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História

Carnaval Alvinegro

História de: Pedro Bandeira Junior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2013

Sinopse

Pedro Bandeira Junior nos conta sobre as origens do carnaval santista e sobre o surgimento do famoso bloco Bola Alvinegra, que se utilizava das cores do Santos Futebol Clube, além de outros, como o Agora Vai e o Banho da Dorotéia. Fala das transformações pelas quais o carnaval santista passou, abordando desde o tempo das luxuosas fantasias até a decadência dos blocos de rua.

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História completa

P/1 – Então, senhor Pedro, antes de começar a entrevista vamos fazer a sua ficha de cadastro, tá certo? O seu nome completo?

R – Pedro Bandeira Junior.

P/1 – E o endereço nós já temos, a data de nascimento do senhor?

P/1 – Trinta de outubro? Eu também!

R – Trinta de outubro.

P/1 – De 59?

R – Mas eu sou uma exceção, porque quando eu nasci morria tanta gente aqui em Santos, tempo da gripe espanhola. Quer dizer, morria tanta gente, enterrava muita gente, mesmo sem morrer era enterrado, acabou e eu sobrevivi.

P/1 – E o senhor nasceu em Santos mesmo?

R – Em Santos mesmo. Santa Casa de Misericórdia, que era lá na Praça, na Rua São Francisco.

P/1 – E o nome do seu pai?

R – Pedro Bandeira.

P/1 – E o senhor sabe quando ele nasceu?

R – Ah, não sei, ele era embarcadista, tinha pouco contato com ele. Uma, duas vezes que ele veio a Santos.

P/1 – Mas ele era brasileiro?

R – Não, Cabo Verde.

P/1 – Caboverdiano?

R – Santo Antônio de Cabo Verde.

P/1 – E atividade dele era?

R – Ele era embarcadista. Teve um tempo, quando eu nasci, ele trabalhava aqui na Companhia City. O homem falava inglês e francês, não podia trabalhar na Companhia City.

P/1 – A Companhia City?

R – City, City de bonde. É, logo se mandou, foi embora correr o mundo, que era o negócio dele. Tanto que morreu próximo a Buenos Aires, isso em 28, 29.

P/1 – E o nome da sua mãe?

R – Dona Gracinda Pereira.

P/1 – E o senhor sabe quando ela nasceu?

R – Ah, eu não me lembro.

P/1 – E ela é santista?

R – Ela morreu em 39, em dez de dezembro de 39. Não, é lisboeta.

P/1 – Lisboeta. E a atividade dela?

R – Ela era modista.

P/1 – Modista. E o senhor teve quantos irmãos?

R – Meus irmãos, eu tive três. Todos os três estão mortos.

P/1 – Três. Com o senhor quatro?

R – O último tinha que durar mais mesmo.

P/1 – E o senhor é casado?

R – Sou.

P/1 – Como é o nome da sua esposa?

R – Iolanda Del Carlo.

P/1 – Iolanda?

R – Del Carlo.

P/1 – Del Carlo?

R – Del Carlo, separado.

P/1 – E ela é de Santos?

R – Não, é de Itú.

P/1 – Itú. E atividade dela?

R – Prendas domésticas.

P/1 – E o senhor tem filhos?

R – Três.

P/1 – Três. O nome deles?

R – Graciema de Paula Bandeira, Maria Gracinda Bandeira e Pedro Bandeira Neto.

P/1 – E qual é a atividade deles?

R – A mais velha trabalha no comércio, a segunda é professora estadual e o meu filho é formado em Economia, mora e vive em São Paulo.

P/1 – Então é economista. E o senhor já tem netos?

R – Tenho um só desse meu filho, deve ter dois anos.

P/1 – Ah tá. E agora a formação do senhor: o senhor estudou até que grau?

R – Eu estudei até... Naquele tempo chamava-se o 1º Propedeu Diário e Comércio, primário. Depois Propedeu e Comércio, um ano só, eu já comecei a trabalhar. O resto é de leitura.

P/1 – E a profissão do senhor?

R – Eu trabalhei com navegação de cabotagem e acontece uma coisa engraçada: a primeira vez que eu fui ao Rio, tinha propaganda do Kubitschek. Ia fazer o Brasil, ia fazer o Brasil progredir 50 anos em cinco. Fiquei entusiasmado com aquilo e de fato ele fez, ele fez tanto que acabou com a navegação de cabotagem, porque começou abrir estrada, fabricar automóvel e acabou a minha profissão. Aí eu fui publicitário e agora eu estou aposentado.

P/1 – Então assim, se eu fosse fazer um histórico profissional do senhor, o senhor começou trabalhando em navegação?

R – Em navegação, como office boy. Cheguei até a titular da firma.

P/1 – Titular, o que seria um titular?

R – Tinha uma firma: Bandeira Júnior, agente de navegação.

P/1 – E o que um agente de navegação faz?

R – Recebe navios que vem de fora, recebe atracação, descarga, estiva, recebia carga, recebe frete, paga despesa. Referente a armador, armador temos no Rio, tem no norte, então precisa ter um agente em cada porto pra faturar essas emergências. E sempre que o navio entra, às vezes entra em arribar, então precisa ter alguém pra cuidar. Então a gente procura logo o agente representante do armador e faz todos os reparos que são necessários.

P/1 – E depois, então, o senhor foi ser publicitário?

R – É, depois acabou a navegação, que a Companhia de navegação São Paulo faliu. Faliu não por minha culpa, não. Culpa da Diretoria de São Paulo. Eu entrei em São Paulo pra ser Diretor de navegação, né? De navegação tem que ser de Santos, no Rio, na Bahia, num porto, não pode ser em Brasília. Já viu um armador, uma agência de... Um armador instalado em Brasília? Não pode! Tem que ser um porto, né? Então, em São Paulo não entendeu nada, foi tudo por água abaixo.

P/1 – E na publicidade? Em que ano o senhor começou a trabalhar?

R – Eu não me lembro exatamente agora.

P/1 – A década?

R – A década deve ter sido em 70. Década de 70, eu acho.

P/1 – E o senhor fazia propriamente o que na publicidade?

R – Eu procurava anunciante para o único órgão de publicidade aqui em Santos, que é a Tribuna. Depois eu inventei os melhores do ano, era uma publicidade assim... E doava o troféu Brás Cubas. Agora o troféu Brás Cubas tá entregue a uma instituição de caridade.

P/1 – E o troféu Brás Cubas premiava quem?

R – Os melhores do ano que fossem escolhidos pela comissão.

P/1 – E o senhor sempre morou em Santos?

R – O Athiê chegou a receber, o Athiê chegou a receber do Santos. O Athiê recebeu. Faz mais de 20 anos que eu fiz isso aí.

P/1 – Sim?

R – Agora de seis anos pra cá, que tá entregue a uma instituição de caridade.

P/1 – E o senhor tá aposentado?

R – Eu estou aposentado.

P/1 – E o senhor só morou em Santos, ou morou em outras cidades?

R – Eu só morei em Santos.

P/1 – E além das atividades profissionais o senhor teve outras atividades de Associação, de Sindicato, religiosas?

R – Não, nada, nada. Só tive... Fui diretor do Foto Clube, fotografia, e fui Diretor de Propaganda do Atlético Santista, mas isso só na parte social, de esporte não entendia.

P/1 – O senhor não é do Instituto Histórico Geográfico?

R – Posteriormente. Eu sou do Instituto agora, de dez anos pra cá.

P/1 – Que o senhor está no Instituto. E o senhor tem alguma atividade de lazer?

R – Não, escrevo só. Escrevo.

P/1 – Escreve?

R – Agora eu estou escrevendo a minha biografia carnavalesca. Já escrevi a história do carnaval de Santos, que é um livro editado pela gráfica da Tribuna.

P/1 – O senhor tem quantos livros feitos?

R – Só esse.

P/1 – Que é a história do carnaval de Santos?

R – Carnaval santista, 1978. É, 78, foi editado pela gráfica da Tribuna.

P/1 – E o senhor agora está escrevendo sua biografia carnavalesca?

R – É, fazendo um apanhado lá pra ver se alguém quer publicar, alguém se arrisca a publicar.

P/1 – Senhor Pedro, então vamos ao nosso assunto aí que é o carnaval?

R – Pois não.

P/1 – Quando que o senhor despertou por carnaval? O senhor era pequeno? O senhor se recorda do seu primeiro carnaval?

R – Ainda ontem estava contando isso. Eu tinha cinco anos de idade. Você não conhece Santos, não?
P/1 – Pouco.

R – Pouco. Conhece lá o prédio da cadeia lá na cidade, em frente? Bom, tem que conhecer a frente, o... Quando eu tinha cinco anos de idade... Não sei por que, uma coisa que eu gostaria que alguém me explicasse: na República Velha um Delegado era o sujeito mais importante de uma cidade, mais do que Prefeito, que Vereador. Então, todos os blocos iam se exibir em frente à cadeia, todos os blocos saiam no domingo e eu era pequeno, morava na rodoviária hoje. Eu fui com a minha família ver um bloco que era, depois eu soube, era o “Vilão Santista”. Tinha muito esse negócio de “Vilão Santista”, né? Vilão, vilão, e eles estavam representando O Guarani, prometendo de índio, de pena, aquele negócio todo, e aquilo me impressionou muito. Depois a minha mãe vai pra modista, fazia vestidos, fazia fantasia luxuosíssima, evidentemente que é pra dona de casa, né? Só podia ser pra meio dia e meio. A sociedade se equivoca como diz Vicente de Carvalho, que elas... Um camarada uma vez me disse uma coisa gozada, ele foi boêmio há muitos anos, tinha até apelido de Gardel, ele disse: “Olha, Bandeira, no meu tempo nós tínhamos smoke, mas não era pra esnobar. Ao contrário, era economia! É que com smoke todo sábado você poderia ir em qualquer Cabaré que estava decente e com terno você não podia ir duas vezes num Cabaré.” Tinha o Cabaré do Monte Serrat, Cabaré do Coliseu, o Santos deu baile lá há muito tempo, tinha o Cabaré do Mira Mar, onde hoje é o Edifício Jangada. E ele disse assim: “Ruim é mulher que tinha que usar suaré, aqueles vestidões compridos, e não podiam ir duas vezes no Cabaré com o mesmo vestido, então tinha que mudar toda semana.” Então a minha mãe costurava pra essa gente, chegava até 20 moças trabalhando, 20 costureiras, contra mestre, bordadeira , e eu fui acostumado ali. E aquelas fantasias, me surgiria que todo mundo... Me fantasiei todo ano, todo ano, todo ano.

P/1 – E qual foi a sua primeira fantasia?

R – A primeira fantasia foi fraque, aquele de rabinho assim. Era pequenininho assim. Depois foi uma porção, sei lá, uma porção. A última que eu fantasiei muito foi de cinegrafista de araque. Sabe aquelas máquinas antigas, assim? Grandes coisas, com duas rodas assim em cima e tocava assim. Tinha vezes que eu focalizava uma pessoa, um grupo: “O senhor tá filmando mesmo?”, faziam pose e tudo mais. Era de lata, com caixote de lata. As rodas eram latas de goiabada, pintava de coisa, chamava-se Paramontinhos. Não tem a Paramont? A minha era Paramontinhos (risos).

P/1 – Senhor Pedro...

R – Depois eu fui cronista, aquela vez da Tribuna. Tinha o chefe que era o Lauro Rodrigues. O Lauro Rodrigues era o diabolino, mas ele se dizia Papa do carnaval e realmente a Tribuna mandava em tudo. Eu fui ajudante dele, depois eu fui Chanceler, que raio de Chanceler também, eu não sei. Nos países era o Ministro das Relações Exteriores... O Chanceler é o que acompanhava a Rainha e o Rei, presidia todos os desfiles, visitava todos os bailes, todos os bailes do mais magrinho ao mais bacana. Éramos os três, então chamava-se a corte. Foram sete anos. Estou escrevendo esses... É igual presépio, tinha que ser sete anos. Às vezes presépio tem que fazer sete anos, né? Sabia disso? Presépio de Natal tem que fazer sete anos. Depois eu vim a colaborar na Tribuna, então eu fiz uma seção que chamava-se  “Confete: pedacinho colorido de saudade”. Evidentemente, pelo nome, sabia que eu ia buscar as notícias bem antigas, certo? Porque atual todo mundo... Porque atual todo mundo escrevia. Eu tinha que ser diferente. Às vezes as coisas... Nessa pesquisa eu consegui um material suficiente pra escrever a história do carnaval santista, entendeu? Sendo o primeiro carnaval em 1858.

P/1 – Qual é a data do primeiro?

R – Mil oitocentos e cinquenta e oito.

P/1 – E como era o carnaval, esse primeiro carnaval?

R – Ah, era um inferno. Primeiro aqui à noite era um bloco... Bom, a moçada era pequena também, era um bloco só, ele chama bloco mesmo. Eles chamavam de... Esqueço agora. Eles saiam tudo com a música, com os carros, saía tudo junto, né? Carro, carro puxado por animal, né? E tinha quem marcava aquele horário, quando saía. A primeira vez saiu às quatro horas da tarde do teatro, teatro onde é hoje o banco. Nós passamos lá, acho que é o banco... Tinha aquele banco, daqui a pouco eu lembro o nome do banco.

P/1 – Tudo bem.

R – Saía dali, dava aquela volta na cidade né, que a cidade era tudo ali, dava aquela volta e a noite tinha o baile. O baile deles era iluminado, isso é incrível, um baile de carnaval iluminada a vela de cera. Devia ser difícil (risos).

P/1 – Iluminada a vela de cera?

R – Vela de cera! Não tinha confete, não tinha serpentina, veio muito depois. Já veio... Lança perfume é desse século, o lança perfume. O confete, a serpentina já veio do fim do século passado, mas  o lança perfume começou nesse século, que o Jânio com um decreto acabou com o lança perfume.
P/1 – E senhor Pedro, como é que o futebol começa a aparecer nas manifestações de carnaval?
R – Bom, me disse um veterano aqui do Santos... Como era o nome deles? Eram dois irmãos lá do mercado... Que a primeira vez que o Santos fez um baile de carnaval foi um negócio improvisado, era lá na rua do Comércio, logo no fim, um daqueles sobrados onde foi o Diário de Santos. Um daqueles sobrados. O Santos tinha sede lá, então eles fizeram um baile, assim, de improviso lá e aquilo animou eles muito. Animou, foi muito concorrido, né? Bom, o curso era ali no Largo do Rosário, não faltava era gente pra entrar no baile. E depois eles passaram a dar lá na sede da... Em 1927. E era um baile muito bonito, muito bonito na Itororó. Acho que é 27, é 27, em cima da tipografia Aragão. Tinha dois salões, um embaixo e outro em cima. Eu tenho fotografia desse baile.

P/1 – Ah, o senhor tem fotografia?

R – Tenho, tenho. É só mandar reproduzir. Depois tinha um camarada muito animado aqui,  era o Bilú. Bilú foi zagueiro em outros tempos, né? Agora, joelho, não joga mais futebol, mas era muito animado, assim, de cantar essa coisa toda. Então fez o Bola.

P/1 – Ah, ele que criou o...?

R – Ele que criou o Bola. Eu tenho, não deu tempo pra eu encontrar, preciso procurar, eu tenho um papel que eles lá na sede bateram à máquina na Fundação, o nome das pessoas que iam participar em 1937. Porque o Santos foi campeão de 35, mas só que o Campeonato acabou em 36, porque a Federação Paulista atravessava o ano, aquela esculhambação toda. Não é assim! Começa num ano, acaba naquele ano! Então ele terminou em 36, que o Santos foi campeão, bateu no Corinthians lá em São Paulo. Aí no ano seguinte, em 37, ele resolveu fazer, então uma das coisas que ele preservou foi o número de componentes, que seriam 35, que era o ano que o Santos foi campeão.

P/1 – Ah, só podia ter 35 componentes?

R – Só podia ter 35 componentes. Imagina a guerra que isso causava, né? Que o primeiro ano foi de improviso lá na sede, mas ele renovou o carnaval, porque saiu com um palhaço branco mais largo, assim, bonito. Já imaginou 36, assim, com palhaço branco, alguma coisa, iam pra rua cantando.

P/1 – A fantasia de todos os blocos eram os palhaços?

R – Tudo igual, tudo igual, tudo branco bem...

P/1 – Palhaço alvinegro ou não, mais pro branco?

R – Alvinegro, mas o palhaço era branco. Não me lembro a gola, acho que era preta, mas um palhaço, assim, largo, bonito, impressionante, impressionante. Ele revolucionou, é igual o Joãozinho 30 que revolucionou o carnaval dos desfiles das escolas de samba, no Rio, dizendo que quem gosta de miséria é rico, que pobre gosta de luxo. E é verdade mesmo! E o Bilú renovou o carnaval de Santos com aquilo, um outro nível de pessoas, né? O de Santos e tal.

P/1 – E o bloco... Só brincava de salão?

R – Não, não, não, eles desfilavam pelas ruas. Desfilava pela rua. Desde domingo à tarde até... Aí recolhia no salão. Nesse tempo o salão ainda era na cidade, era... Eu tenho dificuldade de lembrar, de ultimamente pra cá.

P/1 – Mas esses detalhes não tem problema, a gente quer lembrar é o todo.

R – É.

P/1 – E, senhor Pedro...

R – Se eu não me engano eu tenho uma fotografia, tenho uma fotografia desse ano, do primeiro ano. Mas ele renovou, renovou, até então, sabe como é que é, esses bloquinhos de morro e tal, então aquelas fantasias “michuruquinhas”, né? Lá vem um palhaço branco de cetim brilhante, revolucionou o carnaval! Eu posso falar à vontade, porque inclusive eu discutia com ele, porque eu acho que carnaval são cores e ele achava que tinha que ser sempre preto e branco. Carnaval na minha opinião são cores, e ele achava que tinha que ganhar de Santos. Era preto e branco. Acho besteira. Uma vez ele já não estava mais fizeram uma...

R – Então senhor Pedro, o senhor estava contando que o senhor discutia com o Bilú, as cores do carnaval?

R – É, porque ele achava que Santos era preto e branco, tinha que sair fantasiado só de preto e branco. Que fantasia, essa primeira dele abafou, mas de uma outra vez ele fez dos gaúchos, né, fantasia de gaúcho. E saíram aqui do campo, trocavam de roupa aqui e antes eles deram uma volta no gramado, então aquela gente toda de preto, gaúcho todo preto, aquilo de longe parecia um bando de urubu comendo grama ali. Achei horroroso aquilo, eu discutia com ele muito, apesar de me dar bem com ele, mas não tem nada a ver. Clube é um e carnaval é outro assunto. Vai que amanhã uma entidade religiosa faz um baile de carnaval, só toca música religiosa... Agora pode, quer dizer, a do Padre Rossi é bem animada. Eu fui numa festa a semana passada, tinha orquestra, show, tinha tudo, excelente! Uma festa pra ninguém por defeito. E aí o dono da festa veio falar: “Que tal? Está tudo muito bem, mas a orquestra eu não gostei”, eu disse: “Por quê?”; “Não toca a música do Marcelo Rossi! Isso aí é um crime.” (riso). Quer dizer, a música dele é animada mesmo.

P/1 – É animada né?

R – Ele modificou dois mil anos de dogma da igreja. Sim, já tem diversos, já tem um no Rio, tem um outro agora em Natal, está fazendo a mesma coisa.

P/1 – É, tão seguindo, né?

R – É.

P/1 – E seu Pedro, a cada ano o bloco da Bola mudava a fantasia?

R - Ah, mudava a fantasia.

P/1 – E o senhor se recorda então de palhaço, de gaúcho?

R –Palhaço, gaúcho... Se eu soubesse até trazia o meu livro e dava pra vocês aí, mas que eu tenho um, tenho um ainda. Eu entro nas casas de sebo pra vê se encontro meu livro jogado lá pra comprar. Precisava dar e eu não dei e estou devendo. Eu entro lá, se alguém devolver... Nunca encontrei nenhum. Eu pensei que era ruim, mas não é não.

P/1 – Não?

R – Porque não aparece.

P/1 – É claro.

R – Porque devo pra muita gente. Devia dar e não dei o livro e foi isso.

P/1 – E se tentar aí uma 2ª Edição né?

R – Ah, não tem interesse, sabe como é que é! Com a televisão, a participação do cinema e show e coisa 24 horas por dia, ninguém vai perder tempo de ler coisa nenhuma, ninguém, ninguém. Os jornais sentem isso, poderiam ligar aquele Aqui Agora, aquele outro, como é que é? Ronda Policial! Que raio é, dá o crime ali na hora, em cima, vê o sangue. Você acha que vai comprar o jornal no dia seguinte pra saber alguma coisa? Não vai. Tinha que saber, você não leu, viu. Então é em cima, então esgotam.

P/1 – Senhor Pedro, o senhor diz que o bloco só tinha 35 integrantes. Ele continuou assim? Não havia uma pressão pra eles aumentar?

R – Havia, havia. Inclusive eu até tirei uma, eu defendi o lado dos que achavam que deveriam... Bom, um clube como o Santos, o maior clube de Santos, não pode ter um bloco com mais de 100 pessoas? O bloco só tinha 35! Não é cabível, né! Tradição é tradição, foi 35, já foi campeão e acabou. Não tem nada a ver. Eu discutia muito com ele esse caso, mas depois, ultimamente, não, tanto que é grande.

P/1 – E o bloco existe até hoje ou não?

R – Não, já há anos que não sai. Não sei por que, não sei por que.

P/1 – Mas ele acabou em que década, de 90 mesmo?

R – Estamos em 90 e?

P/1 – Noventa e nove.

R – Ah é, foi em 90. Acho que em 91 ele ainda saiu. É, com Vlamir. Vlamir era um corredor e saltador de distância, atleta aqui de Santos. E aí passou pro Vlamir, o Bilú já tinha até falecido.

P/1 – Durou mais de 60 anos, quase 60 anos?

R – Não, 60 não. É, quase 60, era de 37 a 90. Acho que de 90 ainda saiu, saiu sim, acho que saiu em 90.

P/1 – Então o senhor assistia todos os anos o bloco passar? E os jogadores participavam?

R – Participavam, participavam muitos jogadores.

P/1 – O senhor se recorda de algum jogador que participava?

R – Acho que o Pelé participou, não tenho muita certeza. O Coutinho eu tenho certeza, o Pelé eu não me lembro, ia sair, não ia sair. O Coutinho eu me lembro que ele participava e outros, e outros que eu não...

P/1 – E senhor Pedro, dentro dos jogadores do Santos, existiam alguns jogadores aí que eram foliões, que participavam de todos os carnavais se fantasiando? O senhor se recorda de alguma coisa disso?
R – Ah, eu não me recordo. Devia ter né, porque qual brasileiro que não é carnavalesco? Devia ter muitos, eu não me lembro assim de...

P/1 – Não tinha nenhum assim que destacava muito?

R – Não. O maior carnavalesco do clube foi esse Bilú, indiscutível. Só pra ele fundar um bloco, o bloco que durou quase 60 anos, né? Esse é o maior carnavalesco. Se bem que dizem que o verdadeiro criador do Santos que é o que tem um estádio até no nome dele... Qual é?

P/1 – Albano Caldeira?

R – Albano Caldeira. É um grande folião. Aí já não é do meu tempo, acho que eu não tinha nem nascido. Mas eu tenho a fotografia que ele aparece na porta do Santos com um chapéu desses de caçador da Índia, aquele chapéu assim, né? Ele é altão, sobressai bem. Isso em 1900, 1800 e não sei o que. Ele realmente era um grande folião, não conheci pessoalmente.

P/1 – E senhor Pedro, os fatos da atualidade sempre influenciaram as pessoas a fazerem as suas fantasias, o senhor percebeu alguma influência assim de pessoas se fantasiarem de Pelé? O Pelé influenciou aqui o carnaval de alguma maneira?

R – Eu não me lembro, nunca ninguém... Bom, de querer ser Pelé, todo mundo vestia a camisa dele, todo mundo fazia isso, todo mundo. Camisa 10 todo mundo queria por, todo mundo, no carnaval, fora do carnaval, esse é o maior fenômeno do futebol Mundial. Indiscutível. Vai passar um século até parecer outro, não basta dizer que Liverpool... É Liverpool, não? A cidade dos Beatles qual é o nome? Não é Liverpool? P/1 – É, Liverpool dos Beatles.

R – É Liverpool. Estão fazendo o mural da fama, e põem o relevo, isso é sobre futebol, põem o relevo, o primeiro que vai aparecer lá é o Pelé. E se fosse em Londres, agora surgiu um negócio que o 10º agora é o Garrincha, saiu a semana passada. Vão por o Garrincha também, é o 10º no...

P/1 – E o Pelé já virou assim algum tipo de enredo de carnaval, alguma coisa desse tipo, carro alegórico, boneco?

R – Ah sim, esse é um outro bloco. Quando saiu o bloco do Atlético Santista quem dirigiu foi um grande pintor italiano. Aliás dizem que era italiano, mas acho que era grego, a não ser que aquele Sermides... Pelo nome, só pode ser grego.

P/1 – Como é que é o nome?

R – Não lembro o primeiro nome, não sei o que de Sermides. De Sermides separado é grego, né? E ele fez um carro alegórico, o carro parece que é... O assunto não sei o que no inferno, frevo no inferno, um negócio assim. No Atlético outro bloco, outro clube, aliás foi rival do Santos no tempo do amadorismo. E o carro representava o inferno e eu entre as pessoas que estavam no inferno e tinha uma caricatura, uma estatueta do Pelé. Ele é um excelente pintor, excelente. O rival dele, que é o senhor Mário Fissori, fazia muito carros alegóricos pra mim. Fez uns dez ou 20. Mário Fissori era compadre dele, não estava com ele um dos maiores pintores, um dos maiores artistas do mundo atualmente, isso há 20, há 30 anos atrás. Não lembro o primeiro nome, não sei o que De Sermides.

P/1 – Certo, e por que o Pelé estava justamente no inferno?

R – É uma homenagem.  Quis prestar uma homenagem, né, porque o carro era do inferno, o que podia fazer esse papo aí no Céu... O carro é inferno, de vermelho, tinha outras pessoas, mas também não vieram. Mas o Pelé era o principal, evidentemente.

P/1 – E o senhor tem alguma foto desse...?

R – Desse eu não tenho, talvez no Atlético você encontre, mas essa eu não tenho.

P/1 – No Atlético?

R – No Atlético talvez você encontre.

P/1 – E senhor Pedro, e os carnavais assim de salão aqui do Santo? Tem alguma coisa pra falar?

R – Bom, até antes de ir pro Coliseu era um bailizinho igual aos outros todos. Agora, quando Aristódes (?) Ferreira inventou de fazer no Coliseu, primeiro que é uma inovação, que até então, teatro, só existia baile em teatro do Municipal. Aí Aristódes (?) Ferreira, naquela época, ele inventou de fazer no Coliseu, então alugou o Coliseu, tirou todas as poltronas, reunia outra, quer dizer, no momento a gente dizia: “Fazer cordão no chão lavado e inclinado não vai dar certo!”. Mas deu certo. Encheu ali, encheu todos os camarotes, encheu o salão em cima. Conhece o Coliseu ou não? Dá um pulo lá.

P/1 – Não entrei.

R – Tinha o salão em cima virado pra cá. Tem um salão grande que era o Cabaré, encheu ali também, foi fabuloso! Aí o Santos entrou mesmo no carnaval pra ficar, pra ficar. Tanto é que em 1950 a Rainha do Carnaval foi coroada aqui, aqui que coroou a Rainha do Carnaval em 1950, no Sábado anterior ao carnaval. É isso o que eu me lembro. Esse é o Silvinho, deixa eu ver...

P/1 – Pra que o público tenha uma ideia, nesses carnavais no Coliseu cabiam quantas pessoas mais ou menos?

R – Ah, eu não tenho a menor ideia, sei lá. Sei que lotava tudo, lotava todos os camarotes, o chão, o Cabaré lá atrás. Não tenho a menor noção, muita gente, muita gente! E o Santos tinha um quadro associativo grande, né, e depois também fornecia convite. Aí que o Santos entrou no carnaval mesmo. Até então... Que ano foi isso? Eu tenho anotado, assim de memória eu não sei.

P/1 – E senhor Pedro, além do bloco da Bola Alvinegra, tinha outros blocos aí com essa inspiração do futebol?

R – Que eu me lembro nenhum, nenhum. Sobre o Santos absorvia tudo, né? Absorvia tudo. Santos tinha outro concorrente, o Atlético fez esse bloco das esmeraldas, saiu com, marcou também o carnaval porque reentroduziram o frevo. Porque não tocavam há tempos, primeiro teve frevo nos primeiros carnavais do século, dos pernambucanos e nortistas que tem por aí. Saiu o frevo, vassourinha e não sei o que, mas é gente muito pobre. O Atlético com fantasia de luxo e coisa reentroduziu o frevo e foi que saiu esse carro do carnaval no inferno e saiu esse carro no inferno e tinha uma estatua do Pelé. No Atlético deve ter fotografia desse carro.

P/1 – E ainda no bloco do Bola, a parte musical, os integrantes tocavam o quê?

R – Ah, espera um pouco, estamos muito adiantados. Antes do Bola, antes do Bola teve um chamado, até o nome é lindo, teve um choro, naquele tempo tinha muito choro: “Flor do Ambiente”.

P/1 – Flor do Ambiente?

R – Flor do Ambiente. É, nessa que tem a fotografia do Albano Caldeira, antes de sair do bloco no grupo lá, que é choro, isso era chorinho. Naquele tempo não tinha muito chorinho, hoje não dá nem pra ouvir com o barulho na rua. Vai ter um choro, ninguém ouve, né? Não ouve nada, está acostumado ouvir rádio, televisão. Hoje um choro na rua ninguém ouve nada, então acabou, não tem mais choro, acabou o choro. Tudo passa. É Flor do ambiente.

P/1 – Quer dizer, nesse período...

R – Flor do ambiente seu próprio nome, sedução, entendeu? É um negócio assim... Quer dizer, tinha o carnaval e tinha o Flor do Ambiente, entendeu? Um negócio assim.

P/1 – Flor do Ambiente era uma flor?

R – Chorinho, chorinho. Naquele tempo tinha choro, bloco, e aí não tinha escola de samba. Choro, bloco, vilões que eu acabei de falar agora vilões, né? Negócio assim.

P/1 – Como a gente diferencia um choro de um bloco?

R – Bom, o choro só tem música. Tem a música, estandarte e um ou dois balizas dançando só. O bloco tem música e tem gente dançando, uma porção de gente, todo mundo pulando. O choro não, o choro é a base de corda, né, uma flauta, flauta de sopro. Tem só uma flauta, um clarinete.

P/1 – Devia ser muito bonito ein!

R – Ah, naquela época era lindo. Agora não faz sucesso nenhum, porque tá acostumado ouvir rádio e televisão, não vai mais escutar chorinho.

P/1 – Está tudo eletrificado?

R – É, exatamente. Então não tem condições, né? Mesmo que ponham uma flauta diante do microfone, os violões de fundo ninguém escuta, então não adianta nada.

P/1 – E o vilão o que que era?

R - Vilão, vilão a tradução direta é bandido, né? Mas vilão era... Eu não me recordo muito, era muito criança. Vilão era um bloco né, mas eu não me lembro que tipo era de música, não me lembro mesmo se tinha música. Tinha vilão, não me lembro o tipo de música, eu não me lembro exatamente qual que era, mas deveria ser essa base, assim, de flauta, violão. Depois que veio a escola de samba com bumbo, tambor. Isso aí revolucionou o carnaval até então.

P/1 – Em que época chega a escola de samba?

R – A primeira chegou no Rio em 1928, parece. A primeira que desfilou no Rio em 1928... É, 1928. Aqui em Santos a primeira, de 40, é a X9. É de 44, da década de 40, é a mais velha. É tão importante que em São Paulo tem uma que é campeã agora, atualmente chama-se X9.

P/1 – Ah, ela é inspirada na X9?

R – Na X9, na X9.

P/1 – Ah!

R – E a X9 tem uma história que vale a pena ser contada. Eles tinham um bailinho lá no Macuco lá, na Bacia do Macuco, né, e fazia matinê aos domingos e, como a música era muito pobrezinha, me disse um baterista, era bateria, baterista, um violão, devia ter um outro instrumento de sopro qualquer, porque não vai dançar com batida de violão. E como eles achavam muito pouco aquilo, eles contrataram um grupo de batuqueiro pra animar o baile, né? Então esse baterista, que era muito influente, tocava bateria 80 anos já, chamava-se Tricolor. Ele foi no Rio, aquele pessoal entrando lá no salão, tocando aquele negócio todo e ele olhou bem: “Parece os bandidos da X9”. E tinha uma revista X9. Tinha não! Acho que ainda tem a X9, uma revista americana X9, aquele negócio de banditismo, de gangster, eu sei lá. É desse tipo. Esses vieram depois, a X9 é mais antiga. Aliás, é americana: Xnine. E ficou! Quando organizou a escola já pôs escola de samba X9.

P/1 – E senhor Pedro, ainda falando um pouco do bloco da Bola, nesse tempo todo que...

R – Desculpe, não é da Bola, é do Bola.

P/1 – Do Bola?

R - O bloco.

P/1 – Ah.

R – Do Bola Alvinegra.

P/1 – O Bola Alvinegra, o bloco?

R – É.

P/1 – Então, nesses 50 anos e pouco de duração dele, o senhor podia perceber que as transformações do carnaval se refletiam nele também?

R – Não, pelo seguinte: ele era do Santos e ponto final. Então, nem partia pra baile em concurso, entendeu? Ele não concorria, ele desfilava e não concorria, era um carnaval particular do Santos que saía na rua.

P/1 – E ele sempre manteve essa estrutura rígida dos 35?

R – Até alguns anos ele manteve sim. Depois, parece que o Bilú se afastou e aí os outros que vieram modificaram.

P/1 – Sempre então com fantasias diferentes a cada ano, todos iguais pra cada...

R – Esse de bloco é tudo igual. Ao contrário das escolas de samba, o bloco é tudo igual. Aí tá o nome bloco: tudo igual. Aliás, “chatérrimo”, né? Porque já imaginou uns cinco mil da Mangueira passar com o bloco tudo igual? Deus me livre! Não tem condição.

P/1 – E em relação, por exemplo, quando o Santos conquistava esses Campeonatos, existia carnaval fora de hora aqui em Santos pra comemorar isso?

R – Ah, sempre improvisava. Principalmente lá na Praça, como até hoje, na Praça Independência sempre se improvisava uma bagunça qualquer. Pior que geralmente acabava sempre já no inverno, que não é muito movimentado, né? Mas sempre foi, aliás a Praça Independência é a Praça das comemorações, qualquer coisa é na Praça Independência. É Campeão Mundial, é coisa, é tudo na Praça Independência. E de improviso vai todo mundo pra lá, grita, canta e lá vai.

P/1 – O senhor chegou a ir alguma dessas comemorações?

R – Na Praça Independência?

P/1 – É, do Santos, de vitórias do Santos?

R - Não, eu não era muito chegado no futebol não, essa parte...

P/1 – O senhor disse que chegou a ver alguns jogos aqui da Vila.

R – Ah sim, no tempo que ainda era de madeira isso aqui, vi alguns jogos sim. Vi o Athiê jogar. Vi o Athiê jogar no gol.

P/1 – Ele era bom goleiro?

R – Ah, era da Seleção Brasileira. Precisa dizer mais? Um grande amigo meu, um grande amigo, amigo assim de conversar. Nunca teve negócio nenhum. Uma vez pediu pra mim votar nele pra prefeito, eu não achava que ele não podia ser prefeito, não podia ser prefeito, não tinha estrutura. Ele ficou meio magoado, mas a nossa amizade continuou da mesma forma. Tanto é que na casa dele tem uma fotografia dele com a Teresa Boniolfi. Teresa Boniolfi eu vou lhe explicar, é como, assim, Ibrahim Sued pro Brasil. A Teresa Boniolfi, pra Santos, social... Tem a fotografia. No dia que ele recebeu o troféu ele estava lá no Troféu Brás Cubas, estava lá na sala dele. Podia ter posto Presidente da República, né? Ele esteve aí, no exterior ele esteve, ele e a Teresa no troféu. Agora demoliram a casa, uma pena. Uma casa tão bonita.

P/1 – Ele foi um grande Presidente do Santos, ganhou muitos títulos, né?

R – Foi, dificilmente ele será superado como jogador e como Presidente. Esse pode dizer: “Eu vivi os dois lado da coisa!”. No entanto, eu estou escrevendo a minha biografia de carnavalesco, eu comecei justamente dizendo isso: “Bandeira Júnior favorece-se em conhecer as duas faces do carnaval, a prática e a teórica”. Eu lembro o Athiê, que o Athiê foi, do futebol, um grande goleiro da Seleção Brasileira, da Paulista, não ia ter reserva, da Seleção Brasileira. E como Deputado teve uma porção de condições no exterior, né? Era amicíssimo do Costa e Silva acho, né? Costa e Silva.

P/1 – O senhor, antes da gente começar a entrevista no caso, contou uma passagem de um jogo que o Santos tinha uma linha muito poderosa. O senhor podia contar pra gente um pouco?

R - A famosa... Eu não lembro o ano. A famosa linha dos 100 gols. Quer dizer, tinha marcado 100 gols durante o Campeonato. Era Siri, Camarão, Feitiço, Evangelista, acho que tinha Omar, Camarão, Feitiço... Eu já não me lembro mais ou menos desse jogo. Cem gols jogando aqui, pra ganhar precisava marcar um gol e marcaram dois e perdeu de três a zero. O adversário era o Palmeiras, Palestra Itália, e o juiz chamava-se Molinari. Bode, credo! Molinari. E depois, naquele tempo, qualquer coisa que o juiz começava a roubar, em qualquer lugar eles diziam: “Ô Molinari!”. Ele ficava ofendido. Só chamava: “Molinari!”, ele já ficava ofendido.

P/1 – Ah, virou adjetivo?

R – Ah, virou adjetivo de juiz ladrão.

P/1 – Então, quer dizer que o Santos teve dois, três gols anulados?

R – Três gols anulados. É impossível, impossível! É a decisão, é impossível. Será que três gols estavam em situação irregular? Um, dois, mas três gols em situação irregular é possível? Então aí... Mas é fácil pegar o jornal da época e ver a descrição direitinho. E depois, pro juiz sair de campo, foi infernal, porque já imaginou, né? O campo de madeira não é essa coisa aqui. Campo de madeira que você podia pular o alambreado. E pra ele sair do campo?

P/1 – O senhor estava nesse jogo?

R – Não, eu não vi, não cheguei a assistir.

P/1 – Existia um costume antigo, de se comemorar gols, a torcida jogando as palhetas no campo?

R – Ah, jogava. Nesse tempo jogava mesmo. Acho que a palheta era barata naquele tempo, era de palha, diz que era muito barato. Hoje custa um dinheirão porque é coisa de Museu: “Eu compro! Quanto custa uma palheta? Eu compro.”

P/1 – Ah é?

R – Ah é, coisa de Museu.

P/1 – É, ficou raro. O chapeleiro é uma profissão em extinção?

R – É, o chapeleiro. Tem uma coisa que não existe mais: o sapateiro, meia sola. Como é que chama? Não tem mais. A gente quer arrumar um sapato, não tem onde por. E aqui em Santos não conheço ninguém que arruma sapato. Tem que jogar fora e comprar outro. Quitanda não existe mais quitanda né.

P/1 - Motorneiro?

R – Quitanda e mesmo mercearia, venda. Naquele tempo chamava venda, hoje é mercearia. Venda também não tem mais, é supermercado e ponto final. Ninguém concorre com supermercado, não tem condição.

P/1 – Senhor Pedro, o senhor está contando então que se apaixonou pelo carnaval, se envolveu. Em que momento que o senhor também virou um historiador do carnaval, um teórico do carnaval?

R – Bom, aí em 1960 e poucos o Lauro me convidou pra colaborar na Tribuna.

P/1 – Quem?

R – O Lauro Rodrigues. Era o cronista carnavalesco da Tribuna, mandava na seção de carnaval e antigo, muito experiente.  O que se dizia: “Papa do carnaval”, né? Que tinha a Rainha, o Rei Momo e os cronistas e ele era o Papa, superior a tudo. Ele me convidou, então abriu uma seção, chamava-se, uma coluna, chamava-se “Confete, Pedacinho Colorido de Saudade”. Pelo nome já se via: os carnavais passados. Então, de tanto eu pesquisar jornais antigos, encontrei até o primeiro carnaval de Santos, em 1858. Tenho a descrição todinha do primeiro carnaval de Santos em 1858, todinha. E aí comecei a escrever, me interessar, e fui convidado, fui conciliado a Fundador de Bloco se eu nem estava aqui. Ainda ontem à noite eu estava escrevendo, eu estava em Poços de Caldas de férias e fundaram, fizeram um bloco lá no Café. Café do...  Onde se reunia a boêmia, porque ali os Cabarés eram na cidade, o Coliseu era ali, o Samba Dança era numa rua acima, os camaradas tudo na cidade, então encontraram o Café do _______ que era o único que ficava aberto a noite toda. Então formaram um bloco, um tal de Agora Vai, porque, digamos, de 10 camaradas aqui, seis iam casar naquele ano, que ia entrar em 47. É, 47. Iam casar, então Agora Vai eram solteiros. Então deu o nome de Agora Vai. Agora Vai foi a coisa mais extravagante que pode existir em questão de carnaval. Em primeiro lugar, desfilavam na cidade um sábado antes do carnaval, com carro alegórico, fantasia, com música, com tudo que pode imaginar. Atraía um público enorme pra cidade. Os outros não! Os outros só desfilavam na praia, na avenida da praia. Era essa a diferença. Um dia eles apresentaram uma carruagem, é como eu escrevi ainda ontem, eu escrevi, que merecia. Merece ser incluída nos jornais da História desse país, do carnaval. Tem o livro do baiano lá que é esse país do carnaval. Uma carruagem perfeita que era velha mesmo. Foi pintada prateada e saiu a Maria Antonieta, Luiz XVI, o Parafarneira, aquele que desce a escada pra ele assim e põem o tapete, e o cocheiro. Um negócio luxuoso, eu vou mostrar a fotografia. Então foi tão bonito aquele carro que depois saiu no carnaval também, porque o Agora Vai só saía uma semana antes do carnaval, só saía uma semana antes do carnaval. No dia seguinte tinha a Dorotéia, que era um desfile famoso também de 1925. Acabou o ano retrasado. Em 1925, que era na praia, vinha da ponta da praia do Saldanha até o Gonzaga, dava a volta no Gonzaga, depois voltava. Depois a noiva e o noivo se jogavam lá no trampolim. Fazia aquela palhaçada e se jogava do trampolim, aquele negócio todo. E o Agora Vai era no Sábado anterior...

P/1 – Era a despedida de solteiro?

R – Exatamente. De três! O resto veio de graça, de contrabando, e ficou famosa até que terminou.  Agora terminou , há uns cinco anos atrás. Acho que uns seis anos atrás que deixou de ir. Também o carnaval velho a cidade não tem jeito, se não parecer na praia. Quer dizer, no ano passado fizeram no Macuco, lá perto dos Cais. Sabe o que acontece esse ano? Não tem ninguém pra sair, não tem ninguém. Acho que não vai ter carnaval esse ano. Acho. Nem ouvi falar nada até agora.

P/1 – Senhor Pedro, o Santos, o Pelé, o senhor conhece alguma marchinha, alguma música de carnaval que eles inspiraram aí? Há registro disso?

R – Pelé, tem um recorde de músicas com o nome dele, talvez recorde Mundial. Tem um amigo meu que fez esse levantamento.

P/1 – Ah é, como ele chama?

R – Eu vou lhe dar o nome. Assim, de momento... Que atualmente eu estou com a memória meia atrapalhada, estou mesmo. A memória, a vista.

P/1 – Mas vai ser muito útil se o senhor conseguir o nome dessa pessoa.

R – Então pra quê que existo? Bom, ainda tenho a cerveja, mas o que?

P/1 – É, depois...

R – Um amigo meu escreveu o recorde de inspiração de música, tem até um tango se eu não me engano, argentino.

P/1 – Um tango falando do Pelé? Isso é muito interessante!

R – Eu tenho essa coisa, eu vou procurar lá e lhe dou. Tem até o nome e o endereço. Esse amigo meu eu não vejo há muito tempo, nem sei se ele está vivo. Ele fez um levantamento, Pelé recorde em música, inspiração musical.

P/1 – Senhor Pedro, o senhor não ia muito ao estádio, não é? O senhor era mais ligado em carnaval do que futebol?

R – Ah, muito mais! Um ou outro jogo, assim, decisivo que eu vi aqui. Eu tenho uma fotografia de uma dessa turma do Agora Vai. Estão quase todos juntos aqui assistindo o jogo de futebol, aqui nesse... Tinha aquele bar ali, o primeiro lado tá junto do bar. Tenho uma fotografia desse...

P/1 – Existiu...

R - Mas não via o futebol não.

P/1 – Mas o senhor tem referências se existiam nas torcidas aqui, que vinham acompanhar os jogos, elementos carnavalescos, charangas, essa coisa toda?

R – Isso, quem começou com charanga foi a Portuguesa. A Portuguesinha ali é que começou. Aliás, tinha um humorista na Rádio Atlântica, todo dia às sete horas, ele tinha uma que se chamava Piada sincroniza. Piada sincrônica! Então, uma vez que a Portuguesa perdeu, ele fez uma parada de: “Rasguei minha fantasia!”, Dizia assim: “Rasguei a minha caderneta na Portuguesa! Não sou mais sócio não, vai. Rasguei a minha caderneta e faço parte da banda também”. (risos) A Portuguesinha que começou com a banda, ficou passando aí bastante tempo. Acho que agora não tem mais.

P/1 – Senhor Pedro, porque que o senhor tem essa preocupação com a memória? Porque o senhor acha que é importante preservar a memória do carnaval?

R – Bom, porque eu gosto, né! Eu sempre gostei, eu li tudo sobre o carnaval do Rio, eu li tudo sobre o que possa existir. Tem a história do carnaval carioca de Eneide de Morais. Lembra de Eneide de Morais que fazia o baile do Pierrô, essa coisa toda? Eu não cheguei a conhecer ela, infelizmente. Eu levei o meu livro pra ela e dei dedicatória e deixei com o Rei Momo no Rio para que entregasse pra ela, porque estava com ela e ela estava no Rio. Mas nem sei se ela recebeu, porque ela estava nos último dias, né? Ela estava muito mal, parece que há dois meses ela não falava com ninguém, nem nada e morreu. Não sei do que, mas não deve ser coisa boa, de modo que eu não tive contato com ela. A respeito muito, a história dela até que me inspirou bastante. Só que eu tenho um ponto de vista... Ela falou da decadência do curso. Você nunca chegou a ver, você não sabe o que é o curso de carro? Eu vou lhe mostrar uma fotografia. Curso de carros era, por exemplo, você viu onde foi me buscar? Dali até o Gonzaga tinha duas filas de carros no lado de cá, uma que vai e outra vem. Naquele tempo não tinha carro de capota arreada, então ia sentado na capota. Aquilo era o máximo do carnaval! Era o gosto automobilístico, era o máximo do carnaval e acabou. Eu, há quem diz que acabou, porque mudou o tipo de carro, né? Aqueles tipos de carro americano não tem mais a capota arreada, igual andar com... Naquele tempo ia na capota, iam dois em cada paralama. Atrás então, eu vou lhe mostrar a fotografia dele, do carro de... Eu tenho várias do carro do curso. Eu ainda saí, saí sim, com um carro Ford 29. Dei a maior sorte desse mundo, porque eu tirei o 2º lugar! Por mais um pouco eu era desclassificado, porque o carro era tão ruim, tão ruim, que felizmente foi parar a 100 metros do último jurado, aí não andou mais. Se parasse antes, (riso) tinha sido escurraçado.

P/1 – E quais foram as fantasias que o senhor saiu de carnaval e que o senhor se lembra mais? Que chamaram mais, que marcaram mais?

R – Ah, fiz várias. Bom, quando eu fui Chanceler eu inventei um fardão igual... Sabe aqueles da Academia de Letras? Então, foi o fardão da Academia de Letras e promissórias. (riso) Ainda ano retrasado, ainda um bloco do Guarujá me pediu pra sair com um carro alegórico deles lá. Eu pus essa fantasia e saí. O ano retrasado. Aí um dia, quando me entrevistaram: “Isso aqui é um fardão da Academia de Letras e promissórias. Mais promissórias do que letras” (risos).

P/1 – Então quer dizer que o senhor ainda sai no carnaval?

R – Não, não.

P/1 – Agora não?

R – Deixa ver, foi no ano passado? O ano passado nem estive em Santos, estive no interior.  Interior Botucatu, fazenda em Botucatu.

P/1 – Senhor Pedro, nós estamos chegando ao final da nossa entrevista.

R – Pois não.

P/1 – E queria então, no encerramento... O senhor ainda quer colocar alguma coisa assim pra gente fazer esse fecho, sobre essa relação do carnaval com o futebol?

R – Eu acho que são coisas independentes. Futebol é o ano inteiro, carnaval são aqueles três dias, então não tem muito a ver. Diretamente só teve esse. A Portuguesa nunca teve um bloco de carnaval, o Atlético teve, mas o Atlético já não pratica mais esporte. A ponta da praia também tem lá aquela Dorotéia, mas o Saldanha sai todo mundo, o pessoal do Saldanha. Sai mais pessoal do Gonzaga, coisa e vai pra lá e coisa. Parece que o ano retrasado já não houve, o ano passado já não houve. Parece que não vai haver mais a tal de Dorotéia. É uma pena, porque começou em 1925 e o nome é “Dona Dorotéia vamos furar aquela onda?”. Parece que tinha um sujeito muito atrevido, que quando via uma mulher na praia, qualquer coisa, a primeira coisa que ele fazia era chegar o... Aquele tempo chamava-se “Dona Boa”, “Dona Gostosa”, aqueles nomes assim, né? Chegava e dizia: “Dona Dorotéia, vamos pular aquela onda?”, como dizendo com má intenção e ficou esse o nome do... Isso é um depoimento de um camarada do que eu li num livro do Saldanha que promove isso aí. Porque em 20 eu tinha três anos de idade, sei lá, dois anos, sei lá que a Dona Dorotéia furava aquela onda.

P/1 – Senhor Pedro, como o senhor se sente aqui dando esse depoimento pro Museu do Santos? 

R – Bom, em primeiro lugar eu tenho uma simpatia incondicional pelo Santos, desde o tempo Athiê, Bilú, Davi, né? Você vê a defesa: Athiê, Bilú, Davi. Teve jogador do Santos Ari Patusca, irmão do Araken, acho que pouca gente sabe, foi o primeiro brasileiro a fazer sucesso na Europa no futebol, foi campeão europeu de 1902. Dois ou três, não me lembro bem. Foi campeão europeu pelo time na Suíça, primeiro brasileiro a brilhar, pouca gente sabe disso. Era santista, o irmão dele foi o grande Athiê, o grande Araken, né? Que em 30 foi o único paulista que defendeu a Seleção Brasileira lá no Uruguai, 1º Campeonato Mundial por sinal saiu-se muito mal, não é? Aquela briga Rio, São Paulo, sempre né! E ele como estava sem contrato defendeu o Brasil lá, mas o Brasil não foi bem, realmente não foi bem, em 1930. Eu fiz uma estatística agora, porque eu queria tirar uma xerox, só tenho essa. Tem xerox aqui, não tem?

P/1 – Tem, tem.

R – Porque logo no principio do ano a FIFA fez uma relação do melhor futebol citando o Brasil, certo? Alemanha e a França. A França está errado em... Ou tá errado ou eu estou errado. Pra mim a segunda é a Itália, né? O Brasil tem 27 pontos, Alemanha 26 e a Itália tem 21, não é isso aí? Embaixo aí no...

P/1 – Exato, exato.

R – Então a França veio muito depois.

P/1 – Ela veio em 27. E o senhor fez um artigo comparando o Pelé?

R – Com a maior personalidade do Mundo. E não estou arrependido.

P/1 – O senhor podia citar aqui, pra quem não leu o artigo, a quem o senhor compara o Pelé, algumas pessoas?

R – Como?

P/1 – O senhor poderia dizer pra algumas pessoas que artistas que o senhor comparou Pelé a eles? Pra quem não leu o artigo, o senhor compara aí o Pelé com Homero, não é verdade? Com Beethoven e...?

R – Não lembro, não lembro de outros que possa...

P/1 – Com o Santos Dumont?

R – É, foi o pai da aviação né!

P/1 – Com Pitágoras?

R – O pai da matemática! É isso. 

P/1 – O senhor acha então que o Pelé no futebol ele se...

R – Exatamente! Teve um Pelé, como teve um Pitágoras, um Beethoven, um Charles Chaplin. Teve outro Charles Chaplin? Quantos anos depois ele já morreu, teve outro? Não tem. Tem coisas que não tem, não tem. Igual a esse vai ser difícil, mas não vai ter não, não vai ter. Eu assisti o maior gol, ele diz que não, que tem outro, eu assisti o maior gol que ele fez. Infelizmente aquele tempo não tinha vídeo tape, não foi... Foi contra o Juventus de São Paulo.

P/1 – Ah, o senhor assistiu?

R – Que ele pegou a bola em frente ao gol, como se diz, encobriu um zagueiro, veio o goleiro ele encobriu o goleiro, agora o outro zagueiro estava muito perto não dava tempo de esperar a bola bater no pé pra chutar, ele pulou e cabeceou no gol. Tem uma fotografia que os jornais publicaram que esse zagueiro que foi enganado tá dando risada, como quem diz: “Que filho da pu...” né! Que o zagueiro ia esperar cair no pé, mas ele pulou, pôs no ar e já pôs dentro do gol. Foi o maior gol que eu vi na... Ele diz que ele não gostava muito, mas pra mim foi, foi uma pena que naquele tempo não tinha vídeo. É impossível fazer isso, propositadamente não vai fazer isso nunca, não vai dar certo nunca. Mas eu tenho a fotografia do Jornal de São Paulo que apareceu com zagueiro. Aquele tempo perdeu a oportunidade, tá dando risada.

P/1 – Que beleza.

R – Beleza? Que fantástico! Que fantástico. É, tem coisas que... E é um sujeito modesto, de origem humilde, o pai dele tem um recorde que pouca gente sabe, ele deveria explorar bem isso. Sabe que o pai dele tem um recorde que o time que ele jogou ganhou de cinco a zero. “Pô, já vi tanto time ganhar de dez a zero!”, só que os cinco gols foram o pai dele que fez. O Coutinho fez oito aqui. Só que os cinco foram de cabeça.

P/1 – Cinco gols foram de cabeça?

R – O Dondinho fez cinco gols de cabeça no jogo lá em Bauru.

P/1 – Era um recorde?

R – Pelo amor de Deus. O Coutinho fez oito aqui, parece que ele jogou, o Coutinho que tem o recorde. Acho que são oito gols aqui, aqui na Vila Belmiro. E também vi o gol mais rápido. Mais rápido, talvez...  Não pode ter mais rápido do que aquele: o centro avante deu saída, acho que era o Pagão, deu saída, passou Pelé, o Pelé esticou lá na ponta, o Pepe pegou a bola foi até o fundo do gol e chutou para o alto, Pelé veio e marcou o gol. Não fazia dez segundos que o juiz tinha apitado o começo do jogo, acredita nisso?

P/1 – Acredito.

R – Não pode haver gol mais rápido do que esse. Só se o sujeito na saída pegar pro terceiro e chutar e... Mas isso não vai acontecer né? O centro avante dá a saída, o meia pega a bola chuta. Só assim. Mas não vai acontecer isso nunca, tem o zagueiro, tem dois zagueiros, não vai, tem o goleiro, vai ser... Mas aconteceu isso aqui, essa eu vi! Essa eu estava pra ir pra casa, nessas farras do Agora Vai, eles bebiam mais do que viam o jogo. Depois eles discutiam tudo, mas eles ficam no Bola o tempo todo e bebendo. Vai discutir? Não viu nada! Sabe quem fez, quem não fez. Mas aí, agora, no domingo estava todo mundo aí de novo, no bar bebendo cerveja. Fica combinado assim.

P/1 – E o senhor ainda toma uma cervejinha?

R – É a única coisa que eu bebo. Se o senhor quer saber, eu quando era menino moço fui representar o meu patrão no Sindicato dos Operários da Companhia Docas de Santos, Rua João Câmara, porque foi a primeira vez que um Chefe de Estado visitou um Sindicato Operário. Esse chefe de Estado chamava Adhemar de Barros, o fundador do populismo, e é mesmo. E tinha champanhe, licor que não tinha nacional naquele tempo. Eu moleque nos meus 30 e calor, gostei! Até hoje. Um dia perdi uma namorada porque ela quis fazer aquele negócio de cruzar pra beber, assim né? Eu cruzei, mas na hora de beber eu não bebi (risos).

P/1 – O senhor não bebeu?

R – Eu não! Não gosto de champanhe, só cerveja assim. Está gravando ainda? Opa! Espera aí.

P/1 – Mas senhor Pedro, então a gente queria agradecer a entrevista do senhor, foi uma entrevista muito boa, nos ajudou aí em muitos aspectos que a gente não conhecia e sem dúvida alguma vai servir pra muitas pessoas, pesquisadores.

R – Vai ver o que eu tiver do Bola aqui. Eu devo ter umas fotografias do Bola, porque geralmente eu tiro uma cópia, gravo, porque eu vou guardar fotografia, eu tenho um negócio desse tamanho, né? Então eu tiro umas xerox às vezes.

P/1 – O Walmir vai procurar depois o senhor aí na outra semana pra gente então poder fazer umas cópias dessas fotos que o senhor falou.

R – Tudo bem. O que eu tiver lá vou deixar à mão.

P/1 – Seriam então as fotos do Bola Alvinegra?

R – Do Bola, é.

P/1 – Do Athiê Jorge Cury na porta do Clube. Do Athiê não! Do Albano Caldeira.

R – Do Albano Caldeira, é.

P/1 – Que isso vai ser uma foto muito importante...

R – E se tiver outros velhos sócios do Santos, vocês podem dignar a outras pessoas que eu não conheço.
P/1 – Claro, depois a gente faz um reconhecimento de foto.

R – Aquela é muito importante, é na porta lá na cidade. Albano Caldeira, altão, maior de todos, era alto, me contou um outro que foi Presidente do Santos. Era ele e o Athiê.

P/1 – Do Bola?

R – Isso, me contou que quando eles estavam fazendo aqui o campo, ele vinha aqui, ele trabalhava, o Albano trabalhava na alfândega. Naturalmente saía às três horas, duas horas, como todo funcionário público, né? Vinha ajudar aqui, então costuma dizer: “Este aqui ainda vai ser o melhor Clube do Mundo!” Isso há muitos anos, nem se falava em Campeonato do Mundo nem nada, disse isso.

P/1 – Procede?

R – Engraçado, ele é catarinense. Não tem nada de santista.

P/1 – Bem, senhor Pedro, então, olha, muito obrigado pela entrevista!

R – Pois não.

P/1 – E vamos continuar aí mantendo contato com o senhor.

R – Você tem o meu telefone, só telefonar, avisar, eu geralmente não saio.

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