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Cem

História de: Wilson Ferreira Garcia (CEM)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/04/2014

Sinopse

Cem, como é conhecido pelos amigos e chamado pelos mais próximos, praticamente se criou dentro da favela do Naval, no ABC Paulista. Ali passou por várias tragédias, inclusive a sua própria, que foi atropelado ainda criança e perdeu parte da sua capacidade de locomoção. Hoje, já devidamente instalado num apartamento do Programa Minha Casa, Minha Vida, Wilson relembras das histórias tristes e das coisas engraçadas que viveu com a família numa das comunidades mais pobres do ABC Paulista.

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História completa

Wilson Ferreira Garcia, eu nasci em São Bernardo no dia 28 de agosto de 1967.

 Eu, quando era criança, meus pais tinham uma plantação de milho e nessa época não existia a Naval. Meus pais pagavam aluguel, aí o que aconteceu, o dono da casa pediu a casa. Meus pais não tinham pra onde ir, aí foi e plantou, fez um barraco lá no meio do brejo, era um brejo. A gente foi aterrando esse brejo rolando tambor, eu e meus irmãos. Nós fomos amassando os matos pra poder passar. Era aquela água preta, fedorenta. Meu pai era caixeiro viajante na época, então ele só ficava viajando, e minha mãe que passava as dificuldades. Nessa época foi que começou a Naval, na prática.

 

Eu fui atropelado porque eu tive vontade de comer doce. Aí eu fui até a Avenida Fagundes de Oliveira e lá, com seis anos de idade, eu fui atropelado. O ônibus passou rasgando a minha perna, só que a minha perna não quebrou, só rasgou. Quando minha mãe chegou no ônibus lá, o pessoal, o motorista tava contando dinheiro. E a empresa ficava do lado onde eu fui atropelado, praticamente do lado! Eu fui socorrido por um fusca de uma pessoa que tava passando. O que aconteceu? Fiquei sete dias num hospital público, no Samcil. Minha perna apodreceu dentro do gesso. Aí eu fui levado para o Hospital das Clínicas. Quando chegou no Hospital das Clínicas, tiraram o gesso, minha perna caiu no chão. Eu fui direto pra sala de cirurgia, lá eu fiz três cirurgias: primeiro arrancaram uma parte da minha perna, na altura da canela; a segunda, na altura do joelho; a terceira, arrancaram tudo o resto, foi feito até enxerto, tiraram parte da minha coxa pra poder fechar o local, que ficou necrosado. Aí o que aconteceu? Fiquei por volta de seis meses no Hospital das Clínicas. Quando eu voltei, já tava um monte de barraco já.

Eu posso contar alguns casos, tipo quando pegou fogo. Eu tava trabalhando, aí eu comecei a ficar nervoso lá no serviço e todo mundo gritando, todo mundo desesperado, todo mundo correndo. Eu peguei e falei: “Eu sei que a população precisa dos ônibus, mas tem outra população ali que precisa de socorro”. Então eu peguei e desci com cinco ônibus. Tirei cinco ônibus de linha e fui até onde tava o incêndio. Aquelas pessoas que puderam ser socorridas, puderam ser ajudadas, foram ajudadas. E nesse incêndio em si queimou tudo, não ficou uma madeira de um metro em pé. E outro fato engraçado foi uma prima minha que entrou dentro do fogo e pegou duas cadeiras, veio com duas cadeiras na mão. Cada um tem os seus lances doidos lá, cada um fez uma loucura. Eu, por exemplo, vi o meu vizinho lá com a mangueira jogando água, tentando apagar o incêndio, pelo menos o fogo da casa dele com a mangueira de jardim. Então, quer dizer, nesse ponto foi muito dolorido, mas no final foi muito engraçado. Depois que a gente começa a contar as histórias, se tornam engraçadas.

 Fomos pra um poliesportivo. Nesse poliesportivo, nós ficamos lá durante cerca de sete meses. Aí começamos a reconstruir os barracos. Só que, assim, isso com o aval da prefeitura, que a prefeitura foi dando o material e cada um foi construindo. Eram barracos, mas chamavam-se embriões. Aí o pessoal, o que aconteceu? Ficar ali, a prefeitura não tinha conhecimento que aquele pessoal existia, que nós estávamos ali, 240 famílias.

E tem um caso engraçado, um caso muito interessante na Naval, que foi assim: um senhor faleceu lá, morreu afogado. Tinha uma lagoa na Naval 2. Onde hoje são os predinhos, tinha uma lagoa. Aí tinha um senhor lá que a gente chamava de seu Zé Benzedor. Ele chegou lá, os bombeiros tentando, jogando gancho pra lá, pra cá, e nada de achar o corpo da pessoa, mergulhador. Aí chamaram esse Zé Benzedor, ele foi lá, trouxe uma vela, trouxe um prato, pegou, fez uma oração lá na beira do “coiso”. Aí colocou esse prato, colocou a vela encima, acendeu. Aí esse prato começou a girar, começou a procurar, até parar num lugar lá. Ele falou: “Tá ali o corpo. Pode pegar lá”. O mergulhador foi lá, tava lá (risos).

 E é isso, sabe, muitas coisas aconteceram. Assim, muitas tragédias, muitas tragédias. Mas o foco da Naval foi isso. Nós viemos pra cá, graças a Deus o prefeito nesse ponto foi muito bacana com a gente, deu toda assistência pra gente. 

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