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História

Centenária como o Belenzinho

História de: Rosa Rinaldi dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/03/2005

Sinopse

Rosa nos concedeu esta entrevista em 1999, quando estava prestes a completar 100 anos. Ela nasceu na Barra Funda, mas passou a vida no Belém, onde trabalhou em fábricas de tecelagem e acompanhou os grandes eventos e mudanças da região.  

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História completa

P/1 - Vamos começar. Qual é o seu nome completo, por favor, e a sua idade?

 

R - Rosa Rinaldi dos Santos.

 

P/1 - Dia do nascimento?

 

R - Sete de agosto de 1899.

 

P/1 - Muito bem, e o nome dos seus pais?

 

R - Caetano Rinaldi e minha mãe, Maria Prandi.

 

P/1 - Eles são italianos?

 

R - É.

 

P/1 - Onde eles nasceram?

 

R - Ele em Ferrara e ela em Roma.

 

P/1 - E quando eles vieram para o Brasil, a senhora sabe?

 

R - A minha mãe tinha dezoito anos e o meu pai tinha trinta.

 

P/1 - E eles casaram lá na Itália?

 

R - Aqui. Casaram na cidade de Itapira.

 

P/1 - E depois vieram pra São Paulo?

 

R - Sempre moraram aqui. Meu pai… Todos nós, nunca saímos de São Paulo.

 

P/1 - E de Itapira vieram pra São Paulo?

 

R- Vieram pra São Paulo.

 

P/1 - Em que bairro?

 

R - Foi no bairro da Barra Funda, onde eu nasci.

 

P/1 - A senhora tem muitos irmãos?

 

R - Somos dez.

 

P/1 - Nossa, quantos!

 

R - Mas já morreu quase tudo.

 

P/1 - Não tem nenhum vivo ainda?

R - Tem três, da minha parte três.

 

P/1 - Certo. E a senhora se lembra da sua infância?

 

R - Lembro, se lembro...

 

P/1 - Ah, então conta pra nós.

 

R - A minha infância foi boa, só trabalhei. Comecei a trabalhar com nove anos, trabalhei até... [Com] 24 anos eu casei. Depois trabalhei um pouco, depois vieram os três filhos. Parei de trabalhar e continuei sendo dona de casa.

 

P/1 - Com nove anos a senhora foi trabalhar onde?

 

R - Na Maria Angela Matarazzo.

 

P/1 - Era o que lá?

 

R - Tecelagem.

 

P/1 - O que a senhora fazia, a senhora lembra?

 

R - Eu lembro, eu punha espula na máquina.

 

P/1 - Explica um pouquinho pra nós, por favor. O que é isso?

 

R - É o algodão que sai da máquina e enrola na espula. E da espula vai pra tecelagem.

 

P/1 - A senhora fez isso muito tempo?

 

R - Ah, trabalhei uns dois, três anos, no máximo. Porque eu era pequena, tinha nove anos.

 

P/1 - A senhora lembra se tinha outras crianças?

 

R - Ah, naquele tempo todos que tinham nove anos trabalhavam. Não era só eu, não. Eu tinha uma irmã com oito, eu também a levei pra trabalhar.

 

P/1 - E esse trabalho era o dia inteiro?

 

R - Das seis às seis. Agora se queixam, trabalham oito horas. No meu tempo a gente trabalhava doze horas por dia. Depois fiquei na tecelagem até... Fui tecelã [por] doze anos efetivos mesmo, sem sair de lá. Aí eu fiquei em casa.

 

P/1 - Depois dessa tecelagem a senhora não trabalhou em outra tecelagem?

 

R - Não. Depois veio a crise. Meu marido ficou desempregado. Eu fui trabalhar numa tecelagem na Rua Bresser.

 

P/1 - A senhora se lembra o nome?

 

R - Não. Era tecelagem de juta. Fazia saco para pôr café.

 

P/1 - Mas isso muitos anos depois, né?

 

R - Muitos anos. Eu, meu Deus, eu acho que tinha uns sessenta anos, nem isso. Não tinha isso, não.

P/1 - Menos... Foi logo que a senhora se casou?

 

R - Não, quando eu casei tive os filhos, não fui trabalhar mais. Depois que eles cresceram eles foram trabalhar, com quatorze anos. Eu ajudava com meu marido, aí começou a menina, com quatorze anos, a trabalhar. Fiquei em casa.

 

P/1 - Mas voltando um pouco à sua infância, a senhora não tinha tempo de ir a escola então?

 

R - Naquele tempo, quando eu era pequena, acho que nem [tinha] escola noturna. Não tinha nada aqui em São Paulo. Não é que nem agora, meu Deus. Quem me ensinou um pouco era um português, que veio de Portugal. Sabe como nós o apelidávamos? Até hoje eu não sei o nome dele. Ele tinha... Professor Tamanco, porque ele andava de tamanco. Ele ensinou as meninas, umas meninas que moravam aí. “Vocês querem aprender a ler?” A gente foi. Eu aprendi a cartilha e até hoje escrevo, mas escrevo assim, se é pra por um cê eu faço com esse, entende? Ainda não entrou na cabeça isso…

 

P/1 - Fora o seu português a senhora não foi na escola, né?

 

R - Nunca mais, só trabalhei.

 

P/2 - Dona Rosa, a senhora lembra da sua infância antes de começar a trabalhar?

 

R - [Na] minha infância não passeei nada, fui criada sempre em casa. Fui ao cinema uma vez só, bem moça, com 22 anos. Só trabalhei. Não passeei, não conheço nada, nenhuma cidade. Conheci agora certos lugares aqui perto, mas nunca viajei. A infância foi essa, só trabalhar.

 

P/2 - Como era o cinema?

 

R - O cinema era aí na avenida, na Avenida Celso Garcia.

 

P/1 - Lembra o nome do cinema?

 

R - Olha, agora não estou lembrando se era... Ai, meu Deus, eu não lembro o nome do cinema. Eu lembro, mas agora... Como é que chama aquele cinema perto da Rua Bresser? Eu cheguei a ir àquele cinema, agora não lembro o nome. Uma vez só eu fui. Eu só trabalhei na minha infância.

 

P/1 - Mas a senhora não lembra o nome do filme, né?

 

R - Politeama.

 

P/1 - Ah, o Cine [Brás] Politeama.

 

P/1 - Quando é que a senhora mudou-se para o Belém?

 

R - Mudei quando era pequena, [aos] nove anos. Vim para o Belém, fiquei no Belém toda a vida, até agora. Eu moro com ela, mas eu vivo no Belém. Na outra [filha] eu vou e venho, mas sempre no Belém. Muitos anos, noventa anos, oitenta de Belém.

 

P/1 - A senhora se lembra como era o Belém quando a senhora era menina?

 

R - O Belém foi sempre assim. Eram umas casinhas mais pobres, depois reformaram. Mas o Belém modificou nada viu, nada.

 

P/2 - Como a senhora ia pro trabalho? Era perto de casa?

 

R - Não. Eu trabalhava… Primeiro morava no Belém. Fui trabalhar na Maria Angela de criança, a pé. A gente ia a pé e tomava o bonde. O da frente era duzentos réis, o de trás era um tostão, cem réis, então a gente ia no de trás, que era mais barato. Depois trabalhei aí... A minha vida trabalhei aí, depois saí, fui trabalhar na Maria Ângela, aí mesmo, na Avenida Celso Garcia. Hoje é uma fábrica de pneus, a fábrica fechou. [Na Vila] Maria Zélia, trabalhei lá também, muitos anos. Tudo fechou. Aí eu fiquei em casa, não trabalhei mais.

 

P/1 - Então a senhora conheceu a Vila Maria Zélia?

 

R - Conheci, eu ia dançar na Maria Zélia.

 

P/1 - Dançar? Ah, conta os bailes, como eram os bailes?

 

R - O baile era bom, não era que nem agora. O baile era bom, era [aos] sábados. Quase ia só o pessoal da fábrica da Maria Zélia. Tinha tecelagem grande lá. Então sábado tinha baile e a gente aproveitou isso. A mocidade minha foi...

 

P/1 - E quem morava na Maria Zélia trabalhava na fábrica?

 

R- Trabalhava na fábrica.

 

P/1- Que era outra fábrica?

 

R- É.

 

P/1- Era uma fábrica de tecelagem?

R- Tecelagem. E tinha vila de casas. Eu trabalhei mais doze anos na fábrica do inglês. A fábrica fechou também, há muitos anos. Eu era solteira quando fechou. Era uma fábrica de inglês, pegada ao Matarazzo, que está na Avenida Celso Garcia - agora derrubaram tudo.

 

P/1- Era uma fábrica de tecidos inglesa?

 

R- Chamava Boys, era inglesa.

 

P/1- A senhora conheceu a Santista, que era aqui?

 

R- Nunca cheguei a entrar. Nunca fui trabalhar. Morei perto da Santista.

 

P/1- Mas a Santista era aqui nesse prédio, a senhora lembra?

 

R- Mas tem uma lá no Belém. Aqui eu sei que tinha. Na Celso Garcia tinha tecelagem lá, também. Eu comprei muitos lençóis lá.

 

P/1- Na Celso Garcia?

 

R- É pegado à Avenida [Salim Farah] Maluf. A fábrica está lá montada, só que está fechada.

 

P/1- E essa aqui foi depois daquela?

 

R- Foi.

 

P/1- Essa aqui a senhora conhecia quando funcionava?

 

R- Eu conheci, mas nunca trabalhei lá.

 

P/1- Não. Nesta aqui onde nós estamos, neste prédio?

 

R- Não. Aqui eu conhecia, mas nunca entrei.

 

P/1- Nem pra comprar?

 

R- Nada. Eu só comprava... Eu ia comprar na Rua Padre Adelino, que vendia os lençóis da Santista. Tinha a loja norte, que era depósito. Vendia pra todos, mas nunca entrei nessa.

 

P/1- Em quantas fábricas a senhora trabalhou?

 

R- Trabalhei na Matarazzo, no Boys… Três fábricas, só...

 

P/1- A senhora disse que o Belém não mudou muito...

 

R- Não. Mudou assim, ficou mais bonito. Era mais pobre, reformaram todas as casas. Está tudo bonito, tanto que é onde a minha filha ainda mora [no bairro]. A outra mora lá há 55 anos, na mesma casa. Era um sobradinho mixuruco, mas todos reformaram. Está uma beleza agora, não é? Mas antigamente não, era feio o Belém. Tudo pobrezinho.

 

P/1- E tinha muito terreno vazio?

 

R- Tinha muitos terrenos vazios. Hoje não tem mais nada, tanto é que na rua que elas moraram, casaram as filhas todas naquela casa. Hoje é apartamento, tem um apartamento grande lá onde eu morei. Modificaram tudo.

P/1- A senhora trabalhava muito, mas sábado e domingo, fora os bailes?              

 

R- Sábado a gente trabalhava também, não tinha sábado e domingo. As fábricas trabalhavam no sábado também.

 

P/2- E no domingo?

 

R- No domingo não, mas sábado trabalhava.

 

P/1- O dia inteiro?

 

R- O dia inteiro. Depois é que veio esta folga das pessoas não trabalharem no sábado, mas trabalhava.

 

P/2- E no domingo, o que vocês faziam?

 

R- O que fazia? Ajudava em casa. Fazer comida, lavar roupa, fazer pão, fazer macarrão... Era isso que nós fazíamos. A mocidade foi essa.

 

P/2- Não tinha um tempo pra ir no Rio Tietê tomar banho?

 

R- Nada, que tomar banho? Não existia nem piscina, acho.

 

P/1- Não, no Rio Tietê?

 

R- O Rio Tietê era longe.

 

P/1- Era longe?

 

R- É.

 

P/1- Mas era perto da Vila Maria Zélia?

 

R- É. No fundo da Maria Zélia. A gente acabava de almoçar e ia lá ficar amarrado. Era mesmo! É, a vida era essa, só trabalhar. E o domingo precisava ajudar em casa.

 

P/1- Mas espera um pouquinho. Explica melhor: a senhora acabava de almoçar e ia no rio na Maria Zélia?

 

R- Na hora de almoço, nós íamos brincar todos, brincar na água.

 

P/1- Na hora de almoço na fábrica?

 

R- A gente almoçava lá.

 

P/1- Na fábrica?

 

R- É.

 

P/1- E era boa a comida?

 

R- Não. A mãe trazia para nós. As mães iam levar o almoço para as filhas porque era longe. Até ir a casa e voltar não dava tempo, [levava] uma hora, então minha mãe trazia a comida e nós comíamos. Tinha um refeitório grande, a gente comia lá.

 

P/1- E dava tempo de ir ao rio?

R - Dava tempo, o rio era pegado à fábrica.

 

P/1- E o que vocês brincavam? Vocês faziam brincadeira?

 

R- Ficavam brincando, todos na água. Não tinha nada pra fazer.

 

P/1- E como era o rio?

 

R- Era largo o Rio Tietê. Agora foi para longe, era pertinho. Era atrás do Matarazzo e do Boys. A vida da gente era essa, trabalhar e dormir à noite. Comer e dormir, levantar e trabalhar. É, a vida foi assim...

 

P/2- Como a senhora conheceu o seu marido?

 

R- No baile da Maria Zélia, onde tinha a fábrica. A senhora conhece a fábrica?

 

P/1- A Maria Zélia? Eu conheço a vila.

 

R- É. Eu o conheci lá no baile e de lá casamos.

 

P/1- Mas ele morava na vila?

 

R- Não, ele morava perto da fábrica onde eu trabalhava no Boys. Na travessa da Intendência... Independência… Eu não sei se está certo esse nome… É pegado ao Matarazzo, aqui no Belém.

 

P/2- Conta como vocês se conheceram no baile? Vocês namoravam no baile, como era isso?

 

R- Engraçado. Eu tinha 22 anos quando comecei a dançar. Lá no baile ele veio conversar comigo. Eu falei: “Olha, eu não vim ao baile para arrumar namorado. Eu vim para dançar.” E no final, ficamos namorando e casamos.

 

P/1- E como foi o namoro?

 

R- Foi bem, dois anos. Namoramos bem, nunca brigamos e acabou, casamos...

 

P/1- E seu pai achou bom? Não deixava sair com o namorado?

 

R- Ah, não, não se saia sozinho. Tinha que levar as irmãs todas junto.

 

P/1- Todas?

 

R- As maiores, porque tinha pequena. As maiores, que já eram moças, já tinham uma ou outra com doze anos. Ah, tinha que sair, não podia sair sozinha, não. E não podia ficar namorando muito tempo. O meu pai falava: “[Às] nove horas ele vai embora e vamos dormir.” Bom, agora é diferente.

Eu [me] casei na Igreja São José. Os filhos [se] casaram lá. Batizei os filhos lá, tudo aí na igreja.

 

P/1- Qual igreja?

 

R- São José, aí do Belém.

 

P/1- A senhora se casou lá?

 

R- Casei. E os meus filhos, [se] casaram os três aí.

 

P/1- Como é que era o dia do casamento?

 

R- Ah, casamento mixuruco. Casamos e fomos pra casa.

 

P/1- Mas vestido de noiva, tudo?

 

R- É. De noiva eu fui, mas não teve festa, nada. Não se podia, então cada um foi pra casa.

 

P/1- E a senhora já foi pra casa do seu marido?

 

R- Onde o meu marido morava.

 

P/1- E onde era?

 

R- Na travessa da Intendência, aí no Belém. Pegado ao Matarazzo.

 

P/1- Ele morava sozinho ou com a família?

 

R- Não, morava com uma família [em] que ele foi criado. E eu morei lá bastante tempo. Depois, fomos mudando. Vinte anos aqui, dez lá, quinze... Tudo no Belém. Aí nasceram os filhos. Casaram todos...

 

P/2- Como é hoje a sua vida no bairro?

 

R- Como é minha vida? Em casa?

 

P/2- No bairro. O que a senhora faz atualmente?

 

R- Ah, eu não saio na rua. Eu não... Tem muito movimento.

 

P/1- A senhora não mora mais no Belém, não é?

 

R- Não. Eu moro com ela. Venho no Belém, fico com a outra filha. Depois vou para a casa dela, mas do Belém eu gosto.

 

P/1- E quando a senhora vem pra cá fazer visita para a sua outra filha, como que é a sua vida?

 

R- A minha vida é como na casa dela. Eu fico sossegada na casa da filha.

 

P/1- Mas a senhora tem amigas?

 

R- Agora tenho poucas conhecidas. Morreram todos já naquela rua; os velhos, os amigos já morreram todos. Agora estão as filhas dessas famílias que eu conhecia.

 

P/1- Ninguém está vivo?

 

R- Não. Tem um que está vivo, mas está morto na cama. Um senhor está muito mau. Ele está com 93 anos. Amigas não tem mais. As filhas, as moças não vão querer gostar de velha. Velha tem que arrumar amiga velha, não é? Não arruma moça.

 

P/1- A senhora disse, voltando um pouco, que o seu pai era marceneiro?

 

R- Era.

 

P/1- Como era a vida dele de trabalho?

R- Só trabalhar. Descansar o domingo e na segunda-feira trabalhar a semana inteira.

 

P/1- O que ele fazia?

 

R- Móveis.

 

P/1- Mas era uma fábrica ou era dele?

 

R- Oficina.

 

P/1- Que não era dele?

 

R- Não. Empregado.

 

P/1- E ele ficou sempre lá?

 

R- Ficou até morrer. Morreu com 66 anos.

 

P/1- E a sua mãe, o que fazia?

 

R- Minha mãe não fazia nada. Olhava os filhos, tantos filhos! Era cuidar, lavar roupa, fazer comida...

 

P/1- Então fazia muita coisa, né?

 

R- Fazia pão em casa. Naquele tempo a gente trabalhava, viu... Agora a vida é mais folgada. Agora tem máquina para lavar, tem enceradeira para dar lustro, tem liquidificador que bate, o ferro que passa, no meu tempo soprava o ferro.

P/1- Como era o ferro?

 

R- Acho que ele não conheceu o ferro de carvão...

 

P/2- Nunca vi este ferro.

 

R- Você nunca viu, então... A gente passava a roupa com ferro de carvão e tudo era mais trabalhoso. Hoje a mulher está bem mais folgada.

 

P/1- E não tinha geladeira, né?

 

R- Não tinha geladeira. Não tinha nada disso.

 

P/1- E o seu marido, o que fazia?

 

R- Enfermeiro. Muitos anos...

 

P/1- Ele trabalhava em que hospital?

 

R- Não. Não era hospital, era indústria. Na Juta Fontana, no Brás. Trabalhou a vida inteira lá. Fechou também.

 

P/1- Ele era enfermeiro lá?

 

R- É. Porque os empregados se machucam, se cortam, se matam nas fábricas, então ele fazia curativo todo lá. Dava ponto, ele com os médicos.

 

P/1- São acidentes de trabalho, né? Tinham muitos acidentes?

 

R- Fábrica grande tinha. Muito acidente, mas muitos eram curados ali. Faziam tudo ali, eles tinham um consultório grande. Também fechou. As fábricas fecharam todas. Não existe mais fábrica.

 

P/1- Por que fecharam?

 

R- Por que? Não sei por que. Ou é tanta vergonha de tanto roubar, não sei.

 

P/1- Nas tecelagens tinha muitos acidentes de trabalho, as mãos?

 

R- Não, na tecelagem não tem muito acidente. Tem um negócio que pra descer o pano, sobe e desce, e aí no meio passa uma estula, que faz o pano. Quando ela encontrava um nó ela pulava, batia na cabeça, onde fosse! Pulava longe, machucava os outros, mas o resto não tinha perigo. Na tecelagem era bom.

 

P/1- Onde a senhora trabalhava, fabricava o quê? Que tecido?

 

R- Algodãozinho. Hoje diz morim, não é? Antigamente. Não existe mais morim. (risos)

 

P/1- Era só isso que fabricava?

 

R- Só isso.

 

P/1- Não tinha lençol?

 

R- Tinha.

 

P/1- Saía pronto?

R- Não, saíam os fardos. Eram vendidos para as lojas.

 

P/1- Mas não era acabado?

 

R- Não.

 

P/1- Depois cada um é que ia costurar? A bainha?

 

R- Comprava, costurava. Já o Santista vendia tudo pronto. Ele tem os empregados. Dava para as mulheres costurar toalha de rosto, de banho... A Santista era a melhor toalha.

 

P/1- Por que eram as melhores?

 

R- Porque eram boas à beça. O artigo [era] bom.

 

P/1- Duravam bastante?

 

R- Duravam.

 

P/1- E já vinham acabados?

 

R- Bem acabados. Os desenhos muito bonitos. Agora é tudo diferente.

 

P/1- Mas tinha muito branco, não é? Também, só branco? Santista?

 

R- Olha, eu comprei toalha escura que ainda tenho em casa, do Santista. Bonita, bem axadrezada.

 

P/2- E até quando a senhora trabalhou?

 

R- Eu trabalhei... Agora, depois de velha?

 

P/2- Depois que parou de trabalhar, começou a trabalhar como dona de casa, cuidando dos filhos... Até quando foi?

 

R- Até que meu marido morreu. Acabou. Fui morar com uma filha, com outra, com uma. Acabou, aí só a gente faz serviço de casa. E eu faço, eu não fico sentada, para mim é um sacrifício.

 

P/2- E quando o marido da senhora faleceu?

 

R- Faz quarenta anos. Quarenta anos que eu não tenho casa. É...

 

P/1- A senhora já tinha casado os filhos quando ele morreu?

 

R- Todos. Já tinha netos. Ela já tinha os três, a outra o dela. Todos eles tinham. Todos conheceram o avô.

 

P/1- E a senhora não quis morar na mesma casa depois que ele morreu?

 

R- Não podia pagar o aluguel. Morreu, o aluguel... Veio a aposentadoria, não dá...

 

P/1- E a senhora tem a aposentadoria?

 

R- Tenho. Olha, dá pra viver de milionária, a minha é boa! 130 [reais], mas agora vai vir seis cruzeiros de aumento...

 

P/1- É, agora vem...

 

R- Que vergonha, não?!

 

P/1- É uma vergonha!

 

R- Ô vergonha... Os pobres estão todos morrendo de fome.

 

P/2- Dona Rosa, São Paulo teve várias guerras. Teve 24 e teve a Revolução de 32. O que a senhora lembra dessas guerras?

 

R- Na de 1924 eu trabalhava na Maria Zélia. A gente de noite se escondeu na fábrica... (pausa) Porque os canhões passavam à noite na Avenida Celso Garcia. Era a noite inteira, as balas de canhão.

 

P/2- Avião também?

 

R- A noite inteira. De manhã a gente, quando levantava, aquela casa estava caída, a outra estava derrubada. E caíam as bombas, mas durou pouco, viu?

 

P/2- E a de 32, a senhora ajudou?

 

R- Também. Era São Paulo com o Rio, não foi?

 

P/2- São Paulo com o resto do Brasil.

 

R- É... Mas não afetou muito São Paulo, não. Pior foi aquela de 24, aquela foi… Era na cidade.

 

P/1- E a senhora se escondia na fábrica?

 

R- Todos, todos [os] vizinhos. Eles deixaram a gente entrar porque tinha subterrâneo, sabe? E lá podia cair bomba, que não nos matava, então à noite... A gente ficava até de dia lá, porque era o dia inteiro que a gente escutava aquele tiroteio. E a gente ficava lá embaixo. Eles davam comida para a gente.

 

P/1- Quem?

 

R- A fábrica.

 

P/1- Mas vocês trabalhavam na fábrica?

 

R - Não. Nós trabalhávamos, mas com a revolução parou, então de dia nós íamos para casa e à noite nós íamos dormir no porão da fábrica.

 

P/1 - Só os funcionários?

 

R- Só os funcionários.

 

P/1 - Durou muitos dias?

 

R- Durou acho que... Não foram meses, não.

 

P/1- A senhora se lembra da gripe espanhola?

 

R- Eu estava trabalhando aí no Belém, pegado ao Matarazzo.

 

P/1- Como é que foi?

R- Ah, foi triste, viu. São Paulo morreu. Não tinha ninguém na rua.

Eu, de repente, falei para o meu mestre: “Seu Antônio, eu não estou boa, me dá licença para ir embora?” Ele falou: “Vai, vai que vem vindo a peste aí.” Eu nem pensava em peste.

Daí [a] dois dias fechou a fábrica, ninguém foi trabalhar. Tudo de cama! Olha, foi uma coisa que parece uma vassoura que varreu, sabe? Olha, não se via ninguém na rua, parou tudo. E depois começou a morrer... Morreu muita gente na gripe. Na minha casa não morreu ninguém. Começou a morrer, então... Não dava para fazer enterro. Passava o caminhão, jogava no caminhão para enterrar. Faziam vala e enterravam. Não sei se era aí no [cemitério da] Quarta Parada, eu sei que faziam vala para pôr defunto, porque era a última ________. E olha, a gente ainda precisava chamar o caminhão: “Por favor, tira que tem dois mortos aqui.” Aquilo não foi gripe, foi uma peste. Que gripe, nada.



P/2- E as pessoas nas ruas nem se conversavam, elas tinham medo de pegar gripe?

 

R- Não. Não se via ninguém por quinze dias. Daí a um mês a gente via aquela de preto - se usava luto, agora não usa mais. A gente encontrava fulana toda de preto: “É, morreu meu irmão, morreu meu pai.” Tinha casa que morreram três, quatro... Não foi brincadeira.

 

P/1- E a senhora viu alguém com gripe?

 

R- Na minha casa ficaram todos com gripe, só minha mãe ficou de pé. Todos os filhos de cama. Os médicos não vinham, receitavam uns comprimidos, umas cápsulas grandes de quinino. Era só aquilo. Quem se salvou, salvou. Quem não...

 

P/1- O aspecto era de gripe, dessas que a gente pega agora, que espirra?

 

R- É febre, que nem agora.

 

P/1- Espirra, sai água do nariz?

 

R- Espirra, dói o corpo, a febre não vai embora. Febre alta. Olha, quem não aguentou morreu, mas morreu muita gente. Quando a gente voltou a trabalhar na fábrica, morreu fulana, sicrana... Que tristeza!

 

P/1- Da fábrica morreu muita gente?

 

R- Muitos.

 

P/1- E eram jovens, né?

 

R - Tudo jovem! Morreu muita gente. Agora, quando diz é gripe, aquela... Dizem gripe espanhola, né? Mas não era gripe não, aquilo foi uma peste! Deus que me perdoe, que não venha mais!

 

P/1 - Mas morreu gente próxima da senhora?

 

R- Não. Da minha casa, graças a Deus, não morreu ninguém. Nem parente meu.

 

P/1- Nós já falamos de 24, de 32 e da gripe. E do Golpe Militar, a Revolução de 64? A senhora estava onde?

 

R- Em casa.

 

P/1- A senhora se lembra?

 

R- Não, mas aquilo não atingiu nada, não é?

 

P/1- A senhora não percebeu nada?

 

R- Não. Pior foi a época de 24, que a gente via as coisas passarem na rua e à noite aquele tiroteio. Nunca mais vi aquilo na minha vida.

 

P/1- Mas ali, o pessoal… Dos seus amigos não morreu ninguém?

 

R- Não, [de] conhecidos meus não morreu ninguém. Ficaram ruins, carecas. Caía os cabelos.

 

P/1- Como assim?

 

R- É, começou a cair. Pra mim caíram todos os cabelos.

 

P/1- Durante a Revolução de 1924?

 

R- É.

 

P/1- E para as outras pessoas?

 

R- Dessa gripe, dessa peste que teve.

 

P/1- Ah, da peste?

 

R- Da gripe espanhola. É, Deus me livre.

P/1- A senhora perdeu os cabelos? Mas as pessoas foram perdendo ou só a senhora?

 

R- Alguns ficaram com pouco cabelo. Era muita febre. Nós ficávamos muito na cama, [por] quase um mês. Naquele tempo, nós tínhamos cabelos compridos e o cabelo ficou tudo embara... Ficou uma paçoca. Ficou assim, tudo enrolado. Muitos tiveram que cortar, [para] outros foram caindo...

 

P/1- Que coisa!

 

R- É por isso que eu digo, foi uma peste. Aquilo não era uma gripe, não.

 

P/1- E os seus filhos? A senhora teve em casa?

 

R- Todos os três em casa.

 

P/1- Com parteira?

 

R- Parteira curiosa.

 

P/1- Curiosa? (risos)

 

R- Dois, eu tive… As duas meninas com a parteira curiosa. E o menino já era [com] parteira diplomada.

 

P/2- O que é parteira curiosa?

 

R- Nunca estudou [pra ser] parteira, mas ela pegava as crianças. É curiosa que se chama.

P/1- A senhora trabalhou tanto, o seu marido também... E agora a aposentadoria é uma coisinha?

 

R- É isso aí o que eu tenho.

 

P/1- E os seus filhos, o que fazem?

 

R- Eu só tenho um filho, já é aposentado também. Ele tem 68 anos.

 

P/1- Ele estudou?

 

R- Ele estudou, formou-se delegado titular. Aposentou-se com cinquenta e tantos anos.

 

P/1- E as suas filhas?

 

R- As filhas estudaram na escola. Fizeram até o quarto ano, depois foram trabalhar.     

 

P/1- Até o quarto ano?

 

R- É, todas as duas. Todos estudaram.

 

P/1- Por que os seus pais vieram da Itália?

 

R- Ah, não sei porque vieram. Meu pai veio porque disse que queriam conhecer o Brasil. O Brasil era uma grande coisa. Vinham iludidos, não é? Porque também no começo não passavam bem aqui, não.

Uma pessoa nova não conhece ninguém, é duro para viver. E a minha mãe também. Vieram e ficaram morando lá em Itapira, lá era interior.

 

P/1- Vieram pela imigração?

 

R - Eu acho que sim.

 

P/1- Plantar café ou não?

 

R - Não, eles não. Eles já vieram e começaram a trabalhar, viver, casaram... Porque veio os imigrantes, não é? Não, eles não. Assim foi a vida e estamos aqui.

 

P/1 - E a senhora... Quais são os seus planos daqui para frente?

 

R - Não tenho mais planos. Que Deus me dê saúde até morrer, só isso.

 

P/1- E a senhora vai continuar a sua vidinha?

R- Sabe o que eu faço? A minha filha fica quase todo o dia, ela vai ao hospital. Ficamos eu e ela. Eu faço o serviço, arrumo a casa, limpo, lavo roupa, faço a comida, mas simples, porque a difícil é ela que faz. Torta, todas essas novidades é ela. Depois eu faço crochê. A senhora tem que ver o crochê que eu faço!

 

P/1- Não diga!

 

R - É, o pessoal fica de boca aberta! Com a minha idade, fazer aquele crochê.

 

P/1- A senhora faz para vender ou não?

 

R -  Não. Às vezes, quando faz anos a pessoa eu dou...

P/1 - De presente.

 

R - Ah, se eu acho para vender eu vendo.

 

P/1- Claro.

 

R - Mas ninguém compra.

 

P/1- É um bom negócio, né?

 

R- É. A gente é pobre, rico não precisa. Não é pobre que está lá embaixo da ponte? É pobre, trabalha para viver, não é? A minha filha tem a aposentadoria do marido, que dá para nós vivermos. E é assim. E eu fico a tarde inteira sentada fazendo crochê.

 

P/1- Passando roupa...

 

R- Passo, lavo, tudo. Eu tenho muita idade, mas não paro. Eu gosto de ficar lidando. Ficar sentada não é comigo, preciso trabalhar. Para trabalhar e para viver. Se a senhora trabalha a senhora vive.

 

P/1- É verdade.

 

R- Essas velhas que nem eu ficam assim encolhidas, não andam mais! Tem que trabalhar, andar.

 

P/1- A senhora caminha pela rua?

 

R- Não, agora não. Eu não gosto. Eu não. Fico em casa, eu ando dentro de casa. É grande, lá.

 

P/1- A gente já está caminhando para o fim da entrevista. A senhora tem alguma coisa mais que gostaria de contar?

 

R - Não tenho nada, minha filha.      

 

P/1- Alguma coisa que a gente não perguntou?

 

R - Altair, tem alguma coisa? Então, tenho mais novidade?

 

P/3 - Fala que a senhora tem a ilusão de ver os netos formados, os bisnetos…

 

R - Ah, bom, isso eu tenho. Ilusão de ver os meus netos bem casados.

 

P/3 - E a festa dela de cem anos que ela está esperando.

 

P/2 - Ah, conta da festa de cem anos?

 

R - Ih... Estou cheia desta festa.

 

P/2 - Por que?

 

R- Porque todo mundo quer ir. Eu não tenho dinheiro para festa, não tenho. Quem ganha 130 cruzeiros não dá para fazer. E ainda vai dar seis cruzeiros de choro. Não dá para fazer festa.

 

P/1- Mas a senhora tem que ganhar a festa de presente.

R- Então, mas a festa vai ser assim. Eu nunca quis presente. O ano passado, quando eu fiz 99 anos... Eu tenho uma sobrinhada. Dez filhos. A senhora calcula quantos sobrinhos e filhos de sobrinhos. Eram mais de sessenta pessoas que nós não convidamos, mas... E agora o pessoal telefona lá: “Ah, eu vou, eu vou... A senhora vai fazer cem anos, eu vou.” Então vem duzentas pessoas... (risos)

 

P/2 - Cada um traz um prato.

 

R - Eu falei: “E onde a gente vai fazer? Muita gente, não tem como lidar.” O ano passado ainda foi assim: trouxeram prato, ela fez em casa. Ela faz todos os salgados e sanduíche para todos. Cada um traz um prato, e eu disse: “Não traz presente que eu não quero.” Traz prato, um traz soda, outro traz Coca-cola e faz a festa, não é?

 

P/1- A senhora vai fazer cem anos junto com o seu bairro? O Belém faz cem anos também.

 

R - Eu sei que ele faz.

 

P/1- Então vai fazer a festa junto.

 

R - Vai?

 

P/1- Não é?

 

R - É.

 

P/1- Não é uma ideia?

 

R - É uma ideia boa.

 

P/1- Quem viu o bairro desde o começo? A senhora, não é mesmo?

 

R- Porque eu digo, aí no Belém os meninos hoje são homens. Ainda domingo vieram lá em casa, já é avô! “Ah, vó, eu vim lhe ver. Eu vou na sua festa, hein?” Estão todos iludidos com a festa. Eu falei: “Mas não vai ter festa. Vamos comer uma pizza.” “Ah, mas nós vamos...”

 

P/1- É isso mesmo.

 

R - Ah, meu Deus.

 

P/1- A senhora quer acrescentar mais alguma coisa à entrevista, Dona Rosa?

 

R - O que eu posso ver? Só quero ver os meus netos se formarem. Um está no terceiro ano de Medicina. Eu quero chegar a ver, depois posso morrer. Tem outra também, que é... Direito, a outra está... o que é? É outra coisa, fala aí... Arquitetura. Cada um é uma coisa.

 

P/1- A gente queria agradecer muito a senhora ter vindo para dar a entrevista. Foi muito boa, muito legal. Muito obrigada.

 

R - Gostou?

 

P/1- Gostamos.

 

P/2- Gostamos.

 

P/1- Muito obrigada, Dona Rosa.

 

R - Olha, às ordens... A minha vida foi essa.

 

P/1- A senhora se cansou muito?


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