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História

Catadora com muito orgulho

História de: Aparecida Margarete de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/04/2014

Sinopse

Aparecida Margarete de Souza se criou no antigo lixão do Alvarenga, no ABC Paulista. Nesse lugar tirou seu sustento, casou e teve muitos filhos e viveu muitas tragédias. Foi lá também que aprendeu a ser catadora, se engajou e tem orgulho da profissão.

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História completa

Aparecida Margarete de Souza, nasci Interior de São Paulo, em Vera Cruz, no dia 27 de Janeiro de 66. Então, minha história começou eu tinha oito anos de idade dentro do ex-lixão do Alvarenga. De lá pra cá nós trabalhou... Eu tinha a minha família, pai, mãe, irmãos, até que fui crescendo, mas lá dentro do lixão. E nós nunca pensava em nada. Aquilo lá era nossa vida. Mas aí depois entrou um prefeito com uma proposta, ‘Criança no Lixo Nunca Mais’, ‘Lixo e Cidadania’, então foi e resgatou a gente do lixão, fechou o lixão.

 Porque lá no lixão era assim: ia lixo de São Paulo na época, né, de todo o município. Entrava muito caminhão mesmo, então a gente já viu gente morrendo. Eu, principalmente eu, já achei criança morta dentro de saco de lixo. Eu pensava que naquele tempo, como eu não tive, né, tempo de brincar, eu era doida por aquelas boneconas. Quando eu puxei pela cabeça, falei: “Achei, achei”, “O que você achou?”, “Uma boneca”. Era de noite. Aí quando nós puxa, aí: “Vem me ajudar a puxar a boneca, vem, vem”, que nós puxamos era uma criança.

 Era muito caminhão, então era muita... um querendo pegar mais do que o outro, sabe? Não esperava os “caminhão” despejar. A minha diversão era subir na rabeira dele lá no teto dele lá em cima e falar: “Pilota motorista e vamo pro “Área Verde” (riso). Aí chegava no Área Verde eu descia, quando o outro passava aí pegava rabeira, subia: “Pilota motorista que eu quero chegar no lixão”. Isso era a nossa brincadeira, não era só eu, tinha um monte de menina, e monte de menino. É o que nós tinha pra divertir na época, que nós trabalhava. Eu mesma, eu, Margarete, de oito ano de idade até meus 20 anos, eu acho que eu trabalhei naquele lixão dia e noite. Ali era luta de sobrevivente. Quem pudesse mais vivia, quem não pudesse...

 Meus filho nunca trabalhou no lixão. Eu ia sozinha, deixava meus filho em casa. E eu levava pra escola, depois eu ia trabalhar. Ainda ia buscar meus filhos. O que eu fiz, eu não me arrependo, foi muito orgulho, sou catadora, carrego aqui no peito o símbolo, sou catadora mesmo. Nasci catadora e quero morrer catadora. Nossa, eu amo essa profissão minha. Eu trabalhei na reciclagem do Rudge Ramos 11 anos. Hoje eu tô na Refazenda, na Rua Batuíra. Nós participa do Movimento dos Catadores, que é a base.

 E a minha maior alegria é ter saído do lixão. Eu sou uma das moradoras do ex-lixão, que foi pro alojamento do Rudge Ramos. Eu tenho um monte de filho, graças a Deus, Deus me deu um monte. E graças a Deus eu fui começando estudar, meus filhos começando estudar. Aí nós veio pro alojamento, conseguimo vaga nas escolas do Rudge, e a prefeitura sempre ajudando a gente. Eu falo pros meus filhos: “Eu lutei muito, foi muitos anos pra mim tá aqui hoje. Isso aqui não é meu, isso aqui vai ser de vocês, vocês têm que cuidar, porque eu não vou viver pro resto da vida”. Eu falo pros meus filho. Um dia me dá um “peripaqui”, quem vai ser responsável? Meus filho. Mas assim, eu vejo assim, foi um avanço pra muitos, mas pra outros não. Eu aprendi assim, que hoje nós tem um argumento. Isso nós chama argumento, que nós pode falar: “Isso aqui é meu. Eu lutei pra ter isso aqui. Foram muitos anos”, mas nós não pode bater muito porque nós não tem escritura ainda não. Enquanto não chegar esse papel, não posso bater muito assim, né? 

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