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História

Celso Ferrari Masson

História de: Celso Ferrari Masson
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Celso conta que já no seu nascimento foi um tanto apressado: sua mãe engasgara, o que provocou não somente um acesso de tosse, mas um parto prematuro. Nasceu na cidade litorânea de Santos de onde tem lembranças carinhosas assim como as primeiras da cidade na qual fez a vida, São Paulo. Foi na capital que resolveu primeiro estudar Física, na USP. Foi fácil entrar, mas sair era impossível. Depois de muitas dependências, e vendo que não era a sua, largou e foi estudar Cinema. Teve banda quando adolescente, mas da música não ganhou disco de ouro, mas uma carreira de editor: trabalhou na SET, nas BIS, que se tornaram famosas revistas para amantes da música, e engajou na carreira. Trabalhou em diversas revistas, como Veja e Ana Maria e na época da entrevista, era editor da Época São Paulo. A cidade é uma de suas paixões. O vinho, é outra.

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História completa

P/1 – Bom Celso, a gente começa perguntando o nome completo, o local e a data de nascimento.
R – Celso Ferrari Masson, nasci em Santos no dia 26 de janeiro de 1967, que é o dia do aniversário de Santos também, quer dizer, não 67, mas 26 de janeiro é aniversário de Santos, eu nasci em um feriado, nasci de oito meses, uma situação até curiosa porque a minha mãe engasgou, teve uma crise, começou a tossir, tossir e entrou em trabalho de parto, não era a data esperada, foi um mês antes, e era feriado, então era uma coisa difícil, não que Santos seja uma cidade pequena, mas tem menos médicos de plantão e tal, eu sei que, tipo, eu praticamente escorreguei, porque a minha mãe nem tomou anestesia, deram éter pra ela cheirar e foi o bastante pra ela dar uma apagada e eu nascer, eu tava meio apressadinho assim.
P/1 – Mas foi alguma complicação desse engasgo?
R – Não, ela começou a tossir porque ela engasgou, começou a tossir, tossir, começou a ter contrações e aí o meu pai levou ela pra Santa Casa, lá em Santos, que foi onde eu nasci . Eu sou o quinto filho, o caçula, tive quatro irmãos mais velhos, alternadamente homens e mulheres, o meu irmão mais velho se chama Paulo, é arquiteto, depois vem a Maria Estela que é jornalista, mora em Uberlândia hoje, o Maurício que também era arquiteto, morreu em 2005, e Beatriz que estudou ciências sociais, mas sempre trabalhou na área de marketing, eventos, publicações de livros e outras coisas desse tipo, e eu que não estudei jornalismo, mas trabalho com jornalismo há 24, 25 anos, estude física, foi a minha primeira graduação, mas não me formei, na USP, larguei depois de um ano e meio, com quatro DP’s, a física é assim, é fácil entrar mas é difícil sair, na minha época tinham, acho que 160 vagas, entre de manhã e a noite, se formavam entre 30 e 40 por ano, quer dizer, um índice de desistência bem grande , eu fui um desse que não se formou. Fui estudar cinema na FAAP, mas já no tempo da... Me formei em 91, era a época do governo Collor, tinha acabado o cinema no Brasil, não tinha mais a Embrafilme, a produção foi muito pequena, acho que foi o pior ano em termos de lançamentos de longas e tal, não tinha mercado de trabalho, eu já tava estagiando na revista Bis e na revista Sete, fazia atendimento ao leitor...
P/1 – Eu vou só segurar um pouquinho, a gente vai voltar bastante só pra organizar, mas eu vou guardar isso, ta, vamos voltar bastante, eu quero saber  o nome dos seus pais, se você sabe da história deles, o que eles estavam fazendo em Santos?
R – Meus pais nasceram no interior, numa cidade chamada Bariri, fica na região de Jaú, Bauru, por ali, bem no centro do estado de São Paulo, meu pai nasceu em 32, o nome dele era Ibraim Paulo Masson, apesar do Ibraim, que muita gente associa com nome árabe mas não é, a minha família é totalmente italiana, de todos os lados, todos os meus bisavós nasceram na Itália, vieram pro Brasil e meuás avós são todos filhos de italianos, nascidos no Brasil, e meus pais, netos de italianos. O meu avô paterno se chamava José Masson, ele foi prefeito da cidade de Bariri, e ele tinha um amigo chamado Ibraim Nobre, que foi um combatente da revolução de 32, morreu em 32, que foi o ano que meu pai nasceu, então o nome do meu pai foi dado em homenagem a esse amigo do meu avô. A minha mãe também já morreu, o nome dela de solteira era Maria Tereza Beluzo Ferrari, depois que ela se casou passou a se chamar Maria Tereza Ferrari Masson, ela fez o normal, foi até professora primária, chegou a ser professora até do meu irmão mais velho, o pai dela era dentista, Hugo Ferrari, era chamado de Ferrari, ela tinha uma gêmea que é viva até hoje, se chama Maria Amélia, e uma irmã mais velha que também ta viva, que é solteira, nunca se casou, se chama Vânia. Os dois se conheceram lá no tempo da escola, eles tinham uma diferença de idade de cinco anos, meu pai é de 32 e a minha mãe de 37, meu pai chegou a ser professor na minha mãe na escola, assim, no normal, ele dava aula de história... Bom, eles se casaram, depois que se casaram o meu pai foi estudar direito, ele fez na São Carlos, mas ele seguiu carreira no funcionalismo público estadual, ele prestou um concurso pra ser gente fiscal de rendas do estado, a primeira nomeação dele foi em Avaré, que é uma cidade um pouco maior, e quando ele foi pra lá nasceu a minha segunda irmã, então o meu primeiro irmão nasceu ainda em Bariri, meus pais se conheceram, se casaram em Bariri e tiveram um filho, mas que só morou lá o primeiro ano de vida, daí eles foram pra Avaré onde nasceu a minha irmã mais velha, conforme a família foi crescendo o meu pai foi se mudando de cidade, provavelmente porque ofereciam postos pra ele com mais desafios e ele achava que teria mais oportunidades, até de educação pros filhos e tal, então depois de Avaré os meus pais se mudaram pra Jaú, onde nasceram os meus dois irmãos seguintes, o Maurício e a Beatriz, e quando eu nasci eles já moravam em Santos, eu nasci em Santos e morei lá até os cinco anos de idade, tinha recém completado cinco anos quando os meus pais se mudaram pra São Paulo.
P/1 – Mas você tem lembranças de Santos? 
R – Tenho bastante, a minha casa em Santos era muito popular, viva cheia de gente, era uma casa mesmo, quando eu nasci meus pais ainda moravam em apartamento, mas eu não me lembro do apartamento porque eu tinha um ano quando nós fomos pra uma casa, eu lembro do apartamento porque quem comprou o apartamento do meu pai se tornou amigo e aí a gente voltou algumas vezes lá pra visitar, mas eu não me lembro da minha presença lá dentro, lembro só de voltar pra visitar. Da casa de Santos eu me lembro muito bem, era uma casa bonita, e era uma casa freqüentada por muita gente, assim, tinha até um hino da casa, ficava numa rua chamada Rua Armando Sales de Oliveira, e aí tinha uma musica que as pessoas cantavam: “Moro na rua Armando Sales, 1882” , a gente era popular, acho que por causa da minha irmã mais velha, ela sempre foi muito comunicativa e tal, e meu pai sempre gostou muito de receber gente, a minha casa sempre viveu cheia de amigos e tal, e eu tenho lembranças positivas nesse sentido de ser uma casa popular, assim, bem freqüentada, não festas exatamente, festa também, quando era aniversário e tal sempre tinha festa, mas sempre tinha gente sentada na mureta, jogando bola, tinha um quintal, tinha uma entrada de carros assim que tinha uma cesta de basquete, então a gente ficava jogando e tal, e era uma casa que não era geminada, tinha bastante terreno em vota, dava pra ficar dando volta de bicicleta em volta da casa inteira, que era uma coisa que eu gostava de fazer, e depois de uns quatro anos que eu morava lá eu já tinha aprendido a andar de bicicleta sem rodinha, aí eu ficava andando de bicicleta direto, até já comecei a sair um pouco, andar pela rua, eu era muito pequenininho, mas eu me lembro de pedalar por ali, sempre gostei muito de andar de bicicleta. Também das estripulias que eu fazia lá , me lembro que uma vez o meu pai tinha acabado de mandar pintar a casa, e meu pai tinha um opala branco com umas faixinhas preta, uma coisa meio esportiva, era um modelo GT, sei lá o que era, era essa coisa meio esporte, capota preta de vinil, e eu achava aquela coisa linda, e aí a casa foi pintada de branco, eu falei: “Ficou faltando as faixinhas.” , peguei dois gizes de cera e passei em volta da casa inteira , é obvio que eu tomei a maior bronca da minha vida porque tinha acabado de pintar a casa e eu fui lá decorar, eu era muito arteiro, eu aprontava muito, assim, talvez por ser o caçula, ter quatro irmãos mais velhos, ter uma coisa física muito presente, assim, tinha muita disputa e tal, eu tentava me defender como eu podia, então eu tinha muito a mania de atirar as coisas nas pessoas, e as vezes do nada, mas eu acho que tinha uma relação, assim, tipo, a minha irmã, a Bia, tinha sido operada, que é a mais próxima de mim, ela é a penúltima e eu sou o caçula...
P/1 – Entre o mais velho e o mais novo eram quantos anos?
R – Nove, da Bia pra mim tem dois anos e meio, é a mais próxima, ela tinha tirado as amídalas e depois pra cicatrização você tem que tomar sorvete, e aí eu ficava morrendo de ciúme porque meus pais davam sorvete pra ela e não podia nem chegar perto daquele sorvete porque era tipo um tratamento médico, e eu não me conformava com aquilo, eu acho que depois disso, por ter ficado com essa raiva de não ter aquele privilégio, uma vez eu me lembro que eu atirei uma tesoura nela, não me lembro bem como começou a briga, mas eu acho que eu tava sentado na maquina de costura da minha mãe, a tesoura tava ali perto e eu atirei, sei lá porque também, não dá pra entender muito bem, eu sei que pegou muito perto do olho, e aí ela ficou: “Ai, ai ai”, como se tivesse acertado o olho, meus pais chegaram, viram aquilo lá, e ali realmente foi uma coisa meio complicada. Eu era muito travesso, eu fazia muita estripulia, ainda bem que foi só na primeira infância, depois eu fui me acomodando, mas era difícil, eu não aceitava estudar, eu não fui pra escola em Santos, eu só fui pra escola em São Paulo, era tanto berreiro na aula que a professora de leitura falou: “Ó, acho melhor você ficar em casa”, era uma escola chamada Pinduca, ficava perto da minha casa, e eu achava que se eu gritasse muito os meus pais ouviriam de dentro da minha casa e iriam lá me pegar, e acho que um dia isso aconteceu, um dia a minha mãe colocou o meu irmão Maurício pra acompanhar, nesse dia eu não chorei, não fiz nada, mas me senti a pessoa mais covarde do mundo que só conseguia ir pra escola com o irmão tomando conta e tal, eu sei que acabou não dando certo e ate chegar em São Paulo eu não freqüentei a escola. Aí aqui em São Paulo  tudo bem, quando a gente mudou, o meu pai, eu acho que estrategicamente, por ter cinco filhos em díade escolar, pequenos e tal, comprou um casa que não precisava nem atravessar a rua pra ir pra escola, a escola ficava nos fundos da nossa casa, a gente contornava o quarteirão e a escola tava ali, a escola era muito ruim, isso era no Planalto Paulista, perto do Clube Sírio ali, apesar do meu pai não ser de origem círia, libanesa e tal, o fato dele chamar Ibraim também abriu portas pra ele, quando ele chegou no bairro todo mundo pensava que brimo então foi bom, ele morou muitos anos lá, e eu também depois que eu saí da casa dos meus pais, eu morei mais duas vezes na mesma rua, se chamava Avenida Piassanguaba, eu morei no 1201, no 1144 e no 877. E essa escola, que se chamava Tenor Ricardo Nunes, era uma escola fundada por uma família ali, era bem fraca, tinha muitos problemas, mas era a escola do bairro e tal, e nós íamos os cinco ali, então facilitava, e aí eu fui bem comportado, fui sempre dos primeiros assim, sempre bom aluno.
P/1 – Você lembra dessa vinda a São Paulo, os seus pais anunciando que viriam pra São Paulo?
R – Sim, lembro da gente vindo escolher casa, esse bairro que a gente acabou se mudando não foi o primeiro que meu pai cogitou, tinham outros dois bairros que a gente poderia ter morado, que eram Tilapa e Parque Continental, já em Osasco, quando o meu pai veio pra São Paulo ele ia trabalhar em Pinheiros, então a Paulista nem era tão próxima assim de Pinheiros, pra ele era meio ruim, esses outros bairros eram melhores, no Parque Continental estavam construindo um shopping lá, era um bairro bem residencial, ainda é tipo Z1, não pode construir prédio e tal, e acho que tinha um pouco desse espírito mais parecido com Santos, da gente poder ficar  na rua, o Planalto também tinha um pouco isso, era Z1 também, não tinha prédios, era um bairro totalmente residencial, mas tinha algumas dificuldades assim, não tinha nada muito perto, padaria, essas coisas, tinha uma vendinha do Seu Zé que era virando a esquina, mas era pra comprar drops, chocolate, refrigerante e tal, padaria mesmo, a mais próxima era há uns quinhentos metros de casa, então não tinha essa de acordar e ir na padaria, as vezes o meu pai voltado do trabalho, de carro, passava na padaria e comprava o pãozinho do dia seguinte, mas assim, a logística foi totalmente pensada, acho que, em torno do fato de ter a escola ali perto e o Clube Sírio do lado, embora a gente não tenha sido sócios do Sírio, o meu irmão mais velho foi jogar basquete lá como convidado, e a gente sempre ia no Clube como convidados porque quase todos os vizinhos era sócios, mas a gente não, meu pai nunca comprou títulos, assim, do Clube, aliás eu acho que meu pai nunca teve título de nenhum clube, a gente freqüentava sempre o de um amigo, ele tinha um irmão que era funcionário do Banco do Brasil e por isso era sócio da AABB, que é Associação Atlética do Banco do Brasil, e durante a minha infância eu me lembro de ir praticamente todos os domingos pra lá, sempre no verão a gente fazia piquenique, ia pra piscina, não sei o que, fica na estrada de Itapecerica da Serra, por ali.
P/1 – Uma coisa curiosa, Celso, é que nessas mudanças todas, como ficou o relacionamento com os seus avós? Eles já tinham falecido, você tinham contato?
R – Um de cada lado, na verdade o meu avô paterno morreu em 68, eu mal o conheci, só conheço por foto não tenho nenhuma lembrança dele, e aminha avó paterna, que se chamava Maria Eugênia, tinha o apelido de Mariquinha, por outro lado, viveu até 90 anos. E do lado oposto foi o contrário, o meu avô Hugo Ferrari, que era dentista, viveu bastante, não me lembro com quantos anos ele morreu, mas passou dos 80, e a minha avó, mãe da minha mãe, Olga Beluzo, morreu super jovem, assim como a minha mãe, minha mãe morreu com 55 anos, minha avó morreu em 70, a única imagem que eu me lembro dela é justamente ela no caixão, eu tinha três anos, e me lembro dela no caixão, não me lembro dela conversando e tal, então a gente ficou assim, tinha o avô materno que já era viúvo, morava sozinho em Bariri, e um quarteirão dali, na mesma cidade, tinha a minha avó que também morava sozinha, os dois moravam em casa muito grandes e quando a gente ia pra lá a gente sempre os visitava, muitas vezes, nos feriados, nas férias sempre passava uma semana, e a gente alternava, as vezes ficava na casa de um, as vezes na do outro, eu normalmente preferia ficar na casa do  meu avô, eu me sentia mais a vontade, a minha avó era um pouco mais mandona, assim, não deixava a gente pegar coca-cola na geladeira, essas coisas , e meu avô era super fácil de lidar, um cara muito legal, muito sereno, fumava um cigarrinho de palha, e a casa dele era uma delícia porque ele tinha sido dentista, ele já era aposentado nessa época, mas ele tinha um consultório na casa, você entrava, tinha o consultório e a residência ficava no fundo, e aí eu ficava encantado vendo aquelas coisas, aqueles instrumentos antigos de dentista, tinha um aparelhinho, mas não era elétrico, era no pedal ainda, tinha aquela cadeira de dentista antiga, tipo, cadeira de barbeiro antiga, imagina a cadeira de dentista antiga, e cheio de vitrininhas com um monte de coisinhas, espátulas, pinças e não sei o que, tinha um móvel que se chama xerife, aqueles que a parte da tampa corre assim, uma coisa meio sanfonada, onde ele guardava a parte de papelaria, de fichas de clientes, e eu achava aquilo um barato, era uma casa super legal, no fundo ele tinha muitas gaiolas com passarinhos, até alguns galos, ele gostava e tal, naquela época não tinha muito essa pressão ambientalista de ter pássaros em gaiolas, ele devia ter uns 50, a diversão dele era essa, ele ficava levando alpiste pros passarinhos e tal, e ao contrário dessa minha avó que falava pra não pegar coca-cola na geladeira,  sei lá, esse meu avô, quando a gente ia ficar na casa dele, ele tinha um cômodozinho no fundo que ele botava um monte de garrafas de guaraná da marca da cidade, chamava Guaraná Broco, não é de bloco, é de uma família de sobrenome Broco, e tinha o guaraná XV de novembro que era de Jaú também, eram embalagens total,mente diferentes do guaraná Antártica ou do guaraná Brahma, e a minha infância tem esse sabor, do guaraná Broco, do guaraná XV, que era numa garrafa igualzinha a de cerveja, com um rotulo muito artesanal assim, e eu adorava, eu chegava na casa do meu avô, a primeiro coisa que eu fazia era abrir uma garrafa de guaraná, e era um guaraná completamente diferente desse que a gente ta acostumado a beber; eu lembro muito disso.
P/1 – Então vocês faziam o trajeto Santos–Bariri ou São Paulo–Bariri?
R – Santos–Bariri, nessa época a gente morava em Santos, e depois, claro, depois de cinco anos, quando a gente mudou pra São Paulo, também, mas no começo, na minha primeira infância a gente saía de Santos, cabia todo mundo no carro, éramos todos pequenos, e depois também meu pai sempre acabou tendo carros grandes, Landau, Galaxie, pra levar toda a família na mesma barca e os irmãos do meu pai sempre tiveram esses carrões, as famílias eram muito grandes, meu pai era muito de pegar estrada, independente dessa coisa de ele ter se mudado várias vezes na vida, ele adorava viajar, e as vezes sem muito planejamento inclusive: “Vamos pro Paraguai”, pá, botava todo mundo no carro, ia, e no caminho se virara, comprava um guia Quatro Rodas, um Guia Brasil e ia, sem reservar hotel, sem nada, chegava lá e se virava, as vezes a gente ficava num hotel super lega, as vezes não tinham tava tudo cheio, tinha que levar todo mundo pra um motel , várias vezes isso aconteceu, era muito engraçado, ele tinha o espírito muito aventureiro, quando a gente morava em Santos, por exemplo, a gente ia muito pouco à praia em Santos, a gente ia sempre pro Guarujá e pra praias do litoral norte, que eram praticamente desertas naquela época, Iporanga, por exemplo, hoje é um condomínio fechado, super restrita a entrada e tal, na época não era, eu me lembro de ter uma cachoeira natural maravilhosa, formava uma piscina, a praia em si não é tão bonita, mas essa parte... E eu era muito pequeno, mas eu me lembro muito perfeitamente, me lembro de como o meu pai adorava ir pra esses lugares, levar a gente pra passear, pegar a estrada, muito, até o fim da vida, só pra você entender um pouco isso, meu pai teve um AVC, teve dois, logo depois do segundo ele morreu, mas quando ele teve o primeiro, um ano depois ele já tinha feito um monte de fisioterapia, já tinha se recuperado, ele fez duas viagens pro exterior depois de ter tido esse AVC, ele tinha ficado meio imobilizado, com dificuldade de movimentação de um lado do corpo e tal, uma das viagens foi mais simples que foi Portugal, Espanha e França, se eu não me engano, mas a ultima viagem foi pra Austrália e Nova Zelândia, quer dizer, lugares super longe, muitas horas de vôo, e ele não tava nem aí, sabe, ele ia, já obeso e tal, e tudo bem, e não era primeira classe, era classe econômica em um vôo daqui pra Sidney, ele ia, quer dizer, ele sempre gostou muito de viajar. Ele era muito ansioso, muito ansioso, e tem uma coisa que a minha ex-mulher me falou que eu acho que resume super bem assim, que o melhor jeito de conversar com o meu pai era justamente sentado no carro viajando, porque estava em movimento, mas ao mesmo tempo tava parado, então assim, ele tava ali sentado no carro, com o cinto de segurança, mas o cenário tava mudando, então ele não ficava ansioso, porque se você sentasse pra conversar com ele na mesa, num restaurante ou em casa, ele ficava muito ansioso, ele levantava, sabe, e no carro não tinha o que fazer, então a gente pegava quatro horas de viagem, ia conversando, era ótimo, ele era uma pessoa ótima, claro que quando a gente era pequeno, imagina, no Landau, cinco crianças brincando, discutindo não sei o que, ele ficava super irritado, as vezes parava o carro: “Desce todo mundo, não sei o que e tal”, mas ele gostava disso, era um jeito de reunir a família, porque ele trabalhava muito, sempre horários muito puxados, chegava em casa a noite, convivia pouco com a gente, então tinha isso. Depois que os meus irmãos foram crescendo, o mais velho tirou carta, ganhou carro, não sei que, aí essas viagens foram diminuindo, mas eu ainda mantive, por ser o caçula, eu mantive por muito tempo ainda, viajando com os meus pais.
P/1 – E a sua mãe, como ela era? Você falou um pouco do seu pai, do espírito...
R – Minha mãe, ela havia sido professora primária mas só até meus irmãos nascerem, quando nasceram ela já não dava mais aula, ela tava só cuidando da casa, ela era muito religiosa, tinha sido filha de Maria, orava muito, participava muito da igreja, lá em São Paulo quando a gente se mudou pro Planalto Paulista tinha uma igreja próxima, a Nossa Senhora de Lourdes, a minha mãe era meio uma liderança ali e tal, cuidava de bazar, fazia coisas pra famílias pobres, ela sempre teve um lado muito assim muito... Sei lá, uma visão cristã da vida de solidariedade, caridade, vivia na igreja, ia à missa sempre, fora isso tinha outra atividade que era trabalhar com formação, cursos pra casais que iam se casar, encontros de jovens com cristo, essas coisa e tal, mas ela não exigia nada disso da gente, não fazia esse tipo de pregação de em casa, claro que quando eu era pequeno ela levava a gente na missa, que até curiosamente, ela tinha essa atividade da Igreja Nossa Senhora de Lourdes, mas ela levava a gente pra assistir a missa num outro lugar do lado do Parque Ibirapuera que é o Largo Escola São Francisco, tinha um padre muito legal lá, eu me lembro que ele se chamava Napoleão...
P/1 – Eu conheci o padre Napoleão .
R – Você conheceu? E a gente ia nessa missa porque realmente a missa do cara era muito legal, a gente ia lá aos domingos, não sei o que, e tinha esse negócio, o Largo Escola São Francisco era um trabalho totalmente de caridade de pessoas com deficiências físicas e tal, e eu acho que era um jeito da minha mãe mostrar esse mundo pra gente, de fazer o bem pros outros então ela era muito ligada a isso, sempre estava participando de grupos assim, mas sem fazer favoritismo à religião em casa, sem forçar a gente a nada. Ela era muito profunda, ela sempre refletia muito antes de falar qualquer coisa, ela era reflexiva, assim, você falava qualquer coisa pra ela, ela não vinha com uma resposta pronta, ao contrário dessa ansiedade do meu pai, ela era totalmente o contrário, o meu pai era muito explosivo, muito dinâmico, muito falante, muito extrovertido, e a minha mãe muito temperada, claro, muito cordial, né não anti-social, mas assim, muito mais respectiva, e muito ponderada, ela nunca saía falando uma coisa intempestivamente, ela sempre refletia primeiro; e ela era super dedicada aos filhos, integralmente assim, uma das coisas que eu me lembro da minha infância é que além de ter dado muito trabalho em todo esse lado psicológico, por eu ser um pouco agressivo, fisicamente, eu tive bronquite alérgica, com seis anos mais ou menos, e tive que fazer um tratamento que era super complicado, a minha mãe tinha que me levar, ela não tinha carro, tinha que me levar de ônibus até o Hospital do Servidor, não era tão longe de casa, mas era uma mão-de-obra, ela tinha que fazer comida, tinha que cuidar dos filhos, tinha que tomar lição, e com cinco crianças, eu dando esse trabalho... Depois, com o passar do tempo, foi umas das coisas que me deixou até com um certo arrependimento porque eu acho que eu tomei muito tempo da minha mãe, assim, pra chamar mais atenção, sabe, tem uma coisa indiana, sei lá, que diz que essas alergias são todas causadas pra isso pra chamar atenção, quando você quer ser melhor cuidado, eu acho que tem um lado psicológico nisso, e eu queria muito, eu era muito possessivo com relação a minha mãe, queria muito a presença dela, e depois, eu acho que por causa disso tudo eu acabei causando um desgaste, porque todos os meus outros irmãos eram saudáveis, eles tinham que ir ao dentista de vez em quando como todo mundo vai, pegavam uma gripe de vez em quando como todo mundo pega, já eu, tinha que ficar indo no médico fazer inalação, tomar injeção, fazer tratamento e tal, dei trabalho . Aliás, sobre isso tem uma coisa curiosa, eu sou aquariano, e no horóscopo chinês eu sou cavalo de fogo, e no horóscopo chinês todos os signos se repetem a cada doze anos mas o de fogo se repete só a cada 60 anos porque são cinco elementos na China, e enfim, eles vão alternando, e então desde que eu nasci não teve outro de fogo porque eu ainda não tenho 60 anos , em 1966, que é o ano anterior ao meu nascimento, dizem que foi o ano que houveram mais abortos na China, porque o cavalo de fogo pode até ser um cara legal, mas ele é muito ruim pra família, a família acha uma maldição ter um filho de cavalo de fogo, eu acho que eu não fui uma maldição pra minha família até porque a gente não tem essa cultura aqui, mas  eu realmente dei muito trabalho pra minha mãe. E tem uma outra coisa, assim, ela teve cinco filhos, ela era super religiosa, então ela jamais tomaria anticoncepcional, esse tipo de coisa, mas depois que eu nasci ela teve que fazer uma cirurgia e não pôde mais ter filhos, uma parte foi escolha mesmo, que já tinha cinco tudo bem, mas uma parte foi necessário, então eu acho que o meu nascimento mexeu com algumas coisas ali na família e tal, também essa mudança pra São Paulo, não sei até que ponto o meu nascimento teve influência, mas teve alguma coisa a ver.
P/1 – E como era essa casa, bom, tudo bem, você teve várias casas, Santos, São Paulo, mas como elas eram internamente, os cinco irmãos dormindo juntos, cada um num quarto, como era?
R – Bom, vou falar de São Paulo porque é onde eu tenho mais lembranças foi aonde a gente passou mais tempo e tal, eram três filhos e duas filhas, então a casa tinha três quartos, era uma suíte onde os meus pais dormiam e nos outros quartos eram duas camas e três camas, era isso, sempre tinha uma prancheta, uma mesinha pra fazer lição de casa, não era uma casa super grande, mas era uma casa espaçosa, tipo, dava pra acomodar os cinco, cada um fazer suas coisas sem ficar pentelhando o outro. Eu ficava muito na rua, eu fui muito da rua, assim, eu era muito de turma, sabe, chegava em casa, da escola, largava o material, almoçava, as vezes ficava vendo a minha mãe cozinhar, terminava de almoçar, já pegava a bicicleta e ia, meu negócio era bicicleta, eu tive a primeira bicicleta de rodinhas lá em Santos, que eu aprendi a andar e depois em São Paulo eu me lembro que eu tinha uma C3, que era uma bicicleta de três marchas, que era estilo chopper, um guidão comprido e tal, e eu me achava o máximo, pra mim era como se fosse uma moto e eu pegava a bicicleta e ia, saía, ia pra casa dos amigos, fui atropelado inclusive, de bicicleta, bem perto da minha casa, foi feio o negócio, fui parar no hospital, me esfolei inteiro, quebrei dois dentes que até hoje eu não consertei, e o cara que me atropelou era dentista, ele falou: “Tudo bem, não precisa se preocupar, eu vou fazer a restauração”, eu lembro de ter ido, o meu irmão me levou no lugar lá, era um consultório na Vila Mariana, eu lembro dele ter tirado chapa do meu dente, feito um raio x do meu dente, mas nunca fez, o cara sumiu depois, e eu também, o meu outro dentista da família nunca fez, sei lá, não precisou, era uma coisa estética, ta quebrado até hoje, uma memória do acidente; mas eu fiquei todo ralado e tal, e meus pais não estavam em casa, eles tinham ido viajar, acho que foi uma das primeiras vezes que eles tinham deixado a gente sozinho, justamente aí, houve esse acidente. Mas assim, eu não traumatizei, não tive nenhum problema com isso, logo depois que eu já tava bom, já tava andando, o meu pai me deu uma outra bicicleta, uma Peugeot dez marchas, branca, e pra mim a bicicleta era tudo, eu treinava, eu ia pro Ibirapuera, e também, com a bicicleta veio a minha grande frustração no mundo dos esportes, que foi assim, muito influenciado por um amigo de Bariri que já tinha vencido várias etapas de um campeonato paulista de ciclismo, meu sonho era correr no velódromo da USP, eu achava aquilo a coisa mais maravilhosa do mundo, uma coisa cinematográfica e tal, e aí eu treinava bastante, mas sozinho assim, sem instrutor, eu queria correr, queria correr, fui, me inscrevi numa competição de rua, um circuito de rua, mas era um campeonato oficial e tal, na City Lapa, e aí antes da prova eu fui dar uma volta, furou o pneu da minha bicicleta, ai eu corri com a bicicleta de outro cara da escola, que era mais velha do que a minha, era uma Caloi, eu não sei se com a minha bicicleta eu ganharia ou não, sei que o cara, na bateria dele, chegou em penúltimo, então eu acho que a bicicleta dele não era ta boa assim , mas o fato é que o cara que chegou em primeiro e o cara que chegou em segundo, eram os dois da minha escola, e eu sempre treinava com eles e sempre ganhava deles, eu poderia não ganhar, mas no pódio eu estaria , e aí foi uma super desilusão, foi: “Ah, não nasci pra isso, não sei o que”, e aí que eu comecei a investir em outra coisa, que foi o que meio que definiu a minha vida, que foi redação, curiosamente no ano seguinte, nessa mesma escola, eu me qualifiquei pra participar de um concurso de redação.
P/1 – Me conta um pouco da escola, desse seu envolvimento com a escola, dos seus professores preferidos.
R – Então, essa era uma escola de bairro, uma escola particular, meio nazista, assim, meio... Tudo tinham super filas, meio autoritária e tal, pra você ter uma idéia a escola se chamava Tenor Ricardo Nunes, e daí quando virava colegial se chamava Clodiam, que eram os nomes dos fundadores da escola, que eram Cloves, Di de Erundina e Am de Estevam, que era o filho, então era uma coisa totalmente familiar, e nível educacional básico, fraco, mas uma ênfase no esporte muito grande, uma quadra super grande, tinham várias quadras, e foi ali que eu comecei a jogar basquete, o meu irmão mais velho jogava basquete, jogou no Sírio, jogou no São Paulo, ele era bem mais alto do que eu, eu não cresci tanto, então acabei não levando, joguei handebol, joguei vôlei, joguei outras coisas, mas o meu lance acabou sendo ciclismo, sei lá, porque eu adorava. Na escola, esse negócio de professor predileto foi mais tarde, no Equipe, pra onde eu fui no ultimo ano do ginásio e depois no colégio, nessa primeira fase era bagunça, assim, eu até era bom aluno, mas eu vivia de castigo, eu aprontava, eu me lembro de ter que fazer coisas, como por exemplo, bordar meu nome no lado interno, assim, do blusão, era uma punição, porque já não adiantava mais ter que escrever não sei quantas vezes na lousa, que nem o Bart Simpson, eu tinha que bordar o meu nome no casaco, um exemplo, o bebedouro, lá, não era esses elétricos de hoje em dia, era tipo um cocho, de animal beber água, com várias torneirinhas que ficavam ligadas assim, qual era a minha diversão? Eu ia lá e colocava um papelzinho pra na hora que alguém abrisse, a água saísse com tudo , óbvio que alguém abria e ia direto na cara da diretora, sempre dava um negócio desse, e a escola era super severa, não sei o que e tal, então eu vivia sempre sendo... Agora, eles eram um pouco tolerantes porque eram cinco alunos ali, da mesma família, então era uma grana boa que entrava de qualquer jeito; mas eu vivia na quadra, a gente pulava o alambrado da quadra, quando a quadra tava fechada eu e meus colegas, a gente mandava a bola pra dentro, pulava e ficava jogando bola o final de semana inteiro, não tinha ninguém pra vigiar e a escola era nossa, a gente dominava tudo.
P/1 – E os seus pais achavam o que disso, desse comportamento seu? Você nunca foi repreendido de uma maneira mais...
R – Meus pais eram muito liberais, meu pai não gostava disso, claro, mas se eu tinha notas boas ele não... E também eu não era briguento, isso... Eu me envolvi em uma briga de rua em toda a minha vida, só, eu zoava, eram coisas que eu imagino assim, os meus pais falando: “O que você fez?”, “Coloquei um papelzinho na torneira”, o que você vai falar, pô? , “Ah, não faz mais isso”, claro, eu tomava brinca sempre, mas não corrigia . Mas todo mudo, pra você ter uma idéia, a escola tinha desfile de Sete de Setembro, e o meu irmão mais velho aprontava tanto que no desfile ele era o cara que ia por último, quando acabava o desfile eles iam carregando o estandarte, era tipo um carrinho de obras assim, eram dois caras que iam carregando, e o meu irmão ficava por ultimo, eles eram os únicos que não apareciam, o meu irmão e um outro que era tão bagunceiro quanto ele, eles iam lá e eles não tinham esse negócio de aparecer, de fazer malabarismo, de tocar na fanfarra, eram tipo carregador de piano assim, e era um jeito de eles punirem porque era um comportamento um pouco rebelde, acho que a palavra é mais essa; mas é que a gente se sentia muito dono do negócio, o quintal da minha casa dava no quintal da escola, tipo: “É, somos nós aqui”, e não tinha nenhuma outra família que tinha cinco na mesma escola, é claro que depois foi espalhando, abriu um Objetivo ali perto, um foi pra lá, eu acabei indo pro Arquidiocesano, porque era um colégio que, embora de padres, e a minha mãe, claro, ficou super realizada, mas não era um colégio, assim, tão fanático religioso, era um colégio marista e tal, mas era super bom no esporte, eu adorei ir pra lá, tinha piscina, tinha quadra, tinha campo de futebol, aí eu adorei mas era bom aluno, nunca repeti de ano.

P/1 – Vamos voltar um pouquinho pra escola, você tava falando do Arqui.
R – Então, o Arqui teve uma... É engraçado, porque assim, o meu pai achou que seria legal por causa dessa minha coisa com esporte, embora eu não fosse campeão de nada, não tinha medalha, mas eu gostava muito, era muito ativo fisicamente assim, gostava de jogar, gostava de estar sempre em movimento, ou no atletismo ou na bicicleta, ou nadava, por causa da bronquite, também, eu tive que nadar, meus pais me colocaram na natação cedo, no DEF, que era ali perto do Ibirapuera, que é Departamento de Educação Física da prefeitura, que aliás, é onde hoje tem a melhor piscina de São Paulo, que é onde o Cielo ta nadando, toda a equipe que vai nadar na Olimpíada de Londres ta treinando lá, e não se chama mais DEF, chama Centro de Preparação Olímpica, sei lá o que, mas é da prefeitura, e estudei em escolinhas de natação e tal... E a minha mãe ficou super realizada porque eu fui pro Arqui, era um colégio Marista, tinha tudo a ver mas lá, nem uma coisa e nem outra foi exatamente o que aconteceu, eu não fui tão bonzinho assim, até fui bom aluno, cheguei a ser representante de classe e tudo, mas mais uma vez rebelde e tal, não de ir pra diretoria, isso nunca, mas, tipo, eu tava com 13, 14 anos, aquela coisa e começar os hormônios, querer paquerar, espiar a aula de educação física das meninas , sabe, esse tipo de coisa, acabei sendo levado por um outro lado que era mais dos namoros, das paqueras, mas no estudo era sério, aplicado e tal, mas a minha cabeça sempre viajando por esse outro lado mais de cenários românticos, e aí foi quando eu comecei a tocar violão, meu irmão mais velho já tocava, aí comecei a ter aulas de violão...
P/1 – E o que você ouvia de musica nessa época?
R – Então, essa época foi a passagem da discoteca, que era o que eu ouvia porque eu ia em bailinhos, pra MPB e rock por causa do instrumento, justamente, porque como eu comecei a tocar, eu aprendi Caetano Veloso e coisas desse tipo, e aí comecei a ouvir muito mais isso, Beto Guedes, Milton Nascimento, Pepeu Gomes, Novos baianos e tal, mas aí, antes disso eu me lembro que os meus três primeiros discos, exatamente os três primeiros discos que eu comprei, que não foram em seguida, foi cada um em um aniversário foi demorado, o primeiro foi Help, dos Beatles, o segundo foi um do Santa Esmeralda que tinha uma versão disco, meio latina, de Please Don’t let Me Be Misunderstood, que era uma música que fazia o maior sucesso nos bailinhos, e o terceiro foi o Led Zeppelin III, ou seja, um gosto bem eclético, isso porque o Led IV eu já tinha me casa, mas o Led III eu não tinha, aí... Então é isso eu comecei comprando discos de rock, porque esse negócio de discoteca eu não ia comprar disco, isso tocava no rádio, eu colocava lá na Jovem Pam e ficava gravando em fita, ouvindo, e tinha um primo que tinha uma discoteca lá em Bariri, então ele gravava todas as fitas pra mim e eu não precisava nem me preocupar com isso. E aí com o violão eu comecei a querer ouvir outras coisas ouvi muito rock progressivo, Gerard Bond, John Mack Of, músicos mesmo, e comecei também a ouvir um pouco de musica clássica porque eu entrei em um conservatório, fui estudar na Fundação das Artes São Caetano do Sul, aí comecei a ouvir ópera, comecei a ouvir Billie Holiday, e outras coisas meu gosto foi ficando bem mais eclético, e tinha uma outra coisa, os meus dois irmãos, no final do ano, eles trabalhavam na Bruno Blois, uma loja de discos ali na 24 de Maio, eles trabalhavam como vendedores temporários porque na época do natal vendia muitos discos, e aí tudo o que eles ganhavam, eles compravam em discos , então em casa tinha muito disco, tinha disco de tudo assim, eles ouviam todo tipo de música, então, tipo, desde 12, 13 anos eu fui ouvindo muita coisa que era mais raro ter na casa das pessoas, tipo Janton Janete, Frank Zappa, sabe, coisas assim, Hermeto Pascoal... Ah, e tem outra coisa, os meus pais também me levavam muito em shows, onde hoje é o Parque Alfredo Volpi, no Morumbi, a gente chamava de Lagoa dos Patos, e nos anos 70 tinham shows de música, eu vi Luiz Gonzaga, Zimbo Trio, tinha isso também, meus pais me levavam muito em shows.
P/1 – Então eles gostavam de música, os seus pais?
R – Sim, meu pai sempre teve toca-fitas no carro, ele ouvia música o dia inteiro, mas o gosto dele era um gosto... Ele ouvia musica romântica, ouvia bolero, ouvia musica sertaneja ele é... Rural assim vindo do interior, e a minha mãe já ouvia mais clássico, ela tinha estudado piano e tal, então ela ouvia muito Bach, Chopin, Liszt, e ouvia também essas outras coisas, bolero, Augustin Lara, Custódio de Mesquita, e música brasileira, Lamartine Babo e tal, eu lembro que tinham aquelas coleções que a Abril lançava, que eram fascículo com disco e tal, meus pais compravam tudo isso aí, a gente ouvia de tudo em casa, tudo, era bem eclético assim, e aí eu entrei nesse negócio de ouvir muito rock, e depois acho que a coisa começou a mudar, eu comecei a me sentir mais maduro musicalmente no dia que eu fui num seco e troquei um disco do Jimi Hendrix pela Sagração da Primavera, do Stravinsky, porque aí, eu acho que eu passei de um patamar pro outro, dois revolucionários em seus tempos Jimi Hendrix, mas eu já tinha ouvido bastante aquilo, não precisava ouvir de novo, já tinha gravado uma fitinha, aí fui lá e troquei o disco pela Sagração da Primavera, e foi nessa época que eu comecei a estudar musica mais seriamente, pensei até em fazer carreira, prestei vestibular na Unicamp, não entrei, não sei se eu to pulando muitas etapas...
P/1 – Não, tá ótimo, pode continuar. Só uma pergunta que eu fiquei curioso, não teve uma relação entre essa fase da música e os namoros? Deve ter ajudado um pouco do violão... Você falou que era namoradeiro...
R – Claro, o violão te dá uma a mais valia sexual Tony Beloto que o diga , você sobe num palco... E o que eu queria não era só cantar, eu queria organizar show, e em todas as oportunidades que eu tivesse, aparecer ali meio exibicionista, fui montando banda logo de casa, mas acho que a coisa pegou nesse sentido... Porque quando eu saí do Arqui e fui pro Equipe, aí sim o ambiente ficou mais favorável, porque aí sim as meninas eram mais afeitas a quem tocava violão, no Arqui isso era coisa de vagabundo, assim, elas gostavam de uns caras, que a gente chamaria hoje, de Mauricinhos, que era um cara mais bem vestidinho, lá nos ambientes de festa não era um ambiente hippie, uma coisa bicho grilo, eram todas patricinha da época, então elas queriam um cara que estivesse bem vestido, a camisa social legal, e eu não fazia tanto esse estilo, claro que eu também não em saía mal... E no interior, por exemplo, pô, eu vou chegar e tocar violão na praça, vão dizer: “O que é isso?” quando eu ia passar férias, não sei o que, então no Equipe que surgiu um ambiente um pouco mais de fazer sucesso por tocar violão...
P/1 – Era o colegial, já?
R – É, eu fui pra lá na oitava série, e na minha classe já tinham uns outros três caras que tocavam violão, aí a gente já logo formou uma banda e como tinha um cara, que por muito tempo foi o meu melhor amigo, se chamava Marcelo Azevedo Souza, tocava muito melhor do que eu, e tinha uma guitarra, e nessa época meu pai até comprou uma guitarra pra mim, mas eu passei pro baixo porque eu falei: “Bom, com esse cara eu não vou conseguir competir, então é melhor eu ser parceiro dele”, e aí a gente formou uma banda depois e tal. Então esse negócio da musica, é claro, até meu professor de violão falava isso, que eu comecei a tocar violão porque eu não jogava futebol bem e eu queria chamar a atenção das menininhas, eu falava: “Opa, sabe que eu não tinha pensado nisso” , na verdade eu comecei a tocar violão porque o meu irmão mais velho tocava, e aí eu comecei pedindo pra ele me ensinar: “Me ensina aí o tam, tam, tam, tam, tam, tam, ram”, que era Smoke On The Water do Deep Purple, ou “Me ensina... Sei lá o que”, aí chegou uma hora que ele falou: “Pô, vai ter aula de violão, não aguento mais ficar te ensinando essas coisinhas, ta na hora de você aprender, você leva jeito e tal” , ele teve aulas de violão, a minha irmã Bia também, e eu, todos com o mesmo professor e depois a gente foi mudando, e assim, eu comecei a estudar sério, quando eu fui pra Fundação das Artes São Caetano era um super investimento de tempo, eu tinha de pegar dois ônibus, sabe, sair da minha casa, tomar um ônibus até o Ipiranga, chegar lá, tomar outro ônibus, chegava sete e meia da noite pra ter aula, ficava lá até 11 horas da noite, duas vezes por semana, carregando instrumento, estudando teoria, leitura, eu falei: “Bom, eu posso fazer disso uma carreira”, e aí o que aconteceu foi o seguinte, eu saí do Equipe e fui estudar no IAD, que era uma escola com muita ênfase na parte de design, arquitetura, artes plásticas e tal, de lá saiu muita gente que atua nessa área, muitos publicitários, também gente de cinema, era uma escola que em 77 e 79 tinha participado da Bienal de Artes Plásticas em São Paulo, os alunos expuseram, e tinha professores maravilhosos, tipo, Guto Acácio, era professor de uma matéria chamada criação, Arnaldo Papaladi e Antonio Sargedi eram professores de fotografia, dois caras que hoje são super fotógrafos, Lenora de Barros foi a minha professora de literatura então assim, era um corpo intelectual muito forte, o cara que dava aula de história da arte é meu amigo até hoje, embora a gente tenha 18 anos de diferença de idade, a gente continua amigos até hoje. E aí no Equipe e no IAD que eu comecei, sim, a ter uma relação com os professores de mais admiração e tal, tipo, quando eu entrei no Equipe, o José Genuíno, que depois virou deputado federal no PT e é deputado até hoje , era meu professor de história, história do Brasil, ele tinha acabado de voltar, era anistia, em 80, 81,eu tava na oitava série, ele tinha voltado, tinha sido guerrilheiro do Araguaia, aquele mito todo, e era meu professor de história. E tanto as amizades que eu fiz, dos colegas, que eu tenho amizade até hoje, quanto a admiração pelos professores, nasceram muito mais ali, porque antes, no Arqui, só tinha o professor de educação física que pra mim era o máximo, os outros todos eu achava uns tapados, uns caras que não sabiam nada, tudo o que eu aprendi na classe eu chegava pro meu irmão e falava: “Isso aí ta tudo errado”, sabe, tipo o meu professor de história falar que o Sérgio Buarque de Holanda era tio do Chico, ele era pai do Chico, pô, o tio é o Aurélio, que fez o dicionário, mas o Sérgio era pai, e o professor de história não sabia nem isso.
P/1 – E o cara é senador. 
R – Pois é, aí não dá cara, o cara não sabia nem isso, isso no Arqui, não era nem nessa outra escola que o nível era muito mais baixo, e no Equipe, aí sim eu comecei a ter uma admiração pelos professores, por eles serem alguém, por eles terem tido um papel na história do Brasil, e independente disso, por eles serem bons professores, eu lembro que tinha um professor, o Zé Maria, que era professor de matemática lá no Equipe, que era do Teatro Popular União Olho Vivo, tocava violão também, estimulava que a gente ficasse, na hora do recreio, tocando violão, compondo, fazendo apresentações, no Equipe tinha um auditóriozinho, a gente sempre fazia show lá, todos os Titãs saíram dali, então era uma influência pra gente também porque a gente ficava vendo, na época do Trio Mamão, das outras bandas que eles tiveram antes, as bandas performáticas, tudo isso aí, imagina, pô, Nando Reis, Paulo Miklos, eu via essa gente ali e falava: “É isso aí que eu quero, é isso que eu quero da minha vida”, e aí fui pro IAD e a música ficou uma coisa assim, meio em paralelo, eu estudando música, mas como os meus irmãos eram arquitetos, já estavam na faculdade de arquitetura ou já formados, eu fui pro IAD imaginando que ia fazer arquitetura também, aí chegou na hora do vestibular, eu prestei música na Unicamp e arquitetura da FAU, da USP, não entrei em nenhum dos dois, e aí foi uma grande decepção porque eu sempre tinha sido bom aluno e tal, mas eu entendi, música na Unicamp tinha 15 vagas, e realmente eram aquelas pessoas que você bate na parede o cara fala que nota é, sabe, tem um ouvido absoluto, eu não tava nesse nível, mais um ano de estudo talvez eu chegasse, porque eu queria fazer composição e regência, e até composições que eu fiz, eu dei pra um outro cara, ele falou assim: “Isso aqui é muito limitado, parece uma marchinha, não é assim que os caras vão te aprovar e tal”, e a parte de leitura também, eu não tava pronto, e na FAU eu acho que eu até tinha ido bem na prova de aptidão porque eu tinha jeito pra desenho, mas eu acho que eu devo ter zerado em matemática, ou eu devo ter ido bem na primeira fase, na segunda fiz a prova de aptidão, que é a prova de linguagem arquitetônica, e eu acho que eu devo ter zerado como eu não entrei, não sei qual foi a causa, mas eu acho que eu devo ter zerado em física e matemática, que eram coisas que no IAD eram completamente negligenciadas eu fazia artes, eles não iam ficar dando aula de física, matemática, biologia e química, e aí eu entrei num cursinho universitário com a intenção de me fortalecer nessas duas áreas que eu tinha muita dificuldade, matemática e física, que em arquitetura tinham um peso importante, o que acabou acontecendo é que gostei demais dessas duas coisas , e no ano seguinte ao invés de prestar arquitetura, eu prestei física, mas também teve uma outra influência de uma amiga do Equipe e tal, que era a Daniela Capelato, que a mãe dela era historiadora, mas que tanto o pai quanto o padrasto são físicos, os dois estudaram fora do Brasil e tal, e eu freqüentava muito a casa dela, a gente nunca namorou, mas a gente era muito amigo, e aí conversando e tal, principalmente com o padrasto, ele falava que física tinha muito campo, que era muito legal... E aí um dia eu peguei, eu tinha uma moto, eu fui até a USP dar uma volta de moto ali perto do prédio de física da USP, eu fiquei encantado, primeiro que tinha um parque, um bosquezinho do lado, dava pra fazer cooper todos os dias se eu quisesse, outra que era um prédio super legal, a arquitetura do prédio era legal, e outra, me pareceu que era um monte de malucos que estudavam lá, que eu ia me dar super bem com aquela galera assim, e realmente o pessoal que faz física tem um parafuso a menos bom, entrei em física achando que ia ser tudo fácil, e eu sei que era tão difícil, tão difícil, que eu ia direto pra biblioteca da ECA ou da FAU e ficava  lendo livros de outras áreas, entendeu, porque aquilo lá pra mim era grego, eu não conseguia entender, vetores, geometria analítica, eu ia bem, justamente, nas aulas de físicas, tanto teóricas como praticas, o laboratório de física eu adorava, e química, mas matemática, calculo integral, nossa, pra mim era um sofrimento completo. E ao mesmo tempo, nessa época, a minha banda tava indo, tava fazendo shows...
P/1 – Qual era o nome da banda?
R – Chamava Tango Sujo e Carroça Sem Rumo, era um trio, e olha que engraçado, depois esse trio acabou virando, profissionalmente, a gente acabou virando um trio quase de criação, porque o baterista é um fotógrafo, Gal Piro, eu tocava baixo, escrevo hoje sou diretor de redação, mas fui critico de musica, escrevi, fui editor de revistas e tal, e o guitarrista e cantor, que é esse cara que desde o Equipe é meu amigo, é o Marcelo Genuíno de Souza, é designer, então a gente era uma banda que fazia revista juntos, depois a gente passou a fazer uma revista juntos, os três inclusive. E o Carroça Sem Rumo era um grupo de teatro que o Marcelo Messud, a Ângela Dip e a Grace Gianouskas, depois eles fizeram outras coisas, a Terça Insana, não sei o quê e tal, mas era uma coisa que era uma combinação de um espetáculo de musica com teatro, então tinha os sets deles lá, e a gente tocava as músicas, eles cantavam também, e a gente fez várias temporadas no Espaço Off, fizemos muito Aeroanta, chegamos até a tocar no SESC Pompéia algumas vezes, Projeto SP, então assim, a banda tava acontecendo por um lado, e eu tava totalmente desiludido da faculdade de física, até o ponto que eu cheguei a abandonar e simplesmente... Porque assim, no verão eu só ia pra piscina da USP e no inverno eu ia pra biblioteca, nas outras faculdades e não na minha,  e quando eu ia pra aula os caras falavam: “Ah, você apareceu, você ainda estuda aqui?” , aí chegou no terceiro semestre, eu tomei pau em três matérias, falei: “Ah, agora chega gente, não viu ficar fazendo DP se eu nem estudo, chega”, sabe assim, não da, aí no meio do ano prestei cinema na FAAP, entrei, e aí a minha vida meio que mudou, porque na USP era período integral o curso, não tinha como trabalhar, eu não ia trabalhar a noite, e eu tava meio filhinho de papai ali, não trabalhava, estudava, gastava dinheiro, tinha a minha banda, que se apresentava a noite, a banda não dava dinheiro, no máximo pagava a cerveja que eu bebia...
P/1 – E os seus irmãos moravam com os seus pais ainda?
R – O mais velho já tinha casado, eu acho que em 86, que foi o ano que eu entrei na FAU, a minha irmã mais velha também se casou, o Maurício, desde 84, tinha ido morar em Amsterdã, morávamos só eu e a Bia, que era a minha irmã mais próxima.
P/1 – Tava bem fácil a vida em casa.
R – É, tava, tava. Meus pais eram super fáceis de lidar, era gostoso morar com eles e tal, sempre foram muito liberais em muitos aspectos, eu com 18, 19 anos já tinha cama de casal na minha casa, no meu quarto, quando os meus irmãos já tinham ido embora, e aí a minha namorada dormia lá, as vezes no café da manhã era meio complicado, sabe, mas eles preferiam que a gente dormisse lá do que ficar... Sei lá aonde você ta, e tal, e meus pais também viajavam muito, eles tinham uma chácara em Embu, eles passavam os finais de semana lá, e aí a casa ficava bem liberada, assim, pra dar festinha, tocar violão, chamar as meninas... E aí eu entrei na faculdade de cinema, na FAAP, e foi bom porque eu entrei a noite e tinha a possibilidade de fazer estágio, trabalhar durante o dia, comecei trabalhando em produtora de vídeo, trabalhei por um tempo, institucional, assim, fazia fio de treinamento pra empresas, achei legal, mas aí num momento que eu tava meio... Tinha saído de uma produtora, tava sem emprego, uma amiga minha era casada com um cara que era diretor de redação da BIS, ela falou: “ Tem uma vaga lá, que é de atendimento ao leitor, se te interessar e tal”, aí eu fui, o cara falou: “Pô, você estudou música, tem banda, ta estudando cinema, acho que tem tudo a ver”, a vaga também era BIS e SET, que era mista de cinema e vídeo, e aí eu peguei como um bico, eu falei: “Tudo bem, não to trabalhando mesmo”, e era melhor do que um estágio, porque já era uma remuneraçãozinha meio de assistente de redação, o que era um pouco abaixo do piso de jornalista, mas era o dobro, vai, de um estágio; e aí entrei, três meses depois já comecei a publicar uns textozinhos, umas críticas de show, o primeiro foi uma critica de um show do Zech, que eu adoro, e aí comecei a escrever, isso foi...
P/1 – E aí você começou a escrever, você falou que gostava, em um momento lá atrás, de redação, você curtia. Conta essa trajetoriazinha de que você já tinha esse interesse.
R – É, eu gostava de escrever, sempre gostei muito de ler, lia muito, lia muito jornal, revista em casa, meu pai tinha uma biblioteca grande, meu pai sempre foi muito ligado a leitura, meu pai, inclusive, fundou na cidade dele uma coisa chamada Associação Baririense de Letras e Artes, uma espécie de... Ia levar um ponto de cultura pra lá, uma coisa que ele fez bem no final da vida já, mas foi um super orgulho pra ele, tem uma placa no lugar, que foi um imóvel cedido pela prefeitura, que ta lá: “Presidente: Luiz Inácio Lula da Silva, Ministro da Cultura: Juca Ferreira, Presidente da Abra: Ibraim Paulo Maçon”, o nome dele vem acima do governador e do prefeito, muito legal, e ele tinha sempre muitos livros em casa, Monteiro Lobato eu li tudo quando era pequeno, e eu realmente gostava de escrever, fazia redações criativas e tal, no colégio, no IAD principalmente, eu sempre tirava dez em todas as provas de redação, e eu acho que foi uma das coisas que me fez ir bem até na faculdade, eu sempre me defendia pelo lado do texto, então, por exemplo, eu ia fazer um trabalho sobre a história do cinema, a teorização em si poderia nem ser tão boa, mas o texto era claro, não tinha erros, era objetivo, e o cara me dava uma nota porque eu tinha acertado na redação, tanto que o meu trabalho de graduação, quando eu me formei, eu nem olhei pra câmera, sabe assim, eu fiz o roteiro, entreguei pro resto da equipe, os caras foram lá e filmaram, eu nem fui no dia da filmagem, nem da edição, nem nada, eu só vi o filme pronto, porque o meu negócio era escrever. Eu me lembro que eu comecei a escrever na BIS algumas criticas de discos, de shows, e na SET também, algumas criticas de filmes e tal, e eu me lembro de um dia que eu fui a um show sozinho, não tava namorando, tal, era no Palace, que era mais ou menos perto de casa, aí eu fui entrar no carro e meio que o texto inteiro já tinha passado na minha cabeça, eu falei: “Eu sei exatamente o que eu preciso escrever”, e é incrível como, pra mim, isso vem naturalmente, assim, não é que eu escreva super bem, mas eu não tenho nenhuma dificuldade em escrever, eu não preciso nem sentar, esse negócio de pegar a tela do computador em brando e falar: “O que eu vou escrever agora?”, isso nunca me aconteceu, sabe, sempre sai, vai. E aí eu vi que tinha uma carreira ali, eu tava me formando, não tinha emprego pra mim na área de cinema, de produção mesmo, eu ia ter que ficar trabalhando em produtora de vídeo ou produtora independente, que era uma coisa que até chegar na... Porque você não faz faculdade pra carregar cabo, quer dizer, você quer trabalhar em direção, produção, fazer coisas onde você tenha mais participação no processo criativo, claro, só que se você não estagiou nisso antes, se você não fez nada na área, você vai entrar em um produtora já depois de formado pra fazer... É um negócio meio complicado, e no entanto, ali, eu já não era mais estagiário, então quando eu tava me formando já era pra eu passar pra editor apesar de eu não ter diploma de jornalista, isso nunca foi um impedimento pra mim em nenhum dos lugares que eu trabalhei, nem na Editora Abril, nem Editora Azul, nem Editora Lobo, nem o SBT, nunca me foi pedido, quer dizer, você vê que essa legislação demorou pra ser aprovada porque já era assim, tem muita gente trabalhando nas redações que não tem diploma, agora, simplesmente se oficializou uma coisa que já era uma prática comum,  né, tinha gente que tinha MTB, que é o registro profissional, por tempo de serviço, isso era permitido lá atrás, depois, por causa do lob das faculdade de comunicação isso foi proibido, e agora com a sentença do Gilmar Mendes pode ter e tal, quer dizer, eu sou diretor de redação de uma revista e não tenho diploma de jornalista, isso pode. Bom, e aí teve lá o Plano Collor, as empresas de comunicação ficaram meio descapitalizadas, na BIS não foi diferente, ali na Editora Azul e tal, mas tudo bem, me seguraram mesmo assim, mas aí mudou um pouco o que era o meu plano de crescimento ali dentro, ficou meio restrito porque eu já não estava mais fazendo atendimento ao leitor, eu já tinha virado assistente de redação, tava só escrevendo, e aí demitiram a pessoa que tinha sido contratada pra me substituir, e eu voltei a ficar com as duas coisas, e fiquei meio assim falei: “Bom, acho que aqui o teto já ta chegando, não dá e tal”, comecei a procurar outras coisas, fiz uns freelancers pra Folha, fui conhecendo outras pessoas, e aí acabou que me demitiram na BIS, resolveram contratar uma outra pessoa, os tempo mudaram, assim, tipo, eu escrevia sobre bandas novas, tinha uma sessão lá chamada Conexão Brasil, que era justamente onde a gente mostrava o que tava acontecendo nas capitais, em cidades e tal, o pessoal mandava material, fitas-demo, como a gente chamava na época, eu ia muito em show independente, não sei o que, só que esse movimento tava parando, as pessoas já não estavam mais montando tantas bandas, aí estavam querendo dar uma ênfase maior em dance music, aí chamaram o Camilo Rosa, que hoje trabalha no Estadão na área de tecnologia, antes era DJ, escrevia sobre música, e coincidentemente o Camilo, que era meu amigo, e que foi contratado pro meu lugar, foi o cara que me indicou uma pessoa que me contratou pra trabalhar em outro lugar, que foi a revista Qualis, que foi essa que eu tava falando que eu e o diretor de arte, que era esse cara que era da minha banda, e o Gal que era fotógrafo e baterista, a gente acabou meio que trabalhando juntos por um bom tempo ali.P/1 – E a banda rolava ainda?
R – A banda rolava. E a Qualis, eu fui pra lá em 91, e foi uma espécie de pós-graduação pra mim, porque me deram muita liberdade criativa, era um negócio experimental, era uma revista de música que não era pop como a BIS, era uma revista de música pra adultos, a revista surgiu como um catálogo de CD’s pra associados da American Express, naquela época se comprava muito CD importado por reembolso postal, não sei o que, esse cara tinha uma importadora, se chamava Intrad, e ele viu que de todas as coisas que ele importava, o que dava mais margem de lucro era o CD, e aí ele resolveu fazer um catálogo, e na hora que ele chamou a equipe pra montar aquilo lá, não sei o que e tal, ele viu que muito melhor do que fazer um catálogo, era fazer uma revista porque além de tudo ele ainda poderia vender publicidade e ganhar dinheiro, então era uma revista que era distribuída gratuitamente, inicialmente pra 400 mil, depois pra 200 mil, porque o custo gráfico era muito alto, pros associados do cartão, uma tiragem imensa, auditada pela Price Water House Coopers e tudo, uma estrutura muito pequena editorialmente, mas a Paula Dip era a diretora de redação, eu era editor, o Caio Fernando Abreu era o outro editor, e o resto eram só colaboradores, foi muito legal ter trabalhado com eles, a Paula logo saiu porque ela tinha entrado ali porque um dos sócios era irmão dela, mas aí o sócio saiu, ela saiu também, eu acabei assumindo a revista, chamei um cara que era da Folha pra ficar comigo, e chamei uma amiga, que era amiga da minha ex-namorada e tal, pra ser minha estagiária, aí a gente acabou casando, mas muitos anos depois , a gente trabalhou dois anos na mesma sala e nunca tinha rolado nada, curiosamente foi rolar mais tarde, era uma equipe pequena, mas eu consegui atrair muitos colaboradores legais, gente bacana em todas as áreas assim, musica clássica, musica popular, Duncan Lindsay fez textos pra gente, uma matéria legal sobre Naná Vasconcelos, JJ de Moraes escreveu sobre música clássica, o Hermano Viana escreveu sobre Chicago, sabe, era uma revista que experimentava muito, inclusive nas capas as capas, sei lá, teve capa com o Egberto Gismonti, teve capa com o Brian Hino, sabe, uma coisa totalmente diferente uma da outra, teve capa com ópera, Pavarotti, não, Pavarotti não, teve outro, Placido Domingo, e Sakamoto, umas coisas assim, totalmente diferentes, e realmente pra mim foi muita experimentação, e ali eu acho que foi aonde eu realmente me profissionalizei porque um dos colaboradores dessa revista era o João Gabriel de Lima, que era crítico de música da Veja, e aí um dia ele começou a  demorar pra entregar um texto e tal, eu falei: “Gabriel, a gente ta esperando só a sua matéria pra fechar a revista” , aí ele falou: “Sabe o que é, Maçon? É que eu fui promovido a editor aqui e não encontrei ninguém pra ficar no meu lugar ainda e não vou conseguir te entregar esse texto não, porque eu to sobrecarregado fazendo as duas coisas ao mesmo tempo e tal”, e aí eu falei: “Ah, é, você ta precisando de alguém? O que você precisa?” , e aí a gente conversou e eu acabei indo pra Veja, foi em 93, final de 93, fui pra veja e fiquei sete anos lá, fiquei até 2000 como crítico de música e de cinema também.
P/1 – Eu vou parar um pouquinho, porque eu queria entender quando que, nessa trajetória, você sai da casa dos seus pais. Em qual momento você começa a pensar em morar sozinho?
R – Aí foi o seguinte, vou dar uns passinhos pra trás então, quando eu trabalhava na BIS ainda, eu tinha uma namorada, queria me casar com ela e tal, e claro, eu não ganhava muito bem, mas ela também trabalhava, a gente achou que dava pra juntar os panos ali, e meu pai tinha comprado uma casa na mesma rua que eu morava, eu ainda morava com os meus pais, ele tinha comprado uma casa pra minha irmã mais velha que já tinha se casado, e aí ela morava ali, mas o marido dela arrumou emprego em Recife e ela se mudou pra lá com a família, a casa ficou pra alugar um tempão e tal, até o dia que eu fui La é falei: “Pô, a casa ta aí e tal, deixa eu morar lá, eu pago um aluguel simbólico assim”, e foi isso, saí da casa dos meus pais assim, eu ia morar com a minha namorada, depois a gente até pensou em casar, e depois a gente brigou , e aí eu fui morar sozinho, quando eu saí eu fiquei morando sozinho por um tempo, tive outras namoradas e tal, e assim, já me sustentava, quando eu fui pra Qualis o meu salário já era bem razoável, e também teve outra coisa, eu comecei a dar aula na FAAP logo que eu me formei, eu dava aula só de sábado de manhã porque durante o curso teve um professor, que hoje é diretor da faculdade, que é o Rubens Fernando Junior, que é um excelente crítico de fotografia, pesquisador e tal, um cara super sério, ele era só professor quando eu fui aluno dele, eu fui monitor dele, corrigi os trabalhos, provas e tal, ele gostou muito de mim, tirei notas muito altas no curso dele, e logo que eu me formei ele virou diretor da faculdade, aí não dava mais pra ele acumular tantas aulas, ele continuou dando as aulas que ele dava normalmente, mas as de sábado já eram um pouco demais porque era aulas de DP, o pessoal que tinha repetido de ano e tal, e aí ele me ofereceu essas aulas, e eu comecei a dar, não era uma grana muito alta, mas já complementava, o que eu ganhava na Qualis, que era em Higienópolis, e mais isso aí que era em Higienópolis também, ficava tudo do lado, pra mim, dava pra eu me virar, dava pra eu me sustentar, não tava pagando aluguel, quer dizer, pagava um aluguel simbólico, não pagava condomínio, e tinha as comodidades de ter a casa do meu pai ali do lado, tipo, por muitos anos a gente compartilhou a mesma empregada, ela ficava meio período lá e meio período em casa e tal, então a saída da casa dos meus pais foi nesse contexto, foi meio facilitado por ter esse imóvel disponível, e eu fui pra lá, era uma casa muito simples, e conforme eu fui pra Veja, o salário era melhor e tal, daí eu fui reformando a casa, fui deixando ela mais bonitinha; quando eu me casei a minha mulher foi morar comigo lá, a gente ficou alguns anos morando lá, depois eu mudei de emprego de novo, saí da Veja em 2000, e a gente comprou uma outra casa na mesma rua, coincidentemente foi na mesma rua, a gente tava procurando por ali, que a minha ex-mulher sempre tinha morado em prédios, nunca tinha morado em casa, quer dizer, a mãe dela morava em Higienópolis, o primeiro marido dela morava ali na Mirandópolis, que era até perto de onde a gente morava, mas em prédio, ela tinha o maior medo de morar em casa, mas aí, assim, com portão eletrônico, cachorro, não sei o que e tal, ela se adaptou, e aí a gente ficou procurando uma casa pelo bairro porque a gente tinha um problema com o vizinho ali, que era meio maloqueiro, tinha problemas de brigas, o casal, enfim, brigas malucas, do tipo da gente ouvir gritando: “Larga essa faca”, e coisas piores, agressões mesmo, barulho, e aí a gente não queria ficar mais lá, começamos a procurar outras casas por ali e achamos, coincidentemente, na mesma rua, uma casa que eu já havia freqüentado na minha infância, era um colega de escola que morava lá, e os pais dele tinham se mudado pra Cotia, mas continuaram com a casa, e alugavam lá, a casa tava só com uma placa de aluga-se, a gente foi lá ver e tal, e o cara achou que a gente queria só alugar, e aí eu falei: “Mas você não tem interesse em vender?”, ele falou: “Por quê? Você quer comprar?”, eu falei: “Quero”, ele falou: “Você tem o dinheiro?”, eu falei: “Tenho”, “Quanto?”, “X”, “Então, eu vendo”,  e aí eu comprei, não tinha placa de vende-se, mas a gente já tinha vendido a nossa casa, e eu pensei: “Bom, não adianta ficar procurando outra se a gente não tiver o dinheiro”, então a gente vende, e se a gente não achar nada, a gente aluga e continua procurando, na pior das hipóteses a gente vai morar na casa do meu pai, da sua mãe, faz algo assim, e aí achamos essa casa. E olha que coincidência porque esse pessoal que morava nessa casa e depois foi morar em Cotia, e a gente também, porque a gente saiu de lá pra ir morar na Granja, então eu acho que essa casa fazia um ponte , uma conexão direta com Cotia, que é onde eu moro hoje.

P/1 – A gente tava, mais ou menos no momento em que você entra na Veja, e aí?
R – Bom, como eu falei, eu fui levado pra lá pelo João Gabriel de Lima, ele era crítico de musica da Veja, foi promovido a editor, e nessa promoção abriu uma vaga ali que ele acabou me chamando, entrei lá pra ser crítico de musica, na época o critico de cinema era o Geraldo Mayrink, que foi um cara com quem eu aprendi muito, já morreu, e como eu também tinha estudado cinema e tal, acabei fazendo um pouco das duas coisas e me mantive lá por todo esse tempo fiquei todos esses anos, de 93 até 2000, fiz várias capas, fiz muita coisa, construí bem uma história ali de... Eu acho assim, no momento em que tinha a ver crítica e musica e de cinema, porque eu acho que isso foi mudando, musica principalmente, porque a relação que as pessoas vão tendo hoje com musica já não passa mais por um intermediário, tem uma coisa que é típica da industria cultural do século XX, que é assim, tinham produtores culturais e consumidores, e no meio, a mídia fazendo divulgação daquilo, isso acabou, porque com a internet, os produtores e consumidores são mais ou menos a mesma coisa e o contato com a obra é direto, você não precisa de um intermediário falando: “Ah, esse disco é bom”, você já baixa; como negócio, como industria da musica e tal, mudou, mudou de cara, mudou de figura, mudou a receita, o dinheiro que entra é outro, e os artistas perceberam isso, as gravadoras estão realmente num momento muito complicado, em 2000 ainda não era assim, já existia MP3, já existia tudo isso, e aí chegou uma hora que eu vi... Bom, primeiro, que eu achava que o meu trabalho tava se repetindo, eu lembro que tinha um disco dos Paralamas do Sucesso, que eu falei que eles estavam se repetindo e depois quando eu li a matéria pronta, eu falei assim: “Bom, mas quem ta se repetindo sou eu, porque eu já devo ter falado isso de um monte de gente”, e aí eu acho que a minha ligação, o meu processo, o que eu queria fazer era meio que abrir a cabeça das pessoas pra elas conhecerem novos cenários, novos artistas, e na Veja isso era meio limitado a minha primeira grande matéria na Veja, que me deu muito orgulho, foi uma matéria sobre Manguebeat, em 93, 94, ainda quando a coisa tava começando, essa matéria repercutiu tanto que ela foi comprada por um jornal na França que traduziu e publicou: “O novo rock brasileiro no Recife”, eu tenho isso até hoje, uma super amiga minha que morava em Paris me ligou gritando: “Ai, você não vai acreditar, o jornal que eu assino tem uma matéria sua”, e realmente o espaço pra esse tipo de movimento numa imprensa como a Veja é limitado, e aí você acaba falando sempre mais ou menos das mesmas coisas, os grandes artista, e no caso dos filmes, os filmes que repercutem, aquela coisa de bilheteria, e aí chegou uma hora que eu comecei a mudar um pouco o foco da minha atenção mais pra problemas de política pública na área de cultura, e fiz algumas matérias muito combativas com relação a maneira da gestão pública agir, das leis de incentivo, isso começou a me dar uma pegada de não ser tanto crítico e sim mais repórter, quer dizer, sair um pouco dessa coisa de fazer resenha, de dizer pras pessoas o que elas tem que consumir como produto cultural, e ir entender um pouco os processos e onde entra a parte da criação, onde entra a intervenção do Estado, quer dizer, o Poder Público como fomentador da produção cultural e como a cultura tem que chegar nas pessoas e tal, fiz matéria sobre patrimônio histórico, adorei, viajei o Brasil inteiro, fui conhecer coisas como o Museu do Mar, em São Francisco do Sul, perto de Joinville, um museu emocionante, assim, super bem montado, com todo tipo de embarcação, até um pedaço de um submarino que a Marinha Brasileira doou, e o primeiro barco que o Amyr Klink fez aquela travessia à remo, ta lá, a primeira, Paraty I, barcos em miniatura, modelos feitos por presos em cadeia, sabe, tem de tudo, tem uns dioramas que eles montam cenários de barcos de pesca, de baleeiros, que lá em Santa Catarina tem muito disso, fui conhecer muitos patrimônios históricos no Brasil, em Minas, Olinda, Recife, e ai isso foi me abrindo um pouco pra falar assim: “Bom, o mundo da cultura é lega, é legal escrever sobre cultura, todo mundo gosta, todo mundo lê, os meus amigos sempre lêem as minhas matérias e tal, mas eu acho que eu jornalismo não é só isso, tem outras áreas que eu ainda posso experimentar”, e aí, em 2000 teve um projeto da Veja de fazer uma revista especial sobre os 500 anos do descobrimento do Brasil, e eu fui uma das pessoas destacadas pra fazer parte dessa equipe,  isso pra mim foi bem transformador porque eu vi que tinha uma parte de história sensacional, tinha coisas de cultura pra falar ali também, mas tinha uma coisa que era tentar entender o mundo naquela época e traduzir ele pros dias de hoje, e eu fiz uma entrevista com o Maquiavel, claro que eu não fiz a entrevista com o Maquiavel porque ele não estava vivo, né , mas eu fui ler a obra do Maquiavel pra tentar fazer uma entrevista, que seriam as páginas amarelas da Veja, do ano 1500, com Maquiavel, o legal do Maquiavel é que ele fala em ditados então é só você formular a pergunta que a resposta já vem pronta, que são máximas, são aforismos e fez sucesso, depois a revista Aventuras da História republicou isso porque eles tem uma sessão chamada Páginas Amareladas, que faz uma brincadeira e tal, e em geral faz uma entrevista desse tipo com alguma pessoa que já morreu, e aí eu vi que, bom, eu gosto de escrever, tem muita coisa que eu tenho que conhecer, que eu quero descobrir na vida, que não é só nessa área, que eu acho que ta ficando muito limitador, em termos do meu processo criativo, do que eu poderia contribuir, e também por causa da internet, do novo modelo de consumo, de produção e de cultura, principalmente na área de musica, então a minha contribuição deu, e aí saí de la justamente no momento que a internet tava bombando, que tavam contratando gente pra trabalhar em site, pagando bem e tal, e aí eu saí pra um projeto que era da própria Editora Abril, uma paralela, que era a idéia de fazer um portal feminino reunido todo o conteúdo produzido pelas revistas da Abril, não só as revistas femininas, mas o que a Você S.A. produzisse de interesse feminino entraria lá, ou a Veja, e tal, e eu fui lá pra escrever sobre sexo e editar um canal de sexo, e sobre homens, pra falar de homens e tal, e foi demais porque eu fiquei uns três meses, antes do site estrear, preparando o conteúdo que a gente ia produzir e tal, e foi demais porque... Não que eu tenha ficado praticando sexo , fiquei entrevistando gente, especialistas nessa área, e coisas incríveis sobre sexo tântrico, pompoarismo, não sei o que, e aí eu vi que eu tava num momento da minha vida que ainda tinha tanta coisa pra ser olhada, coisas que eu posso ver, que eu posso aprender, e aí eu botei uma coisa na minha cabeça, eu falei: “Eu vou fazer disso, que é a minha atividade profissional, que é como eu me sustento, como eu sobrevivo, uma fonte de conhecimento contínuo”, quer dizer, eu quero estar sempre aprendendo coisas novas, se eu não tiver aprendendo nada, que não seja só aprender o meu próprio oficio, porque isso também você não pára de aprender, mas se eu não tiver aprendendo coisas que eu não sei pra ajudar as pessoas entenderem também, não vai ter graça, e desde então nunca mais fiquei tanto tempo num lugar só, a minha carreira foi mais segmentada, assim, mais dinâmica, fiquei menos de um ano nessa paralela, depois voltei pra um outro portal que era de musica,  que era um pessoal da Microservice, que fabrica CD’s, que viram que o negócio deles tava ameaçado porque não ia ter mais CD, e resolveram botar um site, um portal de musica na internet pra vender, o que hoje é o Sonora, esses sites de venda de musica digital, mas com conteúdo também, e aí fui pra lá, quem me levou foi o  Aoqui de Souza, que tinha sido, também, um colega na Veja, ele ta na Veja de volta, mas tinha saído da Veja pra montar esse projeto, e também não deu certo,m acabei sendo demitido antes do negócio ir pro ar, voltei pra Abril pra ser redator chefe de uma revista feminina, Ana Maria, uma revista popular, mudou a minha carreira completamente porque eu tinha... Imagina, sempre na sala de cultura, e aí de repente vou trabalhar com uma revista pra classe c, pra dona de casa de classe c, eu me lembro que quando a diretora de redação me chamou pra me entrevistar, eu peguei a revista, cheguei em casa, falei com a Kiara assim: “Bom, vou indicar outra pessoa porque eu não tenho a menor... Não tem a minha cara isso aqui e tal, legal ela ter me convidado”, e na verdade quem me convidou foi o Laurentino Gomes, que na época da Veja, a gente trabalhou junto, ele ficou conhecido no Brasil inteiro pelo livro 1808, mas nessa época ele tinha assumido um cargo lá de direção editorial da Abril, conhecia o meu trabalho, tava coordenando uma reestruturação das revistas femininas, e aí me indicou, a diretora me chamou e pediu pra eu fazer uma crítica da revista, eu fiz uma crítica tão severa que eu falei: “Ela não vai me contratar nunca” , mas justamente ela me contratou, ela falou assim: “Era disso que eu precisava, alguém que mostrasse os problemas que a revista tem, a revista é um sucesso de vendas, mas a gente não ta conseguindo atrair anunciantes bons e tal”, então os anunciantes á eram todos assim, tipo, Gota Dourada, eu aposto que você nunca ouviram falar porque é um xampu que só vende em farmácias, supermercados da periferia e tal, não tinha o Seda, C&A, Riachuelo, não sei o que, e a revista precisava se adequar ao padrão da Abril, porque ela era originalmente da Editora Azul, a Abril comprou a Azul, sempre foi uma sociedade, mas chegou uma hora que a Abril comprou e aí as revistas tinham que ter o padrão da Abril, você fazer uma revista fora da Abril, com outra marca, com outro selo, é uma coisa, dentro da Abril precisava dar uma readequada ali no estilo editorial, e por incrível que pareça, foi um dos lugares que eu mais gostei de trabalhar porque eu conheci um mercado editorial totalmente diferente, uma mulher que pode pagar dois reais numa revista, mas que pra ela fazer isso, ela vai ter que abrir mão de alguma coisa, de uma esfirra, de um lanchinho, de alguma coisa pra ela, porque assim, não sobra dinheiro na vida dela, é tudo contado, mas com essa revista ela se sente uma pessoa útil na família e na comunidade, porque não é uma revista de fofoca, ela não pegou os mesmo dois reais pra comprar Ti-ti-ti ou a Minha Novela, ela pegou uma revista que fala de relacionamento com o marido, com os filhos, de educação, de saúde, que ensina ela a cozinhar melhor, adorei fazer essa revista, adorei conhecer essas leitoras, e me lembro justamente de um dia que eu tava na Abril e encontrei um cara que falou assim: “Pô, Maçon, você que trabalhou tantos anos na veja, agora você ta na Ana Maria”, eu falei: “Sabe qual é a diferença? É que o leitor da Veja me detestava e o leitor da Ana Maria me adora” , e eu acho que só isso, assim, não tem preço, você fazer uma coisa boa pra uma pessoa que ta precisando de informação, o único local que ele tem acesso a informação, normalmente, é a novela, porque as pessoas não compram jornal é caro pra ela comprar jornal todo dia, ela compra uma revista semanal de dois reais e ali tem um monte de conteúdo que é importante pra vida dela, que faz com que ela possa ter um papel na família, na comunidade e tal, melhor do que se ela não tivesse aquela informação. Eu entrei lá em 2001 e, pra meu orgulho, em 2003 foi a revista do ano da Editora Abril, então a gente realmente fez um trabalho legal, e era um ano que a Nova não ganhou nenhum prêmio, a Playboy não ganhou nenhum prêmio são vários prêmios que a Abril dá todos os anos, a gente foi a revista do ano, e foi o melhor premio que eu já ganhei, assim, porque eu peguei uma revista super popular, a mais barata que tem no mercado ou uma das mais baratas, e transformei em uma revista capaz de ser considerada melhor entre 36, 38 revistas, sei lá, que a Abril tinha, isso foi muito legal, e eu vi que essa minha relação com cultura, claro, continua, é muito legal,  paralelamente eu fiz uma capa pra Trip, que foi sobre a fase racional do Tim Maia, mas eu vi que, assim, eu tenho menos histórias pra contar nessa área, do que pra ler, então assim, eu gosto de ler outras coisas, eu leio revistas de fora e tal, com grandes perfis na área de cultura, mas já não era mais o que me movia, assim, não era o que me motivava no sentido de: “É isso que eu quero fazer”, sabe, e aí...
P/1 – Mas você continua a ser um expedicionário cultural na vida, assim, de procurar coisas, de ver shows...
R – Ah, sim, mas muito menos, hoje menos , tem uma historinha do Luciano Veríssimo que eu acho ótima, que é assim, o cara tem menos de 20 anos, ele chega pro amigo e fala assim: “Conheci uma banda sensacional, vou gravar um CD pra você, você precisa ouvir”, aí o cara chega com 30 anos mais ou menos, ele fala: “Pô, conheci uma mulher maravilhosa”, e assim vai o cara chega com 40 anos: “Conheci um restaurante incrível”, com 50: “Conheci um médico maravilhoso”, bom, eu to nessa fase entre o restaurante e o médico, os interesses vão mudando hoje em dia eu já não vibro mais, quando eu descubro uma banda nova, como já foi no passado, isso foi importante pra mim, ajudou muito a minha visão de mundo e tal, mas eu já não tenho o mesmo fetiche pela coisa, então eu não vou mais atrás, e eu tenho uns dois mil discos, eu fico ouvindo muito as coisas que eu sempre ouvi volto às mesmas coisas, já não tenho tanta sede por novidade, e pelo que eu vejo dos meus amigos da minha geração, isso é meio natural, tem alguns que continuam com essa coisa de frescor, de querer conhecer coisas novas, mas a maioria volta a ouvir... O que eu mais ouço hoje em dia são as coisas que eu sempre ouvi e que eu vou continuar ouvindo, Marvin Gaye, Rolling Stones, vou ouvir pra sempre, mas claro, vou ao cinema, vou a shows, fui no Skol Sensation, adorei, a Rosana foi comigo, gosto de som de DJ também gosto de festa e tal, mas a minha busca, hoje, ta muito mais pra vinho e comida, e descobrir essas coisas, e isso tudo tem a ver com o que to fazendo hoje também. Hoje eu dirijo uma revista que é sobre São Paulo...
P/1 – Ah, chegou nisso, quando você tava contando eu te interrompi um pouquinho, mas pode continuar.
R – Bom, mas uma vez o meu jeito, assim, eu sou um pouco... O meu avô materno, com quem eu convivi, o meu avô paterno morreu em 68, eu tinha um ano, mas o meu avô materno, Hugo, eu lembro uma vez que a gente foi com a minha banda tocar, não com os atores, o Gal também não tava, era outro baterista, eu, o Marcelo, que o apelido dele é Zumbi, que é o guitarrista que canta e compõe a maioria das musicas, e um outro baterista, e a gente foi tocar lá em Bariri, a cidade dos meus pais, num clube, num festival, e aí a gente nem tocou porque a gente brigou com os caras já na passagem de som, e aí a gente foi contar isso lá, e o meu avô falou: “É isso mesmo, tem que ser combativo”, eu achei muito legal isso, e as vezes eu acho que eu sou um pouco agressivo nas minhas posições, mas em geral, eu acho que eu não aceito muito coisas que não estão legais, que eu não to gostando, no trabalho, por exemplo, eu não consigo ficar infeliz no trabalho por muito tempo, sabe, se alguma coisa ta em incomodando eu saio fora ou crio condições pra que me mandem embora, que com isso eu recebo o meu fundo de garantia, que é muito melhor porque ainda dá pra trocar de casa, fazer outras coisas... No final da Ana Maria, tinha mudado a gestão, a minha diretora que tinha me chamado pra trabalhar lá foi pra Cláudia Cozinha, entrou um outro pessoal com que eu não me dei bem,  e aí eu fui falar com o Laurentino Gomes, que era quem tinha me indicado: “Olha, a coisa não tá legal”, e aí pouco tempo depois eu fui demitido; depois fui almoçar com ele pra entender o que aconteceu, e aí ele contou lá, foi tudo uma base de fofoca, foi uma história muito mal... Mas, assim, eu já tava tão de saco cheio, que eu achei que foi a melhor coisa que me aconteceu, sabe, terem me demitido, eu tava com a sensação de trabalho bem feito, não sacaniei ninguém... Se tem uma coisa que eu gosto de falar sobre mim é que ninguém vai me chamar de filho da puta, assim, no trabalho, sabe, eu posso ter demitido até amigos, tipo, o diretor de arte da Bravo, é um cara que eu tive que demitir, ele era das Ana Maria, a gente nunca mais conseguiu ser amigo, mas ele sabe exatamente as razões pelas quais ele foi demitido, ele tem certeza que não foi sacanagem, uma coisa é a gente não conseguir ser amigos, outra coisa é o que ele estava fazendo naquele momento, tanto que levou a demissão dele; mas eu acho que eu fui demitido de sacanagem, é diferente, mas eu prefiro me manter nessa posição de... É igual quando alguém vem te pedir dinheiro emprestado e você pode emprestar, eu prefiro estar na posição de emprestar do que na de ter que pedir, no trabalho é mais ou menos a mesma coisa, eu prefiro ser demitido numa situação em que eu acho que não tenho que abaixar a cabeça por aquilo lá, do que ter que demitir sem razão, assim, tecnicamente, nesse momento eles não tinham nada pra falar de mim, mas pelo meu comportamento pode até ser, então tudo bem, você quer uma pessoa que escreve errado, mas obedece tudo o que você fala, então ta bom, vai lá e contrata, ok. Quando isso aconteceu, eu fiquei num período, meio que, olhando pra o que eu queria fazer, não sabia direito, fiz vários freelancers pra coisas completamente diferentes, desde um livro sobre longevidade pro Bradesco, um outro livro pro Ministério do Desenvolvimento Agrário sobre comunidades rurais no Brasil, sobre cantos, musicas de trabalho de comunidades rurais, e esse livro nunca saiu, foi feita só uma exposição das fotos, e depois uma menina que fez a pesquisa da parte musical gravou um CD com as musicas, foi um trabalho muito legal, eu acabei escrevendo o texto da exposição, me pagaram, tudo direitinho, mas o livro não saiu, mudou o Ministro no final, não sei o que, e a exposição das fotos foi feita em Porto Alegre, eu fui pra lá, foi super bacana, bom, fiz trabalhos completamente diferentes do que eu tinha feito, achei que ali tinha um caminho, fiz revista institucional, fiz revista da Cirella, como freelancer revista da Peugeot, até que um cara que tinha trabalhado comigo na Veja, se chamava Ricardo Valadares, estava no SBT nesse momento, tinha virado meio braço direito do Silvio Santos, e tinha levado o Carlos Nascimento pra lá, e o Nascimento era muito amigo da minha ex-mulher, eles tinham trabalhado juntos na Bandeirantes, e aí o Nascimento me chamou, os dois na verdade, o Valadares e o Nascimento, e eu nunca tinha feito televisão, apesar da minha formação em cinema, eu tinha trabalhado em produtora de vídeo, mas nunca tinha trabalhado em televisão, foi um risco pra eles, poderia ter dado tudo errado, e pra mim foi uma aposta foi em 2006, tinha eleição, tinha copa, e migração da TV pro digital, aí eu pensei: “Putz, perfeito ir pra televisão agora, porque se tem alguma coisa que eu posso aprender, mesmo sendo no SBT, vai ser aqui”, e outra, eu to cacifado por dois pesos pesados, um cara que virou o braço direito do Silvio Santos e o outro que tem 30 anos de TV Globo, se não der certo, não deu, não tenho nada a perder, e odiei trabalhar em televisão, assim, eu lembro que eu ligava pra minha mulher e falava: “Eu não consigo ficar nem mais uma semana aqui, não sei como você consegue”, porque ela sempre trabalhou em rádio e televisão, hoje ela trabalha no programa da Fátima Bernardes, esse novo que estreou agora, e pra mim não deu certo, não era o que gostava.
P/1 – O que exatamente você fazia lá?
R – Eu era editor executivo de dois telejornais, primeiro de um, que era o Jornal do SBT, que vai ao mar mais tarde, e depois do segundo turno da eleição de 2006, a Ana Paula Padrão brigou com o Silvio Santos e o Nascimento passou a apresentar os dois jornais, o SBT Brasil e o Jornal do SBT, e aí eu passei pra equipe do SBT Brasil, aí houve problemas lá também, com a equipe e tal, eu já não gostava muito de fazer aquilo, aí eu virei pro Nascimento e falei: “Olha, não to feliz aqui”, ele foi super sincero, ele falou pra mim: “Eu acho que não tem espaço pra um profissional como você aqui, mas você tem empregabilidade, vai procurando emprego, fica aqui, porque é melhor você arrumar emprego estando empregado do que você sair pra procurar, na hora que você arrumar você me avisa, a gente organiza a casa”, e aí eu comecei a procurar, o João Gabriel, que tinha sido o meu chefe por sete anos na Veja, estava na Época naquele momento, e aí me chamou pra conversar e falou: “Olha, tem uma vaga aí e tal, pra editor de sociedade”, não tipo alta sociedade, mas sociedade, tipo, segurança pública, caos aéreo, algumas matérias de comportamento também, e eu falei: “Olha, nunca fiz isso cara”, ele falou: “Mas você acabou de vir do SBT e tal, você já pegou o jeito de fazer, de planejar grandes coberturas, sei lá, a vinda do Papa, eu acho que dá pra você tocar, vamos lá”, aí ele me apresentou o Hélio Gurovitz, que é o diretor de redação, o Hélio tinha mais duas pessoas em vista, mas acabou fechando comigo. Eu fui por duas razões, primeiro porque realmente a Época tava numa fase ascendente, era a revista brasileira que mais crescia em venda de assinaturas e tal, tinha acabado de receber um prêmio, em 2006, de veículo do ano, não sei o que, era uma equipe super jovem, eu tinha total confiança no João Gabriel, assim, foi um cara com quem eu aprendi muito, eu tinha certeza que ele não ia me colocar numa roubada, e tinha essa sensação de: “Vamos fazer uma revista maior que a Veja gente, tem espaço pra isso, a Veja pode ser a maior, mas a gente não precisa ser refém dela, vamos fazer uma revista que repercuta, que venda, outra pegada e tal”, e aí fui pra lá, fiquei lá um tempo, nesse tempo eu fiz várias coisas, cheguei a acumular funções, teve um momento, em 2010, eu tava como editor internacional de uma parte de economia, que não é macro assim, mas era empreendedorismo, carreira e tal, sociedade, continuei, assim, tinha muita gente, uma equipe muito grande, muita coisa, e ao mesmo tempo foi legal porque foi isso que me qualificou pra depois dirigir a Época São Paulo, a Época São Paulo foi lançada há quatro anos, completou quatro anos agora, e eu já sou o terceiro diretor de redação, o que não significa necessariamente que nenhum dos dois anteriores não deu certo, mas que a revista foi muito bem lançada, quando ela surgiu ela entrou muito bem, depois ela entrou numa certa decadência, e enfim, tentaram dar umas soluções e tal, e foi aí que eu entrei. E agora, meio que reúne um pouco de tudo que eu fui me preparando, porque tem gastronomia que é uma coisa que eu gosto, tem essa coisa de cidade que ao trabalhar com televisão eu aprendi muito porque embora televisão você cubra um pouco de tudo, tem uma ênfase muito no: “Tá pegando fogo ali”, claro que não é tão Rádio News assim que a gente faz aqui na Época São Paulo, tem uma coisa de cultura, a gente sempre dá uma programação cultural muito grande, shows, exposições, dança, teatro, coisa pra criança e tal, porque isso tem a ver com a formação, e tem uma coisa que eu acho que, acima de tudo, que é o mais legal e tal, que é o que eu chamo de agenda positiva, que é assim, olhar pra cidade com o olhar daquele arquiteto que eu gostaria de ter sido ou o urbanista que eu não fui, mas que eu acho que tem um espaço de intervenção da mídia na cidade, como formadora de opinião nesse sentido, que é de conscientização sobre cidadania, sabe, que é fazer da cidade um ambiente melhor pra todo mundo eu vejo que a gente tem um problema ético terrível em São Paulo, que as pessoas não respeitam o espaço publico de jeito nenhum, é um desprezo total, isso tem muito a ver com ela não usarem transporte publico, com as pessoas usarem muito carro, porque aí você se sente dono daquele espaço, embora a rua não seja sua, o carro é, então você se sente dono, durante o seu descolamento você está num espaço privado, o que é um problema de conceituação, assim, da lógica da cidade, tem o fato de que a cidade é muito infeliz do ponto de vista de aceitar as pessoas a pé, ela é toda organizada pra carros, então as pessoas não ocupam a cidade também a pé, e nem de bicicleta, nós temos uma cidade quase toda ilhada com muitos condomínios fechados, com segurança privada, não sei o que, e eu acho que tem que criar um espaço mais elástico ai, onde as pessoas entendam que elas vivem em coletividade, que é uma cidade onde vivem 11 milhões de pessoas, e que todo mundo tem que olhar pro vizinho, tem que olhar pro lado, tem que dar bom dia, tem que falar por favor e é isso que eu to querendo fazer lá, eu sei que é uma coisa meio ambiciosa, parece até meio utópica, mas a revista tem essa pegada, eu acho que foi a única revista que fez uma capa de uma cidade sem carros, é um projeto totalmente inviável pra São Paulo, mas de repente pode ter um bairro sem carro, pode ter um bairro que não pode entrar carro, agora nas propostas dos próximos prefeitos, não sei se foi a Raquel Roinique, mas  teve um desses urbanistas que, na nossa revista justamente, sugeriu isso, botar um ligar que não entre carro, pras pessoas começarem a partir dali a entenderem o que é essa convivência com o espaço publico, a respeitar o espaço publico, e entender que você não é dono daquilo é todo mundo, quer dizer, não é de ninguém na verdade, teve uma revista da PUC de Minas, que outro dia eu peguei a capa, vi uma ilustração de cachorro fazendo as necessidades na rua e as pessoas não recolhendo, o outro jogando lixo, o outro estacionando na vaga de deficiente, o outro com o salto e tal, e na hora que você junta todos esses pequenos probleminhas, você vê que tudo isso é questão de decisão individual, não é questão de poder público, claro que é ótimo quando tem uma campanha de Respeite a Faixa, é ótimo, eu coloquei isso no meu editorial outro dia, mas tem uma coisa que eu acho que é assim: “Na sua casa você faria isso? Você deixaria o seu cachorro fazer necessidades na sala?”, não, ou se ele fizer isso porque ele ainda não sabe, você vai educar e você vai recolher, então porque na rua você não vai fazer isso? Você quer que o outro pise em cima? Então tem coisas que passa por educação, evidentemente, educação é fundamental, mas passa por como a mídia cobre a cidade, eu acho que a mídia, de um modo geral, tipo assim, o jornalismo da grande imprensa é muito pouco para o cidadão, envolve pouco a comunidade, eu acho que na Globo tá tendo agora as tentativas de tentar melhorar um pouco isso nos programas, o jornalismo tem um pouco mais essa ênfase na cidadania, de apoiar algumas ações e tal, mas eu acho que numa revista como a que a gente faz, é o espaço ideal pra jogar essas discussões, ter nisso uma bandeira, sabe, queremos construir uma cidade melhor, e é pra isso que eu to batalhando hoje em dia dentro do espaço que eu tenho, que não é muito grande, a revista é pequena, tem uma tiragem eu é um quarto da concorrente principal, mas eu gosto de olhar pra cidade de um outro jeito, e eu vejo que agora sim, então tá, quando eu entrei na Época eu queria fazer uma coisa diferente da Veja, e agora eu faço uma coisa totalmente diferente na Veja São Paulo, isso me dá uma satisfação pessoal incrível.
P/1 – Eu quero perguntar sobre essa coisa das melhores coisas der São Paulo, da onde surge essa ideia, conta um pouco disso.
R – Bom, a gente tem duas edições ao longo do ano, é uma revista mensal então são só 12 edições, 12 capas,  e tem duas que são temas que a gente tornou parte do calendário, que obrigatoriamente a gente sempre faz, uma é Razões para Amar São Paulo, foi inspirada, claro, em outras revistas que já fazem isso, a New York faz isso, e aí quando eu entrei eram 50, eu entrei no final de janeiro do ano passado, aliás, eu assumi o cargo de diretor no dia do meu aniversário , dia 26 de janeiro, e aí tinha esse formato que eram 50 razões para amar São Paulo, era uma coisa meio abrangente e tal, e quando eu assumi eu falei: “A gente vai escolher um tema específico e mais x razões”, e o tema foi bicicleta, justamente na edição passada, ganhamos mais x quilômetros de ciclo faixas e  mais 49 razões para amar São Paulo, esse ano foi São Paulo como capital da inovação, porque eu acho que uma vocação que São Paulo tem e que merece ser prestigiada é que aqui tem capital pra investir em ciência, tecnologia, pesquisa, aqui tem universidade, aqui tem mão-de-obra qualificada, aqui tem um espaço criativo importante por ser isso, tem vida cultural, tem shows, tem balada, tem casa noturna e tal, isso cria um burburinho que estimula as pessoas a criarem, e tem uma coisa também de usar essa energia pra pensar soluções pra cidade, então na edição de aniversário a gente mudou o projeto gráfico e não sei o que, e essa edição que é sempre Razões pra Amar São Paulo, que eu acho que a coisa mais legal que você pode fazer pela cidade é justamente reunir propostas nesse sentido. E a outra coisa, que é o melhor de São Paulo, é uma coisa de eleição mesmo, que aí é escolher o que a cidade tem de melhor, isso sai normalmente na edição de setembro, uma em maio, outra em setembro, e é isso, são os melhores restaurantes, as melhores baladas, e aí entra um pouco de tudo, como eu tava falando, desde cooperativa de taxi até a melhor piscina de clube pra você nadar, cursos, MBA, pós graduação, tudo o que a gente puder cobrir... O ano passado a gente tinha pensado até em Concessionárias de carros, não sei se da pra contabilizar isso aí, mas loja de bicicletas, por exemplo, a gente já colocou, mas aí, o melhor, eu acho que é diferente das razões para amar, o melhor da cidade recebe tipo um prêmio mesmo, a gente entrega uma placa pro cara, que nem o Fasano é o melhor restaurante italiano, o Dom é o melhor restaurante contemporâneo, Santa Luzia é o melhor supermercado, é um prêmio. E a outra coisa é propor soluções pra cidade, que foi o que a gente fez exatamente na edição passada, que foi 50 Propostas pro Próximo Prefeito, a gente convidou um monte de gente, a gente abriu isso na internet também pros leitores votarem e tal, a gente convidou gente que pensa na cidade e que tem alguma relação de afeto com essa cidade, pra propor coisas pra cidade, e disso a gente ta derivando outras, porque assim, quando a gente bota 50, cada coisa parece desse tamainho um verbetizinho de enciclopédia, então o que a gente tá querendo fazer é pegar os temas que apareceram de forma mais recorrente ali e dar a eles um tratamento com maior profundidade, pra gente foi incrível, porque a gente fez uma pesquisa junto com o IBOPE com os nossos internautas e 40% das pessoas falou que o maior problema da cidade é transito, só que poucas pessoas tomam a iniciativa de deixar o seu próprio carro na garagem, né , é aquele negócio: “Eu acho que o prefeito tem que resolver o transito”, mas eu mesmo não sei, e sobre isso tem uma coisa que eu acho curiosa no brasileiro, mas acho que nas pessoas de um modo geral, assim, que quando eu tava na Época a gente fez uma pesquisa, foi em 2010, a gente fez uma pesquisa com um instituto sobre como o brasileiro se vê e o que ele espera do próximo presidente, e eu abri a matéria escrevendo o seguinte: “Quando se olha no espelho, o brasileiro vê um sujeito integro, honesto, solidário, que se relaciona bem com a família, que promove o bem estar, não sei o que e tal, quando olha pro lado, ele só vê gente safada, sem vergonha, corrupta que não tem senso de civilidade e tal”, mas é a mesma pessoa, são as mesmas pessoas, uma coisa é como você se vê e gosta de passar pros outros e outra coisa é o que você realmente faz, pratica, então é aquele negocio: “Você acha que tem racismo no Brasil?”, “Tem”, “Você é racista?”, “Não”, tá, então é isso, e aí o que a gente tá tentando fazer é mostrar essa dicotomia: “Mas e aí, e você?”, e aí uma das coisas que a gente fez no começo do ano foi o Curto Verão em São Paulo, que foi uma capa, tinha a Mariana Ximenes segurando um cartaz com um positivo assim, do face, curtiu, porque assim, São Paulo ta aí, mas chega o verão todo mundo vai embora, a coisa mais legal é você ir embora, ir pra praia, pra outro lugar, sair de São Paulo, fugir de São Paulo, e São Paulo tem muita coisa legal pra você fazer durante o verão também, desde exposições, sabe, parques, SESC Belenzinho, sei lá, tem um monte de coisas pra você fazer, sorveteria, lugar pra tomar drinques, cerveja, seja lá o que for, mas o lance é esse, a pessoa fala que gosta de São Paulo porque aqui é bom pra trabalhar e ganhar dinheiro, mas a pessoa não faz nada pra que São Paulo seja bom pra ela viver esse negócio de curtir a cidade, sabe, de ter afeto, é uma coisa que a gente tá...

P/1 – Bom, a gente tava falando dessa parte profissional e eu fiquei um pouco curioso com a historia que a gente tava falando lá fora, dos vinhos, quando que entra essa coisa dos vinhos? Que você começa a...
R – É isso que eu tinha falado da coisa de tomar decisões que eu aprendesse alguma coisa comecei a gostar de vinho, viajando e tal, fiz alguns cursos, degustações, e aí chegou uma hora que eu tive um negócio de querer aprender mais, e não dava pra conciliar uma carreira de critico de vinho com o que eu tava fazendo naquele momento da minha vida como editor da Época, o que dava pra fazer era pensar em reportagens sobre vinho em que eu possa aprender alguma coisa e também revelar coisas que as pessoas não estão falando, muito bem, comecei a ir atrás de uma história, que saiu uma matéria no Suplemento Agrícola do Estadão, falando sobre produtores de uvas viníferas no interior de São Paulo, até é um cara que eu conheci, se chama Daniel Micheleto, e aí tinha lá um numero de telefone, que ia ter um curso na Unicamp, na faculdade de engenharia de alimentos, sobre vinificação, e que viria um chileno pra dar o curso, eu liguei pro cara, pro professor, e falei: “Gostaria de acompanhar essa aula, posso?”, ele falou: “Claro”, cheguei lá, comecei a conversar com ele, se chama Claudio Messias, e ele era da área de fermentos, leveduras e tal, e aí eu falei: “E aí, como é que é, vocês aqui na Unicamp estão fazendo esse esforço sobre vinificação, mas tem matéria-prima, tem uva boa?”, ele falou: “Bom, é isso que a gente tá tentando, aqui na Unicamp a gente reuniu quatro áreas pra tentar criar um programa de fomento à produção vinífera no interior de São Paulo”, as quatro áreas são a faculdade de agronomia, engenharia de alimentos, química e relações internacionais, relações internacionais pra trazer esse pessoal de fora pra cá pra pastar os produtores, química pra fazer a analise fina de... Eles tem a sorte de estar do lado de Paulínia, compraram um negocio lá de leitura de compostos químicos e tal, custa um milhão e meio de dólares, que se não tivesse o petróleo não teria dinheiro pra isso, mas você bota uma gota de qualquer coisa lá e ela te dá todos os compostos químicos em uma fração de segundo, e aí começaram a usar isso pra fazer a analise do vinho, do vinho, da semente, da uva, de tudo, sem contar, claro, a agronomia e essa parte de engenharia de alimentos, paralelamente a isso, o Paulo Skaf, presidente da FIESP, tinha feito um acordo lá com a cadeia produtiva de uva e vinho em São Paulo pra reduzir o imposto que incide sobre o vinho, pra estimular os produtores, conseguiu fazer esse lob junto com o governo do Estado, o Serra, era chamado de Primavera Fiscal, eles reduziram pela metade o imposto, então estimulou novos produtores a entrarem no negócio, pequenos produtores ou grandes, a fazerem mais investimentos porque ia ter essa redução fiscal, e o Instituo de Agronomia de Campinas, o IAC, tinha um outro investimento de tecnologia de poda invertida, que ia ser você colher a uva em outra época do ano, quando chove menos e não sei o que, tem uma maturação maior e tal, bom, eu comecei a ir atrás de todas essas histórias e z uma matéria grande na Época, de seis páginas e tal, indo atrás dos novos produtores, a matéria chamava O Novo Mapa do Vinho no Brasil, gente que tava produzindo vinho no interior de São Paulo, no interior de Minas, que alias, tem um vinho bom pra caramba em Três Corações, chama Estrada Real,  super bom, um vinho estruturado assim, super... E aí por trás disso também tem um outro cara, que é um cara que ta produzindo mudas no Brasil ta vendendo pra Miolo, pra Salton, todas essas grandes produtoras lá do Sul, que é da EPAMIG, a EPAMIG é uma espécie de Embrapa só que do governo de Minas,  e em Minas tem uma produção de vinho muito grande, mas vinho barato, são vinhos populares, vinhos de garrafão, mas esse cara foi estudar em Bordeaux e voltou com essa ideia de melhorar, e mesmo aqui no interior de São Paulo, por muitas gerações foi produzido vinho de baixíssima qualidade vinho popular, tem mercado pra isso, mas alguns produtores começaram a ver que haveria espaço também pra levantar o nível da produção, então assim, eu vejo pelo marido da minha empregada doméstica, que é motorista do Hilton e  tal, começou a ouvir conversas das pessoas sempre falando de vinho e tal e ele começou a querer tomar um Santa Carolina, e ele viu que saindo de um vinho de dez reais pra um de 18 o prazer dele melhorava muito bom, eu vi que tinha esse mercado crescendo, o interesse por vinho no Brasil aumentando, mais cursos, mais livros, mais feiras, mais negócios, e comecei a ir atrás de onde eu podia aprender mais, aí descobri que tinha esse curso de winemaker lá em Bento Gonçalves, já tinha tido uma turma, eu me inscrevi na segunda turma, fiz, e to produzindo o meu vinho agora, então na minha cabeça, assim, eu não quero ser critico de vinho, não quero ser produtor, talvez um dia eu venha a ser, mas eu quero entender o processo, eu quero entender de vinho o bastante, não pra ficar falando, assim, quando eu fui musico, eu era musico, entendia de musica, toquei, tive aula, teoria, pratica, tal, ter uma banda era meio que uma consequência disso, no vinho era mais ou menos a mesma coisa, eu quero entender o processo, como você combate as pragas, os fungos, como você poda e tal, pra depois, na hora que eu abrir a garrafa, botar na taça e tomar, eu saber toda a história que tem ali atrás, entendeu, aí comecei a viajar, já tinha feito algumas viagens que conciliavam vinho no meio, mas aí comecei a fazer viagens muito específicas pra isso, fui pra Bordeaux, pra Champagne, fiz outros cursos aqui no Brasil mesmo, e aí agora o meu vinho ta ficando pronto , a gente já fez uma degustação dele recentemente comparando com alguns vinhos top da região, claro, você não comparar com os melhores merlot’s do mundo não dá, é um vinho 100% merlot, com envelhecimento em barrica, e é um vinho que a gente deu muita sorte na safra, 2011 foi uma safra muito boa, muito boa, choveu na hora certa, porque tudo isso são condicionantes tem safras que são melhores e tem safras que são piores, a melhor safra da história do Brasil foi 2005, inclusive, o merlot produzido em 2005 em Bento Gonçalves, numa avaliação que foi feita, aliás, eu dei essa matéria também na Época, A Glória do Merlot Nacional, numa avaliação que foi feita pelo único brasileiro que é master of wine, que é um curso que existe desde os anos 50 na Inglaterra, mas que pouquíssima gente fez, se qualifica, é caro, e tal, esse cara mora na Inglaterra fazem 20 anos, ele é o único brasileiro que tem essa titulação, e ele fez como trabalho de graduação dele, de conclusão desse curso, um comparativo de 29, se não me engano, amostras de merlot, até uma certa faixa de preço, de 11 países, e reuniu 40 degustadores, vários master of wine, alguns críticos, o pessoal do trade importadores, gente do mercado, jornalistas e tal, e o limite de preço era 15 pounds no atacado, na Inglaterra, nem todos os vinhos precisavam estar a venda no mercado inglês, mas se fossem vendidos o teto era esse, então não adianta você botar um vinho de 300 reais, como existe no Brasil, porque ele tava fora, não iria competir, e aí dos dez melhores qualificados, oito eram brasileiros, e o melhor era brasileiro, é o da Miolo, que se chama Merlot Terroir 2005, é um vinho que vale uns 125 reais aqui no Brasil, mas no mercado inglês ele é vendido nessa faixa de 15 pounds, que dá, no atacado, sei lá, 60 reais, provavelmente um pouquinho mais hoje. E aí eu fiz essa matéria também e tal, fui me aproximando dos produtores, dos grandes, do pessoal da Miolo também, mas de pequenos produtores como o Lídio Carrara que é o cara que fica do lado da Miolo, lá em Bento Gonçalves é assim, tem a Miolo, aquele gigante, cinco milhões de litros por ano e tal, aí você vai no Lídio Carrara que é um produtorzinho,u ma casinha desse tamanho, uma coisa super artesanal, é aquela família que ta ali, são aquelas garrafas lindas com design super legal, são vinhos caros, que não passam em madeira, inclusive, e tal, e aí você vai conhecendo, conhece um, conhece outro, o Jonathan Nossiter, que é um cara conhecidíssimo porque dirigiu o filme Mondovino, ele casou com uma brasileira, mora no Rio, e a mulher dele fez um documentário chamado Vinhos de Chinelo, que é sobre pequenos produtores muito artesanais lá de Bento Gonçalves, aí eu fui conhecer essa gente também, e aí eu virei um grande entusiasta do vinho brasileiro porque eu conheci as pessoas e vi que, claro, tem problemas nem todos são bons, alguns são muito caros e quando você entra numa faixa de cem reais, você vai ter vinho do mundo inteiro pra competir, e alguns excelentes, da França inclusive, da África do Sul, da Austrália, da Nova Zelândia, da Califórnia, e aí eu comecei a dar garrafas de vinho de presente pra amigos, ou fazer algumas degustações surpresa, uma vez a gente fez uma degustação em casa só de pinonoar no Novo Mundo, não podia entrar francês, e o único brasileiro, que foi do Lídio Carrara, fico em ultimo lugar, entre cinco ou seis, agora eu não me lembro, ficou em ultimo, mas já é... Ta ali ficou em ultimo, mas tudo bem, o primeiro foi um da Califórnia, o segundo foi um da Patagônia, depois vieram, acho que, três chilenos e ele por ultimo, mas assim, não era tão pior. E aí, o que eu tenho feito muito, por um tempo eu mantive um blog lá no site da Época escrevendo sobre vinhos, mas não pra tomar um vinho e falar o que eu achei, isso não dá, fazendo reportagem mesmo, sabe, vinho que ganhou prêmio, vinho que não sei o que, brasileiros que estão produzindo vinho fora, no Chile, na Argentina, comprando condomínios, parcelas de terrenos onde o cara vai produzir pra você, meio que um mapa da coisa ali. E pro meu interesse pessoal, eu vou, claro, em algumas degustações e tal, mas eu não quero ser sommelier, eu não vou estudar pra ser sommelier, o meu interesse por vinho virou muito mais... Claro, é uma bebida que eu bebo sempre, eu aprecio, eu vou atrás, eu gosto de ler, tenho uma biblioteca boa sobre vinhos, compro muitos livros de vinho, revistas e tudo, mas o meu negócio, o que eu gosto mesmo é fazer o que eu acabei de fazer agora, na próxima edição da Época São Paulo vai sair, que é ir conhecer um produtor aqui no interior de São Paulo, ver o que o cara ta fazendo lá e revelar isso pras pessoas, então lá tem um negócio de colha e pague, como se fosse pesque e pague, mas é colha e pague, então você vai lá, o cara de dá um chapéu, uma tesoura, um cesto, ele te ensina a colher, daí você vai lá, corta e tal, e como eles estão trabalhando com esse negocio de ciclo invertido, é agora que ta dando a safra deles e vai até agosto, paga três reais o quilo da uva e come uma uva fresca ali, eles tem uva de mesa, que é a niagara rosada e tem Shirazpra fazer vinho também, se você quiser colher pra produzir o vinho, depois ele vai vinificar pra você e você vai ter a sua garrafa lá, com o seu nome e tal, essa coisa, eu acho que é isso, essa customização de você fazer o vinho sob medida no gosto do cara e tal, esse curso de winemaker que a gente fez lá no sul, eu fiquei muito amigo do grupo que fez comigo, era 20 pessoas, e tem gente de todo o tipo, tem professor de matemática de Botucatu, e tem cara que é presidente da Lorenzetti, e todo mundo fanático por vinho, um, esse cara que é professor, juro, ele é iraniano, veio pro Brasil, é professor de matemática, claro que o cara não vai ganhar uma fortuna, então ele compra  vinho assim... Já o outro tem uma adega com mil e oitocentas garrafas com todas as safras de todos os melhores vinhos e tal, só que você vai e todo mundo entende meio que igual, porque a paixão pela coisa, assim...E é um pessoal que, claro, tem gente metida? Tem, tem gente chata, mas quando sai dessa as pessoas são muito divertidas, era um barato, lá em Bento durante o curso, eu pegava o violão, a gente ia numa charutaria, ficava tocando: “Toca Raul”, sabe, e o papo vai fluindo de um outro jeito, é diferente de você sair pra ir num bar tomar cerveja, o vinho tem essa coisa mais meditativa, tem álcool, claro, mas você vai tomando de pouquinho e a conversa vai indo assim de um jeito que as coisas vão se encaixando e tal. Esse produtor que eu conheci lá em Três Corações, do vinho que se chama Primeira Estrada, a história da coisa é muito legal, por que se chama Primeira Estrada? Porque quando o Saint Hilaire veio pro Brasil e foi procurar as nascentes do rio São Francisco, ele passou por um lugar onde ele viu que existia produção de vinho feita pelos primeiros portugueses que trouxeram, que não tinha nada a ver com os gaúchos lá, que foram os italianos que trouxeram as mudas viníferas pro sul, tinha um pessoa produzindo vinho naquela região, no inverno, inclusive aqui dá duas vezes por ano a safra, que o que realmente acontece no Vale do São Francisco, é o único lugar do mundo que dá duas safras de uva por ano, por isso que eles produzem muito lá, em uma escala muito grande, as vezes até duas e meia, tem uma pequena entre as safras, porque é calor direto, muito sol, não tem essa coisa de variação de temperatura, eles usam um produto que chama dormex, que é pra planta pensar que ela entrou em hibernação, ela pensa que ta frio, entra em hibernação, faz o ciclo de frio e eles conseguem ter todo o ciclo de floração, de folhagem e tal, tudo isso num período curto, ao invés de durar cento e cinquenta dias é mais curto, então se consegue fazer isso duas vezes por ano. E aí o cara, esse pesquisador, se chama Murilo Regina, lá da EPAMIG, pesquisando e tal, ele viu que já existia, desde aquela época, esse vinho de inverno, e aí fez essa experiência lá numa fazenda que era metade café e metade leite, o café de Três Corações é muito bom, e essa cara, o dono da fazenda, ele teve a vaca que até hoje ta no Guiness como a vaca leiteria que mais produziu leite na história, tem até uma homenagem, Três Corações é a terra de Pelé e dessa vaca, a cava já morreu, mas até hoje ta no Guiness, e quando a vaca morreu esse cara ficou meio desiludido com o negócio de leite e tal, ele falou: “Pô, nunca mais vou ter uma vaca igual a essa”, e ele foi fazer um curso de vinhos, e apesar de ser médico e tal, ele é tem um jeito de falar, ele falava assim: “Ô professor, dá pra gente fazer um vinho desse lá na minha fazenda?”, e aí o cara falou: “Não sei se dá, mas dá pra gente tentar”, e como o cara tem muito dinheiro ele fez esse investimento, plantou, se eu não me engano, quatro variedades, acho que foi sauvignon blanc, chardonnay de branca, cabernet sauvignon, e merlot de tinta, não, e cirra, então foram cinco, pra ver qual dava o maior rendimento, Shiraz foi super bem, as outras não forem bem, mas Shiraz foi, e aí eles começaram a colher, claro, o primeiro ano nunca é tão bom, o segundo ano, pa,rá,rá, chegou no terceiro ano, e realmente... Quer dizer, em geral a planta leva quatro ou cinco anos pra começar a produzir, então em oito anos ele já tava com a uva, assim, com uma concentração, uma maturação fenólica, como eles chamam, super avançada e tal, e aí vinificaram, já tinham vinificado antes, mas experimentalmente, e aí vinificaram pra escala comercial, e aí no rótulo é um desenho da estrada real que passa ali, vai desde Diamantina até Paraty, e no contra rótulo o cara conta toda essa historinha do Saint Hilaire que foi pra lá, que viu e tal, quer dizer, retomou uma historia, então assim, eu acho muito legal que tem isso, sabe, tem wine chato, tem produtor picareta, tem cara que compra prêmio, tem cara que compra jurado de degustação, tem tudo isso, mas tem muita gente boa, e ter contato com essa gente, com as pessoas legais, abre um outro campo de conhecimento na minha vida uma coisa que eu não imaginava fazer, que agora eu to fazendo, não sou critico de vinho, na revista que eu dirijo eu não escrevo sobre vinho, quem escreve é um sommelier, que é o Gianni Tartari, que é sommelier do Emiliano, com que eu já tinha feito cursos também, tenho muitos amigos no meio, que escrevem e tal,  mas eu não escrevo, eu prefiro produzir e beber.
P/1 – A gente já ta chegando perto do final, eu vou fazer, então, duas perguntas finais, uma delas é: Dentro desse cenário que você ta fazendo agora, o que você ta imaginando, sonhando pra você? Profissionalmente, pessoalmente, enfim, sonhos.
R – Ta, eu sou uma pessoa muito, assim, motivada por metas, sabe, eu gosto de colocar um desafio e falar: “Eu vou lá, eu vou fazer aquilo”, não escalar o Everest, mas assim, eu vivo tentando estabelecer desafios que eu consiga me superar, sabe, contar coisas novas pra mim e tal, quando eu fui morar na Granja, por exemplo, foi isso, eu não imaginava que eu poderia morar numa casa daquela e tal, mas eu falei: “Bom, será que não dá, vamos atrás, vamos ver, de repente você acha uma oportunidade de negócio boa que te dá uma qualidade de vida totalmente diferente do que você imaginava”, sabe, eu moro num lugar que é totalmente verde, cercado de plantas, é uma delícia e recentemente eu namorei com uma menina que mora em Paris há muitos anos, a gente se encontrou lá, eu já conhecia, mas ela era amiga de faculdade da minha irmã, está morando em Paris há 20 anos, eu me vi muito morando lá nessa coisa de começar a entender mais de vinhos, poder estudar mais, pensando que tinha que fazer cursos lá e tal, mas como diz uma musica do Caetano Veloso: “O nosso amor não deu certo, gargalhadas e lágrimas”, me separei, ela não queria vir morar aqui, eu ,depois de um certo tempo, também não ficava muito lá, fui algumas vezes a Paris nos últimos tempos, fiquei três semanas em março, mas não rolou, e quando eu voltei pra São Paulo, eu falei: “Bom, já que eu não vou sair daqui mesmo, não vou morar em Paris, nada, eu vou tentar reinventar o meu trabalho”, eu acho que uma das coisas que tava me jogando pra lá era que eu tava um pouco desencantado com o que eu tava fazendo, com o jeito de fazer e tal, não com a revista em sim, mas um pouco o jeito de fazer as coisas, trabalhar numa editora desse tipo Editora Globo, família Marinho, tudo isso, que são coisas que tem uma pegada, uma vez eu até tava falando com a Rosana uma coisa, que os meus patrões são um dos caras mais ricos do Brasil, tudo bem, eles fazem coisas boas pro Brasil o Roberto Marinho tem uma baita coleção de arte, fez a Fundação Roberto Marinho, que é legal, tem coisa legal, só que eu trabalho pra caramba pros caras quererem sempre ter mais metas e ganhar mais dinheiro, e não sei o que, pra comprar um jato novo, sabe, tem umas coisas que são meio... Você fica: “Será que é isso?”, o cara tem um avião de 50 milhões de dólares, bom, tudo bem, ok, não vou culpar o estilo de vida dele, mas aí eu tenho que demitir quatro pessoas, sabe, aí as vezes eu fico um pouco desiludido não com o trabalho, mas com a mecânica, com o que envolve isso, com o tipo de negocio em que a gente ta, e como são as relações, e de repente você saber que uma pessoa acabou de comprar uma casa, entrou num financiamento, aí você fala: “Desculpa, mas a gente não atingiu as metas que tínhamos, então eu vou ter que te demitir”, e aí o cara ta no olho da rua pagando uma baita divida porque ele achou que tava seguro ali, e aí eu pensei que a melhor coisa que eu poderia fazer pra mim e pra minha equipe era tentar  fazer com que todo mundo se sinta parte desse barco, assim, que a gente ta junto, quer dizer, agora a equipe é menor, teve essas demissões no final do ano passado, mas que todo mundo tenha tesão no que ta fazendo, o tempo inteiro, seja pro site, seja pro ipad, seja pra revista, mas que as pessoas cheguem casa não só com a sensação de que fizeram bem feito, mas também: “Poxa, como eu gosto dessa profissão, como eu gosto disso”, e isso é super difícil, motivar as pessoas estimular, deixar que o trabalho seja criativo e que traga uma realização e tal, mas aí eu falei: “Bom, acho que não tem outro jeito, tem que ser assim”, o nome do meu vinho é Striatum, striatum é uma área do cérebro responsável pela sensação de recompensa, não é um neurotransmissor, não é uma coisa tipo cerotonina, é diferente, e a sensação de recompensa é super importante pras decisões que você toma, a sua tomada de decisões depende muito da sua experiência do que você foi contemplado, então eu comecei a me organizar, botar a minha vida meio nesse sentido, então agora, a gente mudou o projeto gráfico da revista, por exemplo, foi um jeito de olhar pra revista como se fosse uma coisa totalmente nova, até postei isso no face book, o legal de você mudar um projeto gráfico é que parece que você nunca viu aquela revista, realmente você nunca viu aquela, daquele jeito, o conteúdo pode até ser meio parecido, mas o logotipo é diferente, a tipologia é diferente, alguma coisa muda e você fala: “Que legal, nunca vi essa revista na minha vida”, e foi eu mesmo  que fiz, engraçado isso, e eu acho que agora eu to muito nessa de envolver as pessoas que trabalham comigo, tentar abrir um pouco a cabeça delas pra pensar a revista de formas diferentes, e muito com essa inserção de como a gente pode aproveitar o nosso espaço pra, de alguma maneira, criar essa agenda positiva, sabe, olhar pras praças de São Paulo e , por exemplo, tem uma maneira que a gente pode fazer uma intervenção nas praças, que melhore? Que não seja só um mato crescido e a gente culpa a prefeitura que não tem nada lá, se tiver vamos fazer, sabe, isso é um desafio. E tem outra coisa que é meio que um legado do meu pai, logo que ele morreu, tem pouco mais de um ano, fez um ano agora em 30 de abril, e ele tinha essa coisa da ABLA que eu falei Associação Baririense de Letras Artes, e logo que ele morreu a primeira coisa que eu fiz foi me engajar num trabalho voluntario, que foi uma casa que se chama Casa de Cultura e Cidadania,  e ajudei um pessoa lá em Barra Bonita a montar uma rádio comunitária, essa rádio foi montada de um jeito, que assim, eu ajudei eles a criar o conteúdo e  tal, mas eles no tinham a radiodifusão, a rádio era uma coisa muito simples, como um coreto de cidade do interior, tinha dois alto-falantes nos postes em frente a uma escola pública que eles ocupam lá, que é a sede do negocio, era uma escola que tinha sido desativada, aonde teles tem aulas, eles tem tudo, e aí simplesmente eles iam lá e botava... Fizeram entrevista com vereador, com prefeito, e botava só pra comunidade, porque ele não tinham equipamento de radiodifusão,  e eu fiquei super feliz que me mandaram outro dia um documento que eles estão entrando, tem uma lei e tal, com 50 mil reais pra comprar esse equipamento pra fazer uma rádio mesmo ali, e aí se isso acontecer, é uma coisa que eu vou continuar mantendo esse trabalho supervisionando, fazendo oficinas, porque ai vai ser uma rádiode verdade,  eles não podem simplesmente ficar tocando musica sertaneja e funk o dia inteiro, eles vão ter que ter conteúdo e pra mim vai ser muito legal, mesmo que eu não esteja tão presente, acompanhar a evolução desse pessoal. E por que eu escolhi fazer rádio? Não é uma coisa que eu faça, nunca trabalhei com rádio, embora tenha sido casado muito tempo com uma produtora de rádio, mas é porque o rádio tem uma coisa de dar autonomia pra pessoa, da pessoa ter que falar, dela ter que romper as suas proibições, dela ter que se superar, então eu fiquei pegando aquele pessoal, filho de cortadores de cana, bóias-frias, lá de Barra Bonita, que não sabiam falar direito, aí levei um filme pra eles assistirem, que é o Discurso Do Rei, e teve algumas pessoas que eu fiz um laboratóriozinho meio rápido de técnica de fono, e lá em Barra Bonita tem uma eclusa, o barco chega, enche de água, sobe pra passar pra o outro nível do rio, que tem uma empresa hidrelétrica, e tinha uma menina que não conseguia falar eclusa, ela só falava: “Ecrusa”, e aí na hora que ela conseguiu falar eclusa, ela falou: “Ploglama”, ela emendou assim, e aí eu falei: “Não, vamos trabalhar isso ai, a gente só vai considerar o trabalho encerrado quando você fizer direito”, e, pô, pra ela foi uma emoção porque ela não conseguia e ela passou a conseguir, e tinha um cara que era gago,aí quando ele veio se inscrever na primeira oficina que eu dei lá, eu falei assim: “Cara, que acho que é melhor você ficar na parte de bastidores edição e tal, porque você vai ter muita dificuldade pra falar, mas vamos tentar”, e no finalzinho eu consegui, ele leu um texto inteiro sem gaguejar, porque ele ficou se esforçando, ele ficou lendo aquilo, sabe, então dar isso, dar a palavra pra pessoa, deixar com que ela possa se expressar pros outros e ali e tal, eu acho que aí você transforma,e também a própria narrativa da vida dela, a memória, tudo isso passa a existir, porque ela começa a ter voz então são as duas coisas que eu to envolvido, quer dizer, de um lado, tornar a revista melhor pras pessoas que lêem e que fazem, e ajudar essas pessoas, porque eu acho que ganhando esse negocio da rádio, tendo essa viabilidade, pra mim vai ser uma realização pessoal incrível. E aí abrir meu vinho. 
P/1 – Celso, você não tem filhos.
R – Não, três cachorros, três pastores-alemães, uma família, pai, mãe e filha, Bento, Lola e Teddy Tedesco, que em italiano, Tedesco é alemão, ele é um pastor alemão, a minha ex-mulher era italiana, então é isso,
P/1 – A ultima pergunta é o que você achou de contar essa sua história hoje, aqui?
R – Ah, achei muito legal, é claro que tem muita coisa que ficou de fora, muita coisa, inclusive essa parte de mulheres, pessoas que me influenciaram nesse outro ponto de vista, de afetividade, acho que eu falei muito pouco da minha mãe também, dos meus irmãos, acho que desde o começo eu acabei indo mais pro lado do trabalho, mas enfim, o que eu acho legal é que quando a gente começa a puxar pela memória a gente vai lembrando de coisas que tiveram conseqüências claro que você pode lembrar de fatos totalmente isolados, mas, por exemplo, quando eu atirei a tesoura na minha imã porque ela tinha tido uma operação e ela tomou sorvete e eu não, e eu acho que no fundo é legal você olhar pra trás pra tentar dar sentido pra sua vida então assim, voltando ao trabalho, esse cargo que eu ocupo hoje, tudo o que eu fiz no passado me trouxe até aqui, e eu acho que a gente tem que ficar olhando sim pras coisas que a gente vem fazendo,  longe ou mais perto, pra entender quem a gente é e dar um sentido pra isso, até, pra no meu caso, como eu falei que eu sou uma pessoa que gosta muito de colocar metas, ver quais elas são, quer dizer, o que é possível e o que não é. Só pra encerrar mesmo, eu tive um câncer, e aí eu me separei logo em seguida, depois o meu pai morreu, eu tava fazendo análise, e ai a minha terapeuta perguntou uma coisa assim, tipo, eu tava falando sobre Jornada do Herói que é uma coisa que eu uso, eu dou aula na FAAP, na pós-graduação em jornalismo cultural, e aí eu uso muito essa coisa de narrativa, a Jornada do Herói e tal, e ai ela falou assim: “Em que momento você se vê, da Jornada do Herói, agora?”, eu falei: “Eu me vejo num momento em que eu tenho que fazer novas alianças e redescobrir os meus super poderes” , eu continuo me vendo assim, e eu to fazendo novas alianças, to conhecendo vocês, conheci a Rosana, conheci a Carmem, são pessoas que estão me trazendo outros conteúdos, outras coisas que não tem nada a ver com o meu trabalho, terça-feira a gente foi numa exposição aqui na Imã, e ai a mulher do dono da galeria foi apresentar a gente, eu e a Rosana, pra um pessoal lá, ela falou assim: “Eles são jornalistas”, e a Rosana: “Não, eu sou historiadora”, e é legal isso porque eu só fui casado com jornalistas, agora eu to namorando com uma historiadora, é diferente e tal, legal isso assim.
P/1 – Você teve um câncer do quê, Celso?
R – Da tireóide. Foi uma coisa simples, mas uma cirurgia complicada, sete horas, claro, coloca a sua vida muito em perspectiva, desse câncer eu sei que eu não vou morrer porque o tratamento é feito de um jeito e tal, mas com 43 anos você descobrir que você tem um tumor maligno e que a única coisa possível é uma cirurgia que você vai ter que tirar a tireóide, vai ter que tomar um remédio todos os dias da sua vida pra substituir aquele hormônio que a tireóide produzia, só isso já é complicado, foi um momento conturbado da minha vida, minha ex-mulher também tava tendo problemas de saúde paralelamente, parece que foi uma coisa automática assim, e logo em seguida a gente se separou e tal... Então, eu poderia estar olhando pra essas coisas e: “Putz, que merda tive um câncer, me separei, meu pai morreu”, mas eu vejo tudo isso como coisas da vida, coisas que a gente aprende com isso, e que vão fortalecendo, são lições.
P/1 – Eu queria finalizar pensando nisso, tem uma frase do Picasso que ele fala que a gente não procura, a gente acha e depois que a gente achou, a gente tem que olhar pra trás pra ver como a gente chegou aqui. Acho que quando você for rever essa entrevista, você vai ter o CD, o DVD, tal, se você sentir vontade, se quiser, se você pensar: “Putz, agora, revendo isso aqui eu queria contar mais coisas sobre isso ou aquilo”, eu acho bacana, eu sou a favor disso no Museu, da pessoa voltar, porque isso aqui é uma narrativa que foi feita em um dia, de uma história, então você vai encontrar com os seus familiares, e quando você quiser...
R – Lógico, eu nem falei dos meus amigos invisíveis, por exemplo, que eu tive, tinha uma turma, professor até .
P/1 –  Exatamente, mas de qualquer maneira, obrigado por hoje, por ter vindo contar aqui, Celso, valeu.
R – Eu que agradeço a oportunidade, obrigado.

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