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História

Coca-Cola, greve e trabalho social

História de: Maria Raquel de Oliveira Veiga
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/06/2020

Sinopse

Raquel nasceu na pequena cidade de Espera Feliz, em Minas Gerais. Nossa entrevistada conta suas aventuras, brincadeiras e travessura em sua cidade natal. Com 15 anos ela se muda para a grande metrópole do Rio de Janeiro, devido o restaurante que logo seria administrado e cuidado por sua família em uma empresa da Coca Cola. Formou-se em Serviço Social pela UERJ e conta sobre sua participação na greve pela volta de professores que foram demitidos no processo da ditadura militar. Trabalhou em hospitais psiquiátricos e em vários organizações que visavam o bem estar e cuidado com jovens baixa renda, como a Pastoral do Menor e o CDI.

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História completa

P/1 - Boa tarde, Raquel. Você poderia começar dizendo, por favor, seu nome, local e data de nascimento.

 

R - Meu nome completo é Maria Raquel de Oliveira Veiga, nasci no dia 29 de julho de 1956, numa cidadezinha muito bonita chamada Espera Feliz, em Minas Gerais.

 

P/2 - E seus pais?

 

R - Meu pai se chama José Bernardes da Veiga e minha mãe se chamava Eurides de Oliveira Veiga.

 

P/1 - Eles são naturais de Minas também?

 

R - Sim, todos os dois nasceram em Espera Feliz.

 

P/1 - Então a gente vai começar por Espera Feliz.

 

R - Tá bom.

 

P/2 - Qual é a sua lembrança de lá, como que era essa cidade?

 

R - Espera Feliz é uma cidade que meu pai costumava brincar dizendo que é uma cidade de segunda, porque se passasse a terceira marcha saía da cidade. [risos] Então é uma cidade muito pequenininha, com poucas ruas. E era uma cidade, é uma cidade muito gostosa, o povo mineiro é um povo muito acolhedor. Moravam minha família, meus avós moravam na cidade. E a gente conhecia todo mundo na cidade. Tive uma infância muito gostosa, subindo muito em mangueira, em jabuticabeira, brinquei muito, joguei muito. E a gente teve uma infância, eu e meus irmãos, muito gostosa.

 

P/2 - Você poderia descrever para a gente a casa de sua infância?

 

R - A casa que eu morava tinha quatro quartos: uma sala, onde tinha os retratos da nossa família, uma copa, onde a gente fazia as refeições, uma cozinha, uma área grande e um quintal enorme, onde nós tínhamos muitas frutas. Os frangos que nós comíamos aos domingos, e às vezes durante a semana, nós mesmos os criámos. A cenoura que comiámos, a gente tirava do canteiro e lavava e comia. Então a nossa infância foi assim, de muito contato com a natureza. Minha mãe era uma mulher muito severa, muito rígida, mas ao mesmo tempo muito amorosa. Nós tínhamos uma casa muito limpa. Eu sou filha única, tenho em três irmãos do sexo masculino. Mas o trabalho de casa era dividido igualmente entre todos nós, nós tínhamos uma gestão familiar bastante lógica. Então cada um tinha as tarefas, durante a semana era distribuído. Muita briga entre os irmãos, porque a gente tinha a idade muito próxima. Minha mãe quase enlouquecendo com isso. Meu pai era telegrafista, funcionário público federal, dos Correios e Telégrafos. E ele acabava ficando fora de casa quase todo o tempo, então a nossa convivência basicamente era com a minha mãe, que era uma dona de casa dedicada aos filhos e ao lar, como toda mineira.

 

P/2 - E os avós?

 

R - Eu tenho o nome das minhas avós. Uma das minhas avós por parte paterna chamava-se Maria Veiga, minha avó materna chamava Raquel de Oliveira. Aí eu fiquei com o nome de Maria Raquel de Oliveira Veiga, que juntava, era uma homenagem da minha mãe para as minhas avós. A minha avó por parte de pai era uma mulher muito forte, ficou viúva muito cedo, criou os quatro filhos sozinha, e era ao mesmo tempo um misto, assim, eu tinha dela uma visão meio de conto de fadas. Que ao mesmo tempo que às vezes ela era rígida, nós tínhamos na casa da minha avó todo o tipo de mordomia que se pudesse imaginar. Porque além de tudo tinha a irmã dela, que tinha um problema de surdez e que vivia para agradar os sobrinhos-netos dela. Então, assim, ela fazia tudo que a gente queria, inclusive roubar laranja da casa do vizinho da minha avó. Que tinha laranja na casa da minha avó, mas não era a mesma coisa. E uma vez a gente foi apanhado lá na laranjeira lá do vizinho. Ela lá embaixo catando as laranjas, veio o vizinho com a espingarda na mão, e ela estava lá, coitada, e não escutava quando a gente gritava dizendo para ela se esconder. Então foi assim. Minha avó era uma pessoa muito especial, ela trabalhou até quase morrer, e ao mesmo tempo ela tinha uma coisa muito de família, muito religiosa. Minha mãe era evangélica, meu pai era espírita e minha avó católica. Então eu e os meus irmãos, a gente teve assim uma possibilidade de escolher nossa religiosidade experimentando um pouco de tudo. Minha avó levava a gente escondido para a missa, meu pai levava escondido para as sessões lá do que era lá dirigente e minha mãe criou a gente no evangelho. E minha avó apesar de ser uma já bem idosa, ela tinha uma coisa muito de trabalhar com a gente o que você vai escolher. E era uma vivência muito agradável. Isso a minha avó paterna, porque a gente viveu mais perto dela, porque minha avó materna morava na zona rural. Mais tarde é que a gente foi conviver mais com ela. E minha avó materna já tinha um outro estilo, que era o estilo de fazer roupa que a gente gostava, fazer coisa gostosa que a gente queria. Tivemos, assim, minha família por parte de mãe, a minha mãe era a primeira filha de 11. Então a reunião de família já era uma grande festa. E os irmão da minha mãe também tiveram muitos filhos. Minha mãe é uma das que teve menos, e teve quatro. Então, assim, a gente quando se reunia era um... Não tinha espaço, primeiro, para reunir toda família. Então tinha um tio que tinha uma grande casa, então a gente se reunia nos natais e tal. E também tem muitas Raqueis na família e muitos Eduardos, porque a idéia da minha mãe de homenagear os avós praticamente todos os irmãos dela seguiram. Então, assim, tem umas nove Raqueis na família. Mas a convivência com as minhas avós e com o meu avô materno foi bem gostosa. Meu avô paterno eu não conheci, que morreu quando meu pai era muito novo.

 

P/2 - E das brincadeiras, você lembra de alguma, assim, que aquela que era aquela que você queria todo dia? Como que era a vida de criança?

 

R - Eu não era uma menina muito dentro dos padrões para a cidade do interior não. Que como eu tinha três irmãos, eu jogava bola de gude, eu jogava futebol, jogava muito queimada, que eu jogava muito, que esse jogo era um jogo que fazia muito nos horários do recreio. E eu acabava não tendo aquele comportamento da boneca. E assim, todo mundo elogiava que as minhas bonecas duravam muito, que a roupinha estava sempre limpa, mas era porque elas não eram usadas. Soltava muita pipa. E assim, do que eu mais gostava era a questão de subir nas árvores e estar lá comendo as frutas, que até hoje eu amo por conta disso. Não consigo ver jabuticaba e não lembrar de mim em cima de uma jabuticabeira, entendeu? Então as brincadeiras, a gente brincava muito o tempo todo, tínhamos muitos amigos. Minha casa era uma casa que por conta de nós sermos quatro, estava sempre cheia. E minha mãe tinha lá uma teoria de controle, que era um controle com uma certa liberdade. Então ela trazia, era um lugar onde todos os amigos se reuniam. Então ela conseguia tomar conta da gente, ver o que a gente estava fazendo, mas era no nosso quintal e dentro da nossa casa. E aí ela não se incomodava de fazer almoço para todo mundo, fazer lanche para todo mundo, que aí ela mantinha a gente sob controle.

 

P/2 - E como era a escola, a vida lá da comunidade na cidade, a escola, a igreja?

 

R - Coisinha de cidade do interior mesmo. Tinham só dois colégios na cidade. Num deles se estudava até a quarta série, e depois, naquela época, o ginásio a gente fazia no colégio estadual. É uma cidade do leste de Minas e lá faz muito frio. Acordávamos muito cedo para ir para o colégio. E eu já dormia com a camiseta que a gente ia, porque a gente tinha uma camisa lá do uniforme, para a gente não ter que tirar a roupa e enfiar na roupa fria de manhã, então a gente dormia com uma camiseta branca já para a gente ir. E a gente ia com muito frio, porque a gente andava uns 35 a 40 minutos para chegar no colégio; ia de luva, e voltava ao meio-dia com o sol muito quente, carregando tudo aquilo. Mas a gente ia brincando de casa ao colégio, com os meus irmãos; íamos passando e pegando os amigos. E, como toda criança e adolescente, - nessa fase já era adolescência - a gente ia fazendo bagunça até o colégio. No interior tinha uma coisa de deixarem os pães nas janelas. Passava o padeiro e deixava a garrafa de leite e o pão na janela, e em determinados dias a gente ia tirando um pedacinho do pão de cada janela. A gente tirava um pedaço do pão para alguém saber que foi visitado. Até que avisaram nossos pais e a brincadeira acabou, né, a minha mãe ficou muito irritada. Eu não, mas o pessoal tomava muito banho de rio na volta. Fico com pena dos meus filhos por não terem tido a oportunidade de uma infância tão gostosa, tão de aproveitar mesmo, de muito contato com a natureza, de estar vendo planta, de subir em árvore quando está voltando para casa, de brincar de pique para chegar em casa mais rápido e correr, às vezes ir de bicicleta quando não estava muito frio. E, assim, lembro da escola, que em época de inverno não podia marcar prova nos dois primeiros tempos, porque a mão estava congelada e a gente não podia escrever. Uma vez a gente tinha prova de desenho, mas ninguém conseguia escrever, e o professor não poderia ficar até mais tarde para dar a prova e eles tiveram que adiar a prova por duas semanas porque a gente não conseguiu, ninguém conseguiu escrever. Nem o professor conseguia escrever no quadro, porque a gente ficava mesmo... Então era uma coisa muito gostosa.

 

P/1 - Você morou lá até que idade?

 

R - 15 anos, saí na minha adolescência.

 

P/2 - E como foi?

 

R - Muito ruim.

 

P/1 - Você foi sozinha? Foi para onde?

 

R - Não, nós tínhamos um... Meu pai era funcionário público e ele não tinha muito controle das finanças dele não. Era um homem muito bom, desses de tirar a camisa e dar para os outros. Então, assim, às vezes tinha uma família em dificuldade, e no interior tem essas coisas de fazer compra no mercado e anotar na caderneta, né? Tinha, hoje acho que nem isso tem mais no interior. E aí ele mandava as pessoas pegarem compras para eles lá na nossa caderneta. E aí ele começou a não conseguir pagar as contas no final do mês, porque ultrapassava o que ele conseguia. Com isso a minha mãe começou a ter que trabalhar. E a primeira iniciativa que teve foi  - a minha mãe cozinhava muito bem - e aí a gente começou a fazer salgadinhos. Porque nas festas todo mundo gostava, começaram a perguntar se ela aceitaria encomenda. Ela passou a aceitar encomenda. Depois meu pai comprou um bar, que a gente fez de restaurante. Então minha mãe, meu pai e nós os quatro filhos, mesmo os menores, trabalhávamos ali e íamos estudando, e ali meio que era a nossa casa, o nosso negócio. É, não foi duro e sofrido não. Acho que para a minha mãe deve ter sido, mas a gente levava meio na brincadeira e meio no trabalho. A família da minha mãe já morava no Rio de Janeiro, os irmãos e meus avós tinham se mudado para o Rio. E eles foram, no Natal, 21 pessoas para a nossa casa para passar o fim do ano. E entre essas pessoas tinham os primos nossos. E o marido da minha prima trabalhava na fábrica da Coca-Cola no Rio de Janeiro, lá tinha um restaurante para os funcionários, e ao experimentar os quitutes da minha mãe ele falou: “Nossa, se vocês estivessem lá iam ser um sucesso, não sei o quê.” Quando ele foi embora a empresa que era concessionária do restaurante da Coca-Cola terminou o contrato deles, eles acharam por bem não renovar. Ele nos chamou para nós participarmos da concorrência para esse restaurante. Meu pai foi, mas meu pai sempre foi assim; ele é músico, é artista, então ele tinha uma coisa meio de artista. Tinha a minha mãe com o pé no chão e meu pai compondo música. Ia para o carnaval e aí voltava um mês depois, porque aí do carnaval ele pegava um outro convite para um conjunto musical que ele tinha. Ele que implantou uma banda na cidade, lá ele é uma celebridade. Quando eu vou lá eu sou filha da celebridade, então sou muito bem tratada. Assim, meu pai é que foi olhar o negócio. E aí, como artista, ele achou tudo maravilhoso, era um filme: “Aquilo ia ser muito bom para todos nós!” Mas ele não entrou nem na cozinha do restaurante para ver como era, então todos os dados que a minha mãe pedia para ele não tinha como dar, só dizia que era uma oportunidade muito boa e que ele achava que a gente devia vir. E aí, assim, foi muito sofrido porque viemos eu e minha mãe sozinhas para o Rio. Para minha mãe foi muito difícil porque meus irmãos ficaram em Minas e ela veio sozinha comigo; para mim, que tinha 15 anos, foi uma violência, porque eu deixei todos os meus amigos. Não acredito que eu vou chorar disso, depois de tantos anos. Deixei meus amigos, deixei minha família, meus irmãos e meu pai. [CHORO] E assim, do que me marca - eu falei para vocês do tamanho da cidade -, o que me marca era que eu andava uma semana inteira no Rio e não achava uma pessoa conhecida. Assim, do que eu tenho na memória desse período foi de não ter identidade. [PAUSA]

 

R - No Rio, assim, o que era complicado, porque, assim, para uma adolescente tirar todos os amigos já é muito complicado, e para mim, assim, eu era um pessoa em Espera Feliz, entendeu, eu tinha uma identidade na escola, eu tinha uma identidade na rua onde eu morava. A cidade, assim, a gente à tarde no verão, todo mundo colocava as cadeiras na porta de casa. Eu me sinto muito velha quando eu penso isso, porque hoje isso é tão, né, tão fora da realidade, que eu me sinto uma jurássica.

 

P/2 - O São João também, nesse tempo ele era muito lindo.

 

R - Não é? Então, assim, a gente tinha, eu tinha todo um histórico que tinha junto com aquelas pessoas. O Rio de Janeiro, apesar de na época não ser tão frio, que foi 1971, era muito complicado para mim. Nós viemos para a realidade de um restaurante para um número de pessoas que a gente não estava acostumada. Por mais que os quitutes fossem gostosos, a gente não tinha know how para estar administrando aquilo. O nível de exigência daqueles funcionários da Coca-Cola não era do pessoal que ia no interior. Então foi violento em todos os sentidos. Foi violento para o trabalho, foi violento porque nós fomos para a casa da minha avó e da minhas tias, que já era uma casa apertada e ainda veio eu e minha mãe. Minha mãe chorava diariamente de saudades dos meus irmãos. Eu entrava no ônibus e eu ficava: “Mãe, olha ali, aquela pessoa parece com fulano.” Então eu via pessoas conhecidas, teoricamente parecidas com as que eu conhecia em todo lugar onde eu ia no Rio. Mas ao mesmo tempo me vislumbrei pela cidade bonita, a possibilidade de ir à praia era uma coisa que eu achava muito legal, porque lá a gente tomava banho de cachoeira. Assim, a minha mãe era uma mulher muito prática, aí ela começou a colocar a gente naquele esquema de “precisamos fazer isso agora, agora é isso o que a gente tem que fazer”. Ela não ficou calma enquanto ela não trouxe os filhos. Depois que ela trouxe meus irmãos - meu pai só veio seis meses depois - mas depois que ela estava com os filhos em volta, conseguiu administrar isso bem. Nós entramos numa rotina de que ela se adaptou à questão do restaurante, aos gostos diferentes, aos temperos diferentes. Ela se sentava na mesa das pessoas e perguntava, na hora que as pessoas estavam se alimentando, perguntando o que eles queriam diferente. Lá eles tinham algumas coisas, ela foi colocando aquilo. Aí ela passou a fazer opção. Ela fazia comida mineira, que ela estava acostumada, e fazia aquilo que eles gostavam. Assim as pessoas foram começando também a se adaptar ao tempero dela e tal. E a gente acabou indo bem nesse processo. No início nós só tínhamos uma empregada no restaurante. Então, assim, a gente areava fogão, limpava panela. As panelas eram enormes, né, e tudo era muito grande. Mas a gente foi se adaptando, aos poucos ela foi trazendo mais gente. As minhas tias foram fundamentais nesse processo, porque elas já tinham ido para o Rio há mais tempo. Uma das minhas tias trabalhava nessa empresa, então ela acabou ajudando a gente muito também. Com isso nós fomos estruturando uma empresa, minha mãe foi passando a administrar isso de uma outra forma. Meu pai veio também, passou a ajudar, mesmo com toda a questão do artista, de vez em quando não sabia bem como planejar, mas ele tinha um lado de alegria e de lúdico, que para a gente também era muito bom. Nisso nós passamos a ser muito elogiados nesse restaurante. Eu passei a ter uma visão de vida profissional que lá no interior eu não tinha. Eu servia cafezinhos nas salas e tal, e eu passei a ver diferentes profissionais, comecei a fazer minhas escolhas profissionais num processo doído, porém ao mesmo tempo muito rico. Nós fomos convidados para administrar um outro restaurante da Coca-Cola, dessa vez para um número muito maior. Então, assim, para encurtar, no final nós tínhamos funcionários,  nutricionistas tínhamos administradores. A minha mãe queria muito que eu fizesse faculdade ou de nutrição ou de administração, mas eu já não agüentava mais aquela coisa de gente reclamando: “Que hoje o feijão tá não sei o quê. Ah, hoje eu vim esperando ter carne vermelha, hoje tem carne branca.” Num dos restaurantes da Coca-Cola a gente passou a ter um esquema gerencial muito grande. Entretanto, nós não acompanhamos o nosso crescimento. Com uma estrutura administrativa também é assim, nós continuamos com uma estrutura familiar pouco profissional. Com isso veio o Sarney com os inúmeros planos dele, e nós quebramos, porque nós não podíamos reajustar os preços por um ano. E quando a primeira lei do reajuste anual dele saiu, que nenhum preço poderia aumentar, nós estávamos no final do período do nosso contrato, então nós já estávamos com o preço defasado. E, assim, a empresa podia ter negociado, pois não era cobrança ao consumidor, mas a Coca-Cola também não negociou, porque eles têm uma lógica de mercado que nós não conseguimos acompanhar, e nós literalmente quebramos.

 

P/1 - Isso em 1986?

 

R - É.

 

P/2 - Vocês já estavam lá há 15 anos?

 

R - 15 anos. E aí nós tínhamos restaurantes em quatro empresas. Nós tivemos restaurante no Jornal O Dia, que é um jornal de grande circulação. Então nós conseguimos ir muito longe com a nossa estruturinha. Só o Sarney mesmo é que estragou tudo.

 

P/1 - Mas vocês quebraram todos?

 

R - Nós quebramos todos juntos, nós quebramos a família inteira, porque nós trabalhávamos todos juntos, trabalhava meu pai, minha mãe e os quatro filhos. Nós já tínhamos casado.

 

P/1 - Nos quatro restaurantes que vocês tinham?

 

R - É. Na verdade eram seis restaurantes em quatro empresas diferentes, sendo que no Jornal O Dia funcionava 24 horas por dia, porque o jornal não para nem no Natal nem no Ano Novo nem nada. Então era uma coisa bem de louco mesmo. E aí quando nós fechamos primeiro os restaurantes, perdemos a concorrência na Coca-Cola, e depois perdemos a concorrência no Jornal O Dia. Porque era quando as empresas, as multinacionais de alimentação chegaram. Então elas tinham um esquema que nós não teríamos como fazer, que eles tinham lá os economistas que colocavam o preço muito baixo, mas o sistema de reajuste deles garantia o ao final do processo. E eles tinham caixa para fazer isso, e nós não tínhamos. Então nós perdemos as concorrências em cada uma dessas empresas. E aí foi um processo doído também, porque nós pagamos com os nossos carros, com os nossos bens o que nós construímos ao longo de 15 anos. E, assim, eu não fiquei triste, mas eu tinha feito a faculdade de Serviço Social, que era uma coisa que eu queria fazer. E aí isso para mim acabou sendo uma coisa boa, porque aí era uma opção. Um dos meus irmãos pediu para não dar o carro dele. Porque, assim, a gente estava devendo a um fornecedor, a gente calculava, fazia a avaliação do carro e entregava o carro. Entregamos todos os nossos equipamentos e tal. Eu tenho um grande orgulho de dizer, assim: “Nós não entramos em falência!” Porque nós pagamos todos os nossos fornecedores, nós pagamos os direitos trabalhistas de todos os nossos funcionários. Então, assim, só nós ficamos com o prejuízo. Mas nós não ficamos, teoricamente, mal com as pessoas. Porque para os mineiros isso é uma coisa, e para o meu pai e para a minha mãe eu acho que isso seria muito complicado. Então, assim, a gente fechou, cada um de nós foi trabalhar numa coisa. Meu pai tinha a aposentadoria dele, de funcionário público. Minhas tias passaram a ajudar minha mãe, porque minhas tias moravam na minha casa para poder estudar, quando eu era pequena. Então minhas tias meio que estavam retribuindo isso. E minha mãe passou a vender produtos de limpeza, porque ela era vaidosíssima, ganhava prêmios por venda. Eu nunca vi uma mulher assim. Aí ela ganhava prêmios porque vendia bem e tal. Aí a gente superou um pouco essa fase, mas nunca mais voltamos o padrão de vida que tínhamos nesse período. Que a gente podia viajar em férias, tínhamos carros, trocamos carros - carro zero - com uma certa freqüência. Mas a gente conseguiu superar. Um dos meus irmão se mudou para o interior de Minas. Um dos meus irmão pediu para não dar o carro dele em pagamento à dívidas, para que ele pudesse continuar com a família dele, sustentando a esposa, e a esposa dele estava grávida na época. E aí ele comprou um táxi. Aí todo mundo acabou continuando sobrevivendo bem.

 

P/2 - E nesse meio tempo você fez uma faculdade? Como foi isso, a mudança?

 

R - Nossa, isso para uma menina que veio do interior... Primeiro, consegui acompanhar o ensino de Rio de Janeiro, vindo de uma cidadezinha do interior, então isso foi muito complicado nos colégios, estudar à noite trabalhando. Para mim que tinha aquela vidinha de subir em árvore, brincar, meio trabalhar, meio brincar, isso foi meio sério. Mas a gente acabou conseguindo superar porque a gente foi fazendo as coisas que tinha que fazer, e eu fui estudando. E a minha mãe não pôde estudar, e ela achava isso um problema na vida dela. Então ela meio que batalhou para que nós estudássemos. Mas ela achava importante que nós estudássemos, concluísse o ginásio, se fizesse o segundo grau para ela já estava muito bom. Fui a primeira pessoa da minha família, entre as minhas tias, a entrar numa faculdade. E eu, assim, consegui passar para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, fui uma das primeiras colocadas no vestibular, apesar de estudar num colégio bem precário. Nós tínhamos pouco dinheiro para pagar, então a gente pagava, lá era colégio particular, mas era um ensino bem precário. Mas eu estudei muito, fiz um grande esforço, aí eu consegui passar na UERJ. E o curso foi muito bom porque, assim, o Serviço Social acabou me abrindo um horizonte de análise, de contexto de realidade. E a UERJ tinha uma linha bem à esquerda, então isso a gente fazia uma análise crítica mesmo. Participei de muita greve na UERJ, porque naquela época os professores faziam menos greves do que os alunos.

 

P/2 - Era a época da mudança mesmo.

 

R - Não é? Então, assim, o movimento das “Diretas Já!” foi para a rua, e isso para mim, assim, me abriu um outro horizonte. E aí passei a analisar a realidade de outra forma. Por vir do interior tinha uma sensibilidade com as questões sociais muito grande. Passei a trabalhar, né, quando nós fechamos os restaurantes, logo em seguida eu consegui um emprego para trabalhar num hospital psiquiátrico. Isso para mim foi um outro choque, uma realidade muito dura. Fiquei lá por uma ano e meio, implantamos uma série de inovações neste hospital psiquiátrico. Depois passei a trabalhar num hospital que era maternidade e clínica, o único hospital da Zona Oeste do Rio.

 

P/2 - Aí já formada?

 

R - Já formada. Eu fiz estágio, que foi o que direcionou a minha vida profissional. Eu fiz estágio na área de saúde e na área de educação. E aí acabei atuando mais na área de educação. E aí as minhas especializações vinham muito por conta disso. Eu estava atuando numa área tinha, não tinha conhecimento suficiente, ia fazer uma especialização naquilo. Abriu um novo mundo para mim. Fui oradora da turma, uma coisa muito legal. Minha formatura foi uma marca muito grande.

 

P/2 - Tem alguma coisa, um acontecimento, uma experiência dessa vida universitária que você acha que te pegou?

 

R - Greve.

 

P/2 - As greves?

 

R - Liderar a greve.

 

P/2 - Então conta um caso.

 

R - Nós tínhamos, a linha de Serviço Social da UERJ era uma linha histórico-crítica, que é dessa linha de uma análise crítica da realidade mais voltada para o socialismo e tal. E a gente estava num período lá de final de período de ditadura militar. E o diretor da Faculdade de Serviço Social demitiu os quatro principais professores dessa linha na universidade. E eu estava no quarto período, e eu estaria indo para o quinto período. Que o sonho de todos os alunos de Serviço Social na UERJ era chegar no terceiro período e começar a ter aula com esses professores. Então a gente tinha, assim, só eventos com eles, e a gente ficava babando: “No dia que eu tiver aula com esse professor e tal.” E aí o que aconteceu? Eles seriam nossos professores no semestre seguinte, no período seguinte, e eles foram demitidos. E aí os alunos do sexto, sétimo e oitavo período foram nas nossas salas para pedir apoio, porque eles iam fazer um  movimento em apoio a esses professores. E o diretor da nossa faculdade trouxe os professores da Gama Filho, que eram de uma linha de direita, era tudo o que a gente abominava e não queria. Hoje penso, morro de pena deles, porque a gente não entrava na sala quando eles entravam, e se a gente entrasse na sala a gente detonava eles com perguntas e com questionamentos, que eu não sei como eles ainda entravam na sala. E aí como a gente ficou fazendo esse movimento de represália aos professores que chegaram, mas eles continuavam entrando na sala, nós resolvemos que a gente não entrava em sala em aula nenhuma. E o diretor foi muito rigoroso, e ele deixou que nós ficássemos 40 dias sem entrar na sala de aula e não abriu negociação. Nós sentávamos no corredor da sala dele e ninguém entrava nem saía da sala dele, mas também ele não abria a porta para a gente. Até que a gente pensou, nós analisamos, né, o comando de greve, nós analisamos que quem é que fazia mesmo o comando forte era o pessoal dos períodos mais do sétimo, oitavo, que eles eram mais poderosos do que nós, mais conhecimento, mais influência, né? E a gente participava das assembléias e votava. E aí nós vimos que nós passaríamos um ano sentados naquele corredor e o diretor não abriria a porta para nós, porque o reitor da universidade também não estava dando muita bola para a gente. Aí nós armamos um sistema de mobilização da UERJ e nós saímos de manhã, à tarde e à noite. Eu trabalhava o dia inteiro, então eu só ia à noite. Mas nós fomos em todas as turmas, de todos os cursos da UERJ pedindo apoio. E nós paramos a UERJ por três dias. Isso para mim é, assim, um marco histórico, entendeu, porque nós paramos outras universidades, outras faculdades que não tinham nada haver com o que estava acontecendo com a gente. Nós paramos primeiro a Faculdade de Direito, depois Medicina, e a gente foi parando tudo na UERJ, a gente parou a UERJ inteira por três dias. E fazendo mobilização ali na entrada da UERJ. Eu lembro a gente andando pelos corredores e tal. Isso para mim foi o maior marco, assim, em termos de saber o que é cidadania, do que um cidadão tem direito, de você lutar. Isso para a minha carreira foi, assim, fundamental aquela experiência. Acho que mais do que a formatura, para mim isso foi um marco. E depois ter aula com esses professores que nós fizemos voltar, entendeu? Então isso para a gente foi realmente. Agora, a gente exigia muito dos pobrezinhos, que eles deviam o emprego deles a nós que estávamos ali. Mas eles corresponderam às expectativas. Então para mim esse foi o grande marco da faculdade.

 

P/1 - Você trabalhava também?

 

R - Eu trabalhava nos restaurantes.

 

P/1 - Ah, nos restaurantes.

 

P/2 - E agora você poderia falar um pouco da sua trajetória profissional até o CDI, por exemplo, por onde você passou, como foi?

 

R - Tá. Depois dos restaurantes, quando a gente fechou, uma amiga da faculdade me indicou para cobrir licença maternidade de uma assistente social numa clínica psiquiátrica. Eu nunca tinha trabalhado como assistente social, eu tinha só experiência de estágio, sempre supervisionada por pessoas muito boas, eu sempre tive essa felicidade. E eu cheguei lá na clínica para trabalhar e a assistente social já tinha saído de licença. Então não tinha ninguém para me ensinar o trabalho. Os médicos atendiam os pacientes psiquiátricos com um enfermeiro do lado, mas a assistente social, que eu era a única, não tinha ninguém do lado para atender. E assim, uma experiência que me marcou nessa clínica, é que eu tinha aprendido na faculdade que você tem que garantir o sigilo do cliente com quem você está tratando, que você está tratando de questões individuais da vida dele. Então você tinha que ter uma sala com uma porta fechada, para garantir que ele ficasse à vontade e tal. E aí eu fui lá, me mostraram a clínica, era uma clínica que atendia 160 pacientes do sexo masculino. E tinha uma salinha que ficava na enfermaria, para a gente atender. E aí entrou o primeiro cliente, eu fechei a porta para ele, com tudo que eu tinha aprendido. Me entregaram os prontuários, eu chamei, o rapaz sentou, o rapaz estava bem desorientado. E aí eu querendo ver de que forma eu poderia contribuir, né, o que ele queria e tal. E lá tinha um sistema de serviço social muito antigo, muito ultrapassado. Que as assistentes sociais eram basicamente as meninas de recado, que levavam recado da família para o paciente, recado do paciente para a família, recado do médico para a família. Então, pelo meu temperamento isso foi me incomodando. E nessa primeira vez que eu atendi a esse paciente, entrou uma enfermeira na sala, meteu a mão na porta, entrou e falou: “Nunca trabalhou não?” Eu falei para ela: “Já, trabalho desde os meus 15 anos de idade.” Aí ela: “É maluca de se trancar com um paciente psiquiátrico numa sala. Se ele surtar aqui e quiser te matar, até a gente chegar ele já te matou.” E isso ela falou na frente do cara. Então eu fiquei, assim, muito chocada, foi uma coisa para mim de uma violência, comigo, com o cara, com tudo, a vontade era ir embora. Aí eu falei com ela: “Mas, não entendi?” Aí ela: “A sala de enfermagem é aqui do lado, você deixa a sua sala aberta, nossa sala está aberta, se entrar mais de um paciente você peça para ele sair. Um está sentado, o resto tem que ficar em fila. Se entrar mais de um você grita, que a gente vem tirar o que estiver a mais. Se você pedir para o paciente sair e ele não sair, você grita, que a gente vem arrastar ele.” E aí isso para mim foi, assim, aprender a lidar. E aí, assim, na hora do almoço ela andou e falou: “Tá vendo aquele fulano, era um rapaz que andava, pulava pelo pátio balançando a mão. Aí ele é chamado de borboleta, porque ele vem pulando para o seu lado, balançando a mão, e balança a mão na sua cara e te joga longe. Então você presta atenção.” Era uma coisa meio surreal, sabe? E aí eu ficava ao mesmo tempo que com medo, achando que eu tinha o dever de fazer alguma coisa, de mudar aquela realidade. E assim, com muito custo depois chegou uma psicóloga que começou a trabalhar lá, que era uma pessoa com mais experiência, que me ajudou muito. O nome dela é Marina, uma grande profissional. E assim, eu e Marina acabamos fazendo uma dobradinha muito boa, que a gente passou a atender sempre que possível juntas. Quando não juntas, uma do lado da sala da outra. Ela acabou me dando uns toques muito bons. E a gente implantou reuniões de família, fomos nós que estávamos no movimento de abertura dos manicômios. Aquele era considerado um dos piores do Rio de Janeiro. Eu sempre ia parar nos piores, então era um dos piores do Rio. A gente conseguiu implantar, gradativamente, porque até os pacientes não tinham costume de sair. Era um sítio lindo, lindo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, com uma área verde maravilhosa. E eles ficavam trancados num espaço muito reduzido. Uma mau cheiro de urina, de tudo. A gente acabou implantando um sistema de ir abrindo, e nós é que acompanhamos essas pessoas no pátio. Que os enfermeiros fizeram um movimento contra essa proposta. Os médicos gostaram mas disseram que não iam acompanhar. Então a gente teve todo um sistema de implantar isso. E as famílias ficavam muito angustiadas. E tinha uma coisa que era muito ruim, que os pacientes recebiam alta, mas as famílias não iam buscar, porque não sabiam lidar com aquela loucura, né? Então a gente ia entregar paciente em casa. [pausa] Algumas vezes a família dava endereço errado, e aí o paciente meio desorientado acabava, assim, indicando: “Eu sei que é na Tijuca.” Aí a gente andava a Tijuca inteira. Normalmente eram nas favelas, nas comunidades de baixa renda. E aí eles é que iam indicando. Assim, nessa experiência com esses pacientes, de levar em casa, dá um livro, porque é enfrentar o tráfico para poder entrar, é ser escoltada pelo tráfico para levar paciente, é o traficante que dizia para a gente não entrar, porque ele ia fazer a família ir lá, e a família aparecia no dia seguinte. Então a gente tinha, assim, inúmeras experiências nesse processo. Mas o mais rico dessa experiência nessa clínica foi abrir a clínica, os pacientes poderem passear naquele pátio. Fazer reuniões de família, porque não tinha espaço para fazer, a gente fazia debaixo de uma árvore. E assim, o dia que chovia, as famílias ficavam. E a gente mudou, assim, a história da relação das famílias, porque as famílias não sabiam lidar com eles, e o fato da gente poder estar atendendo, falando com eles, era uma coisa muito boa. Então a gente começou a aproximar a família. Aí eles pediam dicas: “Como eu faço?” Porque a gente começou a trabalhar e a ensinar aos membros a entender quando o paciente estava entrando em crise. Começamos a trabalhar com paciente, que se ele não queria entrar em crise ele precisava tomar medicação. Então a gente teve todo um trabalho que foi muito rico. Eu pedi as contas nessa clínica numa reunião de equipe com a coordenação, com a direção. Mudou a direção da clínica, e eles voltaram ao esquema anterior, e eu não conseguiria sobreviver, ver tudo o que a gente lutou tanto. E aí pedi demissão na reunião, e não tinha nem outro emprego. Era casada, tinha já uma filha. Pedi demissão, e 15 dias depois a nutricionista da clínica me indicou para essa outra clínica, esse hospital que ela trabalhava, e 15 dias depois eu estava empregada. E implantei o serviço social e o atendimento à gestantes nessa clínica, que era a única maternidade em toda Zona Oeste. Fazia uma média de 1500 partos por mês, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Aí implantei sistema de acompanhamento a pré-natal, preparação para os primeiros cuidados de puerpério e tal. Tudo isso pesquisando muito e arriscando muito também. Essa foi uma experiência razoavelmente curta, mas muito rica. Porque, assim, o contato com a maternidade e tal, para mim foi muito bom. Tudo que eu aprendi no tratamento, tendo a oportunidade de ter uma assistência médica adequada, as orientações que minha médica me passou, tudo isso eu acabei replicando, assim, de sentar com a minha médica e fazer um planozinho e replicar. E aí... [pausa]

 

P/2 - A gente parou?

 

R - Parou na clínica que eu trabalhava.

 

P/1 - Era pública, né?

 

R - Na verdade era muito ruim, porque era uma clínica particular recebendo do SUS. Então tinha uns esquemas bem complicados, bem sérios, mas que a gente conseguia meio que driblar. Eles faziam uma cobrança num carnê, que as pessoas iam pagando. E pagavam a ligadura de trompas, e as mulheres sem a menor orientação fazendo ligadura. E a primeira coisa que eu instituí foi esse atendimento pré-natal, e dizendo: “Quais são as questões que fazem uma pessoa se arrepender de ter feito ligadura?” E aí um dia que o diretor ficou lá em cima e assistiu, mandou me chamar para dizer: “Porque essas pessoas precisam ver essas crianças como são colocadas no mundo.” Aí eu falei que eu concordava, desde que elas entendessem o que elas estivessem fazendo. Se elas soubessem o que estavam fazendo.

 

P/2 - São donos de si.

 

R - Porque eu acreditava na possibilidade delas decidirem o que era melhor para elas. E eu achei que eles iam me tirar, mas não me tiraram não, mantiveram. E assim, dentro do SUS eles foram até elogiados por essa iniciativa e tal. E aí nesse período meu irmão tinha mudado para Friburgo, estava trabalhando num projeto social em Friburgo. Não, antes disso eu fiquei trabalhando em Manhuaçu, em Minas Gerais, resolvi que ia mudar para lá e não sei o quê, e fiquei trabalhando por um ano, viajando toda noite de quarta-feira. Viajava a noite inteira, trabalhava toda quinta-feira, o dia inteiro lá, num programa de educação para portadores de necessidades especiais e meninos de rua. E voltava toda quinta à noite. Então eu trabalhava na clínica e nesse projeto.

 

P/1 - Manhuaçu é perto do Rio?

 

R - Minas Gerais, perto da cidade onde eu nasci.

 

P/2 - Ah, tá.

 

R - Então, nesse processo o meu irmão acabou mudando para Friburgo, implantou um projeto lá para meninos de rua. Chamou para trabalhar com ele, e três vezes por semana eu ia para Friburgo. Acordava às quatro e meia da manhã, pegava o ônibus de seis horas na rodoviária do Rio. Nove horas eu estava no projeto. Seis e meia da noite eu estava no ônibus voltando para o Rio, entrava em casa dez horas da noite. Fiquei por um ano e meio assim. Também foi um trabalho muito bom. E implantamos em Friburgo um programa de atendimento a vítimas de violência. Foi quando fui fazer minha especialização em violência e saúde pública. E aí também foi um grande crescimento, vi muita coisa feia, muita coisa ruim. Mas, assim, passei a entender muito que eu não entendia. E sempre gostei muito de pesquisar e de estudar. Então, estava trabalhando com algo que não entendia, ia buscar um curso e ler muito sobre isso. Aí fiz a minha especialização. E o projeto em Friburgo fechou, passamos quatro meses sem receber salário, essas coisas de programas públicos. Tinha a possibilidade de complementar o que eu estava estudando e fazer mesmo uma especialização boa na Fiocruz, no Rio de Janeiro, e eu tinha me inscrito e fui selecionada, porque era a primeira turma que eles estavam implantando lá, e eles queriam implantar com pessoas que tivessem experiência na área, para que contribuíssem para a formalização desse curso. E aí foi no Clarus, o Centro Latino Americano de Estudos para a Violência, que tem até hoje lá na Fiocruz, e eu fui da primeira turma desse curso. Nem procurei emprego, porque tinha os quatro meses de salário e era um curso intensivo. Então a gente estudava o dia inteiro, tinha duas semanas de intervalo, que a gente ia a campo pesquisar. Aí apareceu um emprego na Pastoral do Menor, quando estava esperando a resposta pra fazer esse curso. Aí eu fiquei pensando se eu aceitava o emprego ou se ficava com o curso.

 

P/2 - Isso, para a gente se localizar, em que ano?

 

R - 1993, por aí.

 

P/2 - Quando Rio estava?...

 

R - É, isso. Aí, o que aconteceu? Fui na Pastoral, fiz a entrevista e disse que só ficaria se pudesse ser liberada para o curso. E aí eles toparam, comecei a trabalhar. A Pastoral tem um trabalho com meninos de rua, com jovens de favela. E o lema da Pastoral, que eu sei que é até hoje, era atender aquele menino que ninguém queria trabalhar com ele. Então a gente trabalhava com aquele que era mais complicado. E foi um trabalho muito interessante de preparação desses jovens para o mundo do trabalho. A gente tinha oficinas de cidadania com esses jovens, e aí foi uma experiência riquíssima de ver esses jovens se tornando lideranças nas suas comunidades e nos movimentos comunitários no Rio de Janeiro. O tráfico já era muito forte lá; muitos meninos saíram do tráfico, muitos meninos voltaram para a escola. Foi assim, trabalhei lá por cinco anos, e foi uma experiência...Porque normalmente nos outros trabalhos eu começava e depois ia ficando meio desanimada, pois você implantava, lutava, lutava e depois ia caindo meio na rotina. Na Pastoral não tinha isso, já que a cada ano tinha planejamento e aí a gente planejava melhorar muito mais o trabalho. Uma equipe muito boa, pessoas muito comprometidas. Com problemas, como toda organização, mas eu nunca vi uma organização como a Pastoral do Menor do Rio de Janeiro, tão comprometida em atender e se dedicar para o público para o qual ela quer trabalhar. Mais do que a questão religiosa, eles tinham compromisso com a cidadania e o desenvolvimento do indivíduo. Então isso para mim foi muito bom, um aprendizado muito grande. E aí na Pastoral do Menor senti a necessidade de entender mais o processo educativo, aí foi fazer especialização em psicopedagogia. Na Pastoral eu tive uma estagiária chamada Alessandra Demuros, que foi uma ótima estagiária. E a Alessandra, quando chegou o período dela de formatura, ela já tinha ido fazer estágio em outros lugares, ela foi me levar o convite dela de formatura e falou que estava trabalhando no CDI, que era um Comitê para Democratização da Informática, que era um projeto que estava ainda meio que começando mas que era uma iniciativa muito legal, que ela acreditava muito no trabalho. E eu trabalhava na Pastoral 30 horas por semana e a Pastoral estava com pouco dinheiro, e eu precisava ganhar mais porque o salário do meu marido já não estava dando. E eu brinquei com a Alessandra: “Quando tiver uma oportunidade lá, lembra de mim, né? Se eu realmente fui uma boa supervisora para o seu estágio - que ela dizia que eu era -, quando tiver uma oportunidade, lembra de mim lá, de repente você vai ser chefe lá, chama para ser sua assistente”,, alguma coisa assim. E meses depois a Alessandra me ligou dizendo: “Raquel, a coordenadora de projetos sociais daqui está saindo, eu indiquei teu nome, eles querem fazer uma entrevista com você.” Aí eu fui, fiz uma entrevista com essa coordenadora que estava saindo, felizmente ela gostou muito de mim, me levou para conhecer o Rodrigo Baggio. Eu fui conhecer o Rodrigo, fiz uma entrevista com o Rodrigo, o Rodrigo disse que tinha gostado. Aí foi muito interessante porque ele falou, perguntou se eu estava acostumada a trabalhar com pessoas de temperamento forte, porque ele defendia muito bem as idéias dele, eu falei que estava, mas eu precisava trabalhar com pessoas que também estivessem acostumadas a trabalhar com outras pessoas de temperamento forte, porque eu também defenderia com garra as minhas idéias. E aí ele me disse que ligaria, dentro de uns dois dias ele ligaria. Ele não me ligou dentro de dois dias, achei que não tinha sido selecionada. E eu estava numa oficina com líderes comunitários quando meu telefone tocou, era Rodrigo perguntando se eu podia estar indo lá, porque ele achava que queria que eu ficasse. E ia ficar apart time, então eu ia trabalhar 20 horas por semana no CDI e 20 horas por semana na Pastoral do Menor. E gostei disso porque aí não deixava a Pastoral, porque era apaixonada pelo trabalho que fazia. E não entendia muito o processo do CDI, então para mim era assim meio de ir, mas garantir que aquilo que eu estava segura, aí eu fui. A coordenadora ficaria comigo durante um mês para me passar o trabalho, mas ela tinha - era a Rosângela - que fazer uma cirurgia no nariz e ela piorou na primeira semana que eu estava lá, então ela não pôde ficar para estar passando adequadamente. Mas a Alessandra (que hoje não está mais no CDI, e que tinha sido minha estagiária e que era assistente no setor de projetos sociais) e a Lucila (que está lá até hoje, é a coordenadora de projetos sociais da matriz) estavam lá e elas foram maravilhosas comigo, porque eu já brincava, o pessoal falava: “E isso?” Eu falava: “Ah, não sei, eu tenho que perguntar para a Lucila e a Alessandra, porque eu estou na aba delas.” Então, assim, eu dependia delas, e por uns três meses fiquei na aba das meninas, aprendendo o que era o CDI. E uma coisa interessante é que o Rodrigo me chamou e ele falou assim: “Nesse fim-de-semana, sexta, sábado e domingo nós vamos ter o terceiro encontro da Rede CDI. Não lembro se era o segundo ou se era o terceiro encontro da Rede CDI. E hoje estou dando entrevista no sexto encontro. E aí ele me chamou para eu ir no encontro, que ele achava que eu ia entender a rede participando do encontro. E para mim foi uma loucura, porque levantava o pessoal de cada Estado e levantava questões diferentes. E a Alessandra e a Lucila participando da organização, e Rosângela também, não podiam ficar me dando muitos dados. Então eu tinha um bloquinho onde eu anotava tudo que eu não tinha entendido, na hora dos intervalos eu sentava com elas e perguntava: “O que é isso, o que é isso, por que ele falou isso, por que ele falou aquilo?” Então, assim, eu entendi o que era a rede, porque a rede estava ali. E aí na semana seguinte eu já comecei a trabalhar. Então eu comecei em dezembro. O encontro foi no início de dezembro, eu trabalhei. Foi em novembro, acho, trabalhei em dezembro.

 

P/1 - E qual era a tua função?

 

R - Coordenadora de projetos sociais. E nessa época a atividade do CDI - Rio de Janeiro e a atividade do CDI - Matriz era tudo junto. Então a gente atendia as escolas do Rio de Janeiro e atendia a rede, né? E aí o nosso trabalho, a gente foi, eu comecei a ter contato. E, assim, a minha experiência na Pastoral foi fundamental, porque eu tinha o aprendizado da questão da educação para adolescentes e eu tinha a experiência da formação de educadores comunitários, então eu trabalhava com formação de líderes comunitários para gerenciar os núcleos nas comunidades. E o CDI trabalhava com líderes comunitários para coordenar os núcleos, que eram as Escolas de Informática e Cidadania, nas mesmas comunidades, em alguns casos. Então aí a gente, a primeira providência foi fazer uma reunião com esses coordenadores das Escolas de Informática e Cidadania. Fiz com eles, como primeira coisa, avaliar o que vocês vêem de bom e as dificuldades que vocês vêem na parceria com o CDI. Que eu queria isso para nortear o planejamento do setor. Foi muito rico. E aí eles falaram o quanto eles achavam importante o trabalho, mas eles precisavam de mais suporte e mais capacitação. E aí junto com a Alessandra e a Lucila nós implantamos a capacitação para coordenadores, porque só existia capacitação para educadores das Escolas de Informática e Cidadania. Nesse processo a gente começou a fazer uns encontros com eles, e a gente fez, acho, que uns seis ou sete encontros em que trabalhamos os temas que nós queríamos. E a primeira coisa que nós trabalhamos: “Que parceria é essa?” “Porque tem que ter essa parceria para que fique todo mundo feliz.” E aí nesse processo a gente acabou implantando um novo sistema de capacitação para as EICs, onde os coordenadores também eram capacitados. O que a gente tinha? A gente tinha o grupo das escolas que já existiam, que os coordenadores tinham sido preparados, tinham sido trabalhados por uma série de conteúdos, inclusive gestão financeira, captação de recursos. Porque a gente trabalhava em cada encontro o que eles queriam trabalhar. Aí a gente fez um módulo básico de capacitação para os novos coordenadores, para que eles entrassem no mesmo nível de conhecimento e mais à vontade dentro dessa parceria. E hoje isso que a gente fez lá está sendo replicado em toda rede. Então, assim, isso foi muito legal, porque a gente, no contato com essas escolas, a gente implantou um modelo que foi feito junto com eles. Depois de um tempo o Rodrigo me chamou para coordenar a Rede CDI. E aí eu lembro que eu sentei...

 

P/1 - Em que momento surge a idéia da rede?

 

R - Já era rede, quando eu entrei já era rede. Só que ela era uma rede muito dispersa, as pessoas não estavam muito conectadas. E assim, cada lugar estava fazendo do jeito que achava melhor, né? Tinha uma sistematização administrativa mas não tinha uma sistematização metodológica. Aí nesse momento a gente começa a pensar nisso, eu e Estela, que era a coordenadora pedagógica na época, acabamos fazendo essa incursão juntas, de preparar. E aí a área pedagógica, que é a área que teoricamente era de projetos e coordenação da rede, nó começamos a trabalhar muito juntas. Nisso surge a separação do CDI - Rio de Janeiro, a necessidade de ter um espaço para o CDI - Rio de Janeiro, a rede tinha muito ciúme desse Rio de Janeiro, que era ao mesmo tempo matriz e ao mesmo tempo... E aí diziam que eles eram privilegiados, que eles ficavam com o filé, essas coisas. E aí o CDI - Rio de Janeiro se desmembrou da matriz, aí Lucila foi para coordenar a área que eu coordenava e eu fiquei só com a coordenação da rede. E a primeira coisa que eu fiz quando eu peguei a coordenação da rede foi o mesmo que eu fiz com as EICs: ligar para cada coordenador, saber como ele avaliava participar dessa rede, quais eram os pontos positivos e os pontos negativos desse processo. Com os pontos negativos a gente implantou um processo de gestão para a rede, de capacitação para essa rede. Então no encontro seguinte que a rede fez, a gente não fez só o encontro, fez uma semana de capacitação.

 

P/1 - Com os coordenadores?

 

R - Para os coordenadores dos CDIs regionais. E Estela fez para os coordenadores pedagógicos. A partir daí isso é uma prática que é usada até hoje. E nesse processo, assim, conhecer, encontrar os coordenadores, e aí tinha um coisa interessante, não tinha verba para viajar. Então as pessoas falavam dos problemas e a gente tinha que resolver isso virtualmente. Então a gente ficava trocando e-mails, a gente falava por telefone. E o fato de ter ligado para saber como eles se sentiam, alguns coordenadores acabaram criando um vínculo de confiança e isso acabou facilitando o trabalho. E o Rodrigo tinha me dado como missão, quando ele disse que queria que eu fosse, era que eu criasse um vínculo entre essa rede, que essa rede tivesse links. Então a gente nos encontros trabalhava muito isso, a gente passou a ligar para cada CDI para ele ir no encontro. E aí a falta de verba e não sei o quê, e a gente começou meio que dizer que precisava incluir nos projetos de captação verbas para os regionais participarem. E nisso isso foi crescendo, e a cada ano os recordes são batidos, de número de participantes.

 

P/1 - Que tipo de dificuldade existia nesse período, na formação, assim, neste levantamento que você faz dos coordenadores? Quais eram as dificuldades que eles sentiam?

 

R - Que eles só tinham que fazer relatório, mas eles não tinham um retorno do relatório; que eles faziam observações no final dos relatórios deles, mas não recebiam feedback sobre isso; que era muito distante; que não tinha contato. Na verdade ficou identificado, era o que o Rodrigo tinha me dito, né, faltava vínculo entre as rede, as regionais e a matriz, entre os regionais. E aí nesse processo a gente acabou implantando os encontros regionais, alguns com uma verba que a gente tinha. A gente fez alguns encontros regionais. Nisso os regionais começaram a se encontrar mais perto de casa, aí podia ir mais gente. E aos poucos eles foram também se fortalecendo, vendo que estavam passando pelas mesmas situações, às vezes uma boa prática, uma coisa que alguém tinha feito e que tinha dado certo, eles poderiam estar dividindo. Isso foi um processo que foi se construindo. Com a parceria com a Vale do Rio Doce, quando nós fomos negociar a parte operacional da parceria com a Vale do Rio Doce, nós colocamos a importância de que houvessem visitas presenciais, que esses comitês fossem ao Rio de Janeiro para ser capacitados e que a gente também visitasse. Então eu e Estela passamos a visitar duas vezes por ano esses regionais. Mas aí não estava legal porque eram só seis regionais, que eram...

 

P/1 - Quais eram os regionais?

 

R - Era o CDI - Minas Gerais, CDI - Maranhão, CDI - Pará, Sergipe, Espírito Santo. Falta um, deixa eu contar de novo: Espírito Santo, Minas Gerais, Sergipe, Pará, Maranhão.

 

P/1 - São Paulo?

 

R - Falta um no Nordeste.

 

P/1 - Pernambuco, não?

 

R - Bahia.

 

P/1 - Bahia. É.

 

R - Onde eu estou agora. [risos] Bahia. Então na verdade é Bahia, Sergipe, Maranhão, Pará, Espírito Santo e Minas Gerais. E aí a gente começou a notar que esses CDIs tinham um destaque, começaram a crescer, começaram a sentir mais seguros, a qualidade começou a melhorar, e aí a gente começou a achar importante também estar visitando outros regionais. E aí isso hoje já tem os encontros regionais.

 

P/1 - Mas todos do Nordeste, né, fora Minas?

 

R - São dois do Sudeste, né, Espírito Santo e Minas, os outros três eram Nordeste, e Pará no Norte. E depois a gente começou a fazer uma coisa, por falta de verba, começamos a aproveitar a verba. A Vale do Rio Doce pagava para a gente ir a Sergipe, aí a gente dava um pulinho em Pernambuco, porque tinha só que pagar uma perna da passagem, ficava mais fácil. A gente começou meio que aproveitar também. Foi assim que a gente foi ao Ceará, Pernambuco e a uma série de outros regionais.

 

P/1 - Que temas vocês tratavam na capacitação dos coordenadores?

 

R - É, a gente sempre trabalhou o que eles diziam que era demanda, mas nós acabamos implantando um sistema - a minha parte foi - sistema de implantação de EICs; como identificar as organizações que têm potencial para implantar uma EIC; como capacitar essa organização para gerenciar uma EIC. A gente trabalhou passo a passo da implantação de uma EIC. Depois trabalhou para replicar o passo a passo para a implantação de novos CDIs. Que eu costumava brincar que era mais fácil implantar uma EIC do que implantar um CDI. Porque não se visitava quem ia implantar o CDI, mandava um questionário, eles respondiam, a gente fazia uma entrevista por telefone e implantava um CDI. Mas para implantar uma EIC, eles tinham que fazer um projeto, tinha que visitar para saber de era realmente aquilo. Então aí a gente implantou um novo sistema para abrir novos CDIs. Passamos a ser mais rigorosos, porque agora a questão da qualidade era uma grande preocupação. A questão da coerência em toda a rede, da metodologia, era uma preocupação. Então a gente passou a fazer algumas exigências. E uma das exigências é que tinha que ter capacitação, só começava um novo CDI se aquele CDI fosse capacitado tanto na parte de implantação de EICs, captação de recursos, estabelecimento de parcerias, como na parte pedagógica. E aí isso hoje é o que está valendo. Esses novos comitês, muitos dos comitês que existem hoje não existiriam se fosse implantar hoje. mas eu acho que eles fizeram história, entendeu, e por isso eles estão aí, estão aí até hoje. [pausa]

 

P/1 - Quer dizer, na formação da rede, que marcos você visualiza em termos de períodos, coisas que marcaram a formação da rede?

 

R - Entrei na rede quando ela estava começando a falar que talvez tivesse crescendo mais do que era possível. Entrei num momento de... E assim, até pelo que a gente vinha discutindo, pelo que eu tinha visto nas EICs no Rio de Janeiro, eu achava importante, primeiro, a questão da capacitação. E, Estela e eu, a gente era muito afinada e acabamos fazendo esse processo de uma forma bem sistematizada, né? Então a gente conseguiu implantar essa questão da capacitação de um regional e a questão do acompanhamento dos regionais. Porque os regionais mandavam relatórios trimestrais, mas não havia realmente um acompanhamento e tal. E aí com esse processo e com o que a gente fez, todo mundo gostava de vir nos encontros. Esse era um evento especial. Então já que gastaram para vir, vamos aproveitar e vamos fazer a capacitação, né? Então aí eram feitas as capacitações. E assim, é muito importante o que eu sempre escutei em toda a rede: “Quem vem ao encontro nunca mais esquece.” Porque é no encontro que as pessoas se sentem rede, né, é no encontro que elas vêem que o que ela está fazendo faz parte de universo muito maior. E as capacitações a gente fez com muita dinâmica, sempre com muita dinâmica, muitos jogos, era uma coisa, assim, que eles brincavam e trabalhavam muito. Era muito cansativo porque a gente tinha que aproveitar a verba, então era o dia inteiro. Aqui o pessoal está ficando o dia inteiro e ainda fica a noite, então está parando dez horas da noite. O pessoal reclama que está cansado, mas ninguém deixa de ir lá para as reuniões à noite. E assim, as reuniões à noite eu sei que não estavam programadas, mas é o pessoal que tem necessidade e fala: “Não, não podemos voltar sem resolver isso!” Então eles ficam. Então, assim, o que eu vejo é implantação de um sistema de garantir qualidade. O que eu acho que é um marco desse período é a preocupação em garantir qualidade do atendimento, garantir qualidade para as EICs, garantir a qualidade para o jovem, para o adulto ou para a criança que vai ser atendida lá na comunidade. E a sistematização, porque é nesse período que se implanta o modelo de Franquia Social. Nós elaboramos todos os manuais, lemos aquilo inúmeras vezes. Porque foi contratada uma empresa para estar orientando a gente para a implantação de um modelo de franquia social. Eles não tinham muita experiência com isso, então, assim, a gente se entender foi um processo também complicado. O material era muito extenso, então cada vez que ele era modificado nós tínhamos que ler muito. Lucila e Alessandra foram fundamentais nesse período, porque pela prática delas com as EICs e tal, elas é que davam realmente o tom desse material. Estela, cada área trabalhou muito para fazer esse material, que nesse momento está em fase de reformulação, que agora ele já está em fase de precisar ser revisto. Mas isso também foi um marco, cada CDI receber um CD com todo conteúdo pedagógico, com todo conteúdo para implantação de rede. Cada CDI hoje que faz uma capacitação e leva aquele CD, que tem um manual, tem um compromisso. Instituímos um novo modelo de compromisso com essa rede. Isso foi um certo estresse, por que o que aconteceu? Todo mundo vinha de uma relação mais informal e esse documento era um documento que eles achavam mais pesado. E a gente precisou trabalhar muito a confiança, o pertencer à rede, a rede tem vantagens mas ela tem compromissos que precisam estar documentados e garantidos. Então foi nesse momento, que é o mesmo momento também de o CDI estar começando com um conselho que também é um conselho que é mais participante, que está traçando linhas. Algumas vezes a linha do conselho não era muito a linha da equipe. E a gente precisou também de um tempo para estar estruturando isso. O conselho saber que existia uma equipe com certo potencial e com conhecimento. Nós também valorizarmos a sistematização que o conselho trazia. Então esse foi um período assim. E o CDI tem por característica de ser muito corrido, muita demanda, muita questão para resolver, e uma diversidade muito grande. Os internacionais, o Nordeste, o Sul, então assim, é uma diversidade muito grande, né? Rodrigo muito empreendedor. Então, assim, tem sempre que um novo olhar e um novo espaço para atuar. Então a gente sempre teve que estar lidando com demanda, qualidade. E eu sei que hoje continua sendo o desafio da rede, né, crescer, mas garantir qualidade. É uma questão importante para o CDI - Matriz planejar muito bem o seu crescimento e o seu sistema de acompanhamento de capacitação. E é o mesmo desafio lá para o regional em relação às EICs, né? “Implantar novas EICs se eu não tenho um pessoal para acompanhar e todo esse processo.”

 

P/1 -Assim, o CDI tem uma proposta que se constitui como uma franquia e ao mesmo tempo, quer dizer, tem os contextos regionais, né? Em que medida os contextos regionais dão sua marca na constituição do CDIs regionais? Você que acompanhou a rede toda, como você vê isso?

 

R - Eu vejo que a rede, ela é uma coisa assim: cada detalhe a gente vê a carinha de alguém, entendeu? Assim, você quando pensa no CDI - Minas Gerais, você pensa numa marca que esse CDI implementou. O CDI - Minas eu vejo, eles têm uma característica de gestão administrativa financeira que é brilhante, né, no sistema de controle, de caixa, de planejar o futuro. Tem o CDI - Pernambuco que tem uma característica de ser empreendedor, de abrir novas frentes, de ganhar visibilidade e de inovar, de ter uma estrutura tecnológica avançada, de criar um espaço para suas EICs. Então isso é... No Nordeste, cada um deles. Eu não tenho como falar de todo mundo, mas assim, eu vejo a marca de cada um. E as marcas regionais acabam estando nisso também. Os CDIs internacionais, porque o CDI se tornou internacional mas não se preparou para isso, né? E eles exigindo uma atenção para eles, exigindo material na língua deles, exigindo que também se pense neles. No quarto encontro da rede eles fizeram um manifesto ao final do encontro, porque ninguém pensou neles, que eles não iam estar entendendo, que agora essa era uma rede grande, que precisava pensar neles, que precisava ter um sistema. E essa, por ser uma rede, as pessoas que fazem parte dessa rede é uma coisa muito especial. Eu falei do meu movimento lá na universidade. Esse pessoal que está aqui é esse pessoal, entendeu, é esse pessoal da militância, esse pessoal que sabe os seus direitos, é esse pessoal que reivindica. E lidar com esse pessoal exige uma preparação. Você tem que ter escuta, você tem que ter paciência. Nós usávamos um esquema, que eu acho que é um esquema muito interessante, que a gente tinha a equipe para coordenar a rede, então, assim, se determinado membro da equipe estava tratando com determinado regional e aquela relação passava a ficar desgastada, porque um estava tendo que garantir uma coisa ou um estava reivindicando muito, a gente trocava o interlocutor. Porque aí a gente começava de novo, garantia o histórico que tinha ido até ali e normalmente, assim, a gente garantia, eu era uma segunda instância. Então o pessoal diz que eu sou calma e que, assim, mas sou de não abrir mão das coisas que eu acredito. Mas sou de ouvir o outro e de pensar no que ele falou. Então, assim, a gente tinha um sistema de negociação que a gente ia meio. Claro que nem todos os sistemas e nem todos os coordenadores me amaram e me adoraram, né, mas na medida do possível a gente foi garantindo o espaço para eles e para a gente. E eu passei a respeitar muito. E assim, eu tenho a visão de que a matriz existe para servir a essa rede. Então eu sempre achei que se eles estão com uma demanda de capacitação, a gente tem que se virar e tem que dar para eles. Porque a gente espera que eles garantam qualidade, a gente espera que eles façam o trabalho da ponta. Então a matriz tem que ser o suporte. E quando o Rio de Janeiro se separou era muito nesse sentido: a matriz tem que estar voltada para captar recursos e para oferecer suporte para esses regionais, né? Então, vejo assim, cada um deles tem, é muito interessante porque eles têm novas práticas, e isso acaba trazendo uma experiência. O CDI - DF está lá junto do Poder, então eles dão dicas: “Olha, tá acontecendo certa coisa, podia reunir com não sei quem, podia fazer não sei o quê.” E cada projeto dessa rede acabou saindo de algumas experiências interessantes. Alguém conseguiu implantar melhor a metodologia, e aí a gente já pedia para essa pessoa para dar depoimentos, participar da capacitação. E acho que tem inúmeros potenciais.

 

P/1 - Você poderia dar um exemplo de um caso desse, quer dizer, a rede como um todo aproveitou uma experiência regional?

 

R - Ah, tem várias experiências.

 

P/1 - Pelo menos um dos exemplos.

 

R - O CDI - DF implantou um sistema que era de captação recursos “Adote uma EIC”, entendeu, que as empresas não querem investir no CDI, querem investir lá na ponta, querem investir na EIC. Mas se o CDI não tiver recurso não existe EIC, porque aí você não vai abrir, você não vai acompanhar, você não vai capacitar. Então o CDI - DF fez um projeto que beneficiava a EIC mas beneficiava o CDI, porque parte dos recursos era para garantir o acompanhamento. Então indiretamente isso foi uma coisa que brilhante, e aí anuncia-se isso na lista da rede, manda um modelinho do projeto que usaram, e aí isso se replica: “Alguém usou - sei lá - um sistema para apresentar proposta para EIC.” E falou isso no encontro. A gente já registra aquilo e coloca na lista da rede de todo mundo. E tem uma coisa muito legal que são as listas de discussão. Então nas listas de discussão alguém lança lá: “Tenho que implantar uma EIC num presídio. Alguém tem uma experiência?” Todo mundo lança o que foi suas experiências positivas ou que foi suas experiências negativas. Existe um histórico nesse processo, né? Agora com o Quick Place, que é um instrumento para restar gerenciando essas informações, todo mundo registra lá. Então quando alguém quer: “Olha, vai lá, porque eu achei lá.” Então é meio que tem que ter esse histórico, que as experiências de um antigo é a do novo hoje que está começando a implantar. E tem muitas experiências de coisas que foram replicadas. Essa rede literalmente foi feita por toda a rede, pela experiência de toda a rede. Nesses encontros a gente tinha um espaço, parece que esse ano é que não vai dar por causa do planejamento estratégico, mas todo ano a gente reserva tempo para o CDIs apresentarem seus trabalhos inovadores, e eles apresentam. Aí no corredor todo mundo anota os detalhes e pega o material. Outra coisa legal: você vê muita gente trazendo CDs do seu material e distribuindo, entendeu, que é esse sistema de cooperação e de rede mesmo, de um estar. Agora, eles exigem o espaço deles, como construtores mesmo dessa rede.

 

P/2 - Eu queria fazer assim, mas já uma avaliação, porque assim, acho que a grande coisa do CDI é essa coisa de estar transformando as pessoas. Da mesma a forma a gente estar se transformando. Como você se vê nesse papel de agente transformador e como você se transformou nisso?

 

R - Vou falar primeiro de como eu me transformei. Tinha experiências focais, né, experiência num local. A Pastoral do Menor trabalhava, sei lá, com 30 comunidades, mas era o Rio de Janeiro. Então o CDI me abriu essa coisa da regionalidade. Dei uma grande mancada uma vez que a gente estava avaliando seleção para coordenadores da rede, e um coordenador que implantou um CDI, quando não tinha dinheiro, né, se candidatou para a vaga, já que havia uma parceria que ia pagar o salário lá. E era do CDI - Alagoas. E aí a gente estava pedindo currículo. Mesmo quando era esses casos a gente queria ver currículos e tal. E ele mandou o currículo dele e ele, assim, ele colocou as atividades que ele tinha mas não colocou quando se encerraram, e eu fiquei com sensação de que ele fazia tudo aquilo. Então ele tinha, sei lá, um comércio, ele era um engenheiro e trabalhava não sei o quê, trabalhava numa consultoria. Porque eu não vi quando se encerrava. E eu meio metida a ser palhacinha, então de vez em quando fazia umas graças. Aí falei para a Isabel, que era minha assistente, na época eu falei assim: “Isabel, liga para ele, para fulano e fala para ele como ele acha que pode fazer tudo isso sendo o marajá que ele é. Porque com tudo isso aqui, como que ele vai conseguir tempo e não sei o quê.” Só que era Alagoas, né, e tem aquele estigma do Marajá das Alagoas. Gente, isso foi horrível, ele ficou super ofendido, escreveu um e-mail do estigma que eles ficaram e que ele não esperava isso da gente. Isso foi complicadíssimo. E assim, ele estava muito sentido com a Isabel, porque a coitada falou a besteira que eu tinha dito, né? Aí eu liguei, pedi desculpa e falei para ele, aí eu brinquei e falei para ele: “Olha, eu falaria isso com o Roberto de Minas Gerais, falaria isso com o Edgar do Paraná, falaria isso com o Paulo de Pernambuco, eu não me liguei que eu estava falando com Alagoas, porque eu falaria essa expressão “Marajá” eu usaria com eles.” Aí depois Roberto até brincou comigo, usou meu nome: “Sei lá se eu queria ser chamado e tal.” Mas assim, ao mesmo tempo eu consegui fazer uma relação de brincadeira com o pessoal, me sinto acolhida, tive muito respeito por eles. Algumas vezes tivemos embates, mas sempre com muito respeito. Cada vez que eu visitava eu tinha, assim, eu pegava um vôo para ir para determinado regional que eu sabia que estava com determinado problema que a gente precisava resolver, ou que eles estavam me chamando para resolver determinado problema, eu ia no vôo pensando: “Como eu resolvo o problema e respeito toda a trajetória deles, que trabalharam quando não tinha dinheiro, que implantaram nas suas casas, que colocaram num cantinho do seu escritório o CDI?” Sempre tive em mente que eu não podia desrespeitar o histórico que eles tiveram. Então eu tinha muito cuidado na abordagem, mas também sempre tive muito cuidado de que a passagem que estava sendo paga, de que a missão que eu estava indo lá fazer, eu tinha que voltar com ela resolvida. Então também nunca deixei de abordar as questões que tinham que ser abordadas. Mas sempre abordei, procurei abordar com muito respeito. Quem pode dizer se consegui ou não, são eles. Mas sempre tentei abordar com respeito, mas também sempre levei em conta que todo recurso que entra para o CDI considero como recurso público, independente se venham de empresas ou do governo. Porque o CDI até recebeu pouco recurso do governo. Porém, considero que como as ONGs são constituídas, que são recursos privados com fins públicos, então eu acho que eles devem ser geridos com esse respeito de recurso público. E acho também que eles devem ser aplicados de forma a garantir o atendimento à ponta para a qual eles foram. À ponta, assim, a gente recebe computador de empresas, a empresa manda o computador para que se crie EICs. Você recebe inúmeras demandas que são pertinentes: portadores de necessidades especiais que gostariam de estar fazendo um negócio e tal. Sempre respondi com muito respeito, mas dizendo: “Eles foram doados com um fim, nós temos que respeitar os fins para o qual eles foram doados.” Então eu acho que a rede tem uma grande responsabilidade. Eu aprendi assim: a pensar nos detalhes. Cada coisa que se fala nessa rede, ela tem uma repercussão e ela tem uma diferente tradução. Não só por causa da língua, que tem diferentes línguas aqui, mas tem diferentes culturas, têm diferentes abordagens. Aprender a lidar com o temperamento de cada coordenador. Tem aquele que fica quietinho mas vai fazendo o trabalho do jeito que ele acha. Então, assim, até no acompanhamento você tem aqueles que sempre chamando muito a atenção e querendo atenção, tem aqueles que estão sempre com dificuldade, você está dando atenção a ele porque ele está com dificuldade, e aqueles que estão de destacando muito. Então normalmente quem está com muito problema e quem está se destacando muito, naturalmente eles chamam a atenção. Mas tem aquele miolo ali, aquele grupo do meio, que está no mais ou menos, se você não tomar cuidado você acaba não prestando atenção. E para isso é fundamental uma equipe boa, é fundamental que a visão da organização seja nesse sentido. [pausa]

 

R - Isso é complicado.

 

P/1 - É porque nós, quer dizer, nas entrevistas que nós fizemos, quer dizer, deu para cobrir bastante bem as questões. Mas realmente a questão da rede, ela ficou faltando. Porque quando nós viemos entrevistar a Ângela, ela saiu, então ficou um buraco aí no nosso material. Então era fundamental essas... [pausa]

 

P/1 - Então, Raquel, a pergunta, assim, você tem alguma a acrescentar além do que nós perguntamos, você acha que tem algum assunto que não foi tocado, que você gostaria de falar?

 

R - Eu acho, assim, eu acho que falta falar uma coisa da minha vida pessoal, né, que a gente fez lá a minha trajetória lá atrás, mas eu acho importante dizer que eu tenho dois filhos maravilhosos, né, que atualmente são, assim, o meu grande orgulho. Tenho a minha filha Tatiana, que tem 18 anos, que é linda, meu filho Rafael também, que é lindo, que tem 15 anos. Por conta do trabalho no CDI eu me mudei para Salvador e hoje eu trabalho num projeto inovador na Rede CDI. Fui convidada para ser vice-diretora deste programa, representando o CDI dentro de um consórcio internacional, que é um programa voltado para a preparação e inserção do jovem no mundo do trabalho usando a metodologia do CDI. E o que eu vejo hoje em relação à rede e não só ao programa do Interjovem, que é onde eu estou atuando hoje, no que eu vejo da rede que seu grande desafio hoje é entender isso que eu entendia lá nos movimentos sociais, entendeu, o compromisso com essa coisa que é pública, entender que essa rede não tem dono, porque ela foi construída por todos e cada um tem um pedaço de contribuição que tem que ser levado em conta. E ela tem hoje um grande desafio que, assim, acho que é um desafio grande e fico feliz porque não sou eu que estou lá para resolver, porque esse é um desafio que eu acho que é um dos mais difíceis dessa rede. Ela se profissionalizou, ela tem um nível de exigência com qualidade que é muito alto, mas ela tem uma estrutura que não é condizente com esse nível de exigência, pela forma como ela cresceu, como ela surgiu. Então existem, assim, falando de pessoas, já que é o Museu da Pessoa, existem pessoas que começaram sem nenhum recurso mas que hoje não têm uma formação acadêmica para esse nível de exigência. Então existe um dilema: ser fiel a quem começou e garantir qualidade e ter uma imagem para essa grande rede internacional. E eu acho que para ser coerente com a sua história, o CDI tem que contemplar essas duas coisas, né? Ou os nossos coordenadores que começaram vão correr atrás do prejuízo, né? Eu conheço uma pessoa que diz que ninguém corre atrás do prejuízo porque não é maluco, todo mundo corre atrás do lucro. Então esse pessoal ou vai correr atrás do lucro e vai buscar formação, vai buscar conhecimento, e não só a formação que a matriz vai oferecer não. Essas pessoas têm que buscar os bancos das universidades, elas têm que buscar as especializações, os MBAs, os mestrados, seja o que for. Não porque eu acho que a rede deva abrir mão da sua história ou da sua trajetória, mas é que nós reconhecemos que essas coisas são importantes. E nós colocamos que é importante para o jovem tratar da sua formação, que é importante ele ser politizado, que é importante ele desenvolver o senso crítico, que é importante ele buscar conhecimento, desenvolver habilidades. Então nossos coordenadores e todas as pessoas que formavam essa rede têm que crescer junto com ela, né? Porque nem é justo deixar essas pessoas para trás e dizer que elas não servem, mas também é justo não alcançar todo o potencial dessa rede porque as pessoas não acompanharam. Então eu acho que hoje o principal desafio dessa rede é ser fiel às suas bases de criação e garantir sua qualidade e seu crescimento. Isso é o que eu queria colocar, essa é minha visão dessa rede.

 

P/1 - Tá certo. Então, em nome do Museu da Pessoa e do CDI, muito obrigado pelo seu depoimento, agradecemos.

 

R - De nada.

 

P/1 - Obrigada.

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