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Casas caindo

História de: Carmelita Fragoso Castro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/09/2003

História completa

Na verdade, quem vai contar a história dessa pessoa que tá aí em cima é a filha dela, eu, Letícia. Minha mãe não gosta de ficar mexendo em internet, por isso eu resolvi escrever por ela.

Origem
Minha mãe nasceu em um lugar bem pobre onde, a cada chuva que tinha, ela, meu tio, minha avó e meu avô tinham que se proteger para não morrerem afogados. Minha mãe é a mais velha; meu tio nasceu um ano depois. Como a família de minha mãe era pobre, ela não pôde aprender o que mais gostava e sonhava: se tornar bailarina. Aprendeu a tocar piano para poder mais tarde ajudar a família com suas aulas.

Natal
Minha mãe sempre me contava essa história: todo Natal, minha avó e meu avô trabalhavam além da conta para conseguir comprar um presente para os dois. No fim, nunca tinham o dinheiro suficiente. Então minha avó começava a tricotar bonecas de pano, mas o papagaio entrava de noite e comia. Então, todo Natal, o que eles recebiam era o presente do Natal anterior em uma embalagem nova.

Um dia a casa cai
Quando minha mãe tinha uns 15 anos, eles se mudaram para outra casa. Isso foi na época que o Caetano (Veloso) estava cantando "Alegria Alegria" em um festival de música – nesse ano, eles já estavam instalados. Minha avó dizia que o chefe da construção disse, quando acabou a obra, que a casa iria cair se ele não fizesse um conserto em determinado lugar, e que custava caro. Meus avós não tiveram dinheiro para pagar, e até hoje esperam a casa cair

Faculdade e Casamento
Com a mesma idade, minha mãe começou a dar aulas de piano e, um pouco mais tarde – três anos, talvez –, ela entrou na faculdade de Letras. Minha mãe queria fazer jornalismo, mas minha avó achava que Letras dava mais dinheiro para ela se sustentar. Com 24 anos ela conheceu meu pai e com 26 se casou e se mudou para uma casa com ele. Meu pai bebia muito, apesar de ser muito responsável em sua profissão. Chegava em casa bêbado com o olho roxo, ameaçando bater em todo mundo. Talvez pela diferença de idade entre meu pai e minha mãe (sete anos), ele nunca a machucou.

Filhos e a família
Dois anos depois, em 78, meu irmão nasceu. Era muito gorducho, segundo as fotos denunciam, e muito bochechudo. Hoje ele é magro, alto pra caramba e muito agressivo. Como as pessoas mudam Para adiantar mais a história, dez anos depois eu nasci, para alegria da família Era magra – até hoje sou –, e desde pequena escrevo. Com 3 anos escrevi um poema que minha mãe tem até hoje. Pois bem, meu pai continua o mesmo, talvez até pior; quando meu irmão estava na adolescência, meu pai ameaçava bater nele de cinto (isso bêbado, é claro) se ele saísse com os amigos. Acho que é por isso que ele é tão agressivo com a gente hoje, porque sofreu agressão. Eu assistia àquilo sem entender nada – claro, como uma criança pode entender algo com 4 anos de idade?

Aposentadoria, advocacia, divórcio
Minha mãe se aposentou e teve depressão. Foi uma fase bem difícil, e eu não entendia porque aquilo acontecia. Depois, minha mãe colou grau em Direito e se tornou uma advogada. Abriu um escritório, mas meu pai fez pressão para ela sair do escritório. Depois de 23 anos agüentando martírios, minha mãe se separou em 1996. Foi bem difícil para mim superar a falta de meu pai, mas hoje, como sei o que ele fazia com a gente, nada mais sinto por ele do que repugnância.

Hoje
Meu irmão cresceu, eu também, e hoje já estou escrevendo um livro; meu irmão é designer gráfico, meu pai continua mais longe da gente, e minha mãe se prepara para ser uma conceituada juíza no futuro. É isso. Valeu a todos que leram
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