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História

Com 14 anos, Izilda aprendeu a defender sua família

História de: Izilda Correia de Macedo Custódio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Izilda Correa de Macedo Custódio fala dos ensinamentos do pai e depois que ele faleceu, conta como enfrentou o tio tutor.

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História completa

Meu nome é Izilda Correia de Macedo Custódio, nasci em Bom Conselho, estado de Pernambuco, em dez do seis de 1955. Meu pai era quase médico, foi quase dentista. Mas, vamos colocar como agricultor mesmo, Nós tínhamos uma fazenda nos Caibros, que foi herança, ele trabalhava muito com os caseiros agricultores. Ele combateu na época, a febre amarela com um determinado remédio que sabia, e por combater essa doença, nós ganhamos essas casas em Bom Conselho. Minha mãe se casou muito novinha. Aos 16 anos ela só estudava em um colégio interno.

Eu tive uma infância maravilhosa! Enquanto meu pai era vivo, ele era um homem muito cuidadoso com nós mulheres. Como só tinha as quatro meninas, ele gostava da gente bem, de cabelinho curto, unha pintadinha e ensinava bons modos pra nós. Ele levava pras festas, dançava com nós. Ele explicava que quando tivesse numa festa, se alguém fosse tirar pra dançar a gente nunca dissesse não, tinha que ser uma verdadeira dama e dançar, contanto que tivesse respeito. Um homem que soube explicar pra nós tudo direitinho, como era a vida. Deu todas as coordenadas, até um dia se, lá na frente, a gente casasse. Como nós tínhamos fazenda, na nossa fazenda tinha madeira de lei, ele falava assim: “Quando vocês casarem, ajudem o marido com isso. Vocês têm forma de entrar com alguma coisa, pra nunca deixar ele sozinho. Se amanhã ou depois vocês começarem a trabalhar, dividam o orçamento com o esposo, isso não danifica. Não é porque ele é o homem, que seja obrigado a fazer de tudo, é importante que vocês estejam sempre a par. Prestem atenção com quem vocês vão casar também.” Meu Deus, eu não consigo esquecer de como meu pai podia ensinar essas coisas pra nós, que geralmente mãe ensina, mas foi o meu pai que ensinou.

... Adorava ver o crochê e me enfeitiçava, era extremamente apaixonada e tinha curiosidade de saber por que, como que se faz isso. E meu pai vendo aquilo, comprou uma agulha e uma lã, novelinho de lã e me deu... Então, meu pai acreditava muito em mim. Na época, eu ainda era criança, tinha 12 pra 13 anos, houve um concurso em Bom Conselho, pra ensinar o Mobral. Aí meu pai perguntou se eu queria fazer esse concurso e eu disse que sim. Eu tava nos Caibros, fui pra Bom Conselho, fiz esse concurso, tirei em primeiro lugar e ganhei uma casa com todos os móveis, toda a classe completa, eu dava aula à noite, no sítio. Olha como eu era corajosa. E eu tinha o maior carinho de alfabetizar todos aqueles, que eram tudo velhinhos. E eu fiz isso, foi uma coisa muito bacana.

Aí é que vai começar a verdadeira história! Aos 14 anos, já não éramos só nós, quatro mulheres, nós tínhamos mais cinco irmãos. E meu pai faleceu, foi triste, aí minha vida mudou. Era como se eu vivesse em um jardim e passei a pisar no espinho. Aí foi dolorido demais! Então, eu e minha mãe, ficamos no sítio depois que meu pai faleceu. Eu tenho duas irmãs mais velhas, só que [as duas vieram pra São Paulo]. Eu fiquei lá com minha mãe e meus cinco irmãos. Aí eu digo pra você aonde minha história começou, porque nós tínhamos fazenda, nós tínhamos gado, nós tínhamos madeira de lei, nós tínhamos tudo. Mas nós tínhamos também um calinho no sapato, que era o meu tio, irmão do meu pai [que o deixou como nosso tutor], queria roubar tudo o que a gente tinha. Por minha mãe ser uma mulher que não tinha aquela experiência, que era bem pacatinha, ele ia lá e passava a lábia nela. Eu trabalhei de enxada na roça, eu trocava dia de trabalho com as minhas primas, pra poder dar conta do roçado, pra trazer coisas pra casa, pros meus irmãos comer, se alimentar. Foi muito difícil!

Aí eu falei: “Não, isso não tá certo, ele tá tirando tudo que é nosso, deixando nós sem nada, como vai ser? (...) Eu tenho que lutar com isso, pois eu tenho meus irmãos pra cuidar”. Alguém tem que me orientar. E eu lembrava que todas as vezes que eu ia a Bom Conselho, na casa dos meus avós, tinha um advogado que se chamava Abelardo. “Acho que esse homem deve me esclarecer como eu tenho que lutar contra meu tio”, porque ele só queria saber de me bater, me chamava de cabrita, que eu não sabia nada, que eu era órfã... Então fui pra cidade... Meu avô: “Ele vem jantar hoje à noite aqui em casa, e se você quiser você pode conversar com ele”. Só que eu não queria passar isso pra os meus avós... na hora que o Doutor Abelardo foi embora, eu conversei com ele e marquei pro dia seguinte... Eu lembro como se fosse hoje. Eu tava com um vestidinho rosa, de cetim, curtinho. Morria de vergonha, porque minhas pernas apareciam tudo e eu toda assim sem jeito contando pra ele, aí foi onde ele me orientou: “Minha filha, você está certíssima. O que seu tio tá fazendo é um crime, ele não pode fazer isso. Se você quiser, amanhã mesmo nós vamos na delegacia e vamos prender o seu tio... ”. Aí fomos, marcamos uma audiência, o juiz intimou, ele veio... O juiz ouvindo a minha história, disse que o que ele estava fazendo não era correto... Então ele assinou um papel que não podia mais nem sequer tocar o dedo no que nos pertencia, pra que eu pudesse ter segurança também. Eu comecei a organizar a minha vida junto com minha mãe, junto com meus irmãos, que até então eu fiquei como mais velha.

O meu primeiro trabalho aqui em São Paulo foi vendendo os carnês do Baú, do Silvio Santos. Eu achei lindo, aquelas moças saírem, conversando. Eu achei aquilo fantástico... Montei a casa e mandei buscar minha mãe, com os meus irmãos... Ah, depois disso eu ainda vendi jazigo, túmulo. Eu tinha que vender, porque eu tinha uma responsabilidade grande. Nossa, era tão legal, Jesus amado! A gente ia nas casas. Eu ganhei muito dinheiro, ganhei muito bem! Eu entrava nas casas era pra vender um jazigozinho de duas gavetas, eu vendia de seis. Vendia pro homem, pra mulher, pros parentes, pros aderentes, pra todo mundo...

Meu marido é daqui de Joinville. Eu conheci ele e vim pra cá. Faz 20 anos que eu tô em Joinville... Amanhã, depois, eu vou ficar sem ele, vou ficar uma pessoa como a minha mãe, sem alternativa, tipo uma marionete onde podem me colocar onde quiser... A vida não é assim, mesmo porque eu tenho que dar exemplo pros meus filhos...  Não quero que ele veja em mim uma mãe dominada pelo pai. Não, eu quero que ele mostre que ele tem orgulho de mim... Talvez, se eu não passasse por tudo o que passei, eu não seria no caso a mulher que sou hoje. Eu não sou lá grande coisa, mas que me considero uma grande pessoa (risos).

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