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Casamento à distância

História de: Maria do Céu Lopes Pais dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/04/2019

Sinopse

Maria do Céu Lopes Pais dos Santos fala sobre a migração para o Brasil, no ano de 1965. Conta como casou com o marido português com ele estando no Brasil e ela em Portugal. Relembra vivências na aldeia Moimenta da Serra e na Freguesia do Ó, e as cinco viagens que fez ao país de origem. Diz como a família se estabeleceu em São Paulo e à que se dedicou até se aposentar.

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História completa

P – Eu queria saber seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Maria do Céu Lopes Pais dos Santos. Nasci dia 16 de novembro de 1937, em Portugal, na aldeia de Moimenta da Serra. É um lugarzinho, é aldeia perto de Gouveia, que já é uma cidade maior. Conselho, que chama, né?

 

P – Até quantos anos a senhora morou em Portugal?

 

R – Vinte e sete anos. Cheguei aqui em 1965. Vinte e três de setembro de 1965, cheguei aqui.

 

P – Por que a senhora veio para o Brasil?

 

R – Ah, porque naquele tempo, eu casei e vim. Naquele tempo vinha muita gente aqui pro Brasil. Os imigrantes. Eu vim de navio. Tinha avião, mas era pouco ainda. Vim, aqui fiquei e gosto do Brasil. Muitos anos. Meu filho tem trinta e quatro anos, já nasceu aqui...

 

P – Me conta alguma coisa de Portugal.

 

R – Naquele tempo não era ruim. Mas era assim difícil, por causa dos dinheiros. A pessoa ganhava pouco, naquele tempo, Salazar tinha Portugal amarrado, era só para os ricos. Então, a gente tinha aquela vontade de ir pra o Brasil, ou pra África. Tinha gente que ia, mas meu marido já estava aqui, eu namorava ele, casamos e ele me chamou pra cá.

 

P – Como a senhora conheceu o seu marido?

 

R – Ah, o meu marido (risos), eu conheci, eu nem conhecia, eu vim conhecê-lo aqui no Brasil. Porque casei por procuração. Porque naquele tempo, uma prima minha casou com um português, que era primo dele, então conheci ele, ia lá em casa, ele falava que ia casar também, e ele disse: “Ah, eu tenho uma prima lá”. Meu tio, eu tenho um tio aqui, e ele me escreveu, namoramos uns dois anos, depois chegou o casamento, casamos ( risos)...

 

P – E ele já morava no Brasil?

 

R – Morava. Casamos por procuração. Naquele tempo fazia, talvez hoje também faça, não sei. Era assim: ele mandava daqui a procuração, tudo assim feito, no Registro Civil, e até foi no padre, porque foi casamento na igreja. Então tinha que ser pelo padre, conforme ele fosse católico, e o meu irmão é que foi o procurador dele. Ele que, na hora de casar, meu irmão é que falava. O padre perguntava pra ele: “Manoel dos Santos Paiva, como procurador de Armindo Lopes Pais...” que era o meu irmão “quer receber a...” e falava o meu nome, então ele falava “Sim.” (risos) ...

 

P – Quer dizer que a senhora veio sozinha para o Brasil.

 

R – Vim sozinha. Sem nada. Ele estava aqui... Eu tinha uns primos e os meus tios, e primos dele também. Mas isso era dele. Da minha parte era só um tio e uma tia. Eu tinha assim, umas amigas, também, umas pessoas meio conhecidas, porque Portugal é assim, três quilômetros, quatro, já tem uma aldeiazinha. Então a gente mais ou menos se conhece, assim.

 

P – Era uma cidade do interior?

 

R – Era. Lá se chama aldeias. Se mora perto, e a gente se conhece. Eu trabalhava numa fábrica, então tinha as pessoas que iam trabalhar de outros lugares pra lá, e a gente se conhecia.

 

P – Como era o seu trabalho na fábrica, o que era?

 

R – Malharia. Esse tipo de camisetas, fazia casacos de malha, muita coisa, naquele tempo, 1959 que eu fui para lá trabalhar. Fiquei lá sete anos. Sabia trabalhar em costura, depois fui pra fábrica.

 

P – Conta mais da sua cidade.

 

R – A minha cidade é uma aldeia industrial, tinha muitas indústrias de lanifícios... Hoje, está tudo ruim. Mas naquele tempo tinha diversas fábricas de tecidos, meu pai era tecelão, naquele tempo. E então, era uma coisa pitoresca, de muitos anos, tinha acho que mil anos, sei lá, diziam que era uma cidade muito antiga, uma aldeia, muito antiga, bastante industrial. E as pessoas quase todas sabiam ler. Porque, como era industrial, então as pessoas eram obrigadas a saber ler para trabalhar na fábrica. Meu pai morreu, teria agora noventa e seis anos, ele sabia ler, meu avô, pai dele, também sabia...

 

P – O que o seu pai fazia?

 

R – Era tecelão numa fábrica que fazia esses tecidos para calças de homem. Coisas finas.

 

P – Quando a senhora chegou no Brasil, qual foi a sua primeira impressão?

 

R – A gente fica assim... não gosta assim de repente. Cheguei num país estranho, fiquei com saudades da família, da minha mãe... Mas depois, meu marido tinha comércio, eu ia pra lá, depois nasceu o meu filho, ao fim de dez meses de eu estar aqui, aí, já me fui adaptando. Agora, gosto muito do Brasil, eu gosto, trinta e seis anos já vai fazer, que eu cheguei. Eu gosto demais. Trabalhei muito no comércio, sabe, tinha restaurante, bar, essas coisas que tinha naquele tempo. Na avenida Paulista, não, na Brigadeiro Luiz Antônio, encostado à igreja, tivemos lá uma padaria, depois outra na alameda Jaú... era com os sócios, a gente ficava lá trabalhando, ainda fiquei lá uns quatro anos, eu e o meu filho, porque eu comprei dos sócios, fiquei lá. E vendi. Em 1992, vendi. Na Alameda Jaú, perto da Pamplona.

 

P – A senhora chegou direto pra Freguesia do Ó, morou em outros bairros antes?

 

R – Não, quando eu cheguei em Santos, estavam lá pessoas amigas, famílias da minha parte, fizeram lá um almoço em Santos, quando eu saí do navio, depois subimos para São Paulo. E morei ali, onde o senhor me pegou, eu morava na esquina, que ele tinha ali um barzinho, na Freguesia, eu vim pra ali morar. Na Freguesia. Fiquei uns dois anos. Depois fui para o Tatuapé, aí fiquei uns vinte anos, também com comércio. Assim, essa vida toda.

 

P – Como era o bairro da Freguesia do Ó? Mudou muito?

 

R - Mudou bastante, era assim, mais casinhas baixas, agora tem diversos edifícios, tudo, progrediu muito a Freguesia. Era um bairro mais antigo, muitas ruas não eram asfaltadas, tudo aquilo.

 

P – O que a senhora faz atualmente?

 

R – Agora não faço nada. Tenho sessenta e três anos, fiz em novembro. Agora o meu marido tem setenta e dois, fez agora em março. Então a gente tem lá umas casinhas alugadas, ele tem aposentadoria, e a gente vai indo assim. Já não pode, também, trabalhar, a perna dói, mas eu trabalhei quase trinta anos na vida do comércio. Agora, os anos que eu vendi… A vida do comércio é ruim mesmo, pra quem trabalha e para o dono. Eu, que era dona, cheguei a trabalhar de cinco da manhã, chegava, às vezes, onze horas da noite em casa, nos anos que fiquei só eu e o meu filho, meu marido não gosta muito assim, do comércio. Ele andava arrumando lá só as casas, chamando.... os pedreiros...

 

P- Como a senhora ia para o trabalho?

 

R – Ia de carro. Meu filho tinha um carrinho, ele ia me levar, quando já era moço, que ele agora ele tem trinta e quatro anos, mas antes eu ia de condução. (risos) Pegava ônibus e ia embora.

 

P – Dona Maria, a senhora já voltou pra Portugal pra visitar a família?

 

R – Já, fui cinco vezes.

 

P – Como foi?

 

R – Eu fui em 1975, meu pai ainda era vivo, morreu em 1980, então, meu filho tinha oito anos, não conhecia os avós, ficamos lá mais de três meses. Em 1975. Chegamos lá em junho de 1975 e voltamos em outubro. Aí fui em 1983 de novo, aí meu pai já tinha falecido, minha mãe queria que eu fosse lá pra resolver coisas, que é eu e o meu irmão, era eu e ele. Depois voltamos em 1988. A mãe dele e a minha mãe ainda eram vivas, eu fui lá pra ver a minha mãe e ele também estava lá, eu tinha ido na frente, uns três meses. Depois fui em 1995 de novo, minha mãe ainda era viva. Morreu com noventa anos. Eu fui em junho e ele, no dia 2 de novembro, faleceu. E eu lá. E voltamos agora em 2000, de novo. Ficamos lá três meses, eu e o meu marido.

 

P – E as tradições portuguesas, a comida, as danças, o quê que ficou mais forte? O que a senhora manteve aqui no Brasil?

 

R – Bom, comidas, a gente sempre faz aquelas comidas típicas de Portugal. E, então, coisas de danças, o rancho, essas coisas, o rancho, de onde meu marido é, ele é de perto do Porto, então lá tem muito essas coisas de rancho.

 

P – A senhora tem mais alguma história triste ou engraçada pra contar?

 

R – Triste, não. Eu, graças a Deus não sou assim tão triste. Certo que tem as dificuldades, bastantes, mas graças a Deus a gente vai superando tudo, e vai embora.

 

P – Está bom, dona Maria do Céu. Muito obrigado.

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