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História

Cleide saiu da Bahia e encontrou seu lugar em Santa Catarina

História de: Cleide Barbosa dos Santos Dará
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Migrante nordestina, Cleide conta como lidou como o preconceito que sofreu até se tornar uma artesã reconhecida. Continua sua constante busca pelo conhecimento, fazendo faculdade de Design.

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História completa

Meu nome é Cleide Barbosa dos Santos Dará, nasci em Lagoa Grande, Bahia, em 26 do quatro de 1970. Meu pai marceneiro e carpinteiro. Minha mãe é dona de casa e costurava também, mas só pra família. E como eu sou a irmã mais velha, eu fiquei incumbida, a vida inteira, de ajudar ela nas tarefas domésticas, de ajudar a cuidar dos irmãos, de tudo, desde muito cedo.

Quando eu tinha uns dez, onze anos eu fazia roupa pras minhas bonecas e ainda vendia pras minhas amigas (riso). Aprendi a fazer ponto cruz por curiosidade na escola, que a professora passou uma tarefa de Educação para o Lar, só que era pro meu irmão bordar em ponto cruz. Minha mãe ensinando e minha vó ensinando, e foi nessa época que eu aprendi a bordar. Era tudo torto, mas eu peguei.

Nós morávamos na cidade. Ah, tinha a praça da nossa cidade, cada final de semana se juntava todo mundo. Depois da igreja tinha a praça. A juventude toda se reunia ali. Era o ponto de encontro de todo mundo. Era sempre na praça. Tinha muita coisa, tinha lanchonete, tinha carrinho de pipoca, de vez em quando tinha shows. Ia pra igreja, mas a ansiedade era que tinha que terminar a missa logo, né?

[Minha mãe] ensinava algumas coisas, mas a maioria era de observar. A maioria das coisas que eu faço foi pela curiosidade e pela observação. E a tentativa, porque você vai fazendo, fazendo até que você alcança ali o que você quer. Eu desde pequena aprendi dessa maneira, mais pela observação e o tentar fazer que até hoje eu funciono assim.

Eu me formei com 19. Acho que eu tinha uns 16 anos quando comecei a trabalhar fora, tinha muita vontade, mas trabalhar na verdade, a vida inteira mesmo eu já trabalhava. O meu primeiro trabalho foi numa loja de tecido, que tem a ver, né? Aí eu aprendi a conhecer mais os tecidos, os nomes dos tecidos principalmente. Trabalhei de atendente de loja, tinha outra que era de variedades. Quando eu me casei, não trabalhava mais. Aí, tinha que ajudar o marido, eu vendia roupas. Vendia tudo. Eu nunca fiquei parada. Costurava também alguma coisa. Vendia na vizinhança. Eu pegava o filho, pegava a bolsa, colocava do lado e saía pra vender.

Teve uma época, quando eu me mudei pra cá, eu queria fazer alguma coisa diferente, foi quando eu comecei a trabalhar na indústria. Eu trabalhei algum tempo e pelo serviço repetitivo acabei tendo algumas complicações. Tive meu porto seguro, a costura. E voltei novamente. Estava cansada, queria experimentar, trabalhar em outro lugar. Achei que também seria melhor financeiramente, mas acho que foi um erro, que eu devia ter investido em me qualificar mais, ir atrás, insistir. Porque eu vim de São Paulo pra cá, aí já não tinha aquela clientela, já não tinha o mesmo conhecimento. Eu não me encaixava no mercado, e uma cidade diferente, de cultura um pouco diferente, aí você fica um pouco retraída. E eu não tinha parente, não tinha conhecido nenhum aqui.

A diferença é muita [rotina numa fábrica e um trabalho artesanal], porque você faz várias peças que não são suas. Não tem nada seu. Você está sendo paga pra fazer aquilo ali, mas de uma forma assim muito impessoal. Aí você tem aquela produção, ali você mistura e o produto industrializado, ele não leva as características da pessoa. Você faz porque você tem necessidade de trabalhar, mas são horas e horas ali numa posição só, fazendo a mesma coisa e é chato. É muito chato que você fica ali, depois você sai só pra almoçar e já volta, aí você tem que cumprir metas, você tem que cumprir produção. É bem ralado, não é como o meu trabalho, que eu tenho a liberdade.

Eu tinha meu ateliezinho assim lá no fundo e tinha dia que eu não conseguia ir ao portão, porque as clientes vinham, entravam, saíam, mas eu não ia sequer ao portão. Aquilo ali, com o tempo parecia que eu estava muito fechada, e que aquilo não me deixava fazer outras coisas. Aí foi que eu fui numa reunião lá do Consulado e que eu comecei a enxergar novas possibilidades de sair um pouco. Que isso tinha que ser realmente uma atividade que me desse prazer, não que começasse a me cansar, que fizesse só por fazer. Porque aí eu acho que você não faz direito quando você faz só por fazer.

Enquanto artesão, às vezes a gente se desvaloriza muito e aí a gente aprende a dar valor e saber que o trabalho manual, o trabalho que é feito tem a tua individualidade, a tua história, é diferente de você comprar um lá que veio da China, que não tem esse... Como é que eu vou falar? Não tem um pouco da pessoa. Não tem história nenhuma. Tu comprou lá na loja e acabou. E não, nós que somos artesãos, cada produto da gente tem uma história de vida, tem muita coisa da gente, que tu compra junto. Acho que esse é o nosso maior diferencial, independente do que o artesão faça.

Eu fiz a linha das bolsas, das nécessaires, que elas conversam umas com as outras e todas têm a mesma identidade, que é a brasilidade. O kit das folhas é meu porque só eu faço e é uma coisa livre, não é desenhada, eu faço na máquina, fazendo ali. Por isso que cada uma é diferente, porque nenhuma aplicação, nenhum dos desenhos é igual ao outro, porque eu não vou conseguir repetir. Olhando, assim, você pensa que é igual, mas não é. E cada folha tem uma medida diferente, tem uma proporção diferente e é isso que faz, elas são o mesmo modelo, mas nenhuma é igual à outra.

Agora eu entrei na faculdade de Design, depois de tanto tempo, e acho que eu já mudei bastante nesse início de ano, porque é um ambiente que te proporciona isso. A busca pelo conhecimento, a busca pelo entendimento das coisas.

Associação Arte e Culi e o empreendimento Manacá em Flor, porque eu queria alguma coisa que tivesse a ver com essa minha transição, Ele é muito parecido, a história dele é parecida com a minha. Que ele também ocorre lá, mas tem aqui também. Tem essa transição da caatinga pra Mata Atlântica. Foi a minha!

Principalmente por você vir de fora. Por você fazer um trabalho que se equipare a outras pessoas que estão aqui, às vezes elas não aceitam bem quando elas não te conhecem. Tem esse estranhamento do diferente. Ainda mais que eu moro num estado onde eu sou minoria. Sou mulher, sou negra e nordestina. Então são coisas que não são fáceis de você transpor e de você mostrar que você é capaz, que você pode e que você não tem diferença nenhuma, você é um ser humano igual a qualquer outro. Eu tive muita dificuldade nessa parte, mas eu soube esperar e soube mostrar quem eu sou. O tempo se encarrega dessas coisas. Porque eu não baixo a cabeça, quando a pessoa me diz não, e eu entendo o porquê ela me disse não; mas daqui a pouco ela está me dizendo sim, porque com as minhas atitudes, com a minha maneira de ser, a gente mostra quem a gente é. Não precisa estar discutindo nem batendo de frente. Nem sempre as palavras são bem colocadas, dependendo do momento (riso). E é isso.

[Contar a minha história], muito bom. Pra gente se lembrar de coisas que você nem lembrava mais e você não enxergava, assim. Você enxerga ela em fases assim muito divididas.

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