta como é a Folia de Reis e o samba – como tocador de surdo. Solidonio Narcizo narra também seus trabalhos no mar e em terra, sendo esse último como coveiro da cidade. 

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História completa

Meu nome é Solidonio Narcizo dos Reis Neto, nascido 24 de novembro de 1956, na cidade de Ilhabela (SP). A minha casa de infância era nesse setor aqui, era feita de pau a pique e o piso era de madeira e o telhado eram aquelas telhas antigas, que dizem que faziam na coxa, né, a telha. Era… O primeiro morador aqui nesse setor, aqui nesse lugar, aqui fomos nós. O primeiro morador que teve aqui foi o meu pai que naquela época era funcionário público da prefeitura. O brinquedo da gente era subir no morro aí para escorregar no sapê, era a brincadeira que a gente tinha aqui e, à noite, brincar, né, de pique e durante o dia, a gente estudava, das oito ao meio-dia no grupo escolar. O resto, antigamente, a luz aqui às dez horas, apagava e a gente já tava dormindo, porque naquela época, não tinha televisão, não tinha nada. Fui crescendo aqui e aqui fiquei, nunca sai da Ilha, já viajei muito, mas pra morar fora daqui… Vou fazer 60 anos agora em novembro, nunca sai daqui. Casei aqui, tive três filhos homens e uma menina que faleceu. São todos casados e eu me separei com 20 anos de casado, separei e vivo hoje com minha senhora que mora aqui comigo, ela é da Bahia, lá de Vitoria da Conquista e estamos vivendo até hoje. Eu trabalho na prefeitura, comecei como gari, passei para o cemitério.

Restante, eu toco num grupo de samba que tem aqui na Ilha, né, comecei a tocar no Recanto do Samba junto com os meus irmãos e lá, eu aprendi e, hoje em dia, eu participo de um grupo, Raízes da Ilha que é aqui da Ilha. E a gente faz samba por aí, tudo. E fim de ano, a gente faz a Folia de Reis, que é tradicional aqui da Ilha. A gente começa em novembro, vai até dia seis de janeiro, cantando nas casas, à noite toda, começa a meia-noite, vai até às seis horas da manhã e participo da Congada, que foi uma promessa que a minha mãe fez. Eu tive uma doença quando eu era pequeno e minha mãe fez uma promessa pra São Benedito e se eu ficasse bom, eu participava da Congada da Ilhabela, que é a Festa de São Benedito, todo mês de maio, segundo domingo de maio. Eu danço na Congada desde os cinco anos, 55 anos na Congada. Tem aqui a tal da levantação do mastro de São Benedito que cai numa sexta-feira e, na época do meu pai, ele fazia uma bebida chamada conscertada, uma bebida típica e quando o meu pai faleceu, minha mãe fazia e eu sempre presente, assistindo, ia aprendendo, inclusive, até hoje, eu ainda faço a concertada da Festa de São Benedito, a levantação do mastro. Antigamente, a gente fazia era dois, três garrafões de cinco litros, hoje em dia, eu faço a base de 120 litros e ainda não dá, é muita gente, é uma bebida típica, gostosa, né? E sobre a Barraca [do Samba], a barraca tem uns 70 anos, 70 e poucos anos. Antigamente, era um quadrado de madeira, madeirite, coberta com brasilit, tinha um balcãozinho, uma geladeirazinha, na época, só vendia refrigerante e cachaça, né, e vendia farinha da terra feita aqui na Ilha, vendia peixe seco, fumo, na época, meu pai vendia fumo de rolo. Uma das primeiras barracas na beira da praia foi essa aqui, que chama hoje Recanto do Samba. Teve três donos, o primeiro dono se chama Francisco dos Reis, depois passou para um senhor que tinha um restaurante aqui, chama João Parateano e o meu pai ganhou essa barraca num jogo de bocha. Eles fizeram uma aposta e antigamente, quando era apostado, tinha que cumprir, né? Meu pai ganhou essa barraca num jogo de bocha e até hoje tá com a gente.

A gente que tá ficando velho tem que passar para os mais novos pra continuar, né, nunca acabar, porque isso aí é uma tradição, coisa aqui da Ilha, que vem dos antigos, então, a gente não pode deixar acabar, por isso que a gente promete passar para um filho. Uma responsabilidade que ele vai ter e não deixar de fazer, que eu não vou deixar de fazer, só a hora que eu não tiver mais aqui, aí enquanto eu for vivo, vou continuar fazendo e chamando ele para ele vir aprendendo e continuar o que a gente aprendeu com os mais velhos, continuar até ele depois passar para outro, para o filho dele ou irmão.

É uma tradição, né? Que veio dos antigos, meu pai aprendeu a fazer, foi passando de pai pra mãe e agora, ultimamente, tá comigo.

Dá um pouquinho de trabalho, tem que ter os temperos certinho, a dose certa, né, a gente faz numa panela, um panelão, põe todos os preparos ali, ferve, depois de fervida, deixa ela esfriar, aí põe a cachaça, aí ela fica três dias para os temperos dela pegarem o gosto, depois de três dias, ela é coada, a gente passa nos garrafões e no dia da festa, a gente serve. Tem que saber fazer, que se der alguma coisa errada, não dá errado, porque a preparação que vai: cravo, canela, açúcar queimado, né, aquela calda, folha de laranja cravo e folha de laranja da china. Aí ferve tudo isso aqui, o cravo, a gente bate, deixa ele em pozinho, a canela também, mistura tudo, põe no fogo, aferventa, deixa de molho três dias, depois de três dias é coada e um mês depois, não dá um mês, 20, 30 dias, serve no dia da levantação do mastro. Agora, o meu filho mais novo que participa da Congada mandou passar a receita, ensinar, o ano que vem agora, quando eu for fazer, vou chamar ele pra ele aprender, eu já tô com 60 anos, eu já tô meio… Aí, passo a minha parte pra ele. Ele vai fazendo pra não acabar, né? Porque se uma hora uma pessoa que sabe fazer não ensina ninguém, aí acaba. Isso é uma tradição, né? É feita há um bocado de anos.

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