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História

Colchas de retalhos

História de: José Roberto dos Santos Júnior
Autor: José Roberto dos Santos Júnior
Publicado em: 01/05/2022

Sinopse

Essa história é um recorte da minha infância, entre os anos 80 e 90, até os dias atuais. O processo de ensino e aprendizagem é importante para a nossa construção pessoal. Enquanto conto a minha história, percebo que uma história é o encontro com várias outras que também merecem ser contadas.

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História completa

Meu nome é José Roberto dos Santos Júnior, sou homem, branco, cis, gay. Quero contar um momento de minha história, um recorte no tempo que se inicia entre anos 80 e 90, em Angra dos Reis - RJ, período de minha infância, que diz respeito à educação, o meu processo de alfabetização. Nasci em Lavras - MG e fui morar em Angra com 1 ano de idade. Para o início da minha história, peço-lhes que imaginem uma criança, entre 6, 7 e 8 anos de idade, deitado sobre uma caixa d’água num dia ensolarado e com muitas nuvens, imaginando bichos e pessoas nas formas que as nuvens adquiriam com o soprar do vento e assim passava o meu tempo de criança. Uma única nuvem trazia vários significados e sentidos. Eu demorei para aprender a ler e escrever, eu me lembro que eu desenhava muito, coloria muito, brincava muito. Sou filho caçula, portanto, não tive irmãos cujas as idades permitissem brincarmos juntos, ou seja, todos já eram adultos. Eu me lembro de sair pela cidade com a minha irmã e perguntar para ela, a todo momento, o que estava escrito nas placas, nos cartazes, nas cartilhas das igrejas, nos panfletos que nos entregavam nas ruas, nos saquinhos de biscoitos etc. Eu me sentia extremamente angustiado, ansioso, triste e incapaz de aprender e a decorar aquelas letras todas. Eu tinha muita vontade de saber como a “mágica” acontecia, como que as pessoas aprendiam a ler, como conseguiam ler em voz alta, como escreviam juntando letrinha por letrinha e aquelas letras emparelhadas significavam algo, conversavam entre si, de mãos dadas, exprimiam alguma coisa, ou seja, diziam algo para o mundo. Tive muita dificuldade na escola, eu me lembro muito disso, da professora chamar minha atenção para a aula e eu não conseguir responder, compreender e interagir com o conteúdo. Era como se de fato eu não estivesse ali. As aulas eram enfadonhas, maçantes, angustiantes e pareciam não ter fim. O recreio me “salvava” porque era o momento em que eu conseguia interagir com o lado lúdico. Mas em seguida, começava tudo outra vez... As nuvens eram carregadas. Intuitivamente, eu procurava meios para conseguir me manter na sala, em silêncio e passar o mais despercebido possível. Uma estratégia que eu utilizava era tentar inventar uma “dor de cabeça” para faltar das aulas. Por conta dessa dificuldade na escola me atrasei. Foi quando minha mãe, Maria Idalina dos Santos, decidiu me colocar numa escola particular especializada em alfabetização, chamava-se Jean Piaget que ficava localizada no bairro do Balneário. Eu me lembro no primeiro dia que tive contato com a diretora do colégio, ela abriu a sala para nós, era incrível. Estantes cheias de livros. Livros grandes e pequenos, mas todos cheios de cores. Enquanto ela conversava com minha mãe sobre a proposta de ensino, eu fiquei olhando para aquela estante. Ela disse que eu poderia escolher um para “ler” e ver as imagens. Comecei a folhear ao meu estilo de criança sem contato nenhum com livros e, no mesmo instante, ela estava muito atenta ao meu folhear de páginas e me ensinou o jeito correto de folhear sem amassar as páginas. A magia aconteceu, fez sol no meu dia. Foi a primeira vez que eu aprendi de fato. Fiquei nessa escola por um ano. Na época, a inflação estava grandiosa e as coisas subiam de preço de um dia para o outro e dobrava de preço de um mês para o outro. Foi ficando insustentável para os meus pais me manter na instituição. Confesso que foi o ano de maior aprendizado da minha vida. Aprendi a ler e a escrever. Aprendi a fazer continhas que antes pareciam impossíveis para mim. Aumentei meu vocabulário, fiz novas amizades. Brincávamos com pneus nos intervalos e disso eu me lembro em especial porque inventei que os pneus eram nossos carros ou motos, então com as mãos, nós íamos tocando eles e “pilotando”, era muito divertido. Nessa escola, eu aprendi a nadar, principalmente a “boiar”. É importante que saibamos boiar antes mesmo de nadar, porque o boiar nos salva do cansaço extremo das braçadas. Quando chegou o fim do ano, no último dia de aula, tivemos uma festinha no colégio e foi muito divertido. Assim que eu cheguei em casa, minha irmã me contou que eu não iria mais para o colégio no ano seguinte. Foi um choque para mim, eu não pude me despedir de meus colegas. Depois disso, fui para uma escola no bairro do Retiro, a escola se chamava Escola Municipal Frei João Moreira. Ali, fiz novos amigos, mas também conheci aquilo que muitos anos depois chamariam de “bullying”. Foi nesse colégio que eu comecei a entender que eu era “diferente” dos outros meninos. Eles me chamavam de “bixa”, mulherzinha, de “Seu Peru” fazendo uma alusão à personagem da e “Escolinha do professor Raimundo”. Havia meninos maiores na turma, os ditos na época de “repetentes” que sempre queria nos bater e nos ameaçavam no final das aulas. Foram dias de tempestades e ventanias. Eu continuava a ser um “aluno” mediano, ou seja, tingia meu boletim de mais cores vermelhas que azuis. Estar constantemente nas aulas era desafiador e mais triste que alegre. Lembro-me que foi nessa época que iniciei a minha paixão por lapiseiras. Quando podia, eu juntava algumas moedas e comprava uma lapiseira, por vezes, algum material de papelaria, mas a predileção era por lapiseiras. Fazia muitos desenhos e comecei a ler mais livros e desenhava as personagens da maneira que eu as imaginava. Os primeiros livros que li foram: O Ratinho Cinzento e o Trem - Stella Leonardos; Lambe o Dedo e Vira a Página - Ricardo da Cunha Lima e João e Maria - Cordélia Dias d’Aguiar. Amava ler e reler esses livros. Fui ficando maiorzinho e comecei a despertar para o amor pelos livros. Inclusive, fiz minha inscrição na Biblioteca Municipal de Angra e ficava admirado e encantado com aquele universo de livros e, principalmente, pelo silêncio. Quando terminei a 4ª série, que atualmente chamamos de 5º ano, meus pais decidiram voltar para o interior de Minas, uma cidadezinha chamada Ijaci. Ali, estudei na Escola Estadual Maurício Zákhia onde continuei minha caminhada de aprendizagem e socialização com uma cultura um pouco diferente da minha. Fiz novas amizades, o bullying persistia, mas eu já não me importava tanto. Eu sabia que teria que aprender a “conviver” com aquilo que as pessoas me chamavam e me ridicularizavam. Foram dias muito nublados. Continuei sendo um aluno medíocre, porém, com notas um pouco melhores no ensino infantil. Em Minas, os “alunos” que se destacavam com maiores notas ao longo do ano, ganhavam medalhas. Eu achava muito diferente essa cultura de premiação, de meritocracia. Isso nos dava uma ideia de que aqueles que se esforçavam muito, conseguiam uma premiação. Com um recorte de várias outras coisas que foram se sucedendo em outros campos de minha vida, eu estico minha história já no ensino médio, onde me aproximei de uma turminha muito legal de meninas muito estudiosas e acolhedoras. A partir do momento que eu me inseri no grupo delas, comecei a aprender a estudar melhor e assim melhorar as minhas notas. Eu me lembro que no 2º ano, eu me esforcei bastante, imbuído do desejo de possuir uma daquelas medalhas douradas lindas que eu sempre via as pessoas ganhando. Encerrei o ensino médio como “melhor aluno” do 2º e 3º anos. Isso de uma certa maneira elevou a minha autoestima porque eu nunca havia me destacado em nada. Isso me despertou o desejo de cursar uma universidade pública. Foi quando eu tive contato com o amargo da reprovação no vestibular e não foi apenas uma vez. Eu era muito bom “aluno” no meu colégio, mas diante das provas do vestibular, eu me sentia muito pequeno e desprovido de conhecimentos. Foi aí que compreendi que a meritocracia era uma falácia. Você poderia se esforçar, mas a base do ensino era “fraca” e competir com “alunos” de colégios particulares era muito discrepante. Os cursinhos preparatórios eram caríssimos. Naquela época, não existia o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Portanto, leitores, vocês talvez consigam imaginar que a meritocracia resolvia muito pouco na questão da aprovação. Depois de algumas tentativas e fracassos, decidi fazer um curso de Técnico em Enfermagem no Colégio Cenecista Juventino Dias (CNEC), em Lavras-MG, minha irmã me ajudou financeiramente nessa empreitada. Consegui destaque na turma como um dos melhores “alunos” e, assim, eu me formei e voltei para o interior do RJ na tentativa de conseguir emprego. Não conseguindo nada em minha área comecei a trabalhar com autopeças e desisti da área da saúde, porque constatei que eu poderia me dedicar muito, mas que as oportunidades não eram para todos. Você tinha que ter um “peixe” e meu aquário estava vazio. Tive vários momentos de crise existencial e depressão e os livros sempre me acolheram. Eram dias de tempestades com furações destruidores. Com o passar dos anos, fui sentido necessidade de fazer uma graduação. Decidi conciliar meu trabalho com os estudos. Investir em educação, para mim, era o melhor investimento a ser feito. Foi então que me formei em Letras pela Faculdade Anhanguera, em Paraty - RJ. O primeiro do meu núcleo familiar a alcançar o ensino superior. Experienciei um período de muito aprendizado e o “aluno” passou a ser estudante. Compreendi as reflexões de Paulo Freire quando ele afirmava que a educação não pode ser “bancária”, mas sim libertadora... Eu me formei e dei aulas em Paraty mesmo. Eu me deparei com vários tipos de problemas sociais e limitações do ensino. Com isso, faço mais um recorte no que chamamos de linha do tempo e, agora, “costuro em minha colcha de retalhos” o meu retorno para Minas onde entrei para o curso de Nutrição na Universidade Federal de Lavras e, recentemente, eu me tornei nutricionista. Minha segunda formação em nível superior. Estou muito feliz. Não existe apenas um caminho para nossas vidas. A vida é cheia de possibilidades de aprendizagens e de reinvenções. Avançamos muito em tecnologia e, ao longo da minha trajetória eu pude perceber várias transições tecnológicas, desde a cabine telefônica que pagávamos para falar por alguns caríssimos minutos, o “orelhão” em que depositávamos fichas e depois inseríamos o cartão até chegar aos aparelhos celulares analógicos e, agora, digitais... O campo em que quase não avançamos, ou avançamos muito pouco foi na educação que, a cada ano vem sofrendo um “desmonte” porque nunca foi prioridade do governo, principalmente o atual. A sociedade caminha lentamente no combate a toda forma de preconceito e opressão. É como se o céu estivesse sempre encoberto por nuvens carregadas que não nos permitisse criar e vivenciar nada, muito menos sentir o calor e o brilho do sol. Percebi ao longo da minha vida que o preconceito que eu sofria enquanto criança, adolescente e, posteriormente, na vida adulta, só se somatizou a outros preconceitos, ou seja, camadas se sobrepondo a outras camadas, mas isso também não me impediu de entender o meu lugar social e de compreender a importância de me posicionar. Sigo resistindo, existindo, insistindo na educação como melhor maneira de fazer com que nossas crianças e, também, jovens e adultos, possam sonhar com uma vida melhor. Por políticas públicas que alcancem pessoas menos privilegiadas de maneira efetiva. Um Brasil melhor só é possível quando é melhor para todas e todos brasileiros e não somente para alguns. Desejo que faça sol em nossas vidas. Deixo um grande abraço e agradecimento aos meus colegas e professores que estimularam, inspiraram e me auxiliaram em minha construção pessoal ao longo da vida. À minha mãe e minha irmã que acreditaram e acreditam em mim. Pensa que parei por aqui? Jamais! Sempre achei as colchas de retalhos mais interessantes.

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