Busca avançada



Criar

História

Certo, mas e a lama negra?

História de: Luiz Augusto de Oliveira Sales
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/12/2012

Sinopse

Identificação e mudança da família. A infância com os cinco irmãos na cidade de São Paulo. O trabalho como funcionário público e a decisão de exonerar-se para abrir um centro de estética e beleza nos Campos Elísios. As mudanças do bairro ao longo de 40 anos. O processo de decadência e os problemas com a Cracolândia. O funcionamento comercial da região, as suas vantagens e desvantagens. Explicação do funcionamento da Associação dos Moradores e Comerciantes do Bairro de Campos Elísios, instituição que busca resolver problemas cotidianos da região e da qual é diretor.

Tags

História completa

“Minha infância foi espetacular, não posso falar um ‘a’ dela. Eu morava em Campos Elísios e visitava muito o antigo Palácio do Governo com minha mãe. Aquilo era um sonho. Você podia andar, brincar à vontade. Ao cinema sempre ia um grupo grande, famílias; todo mundo reunido, tudo bonitinho. Chegando lá, fazia fila, um negócio que era uma beleza. A gente ia apé pela Barão de Limeira para assistir aos filmes do Mazzaropi no Cine Art Palácio. E filmes épicos, bíblicos também. A gente gritava, se empolgava. Naquele filme Os Dez Mandamentos, eu lembro bem disso: o pessoal levantava e batia palma quando... Como chama lá? O santo abriu o mar para as pessoas passarem. Na época se usava suspensório, gravata-borboleta e paletozinho xadrez. O Centro era incrível. Mas não demorou e já começou aquela situação de degradação por conta da retirada do poder público. Saíram algumas secretarias que funcionavam ali, as pessoas mais antigas de poder aquisitivo, de formação sociocultural também já estavam começando a se retirar, essa que é a grande verdade. Aqueles imóveis enormes, aqueles casarões...Não se podia fazer nada. Os próprios proprietários não sabiam o que fazer com os imóveis, e aí foram surgindo esses cortiços, essas moradias coletivas. Ali tinha a rodoviária, ali tinha o prédio da Sorocabana, e esse pessoal que mexia com drogas tinha uma grande facilidade de passar as drogas para os viciados. Ali na região de Campos Elísios, na Luz; ali era um miolo de tudo, era uma facilidade muito grande. E o contingente de pessoas ali, às vezes você ficava bobo de ver aquilo, aquilo era uma multidão de gente. Você imagina o que tinha ali no meio. E, em meio a tudo isso, eu fui crescendo e comecei minha vida profissional: foi num órgão do Estado chamado Fomento de Urbanização e Melhoria das Estâncias – Fumest. Não existe mais. Eu fazia a verificação de postos meteorológicos e, por conta disso, viajava pelo interior, litoral. Numa dessas viagens, eu vim a conhecer a lama negra de Peruíbe. Aquilo acendeu o desejo de abrir um comércio e eu comecei a comentar com as mulheres, até que alguém falou que aquilo era um espetáculo, aquilo era um negócio pra tratamento de pele e não sei o quê. Aí eu comecei a pensar: ‘Aquele mundaréu de lama negra. Eu ainda vou abrir umas banheiras, fazer um balneário e colocar o povo para tomar banho de lama negra.’ Ficou ali, adormecido, como um sonho que eu tinha. Mas o tempo passou, eu continuei trabalhando, até que um dia conheci minha mulher. Ela era manicure, pedicure e começou a fazer uns cursos de estética. Nós nos casamos e ela até tinha uma quitinete ali na Frei Caneca, mas eu insisti que a gente ficasse na Barão de Limeira, onde eu morava. ‘Meu lugar é na Barão. Eu tenho que morar nos Campos Elísios. Ali eu tenho tudo, minha vida é ali.’ Aí ela falou: ‘Tá bom.’ Aí compramos um apartamento na Barão de Limeira e montamos um salão. Cheguei a ter 12 funcionários e... Eu guardo isso lá, tenho todas as estatísticas: eu chegava a atender 2 mil, 2,4 mil pessoas por mês. Aquilo estourou, explodiu. Hoje eu estou bem lá e trabalho com vários produtos. Só não tem lama negra. Por incrível que pareça, não tem. Tudo começou por causa da lama negra e hoje não tem.”.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+