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História

Cartas para encurtar a saudade

História de: Joziane Rodrigues Moro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2014

Sinopse

Joziane recorda em seu depoimento a infância vivida nas cidades de Santa Maria e Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul. Lembra as brincadeiras de infância, das escolas e a convivência com a avó, no período em que moraram juntas. Ao decidir por um curso universitário, escolheu Psicologia, não porque se sentia atraída pelo curso, mas por falta de opções. Ao estagiar na área começa a gostar da profissão e resolve investir em uma especialização. Joziane descreve sua mudança para São Paulo e o período de adaptação à cidade. Conta sobre os trabalhos e empregos que teve em São Paulo, com ênfase na ocupação atual junto ao NASF – Núcleo de Apoio a Saúde da Família. Com saudade, fala dos pais que sempre lhe mandam encomendas e que como isso ajuda a matar a saudade da família que está longe.

 

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História completa

Eu nasci em 3 de Outubro de 1987 em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. O meu pai chama Valdir José Moro e a minha mãe é Ana Lúcia Rodrigues Moro. De uma maneira geral eles são bastante tranquilos. A gente é muito próximo apesar de não conseguir se ver tanto, eu consigo ir para lá algumas vezes por ano, eles conseguem vir algumas vezes por ano. Eu tenho uma irmã também, que chama Mariana, que é um pouquinho mais nova do que eu, que também mora com eles. Ela tem 23 anos agora e eu tenho 25 anos, mas para mim parece que ela tem cinco anos para sempre. Meus pais trabalham no Fórum, eles são oficiais de justiça, os dois. Eles se conheceram no aniversário da minha tia, na época o meu pai trabalhava para a minha tia, quando ele fazia faculdade de Zootecnia. Ele era monitor de uma disciplina de História para ganhar dinheiro e a minha tia era professora de História, acabaram se conhecendo assim. Eles são casados há 26 anos. Eu conheci as minhas duas avós e o meu avô por parte de pai, que faleceu há algumas semanas.

 

Toda a família é de origem italiana, do lado do meu pai tem toda a árvore genealógica da família documentada por causa da cidadania, eles são da região de Friuli. Por parte de minha mãe eles são do Vêneto. Eu acho que vieram para o Brasil na época da guerra. Na época que a gente estava tentando fazer a documentação, a gente não conseguia comprovar de jeito nenhum. Aqui no Brasil o nome do meu bisavô era Luís e não existia nenhum Luís que tinha saído da Itália naquele dia. Na realidade ele chamava Giuseppe e ninguém sabia disso. Isso foi milhões de documentos até conseguir encontrar algum que tivesse o Giuseppe e se dá conta de que era a mesma pessoa e depois provar isso. Eu nasci em Santa Maria e morei em Santa Maria. Quando eu fiz nove anos mudei para Dom Pedrito, que é uma cidade que fica quase na fronteira com o Uruguai, porque a minha mãe passou num concurso, a família inteira foi para lá por causa disso. Dom Pedrito é uma cidade bem pequeninha, uma cidade rural, é uma cidade que tem um vocabulário muito diferente.

 

A adaptação no início foi um pouco difícil por isso. Eu fiquei cinco anos, depois eu voltei primeiro para Santa Maria e depois todo mundo foi voltando gradativamente. A primeira carta que eu recebi na minha vida foi em Dom Pedrito, quando eu mudei de cidade. Na época telefone não era uma coisa tão comum como é hoje, e eu tinha uma amiga de infância, a Lize, que era a minha vizinha e nós éramos as melhores amigas do mundo até os nove anos de idade. A gente se escrevia cartas para contar como era minha escola nova, o que é que eu estava fazendo, o que é que ela estava fazendo, a gente passou muitos anos trocando cartinhas assim, depois que eu mudei. Eu ia às vezes também, a gente se encontrava, mas sempre rolava a história de ficar escrevendo por cartinhas para contar o que estava acontecendo.

 

Eu tinha um sonho na escola, o meu sonho era participar da fila, porque eu sempre chegava atrasada. Quando eu me mudei para Dom Pedrito eu ia a pé para a escola e eu conseguia pegar a fila, porque era muito mais perto. De uma maneira geral, nesse início escolar eu me dava bem, eu não brigava com ninguém, não incomodava ninguém, aprendia mais ou menos o que precisava para não causar conflitos. Na época de Santa Maria quando eu estudava no Dom Luís, eu conhecia todas as professoras, tinha a tia Lena que era diretora, que depois a filha dela virou minha colega de faculdade, a Marcia também, todos os professores, porque como o meu pai e a minha mãe trabalhavam, eu ficava mais tempo na escola do que as outras crianças. Em Santa Maria eu brincava muito em casa, a gente brincava pouco na rua, eu brincava de boneca, de jogo, essas coisas assim. Em Dom Pedrito a gente brincava muito mais na rua, pega-pega, esconde-esconde, vôlei.

 

Quando eu tinha 14, 15 anos eu fui para Santa Maria, eu fui morar com a minha avó. Deveria ter saído a transferência do meu pai em fevereiro, mas não saiu e eu tinha que estudar. Então eu acabei indo morar com a minha avó em Santa Maria. Acabaram se tornando seis meses, até sair a transferência do meu pai e demorou mais seis meses para sair a transferência da minha mãe. Então, por seis meses eu fiquei com a minha avó, depois mais seis meses eu e o meu pai, depois veio a minha mãe e a minha irmã. A gente ficou um ano nessa transição assim, na época em que fui morar com a minha avó foi a época mais difícil. A minha avó achava que alguém ia me matar se eu saísse de casa, então, eu não podia sair de casa, eu tinha que ir da escola para casa. Eu só podia sair com o tio Mário e com a Fabi.

 

Isso foi difícil, porque eu estava acostumada em Dom Pedrito, que eu ficava na rua até a hora que eu quisesse, eu podia sair de noite, não tinha essas coisas. Para escolher o curso, eu peguei a lista de opções de cursos que tinha, risquei todos os que tinham matemática, todos que tinha física e todos que tinha química, todos que fossem para dar aula de alguma coisa e basicamente todos os que tivessem conteúdos que eu já tivesse aprendido na escola, não sobraram muitas opções. Eu meio que fiz um uni duni tê e foi. Na verdade a Psicologia no início foi isso. Eu comecei o curso, a minha turma era legal, eu fui continuando assim até o terceiro semestre. Eu fui trabalhar num projeto com catadores de materiais recicláveis e conheci outra psicologia que era trabalhar com a comunidade. A ideia desse projeto era transformar uma associação em uma cooperativa e a gente tinha verba do CNPQ para comprar máquinas e prensa. A gente tinha bolsa para fazer o projeto.

 

No início a gente não tinha a mínima ideia do que a gente ia fazer. Começamos a montar alguns grupos, a fazer alguns atendimentos no terceiro semestre, eu nem sabia o que eu estava fazendo. Para aquela comunidade não importava o quanto a gente já tinha estudado, era uma referência, é a assistente social e a psicóloga, não importava se ela vai se formar daqui há quatro anos, vai se formar o que dirá se aprender alguma coisa. Era uma comunidade muito pobre, a renda mensal das pessoas era de uns 50 reais por mês. Para os outros anos as bolsas não foram renovadas a minha foi uma delas que não foi renovada. A Universidade achou que não valia a pena manter esse projeto.

 

É uma universidade particular que tem lá, chama Centro Universitário Franciscano, tem uma federal também, mas eu estudei na particular. Depois de formada eu vim para São Paulo e eu fiz especialização na USP de psicopatologia em saúde pública. Quando eu cheguei comecei a trabalhar com marketing, porque foi o que apareceu, até que não era tão ruim. Eu fiquei um tempo trabalhando com marketing, completamente fora da área e depois fui trabalhar num projeto de moradores de rua, eu trabalhava ali no Butantã. Saí desse projeto, era um contrato de três meses e voltei para o marketing. Comecei a trabalhar numa clínica em Santana. Eu trabalhava 12 horas por dia, das oito a oito.

 

Eu fiquei um ano lá e depois eu comecei a trabalhar na NASF. Hoje trabalho no NASF, que é Núcleo de Apoio a Saúde da Família e muitas coisas que eu fazia eu faço hoje, essa coisa de fazer visita domiciliar, de trabalhar com grupos, de fazer atendimento em lugares que talvez não são tão bonitos, agradáveis e confortáveis. No NASF eu entrei lá, estudava com a Lia que hoje é a minha chefe, a gente fazia especialização juntas e, teve um dia que ela falou para mim e para várias pessoas que estavam ali: “Olha, mandem currículos, porque abriu uma vaga” que era a vaga dela, ela era psicóloga da equipe e foi promovida a gerente.

 

Eu mandei o currículo para ela e dessas pessoas que eu sabia que estavam participando eu era a que tinha menos experiência. Eu fui fazer a prova e a entrevista e foi péssima a entrevista. Passou um tempo, nesse dia tinha uma prova e tinha entrevista passou um tempo a Lia falou que não, eu tinha ido muito bem na verdade na entrevista. Eu acabei começando a trabalhar depois de dois meses dessa primeira entrevista até eu começar a trabalhar mesmo. É uma equipe multi profissional, é uma equipe que eu conhecia, de certo modo, por ouvir a Lia nas aulas falando sobre o trabalho, então, ela apresentava às vezes algum trabalho sobre o NASF e falava do trabalho que a equipe dela fazia e eu conhecia desse ponto de vista, então de alguma maneira era como se eu conhecesse essa equipe.

 

É um trabalho que é difícil, a gente trabalha na área do Jaçanã e do Tremembé, que ficam no extremo norte de São Paulo para o lado leste, pertinho da Serra da Cantareira, deveria ser um lugar lindo, mas não é. Na verdade, na época eu namorava o Diego, que foi por causa dele que eu vim para São Paulo. A gente se conheceu lá em Santa Maria mesmo, ele fazia faculdade, Ele se formou, começou a trabalhar em São Paulo e eu ainda estava estudando. Quando eu me formei eu vim. Foram dois anos que a gente namorou lá, dois anos que eu vinha para São Paulo uma vez por mês.

 

Então, esse era um curso de especialização que desde o Rio Grande do Sul eu queria muito fazer, eu achava que isso ia ser o curso que ia mudar a minha vida, mas não mudou a minha vida. De uma maneira geral eu acho que algumas disciplinas foram mesmo muito boas e realmente valeram a pena. Mas principalmente, valeu a pena pelas pessoas que eu conheci, conheci pessoas que são amigos até hoje, pessoas que me ensinaram muito. A gente tinha essa turma que a maioria das pessoas não era de São Paulo. Minha família topou de eu vir porque eles acharam que eu voltaria em um mês. Começou uma coisa muito doida, a minha mãe fez uma conta no Face, que ela não tinha, todo mundo agora é Tim para podermos nos falar mais barato, tem essa função das cartas que tinha desde que eu me mudei.

 

Essa coisa das cartas começou na mudança ainda, porque eu trouxe duas malas com as minhas coisas e queria trazer os meus livros e não cabia. Eles foram sendo enviados aos poucos pelo Correios, sempre com uns bilhetinhos. Quando ele me manda o pacote ele me manda uma mensagem no celular. Quando eu recebo coisas que são da casa, por exemplo, nossa eu fico com tanta saudade! Ele manda jabuticaba, pitanga também, essas coisas ele sempre manda, as geleias que ele faz ele manda sempre um pouco para mim, a minha tia também manda. É toda uma preparação de encaixar as coisas e como tem um preço pelo peso, quando eles mandam essas coisas assim, eles fazem o cálculo ou cobram pelo tamanho ou cobram pelo peso, o que for mais caro, então ele também já arrumou alguma matemática que ele consegue pagar menos. Os livros agora já estão quase todos comigo, depois de três anos aqui, recebo constantemente, mas volta e meia aparece alguma coisa que eles lembram e me mandam, algum presente do nada, sei lá, besteiras, às vezes é tipo um chocolate.

 

A agência dos Correios também que eu vou, que é perto da minha casa também deve ser uma das mais antigas de São Paulo, eu vejo que várias pessoas que chegam lá conhecem os atendentes todos pelo nome, porque vão lá com muita frequência, geralmente quem me atende é uma senhorinha de cabelo branquinho assim. Todo mês eu vou lá para pegar as contas e já pego a minha caixinha, na verdade toda a correspondência eu recebo lá. Agora o meu pai também já ficou bastante conhecido nos Correios. Ele costuma ir nos Correios perto de casa, todo mês ele está lá, eu também já sou conhecia no meu. Eu acho que essas coisas que a gente meio que inventou desde que eu vim para São Paulo de podermos se comunicar pelas cartas, de alguma maneira também aproxima a gente, mata um pouquinho da saudade.

 

Quando eu pego esses bilhetinhos e lembro do que veio junto com eles, e posso saber do que está acontecendo, isso faz com que eu me sinta próxima deles, faz com que eu me sinta bem com isso, às vezes eu mando algumas coisas para eles também. Quando eu vou buscar as minhas cartas, várias pessoas estão indo buscar as suas, não é verdade que ninguém recebe carta não. Eu acordo, sei lá, umas cinco e meia, seis horas, tomo banho, café, vou trabalhar. Chego no trabalho às oito da manhã, saio às cinco da tarde. Depende geralmente dia de semana eu saio. Eu não gosto muito de sair, ultimamente eu não tenho saído muito final de semana, eu tenho saído mais durante a semana. Tenho um sonho de verdade, eu queria muito que tivesse um aeroporto em Santa Maria, que eu poderia visitar a minha família com mais frequência, mas eu acho que isso é um sonho que está longe de ser realidade.

 

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