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História

Carregando o mundo nas costas

História de: Francisco de Paula Vitor Pio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/10/2016

Sinopse

Francisco Pio, "Pelé", nos fala de sua família de Três Pontas - MG, de sua infância em fazenda, dos costumes da cidade - como a Folia de Reis - e de sua vinda para São Paulo. Em seguida, Pelé nos conta sobre as dificuldades que encontrou de início na capital, de seus empregos como vigia e carregador e, por fim, de seu encontro com Guglielmi Galluzzi, que o levou para trabalhar na Zona Cerealista como chapa. Depois, fala sobre o dia-a-dia na Zona Cerealista e conta histórias divertidas da camaradagem entre chapas. Ao final, ouvimos sobre sua família e sua nova ocupação como feirante em Mogi das Cruzes.

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História completa

Quando eu vim pra São Paulo eu passei pela guarda municipal, trabalhei de segurança, vigilante. Aí foi quando eu conheci o seu Guilherme Galluzzi, eu vim aqui fazer bico nas horas vagas e conheci o seu Guilherme. E lá na segurança o pagamento atrasava demais, até 15 dias e o que me ajudava muito era o serviço daqui. Aí o seu Guilherme pegou e falou: “Se você quiser trabalhar registrado aqui você pode vir que eu te registro”. Isso foi em 74. Eu aceitei. Aqui, vou falar pra você uma coisa, aquela época aqui pra ganhar dinheiro não tinha igual. Não tinha igual. Ajudante, chapa, naquela época que não deu bem aqui é porque tinha juízo desse tamanhinho também, viu. Eu tive a impressão quando eu vim aqui que eu falei: “Bom, aqui dá para eu arrumar a minha vida”, que tinha serviço e dava dinheiro. Era das oito às seis. Uma hora e meia de descanso. A gente se aprontava logo, alguns saíam para as entregas, outros ficavam arrumando o armazém, era assim. Porque eles tinham três carros que entregavam e era entrega pra todo lado. Até em Santos eu ia fazer entrega (risos). A firma era de importação e Exportação. Eles importavam de tudo. Eles importavam alho, cebola, alho e cebola nem tanto, azeite, todos os tipos de azeite, bacalhau, atum, eles importavam de tudo! Orégano. Era uns 50 quilos que a gente pegava, 60 quilos no máximo. Nós descarregávamos e carregávamos. Às vezes a gente passava carga até pra outro caminhão, já ganhava duas vezes, ganhava porque estava descarregando e ganhava porque já estava carregando outro caminhão.

Era o dia todo, mas era o que é mais leve, o mês de março, por exemplo, começava a movimentar. Em janeiro e fevereiro era mais devagar. Agora em março o negócio começava a pegar novamente (risos).

Carregava o caminhão, carregava a perua e saía pra fazer entregas.

Em Santos era legal. Teve um dia que mandaram nós irmos, aí deu o dinheiro pra nós almoçarmos, chegamos lá, entregamos, viemos embora. Chegando aqui o seu Guilherme ainda tirou com a nossa cara e falou: “Pô, mas vocês foram lá e não tomaram nenhum banho de praia? Como vocês são moles” (risos). Nós preocupados pra chegar aqui com medo dele achar ruim, ele tirava com a nossa cara perguntando por que nós não tomamos banho de praia (risos). Ele foi como se fosse um pai. Eu lembro que uma vez ele me deu um rádio, rádio desse móvel, dois homens pra carregar o rádio, tinha que fazer força. Até o Luiz lembra desse rádio como se fosse hoje. O seu Guilherme era como se fosse um pai. Na época que eu estava pra casar, estava apertado às vezes, ele adiantava dinheiro. Então eu chegava: “Seu Guilherme, estou meio apertado assim” “Pega o dinheiro aí, Pelé!” (risos).

 

O chapa, ele é teimoso, mas eu acho que passou dos 40 anos ele tem que começar a parar, viu? Quarenta, 45 anos, mas uns que chegam a 50, 60 anos querem estar ali do mesmo jeito mas já não dá, os mais novos não têm paciência com ele mais não. Eu aposentei com 48 anos. Mas aqui já estava bem mais leve, já não estava aquela vida corrida que tinha anteriormente. Igual os chapas da batata, tem camarada aí que já está com 50 e poucos anos, só vê os novos reclamando: “Esses velhos não ficam em casa” (risos). Mas teve mais alguma coisa que eu arrumei assim, vender tempero, fazer alguma coisa, é melhor do que esse serviço que é bom quando dá, mas depois que passou determinada época a pessoa tem que esquecer e falar: “Isso aí já foi a minha vez”. Não se aguenta mais. É muito puxado. É subir escada carregando peso, é descer escada com peso na cabeça, solta o peso e cai na sua cabeça, é subir escada pra jogar coisa no caminhão. Então é complicado. Tem que ter o jeito, né? Igual aquela caixa ali você tem que pegar ela em pé com cuidado, pôr ela em cima da outra com cuidado. Se deixar cair ali quebra, não vai quebrar uma garrafa, vai quebrar duas, três ou mais. Aí os patrões ficam loucos (risos).Não, tem o jeito. Tem que pegar com carinho, com cuidado, como se estivesse pegando uma menina (risos).

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