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História

Chocolate com paixão e sustentabilidade

História de: Gislaine Galette da Cunha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2021

Sinopse

Nascida em Olímpia, interior de São Paulo. A mãe faleceu quando tinha 10 meses. Foi morar com a avó, que dava muita importância aos estudos, na Zona Norte de São Paulo. Fez eletrônica no Liceu de Artes e Ofícios, onde conheceu o marido. Namoraram 12 anos e casaram. Tiveram 2 filhos. Teve depressão pós-parto; A maternidade foi um dos maiores aprendizados da vida; Fez Engenharia Elétrica em Guaratinguetá; pós-graduação em Marketing na ESPM e MBA na USP. Trabalhou em banco; Deu uma virada na vida e montou uma fábrica de chocolates.

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História completa

Quando eu fiz o MBA na USP em 2000, naquela época o meu projeto de conclusão de curso, já foi a fábrica de chocolate, porque eu sempre fui muito apaixonada por chocolate. Desde criança, eu fui muito de doce. Tanto que nessa época em que falei que o Matheus nasceu, teve uma noite que eu lembro que foi tão difícil, eu tinha pouco leite e sentia a obrigação de só amamentar no peito, aquela dificuldade, lembro que o Matheus ficou meia hora em um peito, meia hora no outro, e ainda saiu chorando de fome… Eu não sabia, tão perdida naquilo tudo, e resolvi fazer um ano de promessa de não comer chocolate. Eu falei, "meu Deus, se você me ajudar a fazer esse menino ficar calmo e parar de chorar, eu vou ficar um ano sem comer chocolate". Eu descobri nesse ano que os melhores doces da vida são feitos de chocolate, e que tudo tem chocolate. E aí, então, como eu sempre gostei muito disso, resolvi fazer um plano de negócios na conclusão de curso da fábrica. Em 2011 eu resolvi pedir para sair do banco. Eu lembro que pedi para sair, e logo depois eu iria ter 15 dias de férias e iria viajar com o Hamilton meio que em uma lua de mel, só nós dois, sem as crianças. Ele sabia já há um tempo que eu queria sair, mas não sabia exatamente quando isso iria acontecer. A gente pegou um avião, estava indo para os Estados Unidos, e eu falei para ele, "então, eu subi lá na presidência e pedi para sair do banco", ele falou, "para o avião, vamos voltar, você enlouqueceu. Como assim, a gente está saindo de férias e você pediu para sair do banco?". Mas assim, brincadeiras à parte, o Hamilton sempre me apoiou muito. Claro que foram férias muito legais, a gente se divertiu bastante, mas voltamos com essa tensão de eu sair mesmo do banco e começar a montar meu negócio. Eu penso muito sempre nas pessoas que trabalham lá com a gente. Nós temos uma equipe envolvida comigo e com o Hamilton de umas dez pessoas. Da menina que faz o design, do pessoal que cuida da contabilidade, enfim. Eu fico pensando assim, que aquele negócio por menos que gere de lucro, ele tem uma responsabilidade social gigante, porque emprega todas essas pessoas. Então quando você assume ter um negócio, não assume só o risco de você falir, assume o risco de você ter pessoas que estão vivendo daquilo, as pessoas que estão lá com seu salário, que estão sustentando a sua família e a sua casa com aquilo que você está produzindo. Então não é só uma questão de lucro. Eu sempre tive muito essa cabeça. Eu lembro que quando voltei… Pedi demissão no final de 2011, e tinha, claro, um caixa que poderia suportar por um tempo até essa empresa começar a rodar. Eu acabei indo para a Bélgica, fiz uma especialização em chocolate lá, voltei e montei a Galette. Quando eu voltei, tinha duas certezas: que iria ser um negócio de chocolate, e que seria um negócio que tivesse um legado relevante do ponto de vista social, e se eu pudesse, também do ponto de vista ambiental. Foi esse o nosso caminho na Galette. Eu lembro que no primeiro ano, tive uma batalha grande, porque naquela época ninguém fazia chocolate no Brasil, as pessoas geralmente compravam chocolates belgas e suíços, derretiam, e faziam os bombons, brigadeiros, as barras e tudo com o chocolate já pronto. Eu sabia que esse chocolate pronto poderia ter vindo de cacau na África. Por mais que ele fosse belga ou suíço… os problemas sociais na África são muito sérios. Eu ficava pensando, "como é que eu posso fornecer o chocolate que é um produto tão gostoso para uma pessoa, sabendo que lá atrás pode ter tido uma criança na plantação, ou trabalho escravo?", e eu não me conformava com essas coisas. Então a Galette foi crescendo nesse inconformismo. Logo no primeiro ano, eu conheci um chocolate que tinha o certificado Fairtrade, que me garantia que eu não tinha essa questão do trabalho escravo e infantil nas fazendas de cacau. Ele tinha um custo muito mais alto pelo mesmo sabor, chegava no Brasil 30% mais caro do que o chocolate convencional. Eu tinha que me planejar bastante para pedir esse chocolate, porque do momento em que eu fazia o pedido, até ele chegar, eram meses. Tinha uma dificuldade logística, tinha uma dificuldade de planejamento, e tinha uma outra história que assim, eu também não podia falar que usava o Fairtrade, fazia só por convicção, porque se eu falasse que fazia os meus bombons com chocolate Fairtrade, eu tinha que ser certificada. Para ser certificada, tinha que ter todos os outros produtos, a castanha de caju, castanha-do-Pará, tudo que eu usava como ingrediente também tinha que ter essa certificação. Se existisse esse produto no mundo Fairtrade, ele também tinha que ter essa certificação. E a gente não compra aqui castanha de caju com certificado Fairtrade, né? A gente compra do produtor, vem do Nordeste, assim, está na nossa terra esse negócio. Então eu acabava fazendo muito por convicção, e isso acabou fazendo com que eu nesse meu inconformismo, procurasse cada vez mais formas de deixar menos pegadas nessa terra. Teve uma época em que achei um chocolate colombiano que tinha um trabalho social também muito bacana, porque eles incentivavam a troca de plantação de coca por plantação de cacau. Isso para mim também fez sentido, mas importar esse chocolate também era difícil. Até que chegou um momento em que eu consegui descobrir que eu poderia fazer o meu próprio chocolate. Isso foi em 2016, e em 2017 eu já comecei a produzir, já comprei as maquininhas. Isso foi muito bacana, porque hoje em dia, a gente oferece nosso chocolate com total tranquilidade de que a cadeia produtiva foi completamente sustentável. Eu conheço o fazendeiro que plantou o cacau, compro direto dele, sei como ele trata os funcionários, sei como é a plantação, sei quanto ele usa de fertilizante e se ele não usa fertilizante, sei como essa cacau chega para mim, sei como ele é transportado. Na negociação com esse pequeno produtor (na verdade, não são grandes fazendeiros, são pequenos produtores), você acaba conhecendo o caráter inclusive dessas pessoas, porque não tem intermediário, você lida direto com eles. Isso para mim, e para a empresa, foi um ganho gigante, porque hoje em dia nossos chocolates são chocolates que falamos, "pode comer, porque esse é um chocolate que traz felicidade do começo ao fim. Não é um chocolate que traz felicidade só na boca". Sempre com esse olhar, sempre procuramos fazer nossas embalagens ou com papel reciclado ou que sejam embalagens recicláveis. É claro que a gente não consegue fugir 100% do plástico, 100% do acetato. Mas um dos dias mais felizes na minha vida dentro da Galette, foi o dia em que descobri que eu poderia ter uma embalagem, em que ao invés de usar acetato, eu iria usar pet cristal. Foi um dia que eu quase não dormi, porque eram pets reciclados que viravam um plástico que fazia a função do acetato. Então aquela parte transparente, era de pet cristal, eu estava ajudando o lixo do mundo. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Não foi um dia em que eu tive bom lucro. Então, essas coisas nos movem, essas coisas dão sentido e outros valores. Desde quando eu comecei o meu negócio, que o mais importante não é você ter… É claro que a gente cuida de aparência, mas não é você ter a marca mais cara, a roupa mais cara, o tênis mais caro, coisas que quando você está no mundo corporativo, dependendo de como você se deixa levar, você acaba sendo influenciado por isso e acaba tendo essas práticas assim, de comprar roupa todo mês. Imagina, hoje eu não compro roupa todo mês, não preciso comprar roupa todo mês. A gente ensina muito as crianças com isso também. Acho que são outros valores quando você assume o seu negócio e você tem uma proposta de que ele tenha que trazer um legado melhor para a sua família, para a família das pessoas que trabalham com você, para o seu entorno, para a família do fazendeiro que te fornece cacau, para a família do pessoal lá da gráfica que imprime as suas embalagens, da pessoa que desenvolve as embalagens. Acho que tem uma responsabilidade nessa história toda que é gigante. Você acaba tendo mesmo outros valores. Quando você vai fazer uma compra, você falar "espera, isso aqui está mais barato, isso é feito onde? Foi produzido em que condições?", e você acaba repensando muitas vezes até o seu modo de consumo. Isso vira a sua cabeça para uma forma de consumo mais responsável. Acho que resumindo, teve uma virada na forma de pensar, não nos valores, porque eu trabalhava em uma instituição financeira que tinha muito forte essa questão da sustentabilidade. Eu aprendi sobre sustentabilidade no berço com a minha avó, a gente economizava o chuveiro e os potes de margarina, mas era por uma outra causa, era mais pela econômica. Naquela época, a gente falava de economia, e não de sustentabilidade. Você aprende a sustentabilidade. Então quando eu fui para a indústria financeira, o banco em que eu trabalhava, trabalhava muito forte isso. Você vai aprendendo, e isso faz parte da sua veia, vira crença. Deixa de ser superficial, passa a integrar o seu dia essas coisas todas, quando você aprende desde cedo, então acho que esse que é o resumo dessa virada.

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