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Cidadã do mundo

História de: Elaine Pereira Rocha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2014

Sinopse

A entrevista de Elaine Pereira Rocha foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 08 de agosto de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Mulher de origem humilde e operária, cuja infância foi marcada pelo preconceito, começou a trabalhar aos 12 anos e desde então construiu sua carreira (professora e pesquisadora em história), com muita ousadia. três filhos, dois casamentos e uma trajetória por diversos países (casada com um diplomata) desenvolvendo trabalhos em diversos universidades. Atualmente mora em Barbados.

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História completa

O meu pai se chamava Francisco Pedro Rocha e a minha mãe, Gilvandete Pereira Rocha. Eu nasci no meio da Revolução de 64. Meu pai era militar naquela época, do corpo de bombeiros. Meu pai estava de plantão, apesar de ser do corpo de bombeiros, colocaram eles pra tomar conta de umas pontes. Ele dizia que era porque os terroristas podiam explodir as pontes, então ele não estava presente quando eu nasci. Ainda demorou uns dias para ele voltar para casa e conhecer a criança.

Filho de militar anda pra lá e pra cá: de novo a Revolução veio do lado errado, 68 a situação ficou feia aqui em São Paulo. E o meu pai disse que ele não queria porque eles tinham que jogar água nos estudantes. Ele entendia muito bem o que estava acontecendo, não era uma pessoa assim altamente politizada, mas ele tinha uma visão de que aquilo de jogar água em estudante... “eu não vou jogar água em estudante”. Aí ele conseguiu uma transferência pro interior, onde era mais tranquilo, e ele foi transferido em 68 pra Catanduva, perto de São José do Rio Preto. Eu ia muito pro quartel com ele, porque eu era mais nova, eu era muito apegada a ele.

Quando foi pra ir pra escola, tinha o pré-primário na época, era que a gente entrava com seis anos, e podia entrar com cinco, mas a situação era muito difícil. Quando veio a lista de material, era imensa, e naquela época tudoera muito caro. Minha mãe falou: “o dinheiro não vai dar. Mas eu fui pro pré-primário com uma gente, assim, muito chique, que tinha uma grana e tal. Foi a primeira vez que eu vi preconceito racial. Nem sabia que eu era preta, me disseram lá que eu era, as crianças disseram. Mas eu comecei a achar que tinha alguma coisa errada ali, naquele meio. É por causa dessa questão também social, não era pra eu estar ali, e chegaram a falar que não era pra eu estar ali. Quando a gente é mais nova, cabelo mais duro, pele mais escurazinha, brincando no sol, criança fala o que os outros falam

Os meus pais acreditam, acreditavam que educação e trabalho eram a mesma coisa, então quando a gente fazia 12 anos, eles arrumavam emprego pra gente. Arrumaram um emprego pra gente numa tecelagem, e eu fazia meia. Depois, quando fui fazer faculdade, fui pra Taubaté e fiz História. Passei também em terceiro lugar no vestibular unificado; meu pai ficou desesperado quando eu escolhi História.

Pra ganhar a vida, fazia transcrição em casa. Trabalhava na escola, fazia transcrição de entrevista pra algumas pessoas que tesavam fazendo mestrado, e trabalhava no Correio das quatro da tarde, mais ou menos, até a meia noite, fazendo o Sedex, que era quando tinha começado. Nisso, fui conseguindo crescer, fazer também o mestrado. E eu terminei o mestrado. Euestava indo pro doutorado, mas aí por uma questão política dentro do programa de mestrado, o meu projeto não foi selecionado pro doutorado. Parece que é um lugar-comum falar isso, que é uma questão política, mas era.

Aí fui pra USP, fui selecionada na USP, e peguei a melhor bolsa que tinha, que era a bolsa da FAPESP. Foi o único projeto que teve bolsa da FAPESP naquele ano, no programa de História Social. Aí voltei a trabalhar com um amigo que eu trabalhei em Taubaté, a gente montou uma coisa em Jacareí, um arquivo histórico. Eu ainda dava algumas aulas e tal, aí conheci o Anthony Fischer, que é jamaicano. Eu estava na USP e teve uma conferência lá, um seminário. Ele deu cartão, e tudo, e nós estávamos pedindo patrocínio lá pro projeto que a gente tinha. Acabou que nisso nós nos conhecemos e mais tarde ele me pediu em casamento. Como ele trabalhava no consulado, já fazendo uma carreira para ser embaixador, acabei começando uma vida e carreira na África, por alguns países, e depois em Barbados. Nisso, tem muita coisa para contar.

Eu sonho ter um lugar, e parar de andar. Mas eu não acho que vai ser em Barbados, eu queria que fosse no Brasil. Mas mesmo no Brasil, eu tenho uma dificuldade em saber aonde vai ser esse lugar que eu vou parar, em que eu vou ter uma casa simples; não quero uma casa grande,quero uma casa simples, uma casa que eu possa manter sozinha, que não precise ter nada extra, que tudo que eu tenho eu use, e um carro pequeno.

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