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História

Com a palha, Geronisse tece seu amanhã

História de: Geronisse Luciano dos Santos
Autor:
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Geri fala da vida muito difícil na roça e do seu desenvolvimento como artesã trabalhando com a palha, material e trabalho que ela mesma passou a valorizar como uma tradição cultural, vivendo numa área reconhecida hoje como quilombo.

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História completa

Meu nome, Geronisse Luciano dos Santos. Nasci na Fazenda Urubu, que hoje é Povoado Vila Nova, Biritinga, Bahia, em trinta de março de 1966.   

O meu pai era lavrador. Minha mãe era lavradora, também era fateira, ela tratava fato de boi, saía daqui de madrugada, ia pra Pataíba tratar fato de boi pra poder sobreviver, porque ela não pegava o dinheiro, mas pegava o fato pra trazer pra gente comer, que não tinha muita comida. Minha mãe era uma mulher muito batalhadora, trabalhava muito! Ela pegava pinha, ia vender com o balaio na cabeça, ela trabalhava pra dar comida à gente.

Trabalhamos muito! A gente trabalhava na mandioca, raspando mandioca, arrancando, plantando, feijão também plantava, era muito trabalho, na molhada de fumo. Ia pra roça de manhã, saía 11 horas, correndo pra poder tomar banho pra ir pra escola de tarde, e o sol terrível, a areia, misericórdia, que dava no joelho. Eu saí pra trabalhar com 14 anos numa firma chamada Celulosa. Eu cortava sisal, passei oito meses lá no corte de sisal. Ah, foi horrível, tinha que ter a faca muito afiada, muito amolada, às vezes furava, era muito estrepe dos espinhos do sisal. Depois eu fui pra Salvador.

A gente trabalhava e também brincava. Os nossos pais deixavam a gente brincar e às vezes, quando a gente não queria trabalhar no pesado, eles deixavam brincar, tempo de lua bonita a gente brincava bastante, de cantar roda. Então a gente aproveitou o máximo, não aproveitou o máximo, porque tinha que sair pra trabalhar. Mas até com 19 anos eu brincava com boneca e até hoje eu gosto de boneca.

Achava tão legal [a escola], a gente chorava quando do encerramento, que ia fechar um mês de férias, não ia ter aquele estudo, tabuada, que era muito bom, ao mesmo tempo era muito ruim porque tomava uma tora, mas era legal. Eu achava que era um jeito da gente se distrair, contar, fazendo menos na roça. A roça era um trabalho terrível, e na escola não, era pra estudar, pra brincar ao mesmo tempo, tinha o recreio, que era muito bom. Foi importante isso, o pouco que eu aproveitei foi muito importante.

Quando eu era pequena a minha mãe trabalhava com trança e ela me ensinou. Eu pegava trança, tecia, quando chegava no meio ponto, eu jogava no mato, jogava no lixo. Era trabalho, porque as mulheres teciam pra dar comida aos filhos, comprar roupa. Achava aquilo tão ruim, ir pro mato arrancar, depois botar pra secar, lascar e tecer, eu desisti.

Eu comecei a fazer esteira de palha, não era nem trança, porque eu aprendi a fazer esteira, meia torta, mas aprendi. Cortei e fiz as bolsas, a [assistente social] gostou e levou. Depois ela voltou: “Ó, Geri, não desista, que isso dá dinheiro”, aí comecei, ela veio, ajudou a gente. Ela mesma [vendia], ia eu atrás morrendo de vergonha (risos). Ela vendia bastante, depois, quando a gente tava bem já sabido, mais ou menos, ela: “Agora, aqui está o gué, agora vamos pescar”, e aí? As mulheres começaram a fazer e ficou lá num canto.

Quando tinha uma feira, a gente ia vender. Depois o Arco Sertão deu um apoio pra gente, deu bastante curso. Eu ia pra lá, tomava curso, vinha gente pra cá ensinar. Mas só que não saía pra vender, tinha vergonha, até hoje eu tenho preconceito (risos). Quando a gente ia pra feira, não vendia porque tem que ter jogo de cintura pra vender, conversar bonito e falar bastante. Só que eu não saía de casa, eu tinha medo de sair de casa, misericórdia! Quando eu comecei sair de casa, eu fui pra feira de Salvador, as bolsas, quando eu levei, já estavam dessa cor aqui, ó! Eu dizia: “Hoje eu vou vender tudo”. Aí comecei a botar, as mulher chegava nas bolsas: “Ai, que coisa mais linda”, as bolsas tudo amarela já! “Coisa mais linda, natural da roça, isso aí que é coisa boa”. Comecei a vender, comecei a vender, quando começou chegar no fim da feira, fiz uma queima: “Não vou levar nem uma peça”, comecei a queimar as peças tudo. Oxe, vendi tudo, não voltei com nenhuma! Eles: “Nice, como você vendeu bastante”, eu vendi porque eu tava olhando quem vendia bem, eu comecei a fazer.

Tô aqui nessa, lutando, mas da palha eu não desisto! É através da palha que eu estou aqui hoje, então não desisto. Quando eu comecei, e hoje, quando eu olho as peças que eu fazia antes: “Não é minha, eu não conheço essa peça”. Ó pra hoje, como eu evolui, através do Arco Sertão também. A gente tem que ter amor pra trabalhar, porque se você não tiver amor, fazer aquelas coisas, você não consegue fazer. Primeiro você tem que deixar tudo e trabalhar, confiar no seu trabalho e fazer cada vez melhor, porque você trabalhando vem coisas novas na sua mente. A sua mente é uma caixinha de surpresa, mais você trabalha, mais ela vai desenvolvendo, né?

Foi muita luta, porque, assim, se não tivesse o apoio da família, não ia conseguir, porque às vezes ele deixava a roça e ia atrás de ver, procurar as pessoas mais velhas pra poder encaminhar, pra falar a verdade. E não foi uma vez só, foram vários dias, várias vezes, deixava tudo pra ir. Então foi muito importante, porque através disso também hoje a vila é outra, através desse título [de comunidade quilombola] que veio pra gente.

Não, não ouvia [histórias dos seus pais, seus familiares sobre os escravos], porque antigamente a nossa vida era quase de escravo, era escravidão, porque a gente trabalhava tanto e às vezes tinha comida pouca, ou não tinha. Às vezes quando a gente chegava em casa tinha que ir pro rio pegar peixe, tinha um tipo cascudo, que chamava caris, que ficava no pau, às vezes a gente ia correndo lá e pegava na mão mesmo, e vinha correndo pra casa pra comer, pra poder ir pra escola, era uma coisa que amargava.

Não foi uma vez só, foram vários dias, várias vezes, [meu esposo] deixava tudo pra ir, porque ele era presidente da associação e viajava muito e às vezes tava na roça. Aí vinha chamado pra ele, ele tinha que sair pra poder ir, se a mulher não apoiasse, não ia em lugar nenhum, tinha que ter apoio, ou com fome ou sem comer, tinha que ir, ou sem dinheiro, com dinheiro, tinha que ir mesmo, porque o conhecimento vale mais do que dinheiro, porque às vezes você tem dinheiro, mas não tem conhecimento, aí vai pra onde? Não vai pra lugar nenhum.

O certo é passar, porque isso é uma cultura que não pode acabar. Não pode e tem que passar. Quando eu morrer e as pessoas que fazem morrerem, vai pra onde? Acaba a cultura, que não pode acabar.

A gente vai pro mato pra tirar, um trabalho da desgrama pra puxar aquele olho de lá de dentro, depois vem um peso da desgrama, ladeira terrível, vai, chega em casa, bota no sol pra murchar, depois lasca, depois testa, depois estala, depois pra fazer a bolsa e vai um trabalho terrível. E assim, que às vezes eu faço esteira, que eu não gosto de fazer esteira, porque é muito pouco, quando eu boto pra vender, boto por 20, eles reclamam: “Ah, mas fulano tá vendendo de cinco a dele”, que são, porque nunca tomou um curso, se tomasse um curso, não vendia, preferia parar, ou valorizar, fazer melhor e vender pelo preço adequado. Porque não vale a pena vender uma esteira por 20 reais, não vale porque dá muito trabalho pra fazer aquele rolo, pra depois vender, é terrível, mas só que as pessoas não têm conhecimento, que isso aí é valorizado, só que não conhece, não conhece o valor que tem a palha.

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