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História

Colocando a energia em algo que acredita

História de: Adriana da Silva Tubino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2017

Sinopse

Nesta entrevista, Adriana conta um pouco de sua infância dividida entre a vida urbana em Porto Alegre e o contato com a natureza em um sítio de família. Formada em Comunicação, Adriana narra as experiências de realização profissional dentro da área e a frustração pessoal com modelos mais tradicionais de trabalho. Em busca de novos horizontes profissionais e pessoais, deu início com uma amiga a um projeto de confecção de vestuário e acessórios a partir de materiais reciclados. O projeto, hoje chamado Revoada, deu à Adriana uma nova vida, onde passou a adotar, mais do que uma nova forma de trabalhar, um novo olhar sobre si.

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História completa

Meu nome é Adriana da Silva Tubino e eu nasci em Porto Alegre, no dia 23 de outubro de 1977. Eu sempre fui atrás das histórias da família, meus pais se conheceram em Porto Alegre, porque trabalharam durante um tempo no mesmo lugar, o meu pai de office-boy e a minha mãe era secretária. Tem uma caixa repleta de cartas e bilhetes, porque como o meu pai estava sempre entrando e saindo e a minha mãe sempre parada, a forma que eles tinham de se comunicar era de deixar bilhetes na mesa dela. Então, tem inúmeros bilhetes que contam um pouco a história de amor dos dois, esses bilhetes estão guardados comigo, eu sempre quis fazer alguma coisa com eles, ainda não descobri bem o que eu vou fazer, mas pelo menos guardar, pois eu sempre achei que aquilo era um tesouro.

 

Tenho recordações de infância preciosas, especialmente no sitio que a gente tinha da família. Sempre tive essa coisa urbana de morar na cidade, apartamento, mas logo que a gente era pequeno, meu pai resolveu comprar um sitio numa cidade uma hora distante de Porto Alegre e a gente tinha aquela vida rural, super gostosa de ter bichinhos: tinha pato, tinha galinha, árvore frutífera, enfim, açude, barquinho. Então a minha infância, basicamente, as memórias que eu tenho são dos amigos do edifício brincando e a gente levando os amigos do edifício para o sítio para poder brincar lá nessas brincadeiras rurais. Hoje eu reconheço o quanto foi precioso poder viver essa infância pé no chão, natureza. Eu lembro de uma infância assim, que a gente podia com bem mais tranquilidade estar sem os pais, poder brincar na rua, ir no mercadinho do outro lado da rua sem os pais, com cuidado e tal, mas não existia uma preocupação com assalto, com violência. Eu sinto que era uma infância bem mais livre em todos os sentidos e mais tranquila mesmo, não lembro de ser tão presente o medo como a gente o vive hoje. É muito cuidado, é muito trancado, e isso limita bastante a liberdade ou a experiência de estar livre na rua.

 

Eu comecei a tomar contato com o assunto da reciclagem já era a adolescência, eu lembro que meu pai sempre teve uma preocupação grande com a origem dos alimentos, ele era aquele cara que lia os rótulos das coisas só para nos mostrar que tinha conservante não sei o que, conservante não sei o que lá, para dizer: “Isso aqui parece que é uma coisa, mas tem muita coisa aqui que a gente não sabe a proveniência, do quê que vem”, então talvez tinha muito mais essa coisa ligada, talvez, aos orgânicos, a consumir coisas mais saudáveis. Na escola se incentivava muito a levar sucata, juntar sucata em casa para fazer coisas com sucata. Então, eram rolinhos de papel higiênico, tubos de coisas, de produtos que viravam muita coisa, virava brinquedo, aqueles telefones sem fio com os tubinhos de rolo de papel higiênico, experimentava fazer carrinhos com as embalagens. Então, isso eu lembro muito assim, de brincar no colégio com sucata e a sucata virar alguma coisa.

 

Meu primeiro trabalho foi logo no primeiro semestre da faculdade, um estágio como redatora numa agência de propaganda. E como eu estudei Comunicação com ênfase em Publicidade e Propaganda, o caminho natural seria trabalhar em agência de propaganda. Nessa agência eu fiquei já uns cinco, seis anos e eu digo que foi o meu grande estágio, porque eu passei por todos os lugares ali, até que fiz atendimento aos clientes e descobri uma coisa que eu adorava, porque eu saía de estar sozinha, trabalhando no meu computador, para ouvir as pessoas. Acho que eu fiz Comunicação, hoje eu me dou conta, para me comunicar com as pessoas, porque eu adoro pessoas. Essa agência foi uma grande escola, mas era um pique muito acelerado e eu achava que eu já não conseguia fazer as coisas direito, que no fundo, não tinha espaço para aprofundar nada. Então eu fui fazer uma experimentação trabalhando com produtoras de vídeo, fiz direção de arte de cena, assistência de direção, alguns curtas, alguns trabalhos para propaganda também. Caindo na propaganda de novo eu disse: “Putz, de novo eu na propaganda? Não é o que eu quero, esse espaço aqui para mim é vazio, a minha criação se esvai, não é aí que eu quero estar”.

 

Foi o meu primeiro momento de empreender, eu criei com mais um amigo que também estava nessa mesma insatisfação um estúdio de design gráfico e web, quando era o começo da internet, que se chamava Box3. A ideia era criar um estúdio do nosso jeito, alugamos uma casa, a gente tinha cachorro, a gente tinha churrasqueira, jardim, a gente ia trabalhar de chinelo, porque era a nossa casa, então a gente podia fazer do jeito que a gente queria. Começou a rolar super bem e a gente disse: “Opa, tá dando certo essa historia”. Só que à medida que ia dando certo, eu sentia que a gente ia se afastando do nosso objetivo lá inicial, da alma do negócio. Quando eu comecei a ver que o que eu não gostava nas agências, estava começando a se repetir de novo no lugar que a gente tinha criado e que a gente queria fazer diferente eu comecei a perceber que não era o lugar e nem as pessoas, era uma forma de trabalhar que eu não acreditava mais. E eu mesma não estava conseguindo mais romper com aquilo mesmo no trabalho que eu tinha inventado, que era eu que estava insatisfeita de novo, não eles, eles estavam super bem, querendo mais, mais, mais daquilo.

 

Foi nesse momento que surgiu o meu projeto atual, nesse momento, eu já tinha visto que o que mais me incomodava na propaganda era gastar todo o meu esforço criativo para vender coisas que eu não acreditava ou que na verdade eu nem conhecia bem. Essa insatisfação começou a me vir uma vontade de ter uma causa, de ter um propósito, de achar alguma coisa que tivesse mais alma, mesmo. Então, se eu fosse colocar toda a minha energia em alguma coisa de novo, seria alguma coisa que eu acreditasse. Aí o tema da sustentabilidade apareceu, a minha vida já respirava isso, eu ia trabalhar de bicicleta, eu ia à feirinha orgânica comprar os meus alimentos, eu já era vegetariana há alguns anos, eu já separava o meu lixo, eu já tinha toda uma preocupação com o meu microcosmo, com um mundo mais sustentável. E quando eu ia para o trabalho era outra coisa. Daí, eu disse: “não, a minha vida agora tem que começar a ser toda uma coisa só, ela tem que conversar, eu tenho que sair de casa e ir trabalhar numa coisa que seja uma extensão disso”. Nisso, eu conheci a Iti que é uma amigona minha e que virou minha sócia nesse novo projeto, ela vinha da Moda, também quis romper com esse caminho tradicional da Moda de trabalhar com fast fashion, moda de passarela, essas coisas e ela foi trabalhar também com reinvenção. Eu lembrei que eu tinha um projeto guardado, literalmente na gaveta que era de fazer uma bolsa de viagem que eu queria ter para mim e eu não encontrava, que era uma bolsa que não fosse nem uma mala de viagem e nem uma mochila, uma weekend bag, uma bolsa só para viagem de final de semana, que ela servia como bagagem de mão e tal. E aí eu disse para ela: “Iti, eu tenho um projeto guardado na gaveta. Eu tenho uma vontade de fazer essa bolsa e olhando para o teu trabalho, eu fico pensando que a gente podia fazer essa bolsa de um jeito completamente diferente do que uma forma tradicional, a gente podia inventar um jeito de fazer essa bolsa”, e ela disse: “É, de um jeito sustentável”, eu disse: “É, de um jeito completamente sustentável. Vamos?”. Isso era num final de semana, na segunda-feira seguinte, a gente já começou a se reunir, a gente se reunia paralelo ao trabalho dela e eu o meu, toda segunda-feira, durante dois anos a gente fez isso concebendo esse projeto novo que a gente ia vir a trabalhar juntas que chamava Vuelo, e hoje chama Revoada que era de criar produtos a partir de resíduos. Então, a gente viu que o que nos unia muito nessa questão da sustentabilidade era nossa preocupação com o lixo, a gente achava que gerava muito lixo e que o lixo, quando a gente olhava, parecia que ainda tinha alguma coisa ali viva, pulsante como matéria-prima. Então, começamos a estudar o resíduo e achar quais seriam as nossas matérias-primas para esse novo projeto.

 

O caminho mais fácil para a gente seria com certeza trabalhar com couro, que é o material que a maioria das bolsas e acessórios são feitos, especialmente em Porto Alegre com um polo coureiro calçadista ali ao lado. A gente não queria esse caminho, então a gente foi buscar no resíduo, e quando a gente olhou no lixo buscamos algo que se assemelhasse ao couro em termos de resistência, flexibilidade, acabamento, possibilidade de costurar. E vimos uma câmara de pneu, aquela coisa emborrachada, aquele aspecto assim, a gente olhava aquele aspecto emborrachado, preto, assim, liso e dizia: “Nossa, isso pode ser uma coisa tão futurista”. Começamos a cortar, ver, e a câmara se apresentou como um material em potencial pela aparência, resistência, maleabilidade, e era impermeável, ainda por cima, tinha uma vantagem em relação ao couro. Depois veio o nylon de guarda-chuvas, quando a gente foi buscar um forro, viu que a câmara funcionava para o lado externo, mas precisava de um tecido para o forro. A gente viu que o que quebrava mesmo nos guarda-chuvas era a ferragem, que estragava, não abria mais, não fechava, mas o tecido estava sempre intacto e os tecidos eram lindos: florais, xadrezes, azuis, amarelos e era uma gama de tecidos incríveis. E quando a gente foi estudar um pouquinho mais sobre eles, a gente viu que ambos demoram a se decompor no ambiente, em média, de mais de quinhentos anos, e reafirmamos essa escolha.

 

O processo começou muito intuitivo, a gente foi fazendo e depois fomos olhar para ver o que tinhamos feito. Começamos a ver se os materiais tinham algum tipo de reciclabilidade, isso é muito legal de saber: nem tudo que é reciclável é reciclado. Só é reciclado aquilo que tem alguém que recicle ou que tenha um mercado. Então, nem tudo que tem o potencial de ser reciclado é reciclado hoje. Eu diria que a maioria não é, 3% do que é gerado é reciclado. Então, essa é uma ideia errônea que a gente tem, olha um símbolo de reciclável e diz: “Que legal! Isso aqui vai ser reciclado”, não necessariamente, ele pode ser, mas não necessariamente vai ser. E com o tempo, à medida que foi crescendo a nossa produção, a gente foi ampliando as unidades de triagem e fazendo parceria com os fabricantes de câmara de pneu para utilizar as câmaras que não passam no controle de qualidade. Então, essa é a nossa captação de matéria-prima, é o que qualquer um faria ligando para um fornecedor falando: “Me manda tantos metros de tecido, me manda tantos metros disso…”, é o nosso preparo de coleta de matéria-prima e é onde a gente já está tendo o maior impacto ambiental e social do projeto. Depois encaminhamos para uma lavagem industrial com captação de água da chuva, esse material é lavado, vai para o ateliê de produção e, aí sim, é cortado como se fossem tecidos mesmo, com os moldes. É um trabalho muito manual, de corte, costura, como se fosse um couro mesmo, sempre estão envolvidas diversas costureiras e dali, sim, que saem os produtos prontos e com uma etiqueta contando como eles foram feitos, para que não se perca essa história e para que as pessoas saibam que ele não pode voltar a ser lixo novamente, porque foi de lá que ele veio. Quando elas forem se desfazer dos produtos, que elas entrem em contato com a  gente para que a gente recolha e dê a destinação correta, essa destinação é o coprocessamento final para virar asfalto. Então, esse ciclo começa no asfalto, com os caminhões rodando e furando pneu e indo para a borracharia, e termina no asfalto de novo quando coprocessa os materiais. A gente, quando olhou para essa história, a gente viu que era um ciclo redondo, não uma produção linear, e a gente estava fazendo um processo de economia circular, então o nosso processo sempre foi muito intuitivo, mesmo, mas hoje, a gente consegue entende ele muito melhor.

 

Os nossos grandes fornecedores de matéria-prima são as unidades de triagem de lixo e as borracharias e os fabricantes de câmara de pneu, que a gente utiliza como matéria-prima, o nylon de guarda-chuva que vai para o lixo seco, então a gente vai atrás das coletas de lixo para fazer a compra desse nylon e da câmara de pneu porque a gente pega das câmaras que foram descartadas nas borracharias ou as que não passam no controle de qualidade das fábricas. Então, é uma convivência constante, porque eles fazem parte da nossa equipe de produção, conhecem o nosso trabalho, fazem o que a gente faz. A gente faz questão de ter uma convivência muito próxima de todas essas pessoas que participam dessa cadeia de reciclagem. Conviver com essas pessoas que catam o nosso lixo todos os dias, uma coisa que a gente não quer nem olhar, não é? A gente pega o nosso lixo, joga no lixo e aquilo teve um fim para nós, vai embora, sai dos nossos olhos, e quando a gente chega todo dia num barracão de unidade de triagem de lixo e vê aquelas pessoas maravilhosas catando o nosso lixo, cantando, rindo, brincando no meio de uma coisa que é suja, que tem um cheiro… E eles têm uma alegria em fazer esse trabalho que para nós é um aprendizado constante. Cada vez que a gente chega lá e vê que é possível fazer diferente, que é possível ter alegria nas pequenas coisas assim, eu diria que a gente aprende muito mais com eles do que eles com a gente. Eu acho que a grande evolução do nosso projeto foi se dar conta de que os produtos, na verdade, são a ponta do iceberg do que a gente faz. O que nós movimentamos de grande valor é essa cadeia produtiva da forma que a gente organizou e que gera uma série de impactos positivos.

 

Hoje a gente vive a vida de um jeito completamente diferente a partir desse projeto e eu acho que a gente contamina muito isso para as pessoas que estão a nossa volta, desde as pessoas que compram os nossos produtos, às pessoas que trabalham com a gente, de mostrar que tudo pode ter um novo olhar. Esse compromisso da gente estar entendendo de onde veio e para onde vai, eu acho que é fundamental, como criar algo para que o fim dela também seja saudável, acho que esse é o grande aprendizado.

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