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História

Cidadão do mundo no Metrô

História de: Peter Ludwig Alouche
Autor: MetroSP
Publicado em: 13/06/2018

Sinopse

Em seu depoimento, Peter Alouche conta como foi sua infância no Cairo, Egito, e sua vinda para o Brasil em função de conflitos no seu país natal. Detalha sua carreira no Metrô nas áreas de sistema elétrico, testes e concepção das linhas. Também conta sobre as suas viagens pelo mundo a serviço da companhia e de sua vontade de continuar contribuindo para a defesa dos interesses do Metrô por meio dos seus artigos.

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História completa

Eu me chamo Peter Ludwig Alouche, nasci na cidade do Cairo. Meu pai era o que a gente chamaria de cidadão do mundo. Ele foi diretor presidente de um banco no Egito e minha mãe era dona de casa porque teve sete filhos (tenho um irmão gêmeo). Eu falo e escrevo árabe perfeitamente, mas a minha primeira educação foi francesa (jesuíta e francesa).


Lá no Cairo, havia uma clara separação entre os cristãos e os muçulmanos em termos religiosos, mas não em termos de amizade. Até o dia em que o rei caiu por uma revolução, e, depois, aconteceu a guerra com Israel pela nacionalização do canal do Suez.


Então, Israel se uniu a França e Inglaterra e os aviões começaram a atacar o Cairo. Minha infância foi muito marcada por descer do prédio e ir aos abrigos. A gente ouvia: “Saint Therese!”. Porque os cristãos no Oriente Médio adoram Santa Teresinha do Menino Jesus.


Quando aconteceu a guerra com Israel, o governo egípcio expulsou todos os franceses. Nós não fomos expulsos porque éramos egípcios, mas meu tio aqui no Brasil, que tinha construído a igreja Nossa Senhora do Paraíso, mandou um telegrama: “Deixem tudo, deixem tudo o que vocês tiverem!”.


Foi muito traumático. Mas enfim, nos escondemos e viemos pro Brasil. Então foi uma epopeia porque a gente não tinha dinheiro: você não podia sair do país com dinheiro.


Aqui no Brasil, até eu me formar, eu não comprava uma Coca-Cola pra tomar, não comprava um sanduíche porque era minha irmã e meu irmão que trabalhavam. Então eu tive uma adolescência muito dramática.


Eu estava trabalhando numa empresa de Engenharia famosa e estava muito bem lá, mas eu queria sair porque estava cansando. Andava na Rua Augusta, a caminho da Cesp, para trabalhar lá, quando encontrei um ex-aluno meu (eu fui professor de Engenharia no Mackenzie por 25 anos), Antônio Sérgio Fernandes - depois se tornaria presidente do Metrô.

 

Ele me disse que tinha acabado de entrar na Cia. Perguntei: “O que é esse Metrô?”. Esse nome, ninguém conhecia naquela época. A resposta foi: “Vão construir o metrô de São Paulo. É muito melhor o metrô”. Assim começou a minha epopeia no Metrô. O Metrô foi para mim a vida porque ele me deu muita coisa, me deu coisas maravilhosas.


Graças ao Metrô, eu viajei porque representava o Metrô na União Internacional de Transportes Públicos. Então todo presidente queria viajar: “Peter! Vamos lá no congresso tal, no congresso tal”, então viajei pelo mundo todo 500 vezes, então, não posso me queixar.


Eu fui admitido no Metrô porque tinha feito uma especialização na Suíça em parte eletrônica. Eu entrei lá pra assumir a parte elétrica. O metrô nunca deu problema na parte elétrica porque foi feito muito seriamente, a tal ponto que foi um sucesso no sistema elétrico que depois o Metrô me indicou pra ser o coordenador dos testes, todos os testes do Metrô, de equipamentos, trens.


Enfim, eu participei com as mãos do metrô. A hora que ligaram a parte elétrica no terceiro trilho precisava alguém ir lá medir todo dia. Puxa vida, 750 volts, corrente contínua! Eu fui o cara que teve coragem de ir lá medir. Hoje eu já não teria essa coragem, mas naquela época... Então, foi na parte elétrica que eu fui. Mas depois, com esses testes, aí o meu conhecimento ampliou.


Então o Metrô me colocou numa equipe chamada de Projeto Básico, com gente tipo Tadashi, João Paulo, Paulo Benites, Benedito Costa, MacFadden, Lobo, éramos conhecidos como os Sete Sábios. Nós fizemos a concepção de todas as linhas; até a Linha 4, nós que fizemos. A escolha do pátio de Itaquera na segunda linha. Porque a primeira linha já estava mais ou menos feita, nós participamos da escolha dos equipamentos alguma coisa. Mas na Linha 2 e Linha 3 totalmente, essa equipe. Até na Linha 4.

 

Eu acho que o Metrô se matou, com uma dedicação, um negócio fabuloso, construiu a Linha 1. Eu costumo dizer que o Metrô é mais importante que a usina de Itaipu. E depois, opera. É uma coisa maravilhosa! A Linha 2, a Linha 3. Agora, você vê, a Linha 4, construiu toda a Linha 4. A Linha 4 é a linha mais moderna do mundo, é a primeira linha automatismo integral nas Américas. É uma linha, talvez seja a linha mais carregada do mundo, automática.


A Linha 4 é a pérola das linhas porque foi a primeira linha em automatismo integral, lá não tem operador. Foi uma experiência que o mundo estava olhando. As portas maravilhosas de plataforma, que são as mais bonitas do mundo. Então uma operação, vamos dizer, revolucionária na tecnologia.


Essa concepção foi feita pela equipe estatal, por Tadashi, Peter, João Paulo, Paulo Mendes, nós que inventamos de fazer a coisa automática. A diretoria aceitou, claro, mas não foi fácil. Ela achava uma aventura esse negócio de automatismo integral.


Enfim, desde que eu entrei no Metrô, minha vida se resumiu em Metrô, Metrô de manhã, Metrô à tarde, Metrô à noite, até hoje. Metrô, Metrô, Metrô.


Meu maior sonho é não sofrer de doença. Quero estar feliz, como eu estou continuando a trabalhar para o Metrô de São Paulo. Eu tenho o que contribuir. Eu quero ajudar ao Metrô a não degradar. Eu tenho feito através dos meus artigos. Mas enfim, vamos ver. Tá bom? Obrigado.

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