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Colecionador de afetos

História de: Guilherme Salgado Rocha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/11/2013

Sinopse

Mineiro de Juiz de Fora, Guilherme Salgado Rocha nasceu em fevereiro de 1959 em uma família grande e muito unida. Filho de pai farmacêutico e mãe contabilista teve uma infância feliz com brincadeiras de rua e festas em família. Seu pai sonhava que ele fosse médico, mas Guilherme gostava mesmo de ler e escrever. Se formou em Jornalismo e trabalhou em jornais. Desde criança ele é um colecionador nato. Já colecionou chaveiro, flâmula, adesivo e de uns tempos para cá é colecionador de cartões postais, que pelas contas dele “devem chegar a uns oito mil”. O que mais fascina Guilherme é o contato que os cartões proporcionam com outras culturas por meio das fotos, e dos laços fraternos que se criam com pessoas de várias partes do mundo. “Colecionismo faz você se abrir para o mundo: receber afeto das outras pessoas e dar esse afeto em forma de cartão”, explica Guilherme.

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História completa

Meu nome é Guilherme Salgado Rocha, sou mineiro de Juiz de Fora, nasci no dia 03 de fevereiro de 1959, dia de São Brás, protetor da garganta. Meu pai se chamava Diógenes Matos Rocha, farmacêutico, de Juiz de Fora também, e minha mãe, viva, Maria da Conceição Salgado Rocha, contabilista, trabalhou na prefeitura de Juiz de Fora muitos anos e hoje mora em Juiz de Fora. Eles se conheceram na Rua Espírito Santo, que é uma rua central de Juiz de Fora e ela morava com uma tia, ela é do interior do estado de Minas. Ela ficava na janela e ele era vizinho, passava pra ir trabalhar e começaram a conversar, a conversar e ela relutou um pouco, porque ele era 11 anos mais velho do que ela. Mas, acabou sucumbindo aos encantos do meu pai e acabaram se casando, em Urucanha que é uma outra cidade, exatamente, a cidade onde ela nasceu. Eu tive irmãos, depois de mim veio a Miriam, pequenininha, mas ela faleceu bem novinha. É uma dor que minha mãe e meu pai carregaram, minha mãe carrega até hoje. De causa desconhecida, ela definhou, de repente ela morreu, com sete meses. A minha avó paterna morreu antes, morreu antes do casamento, inclusive, nem a minha mãe a conheceu. O avô paterno eu conheci, chamava-se Mágino. Era um kardecista muito conservador, uma figura muito querida, apesar de tudo. Morou no Rio de Janeiro muitos anos. Eu frequentei a casa dele, durante muito tempo. Os avós maternos, a avó morreu cedo, eu tinha cinco anos, tenho pouquíssimas lembranças, mas com quem eu convivi mais foi o meu avô materno. Dizem que por parte de pai é português.

 

Foi uma infância nota dez. Nunca tive falta de nada, pais maravilhosos, sabe, companheiros, meu pai era companheiro de futebol, de sinuca, de alegria? Então, não tenho nada. E foi uma infância muito, muito agradável, muito agradável. Sempre gostei de estar na rua com as pessoas, então foi uma infância perfeita, sem nada, nada, nada e comecei a trabalhar cedo, por iniciativa própria. Meu pai era farmacêutico. Tinha uma farmácia em Juiz de Fora, ele fez Farmácia em Juiz de Fora, meu avô também, o pai dele, era farmacêutico e eu, aos 13 anos, falei: “Ah, pai eu quero trabalhar, não quero ficar só estudando”, então, a minha carteira de trabalho, tem duas carteiras de trabalho, a primeira foi aos 13 anos, assinada por ele. Com 13 anos eu já era funcionário da farmácia e estudando no colégio em Juiz de Fora, fazendo ginásio, naquela época. E trabalhava com ele metade do dia, metade eu estudava, então foi assim, fui até a faculdade, eu parei de trabalhar quando eu entrei na faculdade, porque não dava mesmo. Foram três, ou quatro casas e apartamentos, inclusive, mas o mais marcante era um apartamento numa rua chamada Rua Pasteur que era um pouco, um centro agregador da meninada da rua. Era uma casa comum, apartamento simples, dois quartos, cozinha, sala e banheiro, mas no entorno tinha muita coisa legal. Pra menino não tem jeito é o futebol, era mais fácil de tudo, que você arruma duas traves em qualquer lugar.

 

Por conta da influência paterna, porque meu avô, farmacêutico, meu pai, farmacêutico, eu trabalhando na farmácia, sempre gostei, até hoje gosto muito de farmácia, mas sempre gostei muito de ler e escrever, então ele queria que eu fosse farmacêutico, porque a farmácia já estava pronta, montada pra mim. E eu não sei se eu tomei a decisão certa de ser jornalista. Meu pai tinha feito vestibular pra Medicina e não tinha passado. É uma mágoa que ele tinha, porque foi um décimo que ele não passou, foi fazer farmácia. Ele falava: “Meu filho, faça Farmácia, ou Medicina” e tal, e eu falava: “Mas, pai eu gosto de escrever, gosto de ler”, então, mas eu fiquei com a possibilidade de fazer Medicina também. Naquela época, a gente fazia no terceiro ano científico, o que eles chamavam mini-vestibular, como será o vestibular. Era treinar o vestibular. Eu me lembro que os primeiros meses, eu fiz pra Medicina. Mas, eu falei, “Ah, não, pai, não é isso que eu quero. Eu não quero ser médico, eu não quero ser farmacêutico, eu quero ser jornalista”, “É mesmo? É mesmo?” e tal. E ele também era advogado. Então, ele falou: “Ó, pra te satisfazer um pouco, eu também acho que eu podia fazer Direito”, sempre gostei muito de Direito. E a única coisa que eu me arrependo na vida, é de não ter feito Direito. Passei em jornalismo, passei em Direito numa particular em Juiz de Fora, mas abandonei. Então o jornalismo, falei: “Ah, é isso que eu vou fazer mesmo” e segui. Na faculdade não me arrependi mais. Acho que talvez do Direito, eu pudesse ter feito e ser hoje advogado também, mas tudo bem.

 

Eu sempre gostei de colecionar as coisas. Eu colecionava chaveiro, colecionava flâmulas. Flâmula é uma peça geralmente, geralmente triangular feita para comemorar a alguma coisa. Ah, um aniversário de uma cidade, um time de futebol, até hoje quando tem jogo internacional, os jogadores - aquilo a gente chamava de flâmula -, eles trocam uma flâmula, tem CBF, tem Seleção Brasileira e tal, os capitães trocam flâmulas. Então, você pegava a flâmula, era assim, triangular, com uma alcinha que você pregava na parede. E eu comecei a colecionar compacto, LP, LP não, disco compacto, como é que chama? É compacto. Como não tinha lugar, que eu fazia? Com 13, 12, 14 anos, pregava no teto.

 

Eu estudei em Juiz de Fora, fiz o pré-primário que a gente chamava, depois o primário, o ginásio, o antigo ginásio Eu tinha já aos 13 anos, 14 anos, uma compleição, já tinha barba, já entrava, com 13 anos eu entrava em filme de 18. Então, eu não tinha aquele negócio de namorinho, aquelas coisas, a minha infância foi pequena. A minha primeira namorada, eu tinha 16 e ela tinha 22. E ela não sabia, ela não podia imaginar, ela ficou sabendo quando a gente tava terminando o namoro.

 

Depois eu já entrei na faculdade. Em Juiz de Fora, havia muitas opções e eu tinha muitos amigos, a gente saía pra bar com os amigos. Carnaval, sempre fui apaixonado por Carnaval. Antes de me formar, um pouco antes, eu comecei a trabalhar num jornal, em Juiz de Fora, Diário da Tarde, que era do Chateaubriand, e, eu escrevi uma matéria, a Polícia Federal prendeu três rapazes e desceu a lenha nos três meninos porque a polícia pegou os três fumando maconha. Eu fiz uma matéria, denunciando a tortura da Polícia Federal. Eles pegaram, uma materiazinha de um quarto de página e tal pra eles se vingarem da época do Movimento Estudantil, eles me enquadraram na Lei de Segurança Nacional, por causa dessa matéria eu fui demitido do jornal. Eu já tinha me formado, fui pro Rio de Janeiro, e eu comecei a gostar da revisão. Mas, tinha que sair da editora Record, trabalhava na Editora Record, no Rio, tinha que sair da revisão da editora, ir a Juiz de Fora, no meio da semana, acompanhar depoimento. E voltava pro Rio, era uma vida horrorosa, sabe, uma vida horrorosa, e eu morando no Rio na casa de parentes e a polícia ligando pra casa, em Juiz de Fora, três horas da manhã. Até que eu fui julgado, fui julgado em 1982 pela chamada Justiça Militar. Fui absolvido por unanimidade, isso em junho.

 

Fiz faculdade na Universidade Federal de Juiz de Fora, que eram três anos, terminei em dezembro de 1979. Depois da farmácia veio o trabalho no jornal, nesse jornal. Tem uma coisa, eu sempre gostei de cartas, tanto de escrever como de receber. A minha ligação com os Correios, ela precede os cartões. Eu escrevia desde menino, gostava de mandar carta, sabe, pros outros, pra amigos, pra parentes e tal. Os cartões propriamente dito, tem pouco tempo, relativamente, tem pouquíssimos, mas é uma coleção de, talvez uns, quatro anos. Tinha primos que moravam em Belo Horizonte, primos que moravam em Urucanha. Eu acho que talvez também, pra incentivá-los a escrever, que eles apesar de serem muito queridos, todos, mas não gostavam do livro, da leitura, sabe, a gente se identificava, se juntava nas brincadeiras. Me atrai, basicamente, o conhecimento, seja o conhecimento cultural, de conhecer, por exemplo, uma bela imagem da Islândia, sabe, pra um cartão postal do Sri Lankada, Etiópia. E um outro lado, é o lado de você criar laços fraternos. Eu acho que eu devo ter uns oito mil cartões postais. As pessoas juntam o cartão, guardam o cartão, até determinada época, no dia de faxina, joga fora. Então, a pessoa manda, nós estamos em 2013, manda em 2009. Pra nós colecionadores não tem data, não tem data, pode ser de meia hora, ou pode ser de cem anos, o importante é o papel. E tem um outro caminho que são, que também tem a ver com os Correios, que são esses envelopes. Há uma troca mundial de envelopes, quando se chama, fala envelope, inclui envelope, inclui os selos. Há uma diferença entre o selo comemorativo e o selo adesivo de uma carta que a gente, uma carta comum. Então, você tem que mandar o selo comemorativo, não vale o selo adesivo.

 

O coordenador do meu grupo é um polonês, do interior, interior da Polônia, então que que ele faz, ele manda pras pessoas que são do grupo uma lista de um, dois três, quatro, cinco nomes. Então, está o meu nome, em algum lugar, quando ele me manda diretamente, ele me manda cinco listas, o primeiro nome em cada lista é o meu, eu pego aquela lista e vejo na primeira lista, eu vou mandar pro cara da Índia, eu escrevo, pego o envelope, selo, bonitinho, mando pra pessoa da Índia, dentro eu mando a listinha. Pra preservar o envelope e evitar que ele amasse, a gente sempre manda, ou um papel quadrado, uma cartolina quadrada, ou um cartão postal, eu mando cartão postal. Então chega a carta na Índia, ele pega abre, a terceira pessoa é um cara do Japão, o cara da Índia manda pro Japão, do Japão manda pra França, por hipótese, o último devolve pra Polônia, pro da Polônia saber que todos estão participando. E só vai receber outra carta, aquele que realmente participou e ele sabe onde parou. Então, isso é muito legal, então isso eu também faço há muitos anos.

 

O selo comemorativo, eu acho muito bonitos, eles são muito bonitos, mas eu não sou um filatelista. Tem grupos que se encontram pra trocas, por exemplo, grupo que coleciona cartões postais de estádios, eu leio na internet que eles se encontram, “Ah, vai ter um encontro de colecionadores de cartões postais de estádios” - quer dizer -, “em” - sei lá -, “Campinas!”, então, as pessoas se organizam, ou, “Colecionadores de cartões postais de estádios de São Paulo, Rio e Minas”, então se encontram em Campinas pra trocar postais, pra se falar das novidades. Adoro, adoro, sempre gostei, sou usuário, frequento os Correios, normalmente, fiquei feliz porque mudamos pra cá agora, tem uma agência que dá pra eu ir a pé, tranquila, pertinho aqui, a agência da Aclimação, então, conheço, as funcionárias pelo nome, então, falar dos Correios é, pra mim é muito simpático, porque me acompanha, eles, o assunto me acompanha, tranquilamente, desde os oito anos, desde os sete anos, tem mais de 40, 50 anos, que eu acompanho de várias vertentes, de várias maneiras, então, posso contar mais uma história dos Correios.

 

Eu tive muita influência familiar, pra Língua Portuguesa, meu pai sempre gostou, meu pai sempre elogiou, sempre elogiava os Correios. Ah, quase que eu ia me esquecendo, o irmão dele era funcionário dos Correios, em Juiz de Fora. Esse tio, é uma história bem humorada, esse tio que trabalhava nos Correios, tinha o peculiar nome, meu avô dava pros filhos o nome, cada nome... Meu pai era o menos complicado, era Diógenes, mas o irmão dele funcionário dos Correios tinha um nome de Lambá, I, A, M de moça, B, A com acento no A, Lambá. Tem uma história dele. A gente está falando de 31 de dezembro, pra trás, acabado o serviço, terminado o serviço, eles iam passar meia noite trabalhando. Isso deve ter sido 1964, 1965, 1966, eles me contam isso, porque eu não me lembro. Então, terminado o serviço, os amigos, cada um levou ali um champanhe, um salgadinho, pra eles comemorarem o ano novo e começam a tomar, já tinha terminado o serviço, mas tinham que ficar pra cumprir o horário. Toma champanhe, toma champanhe, só homem, uns dez, 15 homens, toma champanhe, eu imagino a cena, e meu tio era a timidez em pessoa, sabe aquela coisa, aquele homem reservado, sabe, fechado, calado, e tal e, já meio alto de champanhe, ele começa a fingir que estava fazendo strip tease, e os amigos o incentivam e ele tira a gravata, tira o paletó, ou o uniforme dos Correios não me lembro e fica só de cueca e sobe, na mesa e fica como se tivesse fazendo um strip tease, dançando, todo mundo batendo palma, abre a porta, o chefão dos Correios que estava em casa, não que tenha ouvido nada, foi cumprimentar os funcionários pelo Ano Novo, falou pra mulher, “Vou lá cumprimentar os meninos pelo Ano Novo”. Imagina, quando ele abre a porta aquela cena, 14 homens batendo palma e meu tio de cueca, disse que ele fica parado na porta assim e todo mundo: “Iambá, Iambá, Iambá”, todo mundo apontando pra porta.

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