Busca avançada



Criar

História

Cinema na igreja, paquera na praça

História de: Maria Aparecida de Lima Conde
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/04/2008

Sinopse

Maria Aparecida de Lima Conde tem muitas histórias para contar, a maioria delas sobre a infância e a juventude vividas no interior de São Paulo, entre uma fazenda de Pederneiras, onde nasceu, em 1942, e a cidade de Jaú, para onde se mudou ainda criança, a fim de dar início à vida escolar. Com muitos detalhes, ela se recorda das inesquecíveis sessões de histórias de assombração da avó Helena e de filmes de aventura que o Padre Serra organizava depois das aulas de catecismo. Maria Aparecida ainda fala do footing, a paquera de sua época, e das dificuldades que enfrentou para conseguir se formar em Serviço Social. Foi a partir desse curso, aliás, que ela deixou a região de origem para trabalhar em São Paulo e, depois, em São José dos Campos, onde formou sua família, se aposentou e passou a se dedicar ao trabalho voluntário.

Tags

História completa

Eu nasci em 12 de outubro de 1942, em Pederneiras, São Paulo. Meus pais, até grande parte da vida deles, a minha mãe era dona de casa, e uma boa parte da vida do meu pai foi como produtor rural. Ele tinha fazenda e depois ele foi para a cidade e passou a ser comerciante, quando nós entramos em idade escolar, os três primeiros filhos – somos oito, mas quatro nasceram na cidade, os outros tinham nascido na fazenda.

Eu me lembro de uma cena marcante da minha infância: tomar leite tirado na hora, eu e minhas irmãs pequenininhas, ainda de camisolinha, bem cedo, de flanela, nós íamos com uma canequinha, e a minha mãe colocava Toddy na canequinha de alumínio, e o meu pai ordenhava a vaca diretamente na caneca. E a gente vinha tomava aquele leite que ainda estava quente, ordenhado na hora num cantinho da casa onde batia sol. Tomávamos o leite, eu e minhas irmãs, e depois tomávamos um café mais completo dentro de casa. E aí brincávamos, ajudávamos no que fosse possível. As famílias eram muito grandes, e a gente visitava muito os parentes. Então, a vida social era entre os parentes, com os primos, primas.

A minha mãe contava histórias de contos de fadas e ela costurava até altas horas. Ela dizia que ouvia às vezes um assobio, não tinha luz elétrica na fazenda, muito forte um assobio, porque diziam que era o saci que passava por ali e ela acreditava nisso. E, quando a gente ia para a fazenda, nós morávamos numa fazenda e íamos para a fazenda dos meus avós maternos, passávamos alguns períodos de festas familiares, de fim de ano, Natal. E a avó preferida era a mãe da minha mãe, porque ela reunia os netos todos ao pé do fogo, de noite, e contava história de assombração. A gente vibrava com as histórias de assombração, adorava ouvir e depois morria de medo na hora de dormir. Então, os primos todos se reuniam em volta da minha avó, e ela tinha um espírito assim muito alegre, ela era bastante desembaraçada, falava, era uma avó que marcou muito. Essa minha avó Helena.

Meu pai resolveu esperar que a minha irmã completasse sete anos para ir pra cidade, para que a gente frequentasse a escola. Por isso que ele resolveu se tornar comerciante. Então, ele vendeu a fazenda e foi para a cidade e montou um negócio, e nós íamos para a escola. Éramos quatro, três mulheres e o quarto era homem, e depois os outros todos eram homens. E fomos para a escola primária em Jaú, aí já não era em Pederneiras mais, a gente mudou de Pederneiras para Jaú, que era uma cidade próxima. E aí em Jaú eu estudei até o segundo grau, as minhas irmãs, meus irmãos, e depois é que fomos saindo de lá.

Na escola, a gente fazia... Quer dizer, como era costume mesmo, nós íamos para a catequese. Tinha um cinema, e o legal das aulas de catecismo é que eram concluídas com uma sessão de cinema, porque o padre tinha um projetor lá e arrumava filmes de aventura. Não eram filmes religiosos, não! Mas aí nós tínhamos que frequentar as aulas de catecismo e ganhávamos ponto. Os mais frequentes tinham direito à sessão de cinema. Então, a gente adorava ir à missa e, da missa, a gente ia para a aula de catecismo e, da aula de catecismo, para o cinema, que era nos fundos da casa paroquial. Todo mundo ficava sentado no chão mesmo, e o Padre Serra, é o nome dele, projetava o filme. E, quando faltavam dez minutos para a missa das dez, ele interrompia. “Quem não foi à missa das dez está na hora!”

O cinema é uma coisa muito marcante na minha vida, eu adoro cinema. E depois íamos para casa ajudar minha mãe a fazer o almoço, lavar a louça e aí íamos para o cinema vespertino, que se chamava matinê, mas era à tarde. Então íamos lá, e era pipoca e sorvete, fazia parte do cinema, né? As três, porque o meu irmão era mais novinho, então, nós três íamos todo domingo à tarde à sessão de cinema. Então, era dupla a sessão de cinema no domingo. Esse era o divertimento preferido, a gente adorava ir ao cinema, e o meu pai tinha os tostõezinhos dele para nos mandar para o cinema e ainda comprar um saquinho de pipoca na entrada e um sorvete na saída.

Tinha o footing, você já ouviu falar de footing? Footing era o seguinte: lá era um tanto quanto humilhante para a mulher, porque em geral nas cidades do interior existe em torno do coreto da praça. Então, em sentido contrário, os meninos e meninas rodam para se conhecer, trocar olhares, e dali saírem os namoros. A rua era interrompida, o trânsito, e ficavam todos parados ali em frente. Era um negócio ridículo, e as meninas em frente à sorveteria iam e voltavam de uma esquina à outra. Esse era o footing, e dali saíam os namoros.

O professor de Biologia esteve em casa para dizer ao meu pai que deveria me deixar fazer Biologia em Araraquara, que era USP [Universidade de São Paulo], naquele tempo, depois é que, quando foi criada a Unesp [Universidade Estadual Paulista], passou a ser ligado à Unesp, mas no meu tempo era ligado à USP, era um campus isolado da USP. E eu queria muito, o meu sonho era fazer Biologia em Araraquara, que era pertinho de Jaú, uns 70 quilômetros por aí, e meu pai falou para o meu professor que ele não tinha condições de me manter em Araraquara, como é que ele iria... A faculdade era pública, mas ele não teria condições de me manter lá, pagar um pensionato, uma pensão, sei lá o quê, e alimentação e tudo, porque ele tinha mais sete filhos para criar e estudar.

Mas aí, então, o que aconteceu? Eu fui fazer Serviço Social até por indicação, sugestão inicialmente de umas amigas lá da cidade que foram fazer antes. Eu fui fazer Serviço Social em Bauru porque eu estudava de manhã, saía às seis horas de Jaú, entrava às sete na faculdade e, quando era meio-dia... Das sete às onze e meia por aí, e chegava à uma e pouco em casa, e ainda ia dar aula como professora substituta. E, depois, à noite, eu dava aula também como professora de supletivo, de adulto, e conseguia estudar para a faculdade, fazer os trabalhos de dez às duas, das dez da noite às duas da manhã, e eu levantava às cinco e meia, seis horas. Foram quatro anos terríveis aqueles.

E assim eu acabei conseguindo concluir o curso de Serviço Social e vim para São Paulo. Eu já estava dando aula aqui, e aí eu soube de um concurso na Secretaria que se chamava Promoção Social, que estava sendo criada. Eu prestei o concurso e comecei a trabalhar. Aí eu me afastei sem vencimentos do Magistério e comecei a trabalhar em São José dos Campos, aliás, inicialmente em Jacareí, e foi onde eu me aposentei.

E, embora eu não tenha conseguido fazer o curso que eu quis fazer, eu consegui me realizar em Serviço Social, porque eu tenho uma visão social, de justiça social. Então, eu acho interessante registrar aqui na minha trajetória de vida uma das coisas que eu não busquei, que foi essa profissão, mas ela veio como que por acaso. Foi o que eu consegui fazer, mas ela me preencheu, eu me senti gratificada, apesar de ser muito difícil, porque, para você lidar com pobreza, você vai na contramão da história. Porque a tendência é favorecer o poder e a riqueza, em todas as sociedades você vê isso. Então, eu tenho lutado na contramão da história. Eu tenho vindo na contramão mesmo da história e, apesar disso, eu acho importante ter, não por opção, mas por oportunidade que me foi dada, acabar me engajando mesmo nesse tipo de luta, que é pela justiça social. Então, essa é uma coisa que eu acho que marcou a minha vida até porque eu tive uma vida mesmo difícil. Claro que não tão difícil quanto aqueles para os quais eu quero justiça, né?

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+