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História

Célia: o alicerce da família

História de: Célia Compagno Cyrino Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2004

Sinopse

Célia nasceu em 6 de outubro de 1945 na cidade de Itápolis, São Paulo. Nos conta sobre as origens de sua família, sobre a sua juventude no interior, o seu ótimo desempenho na escola, influência de uma família de educadores. Na escola, fala da notícia da morte de Getúlio Vargas e outros episódios. Aos 15 anos, muda-se com sua família para São Paulo e conclui o ensino médio na Escola de Aplicação da USP. Depois, opta por Letras na USP, relatando sobre os conflitos da Ditadura Militar e sobre a perseguição civil. Fala sobre o sucateamento da educação pública que observou se agravar. 1993 seria o divisor de águas em sua vida. Sua filha morre em um acidente de carro, que traz imenso sofrimento para a família, principalmente por já ter sido alertado por uma sensitiva. Neste período de provação intensa, encontra apoio principalmente na família e amigos, na terapia e no contato com a religião espírita kardecista. Algum tempo depois, descobriria um câncer na tireoide e conta sobre o longo tratamento, mas diz ser pouco se comparado à morte da filha. Célia, agora aposentada, nos traz uma história de vida muito rica de experiências, sofrimento e superação. Hoje ainda tem planos de se tornar uma advogada que trabalhe voluntariamente com processos civis para aqueles que não tem condições de pagar.

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História completa

P/1 – Boa tarde.


R - Boa tarde, Jurema.

P/1 – A gente quer começar com a senhora falando o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

R – Meu nome é Celia Compagno Cyrino Pereira. Nasci em Itápolis dia 6/10/1945.

P/1 – O nome dos seus pais?

R – René Malet Cyrino e Otávia Compagno Cyrino.

P/1 – Fala um pouco da origem da família do seu pai. O nome dos seus avós, as atividades.

R - Os meus avós são primos. Eles são da família Malet, os pais deles vieram da França. Vieram duas famílias Malet. Uma para organizar o Exército, outra para organizar a educação no Brasil. No começo do século XIX. E uma parte da família foi para o Rio Grande do Sul, que é o Emílio Malet, e o Júlio Malet veio para São Paulo. Para a região ali do Vale do Paraíba, depois para o interior lá da alta araraquarense. Até hoje tem o Colégio Malet Soares no Rio de Janeiro que é da família Malet, da educação, né?

P/1 – Eles vieram juntos?

R – Vieram juntos. E o Malet do Exército é o patrono da Artilharia.

P/1 – É de origem francesa?

R – Francesa o meu pai, a família do meu pai. Agora o meu pai já nasceu...

P/1 – Conta um pouco...

R - ...é caipira do interior mesmo.

P/1 – (risos)

P/2 - Mas um dos Malets era o seu avô?

R – Bisavô.

P/2 - Bisavô.

R – Avô do papai. Isso.

P/2 - Que era o Malet da educação ou do Exército?

R – Da educação.

P/2 - Da educação, tá.

R – Tanto que a família toda minha avó era professora, minhas tias. Na época que mulher não trabalhava minha avó e as irmãs já trabalhavam com educação.

P/1 – Conta um pouco dessa influência francesa na vida de vocês.

R – Bom, na casa da minha avó e na casa do meu pai sempre teve muita música. Eles estudaram música clássica. Minha avó era pianista e dava aulas de piano. O meu pai era violinista. E tem assim muitas, muitas composições. E tocava também piano e a gente chamava de sanfona, né? Meu pai tocava qualquer instrumento. Isso, assim, trouxe uma veia artística e musical para a família. Os meus filhos também gostam de música. O meu filho toca. Minha filha que faleceu também tocava. Então é, e na educação, né? Essa família francesa que veio para trabalhar com educação foi muito marcante no sentido de valorizar a criança, o adolescente. A formação do homem através do cuidado com a criança.

P/1 – O nome dos seus avós paternos?

R – Julieta Malet e Luís Cyrino da Silva.

P/1 – Agora vamos falar um pouquinho da origem da família da sua mãe.

R – É, são os italianos. A minha avó Carmela veio da Calábria e o meu avô Antonio veio de Trieste, do norte da Itália. Uma região que estava sempre em disputa com Iugoslávia e Alemanha. Ele falava várias línguas. Estudou em colégio suíço. E na época da, no final, na virada do século, né, houve lá uns problemas da Itália, sempre em guerra, né? E eles migraram. Se conheceram em um navio. Casaram e foram morar na alta araraquarense também. Em Itápolis, ali para aquela região. De Itápolis, de Borborema, de Araraquara. E ele apesar de ter tido uma educação refinada, ele falava várias línguas, ele foi ser tropeiro.

P/1 – Hum, hum.

R – Viajava com peão, cozinhava para peão. E depois começou a comprar terras, acabou virando fazendeiro. Fazendeiro de gado e de café. Quebrou em 29 como todo mundo. Se refez, se levantou de novo. E as famílias eram numerosas. Teve 11 filhos, mas criou só sete ou oito. Nem me lembro mais. O outro teve catorze e criou acho que nove. E que mais?

P/1 – O nome dos seus avós?

R – Antonio Compagno e Carmela Estela Compagno. E ele foi um dos fundadores da Santa Casa de Misericórdia de Itápolis. O nome da rua do hospital é Antonio Compagno.

P/1 – E seus pais se conheceram em Itápolis?

R – Meus pais se conheceram em Itápolis.

P/1 – Você sabe como é que foi esse encontro, essa história?

R – (risos) Eu, a minha mãe estudava no Colégio Santa Marcelina, interna aqui, né? E o meu pai estudava em Campinas. Então nas férias eles iam passar na casa dos pais. E através de uma tia, de uma irmã do papai eles se conheceram. E começaram a namorar. Minha tia ficava segurando vela, né? Aquela coisa toda de antigamente. Os meus avós muito severos. Se casaram. Eram professores os dois, né? Primeiro eles se formaram e aí eles foram lecionar no interior. Minha mãe andava de charretinha. Ia para, morar em Nova América, morar em Itapinas. Minhas irmãs nasceram em casa, com parteira.

P/2 - (risos).

P/1 – Ela dava aula de quê?

R – Ela era professora primária. O meu pai também, depois quando eles se transferiram para Itápolis ele chegou a ser diretor de um dos grupos lá da cidade. Mas sempre eles se aposentaram como professores primários.

P/1 – E daí desse casamento nasceram quantos filhos?

R – Três filhas.

P/1 – Três filhas?

R – É. Eu tenho uma irmã mais velha chamada Leny, uma irmã do meio chamada Nely, e eu que felizmente não sou Cely. (risos) Sou Célia.

P/1 – (risos)

R – Era muito “Y”.

P/1 – Conta da sua infância lá em Itápolis. Essa época das três irmãs? É muitas diferença de idade?

R – Bastante. Bastante. Da irmã mais velha eu tenho oito anos e da irmã mais nova cinco. E era assim muito bom, né? Eu era a caçulinha mimada por todo mundo. Mas só que elas foram estudar fora em um colégio interno em São Carlos. Então eu era muito sozinha. Então eu tinha assim amigos invisíveis. Animais que eu brincava. Minha mãe e meu pai tinham um curso de preparatório para a admissão. Tinha exame de admissão para ir para o Ginásio. Da quarta para a quinta série existia um exame que chamava Exame de Admissão. E eles tinham um cursinho de admissão em casa. De manhã e de noite, de manhã eles davam aula e a tarde eles preparavam 20, 30 alunos para prestar esse exame de admissão. Um cursinho mesmo, né?

P/1 – Hum, hum.

R – E eu assistia às aulas. Então com quatro, cinco, seis anos eu já sabia ler, escrever tabuada, fazer conta.

P/2 - (risos) Estava quase preparada para admissão.

R – Quando eu entrei no primeiro ano eu já sabia ler e escrever. No segundo já, já, eu corria tabuada. Fazia competições de tabuada com alunos da terceira e da quarta série eu sempre ganhava. Por causa desse incentivo familiar, né?

P/1 – E esses amigos imaginários como é que eram?

R – Eram assim companheiros de uma criança sozinha, né? E que gostava de fantasias, de histórias. Então eu conversava. (risos) Pedia muito para minha mãe para ter um irmão, né? Para eu ter uma companhia. Mas ela não quis saber não. Ela falou que três já era demais.

P/1 – (risos).

R – Não teve jeito.

P/2 - Tinha amigos de rua, assim? Brincava na rua com outras crianças?

R – Os meus pais não me deixavam muito ir para a casa dos outros não. Eu trazia mais crianças para dentro da minha casa. Eu brincava mais com os primos. Tinha muito primo, né? Toda noite a gente ia para a casa da vovó. Era uma coisa muito gostosa porque de dia todo mundo ia para a escola, estudava e a noite a gente, nós nos reuníamos na casa do vovô. Os homens jogavam truco as mulheres assistiam o Direito de Nascer no rádio.

P/1, P/2 - (risos)

R – Era no rádio. O primeiro Direito de Nascer. (risos) E a gente dormia. Brincava, brincava. Corri, caía. E depois deitava cada um em um sofá em um canto e dormia. Ia no colo, de cavalinho para casa.

P/1 – Toda noite?

R – Toda noite. ________

P/1 – Você tem lembrança da, do Direito de Nascer do rádio, alguma coisa?

R – Você sabe que eu tenho?

P/1 – Então conta um pedacinho para a gente aí.

R – Eu lembro, eu lembro lá do Albertinho Limonta falando e a minha avó toda emocionada. As minhas tias choravam. A minha mãe chorava. Aí os maridos chegavam e falavam: “Mas vocês estão chorando por causa de novela de rádio? Isso tudo é de mentirinha.” “Ah, mas a história é muito triste.” (risos).

P/1 – (risos).

R – Eu não entendia muito ainda, né, eu estava mais interessada em Mickey, Pato Donald.

P/2 - Que idade você tinha nessa época?

R – Eu tinha seis. Cinco, seis anos. O meu avô, entre quatro e seis na verdade. O meu avô fazia coleção de gibi. Então eu era assim, eu era fascinada pelo meu avô e pelos gibis dele.

P/1 – O seu avô paterno ou materno?

R – O meu avô materno.

P/1 - Materno.

R – Materno. O avô italiano. Antonio.

P/1 – E o avô paterno tinha contato?

R – Muito, muito. Embora não tanto, não fosse todo dia para lá eu tinha uma relação muito boa com meu avô paterno. Ele era muito alegre, muito brincalhão. Me punha no joelho. Fazia brincadeiras. Abria a perna, eu caía no chão. Morria de rir. Ele era uma pessoa alegre.

P/1 – E a avó?

R – A avó mais distante. A avó não. A avó eu me lembro dela balançando na rede, dando ordem lá para as crias, né? Que ela criava pessoas para ajudar no serviço de casa, né? E ficava supervisionando. Gostava muito da comida dela.

P/1 – E essa casa que vocês iam todas as noites do seu avô, como é que era? Você lembra dela?

R – Mas perfeitamente. Era uma casa de esquina. Nós temos inclusive quadros que a minha mãe, a minha mãe hoje tem 87 anos, vai fazer e ela pinta. E uma das coisas que nós fizemos com que ela pintasse foi dois quadros da casa exatamente para a gente guardar. Estamos querendo que ela pinte um terceiro para ficar um para cada filha.

P/1 – (risos).

R – Era uma casa muito grande, uma casa de esquina que tinha porão. E o pessoal punha muito medo da gente no porão. Tinha adega. Passava um riozinho dentro da casa porque na adega e na dispensa antigamente não existia geladeira, né? Então no meio da casa era um cômodo em desnível com água corrente passando...

P/1 – Nossa.

R - ...para manter a comida, o presunto, os pães que as mulheres faziam em casa. Macarrão a minha avó fazia em casa. Eu lembro das mesas de macarrão, cheia de macarrão. Guardavam nessas dispensas tudo protegido, né? Tudo com tela para não entrar barata, para não entrar rato. Tudo pendurado.

P/1 – E esse riozinho era construído para isso mesmo?

R – Era. Passava, era coberto com, tinha uma canaleta de cimento e em cima uma tampa de madeira. As crianças tiravam a tampa, a aguinha corria ali dentro da dispensa.

P/2 - Mas é rio natural, a casa foi construída em cima de um rio?

R – É, rio natural.

P/1 – Oh, que interessante. Nunca ouvi falar de casa assim.

R – E em baixo tinha outro. O rio grande, bem maior. E essa casa foi muito importante porque meu avô e minha avó criaram todos os filhos lá e todos, depois alguns mudaram. Mas os que moraram em Itápolis e ficaram durante muito tempo sempre se reuniram lá. O meu tio mais novo quando se casou morou com eles lá durante a vida inteira. Quando eles vieram para São Paulo depois que os meus avós morreram desfizeram as sociedades, partilharam a herança, aquela casa ficou para a minha mãe. Então foi muito bom porque os meus filhos cresceram lá.

P/1 – Vocês continuaram mesmo depois, sem os seus avós continuarem lá?

R – A casa continuou a ser o centro de reuniões. Claro, aí não se viam mais, as pessoas não se viam mais todas as noites. Mas nas férias eu ia com os meus filhos. Botava a bicicleta debaixo do ônibus e eles cresceram lá no quintal com as crianças. Parreira, jabuticabeira, limoeiro, laranjeira, mexeriqueira.

P/1 – E ainda hoje a casa permanece?

R – Agora a gente vendeu. Os meus, a minha irmã, minhas irmãs todo mundo, minhas sobrinhas saíram para estudar. Eu casei, vim para cá. Minha outra irmã mudou, minha outra irmã mudou. Minhas sobrinhas foram estudar em Ribeirão Preto. A família dispersou, né? Os meus pais acabaram vendendo a casa comprando uma em Ribeirão. Mas foi assim um ponto de referência para todo mundo aquela casa.

P/1 – Hum, hum. E conta dessa, mais, algumas brincadeiras que vocês faziam na casa.

R – Brincadeiras? Bom, quando eu era criança?

P/1 – Hum, hum.

R – A gente brincava de amarelinha, de pular corda, de barra manteiga, de casinha, de comidinha, de lama. Construíamos casinha com barro no quintal. Subíamos em árvore. Balanços.

P/1 – Isso você e seus primos?

R – Escolinha. Eu e meus primos.

P/2 – Vocês tinham mais ou menos a mesma faixa de idade?

R – É, com tanta gente assim tinha, tinha desde gente com 12 anos já pré-adolescente até recém-nascido. Tinha para todas as faixas etárias. Porque eram nove filhos, né? Nove tias e tios cada um com dois, três, quatro. Então era bastante gente. Era bem alegre.

P/1 – E fala uma coisa, você falou que criou seus filhos também nessa casa. Como é que eram as brincadeiras dos seus filhos na mesma casa?

R – Com os meus sobrinhos. E para, bem diferentes das nossas. Eles brincavam de circo, eles brincavam de zoológico. Menos a água. A água, o barro e subir na árvore é tudo igual, né?

P/1 – (risos).

R – E andavam de bicicleta. Mas eles já não pulavam corda, já não gostavam da barra manteiga. Eles tinham outros interesses, né? Andavam muito de bicicleta na rua. Na época deles também tinha o clube que na minha época não tinha. Então criança é louco por água e piscina, eles gostavam muito. A gente levava muito no clube para eles nadarem. E era basicamente isso. Reunião para fazer shows de dança, de música, de canto e brincadeiras de subir em árvore, de andar de bicicleta, de esconde-esconde, pegador.

P/1 – Agora vamos voltar um pouquinho para a sua infância na época da escola. Como é que era a escola naquela época? A influência, você chegou a ser aluna dos seus pais?

R – Eu fui aluna da minha mãe na quarta série. Não gostei nada. (risos)

P/1 – (risos) Por quê?

R – Porque ela era muito brava. Era muito exigente. E uma vez eu a coloquei assim em uma situação bastante delicada. O diretor da escola era um ferrenho opositor de revistas em quadrinhos. E eu era apaixonada. Eu tinha uma tia que tinha livraria, então eu depois que terminava a lição eu descia para a livraria da minha tia, papelaria e revistaria, né? Meu tio era o dono do jornal da cidade – O Progresso – e eu ficava a tarde inteira lendo. Todas as revistas que chegavam eu lia. Todas. E com isso o que aconteceu? Eu desenvolvi um vocabulário muito rico em relação às crianças que liam menos. Então o diretor estava em uma campanha para queimar gibis na escola. Ele estava passando nas salas para perguntar quem lia gibi para questionar a validade de ler ou não ler gibi. E para pedir para quem tivesse gibi em casa que trouxesse determinado dia que ele ia fazer uma queima de revistinhas.

P/1 – Nossa.

R – Porque o que a gente tinha que ler era livro e não gibi. Na época a gente chamava tudo de gibi, né? Era Mickey, era Pato Donald, Mickey, né? Essas coisinhas. O Zorro. Tarzan. É, como é que chamava aquele que morava na selva? Fantasma. E aí ele fez uma preleção lá que criança precisava ler livro. Que criança precisava ser responsável, patati, patatá. Vocês querem ver, por exemplo, e aí ele perguntou uma, “Quero ver quem é que sabe aqui o que é avalanche? Por exemplo. Alguém aqui nessa sala sabe o que é avalanche?” E eu era pequenininha, magrelinha, feinha, vesguinha. De oclinhos na primeira carteira. Quietinha lá, né? “Aí, está vendo? Ninguém sabe o que é avalanche.” Aí a minha amiga que sentava perto de mim era faladeira. Acho que por isso que eu sentava com ela. Eu era quieta, ela era faladeira. Para a gente se contrabalançar um pouco. “Ah, a minha amiga aqui sabe.” Eu fiquei roxa. Tive uma adrenalina assim. Meu coração veio aqui. Ele olhou para mim, era um homem muito enorme, bravo. Barbudo, bigodudo. Eu fiquei até com falta de ar. “Você sabe?” “Sei.” Aí: “O que é que é?” Aí expliquei, né? Ele falou: “E onde você aprendeu isso?” Aí eu fiquei branca.

P/1 – (riso).

R – “No gibi.” (sussurra).

P/1, P/2 - (risos)

R – Aí a minha mãe queria morrer, né? Ele ficou todo sem graça. A minha classe ninguém levou gibi para queimar não. A gente guardava como relíquias.

P/1 – Era coisa proibida, né?

R – Era coisa proibida.

P/1 – E outras situações de escola assim que te marcou bastante?

R – É, a minha escola era muito boa. A minha professora de primeiro ano era uma tia minha, irmã do meu pai. Todas as minhas tias são professoras, e os meus tios também. E ela fazia gincana entre os alunos. Então fazia aquelas contas: oito trilhões novecentos e oitenta e cinco milhões quinhentos e vinte e cinco mil vírgula zero zero dividido por um algarismo, dois algarismos, três algarismos. Ficava aquelas contas que a gente, eu subia na cadeira para fazer. Começava lá em cima terminava aqui em baixo. E eu não conseguia, eu não competia nunca com criança da minha sala. Porque como eu tinha aquele feedback, né?

P/1 – Hum, hum.

R – Ela me punha para competir com meninos do quarto ano, da terceira série, da quarta série. Isso foi bastante marcante para mim. O coral da escola era marcante. As festas, das danças. É, assim, eu não me lembro, assim. Ah, o eclipse marcou a gente. A morte do Getúlio. Suspenderam as aulas mandaram a gente para casa. A criançada ficou tão feliz do Getúlio ter se matado, porque foi para casa. Olha?

P/1 – Vocês tinham quantos anos?

R – Seis. 1954? Foi 54? 54. Sete anos. Estava no segundo ano.

P/1 – E como é que foi a colocação da escola sobre isso?

R – Uma consternação. Getúlio morreu, nós vamos parar de dar aula, vamos embora para casa. Ninguém explicou para a criançada quem era o Getúlio.

P/1 – Vocês não tinham nem ideia de quem era?

R – Não. Não. Era, era o presidente do Brasil. Mas o que é ser presidente do Brasil? Sabe, ficou o trauma dele ter se matado que era uma coisa insólita, né, e não muito usual no meio provinciano ali de uma cidadezinha de 30 mil habitantes incluindo zona urbana e rural. Pequenina.

P/1 – Então cada um que se matava vocês achavam que não ia ter aula?

R – Que não ia ter aula.

P/1 – (riso).

R - _______________

P/1 – E aí depois você passou toda a sua infância lá em Itápolis?

R – Até os 15 anos. Aí as minhas irmãs entraram na faculdade. Elas estudavam aqui na PUC. A minha irmã do meio se casou. Estava ainda para terminar a faculdade, meu cunhado era viajante, ele viajava. Ele era representante comercial. Fazia Paraguai, Foz do Iguaçu. Mato Grosso, Goiás, Rio Grande do Sul. E a minha irmã não podia ficar sozinha. Então nós vendemos tudo o que tínhamos lá e viemos para cá. Em 60 e, nossa não lembro mais. 61. 1961.

P/1 – E como é que foi a chegada em São Paulo depois de toda essa...

R – O maior trauma do mundo. Horrorosa. Odiei São Paulo. Lá eu era, tinha clube, eu era presidente do clube das meninas. Dançava todo fim-de-semana nos bailinhos. Nadava no clube com as amigas. Eu era capitã do time de basquete da cidade, né? Era importante. Tinha 400 amigas íntimas. Namorados para escolher. Chegou aqui, meu pai me trancou em um apartamento e não me deixava sair.

P/2 - Chegou aqui com que idade?

R – 15.

P/1 – 15 anos.

R – Então eu odiei São Paulo. Fui estudar no Colégio de Aplicação. Uma escola de alto nível. Escola de Aplicação da Usp. Mas os meus amigos e as minhas amigas que vieram foram estudar no Roosevelt, né? Então até das minhas amigas que vieram também se preparar para a universidade eu me separei. Então foi um período muito triste. Foram três anos assim ruins.

P/1 – Que é que você fazia nesse tempo além de estudar? Ficava presa dentro de casa?

R – Eu só estudava e ouvia música e lia. E lia. Eu sempre li muito. Então eu gostava muito de ficar lendo e fim-de-semana eu saía com uma irmã, com a outra irmã. Aí a minha outra irmã também casou. Então vieram morar os dois cunhados conosco. E eu saía com eles. Um fim-de-semana com uma irmã, outro fim-de-semana com a outra. De vez em quando os amigos me levavam para um bailinho. Agora foi interessante porque dessa época eu mantive algumas amizades. Uma professora da União chamada Lenita. Da União Cultural Brasil-Estados Unidos. Eu tenho amizade com ela até hoje. Depois ela foi professora dos meus filhos. A Esther Góes foi da minha turma no Colégio de Aplicação. Nós fizemos um reencontro agora de não sei quantos anos de formados. Na casa de uma, da Darci no Alto de Pinheiros. E foi muito interessante porque rever a turma que se formou em 63, né, quantos anos? Quarenta?

P/1 – 40 anos, né?

R – Vai fazer.

P/1 – Vai fazer 40 anos o ano que vem.

R – Vai fazer 40 anos em 2003.

P/1 – Tem que comemorar.

R – E foi muita gente. Por incrível que pareça.

P/1 – Como é que vocês conseguiram encontrar essa turma?

R – Partiu da Lenita e da Darci. A Magadário eu tive contato na prefeitura que ela era procuradora da prefeitura, eu era, eu fazia programação da rede. Programação de currículo da rede. Mantive contato com algumas pessoas. Então, através da internet. A gente se encontrou.

P/1 – E conseguiram. E foi muito tempo de separação a turma? Que vocês não se viam?

R – 38 anos, né?

P/1 – Ah, vocês não mantiveram contato sempre?

R – 38 anos. Eu mantinha contatos esporádicos com algumas. Algumas mantinham contatos esporádicos. Mas juntar todo mundo inclusive os meninos. Que eram uns molequinhos tudo mais baixo que a gente. Eu não tinha noção de onde estavam esses meninos. E foram quatro deles.

P/1 – Olha que interessante.

R – Era uma turma de Clássico. Então tinha pouco homem. Eles faziam mais Científico naquela época para ir para a área de Exatas e Biológicas. Área de Humanas eram poucos.

P/1 – Me conta um pouco dessa história. Ela era perto da Avenida São João, né? Era.

R – Ela era na Gabriel dos Santos. Os professores eram professores da Usp. Era uma escola piloto. Nós tínhamos orientação educacional. Nós tínhamos professores que eram professores da Usp. Era uma escola de elite. Tanto que toda a minha, todo mundo entrou na faculdade que quis.

P/1 – E quais eram as atividades diferenciadas de lá?

R – Além da orientação profissional tinha o, o, espera aí deixa eu ver como é que chamava. Teatro do Colégio de Aplicação. O Teca. Que revelou a Esther Góes, né?

P/1 – Hum, hum.

R – Ela começou lá. Nós tínhamos aula de ioga. Que era uma coisa diferenciada já para aquela época. Junto com os esportes normais. O colégio era pequeno, não tinha muito dinheiro não. Mas tivemos aula de grego, de espanhol, junto com o francês e o inglês que eram parte do currículo, né?

P/1 – Hum, hum.

R – Era uma escola...

P/2 - Era tipo um Colegial? No período do Colegial?

R – É, Clássico. três anos de Colegial.

P/1 – E nesse período você disse que ficou mais assim em casa, lendo, música, estudando, né?

R – Isso.

P/1 – Não tinha muitas amizades assim.

R – Não, não tinha.

P/1 – E namorados?

R – Também não.

P/1 – Também não.

R – Namorava lá em Itápolis. Nas férias quando eu ia.

P/1 – Ah, é. E seu marido é de lá?

R – Não, é daqui. Conheci na época do vestibular. Foi namoro arranjado. A gente segurava vela para um casal de amigos. (riso)

P/1, P/2 - (risos)

P/1 – Então conta um pouco agora desse período que você...

R – De vestibular?

P/1 – É, de vestibular. Como é que foi a sua opção pela sua carreira?

R – Foi pânico. Foi terrível. Com toda a estrutura que o Colégio de Aplicação tinha ninguém conseguiu me orientar. O meu pai queria que eu fizesse Medicina. Eu queria fazer ou Direito ou Psicologia. Mas como os tempos eram apertados, começaram a nascer os netos do meu pai. Minhas irmãs começaram a ter neném. Meus cunhados ganhavam pouco dinheiro.

P/2 - Vocês moravam juntos? Desculpa eu te interromper.

R – Sim.

P/2 - Pelo que eu entendi vocês moravam em uma mesma casa.

R – Em uma mesma casa.

P/2 - Mesma casa.

R – Nós morávamos todos juntos.

P/1 – As duas irmãs casadas?

P/2 - Casadas.

R – As duas irmãs casadas, tanto que a primeira sobrinha a gente ajudou a criar. Aí quando a minha irmã terminou a faculdade – a menina nasceu, a minha irmã ainda estava na faculdade. Estava fazendo Sedes. As minhas duas irmãs fizeram Pedagogia no Sedes Sapientiae. Que hoje é a Puc, né. E eu fiz na Usp. Quando a minha irmã ficou grávida de gêmeos ela resolveu ter as crianças lá em Itápolis. O meu cunhado abriu negócio com o pai e foram morar lá. Quando as gêmeas nasceram a minha mãe foi atrás. Mas aí a minha segunda irmã já tinha também o Carlos Eduardo. Que é o meu sobrinho. A Taís é a mais nova da do meio, o Carlos Eduardo é o mais velho da mais velha. E eu cuidava das crianças. Eu me entretinha com os meus sobrinhos. Eu sempre gostei muito de criança, eu ficava brincando com eles. Aí a minha mãe foi junto. Eu fiquei morando com a minha irmã. Morei com a minha irmã em São Paulo até casar.

P/1 – Como é que era essa relação da, de praticamente três famílias morando em uma casa só?

R – Olha, por incrível que pareça o único problema era falta de dinheiro. Porque era muito harmonioso. Os meus cunhados trabalhavam fora. Viajavam muito. Então eu nunca vi nenhum conflito de família. E as minhas irmãs sempre passavam o dia todo fora também trabalhando. Elas estudavam, elas trabalhavam. E a minha irmã do meio quando engravidou das meninas, das gêmeas foi morar no interior. Aí logo quando as meninas nasceram a minha mãe foi atrás, né? Então quando eu fiquei noiva a minha mãe já não morava aqui em São Paulo.

P/2 - Sua mãe e seu pai?

R – Os dois, sim. Os dois.

P/2 - Ficou só com a sua irmã?

R – Fiquei com a minha irmã, meu cunhado e as duas crianças que ela tinha na época.

P/2 - Hum, hum.

R - Depois ela teve um terceiro depois que eu casei.

P/1 – Daí você começou a namorar?

R – Aí eu comecei a namorar.

P/1 – Conta essa época aí para a gente. (riso).

R – (riso) Bom, aí eu quis fazer cursinho. Aí eu primeiro me matriculei no cursinho da Usp. Tinha ali na Martinico Prado na Santa Cecília. E frequentei o mês de agosto. Mas aí a gente já morava lá no Aeroporto. Então eu ficava o dia inteiro fora de casa comendo porcaria, né? Acabei tendo uma úlcera.

P/1 – Nessa idade?

R – É. Aí o professor...

P/2 - Você já tinha decidido que faculdade você ia fazer ou não?

R – Pois é, aí eu resolvi fazer Letras. Por quê? Porque eu já dava aula em casa para colegas desde os treze anos. Mesmo lá em Itápolis quando eu estudava no Ginásio. Na sétima série eu já dava aula para a turma da quinta. E na oitava eu já dava aula para a turma da sétima. Aula particular. Então eu gostava de dar aula, eu gostava de estudar. E o Direito eram cinco anos, a Psicologia eram cinco anos. Eu fui mais assim pela premência do dinheiro mesmo para fazer Letras, sabe?

P/1 – Hum.

R – Aí o professor Jacó que era meu professor do cursinho e tinha sido meu professor no Colégio de Aplicação virou um dia para mim e falou: “Célia, pega o material do Colégio de Aplicação e estuda em casa. E resolve que faculdade você vai querer fazer e se inscreve a hora que sair. Não vem mais no cursinho. Gastar dinheiro à toa? Nós estamos repetindo aqui as aulas lá do Colégio de Aplicação. Você não precisa fazer cursinho.” Aí eu segui o conselho dele. Fiquei estudando em casa. Até o dia de entregar a inscrição na faculdade eu ainda queria fazer Direito. E o meu pai falava para mim: “De advogado o Brasil está cheio. Daqui um tempo vai ter tanto advogado no Brasil que vocês vão ter, não vão ter como sobreviver. Faz Medicina.”

P/1 – Ele queria que você fizesse Medicina.

R – De qualquer maneira. Falei: “Tudo bem pai. Para eu ter feito Medicina você tinha que ter me avisado três anos antes. Porque aí eu teria feito Científico e não Clássico. Eu não sei nada de Física, Química e Biologia. Não tenho noção do que é isso.”

P/1 – Mas você tinha ideia de, gostava alguma coisa ou não? Não tinha nada a ver com você?

R – Pois é, eu tinha aptidão múltipla, né? Eu gostava de tudo.

P/2 - Não te desagradava pensar em fazer Medicina, né?

R – Não. Não. Eu era excelente em línguas. Mas tudo o que eu estudava eu aprendia. Era uma questão de estudar. Aí eu fui fazer Letras. Fiz Anglo-germânicas. Na época do cursinho eu fui, meus pais viajaram. Meu pai tirou umas férias. Eu fui estudar com uma amiga muito preguiçosa. Mas muito boa gente. E uns amigos de Itápolis vieram me visitar. Eu tinha um namoradinho lá que veio me visitar. Trouxe o irmão e tal, a gente foi passear. O nome dela é Flora. E a Flora e o Domingos começaram a namorar. E quando eles começaram a namorar eu me afastei do irmão dele. E aí ele começou a trazer um amigo para segurar vela para ficar conversando comigo para me distrair, né?  (risos).

P/1 – (risos) Para ele poder aproveitar.

R – A gente ficava fazendo pipoca, fazendo quentão no inverno. Fazendo chocolate. Fazendo refresco na cozinha, fazendo cafezinho. E eles namorando na sala e nós dois na cozinha batendo papo. Pá, pá, pá. Aí depois de seis meses de sairmos os quatro juntos, porque o pai da Flora também não deixava sair sozinho, aí eu comecei a namorar o meu marido.

P/1 – Já está ali mesmo, né? (riso)

R – Comecei a namorar o amigo. Já que nós estamos aqui, né, vamos participar da conversa. Aí nós nos casamos em janeiro de 69 e eles foram os nossos padrinhos. Eles se casaram em fevereiro de 70. Nós fomos padrinhos deles.

P/1 – Mas vocês casaram antes?

R – É, nós casamos antes. Porque o meu marido fez Veterinária e em cinco anos ele se formou. E ou marido da Flora fez Medicina então ele demorou seis anos. Ele resolveu fazer Psiquiatria, teve que fazer ainda residência, né? Então eles demoraram um pouquinho mais, um ano a mais para casar. Mas tiveram filho antes. Depois se separaram. Foi um trauma a separação deles para mim e para meu marido porque a gente jamais imaginava que um casal pudesse casar, ter filhos e se separar. Isso assim nunca tinha passado pela nossa cabeça. E foi acontecer justo com os nossos amigos. É aquele, igual aquele filme, começou a querer discutir a relação. (risos)

P/1 – (risos)

R – Por que será que essas duas pessoas tão bem casadas, se gostando tanto, com duas crianças dois menininhos pequenos, como que eles vão se separar? A gente nunca conseguiu entender muito. E também naquela época eu não sei se as pessoas eram, as pessoas eram bem mais fechadas. Era vergonhoso se separar. Era uma coisa feia, né? Ninguém comentava muito. Ninguém perguntava. Hoje não, hoje você chega você brinca: “Você ainda está casada com aquele mesmo cara? E você ainda está casado com a mesma?”, né? Hoje a gente brinca: “Separou? Casou quantas vezes já?”.

P/1 – “Ainda não separou?”.

R – “Ainda está casado?” É, tem amigo nosso que fala: “Puxa, vocês ainda estão casados? Quantos anos vocês estão se aguentando, heim?” Mas naquela época era um trauma. A gente nunca entendeu muito bem. Na época a gente não entendeu muito bem o motivo da separação. Aí eu fiz as Letras no quarto ano, terceiro ano eu já comecei a dar aula. No quarto ano eu já peguei um colégio bom. Quando eu me formei já peguei o diploma, já estava na lida. Já estava até dando aula para, eu tinha 20 anos, 21 anos e dava aula para pessoas de 17. Terceiro colegial. Eu já peguei logo de cara um terceiro colegial e uma oitava série. No Sacre Coeur.

P/1 – Conta um pouco desse período da universidade, né, que foi um período de repressão no Brasil?

R – Meu Deus do céu. Uma caipira do interior chegou em São Paulo, não saía de casa. De repente entrou na USP. Entrei na USP e na PUC. Entrei na PUC em primeiro lugar e na USP em terceiro. Aí me ofereceram bolsa na PUC, eu fiquei muito tentada a fazer o curso lá. Até porque as minhas duas irmãs eram da PUC, né? Tinham estudado na PUC. Mas pelos problemas financeiros, né, pôxa você tem condições de estudar na  USP, vai desprezar? Aí eu fui para a USP. Maria Antônia, 64. Terrível. Terrível. Eu me lembro da renúncia do Jânio. Eu me lembro da condecoração de Che Guevara antes. Eu me lembro da renúncia do Jânio. Me lembro do conflito que foi para o vice assumir. E me lembro do golpe militar. E senti na pele as brigas. Porque a Cavalaria, e os cachorros, e o gás lacrimogêneo iam frequentemente na Maria Antônia. A USP estava em processo de mudança. Existiam alguns, o campus da Cidade Universitária estava sendo construído e alguns cursos já tinham se mudado para lá. Letras ainda não. Já tinha ido Psicologia, já tinha ido Ciências Sociais. Alguns cursos já tinham ido. História e Geografia. Mas Letras funcionava ainda na Maria Antônia. E era um grêmio bastante agitado. Era a época do Carlos Vogue que é o ex-reitor da Unicamp. Ele era presidente do grêmio. E de vez em quando baixava a polícia lá e invadia o grêmio que era lá no subsolo. Quebrava tudo. Quebrava máquina, quebrava violão. Batia nos alunos. Era uma coisa assim absurda. Quando a gente não apanhava da polícia a gente apanhava dos mackenzistas. Havia uma verdadeira guerra entre Mackenzie e USP da Maria Antônia. Principalmente o Direito do Mackenzie que na época criou o Comando de Caça aos Comunistas. O famoso CCC. E de vez em quando eles paravam as aulas, eles interrompiam as aulas e iam lá. Dar pedrada, quebrar janelas. Interromper nossas aulas. Eu me lembro que um dia a gente estava na aula do professor Antonio Cândido, aula de Teoria Literária, e houve uma invasão. A gente encostou a porta, a mesa na porta para não deixar ninguém invadir a aula do Antonio Cândido. E eu peguei essa transição. Então eu comecei na Maria Antônia e terminei na Cidade Universitária. A Veterinária também mudou nessa época. O meu marido começou a estudar na, lá na Aclimação e terminou no campus da USP também. Na Armando Sales Oliveira. Cidade Universitária. E foi uma época terrível. Porque você nunca sabia se você ia ter aula, se você ia, não ia ter. Uma amiga minha muito bicho-grilo, uma amiga minha não, uma conhecida. Metida lá com, se casou nessa época. Depois eu a reencontrei alguns anos depois e ela me disse que o marido tinha desaparecido. Ela ficou com o filho pequeno para criar. Nunca mais ela soube do marido.

P/1 – Até hoje não apareceu.

R – Nunca, não apareceu. Nunca apareceu. E havia uma pessoa da família do meu marido também nessa época que era da Polícia Militar e participava dessas repressões e dessas incursões. Tanto na Maria Antônia como no Crusp. No Crusp moravam alunos carentes. Alunos estrangeiros, alunos carentes e alunos do interior. Que tinham direito a moradia e auxílio para refeição. Era um real uma refeição. Com direito a comer de tudo e inclusive sobremesa, suco ou leite, pão. E, mas havia muita efervescência intelectual lá. Principalmente nas Ciências Sociais, na História e Geografia. Era época de Geraldo Vandré, Zé Dirceu presidente da Une. Muita briga, muita luta. E a Polícia Militar vivia invadindo lá, prendendo gente. O pessoal pulando lá de cima, quebrando perna, fugindo. A gente, estudante apanhando, estudante sumindo. E em uma dessas batidas já mais tarde, eu já tinha saído da faculdade. Eu já estava casada. Então eu imagino que tivesse sido no segundo semestre de 69, depois do AI-5. Em uma dessas batidas policiais o primo do meu marido acabou prendendo a própria filha que estava participando de uma reunião de estudantes lá. E eles ficaram separados. Depois ela foi morar lá no, foi para o Araguaia, né? Ela repudiou o pai, a família. E só se reconciliaram 20 anos depois. Por causa da filha dela.

P/1 – Da neta dele.

R – Da neta dele. Que é a grande paixão.

P/1 – E ela chegou a perdoar o pai por esse...

R – (suspira) É uma coisa muito difícil que a gente não sabe. Eu acho que, não sei se, esquecer eu sei que ela não esqueceu. Deve ter perdoado porque ela permitiu, né, que a filha curtisse o avô. E o avô curtisse a neta. Ela deve ter perdoado.

P/2 - E o que é que essa época trouxe assim para você, para a sua vida comum, te marcou? O que é que trouxe?

R – Essa época me marcou de várias maneiras, né, Morgana. Em primeiro lugar, ela me fez ver que a violência não leva a nada. Violência é uma coisa ruim. Destrói as pessoas. Intransigência é uma coisa ruim. Então de um lado, radicalização é ruim. Extremos são ruins. A extrema direita é tão abominável quanto a extrema esquerda. Porque tudo que é xiita, tudo que é fascista, tudo que é radical e ortodoxo eu acho que impede o diálogo. O pensamento dialético. Atrapalha a sociedade. E destrói o ser humano. Nessa época eu me, eu sempre me coloquei contra a greve. Eu acho que greve é um recurso dos desesperados. Então me fez estabelecer assim um temperamento de diálogo e de conciliação. (riso) Melhor um mal acordo do que uma boa briga. Por outro lado, por outro lado trouxe uma coisa muito desagradável para a minha geração. Alienação política. Ódio a política. Alienação. Para poder sobreviver, poder trabalhar e poder criar filho em um país assim, né? Porque se por um lado você não tinha liberdade de expressão, você não podia escutar uma música de protesto. Você não podia ir em um teatro de arena. Por outro lado também não faltava emprego para a juventude. Não faltava emprego. Tinha para escolher. A educação era esmerada. As escolas públicas eram de nível A. Antigamente quem não conseguia passar na escola pública que ia para a escola particular. Na minha época a escola particular era depósito de maus alunos. O meu marido foi expulso de várias escolas porque ele só jogava futebol. Então como ele repetia, repetia, repetia ele ia sendo jubilado, né? Então ele acabou indo para a escola particular para conseguir se formar. Mas depois ele conseguiu fazer a USP e se tornou um aluno brilhante e um professor universitário. Mas as escolas públicas é que eram as boas. Era o Roosevelt, era o Colégio Aplicação. Era o Pedro II. Era a Praça da República lá, como é que chama o? Chamava, agora foi... Caetano de Campos. Toda essa elite intelectual de hoje foi fruto dessa escola pública que hoje está sucateada e não existe mais. Hoje está ao contrário. As escolas boas são as particulares. E a pública _____  para os carentes.

P/1 – Só consta que ela existe. (riso)

R – É. Muito deficiente. E eu trabalhei muito nessa área, trabalhei no Estado, trabalhei na Prefeitura e trabalhei em escola particular. Então pude por meus filhos na escola particular. Justamente pela educação esmerada. Mas a coisa se inverteu ao longo dos anos de ditadura, né? Começou...

P/1 – E como é que você avalia isso que em uma época de ditadura a escola era excelente e agora é ao contrário, né?

R – É que a tradição...

P/1 – Quando nós temos uma pseudo liberdade...

R – A tradição do Brasil era ter uma escola de qualidade, uma escola boa, né? Uma escola pública boa. Aí o que é que aconteceu? Com esse desenvolvimentismo, né, claro que precisava incentivar indústria, comércio. Mas começou a ser, a coisa se desfocou. O Governo passou a se preocupar com a Rússia, com o comunismo, com a polarização entre comunismo e democracia. E o Brasil ficou meio assim uma extensão, quinta, o fundo do quintal, o lugar de despejo dos Estados Unidos, né? Dos Unicefs da vida e tal. E eu acho que a educação aos poucos foi sendo sucateada. Eu acho que o marco divisor de águas está na década de 70. Por volta de 73. Eu me lembro que até 73 meu marido e eu conseguíamos comprar carro zero quilômetro. Depois de 73 nunca mais conseguimos. A gente comprava carro de segunda mão. O professor começou a ganhar mal, os projetos educativos começaram a ser desprestigiados. A escola pública começou a ter menos verba. E até a USP, que eu considerava uma ilha de excelência, começou a ficar sucateada também e hoje ela não é muito melhor do que a PUC em algumas coisas ela perde longe inclusive, né? Em alguns cursos. Há escolas melhores inclusive no interior, né? Eu acho que foi desfoque. Desfoque dos governos que ficavam preocupados com a manutenção do poder, com esse problema do comunismo. Essa neurose de ser o quintal dos Estados Unidos, né, nas mãos dos americanos. E educação que é uma coisa muito a longo prazo, que a gente planta hoje pra colher daqui a 20 anos acabou ficando relegada a segundo plano. E aí aconteceu o que está acontecendo hoje. Até que está havendo uma boa revirada, né? O Paulo Renato abriu o porão e deu uma, fez uma avaliação muito boa de universidades. Mas precisa melhorar. Precisa melhorar primeiro e segundo graus.

P/2 - Como é que era ser professora em uma época de repressão? Você tinha liberdade de ensinar as coisas que você acreditava ou você se...

R – Eu, no colégio de Estado foi muito ruim. Eu fiz dois concursos para colégio de Estado. Eu passei nos dois. Um eu passei em vigésimo oitavo lugar, o outro eu fiquei em terceiro. Na primeira vez eu escolhi, trabalhei, me dediquei. E era muito difícil. Era muito difícil. Não tinha verba. A gente ficava na fila de xerox. Não tinha biblioteca. Qualquer esforço que você fizesse: “Ai Célia, pára. Você trabalha muito.” Não sei, eu tenho assim um pouco de ideia que funcionário público é acomodado porque não tem patrão. Então eu sempre pedi exoneração. Eu fui também professora da Prefeitura. Trabalhei no órgão central. Trabalhei na época do Mario Covas prefeito e Jânio Quadros. Duas pessoas carismáticas e que davam toda liberdade para se trabalhar em educação. E incrível que pareça, depois que veio o PT [Partido dos Trabalhadores] sucateou. Pedi exoneração. Fui trabalhar só em escola particular. Hoje eu sou aposentada pelo INSS. Porque eu não aguentei trabalhar com o PT mandando. Em uma prepotência. Cada escola que vai fazer seu currículo. Olha, quatro anos de administração Mario Covas e três anos de administração Jânio Quadros. Eles chegaram e jogaram tudo no lixo. Como se não tivesse valido nada o que existisse em educação antes deles. Porque só eles eram donos da verdade. Só eles sabiam das coisas. E aí começou inclusive a perseguição, né? Perseguição. Eu voltei para a escola e começou a luta pelo poder dentro da escola de qual linha educacional ia ser seguida. E o PT começou a trazer a comunidade, os pais para darem palpite dentro da escola. Ou seja, eles desestruturaram todo um programa pedagógico que existia. Foi trabalhado por especialistas em sete anos. E eu me decepcionei inclusive com Paulo Freire que era assim um herói para mim. Que foi quem compactuou com isso tudo. E nem abriu o nosso trabalho para ler. Como se...

P/1 – Você deu aula quanto tempo?

R – 33 anos. Eu me aposentei, trabalhei dezessete anos no Sacre Coeur. Quando as freiras saíram ainda tentei ficar um ano, não consegui. Fiquei mais um ano. Aí fui trabalhar no Mater Dei. Estava abrindo o colegial. Fiquei onze anos. Três de São Luís. E nessa época eu trabalhei em Prefeitura, no Pueri Domus.

P/1 – Sempre com o segundo grau?

R – Sempre com o segundo grau. Com primeiro grau só no Estado e na Prefeitura. Na escola particular, na rede particular sempre com colegial. Porque eu sempre gostei muito de adolescente, né? Tinha mais dificuldade com criança pequena.

P/1 – E nessa época você já estava casada?

R – Estava casada. Eu casei em 69 que foi a época. Eu me formei em 68 e fiz pós-graduação, casada. Em 71 tive o primeiro filho. E quando eu estava para defender a minha tese de mestrado em 71 houve uma reestruturação universitária. Todas as reestruturações universitárias que houve no Brasil eu peguei. E todas me prejudicaram. E Mackenzie agora que eu estava fazendo Direito também. Peguei essa reforma do Paulo Renato, também prejudicou muito a minha turma. Aí o que é que aconteceu? Dezessete anos de Sacre Coeur, onze anos de Mater Dei, três anos de São Luís. Me aposentei. Sempre trabalhei com adolescentes mais a programação que eu fiz na Prefeitura em continuidade com o trabalho do Mário Covas foi de primeira a oitava série. Foi o primeiro grau. Hoje eu não sei como está. Me afastei bem dessa área. Aí no dia que eu me aposentei – eu continuei a trabalhar ainda um tempo – no dia que eu me aposentei eu enterrei uma filha que morreu em um acidente de carro. E aí eu comecei a, aí meu marido teve depressão, eu tive problemas e tal. Daí há três anos eu resolvi fazer vestibular.

P/1 – Então antes de você contar essa parte do vestibular, porque você voltou a fazer o que você queria, né? (riso) Direito.

R – Direito. Fui fazer Direito.

P/1 - Conta um pouco da sua vida familiar. Como você casou? O que é que você lembra dessa época?

R – Tudo _______. Lembro tudo. Mas deixa eu ver o que é que interessaria para vocês de depoimento assim.

P/1 – O principal é que o que interessa para você. O que é importante para você.

R – É, que é importante para toda mulher: conciliar. A vida familiar, papel de mãe e esposa com a vida profissional. Onde você quer ser uma profissional competente e reconhecida, bem remunerada. E ser boa nos dois lugares. Ou seja, aquela tripla jornada, né? Que toda mulher vive. E que hoje alguns homens vivem também, né, porque está muito diferente essa relação. O meu marido fez Veterinário, foi convidado para ficar na universidade. Fez mestrado, doutorado, livre docência. Ele fez toda carreira dele na universidade. Eu também fui convidada para ficar na área de Inglês. Nessa época que eu me formei eu dava aula na União Cultural e era boa aluna. Então fui convidada para ficar na área de Inglês. Mas na USP tinha assim: quem começa hoje fica com um, aliás, todo lugar, né? Fica com o rebotalho. Então eu estava esperando nenê, passando mal e teria que trabalhar a noite. Primeiro filho. Teria que trabalhar a noite na Cidade Universitária que era mato. Em 71 era mato aquilo lá. Então eu fiquei com medo. Eu preferi ficar trabalhando aqui por perto de casa. Eu trabalhei, sempre tive dois empregos, né, gente?

P/1 – Hum, hum.

R – Nessa época eu já estava no Sacre Coeur. Era acessível, era fácil de ir. Meu marido me deixava de manhã e pegava na hora do almoço. Então eu tive três filhos. É...

P/1 – Qual é o nome deles?

R – Daniel, Aline e Elaine. O Daniel nasceu em 71, a Aline em 75 e a Elaine em 78. Sempre foi muito difícil eu me dedicar para os alunos para a escola. Dar aula de português não é bolinho. Você não só tem que ler tudo que sai a respeito como selecionar as leituras. Fazer os alunos lerem também. Corrigir redação todo fim-de-semana. Eu tenho problema de coluna aqui pela postura da vida inteira ficar corrigindo redação e prova de aluno. Trabalho de aluno. Mas eu tive a ajuda da minha sogra. Ela morava sempre perto porque meu marido era filho único. Embora fosse complicada a minha convivência com ela porque ela competia muito comigo. A família dele é portuguesa. Então a mulher tem que fazer linguiça em casa, macarrão em casa. Molho de tomate em casa. Tem que cuidar dos filhos. Não pode trabalhar fora, né? E eu vim de uma família que as mulheres, a minha avó já trabalhava fora. A minha mãe a vida inteira trabalhou fora como é que eu ia ficar no fogão, né? Pôxa. Não gostava, não tinha. Então eu tinha muito conflito com a minha sogra. Porém como ela só tinha aqueles três netos era a minha grande vantagem, né? Ela tomava conta deles. Ela levava gemada, ela levava suco. Ela dava carinho. Mas...

P/2 - Trabalhava o dia inteiro fora?

R – Não. Quando nasceu a minha segunda filha para falar a verdade eu trabalhava só duas manhãs. Eu tive muito tempo pra eles. Para contar história, para brincar com eles. Para ir para o clube com eles. Eu fui muito presente na vida deles. Até para suprir um pouco a ausência do pai. Porque com essa pressão de teses, teses, teses de subir na carreira, né? Na carreira acadêmica era bastante omisso em relação às crianças. Mas conseguimos criar os três. E Daniel, eles fizeram escolinha lá no Clube Pinheiros, depois as meninas foram para o Sacre Coeur, o Daniel foi para o São Luís. Quando o Sacre Coeur foi alienado, ele foi alugado, sublocado eu tirei as meninas, foram todos para o São Luís. Então eles fizeram primário, ginásio e colegial no São Luís.

P/2 - Quando as meninas estudaram no Sacre Coeur você também dava aula lá?

R – Dava aula lá. A grande vantagem do professor é a bolsa de estudos para os filhos, né, Morgana?

P/1 – Você chegou a ser professora das suas filhas?

R – Cheguei. Só da do meio. Da Aline.

P/1 – E aí como é que foi?

P/2 - Como é que foi, é?

P/1 – Porque você foi aluna da sua mãe e foi professora da sua filha. (risos)

R – Foi um barato. Foi uma coisa muito gostosa. Muito gostosa. A gente sempre foi amigas. Na época que eu fui professora dela a gente ficou cúmplice. Irmã. Tanto que ela resolveu fazer Letras, né? Ela falou: “Mãe, eu vou ser uma professora igual a você ou melhor. Ou melhor, eu vou ser melhor que você. Isso eu vou te provar.” Aí ela foi fazer Letras. Mas não chegou a se formar, né? Porque ela faleceu em um acidente de carro. O Daniel fez São Luís. Fez ESALQ [Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz"] dois anos na Luiz de Queiroz. Desistiu, fez Arquitetura na USP. E hoje ele está fazendo MBA. E a pequena fez Veterinária. Foi seguir a carreira do pai. Está formada. Formou comigo. Ah, eu te falei, né? Aí eu resolvi fazer vestibular por vou...

P/1 – Agora...

P/2 -  ________________

P/1 – Então como é que foi essa coisa de, de voltar?

R - ... não vou ficar chorando a morte da minha filha. Entrei em um grupo...

(troca de CD)

 

P/1 – Célia, vamos retornar um pouquinho, depois da parada? Da sua tripla jornada de mãe, esposa e profissional.

 

R - Essa foi a maior dificuldade que a mulher enfrenta, da mulher que entra no mercado de trabalho, em primeiro lugar porque exige mais da gente do que exige dos homens, eu acho, ou a gente se exige mais, não sei, em segundo lugar você tem que ser melhor do muita gente, pra você se firmar e se manter no seu cargo, então é uma pressão assim bastante grande, e é muito difícil quando você entra na sua casa você esquecer os problemas que você enfrentou lá fora na sua profissão, então eu pude felizmente na época quando as minhas crianças estavam pequenas, eu estive com intervalos grandes de diferença. Não porque eu quis, mas, porque aconteceu assim, eu pude dar bastante atenção pra cada um deles, eu sempre brinco que tive três filhos únicos e depois eu tive problemas pro resto da vida porque cada um sempre esteve numa fase diferente do outro, um querendo festinha outro querendo sorvete, zoológico e outro querendo dormir, mamadeira essas coisas.

 

P/2 - Qual é a diferença de idade? Três anos?

 

R - Quatro e três, então do primeiro pra última são sete, então eles ficaram assim bastante diferentes, deram um pouco de trabalho...

 

P/1 - Daí você durante todo o crescimento deles você deu aula?

 

R - Sempre trabalhei, sempre.

 

P/1 - E o seu marido também?

 

R - E o meu marido também, sempre trabalhou, ele era professor da universidade, professor de anatomia na veterinária, o que mais...?

 

P/1 - Então agora você fala da sua volta aos estudos.

 

R - Aos estudos.

 

P/2 - Antes se você pudesse, seria legal se você falasse sobre o acidente, o que aconteceu com a sua filha?

 

R - Está meio relacionada, está meio relacionada, porque quando eu me aposentei, eu saio, eu pedi aposentadoria, demorava pra sair naquela época, até me arrenpedi de ter pedido, pedi na esteira do Collor e houve achatamento na época do Collor e da Zélia aqueles dois doidos lá, eu saí do São Luís... o Daniel já estava mais velho, já estava fazendo a segunda faculdade, a Aline estava saindo do São Luís, a Elaine estava entrando no colegial, eu tive uma incompatibilidade com a equipe pedagógica da escola, discuti lá com a coordenadora pedagógica e saí. Na mesma época eu disse “sabe de uma coisa eu vou pensar em fazer outra coisa na minha vida, acho que vou fazer, acho que vou fazer uma outra faculdade”. A minha filha entrou na USP, o meu filho está se formando, uma estava entrando, outro estava saindo, a pequena ainda estava com 15 anos, estava ainda pensando no que fazer da vida, ia fazer intercâmbio na Inglaterra, eu falei ai, estava meio confusa, vou pedir a minha aposentadoria, ficar só no Mater Dei, aposentadoria e um trabalho pra eu poder descansar um pouco, estava com 48 anos de idade mais ou menos, aí eu fiz isso. Aí na véspera, nós fomos a um casamento dia 7 de maio de 93, na véspera do dia das mães, o dia das mães era 9 de maio, e na saída do casamento a minha filha sofreu um acidente com o namorado, e ela faleceu, faleceram três pessoas no acidente, ela e os outros dois do outro carro, aí o meu marido entrou em depressão, eu fiquei muito abalada, muito deprimida, porque a gente estava numa época muito tumultuada na nossa vida, na nossa casa o meu marido estava tendo problemas políticos lá na universidade porque com a nova mudança o pessoal que ficou dedicado ao ensino foi prejudicado em relação ao pessoal que se dedicou à pesquisa, porque quem faz pesquisa fica em laboratórios, fica publicando mil trabalhos, cada tese dá pelo menos meia dúzia de trabalhos, com isso os currículos se enriquecem muito facilmente, quem fica na docência com alunos preparando aula, corrigindo provas, se desgastando com aula prática, aula teórica pra cem alunos todos os dias, não tem tempo de pesquisar, de publicar na Alemanha, de publicar na Inglaterra e de publicar no Estado Unidos. Então ele estava com esses problemas, ele se inscreveu pra professor titular e achou que ele fosse concorrer sozinho, mas, aí uma pessoa que ele tinha levado pra universidade também se inscreveu, então foi uma época que ele começou a estudar muito, era muita tese, a minha filha estava dando muito trabalho, ela estava namorando um homem separado.

 

P/1 - É a sua filha mais velha?

 

R - A do meio, a mais velha das meninas, a pequena tinha 15 anos era adolescente ainda, estava indo pro colegial, estava ela muito conturbada, o meu marido brigando muito, eu apartando a briga dos dois, “para de brigar com ela, ela vai perceber que ele é muito mais velho que tem esse problema dos filhos, que não vai dar certo, deixa que ela amadureça no ritmo dela, para de fazer oposição”, estava uma época muito assim tumultuada, muito louca na minha vida, e de muito problema, muito problema, muito problema, porque uma pessoa tinha me dito algum tempo antes que a minha filha ia sofrer um acidente e que ela nunca entrasse num Fiat preto, porque se ela estivesse nesse Fiat preto ela ia sofrer um acidente muito feio ela ia morrer, e eu estava alucinada cercando a minha filha que ia ser na páscoa de 93.

 

P/2 - Quando te falaram isso?

 

R - Um ano e oito meses antes da páscoa de 93, foi um ano e oito meses de loucura na minha vida.

 

P/1 - Assim, falaram de graça pra você?

 

R - É, houve assim algumas circunstâncias da vida que me levaram com uma prima numa pessoa, eu tinha uma prima muito querida cujo marido estava sofrendo problemas no trabalho e de saúde inexplicáveis, ia nos melhores médicos, era um dos diretores do Banco Itaú e ninguém sabia o que ele tinha, e nós fomos numa senhora que falou o que ele tinha, curou o rapaz e numa dessas voltas, eu comecei a ir, os meus filhos começaram a ir, a gente gostou muito dela e tal e um dia ela falou isso pra mim eu quase tive, eu quase enlouqueci, ninguém acreditou, eu acreditei, mas, só eu acreditei, falei pro meu marido e ele falou que isso é besteira, ninguém prevê o futuro, não vai acontecer nada com ela patati patatá. Então estava aquela loucura, ela namorando uma pessoa que a gente não queria, bem rebelde e o rapaz bem mais velho querendo casar, ela com 17 anos e eu desesperada pra que não casasse, com esse problema que na páscoa ela ia sofrer um acidente, eu catei a menina e sumi com ela na páscoa, ficamos trancadas dentro de casa, porém em maio eu, passou a páscoa, fomos ao casamento do Marcelinho, na volta do casamento ela saiu antes porque ela tinha que passar numa amiga que estava fazendo 18 anos, o sonho da vida dela era fazer 18 anos, passou na amiga deu presente, cumprimentou, cantou os parabéns tãtãtãtãtã, eu sei que a gente estava indo mais ou menos na mesma hora pra casa, eu pela Brasil, ela pelo Estados Unidos, ela sofreu o acidente num Fiat preto realmente e seis horas depois ela veio a falecer, a Dona Zoraide tinha previsto um ano e oito meses de antecedência essa fatalidade... E aí o meu marido entrou em depressão, desistiu do concurso, a outra pessoa fez sozinha e entrou, aí ele entrou mais em depressão ainda, ele ficou um ano, um ano... em posição fetal na cama... isso me emociona... (choro). Aí eu falei não vou entrar nessa, aí arrumei outro emprego e comecei a trabalhar. (choro) Trabalhava, trabalhava, trabalhava, trabalhava, mas não melhorava a situação, não melhorava, aí o quê que eu fiz, eu comecei a frequentar grupos de assistência, grupos alternativos, tá, então eu em vários, fui a centro espíritas, fui em hospitais, fui trabalhar, trabalhar, trabalhar até que eu consegui fazer um grupo, aconteceram assim alguns acidentes com pessoas conhecidas que acabaram perdendo os filhos, só da turma da minha filha mais nova, da turma do meu filho morreram dois, da turma da Aline, morreram ela e mais um, da turma da Elaine morreram três amigos deles que tinham estado no aniversário dela no dia 19 de abril na minha casa, no dia 25 de junho numa festa junina os três caíram numa ribanceira, caíram cinco, os três que estavam atrás morreram. Aí o que aconteceu, a gente acabou se aproximando dessas mães que tinham perdido os filhos a gente fez uma equipe de pessoas, que tinham perdido pessoas, filhos, mães, irmãos, maridos, irmão, pai, mãe, e começamos a estudar o evangelho espiritismo, o kardecismo e começamos a fazer independente das religiões que as pessoas pudessem ter, porque tinha católico, espírita, protestante, mas quem nos animou nessa época... gozado, eu sempre trabalhei em colégio de freira, em colégio de padre, sempre fui muito católica apesar da minha família do lado do meu pai ser toda espírita, aí que eu fui me interessar pelo espiritismo e fui estudar o kardecismo, e com esse grupo que a gente tem e mantém até hoje, a gente formou um núcleo de estudos e de assistência social vamos dizer, a gente faz campanhas de agasalhos, de fraldas, de comida, de material de limpeza em vários locais de São Paulo. E eu e duas amigas especificamente temos uma creche no Bairro do Crispim em Itapecerica da Serra, a gente têm 27 crianças, duas professoras duas auxiliares e uma cozinheira, então a gente toca isso ai, aí eu falei bom, e a cabeça também precisa fazer alguma coisa, os adolescentes estavam assim, estavam mudando a equipe pedagógica da escola, estava uma luta pelo poder lá dentro, eu via aquilo e falava meu Deus, essas pessoas estão se destruindo, tantas coisas importantes, os adolescentes aqui pra cuidar, eles estão lutando por cargos, por quem vai ser coordenador, quem é que vai ganhar mais, quem vai mandar, eu comecei a ficar cansada do que eu estava vendo sabe, aí falei “sabe de uma coisa, eu vou fazer faculdade, qual faculdade? Direito ou Psicologia” (risos) Que aí eu voltei pra adolescência, pros 17 anos.

 

P/1 - Resgatar aquilo que você não fez.

 

R - Qual dos dois? Os dois são cinco anos, USP eu não vou entrar porque não sei química, física, matemática, PUC muito menos, eu vou fazer Mackenzie e FMU, aí eu acabei entrando nas duas e resolvi fazer Direito, prestei vestibular pra Direito, entrei nas duas, fiz o curso, no segundo ano eu fiz concurso estagiei no Ministério Público e agora que eu me formei eu estou trabalhando de voluntária no Fórum Central junto com uma juíza amiga minha que está me ensinando processo civil e eu estou fazendo sentenças pra ela.

 

P/2 - Isso foi quanto tempo depois da morte da sua filha, que você começou a estudar?

 

R - Ela faleceu em 93, eu entrei em 97 na faculdade, aí nesse tempo se manifestou um câncer na minha tireóide.

 

P/1 - No tempo da faculdade?

 

R - Da morte da minha filha, em 98 que eu descobri esse câncer, e assim a gente descobriu por acaso. Eu estava fazendo terapia e minha terapeuta olhava pra mim e falava Célia você é muito tensa aqui, você engole muito e você está com o pescoço crescendo, eu disse olha Teleca quando eu era jovem lá em Itápolis não tinha iodo na água e eu tive bócio, começo de bócio, então eu tomei muito iodo e minha tireóide é realmente cheia de nódulos, ela falou faz um favor pra mim, procura um endocrinologista, um cirurgião e vê que eu não estou gostando, está crescendo, não estou gostando, aí eu fui.

 

P/2 - Você não tinha nenhum sintoma, nada? Ou tinha algum?

 

R - O quê que eu tinha, eu era hiperativa, não parava um minuto, dormia mal, mas pra mim todos os problemas que eu tinha na vida era por causa da perda da minha filha, eu nunca imaginei uma causa orgânica, aí a minha terapeuta falou você pensou, você parou pra pensar que você pode ter calado a sua dor a sua, sabe, feito alguma coisa com a sua garganta, falei não, não pensei, ela disse então pensa, vai ver o que você tem ai, aí eu fui ver, fiz punção tal, aí no dia em que a gente foi. Uma amiga minha tinha operado também, tinha tido um câncer de tiróide, mas não tinha chegado a fazer quimioterapia porque o câncer dela era pequenininho, professora do Mater Dei, aí eu fui fazer uns exames, fizeram a punção, tal, quando vieram os resultados, o cirurgião que é amigo nosso, foi colega de cursinho do meu marido, olhou pra mim, chama Vitor, “Célia pelo relatório do exame patológico aí, feito na tua tireóide, você têm entre 70 e 80% de possibilidade de ser câncer, de ser um tumor maligno, o que é que nos vamos fazer?” Ai ele falou “bom, nos temos duas hipóteses, ou a gente opera ou a gente faz este acompanhamento, cada mês você faz punção até dar o diagnostico de câncer”, aí eu falei “como é que é Vitor? Eu posso estar com câncer na tiróide e você vai me fazer esperar, que dia é que você tem livre na sua agenda? Vamos marcar a cirurgia agora”, aí ele falou tá bom, que você pode, aí eu falei pode marcar na páscoa porque assim eu perco só dois dias de aula, na semana santa. Aí ele me operou na semana santa, só que quando ele abriu a coisa estava preta, não só estava tudo tomado de câncer, era câncer como estava com metástase também nas glândulas linfáticas, estava tudo a banda aqui, era pra ficar uma hora na mesa de cirurgia e eu fiquei quatro, e quando eu voltei pro quarto eu voltei da anestesia eu urrava de dor, urrava, me doparam, mas a minha dor aqui, minha dor era aqui na coluna, pensei que estivesse quebrado a coluna, porque eu nem senti, aí a médica entrou no quarto e falou “Célia”, aí meu marido vira, “Célia fala”, aí eu falei “Brigada Vitor por ter salvo a minha vida”, (suspiro), “eu não cortei as suas cordas vocais (risos), eu sou um grande cirurgião”, eu falei “você é, é. Deus no céu e você aqui na terra, daqui pra frente vou fazer um altar lá em casa pra você”, aí como tinha umas metástases, muita aderência porque eu já tinha tido uma cirurgia há 25 anos atrás, de tireóide também, ficaram resquícios, ficaram células cancerosas, ele falou vamos fazer uma quimioterapia aí, aí o que que eu fiz, eu fiquei todo o pós-operatório sem tomar nada, nenhum tipo de remédios, aí eu entrei numa depressão por causa da falta de hormônios, na verdade numa letargia, não chegou a ser depressão, porque depressão é uma doença muito grave, mas eu me sentia muito fraca, muito depauperada. Sem entusiasmo, sem ânimo pra viver, aí ele me internou no Einstein numa câmera de chumbo lá, tomei iodo radioativo, fiquei lá, era pra ficar cinco dias, mas eu fiquei o tempo todo sem comer, bebendo chá e água direto.

 

P/2 - Os cinco dias?

 

R - Aí eu pude sair antes, e quando eu fiz...

 

P/2 - Porque isso acelera?

 

R - É, elimina o iodo o rádio, você não pode ter contato com as pessoas, fiquei em um quartinho metade disso aqui, todo forrado de chumbo e as pessoas que entravam lá pra pôr a comida pra mim entravam todas vestidas, escafrando...

 

P/1 - Você ficou sozinha?

 

R - Sozinha, sozinha.

 

P/2 - Tomando essa radioatividade?

 

R - Tomei uma dose violenta, e as células que estavam querendo, tomaram todo aquele iodo radioativo e morreram, e ai quando eu fiz a nova captação, dois, três meses depois o médico falou: “olha, desse câncer você esta curada, esse aí não vai te matar, mas a cada seis meses nós vamos repetir os exames, e se a gente achar que tem alguma célula cancerosa a gente faz uma outra quimioterapia”, aí eu comecei a fazer.

 

P/1 - Mas foi uma quimioterapia diferente?

 

R - De choque, de choque.

 

P/2 – Por quê? Pela gravidade, pelo local?

 

R - Pelo local, pela gravidade e pelo tipo de célula, a célula tireóide se nutre do hormônio, eles estavam carentes de hormônio, do iodo, elas estavam carente do iodo, se alimentam do iodo, então quando o médico deu pra elas o iodo saturado de radioatividade, elas beberam tudo e se envenenaram, morreram, aí eu fiquei fazendo de seis em seis meses a captação.

 

P/2 - O que é captação?

 

R - É assim, você fica o mês inteirinho sem tomar o remédio, porque como eu não tenho a tiróide, precisa tomar o centróide, a pessoa que tira a tireoide, a pessoa tem que repor o hormônio tiroidiano senão desequilibra todo o metabolismo, então você fica um mês até limpar o organismo, até ter zero.

 

P/1 - Desse hormônio?

 

R - Desse hormônio, aí você para o laboratório, tem que ser um laboratório especializado desse tipo de exame, e você toma o iodo tiroidiano, e aí você fica na mesa e eles fazem vários exames, com vários tipos de exames, você passa por uma cintilografia, e eles vêem como é que esse iodo circula pelo seu organismo até ser eliminado pela urina, até ir pra bexiga, e se houver algum tipo de célula cancerosa da aglomeração do hormônio, dá o brilho do iodo, da radiação.

 

P/1 - Como se eles estivessem comendo esse iodo?

 

R - Isso, então eu já fiz, foi em 98, na páscoa de 98, então eu fiz já umas quatro ou cinco captações, e por enquanto eu estou clinicamente bem, depois de cinco anos se eu não tiver nenhum problema mais, faço só de ano em ano e depois de dois em dois, clinicamente eu vou estar curada.

 

P/1 - E por que você falou que na primeira fase da quimioterapia você não comia? Não podia comer ou...

 

R - Podia, podia, mas eu enjoei tanto, eu passava tão mal, eu vomitava, era horrível.

 

P/1 - E sozinha naquele quarto tendo tudo isso.

 

R - Dia e noite.

 

P/1 - E quais os outros sintomas que teve essa quimioterapia?

 

R - Caiu o cabelo, não fiquei careca, não precisei cortar o cabelo como a Ana Maria Braga, Patrícia Pilar. Caiu muito, você passava a mão, lavava a cabeça, eu cortei assim curtinho igual o seu, deixei crescer de novo, não tenho tempo de cabeleireiro. Caia muito cabelo, enjôo, náusea, náusea e uma tendência pra engordar, minha filha ,que eu faço assim (inspirou) 250 gramas de ar, mas eu não sinto nada, me sinto uma pessoa normal, trabalho, trabalho tenho mais pique que a minha empregada, do que minha filha, do que meu marido.

 

P/1 - E nessa época o seu marido...

 

R - só que eu reponho.

 

P/1 - ... já tinha superado a depressão dele como é que foi?

 

R - Sim. Aí eu comecei a ir nesse grupo e quando meu marido viu que eu tava melhorando, que o grupo tava me dando um apoio bárbaro, meus filhos estavam indo comigo, ele ficava sozinho em casa, ele começou a ir também e aí ele começou a melhorar, começou também a se interessar, fazemos bazares, ele ficava no caixa. Ele é muito organizado, tem um tino administrativo muito bom, então ele foi saindo da depressão, aceitou o tratamento, foi em um neurologista, foi num psiquiatra, os dois disseram mais ou menos a mesma coisa, medicaram, mas ele se recusa fazer terapia? Mas ele toma remédio, ele toma Prozac e ta bem, ta dando aula na Unip, ta trabalhando, ta bem.

 

P/1 - Isso quanto tempo depois que a tua filha morreu que ele conseguiu retomar a vida?

 

R - A vida dele? Bom, ele nunca mais foi o mesmo pra te falar a verdade, Morgana, ele nunca se recuperou, tá. Até hoje ele tem assim, como é que eu vou dizer, não é depressão porque depressão é uma coisa, doença muito complicada, mas ele tem desânimo, falta de motivação para novos empreendimentos, ele tá acomodado, não quer mais estudar, não quer mais progredir. Eu é que fiz ele aceitar dar aula na Unip eu fico pressionando pra ele pegar mais aula, pra ele arrumar hobby, pra ir pro clube, coisas pra fazer, ele quer ficar em casa, quer ler, dormir, depois do almoço ele ta assim meio desmotivado, sabe? E assim, a gente briga por causa disso porque eu falo não, a gente ainda tem dois filhos, tem ainda, se Deus quiser ainda vamos ter netos, tem que se engajar mais, você tem que fazer mais coisas, agora que você aprendeu anatomia, agora que você é um baita de um professor, você vai ficar em casa vendo futebol na televisão, vendo Jornal Nacional, Datena, SPTV, vendo sei lá o quanto escutando as mesmas notícias, lendo várias vezes o Estadão, vai trabalhar, vai abrir um curso, vai, vende cursos pras universidades, filma aulas, vai passar, vai dar cursos, vai ensinar o que você sabe, vai injetar técnicas de anatomia que essa moçada, ninguém mais sabe nada, passa o seu conhecimento adiante, não guarda, não morre com ele, é difícil.

 

P/2 - Qual o sentido que você dá, pra essa perda na sua vida, sua família? O quê que...

 

R - A gente teve duas faces na vida Morgana, antes e depois da ida da Aline. Mudou completamente a nossa vida, mudaram os nossos valores, mudou a nossa religião, a gente vivia na igreja, era na escola de pais, fazia encontros de casais, escolas de pais, vivíamos com os padres do São Luís, sabe? E de repente nós estamos estudando Kardec, estamos indo de vez em quando a centro espírita, tomando passe, acreditando em reencarnação... nos dedicando às, nos desapegando a bens materiais, dando mais do nosso tempo, do nosso dinheiro, do nosso amor, antes era muito pra família, a gente vivia dentro do nosso sítio familiar, e de repente com a ida dela a gente se abriu pro mundo, a gente viu que tem gente que sofre tanto ou mais que a gente, tem gente que nós conhecemos que perdeu o filho único, quer desgraça maior que essa do que perder o filho único? Tem gente que perdeu dois filhos, tem gente que perdeu o único menino, sabe? Então a gente começa a dividir os sofrimentos, a somar a esperança e ajudar os outros, a gente fica melhor, a gente acha.

 

P/1 - E como é que foi a reação dos seus filhos na época do acidente?

 

R - Uma barra, uma barra, até hoje a gente guarda as marcas, o reflexo do que aconteceu, por quê? O meu filho nessa época, a namorada terminou o namoro de quatro anos com ele, ele estava com vinte, ela tava com dezessete e quatro, vinte e um, o meu filho estava com vinte e um, não tinha dois anos, tinha três anos de namoro, a namorada terminou o namoro com ele, e ele assim muito romântico fazia musica, tocava violão, tocava piano, fazia música pra ela, fazia música pro cachorrinho, fazia música pra lua. Assim, um menino muito ingênuo, entrou assim numa crise muito violenta, “mãe por que não fui eu que morri? A minha irmã gostava tanto de viver, eu que devia ter morrido, você vê que eu sou um traste, eu sou uma porcaria”, a autoestima dele foi lá em baixo, então eu o coloquei pra fazer terapia, e ele esta até hoje fazendo terapia, a única pessoa que, o João, o meu marido não conseguiu entrar, e eu fui à única que consegui sair, a Elaine estava com o intercâmbio pra Inglaterra, ela foi em junho, o acidente foi em maio, estava tudo pago, a família já esperando as cartas já trocadas, telefonemas, tal, nanananã, “mãe eu não vou mais!”, “Vai porque a sua vida continua!”. “É, mas vocês vão me largar no aeroporto”, a gente foi todo mundo chorando dentro do carro, “e se o avião cair você vai ficar sem duas”, eu falei: “o avião não vai cair minha filha, o raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Você vai, você vai arejar, você vai arrumar um namorado, você vai conhecer uma civilização nova, você não vai ficar chorando dentro de casa igual a tua mãe e o teu pai vão ficar chorando, você viva a tua vida porque a tua irmã não queria que você parasse de viver... toca pra frente”. E ela foi e realmente ela aproveitou a estadia lá em Cambridge, depois passou pela Holanda, passou por Paris, voltou feliz, voltou com um namoradinho que era um encanto de pessoa, namorou dois anos e meio ou três, é nosso amigo até hoje o menino e ficou tudo bem. Porém, porém, a gente não sabia que ela tinha assim a irmã como um ídolo e ao mesmo tempo como fator de desestabilização na vida dela, ela desenvolveu a síndrome do pânico, um dia ela começou a chorar, no outro dia ela largou o carro no meio da rua, o namorado teve que voltar dirigindo, aí ela já estava com outro namorado, nessa época ela fez o Colégio São Luís, no ultimo ano do Colégio São Luís ela desenvolveu a síndrome do pânico e teve durante esses cinco anos de faculdade a síndrome do pânico. Então hoje ela já está muito melhor, hoje ela não toma quase nada de remédio, só uma dose mínima de manutenção, mas ela ainda continua fazendo terapia.

 

P/2 - Ela desenvolveu depois que ela voltou da viagem?

 

R - Depois que ela voltou da viagem, ela disse que não teve nada a ver com a viagem, mas eu não sei se teve ou não teve, eu achei que a melhor coisa era não atrapalhar a vida deles, continuar, não sei se fiz certo ou se fiz errado, a minha terapeuta falou “não, vocês tem que curtir o luto até o fim, tem que ir até aonde vai”, eu falei tudo bem a gente vai entrar no fundo do poço, ela falou “vai, porque no fundo do poço você chega e bate o pé e sobe. Antes disso você só cai.” Então não sei se ela não curtiu bem o luto, se ela se espelha muito na irmã, ela estava numa época de estruturação de personalidade, 15 anos.

 

P/1 - E teve assim, comprovada uma relação da síndrome do pânico dela com a morte da irmã?

 

R - Ninguém teve coragem de afirmar isso, isso sou eu é que acho, acho viu Jurema...Por quê? O quê que aconteceu, a morte passou a ser uma coisa, é presente, constante, rotineira na nossa vida, basta estar vivo para daqui a pouco não estar mais, não é mesmo? E é muito complicado você lidar com a morte, com perspectiva da morte, e tanto que quando eu me vi com o câncer, em nenhum momento eu chorei, tive medo de morrer, entendeu? Pra mim a morte faz parte da vida hoje, até porque eu tenho convicção que apenas o corpo morre, o espírito e a consciência permanecem vivos, a alma, sei lá o nome que as pessoas queiram dar a isso que fica, nossa energia, o nosso corpo astral, o nosso corpo místico continua e matéria se decompõe, mas a alma, a essência permanece e até pode renascer por que não?

 

P/2 - Célia, pelo que você está contando, você é uma mulher de muita força e parece que deu muita força pra tua família...

 

R - Mais ou menos.

 

P/2 - Como é que você fez pra viver a tua parte, porque eu te vejo assim cuidando do teu marido, cuidando da tua filha, do teu filho e você nesta história?

 

R - Pois é, pois é, eu tive que carregar todo mundo no colo... Graças a Deus eu tive duas pessoas maravilhosas, maravilhosas que me carregaram... (choro) Desculpa.

 

P/1 - Fica à vontade.

 

R - Que foi primeiro a minha terapeuta, Dra. Terezinha, ela foi assim, fundamental pra mim, até porque ela era extremamente espiritualista, me contou experiências pessoais dela, de visão de espírito inclusive do pai dela, me deu muita força e muita esperança de ver a minha filha (choro). E uma outra pessoa foi a Araci que é uma massoterapeuta ligada também a esoterismo, uma pessoa mais humilde, mais sem cultura, mais sensível, sabe? Me fazia seções de relaxamento, curso, enfim foram duas pessoas que me carregaram, e depois o grupo, por quê? Porque quando você perde alguém é um fato extremamente traumatizante, eu tinha assim muitos problemas em pensar que um dia eu iria perder o meu pai e minha mãe, como é que eu iria reagir sem a minha mãe, porque quando eu tenho algum problema eu ligo pra ela, como escutar um violino sem pensar no meu pai, ou sem sofrer por isso. E de repente eu perdi a pessoa mais importante da minha vida, como eu ia aguentar isso, como eu vou sair dessa? (choro) Então quando você encontra outras pessoas que também perderam, você se libera pra falar da dor, é muito importante falar da dor, quanto mais você cala na garganta, mais ela te mata, eu acho que o meu câncer voltou ou se, sabe? Eu sempre tive problema de tiróide, eu acho que ele detonou de tanto eu achar que eu era muito chata de ficar falando da Aline pra outras pessoas, entendeu? E depois que eu fiz esse grupo, cada um falava do seu filho, da sua perda, da sua dor e todo mundo chorava junto. (choro) É importante chorar e não ter vergonha de chorar e disser que está com medo, que está com dor e que é difícil viver, acordar de manhã e falar “eu tenho que levantar da cama, eu tenho que dar aula, eu tenho que ir pra faculdade, eu tenho que tocar a minha casa, que ir pro supermercado, que pagar empregada”, e graças a Deus, eu, muita coisa que Deus me deixou os outros dois filhos e aí eu toquei com eles.

 

P/2 - Nessa época a sua mãe era viva?

 

R - A minha mãe é viva

 

P/2 - O seu pai já não era?

 

R - E minha filha, morreu minha filha, no ano seguinte morreu o meu pai, morreu minha sogra, depois daí quatro anos morreu o meu sogro, foi assim cinco perdas, papapapapá. Não me lembro por ter chorado por mais ninguém, quando eu vi papai morto, eu disse “pôxa vida, papai morreu com 86 anos, um álbum de música publicado, mil fitas, foi um homem feliz, viveu feliz com a minha mãe, se amavam pra caramba, teve três filhas, consegui dar educação pras três, que homem realizado, vou chorar pra quê? Não é mesmo?” Não tinha porque chorar, não chorei por mais ninguém, minha sogra, fiquei assustadíssima quando ela morreu porque papapum infarto fulminante, em três dias ela foi embora. E ela era muito boa pras minhas crianças, me ajudou muito e me deixou o sogro com mal de Alzheimer pra eu cuidar, que foi a parte mais difícil, como tocar minha vida, aguentar família e ainda cuidar do meu sogro com mal de Alzheimer.

 

P/1 - E o seu marido com depressão?

 

R - E o meu marido com depressão direto, depressão direto, é, acho que foi depressão porque ele pensou em se matar, acho que pra uma pessoa chegar a pensar em tirar a própria vida ela precisa estar, não estar normal, ela deve estar doente da alma.

 

P/2 - E essa depressão dele você relaciona com o quê? Pela relação que ele tinha com a tua filha, por uma característica mais dele, pelo, por quê que você acha?

 

P/1 - Você comentou um pouco antes que ele tinha conflitos.

 

R – É, ele ficou com culpa, ela morreu brigada com ele, ela morreu brigada com ele, eles não estavam no casamento conosco porque o namorado dela, porque a família do meu marido não aceitava o namorado no casamento, ele não entrou, ele foi buscar ela lá fora, ela foi pra outra festa porque ele não foi convidado pro casamento, e eu também não os perdoei por isso ta, eu não os perdoei por isso.

 

P/2 – Por que isso poderia ter mudado?

 

R - Não mudaria, mas me fez sofrer mais, porque uma coisa é você, uma coisa é, ficou todo mundo com sentimento de culpa, Morgana, ficou todo mundo muito mal.

 

P/2 - Principalmente porque tinha uma premonição

 

R - Avisando que isso ia acontecer, e todo mundo falava que eu era louca, que isso não existia, “imagina, não existe essa história de prever o futuro, o que é isso”.

 

P/2 - A sua filha sabia disso?

 

R - Sabia.

 

P/1 - E qual era a reação dela?

 

R - A minha filha desde os 12 anos, ela já lia a física quântica, ela lia filosofia oriental, ela lia o evangelho segundo o espiritismo, o livro dos espíritos, a minha filha era mística, tinha incenso sempre no quarto, ela que me ensinou tudo sobre filosofia e religião e ela falava pra mim quando começou a chegar os 17 anos que era antes de ela completar os 18 anos, ela começou a ter desmaios, ela desmaiou na classe, desmaiou na união, ela começou a ter desmaios e quando ela ia pro hospital ninguém encontrava nada fisicamente nela. E ela dizia “mãe, eles estão querendo me levar, está na hora de eu ir embora e eu não quero ir embora. Eu adoro a vida, eu adoro você, não me deixa eu ir, não me deixa morrer.” Ela chorava abraçada comigo, e eu dizia “não, enquanto eu puder te segurar, minha filha, eu vou te segurar, no dia em que você for, nós vamos juntas, fazendo companhia uma pra outra e eu não vou deixar você ir. Imagina, você é minha paixão, eu não vou deixar você ir.”

 

P/1 - Isso depois da premonição?

 

R - Um ano e oito meses.

 

P/1 - Não, ela teve essa reação depois dessa premonição? Você que contou pra ela essa premonição?

 

R - Não, foi a própria mulher, quando ela começou a namorar esse moço, ela falou se afasta desse moço e nunca entre no carro dele. Por que vó? Por que, vó Zoraide? Por que vó Zoraide? Porque algum dia ele vai ter um Fiat preto e vocês vão sofrer um acidente muito sério e muito feio, muito sério e muito feio, sai disso enquanto você pode, e ela desafiou, adolescente, jovem pensa que.

 

P/2 - Mas ela de alguma forma parece que estava preparada pra isso, pelo que você conta ela se preparou?

 

R - Se preparou.

 

P/1 - Mas se foi uma premonição, não adiantava ela fugir do namorado?

 

R - Não adiantava ela fugir porque naquele dia, naquela hora, naquele carro, um senhor iria descer embriagado, iria descer a Alameda Campinas a toda e iria passar em cima dela, ninguém foge do destino...

 

P/1 - E depois disso vocês...

 

R - Tinha uma amiga dela no carro que desceu, foi reatar com o namorado, não morrer junto.

 

P/1 - Depois disso, vocês continuaram em contato com essa pessoa, que teve essa premonição? Como é que foi isso?

 

R - Muito doloroso, muito doloroso, nós fomos uma vez mais lá, ela chorou muito e nós também choramos. Ela falou “eu não avisei vocês pra ela não namorar esse moço, que ela não podia entrar nesse carro, eu não avisei?” e logo em seguida ela morreu, essa pessoa morreu logo em seguida.

 

P/2 - Mas essa premonição é uma coisa muito forte na história, cria uma responsabilidade, você sente que algo poderia ter sido feito, que poderia ter sido evitado que se levasse a ferro e fogo que realmente...

 

P/1 - Como ela falou eu avisei, mas se estava escrito...

 

R - Quer saber, eu acho que eu consegui atrasar um mês, era pra ser na páscoa, e foi um mês depois, ninguém muda o destino das pessoas, ninguém tem esse poder, nós não somos Deus.

 

P/2 - Quer dizer, na verdade ela estava te contando pra você começar a se preparar pra essa perda.

 

R - Pra eu começar a me preparar, e eu até penso, eu até penso, pra minha filha amadurecer e trabalhar também o livre arbítrio dela, porque eu acho que nós somos muito vaidosos, nós somos muito orgulhosos, nós somos muito onipotentes, nós achamos que dominamos o mundo, a vida, a máquina, o carro, o avião, e não somos nada, e não somos nada. Se ela tivesse acreditado o que ela poderia ter feito, terminado com esse rapaz, nunca ter entrado naquele Fiat que ele deu pra ela de aniversário de 18 anos até pra comprar o amor dela.

 

P/2 - Era dela o carro?

 

R - Ele deu de presente, ela estava a quinze dias do aniversário de 18 anos, ele já tinha pago a autoescola pra ela.

 

P/1 - Mas quando você viu o Fiat preto, você a viu chegando com um Fiat preto em casa?

 

R - Ele não deu, ficou com ele.

 

P/1 - É estava com ele, você não sabia que ela ia entrar num Fiat preto?

 

R - Não, eu vi naquela noite, mas eu já sabia, e ele também, ele tinha sido avisado, ele levou o carro pra benzer, mas não adianta.

 

P/1 - Ele não podia ter comprado de outra cor?

 

P/2 - Pelo menos (risos).

 

R - Ele tinha, ele tinha caminhonete cabinada Ford imensa, podia bater um caminhão naquela caminhonete, mas ele vendeu, comprou um carro pequeno pra ele e deu Fiat pra ela, parece que, sabe? As pessoas são instrumentos do destino, cada vez eu acredito mais nisso, você tem o livre arbítrio sim, de lutar de não se entregar, mas quando chega a sua hora meu filho, eu adiei a minha hora, já poderia ter ido embora se eu não tivesse descoberto esse câncer, graças a Deus que a medicina esta aí, pra melhorar a qualidade não, mas até porque Deus permite que você fique mais tempo... As coisas estão mais ou menos traçadas, você escolhe alguma coisa.

 

P/2 - A sua história com o câncer, que sentido você dá? Você dá algum sentido assim?

 

R - Dou sim, dou sim, cada vez mais eu acho que a gente não é corpo, a gente, o corpo é uma forma passageira, como é que vou dizer pra você, é uma forma passageira de chegar mais perto de Deus, da verdade, da luta, de uma comunhão universal no amor, sei lá no quê que seja. Na bondade, na justiça, nas coisas boas, que o corpo é um instrumento para o espírito evoluir, e que não adianta tratar do corpo tem que tratar do espírito, se vocês leram a física quântica talvez assim, exista um corpo, um corpo astral, um corpo energético, digamos assim, que habita o nosso corpo físico, e que permanece, e que a gente vai vivendo na medida que está em harmonia, o corpo físico e o corpo etério não físico, energético no caso, quantas coisas milagrosas acontecem, que se harmoniza, o homem tem que ser, holístico é o espírito e a matéria, mas o espírito é muito mais forte, com certeza o espírito é muito mais forte, por isso tudo é possível quando a consciência quer e você tem, têm o quê? A garra, dizer eu vou fazer, eu vou conseguir, eu chego lá, eu penso isso, e você medita e você relaxa, e você tem essa comunhão com a natureza, com o cosmo, com as forças espirituais, você vence as grandes dificuldades, com certeza.

 

P/2 - E o que te deu força, essa história do câncer, você conta, eu vejo de novo uma mulher muito decidida, eu vou esperar pra operar, vamos operar, marca, vamos...

 

R - O câncer foi assim, uma pedrinha no meio do caminho, passei incólume, foi fichinha, meu marido chorava, meus filhos choravam, meu marido chegou a dizer pra mim que ele se suicidava se eu morresse, ele fugiu de casa, ele saía, porque eu passei mal no pós, fiquei muito enjoada, fiquei com muita dor, é uma coisa desagradável, e todo mundo se abateu, meus filhos estavam desesperados, deitavam comigo na cama, todo mundo me abraçava, todo mundo chorava, “que é isso gente? Não vou morrer não, vão embora, eu estou radiativa, não chega perto”. Eu não chorei nenhum dia, não lastimei, falei sabe? “Por que eu, por que a Ana Maria Braga, por que todo mundo, sabe?” Um amigo meu ficou com câncer na mesma época, quer dizer, descobriram o dele, era de pulmão, ele já foi embora, eu estou aqui, então deixa eu aproveitar pra crescer, fazer o bem enquanto eu posso.

 

P/2 - Mas você sentia que não iria morrer? Ou você tinha medo?

 

R - Eu cheguei a sentir medo sim, eu cheguei a sentir medo, sabe que eu tenho medo da morte? Dizem que o momento do nascimento da gente é muito traumático, a criança se espreme pra passar pela vagina, ela sofre muito, porque é um choque pra ela ver a luz, ela sofre muito com isso, mas ela acaba se esquecendo, eu pelo menos não me lembro do meu nascimento, mas eu tenho o momento da minha morte, como é que vai ser, eu já vi pessoas definharem e morrerem com câncer, nossa é uma das piores mortes que tem, gente. Eu rezava toda noite, “olha Deus se eu tiver que morrer me mata antes, de um acidente”, eu tenho uma amiga que teve acidente e ficou entre a vida e a morte, ela falou “Célia, como eu vou ter que morrer de novo, eu quero morrer de acidente, porque a gente não sente nada, depois que se opera as fraturas, é horroroso, mas o momento do acidente é uma descarga de adrenalina, é morfina na cabeça, é endorfina, você apaga, você não sente nada, eu quero morrer de acidente”. Então eu rezava toda noite, pô, eu não quero morrer de câncer como eu vi fulano, cicrano, beltrano, morrer definhando, feio a cada velhica, a família com aquele sofrimento, a pessoa gemendo, horrível, não querendo ir, querendo ficar, eu queria uma morte mais tranquila, mas se Deus quiser isso pra mim eu não vou fugir do destino, que ele me dê forças e um bom médico pra ele me sedar, porque, sabe, não quero sofrer dor. Agora principalmente que dê forças pra minha família, porque eles estavam muito piores do que eu, eu não sei se eu nem cheguei a ficar pior, se eu nem cheguei a curtir o meu câncer, como a minha terapeuta falava, depois ela mudou pro interior e eu fiquei sem ela, mas ela falava vocês tem que curtir esse luto, não sei se eu curti o meu câncer, ele papapapapapapá, foi tudo tão assim, em um ano a coisa toda, superei tudo (suspiro) que susto hein gente, poxa que susto, eu devia ter sofrido, desesperado, voltado pra terapia, mas não deu tempo, vamos fazer logo as coisas, fazer o que tem que fazer tive bons médicos graças a Deus, pude ter uma assistência boa.

 

P/2 - Falou que foi um ano, o que você considera um ano entre a cirurgia...?

 

R- O diagnóstico, a cirurgia e a recuperação, até ele dizer “desse câncer você não morre mais, se tiver vai ser em outro lugar, mas não vai ser aí no pescoço, não vai ter mais, de tireoide.”

 

P/1 – Por que a tua terapeuta dizia que vocês têm que curtir esse luto?

 

R - Tem gente que gosta de jogar as emoções pra debaixo do tapete, não enfrentar problemas, a minha terapeuta sempre me disse que a melhor maneira de você enfrentar um problema é indo até o fundo dele, pra ver até onde ele vai te levar, sofrer sim, tem que curtir o luto, tem que se deixar sofrer, tem que chorar, tem que falar disso, tem que suar, tem que purgar, como se fosse assim uma depuração pra você sair melhor depois, entendeu? É não se alienar, tomar o comprimido pra esquecer, dormir, e quando você acordar daqui a cinco anos, você vai ter que retomar o caminho, e fazer porque você não trabalhou a dor, aprender a conviver com a dor e ver que ela não mata e ver que você tem que estar viva e continuar produzindo sendo útil, fazendo as coisas, porque tem o seu destino pra cumprir e o meu possivelmente não era morrer daquele câncer, naquela época. Então a gente pode diagnosticar e resolver o problema.

 

P/2 - Quando você fala que essa experiência foi fichinha você esta comparando isso com...

 

R - A morte da minha filha.

 

P/2 - Você já vinha de um processo muito maior?

 

R – Enfim, nem se compara... nem se compara.

 

P/1 - E seus pais na época do acidente? Porque dizem que avós são duplos pais, como é que foi essa reação deles?

 

R - Olha, a geração mais velha, ela tem medo de mostrar fraqueza, ela tem medo de mostrar fraqueza, o meu pai desde que eu nasci, era espírita, então, inclusive quando eu ia contar pra ele que ela tinha morrido, o telefone desligava, tentava, ligava de novo caía a linha, eu não consegui contar pra ele que ela tinha morrido, mas quando depois ele ficou sabendo por outras pessoas e me ligou, ele falou olha filha estou sofrendo horrores, ele estava cardíaco já, ele morreu logo depois, dois anos depois, ele falou “olha filha eu estou sofrendo muito, mas você sabe que eu sou espírita, então a Aline foi embora pra uma coisa melhor. E foi escolhida, vai ter um mundo melhor, vem o século XXI, ela fez o que tinha que fazer com vocês procura aprender com essa experiência, por quê que aconteceu isso com vocês, tenta entender, que talvez seja um resgate de vidas passadas, que ela veio pra ensinar alguma coisa pra você, pro João Gilberto, pro Daniel, pra Elaine, pense nisso”. E eu nunca vi o meu pai abatido por isso, a minha mãe o que ela sempre fez, cada parto, cada doença, cada filho, ela larga tudo e vai e fica, então ela veio com mala e cuia e ficou na minha casa, um, dois meses... Olha, eu nem sei quanto tempo ela ficou na minha casa, sei que ela que me dava água, que me dava comida, esqueci de falar dela, ela chegou a me dar comida na boca, o meu sogro e a minha sogra foi uma coisa muito esquisita, muito esquisita mesmo, eles nunca conseguiram falar no assunto comigo.

 

P/1 - Até hoje?

 

R - Eles morreram já, nunca, até morrerem, eles nunca conseguiram falar do assunto comigo, eu sei que eles falavam entre eles, com a família do meu marido, que era bastante gente morando no mesmo prédio, três irmãs com maridos, filhos, eu sei que eles falavam, eu escutei no telefone uma vez, falando com Portugal, falando da neta, mas com outras pessoas, comigo eles nunca tocaram no assunto.

 

P/1 - Nem com o seu marido?

 

R - Que eu tenha visto não, que eu tenha visto não, agora eles queixavam bastante que estavam sofrendo, o meu marido acha que um dos motivos, eu acho que não, o meu marido acha que só agravou o Alzheimer do meu sogro, eu acho que não, porque o Alzheimer é uma doença degenerativa do sistema nervoso, e se fosse assim todo mundo teria mal de Alzheimer, todo mundo que perde alguém, que passa por um trauma, teria problemas mentais, cerebrais.

 

P/2 - E você passou a viver isso que o teu pai te falou? Que a morte da tua filha veio pra te ensinar alguma coisa, pra ensinar pra tua família, dá pra viver como uma filosofia?

 

R - Dá, dá pra viver sim, que é bem uma teoria da doutrina espírita, que tem pontos bastante controvertidos, digo pra você que não tem e que eu não enxergo isso, mas ela dá um consolo, uma esperança e uma explicação, parece racional.

 

P/2 - Que a católica não dava, por isso você...

 

R - Porque a católica diz assim, olha a tua filha é um anjo, morreu e ela vai ressurgir dos mortos no dia do juízo final, ela vai ter uma ressurreição, ela vai nascer de novo com o mesmo corpo no dia do juízo final. E eu pensava comigo, será que vai existir esse dia do juízo final? O dia do juízo final não é o dia que a gente se encontra com a nossa consciência e pesa o que você fez de bom e o que você fez de mal, o que você deixou de fazer, não é esse o dia do juízo final. Precisa de alguém falar pra você o que você fez de ruim? Precisa de um Deus pra te julgar, pra te botar no purgatório? Eu acho que a igreja católica, eu nunca estudei teologia a fundo, tá? A única coisa que eu estudei foi história das religiões e eu sempre me senti muito mais atraída pela filosofia oriental até porque o catolicismo na sua gênese ele acreditava em reencarnação. Foi um Papa no século XII que colocou como dogma, o dogma da ressurreição, porque a grande diferença dos outros evangelhos é essa, porque o evangelho de Kardec também é um evangelho de Cristo, é o novo testamento.

 

(troca de CD) 

 

P/2 - Eu queria retomar uma pergunta, que você falou que conversando com a tua terapeuta que ela contou as experiências dela e que no espiritismo teria uma possibilidade de você reencontrar a tua filha, rever a tua filha, como é que é isso?

 

R – Isso. Bom, como é que é isso?

 

P/1 – Aconteceu isso?

 

P/2 - É, você...

 

R – Eu não sei, na época que eu estava sob o efeito de drogas, de remédios, e depois na cirurgia também cada vez que eu entro, cada vez que eu sou sedada ou por excesso de tranquilizantes como era o caso que eu tomava um monte para poder dormir, né? E depois na época da cirurgia, eu tenho experiências de sair do corpo e ir para outros lugares onde eu mantenho contato com pessoas que eu nunca vi ou que já vi e não estão mais aqui. Tem assim, experiências na vida da gente que são muito pessoais e que também determinam o futuro da gente e as nossas crenças.  Por exemplo, quando eu era pequena eu escutava o piano da minha casa tocar sozinho à noite. Quando a minha filha mais nova nasceu, ela com oito meses não falava água, ela falava l’eau. Ela pedia água e mostrava o filtro e falava l’eau. Que é água em francês, né? Eu demorei uma semana para perceber que a menina tinha sede e estava me pedindo água. Eu quase desmaiei com ela na cozinha o dia que eu percebi. Que ela mostrava o filtro: “L’eau, mamãe, l’eau.” Minha terapeuta que é uma pessoa maravilhosa, uma das pessoas mais inteligentes, mais preparadas, formada pela USP. Pós-graduada, séria, uma profissional dizia que quando ela ia com as amigas – amigas médicas também – que ela ia para algum recanto no fim-de-semana fazer cursos de psiquiatria ela via, ela via espíritos. Ela viu o pai dela. O pai dela veio conversar com ela depois que ele morreu. Poucas vezes infelizmente, disse ela. Eu já tive experiência de projeção, saída do corpo. Ficar lá em cima me vendo embaixo. Eu já tive experiência de me deslocar para outras esferas. E quando eu descrevi essa experiência para outras pessoas algumas delas disseram: “Você teve um desdobramento. Uma experiência mística. Você foi até a casa da luz. Pára de fazer isso porque tem gente que gosta tanto do outro lado que vai e fica. Pára com isso.” Então, a própria vó Zoraide que via. Ela falou que ela ia em enterro, ela via o morto deitado e a outra pessoa do lado. O morto em pé do lado, o espírito. Olhando sem entender o que estava acontecendo, querendo falar com as pessoas e não conseguindo. Que ela perdeu um primo quando ela era pequenininha que todo mundo nas festinhas que ela era a única que via o priminho brincando com eles também nas festinhas. E eu conheci algumas pessoas que diziam que no mundo, na casa ela via os mortos e os vivos convivendo em harmonia.

 

P/1 – Deixa só eu perguntar uma coisinha...

 

R – E eu não tenho por que dizer que é mentira, que é mistificação, que é paranóia. Não vou dizer para você...

 

P/2 - Mas você chegou a ter a experiência de rever a sua filha?

 

R – Sim, em uma dessas projeções. Fiquei emocionadíssima.

 

P/1 – Mas essa visualização ela é materializada? Vamos dizer na hora que você viu a sua filha...

 

R – Não. Eu me sinto espírito e ela espírito.

 

P/1 – Você não materializa o corpo dela? Está entendendo o que eu estou perguntando?

 

R – Sim. Estamos como nós duas aqui.

 

P/1 – Você vê o físico dela?

 

R – Eu vejo não. Eu a vi e eu era como ela. Então não fui eu que vi. Foi o meu espírito. Eu estava possivelmente sob efeito de drogas. Assim como eu já vi outras coisas também sob efeito de drogas e lúcida lá em cima. Sabendo: ”Olha, eu estou dormindo e estou vendo isso acontecer assim, assim. Deixa eu descer logo.” E acordar banhada em suor das experiências que tive fora do corpo. Algumas agradáveis, mas algumas muito desagradáveis.

 

P/2 -  Mas eu queria perguntar assim, a filosofia espírita, além da parte filosófica que te dá força, ela de alguma forma te deixa mais próxima mesmo da sua filha, né?

 

R – Com certeza.

 

P/2 - Por que é possível revelá-la?

 

R – Porque é possível. Com certeza. Tanto que eu falava assim: “Olha gente, não vamos fazer drama porque em último caso se eu não sarar o máximo que vai acontecer é eu morrer e eu vou ver a Aline antes de vocês.” Aí eles ficavam olhando para mim assim. (risos) “Vou ver a Aline antes que vocês. Olha que privilégio.”

 

P/1 – Depois do acidente você teve a sensação de que você ia perder outras pessoas? Ficou com medo de perder outras pessoas?

 

R – Nossa. Não medo. Eu fiquei paranóica. Eu fiquei doente. Eu não deixava os meus filhos saírem de perto de mim. De medo que acontecesse com eles. Até hoje a gente se fala várias vezes ao dia. A gente sempre se falou. Mas a gente não tinha essa constância. A gente tinha consciência do por que a gente se falava. Hoje a gente se fala e é para um controlar o que o outro está fazendo o tempo todo sim.

P/2 - Ficaram mais unidos?

R – Nossa, muito mais.

P/2 -  E da onde você tirou força para deixar sua filha ir viajar, né?  _____

R – Nossa, isso aí foi, isso aí eu não sei. Eu tenho impressão que nessa hora, Morgana, a gente tem muita ajuda espiritual. A gente tem mesmo. Os, sei lá, anjos, familiares desencarnados, Deus, a natureza. O que você quiser dar nome dependendo do que você acredite. Mas alguma coisa está ali te abraçando, te segurando que você sente fisicamente que tem alguém te apoiando. Impressionante. Com certeza tem alguma coisa que vem te segurar. Porque sozinha você não fica.

P/1 – Mas não é um pouco, assim, contraditório toda essa experiência que você teve e achar que a hora que chegou a hora, chegou a hora? Você pode adiar um pouco e assim ao mesmo tempo você querer segurar seus filhos, controlar eles para que nada aconteça?

R – Claro. Tenho plena consciência disso. Por isso que eu te falei que eu fiquei paranóica. Não com medo. Medo eu tenho de ladrão, de andar de avião. Tenho pavor que aconteça alguma coisa com os meus filhos.

P/2 - Quando você relata que você estava com câncer que você falava: “Bom, se eu morrer eu vou...”

R – Encontrá-la.

P/2 -  Tinha um desejo disso também? Ou você não, não queria morrer? Ou você chegou a pensar realmente nisso?

R – Eu me peguei várias vezes pedindo para morrer.

P/1 – Para poder encontrar a sua filha?

R – Possivelmente. Eu tinha, cada vez que eu penso nisso eu acho péssimo, né, pensar isso. Pô, quero morrer. Horrível. Reage. Você tem tudo para viver, né? Muita coisa para fazer ainda. Mas pensei várias vezes. Gostaria de morrer sem dor.

P/2 – Eu queria falar um pouquinho mais sobre o processo nesse um ano. Você configurou como um ano o teu processo de doença, né?

R – Foi.

P/2 - Nesse um ano o que é que aconteceu assim? Você teve foi uma internação só, uma cirurgia? Quanto tempo de hospital você teve? Quanto tempo de efeitos colaterais, queria entender um pouco esse teu processo.

R – Bom, em 97 a minha terapeuta começou a me alertar por volta de outubro, eu fiz a primeira consulta, fiz uma ultra-sonografia. Tudo tocando a vida normal. Trabalhando, estudando, cuidando da casa. Eu ia ao médico, vamos dizer, eu fui umas quatro vezes ao médico para consulta e para levar os exames. Então eu cheguei a fazer...

P/2 -  Era um médico indicado? Um médico da família?

R – Amigo nosso de...

P/2 - Era um amigo.

R - ...amigo do meu marido, de cursinho, de solteiro. Meu marido foi para a Veterinária, ele foi para Medicina. Então são amigos até hoje.

P/2 - É alguém próximo.

R – Muito próximo. Como é que foi isso? Eu ia, aí muito aberta a nossa relação. “Célia, você já teve, você já mexeu nessa tireóide, pode ter voltado, pode ser um câncer. Pela ultra-sonografia não dá para ver. Vamos fazer uma punção?”

P/2 -  Ele é o quê? Endócrino?

R – Ele é gastro e cirurgião torácico. Geral. Foi diretor do centro cirúrgico do Einstein. Eu falei: “Vai doer?” “Vai, vai doer.” “Tá bom, vamos fazer.” Mas doeu muito mais do que eu imaginei. Porque de todas as punções que ele me fez, que eu imagino que tenha sido cerca de onze ou doze só três dos nódulos eram assim bem típicos, que levaram o meu médico a dizer: “Olha, 70% a 80% de possibilidade que seja maligno o tumor.” Eu falei: “Nunca mais vão me enfiar agulha no pescoço. Seja ou não seja, nós vamos tirar isso tudo porque eu não vou viver com uma espada em cima da minha cabeça esperando cair. Vamos resolver logo esse  problema.” Então veja, foi diagnosticado, eu comecei a procurar diagnóstico certo em outubro pra novembro. Vieram as férias. Dia 2 de fevereiro, 3 de fevereiro tive diagnóstico. Primeira semana, segunda semana de março eu operei. Depois de um mês...

P/2 - Quanto tempo você ficou no hospital?

R – Eu fiquei cinco dias. Depois que eu saí do hospital eu fiquei em casa um tempo. Não, fiquei nada. Segunda-feira seguinte eu já fui para a faculdade.

P/2 - Vida normal?

R – Vida normal. Só me sentindo deprimida. Tanto remédio. Sem tirosina, né, a gente fica meio... Aí complica tudo. Veio o problema de menopausa. Porque eu sangrava muito eu tive que provocar menopausa. Então somou o problema endócrino com o problema ginecológico. Uma coisa decorrendo da outra, da disfunção hormonal. Em março eu operei. Em maio, em abril eu fiz a quimio de choque. Em julho eu fiz um controle, uma varredura total. Segundo semestre vida normal. Janeiro outra varredura total. Julho outra.

P/2 - Você diz exames laboratoriais, não teve internação?

R – Sem internação.

P/2 - Você teve duas internações só no teu processo?

R – Basicamente.

P/2 - Que foi para cirurgia e quimio?

R – Basicamente.

P/1 – E foi nessa época que você entrou na faculdade?

R – Eu estava no segundo ano da faculdade. Entrei em 97, isso, foi em 98. No meio do segundo ano.

P/2 - E de efeitos colaterais assim, teve muito ou...

R – O que eu pude ver, Morgana, foi a gordura. (risos) Eu engordei 10 quilos.

P/2 - Tá, mas de...

R – Tá? Agora, eu não fico assim: “Deixa eu ver se eu estou com alguma dor? Deixa eu ver se...”, entendeu?

P/2 - Sim, mas não foi um processo que te tirou da tua vida, pelo que você conta, não te tirou da tua rotina?

R – Não, fiz concurso na faculdade. Passei. Assumi. Trabalhei o dia inteiro. Estudei de manhã, trabalhei à tarde, cuidei da casa, comprei apartamento, reformei, mudei. Vida normal. Não me lembro de nenhum efeito colateral que me deixasse prostrada, aniquilada, doente, de cama. Vida normal.

P/2 - Muito diferente do peso do diagnóstico. Porque quando você ouve falar, bom, alguém que teve um câncer na tireoide você fica imaginando que a pessoa vai te contar um processo... E pelo que você conta das intervenções parece que tem muito mais peso o diagnóstico em si, né?

R – Pois é. E também assim como as pessoas lidam, têm dificuldade de lidar com isso. Porque em 96 quando eu ainda estava no Mater Dei uma colega minha foi operada. E eu a animava muito: “Olha, não vai acontecer nada, tudo bem. Tá, tá, tá.” Aí um dos coordenadores, amigo meu, falou para mim: “Por que é que você fala isso tudo para ela?”. O coordenador veio me perguntar por que é que eu falava essas coisas para ela. Eu falei: “Não, porque eu já tive problema de tireóide, já operei.” “É, mas você teve um problema de tireóide e está aí viva. Ela teve um câncer.” Eu falei: “mas ela está viva e vai continuar viva também.” Ela não precisou fazer, nem quimioterapia. O câncer dela estava bem localizado, foi estirpado com sucesso absoluto, então. Agora, ela também engordou, coitada. A gente engorda, né? Não sei se vem a cinquentina aí, depois dos 50 a gente resolve, sei lá, não obedece mais. Alguma coisa combina com menopausa e uma vida um pouco mais sedentária também. Foi a única coisa que fisicamente me perturbou disso tudo, foi o fato de eu ter engordado e o problema hormonal, né? De útero, de ovário que eu precisei provocar uma menopausa que descontrolou tudo. Fiquei assim o Samba do Crioulo Doido. Começou a crescer mioma e tudo.

 

P/2 - E como você lida com essa coisa que você estava falando que tem um prazo que os médicos dão?

R – Dos cinco anos?

P/2 – É. Isso para você é...

R – Tranquilo. Confio plenamente nos meus médicos. Se eles daqui a cinco anos disserem para mim: “Você está absolutamente curada.” Eu vou lá e digo: “Muito obrigada. Ótimo”. Vou na igreja agradecer. Vou no centro agradecer. Vou no culto agradecer. Vou na igreja budista agradecer. Todas as horas do meu dia os anjos e santos e muito obrigada pela segunda oportunidade, né?

P/2 - Mas você se dá esse prazo também ou você sente que você está curada?

R – Eu sinto que eu estou absolutamente curada. Não me dou prazo nenhum.

P/2 - Porque a forma como você fala parece, passa isso.

R – Eu me considero absolutamente curada.

P/2 - Quer dizer, é uma coisa dos médicos?

R – Do passado para mim. Isso é uma coisa do passado. Foi mais uma fase, mais um tropeço que eu tive que dar, levantei e continuei andando. Para mim isso está absolutamente superado.

P/1 – Você falou que teve há 25 anos atrás, teve um outro problema de tireoide?

R – Eu tive. Eu tinha um começo de bócio. Na minha cidade não havia água tratada. Não havia iodo, não havia flúor, não havia nada na água. E meu pescoço começou a engrossar. E eu, quando nós mudamos pra São Paulo, dessa fase dos catorze para quinze anos, eu fiz um tratamento no Hospital das Clínicas com iodoterapia. E aí regrediu. Quando eu tive o primeiro filho em 71 eu comecei a me sentir mal. Comecei a ter problemas e começou a crescer de novo. Aí eu fui ao médico amigo do meu marido, ele operou. Ele falou: “Olha, você está com nódulos (mornos?) _________ eu sinto.” Ele abriu e falou: “Olha, você tinha meia dúzia de nódulos. Eu tirei tudo, você ficou com o ápice da tireóide. Vai suprir você para o resto da vida, você não vai ter problema”.

P/2 - Ah, você já tinha feito uma cirurgia?

R – Eu já tinha feito uma cirurgia. E nessa primeira cirurgia o diagnóstico foi: nódulos mornos. Eu perguntei para o médico que me operou: “O que é que significa nódulos mornos?” Ele falou: “Olha, são três tipos de nódulos de tireóide que a gente tem nesse avanço atual da medicina.” Que foi nos anos 70, em 73. “O nódulo frio que são nódulos comuns. É como se fosse na pele um lipoma, uma carne esponjosa. Sem grandes repercussões. O nódulo quente que é um nódulo maligno. E o morno que é alguma coisa que ainda não se definiu entre uma coisa e outra.” Então eu acho que eu tenho câncer desde aquela época. Eu pessoalmente. Que assim, um nódulo, alguma coisa meio indefinida que na minha vida trabalhando, desencanada estacionou. E com a morte da minha filha e a mágoa, a dor, a sufocação...

P/1 – Reprimida.

R - ...a repressão que eu mesma me impus descontrolou de novo e aí veio com tudo. Para mim foi isso.

P/2 - E você se impôs em função de quê? Você falou “eu mesma me impus”. De como você vê a estrutura do resto da tua família?

R – Primeiro, em casa eu não podia chorar e queixar porque eu é que estava segurando todo mundo. Na escola eu tinha que ser uma profissional. Uma professora competente com duzentos alunos para tocar a vida. Ninguém queria saber o que é que estava acontecendo comigo. Apesar de que eu encontrei muita gente maravilhosa que me deu muito apoio também nessa época. Minha família toda morando longe. Minha mãe, minha irmã no interior. A outra irmã trabalhando. Me via uma vez por semana. Era uma vez por semana de terapia e o resto do tempo, gente, sorriso no rosto e vamos tocar pra frente a vida, né? E engolia. Vamos tocar pra frente. Ninguém tem nada a ver com o meu problema. Ninguém está preocupado comigo.

P/1 – Quando você fala que essa expressão engolir em seco, né?

R – É.

P/1 – Mas assim, quando você estava sozinha, você punha para fora de alguma forma?

R – Com certeza. Eu esmurrei travesseiro, eu rasguei pano. E o que, banho em baixo do chuveiro era água por cima e água dos olhos. Água de cima e água da alma. Todos os banhos. (chora) Lava, né? Falar nisso me emociona.

P/1 – Lava a lama?

R – Lava.

P/2 - Quanto tempo faz que ela morreu?

R – Dia 8 de maio fez nove anos.

P/2 - Como é que é depois de nove anos?

R – Igual.

P/2 - Igual.

R – Igual.

P/1 – O tempo não abranda, não piora, não tem influência ou tem?

R – Tem. O tempo tem influência sim. O tempo sempre te dá a perspectiva de, esse distanciamento te dá um espaço para raciocinar mais friamente. Para passar por outras experiências. Para se abrir para experiências dos outros. E para relativizar um pouco a sua dor. Você fica mais centrado. Vamos dizer que é como você quebrar uma perna ou as duas e ter que reaprender a andar. Você vai conseguir andar de novo, ou com aparelho ou com muleta. Ou se você tiver uma boa cicatrização sem nada. Mas a cicatriz está lá. E a dor você esquece, mas você também lembra. Cada vez que você tirar a meia você vai lembrar. Ou que você tomar um banho, né? Você olhar para a sua ferida, você vai lembrar da sua ferida.

P/1 – E ter esse contato com essa dor te faz bem ou te faz mal?

R – (silêncio) Não é bom. Não é bom sofrer não. Eu acho que ninguém gosta de sofrer. Ter contato com dor não pode trazer prazer para uma pessoa normal, eu acho. Tanto que quando eu começo a chorar, a ter saudades dela eu procuro ir fazer alguma coisa de útil para alguém. Ou para mim ou para alguém que esteja precisando. Eu não fico lastimando, cultivando e alimentando essa dor não. Eu procuro respirar fundo, me harmonizar, meditar um pouco e dizer: “Onde quer que você esteja, esteja bem. Te amo e vamos tocar para a frente.” Eu não gosto de ficar, o que seria isso uma... (choro) É um termo horrível, né? Procurar a dor, uma masturbação mental? Não, eu procuro fugir. Eu procuro canalizar o meu pensamento para coisas agradáveis. Ou lembrar dela quando ela era viva, as coisas boas que ela fazia ou me ocupar com alguma outra coisa, com pensamento produtivo, útil e positivo no lugar.

P/1 – Você passou por um período que muita gente passa quando tem esse tipo de perda de sentir assim: “Se eu me recuperar eu estou esquecendo da pessoa. Se eu superar isso com mais rapidez eu estou esquecendo mais rápido da pessoa.” E ter esse tipo de culpa? Ao mesmo tempo você quer esquecer e ao mesmo tempo você não quer para ficar mais próxima?

R – É. Tem momentos que você pensa isso sim. No começo eu pensava assim: “Como é que eu vou conseguir sobreviver sem minha filha? Não vou.” Depois de algum tempo você começa a pensar: “Meu Deus, eu estou conseguindo sobreviver sem a minha filha.” Depois de um certo tempo você fala: “Puxa vida, como eu sou forte. Eu consegui sobreviver sem a minha filha. Já que eu vivi até agora eu vou viver mais um pouco.” Agora, a lembrança, o tempo amaina a dor. Por quê? Porque você consegue amadurecer e trabalhar isso na sua cabeça até no seu físico. Agora, a saudade, a lembrança, a presença das pessoas isso o tempo não afasta. Pelo contrário. Parece que nunca estiveram tão presentes. O meu pai, por exemplo, eu pego fita de violino fico escutando e me deliciando achando que ele está comigo escutando também.

P/1 – Então isso acontece com outras pessoas também que se foram? Essa aproximação?

R – Ah, sim. Sim, eu precisei mudar do meu prédio porque cada vez que eu entrava na casa da minha sogra – ela morava no 91, eu no 101, uma tia no 92 e outra tia no 82 – eu aluguei os dois e fui morar em outro lugar. Porque quando eu abria a porta da casa dela, meu filho morou lá, depois minha filha morou lá, eles quiseram experimentar ser independentes. Eu tinha a sensação de que ela estava na cozinha. Onde ela sempre estava quando eu entrava pela cozinha. Ela sempre estava ali no fogão. Ela nunca deixou ninguém pegar, chegar perto do fogão dela. Eu tinha assim uma sensação física da presença dela que se eu virasse assim, eu achava que ela ia estar sentada na cadeira. Ou que eu ia ver ela mexendo nas panelas. Muito forte.

P/1 – E hoje como é que é a estrutura da tua família? Seus filhos?

R – Meu filho casou faz um ano e meio. Está morando na casinha dele, né? No apartamentinho dele. Mas a gente mantém muito contato. Todo dia a gente se liga, a gente se fala. Hoje mesmo ele foi almoçar lá em casa, mas eu já tinha saído porque eu tive que ir ao dentista. Não me viu. Mas ontem eles almoçaram comigo. Ele e a esposa. A minha pequena, a minha menininha de 24 anos é bastante ligada comigo e com o pai também. E a gente se fala...

P/1 – Ainda mora com vocês?

R – Mora comigo. Ela está com um namoradinho aí, mas ela disse que já vai terminar o namoro, que não está legal. Mas ela é uma pessoa linda. Muito linda. O meu marido é que dá mais preocupação porque tem essa tendência de se acomodar e não querer se mexer. Ele só fica legal assim quando os amigos telefonam: “Vamos pescar?” “Pode marcar a pescaria.” “Vamos viajar?” “Vamos.” Aí ele gosta. Mas na rotina ali da casa ele é meio pacatão. É televisão, é livro. Uma vez por semana só ele sai para trabalhar. Quer dizer, ele sai para fazer compra, para ir ao banco, para fazer as coisas da represa. Mas eu acho que sair também é ter uma profissão, ter um emprego, ter um compromisso com alguém. Isso é o que mais me preocupa. O resto está indo.

P/2 - Vocês conversaram muito ou não? Você e seu marido? Quer dizer, como é que foi esse processo entre vocês com a perda da sua filha?

R – Dificílimo. Ele é uma geladeira fechada. Ele é um, você precisa tirar as coisas de saca-rolhas. Dificílimo. Muito difícil conversar com ele. Com os meus filhos é muito fácil. Fazemos longas sessões de terapia. Mas o meu marido é muito complicado. Porque ele ficou muito revoltado com tudo e ele ficou muito agressivo. Então eu não mexo com a fera. Raramente a gente conversa.

P/2 - Sobre o que aconteceu?

R – Ele culpou o namorado. Eu tive uma visão ele teve outra. Eu tive uma visão assim, eu sabia, eu tentei evitar, mas o destino me venceu. Foi mais forte, eu sou impotente, eu sou uma porcaria. Eu sou um grãozinho de areia e larga mão. E ponha isso na tua cabeça e larga mão de querer mudar a vida dos outros. Cada um tem o livre arbítrio. Cada um escolheu. E você só tem que se conformar. E fazer o melhor que você puder. Ele não. “Nós somos culpados. Nós devíamos ter separado. O namorado que foi o culpado. Se ele não tivesse dado o carro. Se ela não estivesse no carro com ele.” Entendeu? Ele fica remoendo rancores.

P/1 – Até hoje?

R – Eu tenho certeza que se eu tocar no assunto ele ainda vai xingar o moço. Por isso eu nem toco. Eu não quero que ele tenha raiva. Eu não quero alimentar nenhum tipo de animosidade. Não toco no assunto.

P/1 – Vocês tiveram algum contato com a família dele?

R – Do rapaz?

P/1 – É.  Depois?

R – Sim, minha filha. Ele é meu primo.

P/2 - Ah, é seu primo?

R – É, ele é irmão da moça que ia comigo na vó Zoraide. Que é a minha prima predileta. (riso)

P/1 – E como é que _____

P/2 - Então vocês se...

R – Ele fez doze cirurgias. Ele ficou um mês no hospital. Fez doze cirurgias em dois anos.

P/1 – Ah, ele não faleceu na hora?

R – Ele não morreu. Ele casou com a cirurgiã plástica dele.

P/1 – Ele não morreu. Você falou que morreram...

R – Morreram os dois do outro carro. Ela e os dois do outro carro.

P/1 – Ah.

R – O motorista e a secretária do Clube Pinheiros que estava com ele.

P/1 – Então, e...

P/2 - Ele faz parte dos seus ciclos de encontros ou não?

R – Não. Eu o procurei algumas vezes depois da morte dela, até porque a família do motorista do outro carro abriu processo contra ele. Eu queria pedir para ele as coisas que, eu pedi para ele se acautelar porque eu não o culpei. Mas eu queria que ele devolvesse para mim tudo dela que ele tivesse. Assim como eu peguei tudo dele que estava na minha casa e entreguei para ele eu esperava que ele fizesse a mesma coisa. Que ele se libertasse dela e devolvesse as coisas para mim. E ele não correspondeu. Então eu o risquei da minha vida. Eu o encontrei uma vez no casamento de um sobrinho. O filho dessa minha, mas ele não veio me cumprimentar e eu passei longe também. Agora com a minha tia, com a minha prima eu falo. Nos aniversários, Natal, Ano Novo. Ela _____ no interior.

P/1 – E ele teve algum sentimento de culpa?

R – Dizem que sim. Ele ficou muito mal.

P/1 – Por ele saber do carro, saber do...

R – Dizem que ele ficou muito mal. Só que homem é diferente, né? Daí dois anos ele casou com a médica que cuidou dele.

P/2 - Você exerce Direito?

R – No momento eu estou, como durante a faculdade eu só fiz Ministério Público, eu só fiz Infância e Juventude e Crime. E Júri. Tribunal do Júri. Então agora eu estou fazendo estágio com uma juíza no Civil.

P/2 - Você se formou?

R – Agora em dezembro.

P/2 - Em dezembro.

R – Fiz a OAB em janeiro e fevereiro. Aliás, em dezembro e fevereiro.

P/2 - É e você falou que ia receber aquela...

R – É, recebi a carteirinha terça-feira. Dia 28, 29.

P/2 - Você curtiu se formar em Direito? Porque é uma história lá de trás, né?

R – Curti. Eu curti sim. Foi muito bom. Eu curti a faculdade. Tive muitas amigas. Curti os professores. Fiz trabalhos.

P/1 – Como é que foi essa relação ter pessoas muito mais novas que você na faculdade?

R – Eu era a mãezona de todo mundo. Eu fui fazer de manhã. Ainda se eu fosse fazer a noite tinha uns velhote lá para me fazer companhia. Para a gente fazer a turma dos velho. Mas nada. Eu sou louca. Fui fazer de manhã. Só tinha molecada. Tudo com idade para ser meu filho. Foi o maior barato.

P/1 – E como é que foi sua relação?

R – Foi ótima. Eu sempre me dei bem com jovens, né? Então todo mundo queria fazer grupo comigo. A gente só brigou assim umas duas vezes quando elas desrespeitaram alguns professores, né? E eu como professora, mais velha falei: “Não é assim que se fazem as coisas. Não é com greve, não é com agressão, não é com abaixo assinado. Vamos primeiro falar com o professor.” Tive alguns assim, acidentes de percurso por causa disso. Minha visão de mundo é diferente da visão de mundo do jovem. Mas na parte assim afetiva e do dia-a-dia foi tranquilo.

P/1 – E como é que foi a festa de formatura?

R – Ah, foi um barato. Eu fui na formatura, na colação e fui no baile. Foi divertidíssimo.

P/2 - E quais teus planos profissionais?

R – Olha, eu queria trabalhar com assistência judiciária gratuita. Por quê? Porque eu atingi um estágio da minha vida como eu disse para vocês que eu não quero guardar dinheiro. Acumular coisas materiais. Eu quero ajudar os outros. Então eu estava pensando em servir, trabalhar para pessoas que não podem pagar. Porém, para fazer isso eu preciso antes saber bem Civil. Porque no crime é mais fácil a gente trabalhar, mas é muito doloroso. E como eu fiquei no Ministério Público os três anos da faculdade eu não aprendi muito a parte Civil. Então eu estou aprendendo agora. Então eu estou me preparando para poder atuar no Civil. Com o quê? Com pessoas carentes. Acontece que eu estou encontrando uma grande resistência lá em casa, principalmente por parte do meu marido. Que falou, que fala todos os dias da nossa vida: “Agora a gente está ficando velho, a gente não sabe quanto tempo a gente tem de vida vamos passear um pouco. Vamos ficar no sítio, vamos pescar. Vamos para Ribeirão. Você vai arrumar emprego? Vai assinar ponto? Para quê? Você quer comprar uma casa? Quer comprar um carro mais novo?” “Não, não quero. Quero carro velho, quero casa velha. Não quero dinheiro. Quero me ocupar. Quero servir. Quero ser útil.” Vamos ver então se a gente consegue ter essa possibilidade de trabalhar para ajudar as pessoas sem aquela prisão dos 365 dias por ano ter que assinar ponto, ter que ter vínculo empregatício e um patrão te mandando o tempo inteiro fazer. Que eu acho que eu não sei se eu estou com paciência para isso no momento.

P/1 – Durante todo esse processo, da perda da sua filha, do seu câncer, da sua retomada nos estudos o seu marido está mais ou menos o oposto de você, né? Dele tem entrado em depressão, dele ter de desanimado para novos empreendimentos, tudo. Teve algum momento que desestabilizou o casamento?

R – Mas com certeza. Mas com certeza, minha filha. Mas com certeza.

P/1 – Como é que foi superado isso? Assim você falou que ele não é de muito falar?

R – Foi superado assim, né? Tua vida já está de cabeça para o ar. Você ainda vai pegar a sua mala e ir embora e deixar uma pessoa morrer sem ajudar? Não tem jeito. Quem aguentou trinta anos toca em frente. Não vai desistir depois de trinta anos por causa de uma dificuldade humanamente compreensível. Não quer se tratar? Paciência. Fica no pocinho. Só que eu não vou entrar junto.

P/2 - É a sensação que...

P/1 – Mas isso aí não faz vocês se distanciarem cada vez mais?

R – Não. Nós já nos distanciamos muito. Nossa. Os dois primeiros anos, 93, 94 eu quase peguei a minha mala e fui embora. Mas ele precisava tanto da minha ajuda, tanto da minha ajuda, né? E ele foi tão bom. Um homem, um marido tão legal, companheiro. Um amigo todos esses anos. Não é na primeira dificuldade que você vai, né?

P/2 -  A sensação que dá é que a vida...

R – “Tchau, preciso cuidar de mim.”

P/2 -  A sensação que dá, você falando é que a coisa mais difícil a vida já pediu de você.

R – Com certeza.

P/2 - Porque o resto parece que é superável.

R – Eu não tenho interesse em namorar, casar de novo, ter outro homem. Ele só tem eu. Ele é filho único. Ele não tem pai, ele não tem mãe. Ele não tem um irmão. Ele tem eu e os dois filhos. É um núcleo familiar que não dá para se romper. É muito forte. São quatro pilares um segurando o outro. Não dá para tirar uma perna da cadeira. A cadeira fica bamba, cai.

P/1 – E o tombo seria...

R – Para todo mundo.

P/1 – Mas mais para ele.

R – Ah, com certeza. Com certeza ele não tem estrutura para aguentar. Sem a gente ele aguenta, não toca. Ih, nossa. Ele já estava pensando em pular lá do décimo andar. Tive que esconder o revólver e as bala porque eu achei que ele fosse dar um tiro na cabeça. De tanta dor que eu vi ele passar, tanto desespero e deu até a cabeça. É horrível você ver uma pessoa em crise e você não poder fazer nada.

P/1 – E até hoje ele se cuida com algum tipo de ajuda?

R – Ele vai, quando terminam os remédios ele vai ao neurologista buscar outra receita. Eu o levei para umas consultas no psiquiatra com a desculpa que a minha filha estava com problema de identidade, né, por ele ser muito conhecido na área dele e ela ter feito a mesma faculdade. Para ajudar minha filha, né? Ele foi um mês quatro, cinco sessões. “Acho que eu já ajudei a Elaine, né? Agora eu não preciso mais ir.” Ele não tem nem aquele sentimento de como é bom eu ir lá e pelo menos falar com alguma pessoa que me orienta dos problemas pelos quais eu passei. Ele prefere ficar em casa e não falar no assunto. Ele não acha importante falar no assunto. Purgar, né, a doença. ___ caso. Espremer o tumor botar remédio na ferida. Ele prefere achar que a ferida cicatrizou. Botou um pano em cima e não quer mexer nela. São reações, né, Jurema, a gente precisa respeitar as pessoas.

P/1 – Certo. Talvez para ele seja melhor.

R – Talvez ele não tenha estrutura para começar uma terapia agora com 58 anos. Pegar desde a infância o processo de crescimento dele e mexer com a figura dos pais que agora estão mortos, né? Eu acho que sempre vale a pena. Mas isso sou eu que acho. Tem que se achar é ele.

P/1 – Faz bem para você, né?

R – Eu quando eu acho que eu preciso eu pago uma consulta e vou. Então, minha terapeuta mudou. Se ela estivesse em São Paulo talvez eu ainda estivesse indo lá uma vez por semana, não sei. Agora não vou misturar o meu tratamento com o tratamento da minha filha. Mas de vez em quando eu vou lá quando eu preciso de remédio. Quando acontece alguma coisa assim mais grave, uma decisão assim mais drástica que eu tenha que tomar que eu não queira tomar sozinha eu pago uma consulta e vou.

P/1 – Célia, o que foi para você estar falando sobre tudo isso? E mais do que falando é registrando isso, né? De alguma forma um pouco mais definitiva. Em um vídeo, em um áudio. Fazer parte disto. O que você sentiu?

R – Bom, se, eu acho que se tivesse vindo de outras pessoas eu não sei se eu me proporia a falar, tá? Mas vindo da Luciana e da Morgana, depois que eu encontrei você foi legal. Eu acho que eu falei demais. Que eu podia ter falado bem menos, e ter sido mais objetiva. Mas também fica difícil falar suas experiências de vida sem ser subjetiva. Não gosto de chorar como eu disse para vocês, em público, mas é uma coisa que eu tive que aprender. Eu nunca fui disso, mas depois eu aprendi.

P/1 – Não te desconfortou?

R – Não. E eu acho que é um trabalho bonito de vocês. Que é válido. Não me acho importante. Mas se a minha experiência puder servir para alguém já valeu a pena.

P/2 - É, eu acho que como a gente tinha falado aqui tem horário para começar e não tem para terminar justamente...

R – Por isso, né?

P/2 -  ...porque...

R – Não está programado. Não tem um script.

P/2 - E até eu acho assim, a gente te chamou para falar da tua experiência da doença e a gente acabou tendo a oportunidade de falar de uma experiência infinitamente maior e mais desafiante.

R – Mais traumática. Muito mais traumática.

P/2 - É, que é lidar com a experiência da morte.

R – Eu não sei se a gente tem sorte de viver no século XXI, mas o câncer hoje não deve assustar mais ninguém. A não ser aquele tipo que dá como teve aquele cantor, o Leandro, né? Ou no cérebro, porque ainda não dá para substituir o cérebro. Mas daqui para baixo a medicina está muito desenvolvida. Eu acho que o câncer hoje é como uma doença qualquer, né? Como a Aids, como a tuberculose. Tem tratamento que as pessoas... Mas eu acho muito importante, muito importante a gente ter em mente que a gente é realmente um corpo complexo. É corpo e alma. Que se o espírito estiver bem, que se o espírito estiver equilibrado, se você tiver uma fé profunda em algo, em Deus o que quer que seja. Em harmonia o espírito e a matéria você pode vencer as doenças. Por que não?

P/1 – Hum, hum.

P/2 - Eu fiquei com vontade de perguntar assim, porque você começou a sua narrativa falando de uma menina franzina ali que levantou o dedinho assim, né, dando a impressão de uma pessoa mais tímida. E se mostrou uma mulher muito forte.

P/1 – Durante a vida inteira.

P/2 - Para mim assim, eu acho assim, consegui ver a tua força. Essa percepção você tem? Isso você foi conquistando? Como é que você vê?

R – Quando eu paro para me olhar... (choro) Eu lembro de uma coisa que a minha mãe me contou, acho que ela me contou isso umas duas ou três vezes. Mas mesmo que ela tivesse contado uma só eu acho que eu teria lembrado para o resto da vida. Quando eu era pequenininha ela me disse que eu estava em um carrinho de bebê. Ela me empurrando na cidade. Ela e o meu pai costumavam frequentar um centro espírita lá em Itápolis. E ela me disse que o, o, nossa eu não lembro o nome dele. Um mentor lá, o responsável pelo centro espírita falou algumas coisas sobre mim para ela quando ela encontrou na rua, tal um dia. Ela não me levou no centro. Mas ela encontrou com ele. Seu Benedito, seu Antonio, eu não lembro o nome dele. E que ele falou umas coisas de mim para ela. E é gozado porque em um momento de dificuldade eu lembro disso. (choro) Eu toco para a frente. Eu não sou forte não. Que manteiga derretida. (choro)

P/1 – Mas você se lembra o que ele falou?

R – Claro. Claro que eu me lembro. Ela falou que ele disse para ela que eu era um espírito evoluído que tinha vindo para agregar a família. Que eu tinha vindo para agregar. E eu tenho que agregar. (choro) Não importa qual seja a dificuldade alguém tem que agregar, né? Eu acho que eu acreditei nesse papel. Só pode ser isso. Porque eu realmente sou muito tímida. Eu não gosto de me expor, não gosto de falar de mim. Eu estou até suando aqui e nem é de calor. _______. Mas eu acho que eu não sou importante, entendeu, para merecer isso que vocês estão fazendo para mim. (choro)

P/1 – Mas o espírito daqui do Museu é exatamente esse é, a gente considera basicamente todas as pessoas, independente de idade, credo...

R – Cor.

P/1 - ... posição social. Todas elas têm importância. A importância é relativa.

R – Ah, sim.

P/1 – Mas todas têm. Todas tem sua história. Que são tão importantes quanto...

R – Que de todos os outros.

P/1 – Elas são mais importantes, a tua história é mais importante para a sua família como a história do presidente da República é mais importante para a família dele. Mas não desmerece as outras histórias.

R – É isso aí.

P/2 - Para mim foi uma grande oportunidade. Eu te agradeço.

R – Eu é que agradeço.

P/2 - Como mãe, assim, eu tenho uma filha de quatro anos. Realmente assim escutar tua experiência, como foi teu processo, muito forte, muito forte. Muito obrigado.

P/1 – Eu tive uma identificação muito grande.

R – Ter uma filha é uma benção. Ter duas é um privilégio. Não fiquem em uma só. Tenham mais.

P/1 – E tenham filho.

R – É o ideal eu acho. Ter pelo menos uns dois. Eu sempre disse que eu recebi, que o meu primeiro filho foi assim aquilo que a gente sempre planejou ter na vida. Que a Aline foi uma vitória contra a morte. Porque eu tive três abortos entre o primeiro e ela. Então quando ela nasceu eu me senti a mulher mais feliz do mundo por ter conseguido ter a segunda filha e ser mulher. Eu estava realizada. Eu não queria mais nada nesta vida. Aí quando apareceu a Elaine, que veio totalmente inesperada e foi uma gravidez muito complicada eu falei: “Só pode ter sido um presente de Deus.” Um filho é um presente de Deus.

P/2 - É mesmo.

R – Então quando ele leva, a gente devolveu o presente. (choro) Chega?

P/2 - Chega.

R – Corta. (risos)

P/2 -  (choro) Ai chega mesmo.

P/1 – Devolveu não. Retribuiu o presente.

R – Acho que é isso, ou então era um empréstimo.

(fim da entrevista)

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