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Cidinho: das estradas da vida para o boteco raiz

História de: Alcides Lázaro dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/07/2021

Sinopse

Com a carroceria sobre as costas, fazendo o frete e cortando o estradão, Alcides Lázaro dos Santos foi um dos caminhoneiros que cortaram rotas e estradas Brasil a fora da década de 1970 à 1984. Nascido nas margens do Rio Grande, em Guaraci- SP, no dia 17 de maio de 1950, Alcides foi criado numa família humilde com onze irmãos. Na infância trabalhava com o painas fazendas em que eram meeiros da terra e no Empório Santos, Armazém de Secos e molhados voltado para o comércio rural. Não havia tempo para brincadeiras quando a necessidade de ajudar a família era maior. Cresceu e já morando em Rio Preto, tornou-se caminhoneiro. Após anos de estrada, perrengues, com a saudade da esposa Zaine e filha Helena apertando, resolveu comprar um bar e por ali fazer história. Em março de 1984 inaugurou o bar do Cidinho. Atualmente são tricampeões do Comida Di Buteco, ganhado concursos nacionais pelas receitas “Kibertadela”, “Carga Pesada” e “Pilãozinho Caipira”. Helena, professora de artes, é percursora do legado do pai no bar e grande entusiasta do concurso. Hoje o bar é ponto de encontro para a esquerda local, professores e intelectuais assim como amigos e parceiros.

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História completa

            O meu nome completo é Alcides Lázaro dos Santos. Nasci no estado de São Paulo, na cidade de Guaraci, no dia 17 de maio de 1950. O nome do meu pai é Alcino José dos Santos, e ele nasceu no dia 27 de dezembro de 1919. O da minha mãe eu não sei ao certo, pois quando eu nasci, ela morreu. Em Guaraci, na margem do Rio Grande, nós tínhamos um empório que se chamava Empório Santos. Na época, o empório vendia de tudo: secos e molhados, armarinhos em geral. Tinha tudo mesmo: bicicleta, colchão de mola, colchão de capim, produto pra roça, ferramenta pra agricultura, grade, arado, bico de pato pra preparar a terra... tinha também zíper, botão, linha, tudo.

            Mas na época o secos e molhados do meu pai quebrou, porque tudo vinha da agricultura. Aí nós pegamos três anos de seca, e a gente vendia pra receber na colheita. Não deu nada. Todo mundo perdeu tudo. Então meu pai vendeu a casa, vendeu o que tinha pra pagar as dívidas, e a gente veio pra Rio Preto em 1963, pra começar tudo de novo.

            Era difícil. Infância, mesmo, a gente não teve, porque meu pai não tinha condições de dar infância pra gente - você tinha que trabalhar. Todo mundo, tanto eu, quanto minhas irmãs... tinha 11 bocas pra gente tratar. E quando mudamos pra Rio Preto, meu pai tinha quebrado, e aí ele arrumou serviço pros meus irmãos: uma no Bradesco, o outro numa firma de encerado de caminhão... mas pra receber o salário da gente, era meu pai. A gente não pegava o dinheiro nosso, porque o patrão não pagava pra gente. Os pais que passavam, pegando o salário.

            Escola, eu frequentei só até o quarto ano primário. E quando fiz 18 anos, eu tirei carta de motorista e vim trabalhar aqui em Rio Preto, na Rua Regente Feijó, nos Irmãos Furquim. Era caminhão-tanque. Aí eu peguei a linha de Porto Velho, que era estrada de terra. Fui até 1984, aí eu parei com o caminhão. Era uma loucura! Não tinha “quantos dias de viagem”, porque quando estava na seca, era uma coisa; “nas águas”, era outra coisa, porque encalhava. Quem dava assistência pra gente na estrada era o 5º BEC, o exército. Já fiquei parado lá no meio por 12 dias. Depois disso, eu peguei carreta seca, pra levar pro Nordeste. Aí que eu comecei a ganhar bem. Ganhei muito dinheiro. Depois eu fui pra Viação Cometa e ainda dirigi caminhão de boi.

            Já a história do bar foi com o meu irmão. Ele estava de férias, e eu tinha dito pra ele que a melhor praia do Brasil era Fortaleza. Aí eu peguei um frete pra lá e marquei com ele pra gente ir juntos. Carreguei em Rancharia, passei aqui na casa do meu irmão, e marcamos de sair no outro dia, às quatro horas da manhã. Aí eu fui tomar um trago no bar, mas nesse intervalo, até meu irmão chegar, tomamos uma pinga, tomamos outra pinga, tomamos uma pinga, tomamos outra pinga... eu acabei comprando o bar onde eu estou até hoje. Março de 1984; e estou aqui até hoje. E até hoje bebo, gosto de pinga.

            Aí, comprei o bar e parei com o caminhão. Mas não foi fácil arrumar os clientes, não. Foi um conjunto. A minha mulher foi pra cozinha e uniu a família inteira pra trabalhar. Sempre tentando agradar o povo. O bar faz mais parte dela, da minha filha, do que minha. Nós somos tricampeões do Comida Di Buteco, não por causa do Cidinho, mas por causa da minha filha. Porque ela insistiu pra gente bater de frente. Em 2017, participamos com o “Kibertadela”. Ganhamos em primeiro lugar com o “Kibetardela”. Em 2018 participamos de novo e ganhamos com o “Carga Pesada”. Em 2019, ganhamos de novo com o “Pilãozinho Caipira”. E ainda fomos disputar o nacional, em São Paulo. O Comida Di Buteco foi um marco divisório pra gente.

            Então, no primeiro ano, a gente tinha que escolher um prato que tivesse cereal. A moça da organização do Comida Di Buteco explicou direitinho pra gente como é que era. A gente foi muito bem assessorado por eles, mas tínhamos que criar um prato nosso, não poderia ser uma coisa copiada. E meu pai, antigamente, fazia uma bolinha de carne, que vinha gente de longe pra comer. E eu perguntei pra minha mãe se ela sabia fazer kibe, e ela falou: “Lógico que eu sei, fia. Sei fazer kibe, sim.” Falei: “Mãe, vamos juntar o tempero da bolinha de carne do pai, que vai cair muito bem”. E nesses programas de TV da madrugada, que mostram o povo chique, falavam que nesses países de fora aí, tipo nas “Europas” da vida, nesses lugares chiques, mortadela era prato chique. Escolhemos colocar o recheio da mortadela. Minha mãe falou: “Mortadela?” E eu falei: “É, mãe, mortadela! Vamos colocar a mortadela”. Aí eu já juntei o nome: kibe, mortadela: “Kibetardela”.

            Na verdade, a gente nem estava pensando em ganhar, mas sim na propaganda de graça que o concurso dava. A gente queria atrair gente, porque sai no jornal, na rádio, tudo de graça. Eles não cobram nada.  

            Cliente se conquista com amor e muito respeito. É respeito na hora de você escolher o ingrediente, é amor na hora de você cozinhar, na hora de você fazer o preço. Não adianta você fazer um preço abusivo e aí você não vai ter pra quem vender. Então, você precisa pautar a tua venda e o teu trabalho sempre na questão do respeito e da qualificação.

            Só pra ter uma ideia: até hoje, dentro do bar – isso antes da pandemia -, a gente atendia o cliente pensando no Comida Di Buteco, independentemente de ter jurado ou não. Por conta do banheiro, pois eles olham o banheiro, nós temos um funcionário pago para olhar o banheiro. Então, vai um garçom, olha o banheiro. A cada dez minutos, vai um. Tudo isso pensando no cliente, na qualidade.

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