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Cartas manuscritas têm mais sabor

História de: Manoel Moreira Junior (Moreira de Acopiara)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/08/2013

Sinopse

O cordelista Manoel Moreira Junior, conhecido como Moreira de Acopiara afirma que nasceu no lugar melhor do mundo, em Acopiara no interior do Ceará. A mãe era professora e alfabetizou ele e aos irmãos, lendo, contando histórias e incutindo no coração de Moreira de Acopiara o gosto pela leitura. Ela usava o cordel porque tinha “um enredo curto, poucos personagens e era baratinho”. Aprendeu a ler também com o jornal que a mãe recortava as manchetes, separava as letras, formava o alfabeto, colava numa folha branca para ele ler e juntar as sílabas. Sonhava em ser igual ao Patativa do Assaré, poeta popular. Aos 16 anos datilografou alguns poemas e mostrou ao Patativa de quem recebeu conselhos preciosos para sua carreira. Por não ter emprego em Acopiara mudou para São Paulo para “ganhar a vida”. Trabalhou em posto de gasolina, churrascaria e choperia. Sempre lendo e escrevendo muito e gastando boa parte do seu salário mínimo com livros, Moreira de Acopiara tinha certeza que um dia ia dar certo. Chegou a publicar cinco livros e vários cordéis pagando do próprio bolso. Atualmente dá aulas de cordel aos detentos do Centro de Detenção Provisória em Diadema, São Paulo. Professor muito querido pelos detentos, Moreira de Aopiara faz livrinhos a partir dos textos que seus alunos escrevem durante o ano que, no final, é entregue para os detentos e para as famílias deles.

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História completa

Meu nome completo é Manoel Moreira Júnior, mas me chamam Moreira de Acopiara, que é uma homenagem ao lugar onde eu nasci, interior do Ceará, em 23 de julho de 1961, num lugar denominado Trussu, município de Acopiara, sertão central do Ceará, e onde vivi até os 20 anos de idade. Mamãe era de Iguatu, que é uma cidade vizinha a Acopiara. Meus avós maternos da Paraíba e paternos de Acopiara mesmo. Eles viviam de agricultura de subsistência, tinha uma pequena propriedade rural, plantava arroz, criava um gadinho, essas coisas de interior do Nordeste. Mamãe estudou e era professora do interior, dava aula ali na zona rural, ela tinha 30 anos quando conheceu o meu pai, que era viúvo, pai de nove filhos, meu pai tinha 50 anos. Mamãe parou de trabalhar, de ensinar e foi cuidar dessa família, ou seja, dessa nova sala de aula. Então ela alfabetizou aqueles nove meninos e depois os demais moradores da fazenda e à medida em que eu e os meus dois outros irmãos fomos crescendo ela foi lendo muito para nós, contando muitas histórias e incutindo no nosso coração o gosto pela leitura. Porque quando ela se casou levou na bagagem muitos livros e também muitos cordéis.

 

Cordel é bom porque tem um enredo curto, poucos personagens e é baratinho, então quando mamãe não podia comprar um livro que custa hoje 30, 40 reais, ela comprava um cordel, que custa três, quatro reais. E ela lia muito para nós na fazenda, e o cordel é feito mais para ser lido em voz alta, para ser declamado, tanto é que havia pessoas que nem saber ler sabiam, mas de ouvir decoravam e recitavam poemas inteiros, que o cordel é isso, é poesia oral, e eu fui gostando daquilo, fui me acostumando com aquele ritmo. Com 13, 14 anos de idade eu comecei a escrever os meus primeiros versinhos, mas uma coisa ainda sem qualidade. Eu morava numa fazenda chamada Cantinho. Era uma casa muito grande, só que quando eu nasci os meus irmãos do primeiro casamento do meu pai já estavam todos adultos, a maioria já tinha se casado. Uma casa enorme, terreiro muito grande também, para gente jogar bola e brincar. O meu pai era mais velho do que a minha mãe 20 anos, mas quem mandava era mamãe. O acesso da fazenda até a cidade era difícil, quase 50 quilômetros por uma estrada de terra que quando chovia ficava praticamente intransitável. Com 11 anos eu fui para o Trussu, para a vila, para casa da minha tia Laís para fazer o primeiro ano. Fui muito bem alfabetizado por minha mãe. Eu fiquei acho que uns quatro anos, com 15 eu fui estudar em Acopiara. Geralmente eu ficava de segunda a sexta no Trussu e sexta-feira à noite ou sábado de manhã eu ia para a fazenda, que era 12 quilômetros. Em Acopiara fiquei morando na casa de uma madrinha, Salete e eu fiz até a oitava série. A sexta e a sétima eu fiz em Iguatu, depois voltei para Acopiara.

 

Comecei a escrever os meu primeiros versos com 13 anos de idade, por essa época eu conheci também o Patativa do Assaré, que era o melhor poeta nordestino. Eu dizia, na minha inocência, que quando crescesse queria ser igual ao Patativa, e com 16 anos eu datilografei uns poemas e mostrei para ele, inclusive ele me deu muitos conselhos. Prestei muita atenção no que o Patativa falou, ele mostrou muitos erros que eu cometia, me abriu os olhos para muitas coisas, me deu muitas aulas boas mesmo e acabamos fazendo alguns trabalhos juntos no final da vida dele, que morreu em 2002, foi o melhor, é ainda minha principal referência porque ele era um poeta completo. Tudo que eu escrevi até os 32 anos de idade acho que serviu apenas como aprendizado, eu descartei tudo, até publiquei alguma coisa até essa idade, mas hoje eu não publicaria mais. Eu gostava muito, principalmente da fazenda, gostava de Acopiara. Sucede que meu pai ficou velho, não tinha mais como tocar aquilo e precisou vir morar na cidade, até por uma questão de praticidade. Ele já estava com mais de 70 anos, e nós adolescentes, a gente não tinha o que fazer em Acopiara, não tinha emprego, não tinha profissão, o jeito foi vir morar em São Paulo. A fazenda foi vendida em 1978, eu tinha 18 anos. Meus pais ficaram morando em Acopiara, eu vim para São Paulo sozinho. Tinha uns coleguinhas da região e tinha uma tia também que me abriu as portas, me incentivou: “Venha para São Paulo, venha trabalhar por aqui”. A viagem de três dias, mas o que me assustou muito foi a entrada de São Paulo ali, quando disseram: “Chegou em São Paulo”. Até chegar na Marginal do Tietê e não chegava nunca na rodoviária e aquele ônibus andando, andando, se bem que não tinha tanto trânsito, mas demorou muito. Quando chegou na rodoviária outra viagem até São Bernardo, eu acostumado com Acopiara que todo mundo conhecia todo mundo, a gente atravessa a cidade toda em 15 minutos, 20 minutos, foi um choque muito grande, uma mudança brusca.

 

A casa da minha tia também era grande e tinha um sobrinho do esposo dela, que é meu amigo, meu compadre, Beto, a gente foi morar juntos numa edícula, ficamos vários anos. Você chega do Nordeste, chega despreparado, não tem profissão, o estudo era pouco também. Eu tive que trabalhar em subemprego, trabalhei em posto de gasolina. Depois eu fui trabalhar numa churrascaria e foi onde eu passei mais tempo, fiz vários trabalhos, passei por vários setores da churrascaria. Saí de lá para ser gerente de uma choperia grande também, depois de dois, três anos. Eu me correspondia por carta. Toda semana mamãe mandava uma cartinha para mim, eu respondia, ou respostava, como ela dizia, mamãe escrevia muito bem. Eu vou falar só de uma. Quando eu vim de lá eu deixei uma namorada, Joana d’Arc, o primeiro amor, a primeira paixão. A carta que mais me marcou foi a que ela me mandou dizendo que eu esquecesse a Joana d’Arc, que ela estava com outro. Aquilo foi como uma punhalada no meu coração, acho que essa que mais me marcou. Hoje a menina que entrega carta na minha rua já virou minha amiga, quase toda semana ela está lá, toca a campainha, quando eu não estou deixa na quitanda em frente, que me conhece também.

 

Recebo muitos cordéis dos colegas do Nordeste e do Brasil afora, muitos livros, alguns jornais que, para os quais eu escrevo, revistas também, e muita correspondência, dia desses chegou uma carta de um preso, pedindo para eu mandar um cordel para ele, eu mandei, fiz um kit, juntei o que tinha, mandei para ele, depois ele mandou outra carta agradecendo. Continuei sempre escrevendo muito, lendo muito e gastando boa parte do meu salário mínimo com livros e tinha certeza que um dia ia dar certo. Publiquei cinco livros e vários cordéis pagando, por minha conta, só depois do quinto livro é que eu cheguei a uma editora e pronto, foi quando eu saí do emprego formal e fui. No começo foi difícil, mas portas foram se abrindo. Meu primeiro livro foi em 90 e, mais ou menos, 93. Tinha 32, 33 anos. Chama-se: “Meu jeito de ser feliz”, uma reunião de alguns poemas que eu tinha escrito naquele ano, era um livro pequeno. Eu fazia muito cordel e mandava, inclusive para mamãe que amava poesia, mandava para o Lucarocas também, que é um poeta de Fortaleza, ele me respondia em forma de versos. Quando escrevi o primeiro livro, eu participava muito de saraus, aqui em São Paulo, no ABC principalmente e, como eu trabalhava numa churrascaria, tinha muito professor que ia lá, muito empresário, muito trabalhador da Volks, da Ford, da Mercedes Benz. Eu fui muito feliz nesse primeiro, segundo e terceiro livros porque eu vendia ali mesmo na churrascaria, para os clientes. Quando eu fui ao Rio de Janeiro, depois de 2000, para eleição da ABLC eu fui conhecer a Feira de São Cristóvão e também conheci os cordelistas de lá, os repentistas. Eu morria de vontade de conhecer, eu adoro o Rio de Janeiro. Tanto é que até hoje quando eu vou para lá adoro passear em Santa Teresa, Copacabana, Ipanema e ver o centro velho também e a Feira de São Cristóvão, eu me sinto em casa.

 

Diadema é tida como uma cidade onde eles valorizam muito a cultura e eu todo ano passo por todas as bibliotecas da cidade, a Secretaria de Educação também me contrata para palestras, para recitais com os aluninhos do EJA, eu acho uma beleza e tenho um bom relacionamento com a Secretaria de Cultura. E em Diadema tem um CDP, Centro de Detenção Provisória, que tem mil e 400 presos e dentro tem educação, desde alfabetização, ensino fundamental, ensino médio e ENEM. Paralelamente eles resolveram levar oficinas de desenho e pintura, de teatro, de circo, história em quadrinho, literatura. Em 2010 ficaram me conhecendo, já sabiam de mim, quiseram fazer um teste com cordel. O pessoal do CDP entrou em contato com a Secretaria de Cultura, que me chamou, fizemos um contratozinho para fazer um teste, ficar três meses, ver como é que vai ser. No começo foi muito ruim para mim porque eu muito apreensivo, aquele clima pesado, aquele ar muito carregado, a gente passa por 11 portões até chegar no local, aquele cheiro forte de creolina com sabonete Protex e maconha e cigarro, é pesado mesmo. E eu precisava sempre de um tempo para entrar no ritmo, em todas as apresentações, porque o preso dentro está dominado, qualquer afago que a gente faz nele ele gosta muito, você chega com a linguagem poética, muitos são do Nordeste. Encontrei até parente dentro, pessoas que me conheciam. O lance é assim: eu fico seis dias com um grupo de até 30 presos, nesses seis dias a gente discute cordel, mas eu falo basicamente onde nasceu o cordel, como chegou ao Brasil. Estou desde 2010, então três anos vai fazer, estou no terceiro ano agora.

 

Eu nunca tive desejo de procurar editora. Eu tinha publicado dois cordéis, um se chamava: “O bê-á-bá do repente” e o “Bê-á-bá do cordel”. E uma dona de uma editora comprou esses cordéis em uma livraria, na Livraria Cortez, e lendo aquilo achou por bem transformar aquilo num livro. Ela me chamou para uma reunião para gente elaborar um projeto: “Ó, vamos fazer um livro didático disso aqui, você escreve um outro texto sobre xilogravura e um texto em prosa falando de tudo isso”, beleza. Fiquei mais uns meses trabalhando naquilo, ela publicou, um livro que se chama: “Cordel em arte e versos”, que já vendeu mais de cem mil exemplares e é um livro que tem vida longa porque todo ano há uma venda grande, entrou em todos os programas de Governo. A partir daí as portas começaram a se abrir, as outras editoras começaram a me assediar: “Moreira, quando tiver um projeto, manda para gente”, tal, o que é muito bom, você viver de poesia, de cordel no Brasil. Eu não faço gravuras, eu sempre mando para colegas xilógrafos. É grande o número de envelopes que eu recebo pelos Correios com cordéis, poetas do Recife, do interior da Paraíba, do Ceará, que mandam cordel para mim. Outros mandam texto para eu analisar, outros mandam uma cartinha pedindo para mandar cordel para eles. A internet contribuiu muito com o cordel porque é mais um meio da gente divulgar o cordel, mas eu acho que diminuiu bastante o vai e vem de cartas, porque hoje é muito mais fácil você mandar um email do que uma carta. Mas eu prefiro muito uma cartinha, um envelopezinho, quando eu abro ali, cheio de novidades, mesmo a carta manuscrita, eu gosto muito mais do que um email, do que um telefonema, celular eu uso porque eu sou obrigado.

 

O cordel vem sempre impresso em offset, em gráfica ou em tipografia, mas eu gosto muito de receber cartas manuscritas ainda, tem mais sabor, tem mais valor para mim. Muita gente me escreve. Não deixo nenhuma sem resposta e sempre mando um agrado, quando não me pedem nada eu sempre mando, nem que seja um cordel ou um agrado para gente marcar mesmo. Casei duas vezes, estou no segundo casamento. A primeira paixão é aquela da carta que a mamãe mandou. Mas depois eu me casei com uma moça de Iguatu, fiquei 12 anos com ela. Não deu certo e eu fiquei um tempo só, encontrei uma paraibana, estou com ela até hoje. A partir de 95, 96 mais ou menos comecei a viver do meu traballho literário. No começo inclusive foi difícil porque não entrava quase grana, mas aquilo que eu lhe falei, a gente vai conhecendo as pessoas e as portas vão se abrindo. Hoje está tranquilo, faço muita coisa na Secretaria de Educação de São Bernardo e Diadema, na Secretaria de Cultura dessas duas cidades também, e viajo muito, esse ano já fui ao Mato Grosso, já fui a Brasília duas vezes, já fui ao Rio não sei quantas vezes.

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