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História

Chocolate campineiro

História de: Vera Lucia Ruzene Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/08/2008

Sinopse

Identificação. Origem e atividade da família. Lembranças da infância e das brincadeiras. A vendinha. O período escolar. Viagens de trem para São Paulo e lembranças de Campinas. Os empregos temporários em lojas e o comércio na cidade. O curso técnico em alimentos, o primeiro trabalho, a faculdade de Biologia e as aulas ministradas em São Paulo. Mudança para El Salvador e a volta para o Brasil. O início da empresa e as dificuldades enfrentadas com o Plano Collor. Criação de chocolates e capacitação de mulheres equatorianas para trabalhar com chocolate. Lições do comércio.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Vera Lucia Ruzene Rodrigues. Eu nasci em Campinas no dia 4 de agosto de 54.

FAMÍLIA
Meu pai se chama José Ruzene e minha mãe Eneida Terezinha. Toda a família do meu pai é de Campinas e a de minha mãe é de Amparo. Todos os ancestrais são italianos, os bisavôs vieram da Itália. Meus avôs são gente muito simples. Meu avô, por exemplo, pai do meu pai, tinha aquele olhinho azul da cor do céu, um azul profundo, era uma pessoa calma, tranqüila, nos passava segurança. Minha avó era descendente de portugueses e meu bisavô era português também. Ela era uma pessoa muito especial, fazia um bolo delicioso, um bolinho de abóbora como ninguém (risos). Então as lembranças que tenho dos avôs são muito legais. O meu avô era chacareiro. Ele tinha chácara, plantava verduras e tinha gado, tinha vaquinha, vendia leite, e tinha porquinho também. Não era um sitio, era uma coisa pequena, mas ele sobreviveu fazendo isso. Plantava um agrião delicioso, um almeirão fantástico, uma couve maravilhosa; crescemos nos alimentando daquilo que ele plantava. A raiz nossa é aqui em Campinas. Temos parentes, uma parte da família que mora em São Paulo, outros que moram aqui em Amparo. A família da minha mãe. Mas o grande foco da nossa família ficou e se estabeleceu em Campinas.

INFÂNCIA
Eu tenho uma irmã e a minha infância foi muito boa para os padrões de hoje. Brincávamos na rua, na terra, tínhamos a liberdade de brincar. Brinquei muito na minha vida. Na minha infância, até os 12 anos, eu me lembro de brincar muito. Como morávamos num lugar tranqüilo, era uma chácara, fazíamos de tudo, brincávamos com terra, com água. Tinha muito essa coisa da mão, essa coisa de brincar com as coisas naturais, às vezes, não tinha nem muito brinquedo. Brinquedo comprado na loja não tinha, tínhamos água e areia a vontade pra construir, fazer casinha, fazia isso, fazia aquilo. Eu acho que a minha infância foi muito feliz, tenho excelentes lembranças. Eu sempre fui a única menina no local, porque eu tinha dois tios que eram mais velhos do que eu uns 7 anos, então eram as pessoas com quem eu brincava. Eu adorava soltar pipa, fazia pipa, eu era a melhor pipeira do bairro (risos). Eu jogava futebol, então foi uma infância legal, foi uma infância que pra mim foi muito boa. Eu acho que isso tudo contribuiu pra eu ser como eu sou hoje.

COMÉRCIO DE CAMPINAS
Quando eu era criança vinha para o centro com os pais, principalmente na época do Natal. A cidade estava enfeitada, vinha ver o Papai Noel, vínhamos com eles pra fazer as compras de Natal. E eu me lembro de uma vez que nós andamos a [Rua] Treze de Maio, a minha mãe e eu. Acho que eu devia ter 5, 6 anos. Eu me lembro desse fato perfeita e nitidamente. A minha irmã havia ganhado um carrinho de bebê, de criança, de empurrar, com um bebê dentro, da madrinha dela. E eu queria um igual (risos) e não tinha mais, era véspera de Natal. Então isso ficou marcado. Mas a gente vinha sempre. Treze de Maio era o centro do comércio de Campinas. Era ali que se faziam todas as compras; não havia shoppings, não havia outros locais. Nós tínhamos também o costume de comprar na venda. Comprar na venda era muito interessante. Tinha a caderneta. Marcava na venda do Seu Cirilo. Seu Cirilo também foi uma pessoa famosíssima na Vila Industrial. Tinha o seu comércio e ele sempre sobreviveu, criou os filhos e faleceu não faz muito tempo. Era a casa dele atrás e a venda na frente e nós comprávamos ali na venda do Seu Cirilo. Comprava arroz, feijão, tudo ali, porque não tinha supermercado; não tinha essa história de comprar no supermercado. Como era a mais ou menos umas cinco ou seis quadras da minha casa, eu me lembro de pequenininha ainda comprar na venda do Seu Cirilo. E toda vez que eu ia na venda, eu comprava um chocolate. Sabe qual chocolate eu adorava? Ai, meu Deus do céu, comia aquele chocolate e vinha para casa delirando. Galak (risos) da Nestlé. E era bom. Chocolate branco. Eu vinha comendo Galak. Gostava muito também do Prestígio, nossa Já tinha naquela época Prestígio e Galak. Eu me lembro disso. Agora pensando, eu não me lembrava desse fato (risos), da vendinha do Seu Cirilo e dos chocolates que eu comprava lá e vinha comendo. Marcava na caderneta e depois no fim do mês, o meu pai ficava bravo comigo porque eu gastava muito em doce, mas ele me mandava comprar lá.

FORMAÇÃO
A escola em Campinas, na minha época, era um problema sério e grave. Eu estudei numa escola que chamava Leopoldo Amaral. Era uma escola que tinha seis salas de aula e ali eu fiz do primeiro até o quarto ano de grupo. Era Grupo Escolar Leopoldo Amaral. Fiz primeiro, segundo, terceiro e quarto, depois quando eu fui entrar no ginásio tinha a admissão. Justamente na minha época houve aquela transição da Matemática antiga para a Matemática moderna. Então começaram a introduzir no ensino a Matemática moderna, que era conjunto, era toda aquela parte da Matemática que no grupo, as crianças não aprendiam, não era ensinado daquela forma. Então o que aconteceu? Nós tivemos que estudar para o ginásio, fazer um ano de admissão ao ginásio. Era como se fosse um cursinho pra entrar no ginásio. Então eu fiz um ano de admissão ao ginásio que basicamente se tratava de Matemática e Português, porque História, Geografia era mais ou menos a mesma coisa pra você dar continuidade no ginásio. Agora, a Matemática mudou totalmente. Todos os alunos daquela época tiveram que fazer um ano de admissão ao ginásio.

TRANSPORTE
Íamos pra São Paulo visitar a avó que morava em São Caetano, nem era São Paulo. Nós íamos de trem. O trem era fantástico porque éramos crianças e meu pai era ferroviário. Íamos de graça. Tínhamos o passe e íamos de trem pra São Paulo. A gente tinha um avô que morava em Avaré e íamos de trem. Levava um dia inteiro, eram onze horas pra ir de trem, porque saia daqui, fazia baldeação em Sorocaba e de Sorocaba era um negocio complicado (risos), mas era uma delicia. Eu adoro trem, acho que o trem é uma coisa que faz parte da minha infância.

ADOLESCÊNCIA
Era muito boa Éramos de família humilde e até os 14 anos, mais ou menos, não era muito autorizado a sair. Não tinha esse costume, até bem pouco tempo era assim, não tinha muita liberdade, às dez horas tinha que estar em casa, não tinha essa história de balada, de meia noite, de seis da manhã, isso não existia. O horário de entrar em casa era às dez da noite. Saia, ia ao cinema, por exemplo, de domingo, ia na matinê; todo domingo ia na matinê e sempre andava em grupinho. Não dava para ir à noite, o pai não deixava. Meu pai nunca me deixou participar de um baile de carnaval. Eu nunca participei de baile de carnaval. No carnaval todo mundo freqüentava o baile e nós íamos com ele ver o carnaval de rua. Quando eu era criança, tinha 12, 13, 14. Depois quando fui para o colegial, para o colégio técnico, já mudou um pouquinho, já saía e chegava um pouquinho mais tarde, mas nunca depois da meia noite. Mas nessa época era uma coisa fantástica, porque nunca tivemos muito dinheiro. Na juventude todo mundo tinha uma vidinha meio normal. Não tinha dinheiro pra gastar muito nas coisas. Fazíamos festas nas casas. Reunia todo final de semana. Tinha um grupo que tocava na minha época de 17, 18, 19 anos. Estava muito em moda o sambão. Primeiro era bailinho da Sonata (risos), era muito engraçado. Reuníamos, normalmente, com as pessoas da minha idade. Estudantes, universitários, todos nós nos reuníamos na garagem da casa de alguém e punha a Sonata e os discos: Johnny Rivers, Bee Gees, Beatles e outras coisas assim. Os nacionais também eram Os Incríveis, essas coisas. Dançávamos, conversávamos e fazíamos Cuba Libre. As meninas levavam salgado, os meninos levavam a Coca-Cola e o rum e fazíamos Cuba Libre. Tomávamos Cuba Libre e comíamos os salgadinhos que nós mesmos preparávamos. Tinha os clubes como o Cultura, o Tênis Clube, o Concórdia e o Andorinhas, que é um clube um pouco mais de bairro. Quem não tinha pra onde ir, ia para os clubes. Quem era sócio do clube ia nas festinhas. Tinha um baile na Fonte São Paulo, todo final de semana, então o pessoal ia muito nesses lugares. Depois quando estava mais lá pelos meus 20 anos, tinha os footings na Lagoa do Taquaral aqui em Campinas. Ali já passeávamos de carro. Eu já tinha o meu carro. Então tinha um bar grande chamado Chopão. Os meninos, as meninas, todo mundo fazia ali a sua diversão. Mas isso já foram outras épocas. Primeiro foi a época do bailinho da Sonata, depois já passou para o sambão, e depois já foi para o Chopão (risos). Agora é só bar. A minha primeira calça jeans tive aos 16, 17 anos.Todo mundo tinha calça jeans, eu não tinha porque a calça jeans vinha dos Estados Unidos, era importada. Eu queria uma calça jeans, então o que eu fazia? Isso eu estava no primeiro ano de colégio técnico. Normalmente, eu terminava o meu ano letivo um pouco antes porque fechava todas as notas, nunca tive problema de ficar de exame e em novembro eu estava liberada. Não tive dúvida: fui no comércio procurar emprego, fui ser vendedora de calçados. Eu tinha 16 anos e esse foi o meu primeiro emprego registrado em carteira. Eu trabalhei na Baby Calçados. Eu trabalhei o mês de novembro, o mês de dezembro, ganhei meu salário e comprei minha calça Lee. Eu fazia nessa época, tecnologia de alimentos numa escola que é da Unicamp, chama Cotuca, Colégio Técnico da Unicamp. Mas eu achei o máximo trabalhar, porque eu queria ter um trabalho. Eu sempre fui muito de ir buscar. Eu precisava ter a minha calça Lee, todo mundo tinha, e como eu iria conseguir? Minha mãe não ia conseguir ter dinheiro, nem meu pai para me dar uma calça Lee, que era cara. Era cara, levou praticamente 90% do meu primeiro salário. A minha calça Lee. É como se você hoje estivesse comprando, em termos comparativos, um salário mínimo, não sei nem quanto era, se eu ganhava um salário mínimo, o salário do comércio que é um pouco diferente, mas digamos assim, o que seria praticamente o valor do salário do comércio hoje, que é 600 reais, ou sei lá. Sei que levou quase todo meu dinheiro nessa história. E uma máquina fotográfica. Uma Kodak Instamatic (risos). Comprei uma, foi muito interessante, e aí eu sai tirando foto. Na época, uma calça Lee e uma Kodak Instamatic eram o nosso sonho de consumo. Hoje é o Ipod. Antes o nosso sonho de consumo era mais básico.

COMÉRCIO DE CAMPINAS
O comércio era simples, mas era muito interessante. Naquela época tinha Mesbla, Ezequiel, Constança, Elite Modas, que era onde a gente comprava. Um pouquinho mais tarde veio a Sears. A Sears era uma loja de departamento. As ruas de comércio eram a Treze de Maio, a Costa Aguiar. Era ali que se concentrava toda a parte de comércio e eu adorava vir pra cidade. Era a expressão porque a gente morava no bairro e, “ah, vamos na cidade.” Vinha passear sábado de manhã na cidade. O que comíamos? Pizza na Loja Americana. A pizza da Loja Americana era uma delícia. Até hoje eu tenho saudade da pizza da Loja Americana. Era pizza de mussarela, uma fatia de pizza de mussarela. Às vezes, tomava caldo de cana e comia um pastel. As melhores pastelarias ficavam na Campos Sales. Eu descia do ponto do ônibus em frente a pastelaria e comia um pastel O bairro era longe da cidade. Hoje nós estamos praticamente no grande centro de Campinas. Vila Teixeira, a Vila Industrial era bairro, nós quase morávamos na periferia, porque lá já terminava a cidade praticamente. No bairro onde eu morava já terminava a cidade, passava a linha do trem e dali pra lá não tinha mais nada. Agora eu já não sei mais onde termina a cidade, eu já não conheço mais.

FORMAÇÃO
A saída para a faculdade foi um pouco traumática pelo seguinte: eu queria fazer engenharia de alimentos, eu tinha feito um curso técnico em alimentos e engenharia de alimentos só tinha na Unicamp em período integral. Aí eu tive que decidir. Porque no curso técnico você tem que fazer um estágio, são 420 horas de estágio complementares, ou seja, você aprende a parte técnica teórica, depois você vai para a parte prática. Saí do colégio técnico e fui fazer o tal do estágio. Já fui contratada. Não tinha terminado o estágio ainda e já havia sido contratada pra trabalhar no Instituto de Tecnologia de Alimentos. Foi o mais um emprego porque todas as férias eu trabalhava no comércio pra ganhar um dinheirinho; tinha que ter dinheiro pra alguma coisa. Ia ficar em casa dois meses, três, sem fazer nada? Não dava. Então eu ia trabalhar no comércio. Sempre no final do ano o comércio precisa de mais mão-de-obra, então eu já participava dessa fase, do que hoje se fala, “olha, estão abrindo vagas para o comércio temporário”, e eu já fazia parte desse grupo de trabalhadores. Depois quando eu comecei a fazer o estágio, fiz um estágio mal remunerado. Tinha que pegar duas conduções pra ir, porque era muito fora de mão, mas logo em seguida eu consegui uma bolsa, e depois fui contratada. Eu trabalhei cinco anos. Fiz toda a minha faculdade lá, mas como eu estava trabalhando, ganhando dinheiro, falei: “Bom, agora não vai dar pra fazer uma Unicamp.” Infelizmente. Optei por fazer biologia, que era a coisa mais próxima, na ocasião. A minha intenção era fazer biologia e depois fazer pós-graduação em ciência de alimentos, então a minha trajetória já estava mais ou menos traçada. Quando eu comecei a fazer biologia, era isso que eu queria fazer. Mas a sua vida vai caminhando. Então eu fiz biologia, gostei muito, foi muito bom. Valeu para o que eu queria, mas não era exatamente, era um paliativo. No meio da biologia eu já dava aulas, porque biologia era licenciatura curta e licenciatura plena. Então eu trabalhava a semana inteira no Instituto de Tecnologia de Alimentos como técnica em alimentos, à noite fazia faculdade e no sábado dava aulas em São Paulo, no Oswaldo Cruz; eu era monitora lá. Fiz isso por dois anos. Ia pra São Paulo, era monitora e dava aula para o pessoal de Engenharia Química. Dava aula de laboratório e microbiologia. Eu de casa de manhã cedo, às cinco horas da manhã. Era mais fácil, não tinha tanto trânsito, pegava um táxi. Ficava ali na Barra Funda, num instantinho, chegava e ficava o dia inteiro. Cinco horas da tarde, eu vinha embora, chegava em casa às sete e meia, oito horas da noite. Como eu trabalhava no Instituto de Tecnologia de Alimentos, fazia a PUC à noite. A convivência dentro da sala de aula é muito pequena, porque o tempo com os colegas é muito pequeno. Mas mesmo assim eu tinha uns quatro ou cinco amigos. Nós estudávamos juntos desde o Cotuca. Fizemos o colegial e a faculdade de biologia juntos. Mas não tinha muito tempo de convivência dentro da Pucamp, a PUC Campinas. Como trabalhávamos, não dava muito tempo, essa história de DCE [Diretório Central dos Estudantes]. Mas eu tinha muita convivência com o pessoal da Unicamp. O Instituto de Tecnologia de Alimentos era, mais ou menos, o laboratório da Unicamp, naquela ocasião; então todo mundo ia fazer estágio. Então eu tinha muito conhecimento e muita relação com esse pessoal.

MOTHER’S
A Mother’s surgiu quando eu estava terminando a oitava série. A Mother’s nasceu, na verdade, nessa época. Eu tinha terminado de fazer o curso ginasial no Vitor Meireles e tinha um amigo, na minha sala de aula, que era uma pessoa fantástica e que queria, precisava dos meus cadernos porque tinha ficado de segunda época em três matérias. Ele precisava das minhas anotações e eu falei assim: “Mas Mauro...” Porque naquela ocasião eu tinha que prestar exame também pra entrar. Eu só prestei exame Prestei exame pra entrar o ginásio, prestei exame pra entrar no colegial e pra faculdade. Então eu tinha que prestar um exame seletivo também pra entrar no colegial do Vitor Meireles. E ele queria os meus cadernos pra estudar. E eu também queria, porque eu também ia prestar o exame. Ele falou: “Não, Vera, vai lá no Cotuca, você vai fazer tecnologia de alimentos que é um curso para mulher”(risos) Eu não sabia nem do que se tratava. E aí eu concorri, mas eu não tinha dinheiro pra pagar o cursinho. Todo mundo que faz Cotuca tinha que fazer cursinho. “Não, Vera, você vai conseguir vaga prêmio.” Aí eu falei: “Mas como vaga prêmio?” Vaga prêmio seria aquela vaga que é destinada aos alunos de escola pública que mais se destacam, nos anos todos. Então eu ganhei a tal da vaga prêmio. Muito bem. E foi aí que eu comecei a fazer tecnologia de alimentos. Por causa disso fiz tecnologia de alimentos e, depois, eu trabalhei nesse setor. No Instituto de Tecnologia de Alimentos, eu conheci o meu marido. Ele, através das Nações Unidas, foi dar uma consulta em El Salvador, América Central. Foi lá que eu comecei a Mother’s, trabalhar com chocolate, basicamente. Que até então eu trabalhava com alimentos, mas com chocolate mesmo foi na América Central. El Salvador, mas por que eu comecei a fazer chocolate lá? Foi assim, quando eu terminei a faculdade, fui morar em Ribeirão Preto. Eu fui atrás aquele sonho de fazer engenharia de alimentos e tudo mais. Fui pra fazer nutrição na Faculdade de Medicina. Depois fui pra El Salvador, na América Central, com meu marido. Chegando lá eu não tinha o que fazer, porque eu era esposa de consultor internacional, não podia trabalhar. Então o que eu fui fazer? Fui ter meu segundo filho. Eu já tinha um e fui ter o outro. Não podia trabalhar, não podia estudar, não podia nada. Quando ele nasceu, fiz um monte de docinhos brasileiros, que lá não tem. Eu fiz beijinho, olho de sogra, brigadeiro, quindim, e deixei tudo lá congelado e conforme as pessoas iam visitar, eu tirava uma bandejinha e servia como uma novidade naquele país. E não é que foi me visitar uma senhora que tinha uma rede de padarias, as panaderias, e que adorou os petit fours? Eu fui, montamos e treinei um grupo de funcionárias dela pra fazer os docinhos, porque ela fazia bolos pra casamento, aqueles bolos que hoje estão na moda, de andares, todo enfeitado. Naquela época já era muito comum. E ela queria incrementar aquele comércio com os doces brasileiros, porque ela achou muito interessante. Então começamos a fazer os docinhos brasileiros. Um dia, ela chega pra mim: “Mas Vera, não dá pra fazer chocolate?” Eu falei: “Dá” Então fomos na Guatemala - porque na Guatemala tinha uma fábrica da Nestlé que fazia barras de chocolate - e fomos até lá pra comprar as barras. Foi nos anos de 83, 84, 85, 86. Em 87, eu já estava aqui. Voltei de El Salvador em 22 de dezembro de 86 e em janeiro de 87 começamos a fazer chocolate. Quando eu voltei para o Brasil, em dezembro de 2006, tinha deixado lá em El Salvador todo um esquema montado, receitas feitas, o pessoal treinado, para fazer o produto lá naquele país para aquela pessoa. Além disso, eu ainda ensinei o pessoal a fazer compotas, doces, extrair leite de coco, porque lá eles não tinham; não tinham leite de coco e, aliás, eles não tinham nem o costume de usar coco seco, como nós temos aqui, eles usam a água de coco, mas não usavam o coco seco. Como eu era técnica em alimentos treinei muito o pessoal de lá. Aí vim pra cá meio que saber o que fazer, porque você volta, tem dois filhos, você deixa todo um contexto, volta para o seu país, mas eu não sabia bem o que eu iria fazer. Eu saí do Brasil em julho de 1982. Eu tinha um filhinho de dois anos. E fui para uma região que todo mundo achava que eu era louca de ir pra lá. Era um país que estava em guerrilha, um país perigoso, mas em muitos aspectos ele estava muito melhor que o Brasil.

MUDANÇA PARA EL SALVADOR
São outros costumes. A qualidade de vida que tínhamos lá nunca tivemos aqui no Brasil, apesar da guerrilha. Não podíamos ir a qualquer lugar. Por exemplo, eu saí de El Salvador sem conhecer a segunda maior cidade do país que era San Miguel. San Miguel era uma cidade que estava tomada porque El Salvador se dividiu ao meio e metade estava tomado pela guerrilha. Metade com exército salvadorenho, altamente subsidiado pelo exército americano, pelos Estados Unidos. Então a capital San Salvador e mais uma parte que ia até a fronteira com a Guatemala estava totalmente protegida pelo exército. E a parte que ia mais ao Sul, que fazia fronteira com a Nicarágua, era totalmente tomada pela guerrilha. Mas em muitos aspectos vivemos muito bem em El Salvador. Tínhamos uma condição meio que privilegiada. Morávamos num bairro excelente apesar de ter muita pobreza em El Salvador. É um país muito pobre e além da pobreza tinha todo o flagelo da guerrilha. Muita criança sem pai nem mãe, criança mutilada, enfim, muita gente saindo de El Salvador e indo morar em qualquer outro país. Foi uma experiência de vida. Você via claramente as pessoas sofrendo com os filhos longe. Aprendi muita coisa lá também, acho que eu me enriqueci muito. Foi um enriquecimento pessoal, de vida, muito humano. Aprendi com outras culturas porque lá você convivia com várias pessoas de outros países, não só os salvadorenhos. Deixei amigos em El Salvador. Até hoje temos amigos lá. Outros brasileiros que também moravam lá e salvadorenhos que estudaram aqui no Brasil e que regressaram para lá. Casaram com brasileiras e estão lá. Foi muito bom. Tanto que eu tive um filho salvadorenho. Peguei o terremoto de 10 de outubro de 1996. Foi o último e maior terremoto de El Salvador. Morreram acho que umas mil e quinhentas pessoas. Foi terrível. Assustador. É uma coisa interessante acho que depois que você passa por um terremoto na vida, nada mais é capaz de te derrubar.

RETORNO DO BRASIL
Quando eu voltei para o Brasil foi uma mistura meio de alívio e meio de dúvida. Toda vez que vamos fazer um trabalho temos um prazo. Fomos para ficar um ano em El Salvador e ficamos quatro. Ou ia para outros países ou voltava para o Brasil. Como eu tinha as crianças pequenas, eu falei: “Vamos voltar para o Brasil porque nós precisamos que as crianças tenham raízes; que convivam com a família; que convivam com os tios, com os primos, com a terra deles.” Então resolvemos voltar para dar às crianças aquela força. Porque se não fica meio solto no mundo. Mas foi uma época boa e também uma época de dúvidas porque a não se sabia o que iria fazer. Voltamos para ver o que ia acontecer.

CHOCOLATE
Quando eu cheguei, em dezembro de 1986, a minha cunhada, irmã do meu marido, estava saindo do trabalho dela. Pediu demissão para se dedicar um pouco mais às crianças. Nós duas tínhamos crianças pequenas. Mais ou menos todos os quatro tinham a mesma faixa de idade. Ela estava saindo, mas não pôde sair na ocasião, que era janeiro, porque ela precisava treinar uma pessoa para ficar no lugar dela. Então ela ia sair só em fevereiro. Ela falou que já tinha feito uma inscrição para fazer um curso de chocolate. Vai vendo como é redondo esse mundo... Mas ela não podia ir porque tinha que trabalhar. Ela já tinha pago a matrícula e falou para mim: “Vera, você não quer ir no meu lugar, só para eu não perder?” “Ah, tá bom. Não estou fazendo nada mesmo, eu vou.” Fui, acho que no dia 5, 6 ou 7 de janeiro . Fui fazer o curso, ver o que era. Fiz o curso. Aí olhei: “Não, isso não é chocolate.” Aí eu comecei a fazer algumas perguntas sobre chocolate, como era, porque a professora não temperava o chocolate. Porque no chocolate existem duas formas, duas coisas na área artesanal que é o chocolate realmente e o chocolate que não é tão real assim, porque não é feito com manteiga de cacau. É um chocolate feito com outras gorduras e que não requer aquele cuidado que o chocolate precisa. E eu já tinha feito muito chocolate, sabia como trabalhar. Aí fiz o curso e tudo o mais. Cheguei pra minha cunhada e falei: “Pôxa vida, porque não montamos alguma coisa de chocolate?” Ela falou: “Ah, uma boa idéia Vamos ver o que tem em Campinas na área de chocolate.” Eu já tinha visto que o pessoal artesanal sabia fazer aquele tipo de chocolate que eu tinha visto no curso. Aí eu comecei a visitar as lojas que vendiam chocolate. Comecei a verificar que só existia a Kopenhagen como comércio de chocolate e mais duas empresas que faziam chocolate, mas faziam chocolate mais popular. E essa não era a minha visão. Eu queria fazer um chocolate que estivesse no meio termo. Também foi nessa época, 1986, 1987, que começamos a ter aquele grave problema econômico do Brasil. O pessoal começou a perder o poder aquisitivo de comprar um bom produto por um preço melhor. Então a Kopenhagen começou a ir para uma faixa econômica alta. As pessoas sabiam que o chocolate era bom, mas não conseguiam comprar o chocolate da Kopenhagen. Foi aí que eu entrei: “Vou fazer um chocolate que não seja tão popular quanto os das outras empresas, mas que também não seja tão caro. E vou dar a oportunidade para as pessoas que realmente gostam, consumir um produto bom.” A primeira Páscoa que fiz foi a de 1987, final de março, começo de abril. Janeiro, fevereiro e março, não tinha nada. A primeira coisa que eu fiz foram uns pirulitinhos. Aí, um dia, eu fiz um pézinho. Eu tinha umas formas que trouxe dos Estados Unidos. Porque pra vir de El Salvador tinha sempre que passar por Miami. Miami era, mais ou menos, o caminho; ou vinha por Panamá ou por Miami. E sempre por Miami, que era mais rápido. Então eu sempre tinha muito material americano pra trabalhar. E fiz o tal do pézinho. A minha cunhada olhou e disse: “Não dá pra passar um esmalte nesse pé?” Eu falei: “Dá.” Foi aí que eu fiz o primeiro chocolate decorado. Decoramos muito o chocolate com cor. Foi pintando o esmalte do pézinho de chocolate. Começamos a vender. A minha cunhada que era mais da área comercial, na verdade. Ela começou vendendo o chocolate na empresa que trabalhava. Então começou um tal de um pede, outro pede. Na primeira Páscoa nós produzimos quinhentos quilos de chocolate. Fazíamos palhacinho de chocolate todo decoradinho e colorido. Isso agradava e chamava a atenção porque era uma coisa diferente. Não existia até então nada disso. As pessoas comiam e achavam que não ia ser muito bom. Aí quando eles comiam e viam que era bom, pronto Ficava tudo certo. Mas no primeiro instante, as pessoas acham bonito, mas não achavam que podiam comer.

FUNCIONÁRIOS
Eu fazia os chocolates e a minha cunhada vendia. Uma tia minha começou a me ajudar. Então eu fazia e ela ajudava a embalar. Depois já começamos a contratar gente, contratamos mais duas pessoas. Aí nós fizemos aquela primeira exposição lá na Bosch, que foi um fracasso. Nós também tivemos fracassos. Nós tínhamos uma amiga que trabalhava na CPFL [Companhia Paulista de Força e Luz]... Por isso que eu digo, networking é importante. Ela trabalhava na CPFL e a CPFL precisava de uns brindes de chocolate para uma festa de 50 anos, eu acho, para oferecer às esposas dos funcionários. E tinha lá uma seleção, várias pessoas oferecendo, tinha uma concorrência. Nós ganhamos a concorrência, mas não podíamos fazer porque não tínhamos empresa aberta, precisávamos dar uma nota fiscal para a CPFL. A nossa primeira nota fiscal, a nota fiscal número um foi emitida para a CPFL.

DIFICULDADES
O Plano Collor foi a maior dificuldade. Esse foi o de maio. Naquele ano, achávamos que iríamos fracassar de vez, desistir. Mas, na verdade, o Plano Collor, pra nós, nem foi tão ruim. Foi ruim porque era perto da Páscoa. E sempre fazíamos a nossa produção por encomenda, as pessoas ligavam, encomendavam, se produzia e entregava. As pessoas começaram a ligar cancelando. Isso foi terrível Comemos chocolate o ano inteiro, aqui dentro. Nossa Senhora Muita gente devolveu porque não tinha como pagar, não tinham dinheiro pra pagar. Mas por outro lado foi bom porque tínhamos todo o nosso dinheiro, que não era muito, investido em chocolate, investido em embalagem, investido em produto. Então a partir da Páscoa, o dinheiro começou a girar de novo. Não tínhamos dinheiro no banco, que na época ficou retido. Uma das premissas da Mother’s é que quando ela faz a Páscoa, já está tudo pago. A gente nunca deixa pra pagar depois porque nunca se sabe o que vai acontecer. Mas esse foi um plano ruim.

PRODUTOS
Todas as datas têm um produto específico. A Mother’s sempre tem. Temos um produto para o Dia das Mães, para o Dia dos Namorados, para o Dia dos Pais, para o Dia da Secretária, para o Dia da Criança, para o Dia do Médico, para o Dia do Dentista, para Halloween, para Ação de Graças, para o Natal. Sempre temos um produto pensado para cada ocasião e fora os que são inventados no meio do caminho. Inventamos muito, mas também há muita invenção de cliente. O cliente solicita e você faz. É uma interação muito grande. Tem algumas trufas que as pessoas vieram pra mim e falaram: “Comi uma trufa em Paris que era uma delícia Será que você não é capaz de fazer?” Falava: “Sou.” Trufa de maracujá, quando ninguém fazia, nós já fazíamos. Quando nem maracujá era usado no chocolate já fazíamos. Trufa toffe. Uma cliente veio e falou assim: “Ai, que trufa” E acabamos fazendo. Alguns produtos dessa maneira. Barrinhas, coisas para ocasião, ou então, por exemplo, a primeira vez que nós fizemos um tablete que parece um cartão de visitas. Junto com esse cartão de chocolate, embalamos o cartão de visitas do evento. Por exemplo: um evento que você vai promover, um lançamento do livro do Museu da Pessoa, a exposição do Museu da Pessoa; fazemos um cartãozinho com o logo do Museu da Pessoa, com um dizer qualquer como “agradecemos a sua presença na exposição tal”. E você distribui como brinde para cada pessoa que for visitar. Isso foi uma solicitação de um cliente e isso hoje é normal. Fazemos para todos os clientes que querem. Tem um porção de coisas e nomear tudo, eu não saberia. Tem vários produtos que saem conforme a situação. Na Páscoa se faz muito uma coelhinha grávida. Ela é o tchan da Páscoa. Agora todo mundo tem a coelha grávida, mas fomos nós que lançamos, ninguém tinha naquela ocasião. Ninguém fazia, ninguém tinha muito esse negócio de fazer peça. Era mais ovo de Páscoa mesmo. Até hoje, ainda, o forte é o ovo de Páscoa, o ovo de chocolate. Mas fizemos essa aí. Fazíamos muita decoração. Fazíamos muitos trabalhos para a Editora Abril. O pessoal da editora ligava: “Vera, a gente tem que fazer fotografia” No fim acabava vendendo esses produtos também porque a Editora Abril solicitava. Na Páscoa o forte é a coelha grávida; no Dia das Mães, tem um coração; no Dia dos Namorados, temos uns outros produtos; no Dia dos Pais, ferramentas de chocolate; no Dia da Criança então é uma farra, porque temos kits; para o Halloween, também fazemos. No dia-a-dia é o bombom a granel que mais se vende. Nós temos 50 sabores diferentes de bombom, trufa, recheado de vários estilos e sabores.

SEGREDOS DO COMÉRCIO
Perseverança e trabalho duro. Se você parar na primeira dificuldade, você pára de vez. Então você tem que perseverar. As pessoas olham e dizem: “Nossa, você tem 20 anos de mercado” Até eu mesma olho, 20 anos de mercado num segmento que não é fácil... Não é vestuário, é um produto que é supérfluo, 100% supérfluo porque eu trabalho com o lúdico. Por exemplo, vai nascer o bebê? Temos as lembrancinhas em chocolate. Vai fazer o batizado? Tem a lembrancinha em chocolate. Vai casar? Vai fazer 15 anos? É uma coisa assim. Não é um mercadão, gigante. É um mercado restrito, é uma faixa daquele mercado que tem esse poder aquisitivo, que tem essa iniciativa. Não é uma coisa que você faz barrinha, põe no supermercado e todo mundo que entra tem a oportunidade de ver e comprar. Não é assim. É uma coisa um pouco mais restrita. Temos que perseverar muito, trabalhar muito. Eu trabalho normalmente 14 horas por dia, das sete da manhã às oito, nove da noite.

FUNCIONÁRIOS
Na fábrica nós temos 20 funcionárias e três na administração. E nas lojas nós temos 14. São cinco lojas.

CIDADES / CAMPINAS / SP
Acho que Campinas perdeu a identidade como cidade pequena. Hoje Campinas é uma metrópole. Já não tem mais aquela carinha que ela tinha de cidade pequena, em que o pessoal do bairro se conhecia e tudo o mais. Ela cresceu demais. Nós éramos 200 mil e agora tem mais de um milhão de pessoas vivendo aqui. Então isso tudo tem suas conseqüências. Eu acho que perdemos realmente muita coisa nessa trajetória toda, mas ganhamos também. Nós ganhamos um comércio forte, ganhamos universidades muito boas. Acho que até por causa das universidades, temos essa pujança toda. Nossa economia, da região de Campinas, é maior que a do Chile. A parte tecnológica é muito boa. Então, acho que nós ganhamos coisas também, mas perdemos por outro lado aquela parte mais de cidade pequena, de todo mundo se conhecer; aquela parte da segurança e tudo o mais.

CLIENTES
Acho que a nossa relação com o cliente se transformou a partir do momento que fomos para os shoppings. A Mother’s é uma empresa que cresceu naquele famoso boca a boca. Não tinha propaganda, nunca teve dinheiro pra isso, na verdade, porque se preferia investir na qualidade do produto mais do que na propaganda. E no final sempre foi uma empresa que funcionou no boca a boca. Então um comprava, presenteava e o outro, falava e foi assim. Hoje já é um pouco diferente porque como estamos em shopping... Nos shoppings você tem um público muito diversificado, a compra de impulso e tudo o mais. No shopping nos tornamos mais visíveis. Tem pessoas que vêm do Rio de Janeiro. Embora, por um período da vida da Mother’s, vendemos no Rio. Vendíamos na Sears; tínhamos um quiosque dentro de cada Sears de Botafogo, de Niterói, da Barra, em Belo Horizonte, em Porto Alegre, em São Paulo. Eu ia entregar chocolate toda semana na Sears. Depois começamos a trabalhar com a Rede Express 24 horas, na Moreira Guimarães. Tínhamos chocolate nosso lá. E tinha aqui em Campinas também. Depois foi crescendo, foi crescendo aí a Express foi vendida para a Select, para o Pão de Açúcar, do Pão de Açúcar para Shell. E depois acabamos desfazendo o acordo e não vendendo mais pra eles. Mas a gente tem uma trajetória assim.

MOTHER’S
Eram duas mães, eu e a minha cunhada. Com quatro (risos) pirralhos. Como vai chamar? Fazíamos chocolate que não tinha nome. A Mother’s não tinha nome. Todo mundo perguntava: “Como chama o seu chocolate?” “Não sabemos.” E eu estava vindo de quatro anos de El Salvador, que é muito próximo dos Estados Unidos e tinha muita influência da linguagem, do inglês. Então a primeira idéia foi: “Vamos por Chocolate da Mãe?” “Ah, vai ficar feio Chocolate da Mãe.” A gente pensou em outros nomes, pensou em muita coisa (risos). Aí, um dia, eu falei assim: “Porque a gente não chama Mother’s Chocolate?” Eu falei porque eu estava com aquela coisa do inglês na cabeça. Hoje eu já acho que foi péssima idéia porque ninguém consegue pronunciar direito o nome. Chamam de “modess”, de “mater”, de qualquer coisa. Às vezes, é difícil, você tem que soletrar. Então é um nome bonito por causa do sentido de quando nós colocamos: era chocolate feito por mães, com carinho da mãe, com cuidado da mãe, com aquilo que a sua mãe faz de melhor pra te dar. Esse é o sentido da palavra Mother’s Chocolate. E a Mother’s Chocolate tem uma tradição, nós só trabalhamos com mulheres. Desde o primeiro dia.

TRADIÇÃO
É o Clube da Luluzinha. Temos essa tradição. É muito difícil trabalhar só com mulheres. Parece fácil, mas não é. Procuramos desde o primeiro instante de vida da Mother’s, sempre trabalhar com mulheres, voltada para mulheres. Um trabalho realizado por mulher. Por mães. Sempre procuramos contratar pessoas, mulheres que estavam em duas faixas de vida no mercado. Porque você sabe que a mulher tem um período que ela está apta para o mercado de trabalho. Passou daquele período dos 40 anos, 45, ela está fora do mercado. E antes dos 20, 22, ela também está fora do mercado. Então começamos sempre usando aquelas pontas. Sempre procuramos dar oportunidade para aquela mulher que realmente estava fora do mercado. Até bem pouco tempo na empresa, tínhamos gente analfabeta, agora já não tem mais isso. E nós alfabetizamos. A Márcia alfabetizou. Porque a Márcia fez escola normal. Então as pessoas vinham procurar emprego conosco, mas não sabiam ler nem escrever. Além de contratar, alfabetizávamos.

FÁBRICA DE CHOCOLATE NO EQUADOR
As Nações Unidas têm um trabalho constante nos países subdesenvolvidos. Sempre há outros países mais ricos interessados em investir em algumas políticas de desenvolvimento. Nessa ocasião, as Nações Unidas estavam tratando de políticas de desenvolvimento no Equador, para mulheres. A mulher equatoriana é arrimo de família, quase sempre. Elas normalmente não se casam. Vamos deixar claro que é uma determinada classe social. Elas têm os filhos – a salvadorenha também – cada filho com um pai e nenhum se responsabiliza. Então a mulher tem que dar duro. Já é uma pessoa que vive num país pobre, que não tem com quem contar, normalmente, para o sustento dos filhos. E tem que desenvolver, tem que crescer, fazer alguma coisa. Então o intuito das Nações Unidas naquela ocasião era poder capacitar as mulheres de uma fundação para o trabalho, para poder desenvolver um produto de qualidade, mas que pudesse ser feito artesanalmente pra ocupar a mão de obra feminina. Para ter um comércio e um retorno, para continuar capacitando essa fundação, para formar mais mulheres. Esse ano, eu recebi um e-mail de uma filha de uma das mulheres que eu capacitei e que montou uma fábrica de chocolate. Eu não sei como anda todo o desenvolvimento, porque sou consultora. Eu fui como consultora das Nações Unidas pra montar uma fábrica estilo similar ao que eu tinha aqui. E veio um consultor visitar a nossa fábrica, nosso estilo de trabalho, visitou as nossas lojas e achou que como era uma fábrica só de mulheres, tocada por mulheres, dirigida por mulheres, montada por mulheres, tinha alguma coisa a acrescentar. Porque a maioria não é assim. Então fui convidada como técnica. Montei a fábrica, treinei o pessoal, ensinei a vender etc.

MÃO DE OBRA FEMININA
Temos uma característica que requer muito a mão de obra feminina, que é uma mão de obra um pouco mais delicada. Existem confeiteiros fantásticos, chocolateiros. A maioria do mundo trabalha com chocolatier, são homens. Mas quando estávamos começando trabalhávamos num ambiente que não era muito grande, um ambiente pequeno. E por causa do nome, Mother’s, queríamos dar uma característica especifica para a nossa produção. Então nunca cogitamos em contratar homem. Nunca pensamos na possibilidade de contratar um homem para trabalhar conosco.

LIÇÕES DO COMÉRCIO
Nós aprendemos todos os dias. Eu acho que uma das lições que aprendemos no comércio é ouvir. Ouvir muito o que as pessoas querem, o que as pessoas estão buscando, quais os anseios dos clientes, dos funcionários. Porque quando se ouve, se aprende. E o relacionamento com as pessoas. Eu acho que você tem que ter jogo de cintura. No comércio você precisa ter jogo de cintura, você tem que aprender a lidar com o imprevisto; tem que lidar com o cliente, com o fornecedor. Então tudo isso são coisas que você vai aprendendo e tirando lições. Aquela convivência que você tem... Porque você, mais ou menos, é o elo. Eu, por exemplo, que fabrico, eu tenho a parte da produção e a parte comercial. Você tem que fazer uma ligação entre a parte comercial e a parte produtiva. Nem sempre elas andam na mesma sintonia. Então você tem que aprender a fazer essa união, essa ligação entre uma coisa e outra.

MEMÓRIAS DO COMÉRCIO DE CAMPINAS
Eu acho interessante porque tem muita coisa no comércio de Campinas que é história, e que se perde, que vai embora, que ninguém mais lembra. Só os antigos. Vai morrer mesmo. Qualquer hora dessas vai se perder de vez essa história. Eu acho que isso estando num livro é legal, super interessante. Não só o comércio de Campinas, mas o comércio em geral. Achei jóia participar. A entrevista foi muito boa. Tirei coisas do fundo do baú aqui (risos), coisas que eu já nem lembrava mais. Muito bom.

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