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Clube do Pensionato

História de: Jacaré (Helson Romero de Campos Souza)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/11/2004

Sinopse

Em seu depoimento, Jacaré fala sobre a infância em Três Pontas crescendo com Milton Nascimento e Bituca, a origem do apelido e o ofício de seu pai como alfaiate. Conta sobre seus tios, que criaram ele e Milton, e as influências musicais que passaram para eles. A suas mudanças para São Paulo e Rio de Janeiro a fim de terminar os estudos e prestar o vestibular, sobre morar com Milton enquanto o mesmo iniciava sua carreira de sucesso, entre outros acontecimentos. A volta para Três Pontas, principalmente sobre a comemoração das bodas de ouro de seus tios e a realização do Woodstock Mineiro. Se emociona ao falar sobre o Clube da Esquina e a criação do Museu, relembrando os bons momentos e possíveis projetos relacionados ao movimento.

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História completa

P/1 – Vou pedir para você falar de novo o seu nome completo, o local e a data de nascimento. 

R – Tá bom. Meu nome completo é Helson Romero de Campos Souza. Nasci no dia 4/6/1949.

P/1 – Em que cidade?

R – Aqui em Três Pontas. 

P/1 – E Helson, você tem apelido?

R – Tenho. Eu sou conhecido popularmente na cidade por, quiçá no país, por Jacaré.

P/1 – E da onde veio esse apelido?

R – Esse apelido é de futebol. Não tem relação com o lance da boca, que eu tenho a boca grande, mas não veio nada da boca não. (risos) Ela veio da, eu jogava futebol no time da cidade e eu estava morando no Rio de Janeiro, andei treinando lá no Rio no Fluminense. E naquela época, eu jogava aqui em Três Pontas quando apareceu um jogador de futebol no Bangu Futebol Clube chamado Helson Jacaré. Conhecido por Helson Jacaré. E ele chegou até a ser convocado para a seleção brasileira e não deu nada não, como eu não dei. Mas aí começaram a me chamar de, o nome dele apareceu na mídia, né? O Helson Jacaré do Bangu chamado para a seleção e aí eles tiraram só o meu Helson e começaram a me chamar só de Jacaré. Então, virou na cidade. Eu passei a ser conhecido como Jacaré. Helson Jacaré.

P/1 – E até hoje.

R – É. Hoje, se alguém chamar por Helson Romero, aí é perigoso dentro da cidade, a cidade [é] pequena, né? As pessoas não conhecem quem é o Helson Romero, mas sabem quem é o Jacaré.

P/1 – Então eu posso te chamar de Jacaré?

R – Pode, deve. Não, não tem problema não.

P/1 – Tá joia. E, Jacaré, qual o nome dos seus pais?

R – Aí, só o problema do Jacaré... Do Jacaré virou Jaca e virou Da Jaca. Quer dizer, tipo o Bituca, só liga para mim [e] não fala Helson nem Jacaré. O Bituca ele liga fala: “Da Jaca.” Ele me chama de Da Jaca, pedindo...

P/1 – A gente vai falar mais dessa amizade. E o nome dos seus pais?

R – O meu pai é Ávio de Souza, já falecido. E Havani Brito Campos Souza, popular dona Havani.

P/1 – Mas o nome dela, Havani...

R – É. Minha mãe teve um, na época... Quer dizer, na época, em 1900 e nada, (risos) o meu avô a registrou como, no Cartório de Registro Civil, como Maria Brito Campos Souza. E depois, parece que foi minha avó que levou ela para batizar. E antigamente eles não decidiam os nomes de comum acordo. Tinha uma briga lá: “Vai chamar Maria.” “Vai chamar Havani.” Aí meu avô registrou ela no civil como Maria e minha avó foi, registrou-a com o nome de Havani. Então hoje na cidade ela é conhecida como Havani. Só que nos documentos todos, nos bancos, etc, que são exigidos aí, né? Título de Eleitor. Ela tem que usar o nome de Havani. De Maria, né?

P/1 – Maria.

R – E ela na cidade, ninguém sabe quem é Maria Brito. Sabe quem é a dona Havani.

P/1 – Ô, Jacaré, e que é que seus pais faziam?

R – O meu pai foi um dos maiores alfaiates da cidade. Ele aprendeu o ofício de alfaiate quando criança e depois montou a maior alfaiataria da cidade, então todo mundo fazia. Porque hoje você só compra a roupa feita no, hoje a roupa é industrializada. Você não faz seu terno, sua calça, não. Você compra tudo pronto. Mas o meu pai ele vestiu a cidade inteira aqui. De 1900 e vamos botar aí, de 1930 até um pouco antes dele falecer, 1995. Ele ainda trabalhava no ofício de alfaiate.

P/1 – E onde ficava a alfaiataria aqui em Três Pontas?

R – A alfaiataria ficava na, ele teve dois locais,  né? Então, essa alfaiataria [que] ele tinha, vamos dizer que oficialmente essa alfaiataria funcionou na Rua Dona Isabel, na casa que minha mãe ainda mora até hoje. Ela é viúva, mas ainda mora nessa casa até hoje. Essa alfaiataria existiu lá na Rua Dona Isabel.

P/1 – E você chegou a ir lá ajudar seu pai quando era criança? Tinha algum lugar que você gostava de ficar lá?

R – Não, na alfaiataria não, a atividade, _______, não tinha os filhos fora da atividade de fazendeiro, mas eu me recordo que os filhos eram, que o agricultor sempre manteve o filho na fazenda. Ele ajudava, mas a gente quando moleque não tinha muito essa preocupação que os pais botavam para aprender o seu próprio ofício ou ajudar no trabalho não. Lá em casa nós somos seis filhos, mas nenhum participou das atividades comerciais dele não. Bem, porque também éramos menores, né? Tínhamos, éramos crianças. Tinham as atividades... Era só escola mesmo e trabalho não tinha não.

P/1 – E eram seis irmãos. E tinham meninas, como é?

R – Nós somos cinco irmãos e uma irmã. Então, o Bituca costuma dizer: “Os Jaca são five.” Tem uns cinco jacarés e uma lagartixa lá na casa.

P/1 – (risos) E como é que era a convivência de vocês, assim, os meninos com a tua irmã? Tinha uma educação diferente dos meninos e para ela? Como é que era o cotidiano da casa?

R – Ah, parece que não sei se responder eu vou trazer como se fosse normal. Se eu parar para pensar aqui, pô, eu nunca pensei nisso, como é que era. Normalmente era aquela, porque lá é escadinha, né? Eu sou o mais velho. Então veio o Helson, o Paulo, o Lenilson, Francisco. Depois essa menina, a Vanizinha, depois veio o Jaquinha, que é o Alexandre. Então eu estou pensando aqui agora como é que era. Normal, os cinco. Os quatro filhos em um quarto, a menina no outro quarto. Então era aquele berçário lá, né? Três dormiam no mesmo quarto e tal. Não, se for parar para pensar aqui como é que era, não sei, era normal. Não estou vendo... (risos) 

P/1 – (risos) E o que é que vocês brincavam?

R – Eu gostava sempre de bola, né? Ficava fugindo, eu estudava piano na mesma escola que o Bituca estudava. Da dona Valda Tiso, mãe do Wagner Tiso. Então às vezes até coincidia que eu ia para a aula de piano. Quando eu estava saindo, o Bituca estava chegando para estudar. Hoje eu não toco nem um bife, entendeu?

P/1 – A dona Valda era a grande professora aqui da cidade?

R – Ah, era uma das melhores. Porque tinham poucas também. Tinha o Duílio, o Couto também que é da família Tiso. E a dona Valda era das boas professoras, se não a melhor.

P/1 – A mãe do Wagner e do Gileno. 

R – A mãe do Wagner e do Gileno. Dona Valda Tiso que também já faleceu, era ótima professora. 

P/1 – E o que é que você lembra assim dessas aulas de piano? Como é que era? O que você gostava de tocar quando você era criança?

R – Não, eu lembro mais é das bronca dela de eu matar aula. (riso) Porque eu saía para assistir aula e ia para o ginásio jogar bola. Dos irmãos, né? Porque aqui tinha um ótimo ginásio. Inclusive, o Bituca foi aluno também desse Ginásio São Luís dos Irmãos Canadenses, esse ginásio hoje já não existe mais, mas ele ficou na saudade. Ele formou excelentes profissionais aqui em Três Pontas. Tinha internato, vinha gente de, do país inteiro. As pessoas traziam os filhos, os pais traziam os filhos para estudá-los em Três Pontas, visto a qualidade de ensino que tinha. Então o Bituca estudou nesse ginásio também. Mas eu estou falando aqui do ginásio, mas voltando lá na dona Valda, que o que eu mais lembrava é da bronca que no outro dia ela: “É, não veio estudar. Você não vai aprender nada desse jeito!” E dava mesmo as duras. Se chegasse ela queria até puxar a orelha. 

P/1 – E, Jacaré, vocês meninos, assim, quem era o grupo de amigos? Era você, o Bituca? Quem que era a turminha assim que estava na rua brincando?

R – Não, há de fazer uma observação aí, né? Porque o Bituca é mais velho do que eu 6, 5 para 6 anos, né? Então na, pesa na diferença, como é que fala?

P/2 – Faixa etária?

P/1 – Etária.

R – Etária do, porque não...

P/1 – De turma.

R – É, porque o Milton quando eu nasci, ele já estava, melhor, já tinha sido trazido para Três Pontas, né, que... Posso dar um tempo aqui?

P/1 – Claro.

R – Só falar uma coisa, não, não quero parar não. Eu quero dizer porque nesse depoimento, eu vim dizer que o Milton ele está no lugar de primo, né? Porque eu sou criado...

P/1 – É isso que eu queria perguntar: a dona Havani é...

R – É irmã do meu tio Josino. 

P/1 – Isso. E o seu Josino criou o Milton.

R – Criou o Milton. Então quando o Zino chegou do Rio com o Milton, passou-se 3 anos que ele já morava aqui, 4 foi quando eu nasci. Então era uma faixa etária diferente do Milton. Quando eu era nenê, o Milton já me pegava no colo, me pajeava, mas quando o Milton começou a brincar com a sanfoninha, eu comecei a aproximar dele mas já andava. Então ficou uma certa distância. As brincadeiras do grupo de crianças de amizade nossa, é, por exemplo, o Milton já estava na fila da matinê e eu não sabia nem o que é que era matinê no cinema. Ele gostava muito e aí, a tia Lílian ia  levar ele no cinema e tal. Ele ia para a matinê do domingo e eu nem sabia o que é que era cinema, mas depois a gente foi aproximando as idades. Ele foi ficando mais molequinho, né? E eu fui aproximando de, culturalmente, aprendi a ler, aprendi a fazer arte também. Aí começamos a aproximar, foi onde ele...

P/2 – O senhor Zino me contou uma história sua quando você nasceu. O que é que aconteceu no seu nascimento?

R – Não, o tio Zino gosta de contar essa história, porque ele me tem muito em conta. Eu o tenho como segundo pai, porque o tio Zino, a gente sempre foi bem próximo. A minha tia Lílian que, infelizmente, não vai caber esse registro no, do museu, porque ela já se foi, né? A tia Lílian, inclusive, morreu no mesmo ano que meu pai morreu. A minha tia me tinha em conta também como filho. Ela me chamava, me falava assim: “Ah, essa é minha maionese.” Porque gostava muito de mim e a tia, quando eu nasci, a minha mãe, foi primeiro parto, e a minha mãe não tinha costume com nenê. Com criança. Então: “Ah, primeiro filho, não sei o quê..” O tio Zino foi dar o apoio para ela. Então foi ele que passou a primeira noite comigo. Quando as pessoas chegam que ele, que eu estou próximo, ele gosta muito de contar: “Esse aqui, passei a primeira noite com ele, dele. Agora olha o tamanho que ele está e olha o meu tamanho, mas fui eu que pajeei ele a primeira noite.” Porque ele tinha as, ele gosta de contar, porque ele sempre inventou as coisas. Ele sempre foi criativo nos trabalhos dele de eletrônica, né? Então tinha um, tem um caso que é esse que ele gosta de contar que precisava de cuidar da energia, porque a casa que nós morávamos tinha aquelas lâmpadas que ficavam só penduradas. Precisava quebrar a luz porque ele não conseguia me fazer dormir. Aí, ele inventou um abajur que já não existia aí, naquela época ele que criou. Quando apareceu um abajur ele falou: “Eu já fiz um desse igual.” Ele criou um abajur para minha mãe, para me proteger da claridade da luz e do, quer dizer, sei lá eu. Zino. Aí ele passou a noite comigo, essa primeira noite. Parece que ele até gostou e voltou a me pajear diversas noites e minha mãe achando bom, né? “Ah, o Zino veio. Eu vou dormir.” E minha mãe deixava com ele, porque a tia Lílian também tinha costume com criança. Porque ela tinha, eles criaram três, né? E o Bituca era o primeiro filho adotivo. Eles pegaram o Bituca criança também, então tinha aquele treino, vamos dizer. Ela ajudou minha mãe a me criar, então eu me considero filho segundo deles, eles são meus segundos pais. Tia Lílian e o Zino.

P/2 – Bom, né?

R – Ótimo. 

P/1 – E, quando começou a emparelhar essa idade, o que é que vocês, vocês brincavam onde? O que é que vocês faziam aqui?

R – Aí já era aquele assunto. Não se encontravam, todo domingo a gente se encontrava. Mas dia de semana eu vinha para cá que aí já era a casa do pai do Milton. E o Milton já morava nessa casa que vocês estão conhecendo aqui agora. Então a gente vinha para cá. Ele tem um quintal muito bonito. A gente brincava no quintal. Era jogar bolinha de gude, né? As peladas o Milton não participava na rua não. A gente jogava na rua. A rua não era calçada, botava dois tijolos lá e jogava bola, que os primos dele também do Rio vinham, às vezes ficavam por aí. Mas no dia-a-dia, a brincadeira era estudo, a aula da dona Valda. Eu no colégio jogando bola e ele nos seus cantinho aí com a sanfoninha e sempre na atividade de música. Quer dizer, quando criança nós estávamos próximos era só assim: aos domingos. Meu avô era, o patriarca que fala?

P/1 – Uhum.

R – Então reunia tudo na casa do meu avô, né? O almoço era na casa dos meus avós. Então ia os primos do filho do irmão do Zino, da, dos primos todos se reunindo para o almoço. Aí passávamos domingo juntos, mas no dia-a-dia cada um tinha a sua atividade. Era escola, e os pais pegavam no pé mesmo por causa de estudo. Então não, era normal. Não estou sabendo explicar. 

P/1 – Não, está ótimo. Ô, Jacaré, e esse almoço de domingo... Vocês, que tipo de comida que tinha? Depois vocês ficavam conversando? Como é que era isso, assim, tinha música?

R – Era o trivial que se come na casa mineira, né? A macarronada, seu franguinho, o tutu, pão de queijo. As sobremesas variadas. A criançada gostava era de esperar a sobremesa e tinha a manga no quintal. As goiabeiras, a jabuticaba. As peladinhas também, que na casa do meu avô, tinha os campinhos de terra na horta, que a gente chamava, né? “Vamos jogar bola na horta.” 

P/1 – Nossa, não dava confusão não?

R – Não, não dava porque, confusão, dava aquelas briguinha de pelada. Mas o Bituca não entrava não. Não ia não.

P/1 – Não gostava.

R – Não. De bola nunca gostou. Raramente ele apitava. 

P/2 – E quando que você começou a perceber que o negócio do Bituca era música mesmo?

R – Quando fui perceber? Acho que não sei. Para mim não tem a data não, já estava incutido. Eu tinha certeza que era. Eu: “Vai gostar de música.” A minha tia tinha nesses almoços aí... Eu contei naquele caso do Faustão lá, daquele pessoal que veio aí fazer uma matéria. Tem uma história da minha tia, que a minha tia era concertista. Ela tinha um acordeão, né? Então, minha tia tocava muito bem o acordeão. E o Milton gostava muito de sentar para escutá-la tocar. Inclusive, minha tia cantou no, foi Verônica dessas procissão de Semana Santa, muitos anos aí.

P/1 – Aqui em Três Pontas?

R – É, e o Milton gostava de ir para, na procissão, para: “Ah, a minha tia vai cantar lá.” Para ver ela cantar. Então o Milton ficava sentado escutando ela no acordeão, né? Como aqui na casa dele. Ganhou sanfoninha também. Ficava tocando a sanfoninha dele. Aí teve um almoço lá que sumiu o Bituca, e todo mundo procurando. Tia Lílian gritando: “Ah, cadê o Milton?” Não sei o quê. Aí escutaram um barulhinho lá no quarto, uma nota, um acorde lá. Aí foram para o quarto da Conceição, ele estava pendurado. Quer dizer, o acordeão era muito maior que ele, ele estava montado no acordeão (risos) e tentando tocar esse acordeão. Com o olho desse tamanho, sobrando na sanfona assim. Aí ele ficava rodeando a Conceição e ela gostava muito da eletrola. Tinha seus discos, né? Francisco Alves, a Conceição adorava Francisco Alves. Mas o Bituca gostava mesmo é de ouvir Ângela Maria. Mas quem... Não podia mexer na eletrola, então ele tinha que pedir para ela para ela colocar lá...

P/2 – Quando você fala Conceição, quem é?

R – Conceição é minha tia, irmã do Zino também.

P/2 – Ah.

R – Desculpa, eu acho que não coloquei a... É mais uma irmã da mãe. 

P/1 – Então, a família era o seu Zino, a dona Havani e a dona Conceição?

R – Não, são vários irmãos.

P/1 – Tinham mais?

R – Tinham mais irmãos. Tem um que mora em Belo Horizonte ainda. O Milton, o Zeti.

P/1 – Ah, o Milton.

R – É. Milton, Zeti, o Zinho. Teve uma que morreu, a Alzira. Morreu em 57, e eram esses os irmãos.

P/1 – Mas o seu Zino também tinha uma coleção de discos que ele gostava também? Vocês ouviam?

R – É, não... Tio Zino? Está na casa aí, tem, mas o Zino gostava mais de clássico. De ouvir música erudita, entendeu? Então ele tinha seus, ele era mais apurado. O Zino morou fora, né? Chegou a estudar no Rio de Janeiro, chegou a trabalhar no, em uma firma americana lá na Bahia. Então o Zino tinha, vamos chamar, outro know how. Ele era mais viajado, então o Zino teve mais acesso a outros tipos de música. Ele gostava bem de um clássico e de uma Édith Piaf, mas ele era mais apurado. Vamos resumir.

P/1 – (risos)

P/2 – E você? Qual o tipo de música que você costumava, que você gostava de ouvir quando criança? Você se lembra?

R – Eu sou da fase do Clube da Esquina mesmo, né? Que eu morava em São Paulo, já morei. Quando foi criado o Clube da Esquina, eu morava lá no Rio com os meninos, né? Então eu, como é que eu não ia gostar do que eles gostavam. Quer dizer, não é obrigação, mas eu nunca gostei de nada de música caipira. Nunca tive...

P/2 – Na sua adolescência, assim?

R – Nada, nada. Aliás, por exemplo, já vem assim, já fomos criados juntos com o Milton, né? Já sabendo que lá em casa, a Conceição era, gostava de uma música que vinha de Francisco Alves, de Ângela Maria, de Dolores Duran. Então a gente já escutava essas coisas na minha avó. Aqui o Milton também, quando ele começou a ver cinema foi aqui. Gostava muito de uma trilha sonora, ele fazia programa de rádio. Eu era moleque. O que é que eu tinha que, ouvir música, não era aquela vamos dizer: “Vamos parar para ouvir uma música.” A gente ouvia porque estava tocando no rádio. Nunca me interessou. Hoje eu compro meu CD, compro meus discos, mas não passava para mim aquele negócio de música não. Mas você via, aí, vamos dizer, o Milton estava aqui, eu via ele comentando assim: “Ah, mas aquela trilha sonora de tal filme que eu vi, eu vou pedir para minha mãe quando for no Rio trazer.” A tia Lílian saía e quando voltava trazia uma coisa. Aí ele mostrava para a gente, né? Então, como é que não ia gostar? Se ele, se o Milton gostou, como é que o outro não vai gostar? (risos) E tem, nesse mundo tá cheio, né? Tem gente que gosta de tudo. 

P/1 – (risos)

R – Mas essa infância nossa foi normal, que não teve... Teve aquelas artinha, né? O Milton gostava de fazer as suas peripécias aí, sair, mas não tinha...

P/1 – Você sabe de alguma traquinagem assim que vocês aprontaram? Essas coisas de criança, de infância que a gente faz? Vai para o rio, nada onde é proibido?

R – Não, isso sempre teve. Mas uma específica assim, não teria não. Não sei contar não. Só quando a gente já veio de lá de, a gente já morou fora, quando vinha passar uns tempos aqui tem esses casos de correr da polícia porque não sei o quê. O delegado era, só tinha um delegado na cidade, só tinha um carro da polícia. Então esse negócio de correr da polícia, de ficar fazendo serenata. Aí aparecia numa esquina: “Olha, aí vem o Caxambu, que não gostava.” “Está perturbando, né?” Sempre tinha uma cachacinha. Então o Caxambu vinha no seu carro, a gente via, outro que estava vigiando: “Aí vem o carro do delegado.” Corria para outra esquina, fazia barulho de lá para ficar fugindo dos caras aí. O Bituca também corria direitinho. Hoje ele, se puser ele para correr, eu acho que não corre muito não.

P/1 – (risos) Ô, Jacaré, você falou das procissões, que a dona Lílian fazia a Verônica...

R – Não, a minha tia. Irmã do seu Zino.

P/1 – A dona Conceição.

R – A dona Conceição.

P/1 – E o que é que você... Descreve para mim como era essa procissão. Você lembra? Aonde ela passava aqui em Três Pontas?

R – Não, essa procissão é a procissão do Senhor Morto, né? Da Sexta-feira da Paixão. Então ela é tradicional, sempre tem. Aliás, esse ano eu fiquei preocupado demais, porque está uma violência na cidade tão grande. E essa procissão a cidade, toda vai na procissão. E todas as casas ficam, eu fiquei pensando. Eu na procissão olhando, falei: “Gente, a cidade está aqui. Todas as casas estão expostas à violência, ao roubo. Porque, como é que faz com isso? A cidade muda.” Então, essa procissão é a do Senhor Morto, tanto que tem aqueles passinhos. Aí para e eu lembro que o Bituca ia na procissão para poder admirar a Conceição fazendo aquela encenação toda, de descer o véu e cantar, porque ela canta perfeitamente. E ele elogia até hoje a Conceição. 

P/2 – E você estava falando que você foi morar em São Paulo, né? Quando que você foi a São Paulo e por que é que você foi para lá?

R – É... A história de São Paulo, é que eu em 1980, “tsc”. Em 65, no fim do ano, eu fui para São Paulo. E estudei lá em São Paulo. Fiz o ginásio lá para tentar o vestibular. Aí fui procurar um, que aí já tinha, fui tentar o Científico, né? [Se chamava] Os Irmãos. Me formei aqui no Ginásio, depois fui tentar o Científico em São Paulo. Morei lá no ano de, fui para o fim de 65 e morei, e 1966 em São Paulo. Lá no Paraíso, na Rua Estela, tomei uma pensão lá que já tinha informação e tal. Então fiquei morando em São Paulo. Estudei no Colégio Bandeirantes, mas o ensino de lá é violento, não deu para mim. Que o Colégio Bandeirantes, vocês são paulistas, não é? Tem uma...

P/1 – Puxado. 

R – Tem uma força ali que é uma coisa.

P/2 – Essa pensão que você está falando é a pensão do Boris?

R – É, na pensão do Boris. Aí, eu morei lá. O único trespontano que morava lá era, foi eu, e estudando no colégio. Quando chegou em março ou abril... Nessa época, o Milton morava já... (estala o dedo) Isso é coisa antiga. Morava em Belo Horizonte, trabalhava em Furnas, né? E nas noites lá, mexia com música. Quando chegou em março ou abril, eu não vou lembrar de data não. Apareceu essa, esse convite, para ele defender o festival da Excelsior lá em São Paulo. Para defender uma música do Baden Powell. E o Milton foi para São Paulo bancado pela Excelsior. Claro, para participar do festival, para defender o Prêmio Cidade Vazia da música do Baden Powell. Ele foi para São Paulo e resolveu me ligar lá. Falou: “Ó, estou chegando em São Paulo. Vou ficar aí, você arruma uma torcida organizada para a gente fazer um barulho lá no teatro que eu preciso de também ter a minha torcida lá. Quem sou eu? Mineirinho, aqui chegar lá para defender a música?” Aí juntei a turma da pensão e falei: “Ó, vamos juntar umas faixa aqui e vamos tentar dar um grito aí para o meu primo que está vindo aí.” Contei a história para eles, eles falaram: “Não, joia, vamos lá.” Aí juntamos aquela turma da pensão e fomos lá para o auditório da Excelsior torcer por ele, né? Onde ele foi classificado em quarto lugar. Ganhou quarto lugar. E foi muito bem aceito pela mídia lá em São Paulo e pela televisão, aí repercutiu aquele lance: “Olha, está chegando um nome novo na música. Um mineirinho de Belo Horizonte, tal, tal, tal.” O Milton cabelinho curtinho, aquela cara lambida. Muito inibido. E boa, já chegou [e] chamou a atenção. As pessoas notaram a presença dele e a qualidade dele. Ele não passou de passagem. Ele chegou em São Paulo e alguém procurou por ele lá. “Ô, Fulano, não você não vai voltar para Belo Horizonte. Você vai ficar aqui. Vamos, precisamos de conversar mais. Quero conhecer você na música.” Onde que ele conheceu lá o pessoal dos Godoy: o Amilson, o Adilson e o pessoal do Tamba Trio, como é que é? O pessoal do trio dos Godoy. Como é que é?

P/2 – Tamba Trio. 

P/1 – Tamba Trio.

R – É. Aí o Milton estava em São Paulo, pegou o prêmio e agora eu não consigo me lembrar. Não vou relembrar. Teve aquele lance, falou: “Olha, eles não querem que eu vá, mas eu não tenho onde ficar. O hotel já venceu.” Ele estava hospedado nesse hotel no Anhangabaú, não me lembro qual que era o hotel, mas eu falei: “Se você quiser ficar, vamos arrumar um lugar na pensão. Lá no meu quarto mesmo, tem um beliche. Você dorme no beliche em cima. Vou conversar com o Boris, arrumo uma vaga.” “Posso ficar?” “Não, então fica lá. Vamos lá.” Aí ele deixou o hotel e foi lá para a pensão. Ficou conhecendo a turma, foi se entrosando. Fez boas amizades. Tinha um amigo nosso que hoje é médico em Uberaba, o Tininho, que eles se aproximaram bastante. O Tininho tinha um bom violão. Então o Milton gostou lá da pensão e foi ficando por lá. Ele saía para a noite para conhecer outras pessoas. As pessoas passavam lá, pegavam ele, levavam para a noite. Eu me lembro que toda noite eu acordava 3, 4 horas da manhã, tinha aula cedo. O Bituca chegando da madrugada. (risos) Mas era essa a vida que ele queria, né? E lá começou a conhecer as pessoas importantes da vida dele. Como o Agostinho dos Santos, né? Que foi o baluarte da vida dele lá em São Paulo. Foi o Agostinho que fez aquela, que todos sabem, a arte que o Agostinho fez. O Bituca não queria participar de festival nenhum, estava mesmo “Eu não vou mandar música nada, tá, tá, tá.” Aí o Agostinho pegou as músicas, mandou para o Rio e botou no FIC (Festival Internacional de Corais) lá. Quando veio, vieram três músicas classificadas do próprio. Aí deu no que deu. Está aí essa imponência hoje.

P/2 – E qual que era a sua impressão sobre o Agostinho dos Santos? Você o conheceu, né? 

R – Excelente. Nossa, o Agostinho era um irmão. Muito boa a minha impressão. Eu já tinha a impressão de que, sabia que ele era um cantor respeitado, né? Então quando vim a conhecê-lo, eu já: “Puta merda, que prazer de estar conhecendo essa voz fantástica.” Então era eu menino de 16 anos, eu falei: “Puta merda, eu estou conhecendo o Agostinho.” Aí foi a minha impressão era a de que: “Pô, esse cara aí vai ajudar muito o Bituca. Eu tenho certeza.” Então já me veio aquela coisa, ele está, e ele gostou. Eles se afinaram, o Agostinho se afinou com o Bituca então era o cara que sempre arrastava ele para aqui, para ali quando os Godoys também não arrastavam. Então era sempre o Agostinho.

P/2 – Parece que esse Boris era uma figura, né? Tem umas histórias com esse Boris da pensão?

R – Não, aí o, na pensão, o Boris era um lituano. Pesava aí uns 120 quilos, gordo, enorme. Do olho clarinho. Tinha o olho branquelo. Então o Boris, ele era diferente. Ele não era o dono da pensão. Ele era o representante do dono da pensão, porque o dono da pensão ele era abastado. Ele tinha um prédio lá e tal, tal, tal. Tinha suas outras atividades. Era mais empresário, mas o Boris cuidava da pensão. Então era: “Seu Milton para cá, seu Milton para lá. E seu Jacaré para lá.” Mas o Boris tinha uma história que o Boris, ele que servia a refeição mas não tinha uma vez que o Boris vinha trazer o feijão, que ele não vinha com o dedão dentro do feijão. (risos) “Pô, esse cara deve cozinhar o dedo.” 

P/1 – (risos) 

R – Ele trazia aquele feijão quente, o Boris punha na mesa e a gente sempre ficava observando. “Não, tem que falar. Uma hora esse cara vai...” “Não, não fala não, que ele vai ficar nervoso. Deixa...” Então o Boris, a gente falava: “Olha o Boris Feijão.” Porque vinha sempre com o dedão lá dentro do feijão. E era bem porco mesmo, com as toalhas e tal.

P/1 – (risos) 

R – Pendurado. Ficava falando, cuspindo na mesa, nos pratos, mas joia, são lembranças que a gente tem da pensão do Boris. Todo mundo conhecia.

P/1 – E o que é que o pessoal da pensão gostou do Milton se apresentando? Gostou da música?

R – Não. Aí foi, porque essa época, o Milton não era exponencial. Não tinha nada, né? Ele estava começando na noite, ainda estava. Nós ainda nem tínhamos conhecido Elis Regina.

P/1 – Mas lá no show que vocês foram?

R – Hein?

P/1 – A primeira apresentação dele lá, que ele foi se apresentar, que você levou o pessoal da pensão, o que o pessoal achou?

R – Ah, não. Gostaram. Não, coisa boa, né, porque eles viram assim que ah, a questão do racial também, né? Um negro. Ah, o Mineiro. Porque eu era mais conhecido lá como Mineiro. Ah, [o] Mineiro tem um primo negro, tá, tá, tá. Mas não comentavam não, mas via que sim, aquele carinho próximo. E era uma coisa interessante, falaram: “Músico. Veio lá de Minas, lá da terra do Mineiro.” E veio defender uma música do Baden Powell, já era conhecido, televisão. Mas esse contato lá dentro da pensão, durou só esse ano de 66, porque foi quando eu tomei bomba no Bandeirantes, aí meu pai me arrancou de lá. E eu acabei deixando o Milton em São Paulo.

P/2 – Você falou então que nesse período, vocês ainda nem tinham conhecido a Elis Regina.

R – Não, foi quando, aí no final do ano, chegou na Elis a informação de que tinha uma pessoa, que defendeu uma música do Baden Powell que estava circulando no meio da noite musical de São Paulo, e que a Elis precisava conhecer. Eles tinham muita fé na qualidade dele. Mas olha, o Amilson Godoy tocava com a Elis. O Agostinho também conhecia a Elis e buzinou no ouvido dela, mas já foi mais para o, depois do Festival da Excelsior. Aí o Bituca me pediu para ir, me falou: “Ó, estão querendo que eu vá lá na casa da Elis. Você vai comigo. Como é que vai ser? Nós vamos conhecer Elis Regina, a mulher está querendo falar comigo.” Eu falei: “Porra, é claro que nós vamos. Tem mais é que ir.” Aí pegou lá o endereço, anotamos. “Pois é, vamos aqui [na] Rio Branco com a Ipiranga, número tal.” Fomos para lá. Uma noite, 8 horas da noite. Eu lembro direitinho, na porta do apartamento... Eu discuto com o Bituca até hoje, e quando ele dá alguma entrevista ele ainda fala assim de repente na entrevista, ele fala assim: “Né, Jacaré?” Porque eu tenho certeza que nós fomos na casa, que estava na casa da Elis, o Gil e um médico que nos foi apresentado. “Olha, esse é médico Fulano de Tal.” Não sei se de nome Fernando, mas o Bituca teima que não era o Gilberto Gil. Eu falei: “Era, Bituca. Era o Gilberto Gil e a Elis.” Mas que não fosse o Gilberto Gil, mas era a Elis Regina. Aí conhecemos a Elis lá. Ele entrou, entramos, né? Tudo bem. Nós mineiros também... Eu estou falando aqui agora, mas eu não sei, sou muito tímido também. (risos) Vocês estão me pedindo para falar mas... Entramos para conhecer Elis Regina, sentamos lá no apartamento normal dela lá. ”Você quer ver? Vem aqui ouvir. Vou te mostrar umas músicas.” E assim, exatamente o que ocorreu ou não, que eu estava tão, tão eufórico, tão abismado. Eu falei: “Pô, olha quem que eu estou conhecendo!” Que eu já vinha sonhando com a Elis Regina, eu tinha um amor por ela enorme. Eu gostava muito da Elis Regina. O Milton sabe que eu sempre fui apaixonado pela Elis Regina. A gente chegou lá, o coração batia. “Eu estou na casa da mulher.” E aí, o Milton mostrou para ela algumas coisas, aquela coisa informal, mas não tinha... Fomos muito bem tratados e ela gostou muito dele. E ela andou gravando as coisas lá para ela. Bom, saímos, vamos embora. Aí venceu o prazo. Prazo não tinha, estava lá. Ela falou: “Milton, você sabe que eu tenho um programa. Eu estou fazendo O Fino da Bossa, nome e tal. Vou pegar aqui, vou te ligar. Vou marcar aqui que você vai n’O Fino da Bossa.” Com 3, 4 dias ele já estava agendado com a Elis na Excelsior, ou Record, não sei dizer. O Fino da Bossa. Aí juntamos a turma da pensão de novo, baixamos para lá para O Fino da Bossa, o programa da Elis.

P/2 – E o Boris ia também?

R – Não. O Boris, 7 horas da noite já estava dormindo.

P/1 – (risos) 

R – Para pôr o café da manhã, né, dos, o Boris não participava não. Não ia não. Essa pensão era boa. Já morou, aí morava lá... Morou guerrilheiro lá na pensão, entendeu? Tinha de tudo. Não era só pensão de estudantes não. Então, tinha os vagabundos também, não faziam nada, tinha... A maioria era estudante dali do Bandeirantes mesmo, mas tinha. Eu me lembro que eu passei um aperto, tive que sair correndo um dia lá porque eu entreguei, na (sabia?), bateu na porta [e] era a Federal, sei lá. Era a polícia. Depois eu fui me dar conta, né? “Fulano está?” E eu vou saber quem que é Fulano, mas hoje a gente sabe que tem que perguntar. “Não sei, tem que ver se está. Vou ter que olhar.” Mas aí acabei abrindo a porta, eram os homens. “Tá, está lá no quarto. Pode subir. É aquele lá o cara.” (risos) O cara saiu algemado. Aí me vazaram. Falaram: “Ó, esse cara vai te pegar.” Aí eu andei fugindo. Deixei o Bituca sozinho na pensão, andei morando uns dias na Sá Zefa, na casa da, uma tia minha. Torta. Uma tia parente. Fui morar. Deixei o Bituca sozinho na pensão e fui morar escondido antes do cara querer me fritar.

P/1 – (risos) 

R – Mas nunca mais ouvi falar dele não. 

P/2 – E quando vocês foram lá n’O Fino da Bossa, que foi o pessoal da pensão ver o Milton tocar, como é que foi? Era um programa. Ele foi dar entrevista? Como é que foi esse...

R – Não, era programa de auditório, né?

P/2 – De auditório. Como é que foi esse dia?

R – Não está me vindo assim como é que foi. Nós chegamos, tinha os ingressos, entramos. Assistimos O Fino inteirinho. Aí ele, parte do programa, ele participou. Era uma chamada: “Agora com vocês, tem um mineiro aqui, tá, tá, tá, que eu gostaria muito de apresentar porque eu vou gravar uma música dele.” Como gravou, né? A Canção do Sal. Aí ele entra para o palco, se apresenta. E nós lá na plateia batendo palma. Assistimos até o fim e depois quando acabou, saímos. Nem me recordo se esperamos o Milton lá fora ou se ele logo depois que participou, saiu com outras pessoas. Não me lembro. Voltamos para a pensão. Não tenho lembrança como era. Mas que foi gratificante, foi. Hoje, até hoje, tem amigos meus que eu fiz amizades lá. Tem estudantes meus, colegas meus lá de escola que até hoje me ligam querendo saber como é que eu estou, continuam pensando na gente. Eu também ligo para eles. Eles sempre perguntaram: “Ah, como é que é? E aqueles tempos? Precisamos recordar, voltar a encontrar. Quero ver o Milton.” Eu falo: “Arruma um jeito de você ir no Rio, que você vê um show dele.” 

P/2 – Por falar em Rio, você foi morar no Rio com o Milton e com o Naná Vasconcelos, né? O que é que marcou nesse período para você? Por que é que você foi para lá?

R – Não, aí foi ao contrário. Eu... Não é que ao contrário. [Em] São Paulo o Milton morou comigo e no Rio eu morei com o Milton. Por que? Porque eu queria fazer vestibular de Medicina. Meu interesse era fazer vestibular de Medicina, então fui para o Rio para fazer. Eu tinha uns amigos lá, a família (Boechard?) já morava lá no Rio também. Tinha um pessoal morando em Niterói, fazendo cursinho, para depois fazer vestibular e eu saí daqui e fui fazer vestibular no Rio. Na Federal. Sei lá. Fui fazer vestibular no Rio de Janeiro. O Milton tinha montado apartamento no Rio e ele tinha me chamado: “Olha, se você quiser vir, você vem, fica aqui em casa e estuda mais um tempinho aqui. Você pode morar aqui em casa. Só que o apartamento é pequeno. Nós temos que morar... É quitinete. É quarto e sala.” “Tudo bem.” Aceitei o convite dele para morar com ele lá e fui para o Rio fazer vestibular. E morei na Travessa Angrense. Aí moramos um ano na Travessa Angrense e ele já trabalhando na noite no Rio, fazendo programa, instalado no Rio. Depois do FIC ele tinha mais é que ficar no Rio, né, Milton. Porque, aí ficou lá no Rio de Janeiro trabalhando na noite na música, gravando e tal. E ocorreu que eu não passei no vestibular. Tomei, tirei zero. Falei: “Eu vou ter que fazer...” Porque eu tinha formado o ginásio. Eu tentei logo de cara entrar. “Ah, vou ter que fazer um colégio melhor aqui.” Aí ele falou: “Então faz aqui no Rio mesmo. Você fica morando comigo aqui, o apartamento aqui. Se não te incomodar, a gente morar apertadinho aqui. Aí tudo bem.” Fiquei morando com ele lá no Rio.

P/2 – E o Naná Vasconcelos, foi morar com vocês?

R – Não, no caso do Naná, é ao contrário. O Naná, nós moramos depois. Porque o Milton, vem de um, de 69, ele saiu de um casamento. Ele chegou a casar lá e logo separou. O Milton, então o Naná. Quando apareceu o Naná na nossa vida, eu digo nossa, na vida do Milton... Nossa, porque eu estava junto lá com ele.

P/1 – (risos)

R – Mas o Naná, quando apareceu, Naná era o seguinte: Naná morava em uma outra república lá, ou pensão. Mas ele, o Naná, gostava tanto do Milton e eu também gostava tanto dele, do Naná, então nós ficamos bem próximos. Só que o Naná tinha um problema de ficar, um negócio... Parece que, de transporte para o bairro que ele morava, não tinha como ir. Determinada hora da noite ele não podia ir, então o Naná ficava lá. Ele criou amizade com o porteiro, ficou amigo do porteiro do prédio da Travessa Angrense. Então o Naná, quando ficava até de madrugada na rua, 2 horas da manhã não tinha mais ônibus para ele ir para casa. O Naná chegava no prédio – eu quero encontrar com o Naná até hoje para puxar a orelha dele – o Naná chegava no prédio falava boa noite para o porteiro, o porteiro achava que ele ia subir para dormir, porque a gente recebia o Naná como irmão. Cabia mais um na quitinete. Cabe dois, cabe três. Uma cama para dois, para três, era a mesma cama. Ou dorme no chão, né? Mas o Naná subia, o porteiro achava que ele ia para o nosso apartamento. E o Naná, para não incomodar, ele não ia para o nosso apartamento. Ele ficava na porta, na escada do prédio. Ele cochilava ali ó. Dormia até de manhã. Então quando era para a gente sair ou ele acordava, ou então na hora que a gente estava saindo de casa, ou mesmo quando o prédio abria, o Naná descia para tomar o seu cafezinho no botequim que abria lá. A gente não sabia que o Naná fazia isso. O Naná precisava de um aconchego, né? Porque, às vezes, a noite estava fria, chuvosa. Mas ele não batia na porta e falava: “Cabe mais um aí?” Então isso ficou doendo na gente. A gente veio a saber disso depois do ocorrido, senão a gente abria as portas para o Naná, né? Mas ele fazia isso para não incomodar. Olha, que safado, Naná Vasconcelos. 

P/1 – (risos) 

P/2 – E voltando um pouquinho para Três Pontas, né, que teve o grande evento das bodas de prata do seus tios.

R – Ahn.

P/2 – Que foi um evento aqui na cidade. Eu queria que você descrevesse um pouquinho como é que foi essa vinda de todos os amigos do Milton para cá. Como que você participou também dessa festa.

R – Não, você está falando da...

P/2 – Das Bodas...

P/1 – De ouro. Bodas de ouro.

R – Ah, teve as bodas de ouro e teve o festival de 77. Foi o Woodstock mineiro.

P/2 – Não, das bodas de ouro.

R – Você está falando das bodas de ouro.

P/2 – Ah, é ouro, tá?

R – É, as bodas do...

P/2 – Que foi em 70.

R - ...Zino com a Lílian.

P/2 – Isso. 

R – Bom, mas você queria saber... Foi um evento descomunal. Foi uma coisa, puta produção, né? Teve, mas é, não eu... Você quer que eu descreva o que exatamente?

P/2 – Porque teve toda, né, pelo menos no livro do Márcio Borges que encheu a cidade, vieram vários amigos de várias cidades. Rio, São Paulo, Belo Horizonte, e que a cidade ficou coalhada de hippies.

P/1 – Foi no Woodstock.

R – Não, aí foi no Woodstock...

P/2 – Não, não, foi na...

R – Na bodas?

P/1 – Espera aí. O que é que você lembra das bodas de ouro? Você lembra de alguma coisa?

R – Não. Eu lembro da cerimônia religiosa que foi feita em uma fazenda aqui perto, porque realmente não teria como fazer o evento dentro da cidade. Porque realmente ia chamar, como chamou muita atenção da cidade, mas não chegou a trazer muita gente de fora não. Trouxe os convidados para a bodas, entendeu?

P/2 – Ah, tá. 

R – Então arrumou-se um local de uma fazenda afastada aqui que é... Ele é cunhado do Milton. Os donos da fazenda são casados com a irmã da, a mãe era dona da fazenda [e] emprestou a fazenda. Então, nessa fazenda, foi feita a cerimônia religiosa. Muito bem produzida, né? Mas o congraçamento não teve um “auê” dentro do evento não, as estrelas eram o Josino e a Lílian. O Milton era filho dos nubentes, lá, vamos dizer, mas a cerimônia correu às mil maravilhas. Não foi, não teve essa concorrência toda não. Foi uma coisa, uma cerimônia religiosa muito bonita, a caráter, mas sem aquela grandiosidade não. Foi grandioso o evento em si, eles mereciam que assim fosse feito. Quer dizer...

P/1 – Ele cantou na cerimônia? Você lembra?

R – O Milton cantou. Participou. Participou da cerimônia. Tem ela em fita gravada. Mas agora, para te confessar, realmente não está me vindo assim o evento lá, como é que foi. Está me vindo a cerimônia.

P/2 – Fita você diz...

R – Registro de vídeo, em um registro. 

P/1 – Mas teve esse pessoal aqui que o pessoal comparou com Woodstock?

R – É, aí em 1977 com a aquiescência da Prefeitura Municipal aqui, eles resolveram bancar um, bancar em termos. Abrir as portas da cidade para que fosse, nós tínhamos a usina de açúcar aqui e álcool bem portentosa, então tinha um poderio aqui na cidade. A usina Boa Vista participou com apoio logístico e a prefeitura. Ee esse menino que foi empresário do Bituca é que coordenou alguma, esse evento. E o Milton resolveu fazer uma reunião dos amigos aqui em Três Pontas para homenagear [a cidade], porque estava inaugurando a Praça Travessia, né? Eles iam aproveitar a oportunidade para fazer a inauguração da Praça Travessia, que é aqui em frente à casa dos pais do Milton. E o Milton resolveu convidar os amigos para vir a Três Pontas, participar da inauguração da Praça Travessia, mas para que também dar uma palinha, dar uma contribuição. Mostrar alguma coisa de cada amigo lá. Aí montamos um palco aqui no alto do Morro do Paraíso e fizemos o evento lá. Na época, o governador do estado era o Aureliano Chaves, que também colaborou com o evento, que era sua terra natal, né? Aí fez esse evento do Paraíso que foi denominado Woodstock Mineiro trouxe mais de 15 mil pessoas para cá para Três Pontas. Esse teve um “auê” muito grande.

P/1 – Muita gente de fora? Como...

R – É, para todo lado. Foi uma loucura. 

P/1 – Onde essas pessoas dormiram?

R – A cidade era muito, era não, ainda é... Mas deixa um pouco de saudade. Marcinho até foi muito claro hoje, dando uma entrevista para uma emissora local aqui, muito hospitaleira, então as pessoas abriam as portas para todo mundo. E como eram convidados do Milton, as portas foram abertas para receber o povo de fora. Então hospedou, os trespontanos hospedaram, muito trespontano receberam com as portas abertas. Então não teve, claro que faltou para 15 mil pessoas, não tem rede hoteleira em uma cidade pequena que, mas estava acontecendo uma exposição agropecuária na cidade. O parque de exposição foi o canal que as pessoas encontraram para achar abrigo. Local de varar a noite, vamos dizer assim. Então, do evento que acabou 9 horas da noite, que rolou o dia inteiro, as pessoas vieram para dentro da cidade e foram para o parque de exposição. Que lá no parque de exposição tinha rodeio, bares abertos, forró e tal. Tinha aquelas barracas lá de fazer, promover os bailes de exposição agropecuária mesmo, que todo mundo se tem notícia. Então coincidiu. Já foi muito bem pensado esse evento para poder dar respaldo para atender o, essa demanda de gente que veio para esse evento, né?

P/1 – E como as se vestiam assim, que tipo de roupa elas usavam?

R – Bom, elas estavam vivendo a década de, final de 60 [e] começo de 70. Ainda tinha muito hippie na cidade, tinha muito cabeludo. Basta ver as fotos do evento, tinha mais gente, era... A frequência maior foi de jovens cabeludos e hippies que vieram atrás de um espaço que: “Ó, vai ter show aberto em um campo.” Tipo, Woodstock tinha sido há pouco tempo atrás. Então criou-se essa, esse paralelo de ser chamado, e foi realmente um Woodstock. Haja visto que ali não tivemos mínima repressão no local, no evento, entendeu? Porque rolava aquelas coisas: “Local de usuário de droga. Vai dar maconheiro lá.” Tinha pais proibindo os filhos de ir e ficaram todos, tiveram crianças aqui que foram proibidas de ir. Esse pessoal mais careta, mais carola: “Não, lá vai ser só lugar de maconheiro, lugar de...” Menina, tinham pessoas idosas lá, tinha velhas de 60, 70 anos no local. Uma maravilha de evento, não teve a menor confusão. Gole teve, um pouquinho dos goles no palco e tal, mas também era um evento que não era bancado, não era pago. Você não pode tomar uma cervejinha, nada? Aí tudo, o evento foi fantástico. Não teve o menor constrangimento e rolou tudo muito bem e as crianças... Arrependem, os pais [se] arrependem [de] não ter deixado as crianças terem ido lá. Porque pairava isso: “Porque isso vai ser igualzinho aquele Woodstock lá dos Estados Unidos.” Vai ver as fotos e o filme da, do evento.

P/2 – É outra coisa. E os Borges, como você conheceu? Quando? Você se lembra do primeiro encontro com os irmãos?

[pausa]

R – Aí, vamos lá para o Rio de Janeiro. Morando, 1969, morando no Rio de Janeiro. O Milton vai para a Venezuela, volta da Venezuela já com interesse de gravar disco no exterior e tá, tá, tá. E já programando gravar disco no, na Odeon, que era a produtora que o contratou, primeira produtora que o contratou. Ainda morava no Rio de Janeiro com o Milton, mas a gente frequentava Belo Horizonte. Ele não deixou as raízes. Então quando a gente resolvia, quando o Milton resolvia ir em Belo Horizonte: “Ó, vamos lá em Belo Horizonte?” Eu era o parceiro do Milton lá. Só não tocava com ele, nunca me dei à música. Tem um Jacaré lá que é baixista lá no Rio, mas não era esse Jacaré. Então a gente ia para Belo Horizonte para rever os amigos, e a gente já conhecia os Borges. Os Borges frequentavam Três Pontas desde 73, de 63, né? Foi quando o Marcinho, vi ele pela primeira vez aqui. Então a gente já conhecia. Quando eu vim a conhecer, a pergunta... Quando eu conheci os Borges? Eu não vou dizer a data, eu não sei quando eu conheci. Eu vim a conhecer os Borges nas passagens da vida do Milton, que a gente estava sempre perto. Primeiro eu vim a conhecer o Marilton, o Marcinho. Depois, aí veio aparecer o resto da família. Os (Salomões?) Borges, da família toda. A gente ia [em] 69, ia para o Rio. Do Rio ia para Belo Horizonte ficava lá 2, 3 dias. Voltava para o Rio. E os Borges entraram na minha vida como uma família que merecia ser, quer dizer, que eu merecia ser amigo deles. Aí eu queria ser mais amigo deles e fui entrosando com todos eles. Em 70, em 69, houve essa. Aí em 70, o Bituca fez esse trabalho com o Som Imaginário, né? Lá no Rio de Janeiro, que eles abriram o Teatro Opinião, que aí tinha o Fredera, o Tavito, Zé Rodrix e tal. Então esse era o Som Imaginário. E eu continuei morando com o Milton lá e eu ajudava na casa. Quer dizer, no trabalho sobrava para mim, era, dar uma força lá na casa, que eu ajudava o empresário que precisava de algum: “Ah, preciso do Milton tal hora, você leva ele para mim?” Era o único que dirigia na casa, então servia de motorista, de tudo, de ajudante, secretário. Nunca fui tratado como secretário do Milton não, mas eu sei que eu fazia isso, ajudava nas prendas domésticas também. “Vamos cozinhar?” “Vamos.” “Vamos lavar o carro?” “Vamos.” “Vamos arrumar a cozinha?” “Vamos.” “Ah, tem que buscar Fulano, tal. Levar não sei o que para a gravadora lá.” Então eu participei da vida profissional dele nesse sentido, ajudando. Teatro também tinha o horário para levar, o horário de chegar, de tirá-lo do camarim, levar para casa também. E aí fui vivendo no Rio. E ele profissionalmente se dando bem, começando a entrar nos eixos, vamos dizer. Chegou o ponto de que ele chegou a conclusão de que precisava aproximar mais as pessoas que ele tinha carinho com elas e que eram os parceiros. Meus parceiros... Não tinha esse comentário, mas a gente notava isso. Os parceiros estão lá em Belo Horizonte. Já tinha feito amizade com Ronaldo Bastos no Rio, mas os parceiros eram mais Brant, Lô, Toninho Horta. Esse negócio de ir em Belo Horizonte... Parece que um dia deu clique lá, falou: “Não, agora nós vamos gravar um disco. Tem que sair um disco excelente nosso do...” Não se chamava Clube da Esquina, não. Depois é que veio a dar o nome de Clube da Esquina. Então o que é que aconteceu? Em vez de nós irmos para Belo Horizonte, eles vieram.

P/2 – Eles quem?

R – Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta. Nós, vou falar nós. Alugamos uma casa em Niterói, Mar Azul, na Praia de Piratininga. De um amigo do Milton lá, Paulo, se não me engano, Paulo Romário, que ele é até cego. Era do, era dele. Alugou-se uma casa lá em Mar Azul, Piratininga. E aí, o Milton chamou todo mundo: “Olha, vem para cá para a gente trabalhar em um disco aqui.” E aí vieram o Lô para morar no Mar Azul. Quer dizer, só o Brant que ficou, porque o Brant trabalhava já como jornalista. Ele era advogado, mas trabalhava n’O Cruzeiro, né?

P/2 – O Fernando?

R – Então, o Fernando não foi morar no Mar Azul não. Mas me recordo que foi para lá: Lô, Beto e Toninho Horta. Deixa eu dar, minto, depois corta. Vai... Antes de alugar a casa em Mar Azul, eles foram requisitados para ir morar no Rio de Janeiro. Depois é que apareceu o Mar Azul, porque aí, quando a Travessa Angrense ficou pequena, saímos, é, estou falando que tem o problema da memória aqui que estou puxando...

P/1 – Não, está uma delícia.

P/2 – Está ótimo.

R - ...está difícil.

P/1 – Está ótimo.

R – Porque foi, aí, cronologicamente eu tinha que ter colocado. 69, 70 Rio de Janeiro Travessa Angrense. Depois...

P/2 – Não, não precisa, vai contando os...

P/1 – Não...

R - ...71 foi aí nós mudamos de apartamento foi morar na, na...

P/2 – Niterói.

R - ...em cima do Túnel Rebouças.

P/2 – Hum.

R – Na Bartolomeu Mitre. Aquele túnel...

P/1 – Hum, hum.

R - ...do Rebouças. Aquele prédio verde, não sei se é verde hoje ainda. Você passa tem um prédio em cima lá.

P/1 – Lá no prédio.

R – É, você passa dentro do túnel, o prédio está aqui em cima. Nós fomos lá no jardim Botânico. Foi onde que é um apartamento maior que aí deu condições, que o Milton já estava ganhando mesmo. Eu não ajudava pica nenhuma, porque aquilo, como é que eu ia ajudar no... Meu pai mandava uns troco para me ajudar no estudo lá, então eu participava rateando o negócio de alimentação. Mas no aluguel, quem bancava era o Bituca mesmo. Aí alugamos um apartamento maior nesse Botânico. Foi onde ele falou assim: “Venham. Agora não vou lá em Belo Horizonte não. Vocês venham para cá.” Aí foi onde o Beto foi para lá para morar. Aí tivemos, montamos, teve um quarto do Milton, montamos um quarto para eu e o Lô... Não, o Beto e o Lô. E mais um quarto para mim lá. Ficou todo mundo, cada um com um quarto nesse apartamento. Foi onde os meninos começaram a mexer com música no Rio. Então era o dia inteiro. Aí você me pergunta de música. Então, eu escutava... O Beto chegou no Rio doido com Beatles, né? E o Lô também. Os dois era beatlemaníacos. Então era só Beatles que dava. Eu ia escutar o que mais? Beatles, né, Rolling Stones, claro. Tudo essas músicas do pessoal. Então eu fui dopado com Beatles, Rolling Stones,  Aretha Franklin, com Nina Simone. Que era o que o Bituca gostava e que os meninos gostavam. Então eu fui criado com esse ouvido deles lá. Tem que escutar, porque se não escutar, você tinha que botar um tampão no ouvido.

P/1 – (risos)

R – Mas e os meninos, e antes de... Se não estavam ouvindo, estavam tocando, né? 

P/2 – E como é que foi o Mar Azul? Parece que aconteceram muitas histórias.

R – Aí foi ____ apareceu esse apartamento. Que fomos lá, alugou esse apartamento, fomos lá para Mar Azul morar e ficamos.

P/2 – Não. Na casa lá em Piratininga, não é?

R – É, no Mar Azul, lá em Piratininga.

P/2 – Que é uma casa?

R – Uma casa de vidro. Não tem jeito de lembrar porque é uma história grande. A casa era toda de vidro, né? Então você, quer dizer, não era toda de vidro, tinha um quarto que a gente gostava muito de ficar nele, um quarto com janelas de vidro. E não tinha cortinas não, esse quarto não tinha cortina. Então se dava de frente para o mar, você tinha o mar na tua frente. Chegava de noite, a gente ia para esse quarto e apagava a luz para ficar, passar a noite no quarto. Cada um tocando sua viola e admirando aquele marzão na frente lá. E ali é que eu imagino que eles criaram muitas músicas, o que veio de sensibilidade para eles para criar, foi, esse disco “Clube da Esquina”. Foi essa casa lá que era uma maravilha. Não tem como descrever não. Sei que Mar Azul trouxe o que se escuta daquelas músicas do Clube da Esquina, basta você fechar o olho você vê um marzão na sua frente assim, fala: “Gente, o retrato está aí. Mar Azul.” Mas é indescritível. Nessa casa rolou de tudo, porque era época de fazer arte, né, de fazer folia. Traziam suas namoradas. E chegava neguinho cobrando: “Tá na casa dos músicos lá. Levou... Minha mulher está lá.” Não era mulher não. (risos) Mas neguinho que sabia - “Lá mora uns músicos lá que devem ter...” - roubava as namoradas dos caras nas boates lá. Era uma confusão danada. E todo mundo nessa época, a gente já estava tomando cachaça, porque quando o Beto e o Lô foram para o Rio, para o Rio de Janeiro, não se tomava nada. O Lô ainda tomava um golinho, mas não era... Tomava, era tudo, nós éramos meninos, mas o Beto andava com Coca-cola litro debaixo do braço. Era só refrigerante. A gente não era aprendiz do gole não, porque, hoje eu vejo assim: pô, nosso tempo lá, botava na mesa, sentava para almoçar. A caseira botava almoço na mesa, botava dois, três litros de refrigerante em cima da mesa. A gente tomava refrigerante. Daí depois, foi aparecendo o álcool na nossa vida, foi aparecendo e hoje quem que deixa de tomar sua cervejinha, sua pinguinha, né? Mas foi um aprendizado lá em Mar Azul porque, aprendizado entre aspas, a frequência era muito grande. Quando não, porque sempre ficou na casa: Lô, Beto, Bituca e eu. Eram os quatro que frequentavam, mas tinha o Ronaldo Bastos do Rio que estava sempre lá na casa e o Toninho Horta também ficava, vamos dizer, eu... Ficavam seis, mas era alta rotatividade. Os seis ficavam, mas sempre tinha 10, 12 na casa. Chegava um, saía outro. O tempo rodando. Marcinho ia para lá, os meninos do, é, uns outros músicos de Belo Horizonte. Posso estar até esquecendo nome aqui mas, além do Fernando, né? Murilo, Antunes, não vou citar nome porque daqui a pouco eu...

P/2 – E como é que era o dia-a-dia lá? Que é que eles faziam? O que é que você fazia?

P/1 – Que horas acordavam?

R – Ah, não tinha hora para acordar, não tinha hora para dormir. Eu era, eu ia muito no Rio para olhar o apartamento que não ficou, não desativou. O apartamento do Jardim Botânico não, ele ficou ativo. Então eu ia para o Rio para olhar a casa, ver como é que estava, para fazer as, os compromissos dos empresários, né, que nem sempre dava tudo certo, que o Milton teve sempre muito problema com empresário, né? Sempre teve há alguns anos, mas depois ele solidificou tudo mas ele foi muito infeliz nos primeiros anos de carreira. Sempre dando com os burros n’água. Mas aí a vida lá, eu não vou chamar de normal, porque era anormal. Acordava-se a hora que queria, tomava-se um banho de mar. Os músicos sempre pegavam o violão e ia criar. Então foi uma vida só para criação, para montar o disco “Clube da Esquina”, veio a chamar depois. Aí que deu o nome lá, mas enquanto eles trabalhavam lá, não sabiam. “Vamos chamar esse disco de Clube da Esquina.” Ali foi o ano de, não vamos falar de data. Talvez seja meio de 71 para meio de 72, porque o disco saiu em 72. Mas essa vida, nessa casa, era uma vida, não era normal. Você acordava, banho de mar. Voltava, sentava na varanda lá em cima. Quando não estava no quarto de vidro, que o mal tempo, você tinha que fechar os vidros. Mas com o bom tempo, sentava na varanda e eles só tocando, tocando, tocando. Criando, né? E eu caçando umas peladinha ali na praia. Aí já tinha, estudo já tinha ido para as cucuia (risos) Já tinha abandonado o estudo.

P/1 – (risos)

R – Não estava ligando mais não.

P/2 – E o que é para você o Clube da Esquina? O que é esse momento da sua vida? O que é esse disco? O que significa essas músicas?

R – Olha, menina, isso tudo aconteceu foi é, me marcou muito porque o, apesar de não ter participado, não ter criado nada do, no Clube da Esquina, na obra. Quer dizer, eu estou inserido no Clube da Esquina. Eu que era, eu fazia parte da amizade deles. Eu já fui uma pessoa muito alegre. Eu tenho estado um pouco triste hoje. Eu gostava de estar na roda contando casos daqui da cidade. Tenho gravado isso comigo. Mas eu gostava sempre de estar na roda deles e eu era muito bem recebido por eles, porque eles me tinham em conta, que eu era uma pessoa da família. Como sou, né? Primo do Milton, mas sou irmão do Marcinho, irmão do Lô. Nós éramos ligadíssimos, eu com os Borges. Sou ligadíssimo com eles todos. Só que depois que eu vim me embora pra Três Pontas – que eu morei no Rio até, eu vim embora em 73. Fiquei lá até 73, depois vim embora para casar. Casei em Três Pontas e montei uma loteria esportiva e, aqui hoje, fiquei em Três Pontas. Depois passei para o ramo imobiliário, mas estou aqui casado em Três Pontas e tenho duas netinhas hoje e me afastei um pouco desses meninos. Porque agora casou, criaram família, e tal. Então não voltei mais, mas o Clube da Esquina está dentro de mim. Porque ele foi, faz parte do meu eu. Eu tenho pensado comigo de que, como é que seria o Helson Romero Jacaré de, não ter acontecido isso tudo na minha vida? Como é que eu seria? Que poderia ter sido da minha vida? E eu agradeço muito essas amizades que eu colhi com a ajuda do Bituca – porque foi ele que me trouxe as pessoas para perto de mim – e devo agradecer também ele, que ele que trouxe essas pessoas para essa terra maravilhosa que é Três Pontas. Então todos tomaram amor por Três Pontas por intermédio do Bituca. Se não fosse ele, não teria trazido essas amizades para cá para Três Pontas. Então, Três Pontas tem que ser muito agradecida ao Bituca e a essa prole do Clube da Esquina. Nós estamos, eu estou sem palavras, porque você me pede para falar do Clube da Esquina. O Clube da Esquina é o meu...

P/2 – Então fala qual é a sua música predileta?

R – Ai, eu gosto... Não... Desse disco?

P/1 – Desse disco Clube da Esquina.

R – Do Clube da Esquina?

P/1 – “Clube da Esquina 1”.

R – Do Clube da Esquina?

P/1 – É.

R – Eu gosto muito do Cais. Ele gravou o Cais foi no Clube da Esquina? Não, não foi não no Clube da Esquina.

P/2 – Mas não importa __________ o Milton....

R – Porque Cais me diz muito, porque quem veio me casar aqui foi o Milton e o Wagner Tiso. E eles é que fizeram meu casamento. Eles cantaram Cais. 

P/2 – Que privilégio, hein? (risos) 

R – (chora) Me envaidece.

P/2 – Para um pouquinho.

R – Saiu do Rio...

P/2 – Dá uma respiradinha.

R – Pode deixar, eu estou...

P/2 – Não, mas você não vai me passar mal... 

R – Que passar mal!

P/2 – Quer um copinho d’água?

P/1 – (risos) 

P/2 – Vai subir sua pressão...

R – Não, você me pergunta uma música. Não, não sobe não. Você me pergunta de uma música, né? Realmente, o Milton saiu do Rio, veio me casar, né? Ele e o Wagner fizeram questão. Falou: “Não, nós vamos lá fazer teu casamento. E eu vou tocar e o Wagner vai acompanhar.” Porque eu cresci no Clube da Esquina, gente. Eu não pus uma notinha nessas músicas e nem uma frase nos versos, mas tenho certeza que colaborei espiritualmente com essa obra magnífica que foi o Clube da Esquina. Me envaidece. Tenho certeza que eu participei. Fisicamente, eu dei a minha contribuição lá para o Clube da Esquina. E vai perguntar para os outros se não? Claro que sim. Eu tenho certeza que eles compreendem que eu participei lá. Eu era mais alegre. Hoje eu estou passando por uma certa fase mais delicada, mas vou voltar a ser o Jacaré de antes. Voltar a contar caso. E talvez até consiga chamar o Bituca de novo para a gente acabar um livro de caso que a gente tentou escrever uma vez. Começar a escrever um livro de casos que a gente tem sempre...

P/1 – Ah, vocês têm isso?

R – Tem, a gente tem um projeto. A gente um dia [vai] registrar isso em livro. Aqueles casos que vêm lá do arco da velha que a gente sempre lembra.

P/1 – Eu queria que você falasse um pouquinho da Tereza. Sabe, assim, a tua lembrança mais antiga da Tereza. Como é que... A gente conheceu ela hoje de manhã e era uma pessoa que acompanhou muito vocês. Muito presente, parece, né?

R – Tereza era aquela, bom, a Tereza é da família. A Tereza é Brito. A Tereza tem uma raiz dos Britos que não, vamos dizer, faz parte da árvore genealógica da família mas eles estavam um pouco mais distante, certo? Mas a Tereza apareceu, porque ela era a porra louca da família. Tereza era aquela mãezona, aquela mulher, aquela mulata que sabia cozinhar muito bem, que criou os filhos lá. Que pajeava, ajudava a minha avó a pajear o Zino, a pajear o Ciro. A minha avó, né, a Tereza ajudava. A Tereza tem a idade do Zino hoje, mas ela era já criada em uma casa que aprendia as prendas domésticas. Ela sabia tudo. Então a Tereza era a porra louca da família e ela sempre foi muito alegre, extrovertida. Sempre falava bobagem. Sempre criava as suas confusões e sempre gostou de um gole, né? Então Tereza sempre bebeu. Sempre pitou seu cachimbo, sempre tomou seu golinho, mesmo novinha. Gostava de uma folia, sair para as madrugadas, para os bailes. Virava e mexia ela fugia de casa, dos filhos, do marido [e] ia para os forrós, fazer suas artes. E a cidade toda sabia, compreendia ela. “Não, deixa. A Tereza é meio louca.” Mas com essa loucura, ela sabia muito bem como direcionar e tratava a gente muito bem. E tratava como filhos, eu sou tratado como filho. A minha mãe foi tratada como filha dela. O Zino era o irmão dela. Então ela sempre foi uma boa dona de casa, cozinheira.

P/1 – Cozinhava bem?

R – Cozinhava. Até hoje ela sabe fazer as comidas. É só querer comer na casa de Tereza, falar para ela, que ela apronta lá. Mas ela tinha esse lado dela de foliona, de falar bobagem, tomar seus goles. Vira e mexe a gente está levando a Tereza de porre para casa. Até hoje com 80 e tantos anos, mas a gente está regulando. Mas ela de repente bebe escondido e sai do sério. E o Bituca quando vem, quando está em Três Pontas... A turma toda quando chega em Três Pontas, tem que falar com a Tereza. A Tereza tem um celular com o telefone de todo mundo. Quer falar, vamos achar um aqui, quer falar com Sá e Guarabira? A Tereza tem o telefone. Liga e fala: “É a Tereza.” Eles atendem e falam: “Nossa, meu amor!”  Que é Tereza para cá, Tereza para lá. Tem o telefone de todo mundo, a Tereza. Então as pessoas vêm em Três Pontas têm que ir falar com a Tereza. E são... É gratificante para a gente saber que a Tereza fez parte da nossa vida, faz parte da vida do Milton, porque o Milton levou a Tereza para desfilar na Cabuçu, né, no Carnaval de 89, que ele foi homenageado lá. Botou a Tereza em cima do carro alegórico. 

P/1 – E ela foi e adorou.

R – Em cima do carro. Botou Lô Borges, Beto Guedes e Tereza da Quitéria no carro alegórico. Foi, adorou. Só que fez xixi em cima do carro alegórico. (risos) 

P/1 – (risos) 

R – Arrumaram uma latinha para ela lá, ela foi atrás de um biombo, sei lá que tinha no carro e...

[pausa]

R - ...em cima do carro alegórico, fez xixi.

P/2 – Você tem essas fotos? Essas fotos, dessa... Você tem ideia de onde a gente possa...

R – Quais fotos?

P/2 – Essas fotos do Carnaval?

R – Não.

P/2 – Desse carro alegórico em que está o Milton, o Lô, não?

R – Não. O arquivo dessa eu não tenho.

P/2 – Tá bom, só para...

R – Porque no Carnaval eu era secretário de Turismo aqui em Três Pontas. Eu que fazia o Carnaval, então não pude ir lá...

P/2 – Ah, tudo bem.

R - ...eu queria estar lá também para registrar, mas não fui não.

P/1 – Agora a Tereza estava sempre com vocês, essa turma mais jovem também, parece que...

R – Está sempre conosco, está sempre junto aí. Agora eu tenho evitado ela porque nós não paramos de beber. Agora a Tereza tem que parar.

P/1 – (risos) 

R – Então eu tenho evitado levar um pouquinho para as folias a mais porque ela bebe escondido, ela foge da mesa. Vai lá por trás do balcão e tasca um cinzano com cachaça. Porque às vezes eu falo: “Não, só cerveja, Tereza.” Aí ela: “Não, vou beber só cerveja.” Mas que nada, ela sai para ir no banheiro, esconde, vai lá no balcão e pede para por uma por fora. Escondia mesmo.

P/1 –(risos) Escondida. Você tem alguma coisa?

P/2 – É, eu acho que...

P/1 – É, eu queria que você falasse aqui do fã-clube.

P/2 – Ah, é.

P/1 – Parece que você tem uma participação muito grande na montagem... [falha na gravação] ...desse espaço. Eu queria que você falasse um pouquinho disso. De como ele começou a tomar forma?

R – É, o fã-clube ele está semi-desativado hoje, entendeu? Semi, porque eu sofri um probleminha de saúde, coisa simples, mas que me abalou um pouquinho. Então, como eu estava a frente do fã-clube e não pude contar, porque tem uma história, um ditado  que diz: “A galinha do vizinho é sempre mais gorda.” Ou “Santo de casa não faz milagre.” Então não deixa de ser fato. O que aconteceu foi que nós idealizamos a criação desse fã-clube, que é um espaço para promover a integração dos admiradores do Milton, né? O maior objetivo é esse: promover a integração. Que é que significa o fã-clube? É um espaço onde o admirador do artista procura para se inteirar mais do admirado. Então vamos mostrar o que é que o Milton tem, mostrar os valores dele. E tornar um espaço para haver uma relação entre o fã e o artista. Contribuindo para que o fã possa ter acesso às coisas do artista, porque o fã não pode ficar lá procurando o Milton, querendo tirar retrato com ele todo dia, querendo falar com ele todo dia. Então vamos criar o fã-clube. A ideia era essa, e promover a cidade turisticamente e culturalmente. Então, os objetivos: interligar os sócios e montar o turismo cultural e artístico para a cidade. Visitação pública, conhecer as obras dele. E começamos, e comecei a ativar. Só que o chamado a isso para a cidade não aconteceu, quer dizer, não houve o menor respaldo. Não encontrei uma ardência. O Marcinho gosta de falar no ar, tinha que estar ardendo mais esta cidade. Não encontrei ardência nenhuma. Inclusive, das próprias autoridades. Que era para ter olhos para essa exponência, que é um artista mundial, falar: “Opa.” _______ apoio logístico. Mas tinha que ter olhos voltado para isso. Não interessa dar esse apoio lá, aí não encontrei [e] tudo isso foi me deixando muito magoado. Encontrei mais gente de fora interessado em participar do que da cidade. Foi aí que me deu um pouco de baque, mas montei. Ele está, montamos. É claro, não vou dizimar pessoas aqui não. Tem os amigos aí, uma parcela de pessoas que nos ajudaram a tocar em frente, mas você sabe que a união faz a força. Tínhamos que estar mais unidos para criar essa atividade como um todo.

P/1 – Como você começou a coletar esse material? Tem vários pôsteres. Tem mais. Eu contei, acho que tem mais de 60 pôsteres. Tem várias fotos, os figurinos. Como é que você começou a localizar esse material e _____________

R – Ah, não, isso é porque, eu, Jacaré, já tinha... Eu já vinha há muitos anos mantendo um acervo, quer dizer, coisas minhas mesmo [que] eu guardava. A minha tia Lílian e o meu tio Josino tinham o seu acervo. E outras pessoas que eu conheci aí, também sabia que tinham alguma coisa. Eu fui, aí conclamei, todo mundo, conclamamos. Eu não gosto de falar eu, né? Eu gosto do, de falar no plural. Nós, um grupo aí, conclamamos, quem pudesse fazer doações. Aí lançamos a ideia de lançar o fã-clube. Ele não foi lançado aqui não, foi lançado em outra sala, porque meu tio tinha isso aqui como uma eletrônica. Depois é que vimos que essa sala podia servir, não é servir... Essa sala podia ser muito mais um anexo do fã-clube. E o tio Zino aposentou, passou de livre e espontânea vontade, ele resolveu passar a eletrônica para o fundo e me cedeu esse espaço aqui. Mas aí, conclamamos quem pudesse ceder algum espaço. Entrei em um carro aqui, fui lá para o Rio de Janeiro: “Bituca, que é que eu posso levar para o fã-clube?” Aí enchemos uma parati lá também, trouxemos, e deu no que deu. Está tendo e tem muita coisa ainda por ser trazida e montada aqui. Mas já nós vamos estar com essa atividade. Está parado, mas está... É vida latente. Já, já ele está...

P/1 – Está engrenando.

R – Já, já ele está montado.

P/2 – E, Jacaré, para a gente concluir. Quais são as lições que você tirou e continua tirando dessa sua amizade com o Milton Nascimento?

R – Ah, você quer repetir?

P/2 – Quais foram as lições que você tirou e continua tirando...

R – Que é que me...

P/2 – Vida, lições de vida...

R – Tá.

P/2 - ...dessa sua proximidade, essa sua amizade com o Milton Nascimento? Com o Bituca?

R – Ah, eu diria que a primeira coisa [que] seria do Milton [e] Bituca, né, é o caráter. Eu aprendi muito com ele. O Milton é uma pessoa que, ah, eu não, fica parecendo que está ____: “Ah, elogia aí o Milton.” Não é elogiar, ele trouxe uma lição de caráter. Eu nunca vi, eu desconheço, desconheço uma pessoa nesse mundo que tenha o caráter que o Milton me mostrou e mostra para esse mundo aí. O Milton sempre foi uma pessoa do bem, de caráter e verdadeira. Nada que ele queira esconder, ele esconde. O Milton, ele não deixa passar nada batido. Sempre atento. Eu tenho um amigo meu, que brinca: “Quem vê esse mineirinhocarioca, né? – esse cara sabe muito mais do que a gente imagina.” Ele é uma pessoa, tem um caráter excelente e ele me ensinou a ser gente. O Milton é muito gente. Como ele, eu tenho uma impressão assim, o meu pai que me desculpe, mas eu vou comparar. O meu pai era uma pessoa muito querida na cidade. Hoje em dia as pessoas falam, encontra comigo [e] quer explicar quem era meu pai, eu faço uma relação assim: “Olha, eu tive na vida dois homens de eu ter inveja e ciúme, - ciúme não – mas ter inveja: meu pai era uma pessoa ilibada, reta. E o Milton me passa isso.” Eu olho para o Bituca, falo assim: “Puta merda, esse é o retrato do meu pai. Ele me ensinou, meu pai era muito digno, muito reto. Agora o Milton me passou muita firmeza, me deixou ser muito firme. Eu sou muito, me arrependo muito dos meus erros que a gente sempre erra, né? E eu vou buscar exemplo lá atrás. Quando eu falo: “Você não devia ter feito isso, não devia ter tomado esse comportamento. Ai se eu fosse igual o Bituca, eu...” O Milton é um cara verdadeiro. Então essa lição que ele passa para a gente é de simplicidade e de gente. Um ser. Ah, não sei...

P/1 – (risos) 

P/2 – Tá bom. Então para terminar, Jacaré...

P/1 – Tá lindo.

P/2 - ...o que você achou de dar essa entrevista aqui para o Museu Clube da Esquina? O que significou para você essa participação?

R – (chora) Olha, eu fico tentando achar que eu não colaborei com o que o museu esperava que eu pudesse trazer. Mas dentro dessa pessoa humilde que queria estar aqui, extrovertido, eu já fui muito mais extrovertido, muito mais falante. As pessoas que me conhecem... Mas espero ter ajudado muito e vir a colaborar muito mais daqui para a frente. Que esse, que isso que está guardado aí venha trazer, venha faltar alguma coisa [e] vocês me procurem mais para ajudar mais. Venha a somar. 

P/2 – É graças a você que a gente está aqui também.

R – Porque, não, eu estou, eu fiquei, eu estou preocupado há muito tempo. “Não, vai gravar. Mas o que eu vou falar para esse pessoal? O que eu vou trazer de informação?” 

P/1 – (risos) 

P/2 – O que vai falar? (risos) 

R – Não sei. Falei, falei, falei e estou saindo daqui achando que não falei nada. E estou tentando lembrar: “Será que eu esqueci alguma coisa que era bom ter registrado, ter falado, que não...”

P/2 – Tudo o que você falou é o que você viveu e isso é muito valioso. Só você viveu isso. Só você podia estar contando isso. Então aí é que está o valor da sua narrativa.

R – Agora eu posso fazer uma pergunta para vocês. Está a contento? Vocês acham que pode...

P/1 –(risos) Nossa.

P/2 – Claro, se não a gente falaria.

R – Ajudou?

P/1 – Não, [ajudou] foi tanto, que a gente está quase há 2 horas aqui.

R – Ajudou, né?

P/2 – Nossa.

P/1 – E a gente está ouvindo assim maravilhada. Porque cada um que vem também...

R – Porque quando falou do Clube da Esquina, nós só não aproximamos foi o fator assim que juntou Lô, Milton, Beto, Marcinho, Fernando essa relação, porque nós não falamos só da, quer dizer, nós não... Eu queria ter contado para vocês – tá vendo a cabeça como embaralha? É o AVC que me deu essa coisa, me deixou meio complicado. Era aquela que nós falamos do Naná, mas eu tinha que ter contado algumas coisas para vocês, era a respeito do Lô e do Beto. Porque na realidade, nessa casa, ficou dormindo Milton, Lô, Beto e Jacaré. Os quatro ficavam debaixo de um teto só. E agora caso, o Bituca sabe, era caso, eu sempre apaixonava por umas mulheres que o Beto vinha e me tomava. Que o Lô vinha e me tomava. (risos) Fica aqui registrado. O Bituca não, o Bituca nunca me tomou mulher nenhuma não, mas os dois bastava. Eu apaixonei pela Tereza, o Beto veio e (tuca?) me tomou a Tereza. Apaixonei pela Taís, o Lô veio e pumba, me tomou a Taís. (risos) Nenhum deles casou com nenhuma delas. (bate palma) Jacaré.

P/1 – (risos) 

P/2 – Lavou a alma, né, Jacaré.

P/1 – Queria agradecer então a sua entrevista, a sua colaboração. Foi fantástico.

P/2 – Muito obrigada.

R – Eu que devo agradecer e pedir desculpa se não ajudou.

P/1 – Imagina. Foi ótimo, foi ótimo.

P/2 – Muito divertido.

 

[Fim do depoimento]

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