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História

Carmo de Minas: sair daqui a gente não sai

História de: Álvaro Antônio Pereira Coli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Álvaro Coli é de Carmo de Minas, região produtora de café. E como era pra ser, ele se tornou cafeicultor, seguindo os mesmos rumos do pai e avô. Entre o cafezal e escola, o depoente recorda sua infância e juventude na sua querida cidade natal, de onde nunca saiu.

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História completa

Álvaro Antônio Pereira Coli, nascido em Carmo de Minas, dia 11 de dezembro de 1965. Meu pai, Paulo Afrânio Pereira Coli, nascido em Carmo de Minas, dia 3 de outubro de 1928. E minha mãe Adila Pereira Coli, nascida em 08 de setembro de 1941, os dois de Carmo de Minas também. Meu pai nasceu já na agricultura, os bisavós, os avós dele, os pais, sempre foram agricultores, e cafeicultores também. E ele nasceu na cafeicultura, estudou só até a 4ª série, e parou, foi trabalhar na roça. E minha mãe desde pequena morou na roça também e depois trabalhava como costureira, e auxiliando aí nas despesas como costureira, e trabalha ela até hoje, ele já é falecido. Meu pai sempre, desde pequeno, me levava até pra roça pra me ensinar alguma coisinha lá, sempre deixando eu estudar, mas levando pra roça também. E a mamãe um pouco mais brava. Como dizia, a mamãe punha de castigo, o papai tirava. Somos em sete irmãos, são seis mulheres e eu de homem. Então todos hoje casados, uma só mora em São Paulo, o resto tudo mora aqui em Carmo de Minas mesmo, cada um num ramo diferente, mas a propriedade a gente toca em conjunto, é uma pequena propriedade, chama Sítio da Torre. É o nome então desde o tempo do meu avô, Sítio da Torre, e a gente conserva esse nome. Os avós do meu pai vieram da Itália com 15 anos de idade. O meu bisavô, né, veio da Itália, Antônio Coli. Com 15 anos de idade e instalou aqui, começou a trabalhar no comércio primeiro e depois começou a trabalhar na agricultura também. E que foi onde que foi meu avô, meu pai, e passou pra gente também. Meu pai, bem antes dele falecer, ele teve um problema de vista, ficou cego, aí ele entregou a fazenda pra gente. E aí tocamos juntos até hoje, desde 1995, em parceria.

Carmo de Minas - Em 1965 quando eu nasci, a cidade já era pequenininha, muitas ruas de terra ainda, era algumas ruas só calçada, então a gente já gostava de brincar, porque brincar no barro, principalmente quando chovia. Cidade pequena era uma delícia, né? Então era uma liberdade total. E até hoje ela é pequena, a gente usa muito a estrutura de São Lourenço, mas Carmo de Minas, sair daqui a gente não sai. A casa, quando os meus pais casaram, vieram e moraram no sítio. Quando os filhos nasceram e começaram a estudar, eles acabaram vindo pra cidade morar com os meus avós. E aí logo a família aumentou, que quando era um ou dois filhos, mas depois aumentou, eles compraram uma casa. A casa era relativamente pequena, uma casa com três quartos, e tinham sete filhos, então depois foram aumentando a casa; o terreno era grande, foram aumentando, construindo mais quarto, como diz, o que a gente fala, o puxadinho. E até hoje eu moro nessa casa, essa casa em que eu nasci, que eles compraram por volta de 1960 ou antes um pouco até. Eles tinham a casa na roça, mas tinham essa também. Então eu nasci e já morei nela e até hoje eu moro nela, porque quando meu pai perdeu a vista em 1995, minhas irmãs eram todas casadas já, era só eu solteiro. Então eu acabei ficando com eles lá e depois casei, e continuei morando com eles. Meu pai faleceu em 2010, e eu continuo. Minha mãe mora com a gente lá até hoje.

Tradição – Em casa sempre teve fartura na mesa, isso papai nunca deixou faltar. E lá na roça também, ele mexia lá, ele criava galinha lá, ele criava porco, ele tinha gado que ele mexia, então, o que ele às vezes ele não comprava, tinha lá o porco que ele matava e punha no congelador pra coisa, pra ir consumindo. Antigamente, eu não lembro muito bem, mas no começo tinha um negócio de matar o porco e por na gordura, naquelas latas de gordura, pra ir tirando. Então, frango, ele tinha muito. Ele plantava milho lá, então tinha sempre uma roça de milho. Então muita coisa vinha da roça mesmo, ele trazia pra gente. Plantava mandioca, plantava batata, plantava essas coisas. Ele gostava de ter um pedaço de terra na coisa só pra trabalhar com isso, pra trazer pra casa, não era pra comercializar, mas pra ter fartura na mesa. Pelo menos que eu lembro, a gente não comprava café em supermercado, era sempre o que produzia lá, já separava. Na época do meu pai lá, já separava, por exemplo, dois sacos de café, na safra, pro consumo. Hoje, a gente produz, escolhe os melhores cafés, só que a gente não conserva na roça, deixa na cooperativa, no armazém. E vamos dizer, eu pego lá 15 quilos de café, tem um rapaz que torra, e vai pra família inteira; acabou aqueles 15 quilos, por exemplo, eu mando torrar mais pra não ficar guardando muito, o café quanto mais fresquinho e torrado, melhor, né? Até hoje é assim. Inclusive a minha irmã de São Paulo. O preparo sempre foi no coador de pano, né? Sempre foi no fogãozinho de lenha lá, com a chaleira lá fervendo e colocava café com açúcar no coador de pano mesmo, e até hoje a gente usa essa tradição lá em casa. Eu levanto todo dia cedo, já coo o café no coador de pano mesmo.

Infância – A rua onde eu moro, até na época tinha o apelido de beco, porque ela era uma rua calçada que ela chegava no final acabava o calçamento. Tinha duas saídas que saiam no asfalto, mas não eram calçadas, era de terra. Então a gente falava que era um beco porque era uma rua sem saída lá, que se chovesse não descia nesses becos. E essa rua ela tinha uma criançada. Os primos da família da minha mãe moravam todos nessa rua. Então a família inteira, devia ser o quê? Uns 30 primos mais ou menos e mais os vizinhos do beco. A gente estudava, depois do almoço era ir jogar bola, tinha um campinho lá perto, saía, jogava bola de tarde, e de noite brincava de pique na rua. Chegava seis horas ia até, vamos dizer, nove horas da noite, porque a gente também não ficava até tarde na rua, então nove horas era brincadeira na rua, só lá. Não tinha movimento de carro, não tinha nada, porque não tinha saída nesses becos lá. Então era brincadeira na rua mesmo. Era muito divertido!

Carnaval – Todo carnaval era no clube, não tinha aquele Carnaval de rua na época. Então tinha muito, na minha época de 18 anos, de 15 pros 18 anos por aí, era mais era no Urca mesmo, não tinha aquele carnaval de rua, saía um bloquinho e tal, mas de noite era Urca, ia pra lá. Baile de carnaval era muito animado, muito, porque ia desde o pessoal com 18 anos, 17, 18 anos, até os nossos avós, por exemplo, iam. As marchinhas, naquela época não tinha muito essa bagunça dessas músicas. Então, quando ia pra lá adorava porque estava junto com os adultos. O pessoal lá da minha rua lá, era o Bloco do Beco, que chamava. Todo ano tinha disputa de fantasia, as mulheres, né? Tinha o pessoal que olhava as fantasias e tudo. Aí depois eram os blocos, né? E no último dia era a premiação. Aí tinha a premiação, com troféu, com medalha para o melhor, o mais animado.

Escola - Com sete anos. Seis anos eu entrei no Pré. Antigamente era só com seis, aí sete anos que eu entrei no primeiro ano, na época era primeiro, até a quarta. Aí depois da quinta até a oitava aqui em Carmo de Minas mesmo. E depois tinha esse técnico de Contabilidade, que era da Prefeitura daqui, que tinha esse curso. Então eu estudei aqui mesmo. Nunca estudei fora, sempre foi aqui. Da sétima série do ginásio em diante eu comecei a estudar à noite e ajudava o meu pai na roça durante o dia. Eu lembro da minha primeira professora, Dona Nilza, que na época era solteira, depois foi casada com até um primo meu. No Grupo eu lembro que era um short azul, uma calça azul-marinho e tal, e camiseta branca. No Ginásio aí já mudou um pouco os uniformes, porque exigia muito a camisa, que era uma camisa branca, com gola vermelha, com o símbolo da escola, assim. Mas exigia que a gente usasse uma calça, era uma calça, eu lembro, no começo, era uma calça azul-marinho também, calça comprida. No Grupo a gente ia de short mesmo, mas na coisa já era calça comprida, tênis, tinha que ser tênis azul também. Era tudo, não podia comprar um tênis vermelho e querer ir na escola, porque era barrado. Teve época lá, no ginásio já, que a meia tinha que ser meia azul-marinho também. Então tinha um dia que eles resolviam lá: “Hoje nós vamos revistar”. Passava levantando a calça de todo mundo pra ver se estava com meia azul-marinho, porque se não tivesse mandava voltar em casa e trocar a meia. Tivesse uma meia colorida, uma meia de time de futebol, alguma coisa, tinha que voltar. Tinha um recreio lá, que tinha repartido, no ginásio, eu lembro bem, um canteiro no meio do pátio, um lado recreio de homem, o outro lado recreio de mulher, não podia. Às vezes a gente chegava pra conversar alguma coisa, geralmente vinha uma supervisora lá mandava: “Não, ó, os homens pra cá, mulher pra lá”. Não podia. Aí na hora de subir fazia fila, fila dos homens de um lado, fila do outro, pra subir a escada pra ir pra sala. A sala era junto, só o recreio que era separado.

Profissão – Eu formei em Contabilidade em 1984, em 1985, eu até então ajudava o meu pai, e em 1985 aí eu entrei pra trabalhar no Sindicato Rural dos Produtores de Carmo de Minas, trabalhei um ano. Em 1986, eu fui pra Cooperativa dos Cafeicultores de Carmo de Minas, em 86, e fiquei até um mês atrás, que eu trabalhei 28 anos lá. E agora, um mês atrás eu saí de lá e vim trabalhar aqui na Carmo Coffees. Então faz um mês, eu sou empregado novo. O primeiro salário, eu lembro que foi no comecinho de março de 1985, que foi quando eu entrei, recebi o primeiro salário. Eu lembro que eu fui em São Lourenço comprei um relógio pra minha mãe. Até hoje está lá. Um relógio de madeira, de cerejeira mesmo. Não era um relógio caro. Mas comprei e está lá em casa até hoje, tá ele lá, funciona. E eu lembro, foi o primeiro salário.

Casamento - Depois eu comecei a namorar já firme e tal, e aí como diz, aí, como diz, aí criei juízo já (riso). Ela conta que um dia eu fui chegar nela num bar ali e tal, mas que eu estava tonto, e tal. E ela acho que andou até me xingando e tal, que não sei o quê. Eu falei: “Você está indo no cinema?” Tinha um cinema aqui na época ainda aqui no Carmo. Eu falei: “Você está indo no cinema?”, ela falou: “Vou”. Aí eu falei: “Então eu vou com você”. Ela falou: “Então eu não vou mais, e vou embora pra casa”. Foi o primeiro dia que ela diz que me viu. Eu também não sei porquê. Foi um dia que eu errei a mão e tal, e passou. Aí teve um dia marcamos uma festinha lá na casa de um amigo, é o grupinho, a turminha, e marcamos, ia ter uma festinha, aniversário de alguém, tal, fui pra lá pra essa festinha, e cheguei lá ela estava lá. Mas aí como eu estava mais são um pouco, e aí a conheci, conversamos um pouco, e começou um rolinho ali, nós ficamos até, vamos dizer, mais de um ano, talvez assim, eu acredito que mais de ano, ficava, quer dizer, encontrava final de semana, um dia ficava junto, outro dia, não tinha compromisso nem nada. E aí chegou um dia ela falou: “Ou nós assumimos e começamos a namorar, ou então vamos parar. Esse negócio de não sei quê não dá certo”. Falei: “Então vamos começar a namorar”, e tal. E começamos a namorar firme. Isso foi em 1989. Quer dizer, o dia que eu pedi ela em namoro foi dia 4 de junho de 1989 e tal. Que aí chegamos e sentamos lá na praça, e conversamos, e a partir de hoje vamos namorar mesmo. Porque naquela época tinha aquele negócio de pedir e coisa, e tal. Hoje não tem mais, começa a ficar e pronto, virou namoro. Casamos, temos um casal de filhos. Então, vivemos muito bem.

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