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História

Com a bênção de Milton

História de: Geraldo Tadeu Pereira Franca (Tadeu Franco)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/07/2005

Sinopse

Tadeu Franco se envolveu com a música ainda criança, cantando em festas de família. Na juventude, veio para Belo Horizonte trabalhar, mas aproveitou para tocar em bares à noite. Assim conheceu Milton Nascimento e acabou iniciando sua carreira profissional.     

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História completa

 

P - Tadeu, boa tarde. Obrigada por ter vindo. Eu queria que você começasse me dizendo seu nome completo.

 

R - Geraldo Tadeu Pereira Franca.

 

P - Data e local de nascimento?

 

R - Nasci em Itaobim, em dezenove de agosto de 1957.

 

P - Tadeu, conta pra gente como a música apareceu na sua vida? De onde veio?

 

R - Desde que aprendi a falar eu comecei a cantar, desde que eu me entendo por gente. Eu fui criado em Teófilo Otoni e as pessoas vizinhas da minha rua, toda vez que tinha aniversário, depois dos parabéns, me colocavam para cantar. Eu subia na mesa e fazia um número; eu tinha um repertório de umas três músicas, então eu sempre cantava. Fui me convencendo disso, sempre ouvindo e rádio e conhecendo as músicas; fui virando cantor assim.

 

P - E você veio para Belo Horizonte?

 

R - Eu vim para Belo Horizonte em 1978 e tentei fazer outras coisas, trabalhar. Fui trabalhar na casa Arthur Haas, vendedor de consórcio, aí não vendi e eles me mandaram embora. Eu já tocava em alguns barzinhos nos intervalos dos grupos que tocavam na noite. Assim que havia um intervalo, eu fazia algumas músicas, cantava ali e aí fui me profissionalizando.

 

P- E como é que o Clube da Esquina chega a você?

 

R- Bom, primeiro eu já conhecia através da sua música, que é muito forte. Desde lá de Teófilo Otoni eu já ouvia Milton Nascimento cantando Gran Circo, aquela música grandiosa. É uma música que na primeira ouvida era uma diferente. Era meio distante de mim porque eu tenho influencia meio baiana, eu gostava muito da música que vinha do nordeste - Luís Gonzaga, Banda de Pau e Corda, depois tinha aquelas letras que falavam do sertão. Eu era muito ligado nessa coisa de letra de música; depois do Clube da Esquina é que eu passei a ficar ligado em música, em melodias bem feitas. Eu gravei com Milton Nascimento e, por incrível que pareça, eu nunca tinha pensado nisso.

 

P- Mas como vocês chegaram um no outro?

 

R- Eu aqui fazendo uma participação no show de um amigo. O Milton morava em Belo Horizonte na época e assistia a shows variados. Num desses shows, eu estava cantando e aí me apresentaram a ele. Falou comigo: “Está tudo bem, vai dar tudo certo pra você.” Eu ouvi aquilo [e] achei que era só ele desejando boa sorte, mas logo que ele fez o próximo disco me convidou para cantar; eu cantei a música Comunhão com ele e com Simone, que foi a minha primeira experiência com estúdio. 

Toda a bagagem que eu trouxe da minha terra, eu comecei ficar achando que aquilo não valia nada, então eu precisava conhecer a música do Clube da Esquina, eu precisava exercer a mineiridade. Aí eu fui me aproximando do Tavinho Moura, Murilo Antunes, do Nivaldo Ornelas, essa turma. Eu tive o privilégio de chegar perto após essa gravação, ficou mais fácil chegar nessa turma. Depois eu tive que começar a estudar muito, ouvir muita música sempre; tentar fazer alguma música sempre chegando mais e sempre com aquela influência, porque é uma escola de música rigorosa.

P - Depois que você começou ouvir outras coisas, você mudou a sua forma de fazer música depois do Clube da Esquina?

 

R - Mudou muito, eu aprendi muito. O que eu sei de poesia foi através do Murilo Antunes, do Fernando Brant, do Marcinho Borges. Eu lia as letras e ficava impressionado como eles faziam com tanta limpeza, com os versos tão limpos e eu fui tentando fazer as minhas letras assim também. 

Um acorde ou outro que eu aprendia das músicas do Tavinho Moura, do Toninho Horta… Eu ouvia as pessoas fazendo, achava aquilo bonito; aprendia e tentava fazer alguma música, colocar aquele acorde ali. Foi assim, eu tive uma influência; não pude ter mais porque eu não sou um bom aluno, mas o que eu pude, aprendi e devo muito ao Clube da Esquina.

 

P- Você se lembraria de como foi a experiência de ouvir o disco Clube da Esquina 1

 

R- Eu cheguei a ouvir aqui em Belo Horizonte a primeira vez. Mas o primeiro disco do Clube da Esquina que eu ouvi foi aquele disco Gerais do Milton, lá em Teófilo Otoni. Um amigo meu me mostrou e falou: “Olha que maravilha!” Aí eu fiquei... Aprendi aquela música Volver a los Diecisiete, o Milton cantando O Que Será Que Será, fazendo aquele vocal maravilhoso, Fazenda, uma música que quando eu ouvi achei uma maravilha - acho que ninguém definiu uma fazenda de uma maneira tão bonita, tão poética quanto Nelson Ângelo. E a gente lê poesia daqui pra ali, eu nunca achei nada parecido com aquilo; os maiores poetas que eu já li, se chegassem diante dessa letra iriam sucumbir: “Não precisa dizer mais nada.” 

O Clube da Esquina 1 era aquela música que me metia medo, porque era muito urbana. Eu não conseguia começar qualquer acorde, como fazer pra começar a música. Eu queria cantar e não podia porque eu não sabia tocar, mas fui ali gravando aquelas melodias e a gente não se assusta também. Quando a gente é mineiro mesmo, da montanha brava, a gente ouve aquela melodia e aprende legal. A gente não se assusta não, mas fica querendo tocar aquilo de um jeito perfeito, então fica caçando um jeito melhor pra tocar por respeito. Não dá pra tocar de qualquer jeito.

P - Tadeu, outros artistas da sua região ascenderam na carreira na mesma época que você. Você atribui isso a algum fato?

 

R- Não. Eu acho que houve um movimento muito mais modesto, que eu musicalmente nem concordo, não gosto, não me influenciou. Surgiu uma turma que até não morava aqui, veio morar depois, quando aqui oferecia um pouco mais de condições de trabalho e a pessoas vieram pra cá. Mas eu nunca fiz nada pra isso, eu nunca quis usar essa coisa de Jequitinhonha, senão fica aquela coisa regionalista. Muitas vezes você chega a uma gravadora pra fazer outro trabalho, as pessoas [ficam] te rotulando como regionalista, pode restringir um pouco o trabalho. Então eu procurava muito mais fazer uma coisa, aprender uma música que pudesse me levar a variados lugares e inclusive fora do Brasil, que eu pudesse cantar aquilo e ser visto como uma coisa diferente e que ao mesmo tempo as pessoas soubessem que aquilo foi feito em um determinado lugar no Brasil. Eu costumo dizer que é a música brasileira feita ao jeito mineiro, que é o lance do Clube da Esquina.

 

P- Você vê o Clube da Esquina como um movimento cultural? Tem um traço social que juntou com essa música?

 

R- Eu vejo. Surgiu uma turma, cada um com seu jeito, sua personalidade, mas fazendo música com o mesmo espírito. Você vê que são pessoas muito diferentes umas das outras, até com vidas diferentes, mas inexplicavelmente fazem música com a mesma alma. 

Essa turma fez escola, acho [que] as primeiras letras de música impressas em capas de discos foram nos discos do Clube da Esquina aqui no Brasil. Mas eu acho que quem fez isso primeiro foram os Beatles naquele disco Sargent Pepper’s [Lonely Hearts Club Band], depois eu fui ver ler letras de música impressa em capa de disco nos discos do Clube da Esquina. Ninguém tinha feito antes, isso já é uma coisa interessante, que facilita pro consumidor. E as letras das músicas também, aquele jeito de escrever… Era uma letra para ser ouvida mesmo, a maioria delas não era para você chegar e ficar lendo, ser impressa em livro, é letra pra ser ouvida junto com a música. Isso é uma coisa que veio a calhar na época da censura, porque as pessoas costumavam censurar as músicas adoidado e as pessoas às vezes usavam pseudônimos, artista muito perseguido pela censura. Como a turma do Clube da Esquina escrevia coisas meio subjetivas, falava das coisas e a censura não pegava, então era fácil burlar a censura fazendo letra do jeito deles.

 

P - Tadeu, tem algum caso que você ache interessante registrar para esse acervo?

 

R- Tem muitos casos. Um que acho interessante é que eu acho que tenha talvez tido uma visão. Eu estava saindo de um barzinho lá pelas tantas da noite. Eu vi, passando por outro bar, um cabra saindo, um negro de boné na cabeça e eu achei que fosse o Milton Nascimento. Eu olhei e achei que era um cara parecido, mas na época eu fiquei atrás de um carro e falei: “Olha, é o Milton Nascimento!” Fiquei olhando e até depois de muito tempo ainda acreditava. Aí eu comentei com umas pessoas que eu tinha visto o Milton Nascimento, mas não era ele, foi viagem minha mesmo, eu estava bebum. 

Logo passou um tempo e ele esteve nesse show; foi lá e logo depois me chamou para cantar uma música chamada Comunhão. Logo depois eu estive em Teófilo Otoni, dei um disco pra minha mãe e ela falou: “Meu filho, eu rezei muito para que acontecesse isso. A música que você cantou fala de comunhão e eu rezei muito.” Então eu acho que foi uma coisa assim, viagem minha. Eu não sei se eu queria isso, a gente espera a ajuda de alguém; eu tive essa visão e logo depois tive a oportunidade de gravar com ele.

 

P - Seu primeiro disco gravado foi o Cativante?

 

R - Foi o Cativante.

 

P - E como foi essa gravação?

 

R - Isso foi uma consequência justamente da gravação que eu fiz na Ariola da música Comunhão. Eu não tinha realmente nenhuma experiência, a gente tem muita intuição. 

Quando eu entrei no estúdio pra gravar, eu não tinha ideia de como ia ser. Eu só tinha experiência de uma música e eu não tinha músicas minhas, eram músicas imaturas; eu peguei uma só que eu tinha que estava apta para gravação e gravei. Toquei o violão ali, tudo muito amador. 

Fui pra estúdio cantando coisas do Tavinho Moura, do Zé Renato, do próprio Milton, do Túlio Mourão. E essas pessoas todas participaram. É um disco interessante porque os autores das músicas estavam ali tocando; aquilo tudo pra mim, me engrandecia mais ainda. Eu tive uma lição de humildade que o Milton deu; ele foi pro coro que tem na música Gente que vem de Lisboa, cantou com o coro. Aquilo, pra mim, eu achei uma coisa de humildade. Ele não cantou nenhuma faixa do disco, se ele quisesse cantar todas eu falava “Fica com o disco pra você” (risos). Ele foi lá e cantou no coro. 

Eu estava operado de apêndice. A minha mãe morreu logo que eu entrei no estúdio e eu fiquei muito chateado, sotimatizei aquilo tudo e me provocou uma apendicite. Eu cantei com a barriga costurada e não dava pra cantar assim. Eu fiz um esforço, às vezes às pessoas não entendiam, não estavam sabendo o que eu estava passando. Tem uma música lá, Cativante, que é do Túlio Mourão, e o Milton disse que a gente tinha que fazer uma repercussão batendo os pés em cima dos jornais no estúdio. Eu não conseguia, eu batia o pé e doía tudo, então eu pensava: “Eu não vou bater pé, não estou aguentando” e não falava para não chatear os outros. Não falei nada. Então ficou parecendo que eu fiz corpo mole, mas é porque eu não estava aguentando bater o pé. Porque você não consegue nem rir, é um negócio engraçado, dói todo o abdômen. 

O disco contou com a ajuda de todo mundo. As pessoas viam o que eu estava passando, então todo mundo deu uma força nos arranjos. E na época tinha um selinho com o trenzinho, com a marca do Milton Nascimento. Eu fiquei doido para que o selo fosse esse, que aparecesse pelo menos o trenzinho, mas não rolou.

 

P - Tadeu, o que você está achando desse iniciativa do Clube da Esquina virar um museu?

 

R- Pois é. (risos) Eu achei até meio engraçado o nome, museu, fica parecendo aquela coisa. Porque o Clube da Esquina sempre foi aquela coisa moderna, inovador e não para, porque vão sempre chegando pessoas que vão fazendo coisas.

O Milton vai fazendo os discos que as pessoas sempre assustam à primeira ouvida, aí de repente vão entendendo. Discos diferentes, com arranjos arrojados, músicas; ele vai sempre chamando pessoas novas, faz letras com uns aqui e as músicas dele sempre belas… De repente, chegam aqui e fazem um museu e fica parecendo coisa do passado. E não é, é uma música eterna, moderna, que induz a pessoa a estudar mesmo. 

Quem quiser até hoje pegar o disco Clube da Esquina, tocar, vai ter que rebolar porque é difícil realmente você achar, pegar. Um dia desse, eu fui aprender com um amigo a música Clube da Esquina, porque eu via simplicidade, eu até lacrimejei o olho. Eu falei: “Há anos que eu queria cantar essa música. Agora eu vejo que é assim, que coisa mais linda!” Travessia é linda, simples e eu estou tocando legal, porque eu peguei um DVD do Bituca na Suíça e aí eu dou pausa lá, na hora que ele faz um acorde. (risos) Eu pego e aprendo, estou aprendendo tudo assim. Na hora que esconde lá, eu fico xingando o cara que filmou: “Puxa, será que esse cara não podia filmar o braço do violão o tempo inteiro?” É um barato, mas você quem que ficar ali dedicando, pegando o jeito, senão não tem tranquilidade pra tocar. 

Mas é uma iniciativa legal pra arquivar as coisas que eles fizeram, memorizar isso e ensinar as pessoas, porque também tem esse intuito. Chegando mais gente, vai agregando porque realmente é uma escola. Como eu estava te falando, foi através de entrevistas do Fernando ou de ouvi-lo falando por ali o nome de um poeta… Oo Murilo Antunes, sempre muito generoso com as coisas que ele sabe, gosta de mostrar pra gente. “ Olha esse poema aqui.” Ele é daquele tipo que sabe as coisas e gosta de… Ele não se contém, parece que aquilo não cabe dentro dele e ele tem que passar pra gente, essa é uma faceta maravilhosa do Murilo. Então ele chegava pra mim, me mostrava e eu ia lá, comprava e lia pra depois conversar com eles. Tive que aprender muito pra depois conversar com os caras, senão você ficava ali feito bobo. 

É uma iniciativa maravilhosa e esse pessoal é danado; quando está parado, está carregando pedra, está fazendo promessa com pedra na cabeça, então essa é uma iniciativa que merece aplauso porque essa turma já fez muita música, já fez show por aí. Tem feito e precisa fazer mais porque estão jovens ainda, com família pra criar, então tem que fazer, tem que descolar o uísque dos netinhos. (risos) A coisa não parou, esse museu reacendeu a chama e eu fico feliz de estar sendo lembrado pra poder vir aqui falar. Ganhei um carteirinha de sócio fundador, que eu guardo com muito orgulho.

 

P - Mais alguma coisa que você queira falar?

 

R- Não, desejar a todos muita saúde pra gente seguir lutando, porque a luta continua, só isso.

 

P- Então obrigada pelo seu depoimento.



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