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Case de sucesso

História de: Júlio Cesar Santos Filgueiras
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/02/2021

Sinopse

Em sua história, Júlio fala sobre sua infância perto de sua tia, em São Luis e depois de seus estudos no Centro Integrado Rio Anil (CINTRA). Comenta depois sobre sua formação em Relações Públicas pela UFMA e seus primeiros estágios, além de suas amizades que carrega até hoje. A partir daí, nos conta como conheceu a Vila Nova Canaã através da ENEVA. Ouvimos sobre a implantação da rádio comunitária da Vila e a respeito também da solidariedade entre os agricultores de lá. Júlio termina sua entrevista nos contando sobre seus sonhos para o futuro.

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História completa

P/1 - Júlio, qual o seu nome completo, onde você nasceu e em que data?
R - Meu nome é Júlio César Santos Filgueiras. Nasci em São Luís do Maranhão, no dia dez de outubro de 1993.
P/1 - Você nasceu em hospital ou em casa?
R - Foi na Maternidade Marly Sarney, aqui em São Luís mesmo.
P/1 - Sua família contou pra você como foi o dia em que você nasceu?
R - Minha mãe disse que estava varrendo o terraço no dia dez, de manhã, e a bolsa estourou. Estava previsto pra eu nascer só no mês seguinte. Ela teve que correr, foi pra maternidade e eu nasci na mesma manhã. Foi bem rápido. O meu pai de registro não é meu pai. Ele era casado com a minha mãe e estava viajando; só a minha mãe que estava aqui, então só tenho o relato dela.  
P/1 -  Você nasceu com sete meses? 
R - Acho que pouco antes de nove. Estava previsto pra nascer no começo de novembro e eu nasci no dia dez de outubro. Mas foi normal, não fiquei internado. Tudo certo.
P/1 - Qual o nome da sua mãe?
R - Marileuze Campos Santos Filgueiras. P/1 - Como é a família da sua mãe, seus avós?
R - Eu tive contato com a minha avó, que ainda é viva, a Eglantine. Com meu avô eu não tive muito contato porque quando mamãe ainda era adolescente ele se separou da minha avó e ela veio pra capital com os filhos - ela era do interior. Meu avô ficou lá, com outra mulher, que ele acabou se separando. Eu o conheci, acho que o vi umas duas, três vezes, no máximo. Ele já faleceu, então não tenho muito o que falar dele. A minha avó, eu convivi com ela toda a minha infância e juventude, até hoje.           
P/1 - De qual cidade do interior a sua avó veio?
R - Olinda Nova, na região da baixada do Maranhão. 
P/1 - Onde fica essa região?
R - Eu já fui lá algumas vezes, mas não vou saber te explicar. Você pega o ferryboat aqui em São Luís e desce até a baixada maranhense, que chega em Pinheiro. De lá você vai pras cidades da baixada. 
P/1 - Por que a sua avó foi pra São Luís? Quantos filhos ela tinha?
R -  Minha avó e meu avô tiveram dez filhos e ainda deixaram uma criança na porta da casa dela, então ela pegou; no total tiveram onze filhos. Meu avô acabou arrumando outra mulher, minha avó se separou dele e veio pra São Luís com os filhos pra estudar, pra tentar uma vida melhor. 
P/1 - Eles contam pra onde foram, como foi essa caminhada?
R - Na verdade, um filho de vovó já morava aqui, dos mais velhos. Já tinha casa, era casado, então grande parte foi morar com ele, na casa dele. Minha avó foi dividindo os filhos nas casas dos irmãos dela; era pra estudar e ajudar na casa. Minha mãe foi morar com a madrinha dela na época e também estudava. Terminou o ensino médio. Assim foi com meus outros tios. Eu não vou saber dizer exatamente quem morava lá, mas alguns ficaram na casa do irmão e outros foram morar na casa dos tios até se casar e construir família.
P/1 - A sua avó mora no mesmo bairro pro qual ela veio?
R - Não. De todos os filhos, ela ficou morando com a minha tia, que já faleceu. Hoje ela mora na casa em que a minha tia morava. Na verdade, não é na mesma casa, mas no mesmo bairro; mora com um dos filhos da minha tia que faleceu. 
P/1 - Qual o nome completo da sua avó?
R - Eglantine Campos Santos. 
P/1 - Conte como ela é, qual o jeito dela. 
R - Ela é baixinha, acho que tem um metro e cinquenta e cinco, sessenta talvez. É um pouquinho cheinha, não muito. Hoje ela está bem idosa, tem 86 anos, então está um pouco debilitada. Ela anda, mas tem um problema de artrose no joelho, então anda bem devagar. Ela já teve câncer também, mas já [se] curou. Está bem, na medida… Pra idade dela, ela está bem.
P/1 - Ela está sempre presente na sua vida?
R - Ela sempre este presente porque a gente morou perto - não no mesmo bairro, mas em bairros vizinhos, então eu sempre estava lá. Quando ela morava com a minha tia eu ficava muito tempo lá. Eu morei também um tempo com ela, entre 2015 e 2017. Ela ficou muito sozinha nessa época, porque meu primo foi estudar fora. É uma relação boa, não tem… [Relação] de vó, né? 
P/1 - Como é o humor dela?
R - Hoje ela está muito dramática, aquela coisa de estar no fim da vida. (sorri) Se a gente não vai lá ela reclama, mas é natural pela idade que ela tem. Ela sabe que não tem mas tanto tempo assim, então… Tem dia que está dramática, tem dia que está melhorzinha… Ela varia. 
P/1 - E como ela era quando você era criança?
R - Ela era bem ativa. Ela sempre trabalhou, vendia mingau na rua, trabalhava em casa de família. Nunca ficou parada. Tenho muito essa recordação dela quando era criança. Ela já se aposentou, então está mais em casa, mas uns vinte anos atrás ela era bem ativa. 
[...]
P/1 - Só pra entender: você foi criado pela sua mãe, sua avó e sua tia.R - Basicamente. Fiquei [quando] criança com a minha mãe, bem criancinha. Eu tinha uns três ou quatro anos quando meus pais se separaram. Minha mãe saiu de casa e eu fui morar com a minha tia. Fiquei grande parte da minha infância com a minha tia e depois voltei a morar com mamãe, mas ainda assim muito apegado, próximo à minha tia. Voltei a morar com a minha mãe quando já tinha uns oito anos. 
P/1 - O que aconteceu pra sua mãe ter saído de casa quando você tinha quatro anos? 
R - Eu não me lembro muito bem. Lembro que fui morar com minha tia. E como sempre fui muito apegado a ela, então pra mim não foi um problema. Não lembro disso me causar tristeza, pelo contrário. Meus irmãos também - os três foram morar com a minha tia e ela tinha mais dois filhos, meus primos, então eu gostava bastante dessa época. Era aquela coisa de infância, tinha muita gente pra brincar. (sorri) 
P/1 - A sua mãe foi trabalhar? Saiu da cidade?
R - Ela saiu de casa, foi trabalhar e depois… Eu não sei te dizer… O período que ela arrumou o [marido] que ela está hoje. Eu não sei como foi essa transição porque não lembro dessa parte, mas sei que depois ela foi morar com o meu padrasto, que é [com quem] ela está casada atualmente.
[...]
P/1 - Na escadinha dos seus irmãos, como você…
R - Eu sou o penúltimo. Tem um mais novo, um caçula. 
P/1 - Quem são seus irmãos?
R - Na ordem de mais velho pro mais novo, são Carlos Eduardo Santos Filgueiras, Bruna Cristina Santos Filgueiras, eu, Júlio César, e tem meu irmão mais novo, Jackson César Santos dos Santos, que já é filho do meu padrasto.              
P/1 - Qual o nome da sua tia?
R - Miriam Campos Santos. 
P/1 - As primeiras lembranças que você tem são de que época? 
R - Da minha tia?
P/1 - Não, da sua vida. 
R - Nossa… (risos) A primeira não vou saber te falar, mas a mais antiga é da casa onde a gente morava com mamãe e meu pai, o José Maria, deles ainda casados. Mas é pouca coisa que eu lembro disso. A gente morou um tempo com ele, um mês talvez, e aí eu já me lembro da casa da minha tia, que é onde a minha infância foi mais forte, o que eu lembro mais. Foi onde eu passei mais tempo, dos quatro aos oito anos, quase.
P/1 - Onde fica essa casa da sua tia?
R - Num bairro chamado São Cristóvão. Foi vendida, minha avó não mora mais lá. Ela continua morando no mesmo bairro, mas em outra casa. 
P/1 - Você consegue me descrever como era essa casa?
R - É um lugar bem periférico, então a casa ficava… Tem uma rua que foi de piçarra [por] grande parte do tempo, mas lembro que depois foi asfaltada, e a casa ficava meio que na beira de um morro. Embaixo tinha uma comunidade, então metade da casa era plana e a outra metade era suspensa, porque o morro começava. Era pequena, tinha dois quartos, uma sala, cozinha e banheiro - uma casa padrão pra São Luís. É isso. A casa era bem simples. Tinha piso… E tinha um quintal lá embaixo, já no morro. 
P/1 - Vocês brincavam do que nessa época?
R - De tudo. (risos) Tinha patinetes, que meus primos faziam em casa, [a gente] brincava na rua de pique-esconde, cola-cola, roubar bandeira. Era bem brincadeira de antigamente. 
P/1 - Juntava seus irmãos, seus primos?
R - Todo mundo e as crianças da rua. Toda tarde era aquela procissão de crianças na rua. 
P/1 - Qual foi a primeira escola que você frequentou?
R - Foi perto da casa da minha tia. Era uma escola comunitária, administrada pelos moradores. Era uma escola bem simplesinha, bem pequenininha; não vou saber exatamente quantas salas tinha, mas era bem pequena. Era bem aquela coisa de início, fazer caligrafia… Foi lá que eu aprendi a ler e escrever - mais ou menos, foi em casa e lá; minha tia sempre reforçava em casa. Tinha as festas da escola - São João, Dia das Crianças, essas coisas. É isso.
P/1 - Você ficou quanto tempo nessa escola? 
R - Uns dois anos. Foram os primeiros anos. 
P/1 - Conte mais um pouco da sua tia. Como ela cuidava de vocês? Como você se lembra dela nessa época?
R - Ela é falecida - não sei se já falei - há dezesseis anos. Titia sempre foi muito rígida, mas não de fazer pressão psicológica; ela era muito certa, vamos dizer assim. Se a gente fizesse tudo certinho - por exemplo, fosse pra escola, fizesse o dever - estava livre pra brincar. Era tudo muito na base da recompensa; se você fizesse sua parte, você poderia… Ela meio que criou os filhos dela assim e eu acabei absorvendo muito disso porque dos irmãos eu era o menor. Eu a tive como referência [por] grande parte…(enxuga as lágrimas) 
(PAUSA)           R - Eu nunca consigo falar dela, sempre começo a chorar. 
(PAUSA)
R - Então foi assim: ela sempre tratou muito a gente na… Eu vejo que era uma forma correta porque o adulto que eu me tornei tem… 
(PAUSA)
R - Grande parte do que eu sou hoje, do que eu me tornei, tem essa referência dela. Ela foi uma pessoa que batalhou. Foi uma história um pouco parecida com a da minha avó. Ela se separou do marido porque ele a traiu. 
(PAUSA)
P/1 - Ela criou vocês sozinhos, então.
R - Ela foi morar com os filhos. Criou os filhos e ainda teve a gente. 
P/1 - Você nasceu em 93; ela faleceu quando você tinha nove anos, é isso?
R - Eu tinha dez. Foi em 2014. 
P/1 - 2004.
R - Isso, 2004. Se eu não tinha, ia completar dez.  P/1 - Você cresceu com ela e sua mãe voltou depois. 
R - A minha mãe também estava presente, não se afastou durante esse tempo. Ela ia lá constantemente visitar a gente. 
(PAUSA)
R - Quando minha mãe voltou pra casa, a gente voltou a morar com ela, mas ainda assim eu ficava muito tempo com minha tia. [Todo] final de semana eu ia pra lá.Ela ficou doente no início do ano de 2004 e foi piorando, piorando. Um pouco antes de ela internar de vez e falecer ela falou que eu iria morar com ela de novo, que… Era uma coisa que eu sempre queria, então… Mas ela faleceu e eu fiquei com a minha mãe mesmo.     
P/1 - Vocês foram morar nessa casa que era do seu pai. Onde era essa casa?
R - Era num bairro vizinho ao São Cristóvão, Cidade Operária [era] o nome. Fica numa região mais distante do centro de São Luís.
P/1 - E nela você ficou mais tempo?
R - Eu tinha uns oito anos quando voltei pra lá e quando minha tia morreu, eu voltei. Morei um tempo com a minha avó e meus primos. Meus primos, filhos da minha tia, me chamaram, como minha tia já tinha falado que eu ia pra lá. Fiquei lá um tempo - um ano, mais ou menos; dos dez aos doze, vamos dizer assim - mas depois voltei pra casa de mamãe. Morei com mamãe até os vinte. Foi quando morei dois anos com vovó de novo e [depois] saí de casa, fui morar sozinho.             
P/1 - Você morou muito tempo com seus primos. São dois primos?
R - Isso. 
P/1 - Qual o nome deles? R - Cristian e Paulo Vítor. 
P/1 - Como é a sua relação com eles?
R - Quase de irmão, porque fiquei a infância e adolescência muito próximo deles. Distanciou um pouco porque meu primo foi estudar fora, mas já voltou. O outro, mais velho, já é casado, mas é uma relação boa.    
P/1 - Naquela época, vocês gostavam de ver TV, ouvir rádio? 
R - TV a gente assistia muito. Passavam os desenhos, principalmente [no] fim da tarde, mas a nossa diversão mesmo era brincar na rua, no quintal. 
P/1 - O que você gostava de assistir?
R - Eu assistia muito, na época, Banana de Pijama. Era basicamente isso, desenho e filmes. Na época ainda era fita cassete.
P/1 - Vocês tinham videocassete?
R - A gente não tinha, mas o pai dos meus primos tinha. Ele levava às vezes o aparelho e a gente alugava os filmes. 
P/1 - Tem algum filme que te marcou?
R - Tem Titanic e Senhor dos Aneis, porque [pra cada filme] eram duas fitas. Eu lembro que [quando] acabava uma, tinha que colocar a outra. Esses filmes ficaram marcados por causa disso.
P/1 - Você assistiu a esses filmes várias vezes?
R - Senhor dos Aneis, algumas vezes. Titanic foi só uma.     
P/1 - Imagino que você também tenha mudado de escola algumas vezes. R - Quando saí da escola comunitária, eu fui pra uma escola pública. Já era na Cidade Operária, tinha voltado a morar com mamãe. Estudei lá até a segunda série. Na terceira série eu fui para o CINTRA, uma escola estadual também, que foi onde eu terminei o ensino médio. 
P/1  - Você ficou bastante tempo lá, então.
R - Fiquei dez anos, da terceira série [do ensino fundamental] ao terceiro ano [do ensino médio].
P/1 - Como é o nome completo dessa escola?
R - Centro Integrado do Rio Anil. A abreviatura é CINTRA.
P/1 - E como é essa escola?
R - É uma escola bem grande aqui de São Luís, bem típica porque… Ela foi fundada em 94, se não me engano. Era uma fábrica de tecidos, então é um prédio histórico que foi revitalizado.Quando ela foi criada, era uma escola integrada. O aluno passava o dia, tinha cursos profissionalizantes. Quando eu entrei, em 2003, já não tinha tudo isso. Era só o ensino regular. É uma escola grande, com as paredes gigantescas - aquela arquitetura de antigamente. Ainda tinha aquelas chaminés… Perto dessa escola tinha um rio, que hoje é quase um corregozinho, mas era bem grande - tinha as fotos que a gente olhava. Era onde chegavam as embarcações pra trazer a matéria prima. 
P/1 - Em que região de São Luís fica essa escola?
R - Fica no [bairro] Anil. É um pouco próximo de São Cristóvão e da Cidade Operária. Não são vizinhos, mas são próximos. 
P/1 - Você ia como pra escola?
R - Eu ia de ônibus coletivo mesmo. 
P/1 - Ia com seus irmãos junto?
R - Eu ia com minha irmã que nasceu antes de mim, ela estudava lá. Depois ela saiu, porque terminou; eu já estava grande, aí ia sozinho mesmo.
P/1 - Quanto tempo demorava pra você ir até lá?
R - Quarenta minutos, uma hora, mais ou menos. 
P/1 - Você se lembra do seu primeiro dia de aula lá? Ou dos primeiros. 
R - O primeiro não, mas os primeiros lembro.  
P/1 - Como foi pra você?
R -  Foi bem ruim. (risos) Eu sempre estudei de manhã; quando fui pra lá, acabei estudando à tarde na terceira série. Eu não era acostumado, então sofri um pouquinho por causa disso. Estava acostumado a ficar em casa à tarde, brincar na rua no fim do dia. Depois eu me acostumei.
P/1 - Como era a relação com os colegas? Você fez amigos lá ao longo desse tempo? 
R -  Fiz. Eu nunca fui de me indispor com ninguém, sempre falei com todo mundo na sala. Claro que tinha os mais próximos, mas nunca deixei de falar com ninguém. Não ficou nenhum contato - na verdade, eu nem lembro mais dessas pessoas da terceira série. Mas era bom, nunca tive essa dificuldade, rixa com ninguém.
P/1 - Tem alguma história, alguma coisa que te marcou durante esse tempo na escola que você possa contar? De bom, de ruim…
R - Tem, mas… Foi a primeira e única vez que eu tentei gazear aula, aquela coisa de jovem. Não foi nem gazear aula, a gente saiu mais cedo e foi passear pela cidade. Justamente nesse dia, eu encontrei um conhecido da minha mãe, que me viu na rua na hora em que eu devia estar na escola. Não deu muito ruim, mas marcou porque foi a primeira vez que eu tentei fazer alguma coisa e deu errado.           
P/1 - Você foi passear por onde? 
R - Pelo centro histórico. 
P/1 - Você já conhecia lá?
R - De passar no ônibus. Como era distante de onde eu morava, não era um lugar que eu ia. Fui conhecer de perto, descer, andar. 
P/1 - E como foi? Você gostou?
R - Gostei. Fui com uns amigos, um grupo mais próximo que eu tinha na escola. [Foi] aquela experiência, aquela aventura de...                  
P/1 - E quantos anos você tinha quando isso aconteceu?
R - Eu estava na oitava série. Não lembro, tem que fazer o cálculo. (risos) Uns quinze, talvez. 
P/1 -  Você se lembra de quem era esse grupo?
R - Eu lembro. Era a Maria Helena, a Daniela, o André Luís e tinha outra pessoa que eu não lembro, era algum amigo deles. Não era muito próximo de mim. Eram quatro - cinco, na verdade.
P/1 - Você teve professores que te marcaram nesse período? Algum que você gostou mais?R - Eu tive uma professora na segunda escola que eu estudei, no bairro da Cidade Operária, que foi a professora Ursulina, do terceiro período - acho que hoje chamam de maternal. Teve ela e no CINTRA teve alguns. Teve a da quarta série, a professora Dilma, acho que pelo método de ensino. Tive uma professora, na sétima série, de uma matéria que se chamava LPT - Linguagem e Produção Textual. Foi o meu primeiro contato com a comunicação. A gente visitou o Jornal Imparcial na época, um jornal impresso daqui. Hoje eu vejo que talvez foi o que me despertou pro caminho da comunicação; na época eu não tive essa visão. Eu lembro que fiquei muito deslumbrado com aquelas máquinas, o processo de confecção do jornal, que naquela época tinha um peso maior do que tem hoje. No segundo ano, eu tive uma professora de História, a Márcia, que também marcou bastante. 
P/1 - Ela marcou por quê?
R - Porque ela contava histórias pra gente, não necessariamente dava aquela aula padrão que o professor de escola pública geralmente dá. A gente tinha dois horários com ela; eu lembro que era sofrido porque eram dois horários seguidos, mas ela tornava aquilo menos desgastante. 
P/1 - Você se lembra dela contando alguma coisa em específico?
R - Eu lembro dela tentando me explicar o mercado financeiro. Não tinha necessariamente a ver com História, mas acabava _______. Coisa que eu nunca entendi, mas eu me lembro dela se esforçando pra me explicar isso na época.
P/1 - Queria voltar um pouco pra criação que a sua mãe deu pra vocês. Era diferente da sua tia, como era?
R - Era. Minha mãe não tinha, nunca teve o pulso firme que minha tia tinha. Mas pulso firme no sentido de saber dizer um não, de… Eu vejo assim, minha mãe era mais liberal, tanto é que meus irmãos, acho, não souberam… Acabaram sendo muito influenciados por esse “liberalismo”. Não sei se pelo fato dela ter sido mãe muito cedo - ela teve filho com dezenove anos. Hoje não é tão cedo assim, mas na época era. Eram diferentes os perfis. Eu tinha na minha tia muito a referência, da pessoa que está ali dizendo o que é certo, o que é errado. Não que minha mãe não tenha feito isso, mas a minha tia fez isso com mais clareza, talvez. 
P/1 - E seu padrasto, como era?
R - Ele é uma pessoa supertranquila. Sempre trabalhou, sempre ajudou minha mãe. A minha relação com ele não é muito boa, mas acho que… Nem eu sei explicar bem o porquê; deve ter sido algum momento da vida que ficou alguma coisa psicológica, mas a gente nunca brigou. Talvez pelo fato de eu sempre estar na escala entre a casa da minha mãe e da minha tia, eu não tive muito esse contato com ele. Tenho a presença dele na minha vida, obviamente, mas ele não se tornou uma presença paterna, não chegou a esse ponto. Mas não tenho nada a reclamar. 
P/1 - Você ficou com seus irmãos esse tempo todo. Eu queria entender o que sua mãe fazia, no que ela trabalhava.
R -  A minha mãe sempre… Ela trabalhou uma época em casa de família, lavando, limpando. Depois ela trabalhou na indústria, durante uns três, quatro anos. Trabalhou numa escola também, num laboratório. Hoje em dia ela não trabalha mais.
P/1 - Ela se aposentou?
R - Ainda não, mas por conta de como era o serviço dela - geralmente serviços gerais que ela fazia - adquiriu um problema no ombro. Ela começou a sentir muitas dores e hoje não trabalha mais. 
P/1 - E seu padrasto, o que ele faz?
R - Ele é vidraceiro, trabalha com vidro desde que era adolescente.P/1 - Você estava no terceiro ano. Você já tinha namorado [com alguém], isso já tinha começado na sua vida? 
R - Não. Eu vim a namorar agora, dois anos atrás. Eu sempre fui muito solto, muito desprendido. Nunca procurei amarras, não digo só em relacionamentos. Eu sempre fui mente aberta, porque se aparecer uma oportunidade de ir embora, eu vou. Eu sempre tive isso muito claro na minha mente, então nunca procurei criar mais laços afetivos dos que já existiam, que eram os da minha família e amigos. Nunca foi uma prioridade. Acabou acontecendo, foi uma coisa da vida, mas não era uma coisa que eu procurava, que eu necessitava.       P/1 - Você sabe qual a primeira vez que pensou: “Eu quero fazer isso, eu quero ser isso”? 
R - [Quando] eu estava no terceiro ano, eu não tinha claro na minha mente o que eu queria ser. Minha mãe falava muito que queria um filho médico e tal, mas eu sabia que pra mim Medicina não dava, porque eu sempre fui muito ruim com números. não sou uma pessoa de Exatas. Sendo bem sincero, eu não sabia o que queria fazer. 
P/1 - Seus irmãos já tinham pegado algum caminho?
R - Não. Meus dois irmãos mais velhos não se formaram, só ficaram no ensino médio. Eu fui o primeiro que se formou e meu irmão mais novo hoje também está fazendo graduação. Eu queria ser desde médico a… Sei lá, engenheiro. Eu realmente não sabia o que queria. Fiz o ENEM e fiz o vestibular tradicional da [universidade] estadual daqui. No ENEM, eu vi que minha nota dava pra fazer alguns cursos - uma nota boa até, não foi baixa - só que nada era o que eu queria. Tinha Economia, Administração, Jornalismo, e eu não queria nada disso. Na hora de escolher, eu vi que na [Faculdade de] Comunicação federal daqui tinha três habilitações: Jornalismo, Rádio e TV e Relações Públicas.  Jornalismo eu tinha muito claro que não queria, Rádio e TV também não é meu forte, aí na época eu conheci Relações Públicas, uma área que eu nunca tinha ouvido falar. O SISU, que é o sistema do MEC, fica aberto durante uma semana, então durante uma semana você pode ir trocando os cursos. Eu lembro que olhei RP, minha nota dava, então fui pesquisar a área. Descobri que era uma área da Comunicação mais voltada para a área empresarial, pra gestão da comunicação, e falei: “Parece comigo, pode ser que eu me identifique.” Fui, botei [a opção] e deu certo. Passei também pra Administração na estadual, mas eu não quis. Botei na balança e vi que não era o que eu queria. Na época, a minha mãe ficou chateada porque todo mundo sabe o que é Administração, mas ninguém sabe o que é Relações Públicas - até hoje minha família não sabe exatamente o que é isso. Mas era uma coisa que eu não queria, ser administrador.    P/1 - Você tinha quantos anos quando entrou na faculdade? 
R - Eu tinha dezoito, ia fazer dezenove. Minto: eu tinha dezoito, terminei [o ensino médio] com dezessete. 
P/1 - Você entrou na [Universidade] Federal do Maranhão, é isso?
R - Isso.
P/1 - E sua mãe ficou feliz quando você passou, mas nem tanto quando você escolheu o curso.
R - Ela ficou, claro, ainda mais porque eu tinha passado em dois [cursos]. Quando eu decidi por RP ela ficou um pouco chateada, mas ela disse: “Tá, é o que você quer… Que fique claro que eu prefiro que você escolha uma profissão que todo mundo já conhece.” E eu tenho um primo, o Cristian, que é filho da minha tia, que já era formado em Administração. Ela ficou feliz, mas teve essa questão. Depois ela até esqueceu disso.           
P/1 -  Conte como foi lá na Federal do Maranhão. Quando você chegou lá, o que você pensou, o que sentiu?R - Primeiro o medo, porque eu entrei e tinha muita gente, de todas as classes sociais. Foi quando estava aumentando o acesso à faculdade pública, então tinha gente de todos os tipos. Eu entrei e “nossa, o que eu tô fazendo aqui?” Eu lembro que começaram as aulas. Era muito pesado porque era muita teoria, muito denso. Eu tive muita dificuldade pra conseguir entender os textos da Teoria da Comunicação, que é a base da Comunicação. Foi um pouco difícil no começo, mas depois eu fui me entrosando.A minha turma sempre foi muito pequena, porque pra RP só eram oferecidas quinze vagas por semestre. Diminuiu cada vez mais ao longo [do curso, porque] as pessoas foram desistindo. Mas eu lembro que quando peguei o ritmo - acho que foi no segundo período - aí foi tranquilo. Já vi que era aquilo mesmo que eu queria. Eu me identifiquei muito com a área, tanto é que comecei a estagiar logo no terceiro período. Foi bom, depois desse começo meio turbulento. 
P/1 - O campus da UFMA era onde?
R - No caminho da usina [de Itaqui], lá no… Vocês foram no Reviver, é um pouquinho depois; a gente chama de Bacanga, a região de Itaqui-Bacanga. 
P/1 - Além de RP, quais cursos tem nesse campus?
R - Tem muitos cursos: Medicina, Direito, Economia… É a universidade que mais tem cursos aqui. Pedagogia… E tem vários centros, então tem tudo.  P/1 - Como você fazia pra ir pra lá? Era de ônibus também? 
R - Isso, de ônibus.Quando eu comecei, eu ainda morava com a minha mãe. Quando completei vinte anos e já estava no quarto período, acho, fui morar no São Cristóvão com a minha avó. Mas continuei indo de ônibus. P/1 - Era mais perto em São Cristóvão?
R - Não mudava muito, mas as opções de ônibus eram maiores. Era mais fácil ir da casa da minha avó.   
P/1 - Você foi fazer companhia pra ela? Ela estava sozinha…
R - A minha avó? Isso. Meu primo Vitor, o mais novo, que não era casado, foi pra São Paulo fazer mestrado e doutorado. Ela ia ficar sozinha, aí eu fui morar com ela, mas pra passar um tempo do dia, porque no outro eu estava na faculdade. Foi quando eu entrei na Eneva, no quarto período, então eu meio que não ficava com ela porque passava o dia fora de casa. 
P/1 - Você era estagiário da Eneva. 
R - Isso. 
P/1 - Era 2013?
R - Em 2014. 
P/1 - Você entrou na UFMA em…?
R - Em 2012. É porque eu enfrentei duas greves, aí atrasou bastante o meu curso. Era pra ser quatro, foi um pouco mais de cinco anos. 
P/1 - Como é o clima universitário na UFMA? Você fez amigos lá? Como eram as festas?
R - Fiz. Eu nunca fui de… Eu sempre fui meio careta na universidade. Não ia pra festas, pra calourada, não fazia nada disso. Mas é porque estava muito claro pra mim, eu estava ali pra estudar. Queria me formar, trabalhar, arrumar um bom emprego, então foquei muito na faculdade - principalmente nos primeiros anos, que eu vi que eu precisava correr atrás do prejuízo. Sempre estudei muito; quando fui morar com a minha avó não saía aos finais de semana, até pra não deixá-la sozinha. Aroveitava e estudava. A minha turma era muito pequena, então a gente era muito unido. Fazia piquenique no gramado da faculdade, fazia confraternização de final de ano. Eram só dez alunos na minha turma e desses dez, cinco eram o meu grupo. A gente se juntou e somos amigos até hoje. Frequentemente a gente se encontra, vai um na casa do outro, sai pra se divertir. Foi muito bom. Conheci muita gente, de perfis diferenciados. Hoje o nosso grupo é também de pessoas totalmente distintas, mas que se dão bem. 
P/1 - Quem é essa galera do núcleo duro, digamos assim?
R - Sou eu, tem a Mariana, a Isabela, a Suelen e o Henrique. Acho até que te mandei uma foto deles. Primeiro eu me juntei muito com a Suelen porque ela morava na Cidade Operária, onde a minha mãe morava, então a gente ia junto. Era a dupla dos trabalhos, era sempre eu e ela. A gente meio que se distanciou do resto porque a gente estudava muito e os outros ficavam na curtição. Depois eles também começaram a estudar e a gente criou esse grupo, que a gente chamava na época de grupo secreto. Era um grupo separado da turma.
P/1 - Conta mais um pouco sobre os integrantes do grupo. De onde eles vêm, como eles são.  
R -  A Suelen eu conheci lá mesmo, na faculdade. Depois de formado - eu me formei em 2017 - depois de uns dois, três meses eu saí de casa pra morar com ela e outra amiga, a Jainara, que não faz parte desse grupo. Fazia o mesmo curso que a gente, mas não era do mesmo período. Acabou virando amiga. Hoje em dia a gente não divide mais apartamento, mas a gente dividiu durante um tempo.       A Isabela, eu estudei com ela no CINTRA, na época do ensino fundamental, só que a gente não era próximo. [A gente] se falava, mas não era próximo; quando foi pra faculdade, continuou não sendo próximo. A gente se aproximou depois, acho que no quarto período. A gente até começou a brincar: “A gente se conhecia desde criança e não se falava.” Hoje a gente é amigo mesmo. A Mariana também conheci na faculdade. O que eu sei dela foi depois que eu a conheci. Acho que, do grupo, ela é a que tem mais poder aquisitivo, vamos dizer assim. Estudou em escola boa, particular. Mas é tranquilo também, a gente se dá superbem.O Henrique foi uma das primeiras pessoas [com] quem eu falei na faculdade, aí a gente foi se aproximando e é amigo até hoje. É isso. (risos)A gente fez esse grupo e foi esse grupo que participou das premiações que eu te mandei algumas fotos. A gente sempre procurou tentar dar aquele up no currículo pra se dar bem na profissão, porque a gente sabe que aqui no Maranhão é muito difícil pra um profissional de comunicação conseguir se colocar bem no mercado, conseguir um emprego bom. A gente correu o tempo todo atrás do prejuízo pra tentar reverter isso; não é à toa que hoje os cinco estão bem colocados. A gente saiu da faculdade tendo a fama do “grupo de cases de sucesso”. A gente de fato se destacou bastante dos outros alunos. 
P/1 - Mudou o nome do grupo, então. 
R - Pra eles, a gente é “os cases de sucesso”. Pra gente, continua o grupo secreto até hoje. Até no Whatsapp ainda é esse nome.
(PAUSA)
R - Depois de estudar essas teorias, você tem essa visão desse quarto poder, que a gente fala que é a comunicação. 
P/1 - Teve algum professor ou professora que te marcou nesse período?   
R - Quase todos, porque todos tiveram a sua contribuição pra minha formação. Mas  a principal é a professora Élida, que foi minha orientadora, porque ela deu as cadeiras que eu mais me identifiquei depois do quarto período - sobretudo de Relações Públicas Comunitárias, que foi quando eu descobri esse meu interesse pela área social. Veio a Eneva também, tudo meio junto, e veio a oportunidade de trabalhar aqui na Canaã, de desenvolver o projeto junto com a Beth. A professora Élida foi a que mais me influenciou, vamos dizer assim.P/1 - Qual a diferença entre Relações Públicas empresarial e comunitária?
R - O RP é o profissional que vai aprender muito sobre estratégia. A gente tem várias cadeiras de estratégia ao longo do curso. A diferença é como você vai adaptar as estratégias pro objetivo que você quer conquistar.Uma comunicação empresarial tem os objetivos de posicionamento de marca, de tornar a marca admirada pelo público. Na comunitária, você acaba usando isso pra que a comunidade atinja esse objetivo - por exemplo, o polo agrícola: a gente teve todo o trabalho de marca deles. É colocar as estratégias que eu conheço pra benefício do polo, que é um empreendimento social e tem pessoas ali que precisam do lucro dele pra sobreviver. Consequentemente, você precisa trabalhar o posicionamento da marca deles, então essa é a diferença. Às vezes até são as mesmas, a gente só vai adaptando pro público e pros objetivos.
P/1 - Como você definiria a função do profissional de Relações Públicas?
R - Tem muita discussão sobre isso, inclusive dentro da academia, sobre o que um RP faz. Não querendo supervalorizar a profissão, um RP pode ser muita coisa dentro da comunicação. Como eu disse, a gente tem uma base que o jornalista não tem, que é estudar Economia… Sociologia eles estudam, mas não como a gente, que tem aquelas cadeiras densas de teorias. O RP, hoje, eu definiria assim, resumindo meu ponto de vista das Relações Públicas: é o profissional que trabalha com a imagem. Quando a gente fala imagem… A imagem da Eneva é o produto final, vamos dizer assim, porque tem todo um trabalho por trás daquilo pra que aquela imagem seja construída. O RP é esse profissional que vai buscar… Você precisa de uma estratégia de ____, que a gente chama: assessoria de imprensa, comunicação digital. O que a marca precisa pra ela de fato ser conhecida, admirada. O RP tem essa vivência porque ele sabe o que um profissional de marketing faz, o que um jornalista faz, o que o publicitário faz, então consegue delegar essas tarefas pra esses profissionais e entender qual é a necessidade de comunicação da empresa.  Eu resumiria assim: é o profissional que cuida da imagem da empresa e das estratégias pra criar e manter aquela imagem. P/1 - Como surgiu essa oportunidade de estagiar na Eneva?
R - Eu comecei a estagiar cedo, no terceiro período, na própria UFMA, na assessoria de comunicação de lá. Eu trabalhava no Núcleo de Relações Públicas, que existe lá até hoje, só que é muito voltado pra eventos - RP também tem essa parte de eventos institucionais. Era 100% eventos, basicamente; não era uma coisa que eu gostava, não é muito minha área de RP, até porque tem muita gente que deturpa, fala que RP faz casamento. Não, qualquer pessoa que sabe fazer evento pode fazer casamento. RP faz eventos estratégicos institucionais, o que a gente não fazia lá - a gente fazia colações de grau da universidade. Mas foi uma boa escola, aprendi muito a lidar com eventos, de uma forma geral.Eu estava lá, mas sempre tive muito claro que era temporário, até eu conseguir alguma coisa melhor pra sair. Eu queria mesmo o ramo empresarial. Foi quando divulgaram a vaga de estágio na coordenação do curso. Uma coisa que chamou a atenção é que a vaga era específica pra RP. Geralmente, quando a vaga é pra comunicação, pode ser Jornalismo, RP ou Rádio e TV; essa não, o pré-requisito era ser aluno de RP. Tinha benefícios muito bons pro mercado local,  todo mundo ficou superinteressado na vaga. Eu me candidatei. Estava no quarto período. [Pensei:] “Tem gente do sexto, sétimo período, que certamente vai levar essa vaga. Mas vamos tentar, o não a gente já tem.” Fui, fiz todo o processo seletivo e passei. Comecei a estagiar na Eneva em maio de 2014.
P/1 -  Em que área você entrou na Eneva?
R - Na época, na primeira etapa do [processo] seletivo, a vaga era só pra Comunicação. Nas etapas seguintes, a Beth apareceu e tinha duas vagas, uma pra Comunicação e uma pra área dela, de Responsabilidade Social. Como RP também tem essa parte comunitária, ela meio que aproveitou o seletivo pra também ver alguém [pra trabalhar nisso]. Eu me interessei, obviamente, pelas duas vagas, mas quando me perguntaram deixei claro que eu queria ir pra área de Comunicação, porque era a minha área de formação mesmo.                  Eu me perdi um pouco, desculpa. P/1 - Eu perguntei onde você entrou… 
R - Ah, tá. Foi na Comunicação. Na época, a Cássia era a única pessoa de Comunicação aqui; a equipe sempre ficou na sede, no Rio de Janeiro. Eu entrei pra ajudá-la a cuidar de toda a operação do Maranhão - a gente tem a planta de Itaqui e no interior a gente tem uma operação bem maior, que é o Complexo Parnaíba. Ela ficava mais lá e eu acabei ficando mais sozinho aqui, na usina de Itaqui, então aprendi à força, literalmente. Eu me lembro que no primeiro dia de estágio eu cheguei e não tinha ninguém de Comunicação pra me receber. O RH me recebeu, me deu boas-vindas; ainda não tinha nem computador pra mim. As pessoas começaram a me acionar sem eu nem ter tido uma explicação, digamos assim. Fui aprendendo no dia a dia, na marra. Chorava às vezes, mas foi assim. (sorri)Hoje eu vejo essa experiência como muito boa, porque me tornou o profissional que eu sou hoje. 
P/1 - Quando você começou a se envolver especificamente com o projeto da Vila Canaã? 
R - Desde o começo. Quando eu entrei já tinham me falado na entrevista que o escopo de trabalho era bem amplo - eles queriam um profissional, mas contrataram um estagiário, a verdade é essa. (risos)  Mas eu sempre gostei de desafios.Desde o início eles me disseram: “Você vai cuidar da comunicação interna, dar suporte pra área de Responsabilidade Social, porque tem um programa…” E na época, a Canaã ainda não era emancipada como é hoje, então a gente tinha programas que eram obrigatórios porque estavam no licenciamento. Desde sempre eu comecei a ajudar na revisão de material pras oficinas de educação sustentável, em eventos que a gente tinha que fazer, seminários anuais de devolutivas, onde eles iam falar o que era bom e o que estava faltando - meio que lavar a roupa entre a empresa e a comunidade. Tinha que organizar esses eventos que eram razoavelmente grandes, para umas duzentas pessoas.                     Tudo isso era novo. A experiência anterior que eu tinha em Comunicação era muito focada em eventos, mas como te falei, eram eventos mais sociais. Aqui eu tinha que gerenciar fornecedores, tinha que vir pra cá, inclusive. Aí começou o programa da rádio - de fato foi meu primeiro grande desafio com o projeto, porque a rádio tinha sido construída lá no início e foi desativada porque os equipamentos foram [se] degradando. O grande objetivo era devolver a rádio revitalizada, funcionando. Foi difícil porque não tinha fornecedor local, era muito difícil conseguir os materiais. A gente acabou contratando três fornecedores diferentes, porque os anteriores não terminavam o serviço e seu Zacarias [ficava] no meu ouvido o tempo todo. (sorri) Começou com esse tumulto, mas depois que entregou a rádio consegui focar nas outras partes do projeto. Ajudei na parte da marca do polo, fiz algumas oficinas pra que eles entendessem a importância da marca, da marca estar sempre presente pra fixar na mente dos clientes. Fiz também um trabalho de media training, porque teve um momento em que eles tiveram muito contato com a mídia. A mídia os procurava muito pra usá-los como exemplo de modelo agroecológico, então fiz esse trabalho com eles, do que falar, do que não falar, como falar. A gente também fez umas oficinas de fotografia, pra ensinar eles mesmos a tirar fotos da produção deles. Foi isso, sempre dando um suporte mais pra comunicação mesmo. Sempre alinhado com a Beth, claro. A minha monografia [na faculdade] envolveu o polo agrícola. Falei sobre empreendimentos sociais - na verdade, eu entrelacei as duas áreas: empreendimento social, que é uma área mais da Administração, fala de empreendedorismo, e RP comunitárias. Eu comprovei com o exemplo do polo agrícola como as duas áreas juntas poderiam potencializar os resultados.
P/1 - Você se lembra do primeiro dia que veio aqui? 
R - Lembro. Foi à noite. Inclusive foi errado porque eu era estagiário, não poderia vir, mas como ficava só eu aqui, na usina - a Cássia não ficava aqui e o pessoal do Rio ficava lá, eu tinha que vir aqui porque estava havendo um curso de formação. Eu tinha que tirar algumas fotos pra colocar na comunicação interna da empresa. Não tinha jeito, só tinha eu e o curso era à noite.        Minha chefe na época falou comigo, perguntou se [estava] tudo bem, aí eu acabei vindo. Estava muito escuro, então eu não consegui ver muita coisa, mas foi a primeira vez que eu vim aqui. Foi na escola.
P/1 - O que você achou, o que você sentiu nessa hora em que conheceu essas pessoas? R - Eu… Deixa eu me recordar agora. Eu vim tão focado no trabalho… Eu já tinha olhado fotos, então já sabia mais ou menos como era. Não tive muito contato com eles. Seu Zacarias, por exemplo, não estava, a Patrícia também não estava nesse dia. Falei mais com o pessoal da consultoria que estava dando o curso. Foi aquele primeiro contato, não formei uma opinião no dia. 
P/1 - E você foi lidando mais com quem no dia a dia, com quais pessoas da vila?
R - Depois a Beth veio, me apresentou formalmente, aí eu conheci… Foi mais o seu Zacarias e a Patrícia, as pessoas com quem mais tive interface. 
P/1 - Eram eles que mais cobravam de você também. 
R - É. Seu Zacarias, principalmente. 
P/1 - Como foi a construção dessa relação com ele?R - No começo foi bem turbulenta por causa do projeto da rádio, que a gente não conseguia entregar. Era pra entregar em meses; a gente entregou em quase dois anos, muito por falta de fornecedores. Era amor e ódio. (risos) Tinha dia que eu vinha, o seu Zacarias perguntava e entendia; tinha dia que eu acho que ele não estava num bom dia e aí me tratava mal, me xingou algumas vezes. Mas eu sempre tentei manter o profissionalismo. Depois que entregamos a rádio, foi só paz. Ele cobra a gente sempre, eu entendi que isso sempre vai acontecer, mas hoje é supertranquilo.
P/1 - Como funciona a rádio? 
R - Hoje eu acho que não está mais funcionando de novo, acho que meio que largaram. Mas na época funcionava. A consultoria os ajudou a criar uma grade de programação, criar os programas. Funcionou acho que por um ano, dois anos. Hoje dizem eles que ainda está funcionando. Dizem que não estão usando, mas que está tudo funcionando; eu acho que não está mais, pelo tempo que a coisa está [parada].O projeto foi feito dentro do escopo, do esperado. Todo mundo ficou satisfeito. Foi entregue, agora é com eles. 
P/1 - Como é a estrutura da rádio? 
R - A rádio tinha uma estrutura completa. Grande parte do material veio de fora porque não tinha aqui. A gente doou mesa de som, computadores, gravadores, tudo que uma rádio precisa - claro que é uma rádio comunitária, não é uma rádio comercial. Ainda revitalizamos o prédio, fizemos uma sala com isolamento acústico. Tem a questão das caixas espalhadas pelos postes. Foi tudo do melhor que a gente comprou, foi até um pouco caro. Foi uma estrutura completa que a gente entregou pra eles - mais do que isso, a gente os ensinou a mexer [nos equipamentos]. A consultoria também tinha essa parte prática, de ter aula dentro da rádio. Eles aprenderam a mexer na mesa de som, no programa que eles usavam. Depois de entregue, a gente ainda os ajudou a tentar conseguir uma concessão de rádio comunitária no Ministério das Telecomunicações. Hoje eu não sei como está isso, porque a gente iniciou o processo, ensinou o caminho das pedras pra eles, e eles tinham que enviar uma série de documentações, que a Patrícia chegou a enviar. Eu não sei se a concessão já saiu, porque esse tipo de concessão demorava alguns anos pra sair. Não sei também se eles continuaram acompanhando isso.
P/1 -  Como foi a recepção das pessoas pra aprender a usar a rádio? Quem se engajou mais?
R -  No começo tinha uma turma bem grande, acho que mais de vinte pessoas na formação. Quando foi pra parte prática, acho que ficaram só uns oito. Os que ficaram se esforçaram, porque realmente queriam aprender. Os outros desistiram, acho que viram que a tecnologia não era pra eles.P/1 - Quem acabou tocando a rádio?
R - Quem ficava muito à frente eram o seu Zacarias e a Patrícia, a Patrícia até mais do que ele. Tinha a dona Cleonice, que tinha o programa dela. Cada um tinha seus programas. Mas a mais engajada era a Patrícia, que foi quem tentou a concessão. 
P/1 - Como eram os programas? 
R - Eu lembro que na época eles criaram programas de música segmentados. Tinha programa só de reggae, outros de música sertaneja. Tinha os programas religiosos, os informativos, que davam notícias da comunidade em geral. Tinha os educativos também. Era uma grade bem mista. 
P/1 - Você se lembra do nome de algum programa, de quem apresentava?
R - Não. Quem apresentava foram os que continuaram. Eu lembro que o seu Zacarias tinha o programa de notícias, tinha um senhor, que eu não lembro o nome, que ficou com a parte do reggae… A Patrícia agora não lembro, mas ela também tinha um programa. Cada um tinha o seu.Tinha umas meninas mais jovens, com programa de “fofocas”, de falar atualizações sobre celebridades, essas coisas.
P/1 - Você chegou a ouvir pra ver como estava?
R - Os programas não, mas eu acompanhei os testes, pra ver se todas as caixas estavam funcionando.
P/1 - As caixas ficavam tocando o dia todo ou só uma parte do dia?
R - Não. Tinha os horários fixos dos programas. Eles organizaram a grade semanal, aí cada um tinha o seu horário e vinha, não ficavam o tempo todo.
P/1 - Você se lembra da frequência dessa rádio? 
R - Todo dia tinha programa, de manhã e de tarde. Não era a manhã toda nem a tarde toda, mas todos os dias tinha programação.
P/1 - Qual era o programa da dona Cleonice, você se lembra do tema?
R - Não vou lembrar. A gente tem tudo isso na documentação que teve que enviar pro Ibama, mas não lembro de cabeça. 
P/1 - E o que você acha de uma comunidade criar uma rádio pra si mesma?
R - É muito importante pra eles, porque como era uma comunidade que teve essa questão da realocação, de manter seus laços… Aqui eles estão organizados de uma forma diferente do que estavam lá, então a rádio é de fato esse veículo de comunicação, de aproximação deles. Apesar de ser um bairro pequeno, que você consegue andar todo a pé sem nenhum problema, é diferente a organização. Lá eles tinham uma organização… Não tinha rua, saneamento básico, essas coisas. Aqui, querendo ou não, acaba distanciando as pessoas; cada um fez seu muro, seu portão, coisas que não tinha lá. A rádio eu via muito como esse canal de aproximação entre eles, onde eles podiam dar as notícias, deixar todos informados do que se passa na comunidade. Seu Zacarias tinha muito essa preocupação; pra ele, a rádio era nesse sentido, de deixar as pessoas informadas. Quando vai ter uma reunião da associação, por exemplo, anunciar na rádio pra que todos fiquem cientes de que aquilo está acontecendo. Eu via essa importância pra eles. 
P/1 - Tinha alguma questão cultural também, das músicas, deles escolherem em comum o que seria tocado? 
R - Não. Como eu disse, cada um tinha a sua linha. Tinha um que gostava mais do reggae - óbvio que tinha os amigos dele, que também gostam… Cada um buscou atender o seu núcleo de pessoas, vamos dizer assim, e seus gostos também.Eles se organizaram entre si pra que cada um tivesse seu horário e seu espaço, mas cada um tinha um viés diferente.  
P/1 - Você acha que a rádio era meio que um microscópio do que era a comunidade, do que eles mais gostavam? 
R - Sim. Querendo ou não, é um reflexo porque eram pessoas de famílias diferentes, de idades diferentes. Tinha-se desde jovens até seu Zacarias, que é o mais velho. Tinha os agricultores também, a dona Cleonice estava na rádio, então eu acredito que pode ser sim um recorte da comunidade. Uma representação, vamos dizer assim.
P/1 -  Como você vê a trajetória da comunidade? Você já está há bastante tempo aqui. 
R - Na época que eu participava das aulas de RP comunitária eu usava muito a Canaã como exemplo daquela comunidade que deu certo, no sentido de que são engajados, têm representantes. Claro que em um momento ou outro sempre vai ter um representante que não tem o pulso firme do seu Zacarias, da Patrícia, mas acho que o que tem de positivo neles é esse engajamento e essa vontade das pessoas que estão à frente de querer que todos evoluam, de não pensar somente em si.Seu Zacarias, por exemplo, poderia muito bem ter se preocupado com a família dele e “tá bom pra mim, tô bem aqui.” Você vê que ele tem essa preocupação de que todos estejam felizes, todos que estão aqui estejam bem de saúde, financeiramente. Isso sempre me chamou muito a atenção e sempre os uso como exemplo quando eu vou falar de comunidade ou dessa vivência comunitária.Seu Zacarias é evangélico; tem a dona Isabel, que é dona de um tambor de crioula. São coisas totalmente distintas, mas que o respeito, a tolerância deles é muito importante. Apesar de cada um ter sua religião, seu posicionamento político, eles se veem como comunidade; um está ali pra ajudar o outro e fazer com que a comunidade evolua. 
P/1 - Como foi a criação da marca do HortiCanaã? 
R - Eu não participei da criação, quando entrei ela já existia. Foi feita por uma equipe de comunicação que não cheguei a conhecer. Ajudei no fortalecimento, porque a marca já existia, mas pra eles era um desenho. Eu fui ajudá-los a entender que aquilo não era só um nomezinho, um desenho; era a marca que eles tinham que estampar quando estão em uma feira, por exemplo. Colocar uma camisa com o nome da Canaã, colocar na barraquinha a marca da Canaã pra que fiquem conhecidos. O produto deles é muito bom, eu consumo - não sempre, pela distância, mas sempre que posso eu mesmo consumo. Eu era o cliente, mas ao mesmo tempo os estava ajudando, então queria que eles entendessem como o produto deles é bom e como podiam potencializar isso com a marca deles. Eles foram super receptivos, entenderam a importância. Claro que é muito difícil, você tem que lembrar o tempo todo pra quem não é de Comunicação que aquilo é uma coisa constante. Alguns entenderam mais, outros entenderam, mas não colocam em prática no dia a dia. 
P/1 - O que vocês traçaram como estratégia pra eles potencializarem a marca?
R - A gente fez camisas, bonés, cartões de visitas, sacolas. A Beth ajudou na questão das barracas, de mandar plotar [a marca] nas barracas deles. Foi mais a questão material. Depois, como tinha a questão da emancipação, a empresa não pode ficar o tempo todo, então a sempre deixou claro: “A gente vai fazer, mas tá aqui o arquivo se vocês quiserem mandar fazer mais.” A gente deu esse caminho também pra eles. A gente também tirou fotos deles pra usar, fez um portfólio de produtos, que eles começaram a entregar nas feiras. 
P/1 - Eles têm alguma presença digital hoje?
R - Não. A gente tentou começar, mas viu que não ia ter braço e não conseguiu identificar na comunidade uma pessoa que pudesse manter isso. Eu, inclusive, pensei em criar essa parte digital, mas vi que não ia ter ninguém pra manter. Resolvi não levar adiante porque seria uma estratégia falha, que eles não teriam condições financeiras de manter e eu também não poderia, a não ser que fosse de forma voluntária.
P/1 - Parece que é a união de uma atividade bem tradicional com uma imagem moderna. R - Esse foi o problema de ir pro digital, porque hoje grande parte dos agricultores têm idade avançada e não têm essa vivência digital que a gente tem. A gente travou nessa parte por conta disso. 
P/1 - Mas o resto eles estão tocando. 
R - Estão. No final das contas, depois desse tempo todo com eles, eles sabem. É aquela história de prioridades. Hoje a prioridade deles, eu até entendo, é vender o produto pra ter o dinheiro no final do mês. Se forem parar pra se preocupar com comunicação… Ou fazem uma coisa ou fazem outra, mas no fundo eles entendem, são mais esclarecidos hoje do que quando eu entrei.
P/1 - Como você projeta o futuro daqui e o que deseja também?
R - Hoje eu não estou mais tão presente aqui, porque o meu escopo ao longo de seis anos mudou um pouco. Depois que eles foram oficialmente emancipados, que as atividades de comunicação se encerraram oficialmente, eu me afastei um pouco. Não por vontade, não é uma coisa que eu queria, mas já tive mais que seis gestores na Eneva, então cada um foi me direcionando pra outras atividades. Hoje eu estou mais voltado pra comunicação corporativa, não tenho muitas atividades aqui, mas pra eles eu desejo tudo de melhor. São pessoas do bem, que se esforçam. A gente vê todos os dias vão cedo pra mexer na… Seu Zacarias, acho que no dia que não vai fica doente. Eu queria muito poder ver o polo, daqui a alguns anos, como a referência que ele de fato é, ser reconhecido pelo que de fato representa. Você pegou pessoas que plantavam em casa pra subsistência e que hoje têm um modelo de produção orgânica, com certificação do Ministério da Agricultura. Foi o primeiro da região. Eu não sei se eles entendem essa importância. Eu ficaria muito feliz - por eles, principalmente - se eles conseguissem entender essa importância 100% e se tornarem esse empreendimento reconhecido e admirado que eles merecem ser. Acho que a palavra é merecer. Durante dez anos… Eles passaram anos fazendo aquilo, é difícil alguém chegar e dizer: “Você está fazendo isso errado. Você acha que está certo, mas está errado.” É claro que foi um processo de construção, mas eles entenderam isso e absorveram o conhecimento que as consultorias passaram pra eles. Eu queria muito vê-los assim, chegar no supermercado daqui ou de fora e olhar a marca deles, como produto orgânico de agricultura familiar. É isso que eu desejo pra eles. E que as próximas gerações deem continuidade, porque a gente sabe que as pessoas que estão lá já são de idade [avançada], ninguém é eterno. É preciso que aquilo se mantenha.A minha preocupação hoje enquanto pessoa, já não como profissional da Eneva, é o futuro do polo. Seu Zacarias está bem de saúde, graças a Deus, mas daqui a algum tempo ele não vai mais conseguir manter essa rotina de ir pra lá todo dia. Quem vai ficar no lugar dele, quem vai dar andamento a esse projeto? Talvez o projeto caminhe pro fim nesse sentido. É o que a Beth vem tentando reverter, envolvendo os adolescentes. Vai começar agora um projeto de horta escolar, pra tentar que as próximas gerações quebrem… Não sei se pra vocês lá no Sul, mas aqui a imagem que a gente monta do agricultor familiar é “eu não quero ser agricultor, ir pra roça plantar todo dia.” É isso, mas é diferente. Eles têm uma produção orgânica, que hoje é muito mais valorizada. A qualidade de vida hoje é muito mais latente, as pessoas procuram mais esses produtos. Acho que falta essa visão no jovem daqui da comunidade.               
P/1 -  Eles têm uma tecnologia muito avançada também. 
R - Sim. Eles são agricultores e isso não tem nenhum problema, é uma profissão como qualquer outra. Se eles aproveitarem o potencial que têm… Já deu certo e tem tudo pra dar mais certo ainda. 
P/1 - E parte disso tem a ver com a divulgação. 
R - Sim. Acho que se pegar os jovens da Canaã, que já têm essa vivência digital, entendem que hoje o mundo é hiperconectado, e alinhar à vontade de estar ali, manter a produção, aí ninguém os segura.
P/1 - Júlio, queria voltar um pouco pra sua vida pessoal antes da gente ir pro fim. Você saiu de casa com quantos anos?R - Eu sou meio ruim com essa história… Foi em 2017. Eu tenho 27, então foi com uns 25, acho. (risos) Eu sou bem ruim com números. (risos)
P/1 - Você foi morar com duas amigas, é isso?
R - Isso. Como na época eu queria porque queria sair de casa, ter o meu espaço… Eu já morava com vovó, só que eu ainda não tinha condições de morar sozinho, de manter uma casa com todas as contas que vem junto. Eu me juntei com as duas, que queriam fazer a mesma coisa, e a gente foi dividir um apartamento. A gente morou junto por dois anos. 
P/1 - Onde vocês foram morar? 
R - A gente foi morar num bairro chamado Cohama. Vamos dizer que é um meio termo entre a periferia e o centro. 
P/1 - Era um apartamento?
R - Era um apartamento. 
P/1 - Vocês se mudaram ao mesmo tempo?
R - Foi, a gente se mudou no mesmo dia. Eu não tinha nada, tinha a minha roupa e fui comprando as minhas coisas ao longo dos dias. (risos).
P/1 - E como foi essa mudança pra uma casa sua ou um quarto seu? 
R - No começo foi muito… Foi muito intenso, porque é difícil se deparar com uma casa pra administrar, vão surgindo problemas que você não sabe como resolver. Você vai aprendendo a resolver os problemas que vão aparecendo. No começo foi turbulento, mas depois foi só alegria. Aquela emoção de estar saindo de casa, de estar morando sozinho, de começar uma vida mais sua. Foi uma experiência muito boa, me ajudou muito a crescer como pessoa.                      
P/1 - Como foi montar sua própria casa, decorar? 
R - Essa parte foi meio largada. (risos) Como o apartamento não era meu, eu fui comprando. Não me preocupei em planejar, pintar porque eu sabia que ali era temporário, eu não ia ficar gastando meu dinheiro ali. Foi na necessidade, fui comprando o que ia precisando. Ganhei algumas coisas, minha mãe me deu máquina, uma delas já tinha geladeira, aí levou. A gente foi comprando o resto, cada um comprando o seu, já pensando em quando a gente se separasse. Cada um levaria suas coisas. 
P/1 - Você se mudou de novo em 2019?   
R - Morei com elas em 2017, a gente mudou de apartamento, mas continuou morando junto. No início de 2019 a gente parou de morar junto porque uma delas foi embora, a Suelen. A Jainara ficou desempregada, então ela voltou pra casa da mãe; a Suelen viajou, fui morar sozinho de fato.
P/1 - Onde você mora hoje. 
R - Não, já me mudei. Fui morar no Calhau, que é um bairro mais perto da praia, mas o lugar não era bom, era muito pequeno. Na época, foi o que eu encontrei e eu estava viajando muito a trabalho, não tinha muito tempo pra procurar um lugar. Morei lá durante uns sete, oito meses, aí me mudei pra onde estou hoje, que é um apartamento de novo.
[...]
P/1 - Quais são seus sonhos hoje, seus objetivos?
R - Faz um tempo que eu não paro pra pensar nisso. A rotina acabou me engolindo. A quarentena veio e só piorou a situação. Antes eu tinha muito o foco de chegar numa administração, queria ser um diretor, o bam-bam-bam da comunicação de uma empresa. Depois de seis anos na Eneva, a gente para e pensa: “Será que realmente é isso que eu quero? Essa vida louca de não ter hora pra nada, de estar trabalhando 24 horas por dia?” Não sei se eu quero isso. Quero isso agora, nos próximos cinco anos talvez. Daqui a cinco anos talvez eu não queira, talvez eu pare e diga: "Não, agora eu vou montar o meu negócio, seja na área da comunicação ou não, e vou ter uma vida mais tranquila.” Eu busquei durante esse tempo… Eu trabalho desde os dezesseis anos, comecei como estagiário num banco. Talvez em mais dez eu… Eu sempre quis trabalha pra ter um carro, uma casa, tudo o que eu queria ter. Hoje talvez eu ache que o necessário é o que é importante - ter uma casa, um carro. Não precisa ser o mais caro do mundo, mas ter o básico que eu preciso, ter dinheiro pra ajudar minha mãe - hoje eu a ajudo financeiramente, já que ela não trabalha. Pro futuro eu espero chegar num cargo de gestão, seja na Eneva ou em outra empresa, mas talvez eu não queira aquilo pra sempre. Quando eu chegar lá, eu vou querer absorver tudo que eu puder, aprender, e depois vou pegar tudo isso e aplicar pra mim, em função de mim, do meu negócio. Talvez não, talvez eu chegue lá, goste e fique lá. Libriano, sou meio indeciso, tenho esses dois rumos em mente. 
P/1 - Você viaja muito hoje.
R - Comecei a viajar bastante porque a empresa começou a crescer e sou só eu de comunicação daqui, pro lado do Norte e Nordeste, então acabo tendo que me deslocar muito pra atender as outras operações que não ficam aqui.
P/1 - Você viaja pra onde hoje em dia?
R - Pro interior, Santo Antônio dos Lopes, Viajo pra Manaus, pra nossa operação que está sendo construída no interior do Amazonas, pra Boa Vista, pra Fortaleza e até mesmo pro Rio de Janeiro. Eu vou pra sede pra fazer alinhamentos, essas coisas.
P/1 - Você gosta de viajar? Já conheceu o Brasil com a Eneva?
R -  Gostava muito no início, quando comecei a viajar. Aquela história: estou fazendo o que sempre quis, trabalhar e viajar. A empresa pagando, você… Aproveitei, conheci os lugares. Hoje em dia, já nem tanto. Depois que você pega uma sequência de viagens sua vida fica meio bagunçada, você… Tem dias que eu nem olhava minha casa. Gosto, mas não é mais aquela vontade. Hoje é “a gente tem que viajar”, mas viajo tranquilo. 
P/1 - Você gosta de viajar de avião?
R - Não muito. Viajo bastante, mas tenho medo. Mas pessoalmente eu gosto de viajar bastante de férias, conhecer os lugares sem aquela pressão do trabalho.. 
P/1 - E como foi contar um pouco da sua história pra gente?
R - Foi de recordar, né? É difícil - a Beth está aí de prova - na rotina a gente parar pra falar e até pra… Ainda mais eu, que trabalho com o digital, com rede social, é o tempo todo ali conectado, com aquela pressão em cima. É bom às vezes parar por algumas horas sem pegar o celular. É bom a gente recordar um pouco. Não vivi muito ainda, mas já vivi algumas coisas. 
P/1 - Tá certo, Júlio. Obrigado.

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