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Carioca da gema

História de: Elizabeth Maria de São Paulo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2018

Sinopse

Elizabeth Maria conta sobre a sua família, infância e adolescência carioca. Gostava de farrear e sempre prezou pelas amizades. Relembra sobre a sua escola e sua vivência no BNDES, trabalhou em diversas áreas até descobrir o seu enorme interesse na área de publicidade e comunicação. Conta sobre os projetos que ajudou a implementar em relação ao incentivo a educação e sobre as parcerias do banco.

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História completa

P/1- Beth pra começar, eu gostaria que você falasse seu nome completo, local e a data de nascimento.

 

R- Meu nome é Elizabeth Maria de São Paulo, eu nasci no Rio de Janeiro, sou carioquíssima, tenho esse sobrenome São Paulo, nasci cinco de outubro de 1952, sou mais moça que o Banco (risos).

 

P/1- E qual o nome dos seus pais?

 

R- Meu pai é Érico Delamare São Paulo e minha mãe Ísis Aranha São Paulo.

 

P/1- Eles também são do Rio? Conta um pouquinho pra gente.

 

R- São, meus quatro avós e meus pais são cariocas e isso é super raro. Na época da Faculdade eu participei de uma pesquisa, no Rio de Janeiro, de Lingüística para saber como era a fala do carioca, e só podia participar da pesquisa nível universitário e até os avós cariocas, não tinha quase amostra. Eu era uma das pouquíssimas e claro que todo mundo brincava, tão carioca, eu brinco que sou carioca quatrocentona, com sobrenome São Paulo.

 

P/1- E esse sobrenome, você sabe?

 

R- Sei, esse sobrenome é francês, é de Saint Paul de Vince, é muito usual lá, tem Saint Exupéry, Saint Laurent e era Saint Paul, e algum bisavô ou tataravô não sei, abrasileirou pra São Paulo.

 

P/1- E na sua família todo mundo carioca, o que era a atividade dos seus avós e depois dos seus pais?

 

R- O meu pai era Médico e o meu avô era Engenheiro, aliás os dois, um da Marinha e o outro da Central, da Rede Ferroviária, agora com esse resgate da história do Banco a minha área é responsável por esse cinquentenário do Banco, por toda essa comemoração e eu entrei nessa história, nesse projeto aí de corpo e alma. E eu adorava meu avô, só que quando eu me dei conta, aliás, quando eu nasci ele tinha se aposentado, e é engraçado que ele foi Engenheiro da Rede Ferroviária Federal a vida inteira, ele foi ministro duas vezes, ele era uma pessoa super bacana, super poderoso, super inteligente e quando eu me dei conta, quando eu já era jovem, ele se aposentou da Central e foi trabalhar na Refinaria de Manguinhos, que é lá da nossa família e eu fiz Engenharia Química. Isso foi uma história que me deu agora, muito doida, por conta desse projeto de cinquenta anos do Banco, porque o vovô trabalhava na refinaria, a família inteira na refinaria, óbvio, o que ia fazer? Não ia ser médica, então eu fiz Engenharia Química e a minha meta era trabalhar com o vovô na refinaria. Só que eu odiei o Curso de Engenharia e era um pouco homenagem ao vovô, ao longo disso ele morreu e eu fiquei com aquela coisa de ser Engenheira Química, não era nem o que ele era, mais aquela coisa da refinaria, e fiz duas Faculdades.

 

P/1- Você terminou essa de Engenharia?

 

R- Não, eu parei no quarto ano de Engenharia Química, mas eu fiz junto a FGV, Administração, que na realidade eu tinha muito mais habilidade pra Ciências Exatas, então Engenharia fazia parte daquela continuidade. E aí o cursinho me inscreveu na Fundação Getúlio Vargas, eu era muito boa aluna, aquele negócio que eles inscreviam a gente pra dar nome, o Curso Vetor, não sei quantos passaram em primeiro lugar e eu fui na onda, eu sinceramente não sabia nem o que era Administração da Fundação Getúlio Vargas, e aí eu acho que gosto de desafio e comecei a fazer também, aí quando eu passei pra Fundação eu tive a sensação do que era, naquele momento, ser da FGV e comecei a cursar, meio assim de onda, e fui gostando muito mais, eu era ótima aluna na Engenharia, na Administração era o maior esforço, aula de Antropologia, História, quer dizer, eu tinha todo o meu raciocínio pra Ciências Exatas, Matemática, Química Descritiva, então eu tinha a maior dificuldade na Fundação, na outra eu só tirava dez, passava por média, mas eu fui caindo de boca pelo curso da Fundação, e nesse momento abandonei aquele projeto do meu avô, da Refinaria, de Engenheira Química. Mas o que fez eu abandonar o projeto foi o BNDES, porque aí eu fui fazer inscrição pro concurso do Banco e aí tinha a carreira de Engenheira e a carreira de Administração e aí eu cheguei lá, porque eu vi o anúncio na Fundação, estágio no BNDES, inscrições.

 

P/1- E você já conhecia o BNDES?

 

R- Muito pouquinho, você aprende que o Banco Central cuida da moeda, o BNDES  cuida do desenvolvimento. Não era uma referência, nem familiar, nem de amigos, pais de amigos, não tinha nada com Banco, sabia por tá estudando. E aí cheguei no Banco, era pra se inscrever no Departamento Pessoal, na Sete de Setembro, cheguei lá a moça perguntou “Qual carreira?”, aí eu vi que tinha Engenharia também, eu tinha vindo do cartaz da FGV, eu disse: “agora não sei” e voltei pra pensar, vou me inscrever em quê? Pra te falar a verdade eu até pensei em me inscrever nas duas, aí não podia, tinha que levar um retratinho, não tinha aquelas máquinas que tiravam, enfim, eu tinha que fazer opção, Administração tinha uma vaga e Engenharia acho que eram oito. Eu disse: “eu quero a que tem uma vaga”, mais ou menos foi aí que eu defini o meu caminho pela Administração, aí foi impossível fazer as duas faculdades e o estágio. Minha mãe já odiava, ela ficava: “não sei pra que estudar tanto, vai morrer e botar no caixão um diploma de cada lado”. E aí o curso de Engenharia já não tinha mais nada a ver comigo, eu nunca me arrependi, até voltei duas vezes no Fundão pra trancar, depois eu disse: “realmente não é a minha”, eu tenho horror a Engenheiro, não sei se tem algum aqui, eu acho aquela cabeça de engenheiro... Eu tomei horror.

 

P/2- Conta um pouco da sua infância, em que bairro você foi criada no Rio?

 

R- Eu nasci e fui criada em Copacabana e depois na adolescência eu fui pra Humaitá.

 

P/2- Você tem irmãos?

 

R- Eu sou a mais velha, tenho dois irmãos, nossa família é pequenininha, meu pai era filho único, então eu não tenho aquele bando de primos.

 

P/1- Mas como era o clima na sua família, a disciplina? Sua mãe trabalhava ou não? Como era na sua infância esse dia a dia, vocês iam à praia?

 

R- Muito, a gente era bem carioca, eu morava na Rua Toneleros, perto da Paula Freitas e a gente ia na praia ali, e bem longe pra ver o Corcovado, se você passasse da arrebentação, você via o Corcovado por cima dos prédios de Copacabana e a minha avó morava na Avenida Atlântica. Ela botava uma toalha quando a gente tinha que vir embora, e a gente sempre fingia que não via a toalha, na hora que ela queria chamar, tinha uns códigos, mas eu vejo isso demais nos meus filhos também, como a gente é carioca, eu vejo uma coisa, até brinco lá em casa que a nossa música é aquela “Eu me criei na praia, surf é o que eu sei”, quer dizer nem é tanto, eu sempre estudei, sempre trabalhei, mas eu tenho uma coisa forte com praia e eu vejo a mesma coisa nos meus filhos.

 

P/2- Mas você tinha turma?

 

R- Tinha, enorme, ainda tenho até hoje. Eu acho que talvez por eu ter família pequena, eu vejo isso nos meus irmãos também, eu tenho uma coleção de amigos, parece  aquela música do Roberto Carlos, ficou brega né (risos). Eu acho que amigos é o maior ativo que a gente tem, adoro, e todo mundo fala, “amigo, amigo mesmo eu tenho dois”,  eu acho que eu tenho uns vinte, mas acho que é porque eu também cultivo, eu frequento, eu gosto, eu convido, eu invisto nisso, é a coisa que eu tenho o maior prazer.

 

P/2- Na juventude, a turma, Copacabana tinha aqueles cinemas ali na Atlântica, como que era essa vida?

 

R- Eu acho que foi uma vida super normal, nada, eu sempre fui meio caretinha, certinha, acho que nada de excepcional, mas fiz muita farra, tinha um grupo enorme, ia muito ao cinema, depois começou a época de Arpoador, aí eu não sei mais se eu morava em Copacabana ou se eu já tava na Humaitá, mas eu só ia à praia no Arpoador, eu lembro que o carro entrava, minha mãe ia me buscar, eu falava “dá mais uma volta”, eu era amiga de toda aquela turma que pegava onda, era época de prancha de madeira, vivia no Arpoador, muito cinema, festa.

 

P/2- Em qual colégio você estudava?

 

R- Eu fui pro colégio São Paulo (risos), que é na Vieira Souto,  aí todo mundo dizia “o colégio é seu?” Eu dizia, “não sei, talvez”, fiz primeira comunhão na igreja de São Paulo, na Barão de Ipanema, acho que foi uma coincidência porque ali onde eu morava ou o pessoal era do Sacre Coeur, a Mariane lá do Banco morava em frente a mim, ela era do Sacre Coeur, eu era do colégio São Paulo e depois fui do Santa Úrsula, aqui na Rua Farani, que acho nem tem mais, é só a Faculdade.

 

P/1- E essa coisa de ter sido do colégio São Paulo você teve uma educação religiosa?

 

R- Eu tive total, e hoje em dia eu sou super beata, porque eu fui criada como quase todo mundo, aquele grupão do colégio de Freira e aí depois você fica meio, eu nunca deixei de ser, mas nos últimos quinze anos eu virei a maior beata e é engraçado, porque isso surpreende todo mundo, é absolutamente inesperado, mas eu sou e adoro ser e acho uma graça, acho que a fé seja ela de qualquer religião, é um dom, é uma maravilha ter fé. Surpreendentemente, na época da Fundação no meu curso aconteceu uma coisa, por exemplo, meus avós foram muito importantes pra mim e eu perdi meu pai muito cedo, eu tinha oito anos - mas eu não quero falar muito, porque aí eu me emociono e não é o que eu quero pro Banco - meu pai era filho único, aí minha avó e meu avô foram aqueles super avós. Eu sempre fui legal com eles, sempre fui muito família, eu disse que era certinha, mas eu era toda metida a moderninha, fazia parte, camiseta sem sutiã.

 

P/1- Você pegou exatamente esse período hippie né?

 

R- Completamente, e aí eu falei que não era tão boa aluna na Fundação como eu era no Fundão, mas talvez no terceiro, quarto ano eu passei também a ser. Eu sempre fui boa de prova, aí começava uma prova eu tirava meus santinhos, dava pros outros beijarem, aí quando meu curso acabou, eu me formei em 74,  a turma se une muito porque como ia se separar, e um dos nossos grandes encontros a gente alugou uma casa em Correias, num fim de semana, todo mundo já trabalhando, eu já no Banco e aí me homenagearam e aí todo mundo disse “Beth, qual é a sua?” Porque eu ia em tudo quanto é festa, teve uma época que eu fiquei muito badalada, eu namorei um cara muito tempo, sete anos, quando eu terminei com ele foi em 72, eu caí na vida (risos), era mais ou menos a época da Fundação, mas aí eu tava em todas, pegava avião pra ir em Vernissage em Florianópolis, eu tava em jornal, aí o pessoal dizia “Beth qual é a sua? Porque você chega na sala dorme e tira dez, vem toda doidona, não sei o que e tira uma porção de santinho pra beijar, depois vai à missa Domingo, qual é a sua?” Eu fiquei com vontade de chorar, porque não foi agressivo, foi assim um atributo positivo, aí eu me dei conta e fui até fazer análise pra saber qual era a minha. Eu disse: “gente não sei, eu sou isso, uma coisa não impede a outra.” Então voltando à coisa da religião, eu acho que sou normal, mas vou à missa domingo e nesses últimos anos eu to numa fase, e o que é mais engraçado é como as pessoas se surpreendem, eu não sou de ter santinho, mas cada um faça o que quiser.

 

P/2- Por quê você acha que as pessoas se surpreendem?

 

R- Porque eu acho que a minha geração é pouco religiosa, no meu padrão econômico, social e intelectual, no Rio de Janeiro, você tem que ter coragem um pouco de dizer que é porque é meio out então não faço propaganda, é uma coisa que é minha, to falando porque vocês tão me perguntando, mas enfim é um pedaço meu aí.

 

P/2- E essas festas tradicionais, tipo Natal, como era comemorar na sua casa?

 

R- Natal era muito, e é até hoje uma das festas que eu mais adoro e eu tentei passar isso pros meus filhos, pra minha família de depois. Eu acho Natal uma festa religiosa, eu ganhava muito presente, eu acho até o fato de não ter pai, talvez quisessem compensar, então a gente tinha uma porção de presentes, é evidente, eu podendo eu faço isso pros meus filhos, mas eu sempre faço a coisa, porque é uma festa religiosa.

 

P/1- Mas essa geração sua, você estudou e falou como se fosse uma coisa muito natural, você foi logo escolhendo curso, ser Engenheira, sua referência era o seu avô. Como era nessa época que é de transição, como é isso, você ser mulher, isso era uma coisa muito comum? Ou não? Esses sete anos era pra casar, como era sua visão de mundo nesse momento? Quais suas expectativas?

 

R- Olha, eu já não me lembro muito qual era minha visão de mundo nesse momento, eu queria ser engenheira. No meu micro grupo, as minhas amigas daquela época, eu tenho todas elas, a turma da Toneleros eu sou a única que trabalha até hoje, quer dizer, talvez algumas hoje até trabalham por dinheiro, quer dizer, se separaram, precisam. Eu também precisam e sempre precisei, mas elas não tiveram essa coisa de carreira que eu tive. Algumas fizeram alguma coisa, mas aí casa, tem filho, para de trabalhar e aí já tem aquela leva das que se separaram e voltaram a trabalhar. Agora você sabe o que eu acho, em algum momento, há dez, quinze anos atrás eu até menosprezava um pouco esse tipo de vida, não elas, as minhas amigas que eu adoro, mas eu acho que tem muita gente que talvez não tenha tido essa trajetória de trabalho e que tem uma vida super interessante e legal, porque tem uma época que você é radical. “Cruzes! Não trabalha, Deus me livre falar de filho, empregada”, não é? Eu tinha muito isso,  eu era muito radical.

 

P/2- Mas é isso que eu tava te perguntando, nessa época você falava, “eu não vou casar, porque eu quero trabalhar”?

 

R- Não, eu não falava isso que não vou casar, eu queria demais casar, ter filhos, mas cruzes, quando eu ficar velha. Não era no curto prazo, não quando eu ficar velha, mas com trinta anos, eu queria as duas coisas, formar, trabalhar e viajar, era uma coisa que é até hoje.

 

P/2- E sua mãe achava isso bacana, seus avós?

 

R- Achava, eu acho que já foram meus pais que passaram isso, meu pai e minha mãe viajavam muito e passavam, isso foi uma herança.

 

P/2- Havia alguma diferença na sua educação como mulher e seus irmãos homens?

 

R- Não sei. Eu sei  te responder o que eu to fazendo com os meus filhos, porque eu tenho um casal, eu tento educar igualzinho. Agora não me lembro se tinha, a minha mãe era super dócil, ela deixou cada um ser o que é, impressionante como ela não interviu, como ela respeitou cada um, eu não sei se isso é o melhor, eu não sou assim. Eu não acho que sou desrespeitosa de jeito nenhum, mas eu fico achando que posso contribuir, que posso dar uma orientação, e a minha mãe era muito mais doce, o que cada um quis fazer ela deu a maior força sem intervir.

 

P/1- Agora eu queria recuperar o lado cultural da sua formação, você falou “eu pegava avião pra ir em vernissage, na sua casa isso era uma coisa presente, isso surgiu de você, como era essa parte, cinema, teatro, livros, porque você acabou se envolvendo muito com isso, né?

 

R- Você pegou por acaso, não pelo exemplo que eu dei, porque quando eu citei que pegava avião era muito mais badalação do que cultura. Da mesma forma que ia pra Florianópolis que não tinha nem galeria, foi num clube. Da mesma forma pegava avião pra Recife pra aquele baile de carnaval. Mas os meus pais eram muito ligados em artes plásticas, por exemplo, eles tinham uma coisa, meu pai era chiquérrimo de intelecto. Cinema, por exemplo, obvio que eu convivi muito pouco com ele e talvez por isso tenha marcado tanto, mas lá em casa toda sexta, sábado e domingo se passava filme. Ele tinha uma máquina, ele tinha um banheiro que era isso com a tecnologia da época, então ele alugava filme ali na Fox, ou na Columbia, acho que era a única, eu lembro que era ao lado da embaixada Americana, depois virou consulado, toda sexta-feira chegavam três filmes que vinham, quer dizer, acho que naquela época, to falando de sessenta. Tinha aquela coisa também que passava filme e criança não podia ver, aí a gente ficava no buraco da fechadura, porque tinha uns que a gente tinha que sair da sala.

 

P/2- Você morava em casa ou apartamento?

 

R- Apartamento, e ele convidava, sempre casa cheia, essa coisa de amigos, artes plásticas e cinema era meio na veia.

 

P/2- Algum filme que tenha te marcado mais nessa época?

 

R- Ah, não sei dessa época, mas milhares, quer dizer, depois eu peguei muito a época do regime militar, quando eu comecei a viajar era o auge da censura no país. Era assim, o povo ia jantar fora, eu ia pro cinema, porque sabia que era uma oportunidade única, aí o filme que me marcou - é tão clichê - mas foi Laranja Mecânica, nossa aquele filme foi assim, porteiro da noite, também fazia parte do clichê dizer isso ou ter obrigação, mas eu sempre fui muito ligada nisso.

 

P/2- E músicas, festivais de música?

 

R- Não tenho a menor afinidade, eu tenho um ouvido péssimo. Eu aprendi piano, me botaram num curso de piano,  aí eu me lembro que minha tia emprestou um piano pra ver se dava certo, se comprava um piano, aquele piano de armário e aí chegou meu pai e minha mãe e eu comecei a tocar a música que eu tinha aprendido, aí acho que eu tocava “ciranda cirandinha” e cantava “cai cai balão”, eu nem lembrei nem o que eu tinha aprendido, nem percebia. Acho bárbaro, mas eu sou um fracasso, e tenho um irmão músico. Meu avô, o da marinha era um grande pianista, mas essa parte não passou assim. Adorava dançar, adoro até hoje, mas  não por sensibilidade do ouvido, sou super desafinada, minha voz, vocês estão vendo, é perfeita.

 

P/2- Agora o teu período de faculdade já, como era o teu ambiente estudantil. Você estudou na época do governo militar, como é que era?

 

R- Que não tinha nada, não tinha ambiente, tanto no Fundão, quanto na Fundação, foi muito sem graça, quando você vê os filmes, os livros, ou vê agora depois os filhos, e os  amigos, o meu período foi talvez um dos piores, Governo Médici, 71,74, era proibido jogar ping pong.

 

P/1- Mas você tinha consciência disso? Alguma consciência política?

 

R- Não, acho que eu fui um zero à esquerda.

 

P/1- Na sua casa não era uma coisa que se conversava?

 

R- Não, porque aí, não posso dizer que não se conversava, claro, eu universitária sabia, a censura do cinema que eu achava uma revolta. Eu tive uma amiga, muito amiga, que foi torturada, daí quando ela saiu largaram ela ali no Ministério da Fazenda, depois de muito tempo desaparecida ela foi pra minha casa, essa é uma pessoa que eu adoraria saber onde ela tá, mas há alguns anos eu perdi o contato e aí eu banquei e mamãe podia tá sendo seguida, mas ela já saiu, largaram lá, ela foi fichada e aí sai, era ali no ministério, na Antônio Carlos, então claro que eu sabia, tinha uma consciência, mas não fui ativista, morro de remorso, mas passou e não fui.

 

P/2- Mas nesse período de faculdade, algum professor que tenha te marcado mais?

 

R- Não, me lembro de alguns, mas que tenha marcado não.

 

P/1- E na sua vida, você namorou sete anos, aí separou, começou a ir em festas...

 

R- Fiquei assim uns dois anos, mas depois comecei a namorar, eu tive poucos namoros, eu sou estável.

 

P/1- Foi com esse que você casou?

 

R- Não, foi com o terceiro ou quarto.

 

P/1- Você começou sua vida no BNDES antes de se casar?

 

R- Ah, sim entrei no Banco em 73 e me casei em 79.

 

P/1- Vamos recuperar essa sua entrada no Banco, você fez esse concurso pra entrar no BNDES, isso também fazia parte do seu grupo, entrar pra alguma coisa pública, um bom emprego, como foi?

 

R- Assim, foi um bando de gente, a gente saiu da praia do Botafogo, pegou um ônibus, saltou na cidade, a gente nem sabia andar direito na cidade, aquela coisa de... Na minha época tinha muito, e aí fui com um grupo. Não tinha a coisa pública, isso eu adquiri logo, porque quando eu entrei pro Banco...

 

P/2- Só um minuto, você lembra do concurso, da prova?

 

R- Me lembro muito, o meu concurso talvez tenha sido o último, quer dizer, o Banco ficou anos sem contratar, aí teve um concurso em 72, que foi pra profissionais e estagiários e teve o meu em 73, que foi logo que voltou o ano letivo, o meu contrato é de abril, o concurso foi em março e aí foram dois dias de provas, ali na Cândido Mendes, todas as profissões juntas, eu me lembro direitinho que teve testes, aqueles testes psicotécnicos. Foi grande, um calorão, algumas coisas que eu lembro são isso.

 

P/1- Você lembra que tipos de assunto?

 

R- Aí, caiu da minha área.

 

P/2- Quando você recebeu o resultado isso foi uma coisa super importante, feliz ou...?

 

R- Claro que devo ter ficado, passei em primeiro lugar, porque também só tinha uma vaga, mas eu não tinha de jeito nenhum a dimensão do que é o BNDES, o que seria aquilo transformador na minha vida, de jeito nenhum. Inclusive, eu dizia “Deus me livre ser funcionária pública, vou ficar no Banco só dois anos, porque dá curriculum, dizer que passou no concurso, mas Deus me livre...” e eu to lá há 29. Teve uma época, eu até [estava] procurando coisas ontem prá cá, não achei as fotos que eu queria, mas achei uma coisa que me lembrou, quando a gente se formava tinha uma situação muito indefinida no Banco, se a gente continuava ou não, se ia ter concurso, porque tinha que ter concurso pra gente continuar, e eu fiz uma porção de concurso, e isso era uma forma um pouco de se testar, porque eu acho que eu faço isso muito comigo até hoje, então eu fiz concurso pra Petrobrás, pra IBM, era uma época de concursos, eu e muita gente do Banco, aí era a Multinacional, devia ser 74, 75, era o máximo do tripé, essas empresas todas chegando ou se estabelecendo, “vou pra Shell, pra IBM” eu não conseguia ir, eu ficava, acho que nesse momento eu comecei a ter muito orgulho do BNDES, a única que eu fiquei muito balançada foi a Petrobrás, porque voltou a coisa da Engenharia química, da refinaria, voltou a história, e eu fui até o final. Eu lembro que tinha aquele exame médico, admissional e tinha  exame odontológico também, eu fui até o exame e na hora “H” de pedir demissão do Banco eu não tive coragem de ir. Aí fui no diretor e...

 

P/2- E qual era o significado já do Banco?

 

R- É porque eu acho que nesse momento, era época que o Marcos Viana era o presidente, acho que eu já tava começando a ficar apaixonada pelo Banco, o Banco era o máximo, todo dia você abria o jornal, o Banco tava na primeira página. BNDES financia petroquímica, BNDES faz Aracruz, eu entrei na época do “milagre brasileiro” aí o BNDES era na crista da onda, aí você começa a ter orgulho de tá fazendo isso, eu acho que a minha geração do Banco, sem dúvida a gente achava que ia mudar o país. Pode ser um pouco simbólico ou velhice, não sei se essa garotada que tá entrando tem isso, mas a gente tava vivendo um regime militar, aí nesse momento eu tinha aquele desejo de mudar, porque aquela aflição de não poder votar, a situação política econômica,  nesse momento eu comecei a me envolver mais, aquele desejo de democracia, de liberdade, e eu acho que isso permeava o corpo técnico do Banco. Porque após o meu concurso o Banco fez uns três, e entrou muita gente.

 

P/1- Isso tem a ver com o crescimento do PIS/PASEP, uma verba maior?

 

R- O PIS/PASEP é 74, deve ter.

 

P/2-  Beth, eu queria que você comentasse um pouquinho sobre o seu período como estagiária, com quem você trabalhou, onde, o departamento, onde era o Banco, como foi o primeiro dia?


R- Claro, total. Acho que eu já contei milhares de vezes, não é nem resgate de memória. Evidente que eu vinha da Fundação Direto pra, é da praia do Botafogo, comia ali e ia pro Banco, à tarde, já tinha gente na Sete de Setembro, mas eu ainda sou, acho que eu devo ser a única da Sete de Setembro, porque eu entrei muito garotinha, deixa isso registrado (risos), eu ia com roupa de estudante, magrinha, sainha curta, roupa que estudante usa, quando eu cheguei lá tinha festa do Manuel Borges, ele era o chefe do setor que eu entrei, e aí tinha bolinho, aquela coisa, e acharam que eu era filha do Manuel. Eu falei “filha nada, eu passei no concurso, sou a nova funcionária”, então esse foi meu primeiro dia. Tive logo no comecinho alguns probleminhas, eu realmente não tinha a dimensão do que era BNDES. Aí me botaram, fui trabalhar na área de pessoal, quer dizer, sem nenhum desmérito, não era o que eu tava esperando, hoje é DERHU mas na época era DEPS, aí eles me botaram sabe pra quê? Pra ficar falando no telefone e aí você tinha que discar zero pra pegar linha, me botaram de secretária, de secretária e não sei o que. Eu disse: “vou embora”, mal sabe hoje que na minha casa eu tenho que discar zero pra pegar linha, paguei com a língua, aí  eu chegava em casa discava zero, de tanto telefone que me botaram pra... fiquei conseguindo linha, que era uma dificuldade, porque o Banco ainda não tinha feito a privatização das telecomunicações, era desesperador. Aí fui falar com o diretor, tive uma porção de aborrecimentos, porque o chefe mandou eu assinar uma circular do Marcos Viana, de que a gente não podia trabalhar de jeans nem de calça branca, nem de roupa transparente, daí eu achei que ele tava me ofendendo, pra que ele mandou assinar isso? Pra eu tomar ciência dessa norma, e evidente que eu nunca fiz esse modelo de ir com roupa indecente, mas ia com roupa de estudante carioca, aí eu fiquei danada. Estudando pra burro, passando, me botaram lá pra falar no telefone, aí eles também achavam que eu falava muito e me botaram de castigo, botaram minha mesa de costas pra janela, aí eu peguei e disse “não preciso disso”. Olha, foi a maior sorte, porque se eu soubesse que o Banco era tão bom, naquele momento, fui falar com o diretor, 

 

ele era o diretor da área que eu tava, mas eu nem sabia direito, e a secretária “não pode falar”, e eu “não, eu to precisando falar com o diretor”. Aí eu entrei lá e falei, “olha só doutor Luís Carlos, fiz isso, passei e não sei o que, só me botam pra falar no telefone, me botaram de castigo, de costas pra parede, eu não quero ficar lá nesse lugar”. Aí ele olhou pra minha cara, deve ter achado graça, mas eu também não tinha a menor idéia do que era essa hierarquia, que você só vai se dando conta disso depois. Aí me disseram, ele é a pessoa mais brava, mais não sei o que, aí ele me trocou de lugar e eu fui trabalhar na área de planejamento, lá com a Nanete, aí eu fui pra Avenida Rio Branco, quando eu cheguei lá disseram “é ela, ela tem cabelinho na venta”, eu fui lá pro Timóteo, que era o chefe da Nanete, e disse “o que é ter cabelinho na venta, o que você falou que você nem me conhece?”, eu lembro que ele botou a mão assim e disse “cabelinho na venta é isso (risos), aí depois eu fui ficando a maior babaca, a maior dócil, acho que é aquela coisa de começo, de juventude, lá na Sete de Setembro a mamãe me apanhava todo dia, buzinava.

 

P/1- você tinha quantos anos nessa época?

 

R- Vinte e minha mãe me buscava, eu ia de ônibus da Fundação e de noite mamãe ia me buscar, e do quinto andar eu gritava, “já vou”. Aí meu chefe desceu e foi dar uma bronca na mamãe: “olha aqui dona Ísis, a senhora tem que cortar esse cordão umbilical, não sei o que” minha mãe disse: “tá, não enche”, aí depois ele passou anos a voltar todo dia de carona com a gente, mas teve isso assim. Tinha coisas que não sei se registraram. Quando eu fui pro Banco o presidente era o Marcos Viana, mas o presidente antigo, o (Magraça?) tinha fama, contavam coisas: “ cuidado, não pode vir de jeans e não sei o quê”, o presidente ficava atrás da Banca de jornal tomando nota do nome das pessoas que saíam antes da hora. Então todo dia que eu saía, dava volta na Banca de jornal pra ver se o Marcos Viana tava. É louco, mas é verdade, aí contaram  que tinha uma moça, que eu conheci, e ela era artista. Naquela época toda quinta-feira tinha vesperal e ela tinha que fugir pra fazer a peça. Aí ela tava no Teatro, o (Magraça?) foi à peça, levou um ramo de flores e quando acabou a peça ele disse que queria entregar isso pra artista, e no cartão tava assim “a senhora tá suspensa”. O Banco, quando eu entrei, tinha 390 funcionários, porque eu era do departamento pessoal, eu sabia de cor, hoje somos 1700 e qualquer coisa, então era uma família, tinha essas fofocas, o (Magraça?) também e uma outra moça, era super bonita, alta, jogava vôlei, contatam que ela tinha quebrado a mão e tava de licença em casa, ai ele tava indo pro Banco, passou na Vieira Souto e viu ela jogando vôlei “para o carro, a senhora tá demitida”. O Banco tinha essa coisa meio provinciana, eu dizia: “gente, estudei tanto pra essa coisa”, mas eu devo ter gostado porque fui ficando, fui ficando.

 

P/1- Aí você foi pro planejamento, e o que você foi fazer? Você adquiriu alguma dimensão?

 

R- É, aí eu achei um trabalho maravilhoso porque nós estávamos, eu de estagiária, implantando o conceito de planejamento, então era uma coisa super nova, como instrumento de gestão, aquele tipo que a gente chamava orçamento de programas, era um conceito absolutamente novo nessa questão orçamentária ou de gestão, então você começava a dar o orçamento por áreas, por setor, por unidade, quer dizer, era quase como se fosse uma contabilidade de custos operacional. Eu acho que a Nanete foi quem implantou isso e ela com aquele jeitinho dela, eu me lembro que a gente ia nas salas, e ela com aquela vozinha: “Doutor Sebastião” Ele “Iiih! lá vem a Nanete com aquelas meninas chatas” se escondiam, porque a gente chegava e dizia “orçamento plurianual”, ninguém trabalhava com esse conceito de médio, longo prazo. “Eu não sei quanto eu vou gastar esse ano, como é que as senhoras querem que a gente saiba daqui há três anos?” E a Nanete chorava, aí mexe, você querer implantar um trabalho novo, disseminar um conceito. E a gente trabalhava com o Banco inteiro, esse trabalho deu uma visão holística do Banco, você ia conversar com a área da Siderurgia, da petroquímica, da Infra estrutura, tinha-se mais tempo, então você chegava, conversava, eles contavam todos os problemas do setor, a gente ia em cada setor, e mesmo assim eu acho que esse trabalho demorou uma década pra ser implantado e respeitado, porque depois que a gente conseguiu montar esse orçamento ele quase podia virado uma peça de museu, porque se orçava e não se cumpria, mais do que disseminar o conceito foi respeitar, e hoje o Banco só trabalha com orçamento e tem uns orçamentos por área, por unidade, é uma sofisticação  o aperfeiçoamento daquele trabalho. Quando a Nanete pediu à pessoa que ainda é o responsável pelo orçamento hoje, se tinha um daqueles documentos. Ele disse: “muito melhor do que a gente faz hoje”, brincando, mas foi um trabalho bacana, pra mim tudo aquilo era novo, infra estrutura, entradas vicinais, insumos básicos, capital a Finame, então pra quem tá chegando era legal porque te dá uma visão bastante abrangente do Banco e da atuação dele no desenvolvimento econômico no país, o que o Banco tava fazendo e pelo próprio fluxo orçamentário, que é uma coisa hoje óbvia, você via a tendência da Economia, pra onde estavam indo os recursos, quem tava investindo, quais setores eram deficitários, então ele realmente começa a virar um instrumento de gestão. Combina, Marcos Viana, Reis Veloso, ministro e o primeiro PND, que foi em 72/74 e o segundo que foi 74/78, não sei, mas o Banco... E isso é uma coisa do BNDES de estar sempre na frente, antecipando, ou bastante em dia com as técnicas mais modernas de gestão.

 

P/1- Mas essa coisa do orçamento, vocês estavam querendo implantar, inclusive era a divisão do orçamento pra financiamento ou era a utilização interna do orçamento?

 

R- Não tinha dois orçamentos na minha época, acho que hoje ainda tem, o OA e o OI. O AO era o Orçamento Administrativo, que era um pouco menor, cuidava de folha de pagamento, material, material administrativo, claro, eu to falando do orçamento de investimento, era o orçamento de aplicações do Banco, hoje quando a gente diz: “o Banco desembolsou 25 bilhões”, é o OI, hoje tem outro nome, não tem mais esse nome de Orçamento de Investimento, e ele era por setor, eu me lembro perfeitamente: 1) insumos básicos; 2) bens de capital; 3) diversos. Aí um: insumos básicos onze, mineração doze, siderurgia treze, petroquímicas quatorze, sempre tinha o dezenove outros. Dois: Bens de capital, era bens de capital sob encomenda, bens de capital cereal, era 21 e 22, aí tinha um 29 outros e aí o três era aquele mosaico, um pouquinho de cada coisa que o Banco fazia.

 

P/1- Isso a gente tá falando desses anos setenta, você tem claro na sua cabeça pra onde tava indo, você tem claro essa discussão já?

 

R- Ele passa a ser uma peça de gestão e de briga interna, quer dizer, de briga no bom sentido daí as áreas, quanto mais orçamentos você tem, mais você vai fazer...

 

P/2- E qual é a área que recebia um orçamento maior por exemplo?

 

R- A prioridade era insumos e bens de capital e que foi o programa da década de setenta, que foi substituição de importações, quer dizer, uma vez o parque instalado, em 64 com o regime militar tem essa coisa de indústria de base, antes quando eu cheguei no Banco já tinha, o Banco atua muito em desenvolvimento tecnológico e pequena e média empresa, eu acho que essa infra-estrutura básica tava montada, a gente já tinha problema na balança comercial, hoje a gente tá no ______ e exportar, naquela época eu acho que havia, pelo que você lê, no Banco nem se falava em exportação, mas era substituição de importação, você nem tava tendo a pretensão de exportar, e aí é nessa década que a gente instala, aí eu sou exagerada pro Banco, mas sem dúvida o maior Parque Industrial da América Latina, acho que isso é inquestionável.

 

P/1- Agora isso na época, por exemplo, tinha pessoas no Banco que estavam dando essas referências explicitamente, falando, você participava?

 

R- Ah, lógico, eu ouvia e babava.

 

P/2- Quem eram as pessoas?

 

R- Juvenal, Euricles, doutor Sebastião, Ricardinho Rebouças, ele era da pequena e média empresa, o que era legal lá no Banco é que a gente discutia idéias, e cada um de nós se apaixonava por uma causa, e a gente brigava, porque eu gostava de pequena e média empresa e o outro achava que tinha que ser financiamento pra Aracruz e isso saía as maiores porradas, de manhã, de tarde e de noite, o Banco é um canteiro de idéias, e eu não sei mais se a minha geração tá passando isso pra essa garotada, mas a minha geração,  ficou muito tempo sem entrar, aí entrou essa galera toda, eu sou uma das primeiras que faz um outro bloquinho de geração e aí a gente se deliciava com essas vacas sagradas, essas coisas maravilhosas, acho que o mundo era menor né, então falei com ministro, com presidente da república, eram pessoas muito estudiosas e muito sérias e que passaram pra gente um orgulho de ser do Banco, de ser brasileiro e a minha geração, que com aquela falta de liberdade do regime militar, achava que você podia romper e voltar talvez o que eles tiveram antes ou de mudar o país. Quando eu entrei no Banco a gente tinha o SNI lá dentro, não lembro se o nome era esse, mas era uma coisa, que horror, Porque você fazia o concurso, depois o psicotécnico, o exame médico, mas na realidade se você tivesse sido fichada algum dia você não entrava.

 

P/2- Tinham militares no Banco?

 

R- Tinham militares, eles tinham umas salas, eu me lembro, na minha fantasia era toda com tratamento acústico, porque a gente não podia ouvir o que eles falavam, tinha uma porção de fios, gravador, de vez em quando a gente olhava, e algumas vezes eu trabalhei muitos anos na presidência, então esse SNI, tomara que eu me lembre o nome, porque não era esse, era no andar da presidência, era uma coisa muito esquisita, e uma coisa que todo mundo tinha medo, mas eu vou dar um corte agora.

A minha geração no Banco fez inúmeros amigos, hoje metade dos meus grandes amigos são do Banco, porque não tem jeito, você fica padrinho do filho, padrinho de casamento, vira um pouco uma grande família, por mais que a gente não goste de misturar trabalho com a vida, não tem jeito, e lá tem pessoas que pra mim foram muito legais, que eu conservo, e todos nós, dessa turma, voltávamos de ônibus escolar, que nos apanhava, é o B1, então na porta do 53 tinha o B1 que ia por Botafogo, Jardim Botânico e o C1 por Copacabana, a gente pagava por mês, igual ônibus escolar. Então tinha a turma do B1 e do C1 e quando você perdia a hora era um desespero, era difícil porque ali não tinha muita condução pra voltar e um dos SNIs era do meu B1, no B1 se discutia tudo, a gente mudava o rumo do país no B1 e um desses militares ele era tão doce e eu aprendi a fazer ikebana com ele, eu achava aquilo tão doido, como é que pode aquela repressão militar e fazer ikebana, e sempre no meu andar tinha uns arranjos, o nome dele acho que era Coronel Geraldo, o que é muito doido e  tinha um outro também que eu gostava muito, o Coronel Pinto, me lembrei ASI, assessoria do serviço de informação, sei lá, isso era um apêndice, um câncer lá no Banco.

 

P/1- E eles trabalhavam diretamente com a presidência?

 

R- Eu não sei porque era tudo secreto, mas nesse prédio novo eles eram do nosso andar e aí quando a gente chegou eu era do andar da presidência.

 

P/2- Mas vamos voltar um pouco, quando você se forma como isso altera a vida profissional o cargo?

 

R- Altera o salário, porque aí na minha época a gente fazia um curso, que se chamava Sipro e tiveram várias fases e quase todo mundo ficava, e tinha que mandar embora.

 

P/2- Esse Sipro filtrava alguns?

 

R- É, acho que ele tinha que mandar alguém embora aí você virava profissional, horário integral, ia pra folha de pagamento.

 

P/2- E se ganhava bem no Banco?

 

R- Se ganhava muito bem. O meu estágio era uma coisa riquíssima, quando também eu fiz esses concursos, Xerox, IBM etc., o Banco era o que pagava melhor, hoje não é, nosso salário tá muito congelado, mas na época era um bom salário o BNDES.

 

P/1- Bem a gente tava falando do Sipro. Como era isso, o que aconteceu depois?

 

R- Me lembrei de uma coisa importante, quando eu saí, acabou o Sipro era uma briga do QPP com QFP, porque até o meu concurso, mas quem já era formado fazia parte do quadro permanente de pessoa, ninguém falou do QPP aqui? Até 72 era QPP, eles tinham inúmeras vantagens, quem entrou depois foi pro QFP, Quadro Fixo de Pessoal e aí tinha algumas coisas que ao longo da vida a gente foi conseguindo quase tudo do QPP, menos os homens do QPP, se aposentavam com trinta anos. O BNDES tem uma coisa que é super inovadora, nós fomos, acho que a primeira instituição que a mulher deixa a pensão pro marido, agora é usual, mas isso foi uma briga enorme, e depois a gente morria de medo dos maridos matarem a gente (risos), porque não era usual, depois também foi o primeiro que pai teve direito à creche, então teve um movimento lá no Banco “Pai também é mãe”. Aí eu fui pro QFP, se bem que hora nenhuma eu achei quadro instável, porque você nem tem a noção do que é estabilidade, do que não é, você acha que vai  passando nos concursos e acha que o mundo é pequeno e logo que eu me formei, eu fui trabalhar, e acho único, na FAPS, Fundação de Assistência e Previdência Social do BNDES e ninguém sabia o que era fundo de pensão em 1974. Aí o doutor Luís Carlos, o SS, era da área dele, pra ir fazer parte desse projeto que foi absolutamente inovador, pioneiro, só existia uma Fundação no Brasil, Petros e era o Rio Nogueira, era cálculo atuarial, eu nunca tinha ouvido falar isso em faculdade nenhuma e absolutamente o que era esse fundo de pensão, então eu trabalhei na implantação da Fundação do Banco aí a gente ia visitar as empresa, fazia cálculo atuarial aí tinha que ver a idade média do Banco pra projetar, aí teve a maior briga do QPP com o QFP porque o QPP entrava como sócio fundador, tinha vantagem, não pagava jóia aí achava que eles tavam… Eu acho que esse trabalho deve ter durado uns dois anos e foi uma experiência única e hoje nossa Fundação, ainda é um dos mais sérios fundos de pensão do país, isso acho que é muito importante registrar. O Banco nunca teve um  escândalo, acho que é um diferencial no setor público, acho que antes de eu chegar no Banco não existia escândalo e de lá pra cá acho que o único desgaste que nós tivemos foi o grampo e mesmo assim, absolutamente direcionado ao andar de cima, imitando o Hélio Gaspari, acho que ficou muito no André e no ministro Luís Carlos, duas pessoas até que nós gostamos muito mas nem o escândalo do Banco, da privatização, resvalou pra casa e isso acho que é um orgulho que nós temos, não sei se é porque a gente não tá em Brasília, dá um distanciamento político, tenho certeza que o Banco é uma instituição íntegra e a nossa Fundação, A FAPS também é isso, então foi muito legal trabalhar nesse projeto aí eu acho que a gente tinha um treinamento por área, a gente ia de área em área contar o que era FAPS, porque era um momento de seduzir os funcionários a aderirem ao plano, porque era fundamental pro cálculo atuarial ter adesão, eu acho que desde que eu nasci que eu vendo, sei lá, é uma coisa que eu gosto.

 

P/2- E teve uma grande adesão?

 

R- Teve total, quem não entrou arranca os cabelos até hoje, porque agora pra entrar é uma jóia altíssima, depois de algum tempo passou a ser opcional obrigatório. A turma que entrava em concurso era obrigada a aderir, o que é uma sorte da gente ter sido obrigado a fazer adesão, que é a garantia da nossa velhice razoavelmente estável.

 

P/2- E a assessoria de presidente quando você vai trabalhar, desempenhar exatamente como ____?

 

R- Eu sei que quando eu tive o primeiro filho eu saí do 53 e vim pra esse prédio que a gente trabalha pra trabalhar na Consultoria técnica da presidência, aí eu também trabalhei muitos anos com milhares de presidentes.

 

P/1- Só pra entender, acabou o trabalho no FAPs você foi pra...?

 

R- Dali acho que eu fiquei na área de planejamento, no orçamento, não sei dizer direito, na prioridade que era o coração do Banco, era a área mais legal de se trabalhar, a área de planejamento. Duas pessoas me disseram isso e eu fico até corada, quando falo, eu sempre adoro onde eu to trabalhando, alguma situação difícil, eu falo “mas eu to adorando lá” até a Estella me disse: “Beth, você algum dia não gostou da onde você tá? Você sempre acha o lugar onde você tá o melhor”, mas não sei se é uma característica, se por sobrevivência, se é meu jeito poliana, mas eu acho que sem dúvida a área de planejamento naquela época era “A” área, tinha um departamento de prioridades, que sei lá, era a cabeça do Banco, onde as coisas eram discutidas, elaboradas e depois as áreas operacionais implementavam, faziam análise de projeto, mas a idéia, integração competitiva, Júlio Mourão tudo é da área de planejamento, foi um grupo muito legal. Depois me chamaram e eu assumi meu primeiro cargo executivo, foi em 1978 e aí para ser executivo você tinha que ter cinco anos de banco, era uma regra, eu acho tem até hoje, mas já tem tanta excepcionalidade, já deve tá em desuso, não sei se ainda existe. E acho que eu fui uma das primeiras mulheres executivas do Banco e em caráter excepcional, se contasse meu tempo de estágio eu tinha os cinco anos, mas era do quadro do Banco, aí eu não tinha, porque eu fui ser funcionária do Banco em 75. Mas aí eu fui ser gerente na AP área de planejamento aí depois eu não lembro, em 83 meu filho nasceu, depois eu fui pra consultoria técnica da presidência, foi isso, aí um superintendente que trabalhava na área de planejamento foi ser chefe da consultoria da presidência me convidou pra ir prá lá. O Banco tem uma coisa que é maravilhosa já que a gente não tem coragem de sair do Banco, você troca de lugar, muita gente faz isso, outras não, tem gente que tá no mesmo lugar, por exemplo, o cara que tá no orçamento tá lá desde a época da Nanete.

 

P/1- Mas isso é você que se projeta e consegue trocar ou alguém te convida?

 

R- Eu graças a Deus sempre fui convidada e aí a minha trajetória foi de seis em seis ou de sete em sete, eu dou um role completamente diferente do que eu tava fazendo, porque eu também não aguento ficar a vida inteira no mesmo lugar.  Aí na presidência fui fazer um pouco de cada coisa, comecei com o Luis Sanches de presidente, depois trocaram vários, vários porque eu fiquei lá muito tempo. De lá eu fui pra propaganda, publicidade.

 

P/2- Conta um pouquinho como era esse trabalho.

 

R- A gente fazia notas pro presidente, então todo mundo que ele ia receber, por exemplo, “Vou receber o Antônio Ermínio”, então a gente saía pra ver toda relação do Antônio Ermínio com Bancos, com as empresas do Institucional, ou ia receber um governador, a gente viajava muito com o presidente, vai pra Recife aí a gente fazia nota do Estado de Pernambuco, esse trabalho nós que começamos, era trabalho de assessor mesmo, trabalhos técnicos de encomenda. A gente tinha um grupinho e cada vez que trocava de presidente a gente morria de medo de perder o cargo, porque é cargo de confiança, aí a gente ensaiava uma porção de coisas, era uma grande família e de lá eu fui pra Publicidade, da Publicidade eu fui fazer o meu mestrado, que é uma outra oportunidade, o Banco investe muito no seu pessoal, de desenvolvimento, sem dúvida que o meu mestrado foi um divisor de águas na minha vida, eu to falando no plano pessoal, mas sem dúvida eu voltei pro Banco uma profissional muito mais qualificada, mais interessante, não obstante todo meu ganho pessoa física, sem dúvida que pro Banco eu voltei mais qualificada, interessada, e o Banco dá essa chance de qualificar o seu pessoal e talvez  isso seja um dos diferenciais, eu acho que diferencia o Banco das instituições públicas. Acho que todos nós somos muito arrogantes. Em 2000 nós fizemos uma pesquisa na nossa área, do Ibope com os Congressistas, porque eu tava chegando na área de comunicação e o Banco ficou muito tempo sem falar, área de comunicação do banco era muito pouco desenvolvida, por princípio, até hoje muito menos, mas até o final do governo Sarney, até 85, imagina se vai fazer alguma coisa, que corre, que quer financiamento, qualquer risco que tinha, qualquer risco que tenha nossas fontes estão abaladas, vamos tirar o PIS/PASEP do Banco e aí a gente se mobiliza pra Brasília, mas aí a gente diz: “os empresários defendem a gente”, evidente que o tomador dos nossos recursos preservam o Banco e a gente sempre teve essa atitude meio arrogante, eu especialmente que não comungo dessa filosofia, e não foi à toa que fui pra área de comunicação e quis estudar porque acho que o mundo é super competitivo, quer dizer, qualquer Bradesco, Itaú é concorrente do Banco sim, tem alguns que ainda tem essa filosofia que o Banco não tem concorrentes, sem dúvida nós somos a única instituição que financia o longo prazo, mas eu acho que a gente tem concorrente sim, os Bancos internacionais, hoje em dia tem até o Terceiro setor, eu acho que esse mundo ideal acabou há muito tempo, o da não concorrência ou da concorrência perfeita e mais do que tudo o BNDES aplica recursos públicos, então mesmo que eu não tenha um varejo, quer dizer, abre uma conta aqui, senão abre no Itaú ou no banco do Brasil, mas eu acho que é uma questão de prestação de contas pra sociedade da aplicação de recursos públicos, a principal fonte do BNDES é o FAT, Fundo do Amparo do Trabalhador, então 40% do fluxo, mas a gente tem estoque enorme desses recursos e eu acho que a gente tem que dizer sim à sociedade como aplica. É público, então como se diz isso? Falando, mostrando, anunciando.

 

P/1- Então houve uma mudança na postura da comunicação do Banco? Você disse que foi a partir dos anos do Sarney?

 

R- Houve... Eu acho que vem acontecendo, eu também me sinto responsável, eu acho que tive uma atuação direta nisso, hoje em dia sem dúvida, eu não sou da linha low profile com o BNDES,  a gente tem muita coisa importante pra dizer e prestar contas também.

 

P/21- Isso hoje ainda é uma questão pro Banco ou já virou consenso?

 

R- Acho que consenso ainda não, mas sem dúvida já tem um espaço enorme. Os nossos orçamentos da comunicação é que ainda são muito pequenos, não existia ou era uma coisa: “o Banco é o máximo e a gente não precisa disso”. Eu acho que a idéia vai na frente do orçamento e agora a idéia já está divulgada e é uma questão de ir aos pouquinhos tendo um orçamento compatível com as nossas necessidades, não é pra ser um orçamento Petrobrás ou Banco do Brasil, mas o nosso, o Banco é tão poderoso e sólido e na parte de comunicação parece aquela coisinha de Banquinho, quer dizer, eu não posso nem reclamar, porque a gente conseguiu agora, por exemplo, nesses cinquenta anos que tá sendo uma força tarefa pra nossa área, pra mim em especial, eu to brincando que o Banco vai fazer cinquenta anos e eu vou acabar com 120, porque eu to exausta, ficou um programa muito ambicioso, quando eu me dei conta já tava, a gente tá fazendo o primeiro livro do Banco, é inacreditável que em cinquenta anos é o primeiro livro. O projeto do Museu da Pessoa, tivemos um projeto memória mas desde oitenta não é atualizado, vinte anos sem memória, não tinha registros, não tem Banco de imagens, não houve essa preocupação. Em 2000 quando eu cheguei eu comecei tentar a correr atrás, mas você não pode fazer idéia o que tá sendo esse projeto do cinquentenário do Banco, eu to absolutamente envolvida, empolgadíssima. Eu vou fazer uma correção, conseguimos os melhores profissionais - eu brinco - pro livro, pro disco e pra árvore, estamos fazendo o hotsite dos cinquenta anos, então cada um de vocês, graças a Deus, foi o melhor, tivemos muito trabalho em construir esses produtos, poder contratar, é tudo aquela lei 866 da licitação, então tem que ficar esperando licitação ou fazer um  parecer jurídico, porque tá contratando esse ou não, então isso é o máximo, a gente ter podido, mas não obstante a gente estar com os melhores profissionais é um trabalho de louco, chega uma hora, como não tinha um centro de memória, não tinha o livro dos quarenta anos, dos 35, a gente tá literalmente levantando os cinquenta anos de uma instituição que tem do microcrédito da costureira da Rocinha, ao avião da Embraer, é muita coisa e esse cuidado de ser justo com essa história e confunde muito com a história do progresso do Brasil. Eu até fico querendo saber porque não fez isso antes, porque o Banco é tão orgulhoso, como a gente não foi registrando esses momentos e a desculpa que eu achei, é porque talvez é a própria história do Brasil. Mas voltando à pesquisa que a gente fez no Ibope com os Congressistas, qual era a imagem do Banco? A maioria não conhece o Banco, a gente ficou muito assustado, foi em 1999, eu cheguei na área de Comunicação em 2000, e a pesquisa tava sendo realizada.

 

P/2- Deixa eu fazer um cortezinho, pois é a primeira vez, gerente de publicidade, como era a publicidade nessa época, quer dizer, qual a imagem que se transmitia sobre o Banco, na época?

 

R- Aí, vocês podem me mandar embora porque vai ser horrível o que eu vou dizer, mas foi a única época que o Banco fez uma publicidade maravilhosa, essa eu vou provar. Foi o elefantinho da privatização, foi a única época que o Banco foi o melhor anunciante do país, a única, porque era prioridade do governo Collor fazer a privatização, ninguém sabia o que era privatização, desestatização e eu tive a sorte de tá na área da publicidade no horário nobre dela dentro do Banco, nós tínhamos seis agências de publicidade, a MPM, que fazia um institucional, foi o elefantinho, foi emblemático, nós ganhamos todos os prêmios naquele ano, era o elefantinho que significava as empresas estatais, o elefante branco, era lento, lerdo, desastrado, tinha ele na academia de ginástica comparando com uma corrida de cavalo. E uma agência pra cada setor, então tinha uma cuidando do setor siderúrgico, foi a USIMINAS a primeira, a Salles, depois uma do setor de fertilizantes, era uma coisa de doido, mas foi uma época muito rica e quando acabou isso eu fui fazer meu mestrado em comunicação, porque aí veio o governo Itamar, cortou a privatização, proibiu o elefantinho e aí na realidade eu fui dois ou três meses antes do Itamar chegar, porque eu me empolguei tanto com a coisa da comunicação, e aí já tinha vivido aquele grande desafio, dois ou três anos em êxtase, aí eu achei que tinha que me adequar, aperfeiçoar e fui fazer o meu mestrado de comunicação e cultura na UFRJ. É engraçado, eu devo ter uma coisa de camaleoa, eu era tão Banco, toda a minha vida era na cidade, como é novamente e era uma época de alta inflação, então a gente poupava dinheiro comprando dólar, tinha um cambista que ia no Banco vender dólar, a manicure, enfim, tudo na cidade, e meu curso era na Urca, eu dizia “meu Deus, como eu vou viver na Urca, onde eu vou comprar dólar, onde eu vou fazer unha?” Sei lá, eu nunca tive vida doméstica perto da minha casa, sempre foi perto do trabalho e com cinco dias eu já tava completamente territorializada naquele outro ambiente. Quando eu voltei pro Banco eu voltei quase de cama, porque aí eu queria fazer o doutorado, me habilitei e o Banco não deixou, mandou eu voltar, depois em off eu te digo quem mandou eu voltar, mas claro tinha mais é que voltar e trabalhar mesmo.

 

P/2- E na entrada do “S” pro BNDE, onde é que você tava?

 

R- Eu tava na presidência, eu era da consultoria técnica, ali a gente tinha uma interface com todos os setores do Banco. Eu me lembro que eu não gostava dos projetos de índio, não sei por que. Diziam assim: “é índio, não dá pra Beth, não” (risos), teve um trabalho de acampamento super bacana, mas na época eu tinha raiva de índio, não sei.

 

P/2- Mas nessa época, na publicidade, a entrada do “S” como era?

 

R- Em 82 nem se discutia e eu não tava lá, tava na consultoria.

 

P/1- Você sente que quando chegou na publicidade como se você tivesse se encontrado mais?

 

R- Sei lá, se for o que minha amiga disse, eu sempre gostei, eu adoro.

 

P/1- Você fez mestrado, voltou e foi pra comunicação, o que aconteceu?

 

R- Eu fui pra mercado de capitais, foi maravilhoso. Eu fui vender ação e aí vendia pra cacete, adorava. Eu não queria voltar pro Banco depois do mestrado e aí eu me habilitei pro doutorado e o presidente do Banco era o Pérsio, que era contra, e eu falei pro Zé Mauro e... Aí eu disse: “vou voltar pro Banco”, e eu tinha que fazer minha tese, “eu quero ir pro Departamento pessoal - revoltada - carimbar carteira de trabalho.” Aí eu fui jantar na casa de um grande amigo, é padrinho da minha filha, diretor do Banco e eu sempre gostei de mercado, mas na pessoa física eu comprava e vendia ação, gostava de... Ele disse: “Beth, to precisando de gente do meu time, vai pra lá”, porque eu morria de medo de voltar pra área de comunicação.

 

P/2- Mas por quê depois de ter se aprofundado?

 

R- É até uma loucura eu falar isso, eu achei que eu aprendi tanto no mestrado, entrei em contato com o mundo acadêmico que só cuidava das questões de comunicação e cultura, o nome do meu curso era Comunicação e Cultura e conhecia pessoas completamente diferente dos Economistas do Banco e isso foi muito legal, porque eu achava que pra ser inteligente, pra ser brilhante tinha que ser do BNDES, ser Economista. Aí quando eu cheguei na UFRJ e vi pessoas tão igualmente sérias e competentes e super inteligentes, eu descobri “Nossa, tem vida além do BNDES?!” e eu já era bem velhinha, então eu fiquei absolutamente encantada com o mundo acadêmico e fiquei muito feliz de saber que fora do Banco também existia uma vida legal e digna, aí eu comecei achar a comunicação do Banco pequena, e eu não quis voltar pro Banco, quer dizer, não to julgando o trabalho que se fazia lá não, acho que eu fiquei com uma visão, e aí aquele negócio ali da publicidade, eu já não queria, já tinha passado, eu acho que eu sou muito estável, mas eu também sou muito volúvel, tanto no pessoal quanto no profissional, me cansa e aí eu tenho que trocar e todas as vezes que eu troquei no Banco, eu troquei morrendo de tristeza do que eu tava deixando, mas doida pra deixar, com festa de saída, festa de entrada, eu nunca tive problema com o Banco, tem uma hora que cansa e tem que trocar de lugar. Acho que tinha esgotado aquele círculo da comunicação. E veja bem, quando eu saí foi pra me aperfeiçoar, melhorar pra continuar aquilo, mas aí aquilo passou e é evidente que queriam que eu tivesse voltado pra lá e o certo seria isso, porque o Banco investiu no meu curso, mas aí esse diretor me convenceu não ir carimbar carteira e que eu fosse pra BNDESPAR, ele era diretor de lá. E eu lembro que ele disse: “olha, a única coisa que você não pode fazer é comprar ação”, porque ele sabia que eu gostava, pode tudo, é maravilhoso, a forma de financiar do futuro é capital de risco e participação acionária, eu não tinha a menor idéia de nada disso e aí eu fui, mas fui muito indiferente, sem a menor expectativa, aí em três dias eu já tava adorando aquilo. Cheguei numa área que todo mundo era  sofisticadésimo, só falavam de derivativos, operação estruturada, put call, eu não sabia nada, eu cheguei igual estagiária, aí adorei comecei estudar, fazer curso, levar apostila pra casa de noite pra estudar e fui pra área de vendas, do (desinvestimento?) da carteira do Banco, e é difícil dizer, mas foi uma das épocas que eu fui mais feliz no Banco e vocês tão vendo que eu nunca fui infeliz, talvez tenha sido em algumas situações, mas foi um momento delicioso na minha vida profissional.

 

P/1- Mas porquê, significava alguma desafio especial?

 

R- Devia significar, mas a equipe era muito boa, foi muito especial na minha vida no Banco, foram meus anos da BNDESPAR, de setembro de 94 a 98, em 99 eu fui pra Finame.

 

P/2- E a situação do mercado de capitais na época?

 

R- Era ótima, aí teve a crise da Rússia, da Ásia e aí o mercado deve ter caído, uma mera coincidência eu ter saído da publicidade e o Itamar ter cortado o elefantinho, mas foi muito bom pra eu trabalhar na área de mercado de capitais, foi o momento de Banco onde eu tive mais longe do poder, porque mesmo estagiária, por conta do orçamento, por conta da FAPS, é essa coisa que o presidente que decidia, eu sempre tive próxima ao poder e na BNDESPAR, foi minha época mais distante do poder, a pessoa mais alto escalão que eu falava era o meu chefe imediato e foi delicioso, e um trabalho também pioneiro no mercado de capitais no Brasil, o banco tem essa preocupação desde a década de setenta, de fortalecer o mercado, a gente trazia produtos novos, eu fui muito aprendiz, minha contribuição foi muito mais de força de trabalho, de trabalhar, porque eu não tinha conhecimento suficiente pra colaborar no sentido das idéias, foi uma época, não sei se dá pra dizer que foi a melhor, mas eu trabalhei muito, desde estagiária. E agora que eu to nesse trabalho, eu digo, não é porque eu sou superintendente, porque quando eu era estagiária da Nanete eu ia trabalhar de sábado, eu acho que é da pessoa, porque sempre no lugar que eu estou tem muito trabalho e aí eu já começo depois de tantos anos de análise, achar que isso não é gratuito, eu também vou pra lugares, aquela coisa de gente que não trabalha no Banco eu nunca vi, eu sempre tive em lugares, na época da Nanete eu ia sábado,  eu me lembro que fazia toca, você lembra? Pro cabelo ficar liso, um lencinho (risos), ficava sábado trabalhando.

 

P/2- Com toca, pra sair de noite!

 

R- Meu namorado buzinava e eu soltava o cabelo e tinha um rolo aqui no meio (risos),  aí tirava a toca e descia. Então eu sempre trabalhei no Banco em lugares que tem muito trabalho.

 

P/1- E a Finame, Beth, quais as atribuições dessa área?

 

R- Esse trabalho foi bacana também (risos), preciso achar alguma coisa pra falar mal do Banco. Não deixaram eu fazer o doutorado, teve uma época que eu também quis sair do Banco, mas não deixaram.

 

P/1- Você quis sair do Banco, quando?

 

R- É, esse é meu passado negro, eu não vou falar. Deixa eu falar da Finame primeiro. Era uma continuidade do trabalho de vendas, é o que eu faço na comunicação, vendo institucionalmente o Banco, na BNDESPAR, vendia ações e na FAPS, e assim eu tinha horror, é uma atividade que a gente menospreza, eu dizia, eu prefiro dar um elefante do que vender um alfinete e eu não sabia que isso tava dentro de mim. Talvez um dos meus poucos talentos seja essa coisa de vender e sempre menosprezei como uma atividade de segunda, ou pelo menos o discurso. Pra Finame eu fui implantar um trabalho de pequena e média empresa, de vender as linhas da Finame, divulgar esse trabalho de pequena e média empresa e a gente teve a idéia de fazer os postos avançados, é um barato esse trabalho, deu certo, todo mundo fala que eu sou a Musa dos postos avançados. Viajava pra tudo quanto é lugar, e aí foi quando eu fui chamada pra área de comunicação e aí eu não queria ir de jeito nenhum, porque esse trabalho da Finame eu comecei, e não tive tempo de implantar, eu dizia: “agora eu não vou de jeito nenhum porque ainda tava muito no começo”, o mérito desse trabalho não é meu, foi o pessoal que continuou, mas aí acabou que eu fui.

 

P/1- Você acabou indo por algum motivo especial?

 

R- Um que era uma promoção, segundo que quase me obrigaram a ir. Então chegou uma hora, me chamaram e “você não estudou comunicação pelo Banco, você não sei o que, então você tem que ir”.

 

P/2- Como é o nome dessa superintendência, e quando você entrou?

 

R- É comunicação e cultura, entrei em janeiro de 2000.

 

P/1- Esses planos de cinquenta anos já estavam rolando, o que aconteceu?

 

R- Não, nada.

 

P/1- Foi uma decisão sua?

 

R- Óbvio que tinha que se fazer, nem sei dizer de quem é, é auto...

 

P/1- Mas não era a parte de planejamento, você não herdou, você podia simplesmente pôr anúncio na Veja, então depende de quem tá decidindo.

 

R- Eu vou te contar uma coisa, eu não sabia que ia ficar tão grande como ficou não.

 

P/1- Foi intuitivo?

 

R- Foi, se isso não der certo eu vou me aposentar.

 

P/1- (risos) Você já não dorme, nem você e nem eu.

 

R- É, mas vocês são responsáveis junto comigo, Deus me livre!

 

P/1- Eu já não durmo várias noites por causa desse trabalho, depois de registrar, gravar.

 

  1. Nem eu. Ai Jesus! Que loucura! Agora se der certo vai ser um show.

 

P/1- Vai dar, não tem como, vai dar!

 

R- Falta pouco, agora não dá mais pra parar, mas me assusta, ficou grande demais, todo mundo tem consultor, curador.

 

P/2- Vai dar tudo certo, pelo menos da nossa parte eu garanto.

 

R- O que você tá rindo, se tivesse aquele plano, você já viu o cronograma, tem sei lá, vinte atividades, uns seis grandes produtos.

 

P/1- Isso que eu queria entender, você chegou lá em 2000 e tinha uma comunicação pela frente, quer dizer, eu queria entender esse processo.

 

R- Eu cheguei lá com o resultado da pesquisa do Ibope, onde os congressistas não conheciam o BNDES, o que é um absurdo, mas um percentual alto de congressistas, uns 50%, e os que conheciam “o que o senhor acha do BNDES?” 99% dos que responderam “competentes, arrogantes e distantes” e pra Brasília acho que nós somos distantes, até geograficamente. A pesquisa não foi o determinante, mas aí tinha que fazer alguma coisa, todos que sentaram naquela cadeira vieram fazer um trabalho paulatino, a gente vem de um governo militar onde o Banco pouco falava, agora na parte, é estranho, quando eu cheguei eu disse: “tem uma coisa errada”, porque o nosso clipping, quer dizer, mídia espontânea é desse tamanho todos os dia e já era, há muitos anos que o Banco tem um nível de exposição nos jornais extraordinário. Agora leitor de jornal é um público elitista pro Brasil, então sem dúvida que os tomadores dos nossos recursos, especialmente os médios e os grandes nos conhecem bastante porque são os nossos clientes tradicionais, porque hoje em dia com a linha de microcrédito, com a área social, a gente passa a ter outro cliente, um cidadão mais comum, mas o que eu achei desde o início 2000, o nosso grande briefing seria humanizar o Banco, aproximar o BNDES do cidadão comum, não é do cidadão povo, mas da média do Brasileiro. Dentro daquele enfoque da prestação de contas da aplicação, passa pelo menos por isso e hoje em dia cada vez mais somos todos clientes potenciais do Banco, na década de setenta eram os grandes industriais e empresários, as grandes empresas públicas, hoje todo mundo é potencialmente, virtualmente, cliente do BNDES. Em 2000 o Banco  teve aquele plano estratégico que todo mundo já deve ter falado dele, eu não vou falar, e aí eu comecei a pensar nos cinquenta anos dentro desse briefing que seria humanizar o Banco, aproximá-lo do cidadão comum, prestar contas dos recursos, mostrar todo nosso trabalho de pequena e média empresa, do social, enfim, e isso envolve todas as ferramentas da comunicação que tão lá na área. Então lançamos esse ano que tudo vai mudar, vocês sabem porque em qualquer trabalho é assim, passamos um ano trocando portal de reestruturação do Banco, Internet, relacionamento com a imprensa, a publicidade, estamos fazendo muito mais eventos, mas aí não pra uma ação pró ativa só da nossa área, as áreas fim também percebem essa necessidade de maior comunicação, uma interface com o mundo, a gente tinha um pouco de fama de caixa preta, esse prédio é um quadradão preto, muita gente chama de caixa preta. Então é abrir essa caixa que eu acho que isso coincide com o trabalho de todas as áreas, o mercado de capitais tá fazendo essa coisa da governança corporativa, do acionista minoritário, você tem que ter uma gestão transparente e o BNDES tem que ter também, então essa seria a missão do Banco, se falasse de um posicionamento de imagem do BNDES, eu acho que hoje é mostrar essa solidez, porque poucos Bancos tem essa solidez, eu acho que o Banco é muito elegante. Eu fico falando que o orçamento é pequeno, que a gente fala pouco, mas a gente tem que falar com cerimônia e elegância, não é fazer anúncio de Ponto Frio, pelo menos agora não é a nossa proposta.

 

P/2- Os eventos, como por exemplo, música na quinta feira, os eventos culturais, cinema documentário?

 

R- É, eu ainda tenho que falar da cultura, porque não vai ter o tema cultura e aí a gente acaba, porque tá todo mundo exausto.

R- É outra área que eu acho que junto com o movimento da sociedade, o mundo inteiro tá sendo bastante incrementado no Banco. Agora é importante registrar que o nosso espaço cultural existe desde 85, há mais de quinze anos o BNDES, a palavra chave dentro do que eu to dizendo é antecipar, eu acho que o Banco consegue ser essa  instituição porque tá sempre atento aos movimentos e tentando antecipar, aí é pretensão à beça, mas eu sou BNDEnse de carteirinha, antecipar as necessidades do país. E esse espaço cultural, que hoje é banal, todo mundo tem desde 1985, o BNDES tem um auditório muito bonito, mas preparado pra trabalho, congresso, seminário, nunca pra show e mesmo com todas as limitações do auditório a gente vem oferecendo toda quinta feira show, entrada franca rigorosamente lotada, toda quinta-feira, de vez em quando sai até briga, e a gente recebe todo ano, ele já faz parte do calendário musical da cidade, nós só podemos ter show de música, dança é muito limitado pelas condições de palco e de camarim, de coxia, que a gente não tem, mas mesmo assim a gente tem feito alguma coisa de sapateado, a gente não tem fundo de palco e a gente em setembro abre as  inscrições, divulga bastante, esse ano recebemos mais de seiscentos projetos, e a galeria que é uma adaptação porque era um hall de elevador e a gente tem tentado maximizar e otimizar aquele espaço com todas as restrições, porque não foi um espaço feito pra ser uma galeria de arte. Quando eu falo mais de seiscentos projetos é galeria e quinta, mas tem sido sessenta pra galeria e quinhentos e tanto pra quinta no BNDES, é uma tarefa árdua como toda tarefa de seleção, o país é bastante criativo e musical e como selecionar, porque nós temos quarenta quintas feiras, porque janeiro e fevereiro o auditório tá sempre fechado pra manutenção. Então você tem que selecionar, 570 projetos, talvez tenha um pequeno número de coisas muito ruins, que logo são eliminadas e o resto é aquela tarefa. Na área a gente tem uma equipe que faz isso extracurricular, como é uma comissão que só se reúne no fim do ano, as pessoas levam os CDs pra casa lendo as propostas e esse ano a gente fez uma programação tentando ligar os cinquenta anos do Banco, tem um mês de jazz, um mês de chorinho, um mês de música clássica, um de MPB, a gente tenta ser justo, o que é um pouco subjetivo escolher os melhores dos melhores, [a gente] tenta que durante as quarentas apresentações anuais estejam representadas todas as manifestações da música brasileira, e acho que esse projeto é muito bem encaminhado. A galeria a gente tem seis exposições anuais, das quais duas dedicadas aos funcionários, então no aniversário do Banco a gente tem a Expoarte, onde os nossos artistas expõem e a gente tem o cuidado de divulgá-lo como artistas, no cartaz não tem que eles são funcionários do Banco, eles estão ali como artistas e no fim do ano a gente tem uma de fotos também pros funcionários, premiada, que a gente chama fotógrafo renomado, o sindicato de fotógrafos eles que selecionam, a gente não intervém pra ficar isentos,o  que é difícil, aí já tem alguns funcionários que são hors concours, eles já nem concorrem mais de tantos prêmios que já ganharam em nossas exposições e em todas as outras.

 

P/2- Tem um outro investimento em bens patrimoniais brasileiros, por exemplo, igrejas, como é?

 

R- Esse é um outro trabalho que o Banco começa desenvolver na década de noventa, a partir daquele desmonte da cultura do governo Collor em 93, se não me engano, começam a surgir as leis de incentivo à cultura e o Banco passa a se utilizar desses recursos pra investir na cultura, então ele usa a lei do audiovisual pra cinema, desde 95 a gente vem  apoiando o cinema, vem sendo um apoio crescente, começa com mil, 2000, depois 4000 e no ano 2000 a gente já aplica 7 milhões e meio, que é significativo. O ano passado mais de quatorze, então a gente passa a ser uma das empresas brasileiras que mais vem apoiando cinema, ficção, documentário, curta, média ou longa e a gente apoiou mais de 140 filmes e em especial nosso apoio ao cinema passa muito mais no Boné de Banco de desenvolvimento, a gente vem defendendo essa linha, é muito claro, do mesmo jeito que o Banco apoiou a petroquímica ou a Siderurgia, eu acho que não existe uma nação importante onde não tenha sua indústria cinematográfica bem representada. Eu, quando cheguei na área, tentei aprender o que era financiar, eu sempre fui uma cinéfila como telespectadora, não como investidora, e é ainda uma indústria, por exemplo, eu ainda não consegui números pra estudar cinema, não existe ainda, essa é  uma colaboração que tem a cara do BNDES, eu cheguei e disse: “eu quero saber de cinema, quanto de emprego gera, quanto é investido, quanto tem aqui e lá?”, esses dados são dispersos, a classe disse que com o desmonte da Embrafilme esses arquivos desapareceram, essa história do cinema brasileiro e eu acho que o BNDES tem o dever de apoiar a indústria cinematográfica e é uma das coisas que quando eu comecei ver cinema e é uma frase manjadérrima do Roosevelt, na época da depressão, em trinta, que ele diz: “onde vão nossos filmes vão nossos produtos” e a sociedade americana usou muito a indústria cinematográfica pra construir o império americano e a exportação dos seus produtos. Acho que a gente tem cineastas especiais, o Brasil é muito criativo e o cinema brasileiro tá num momento muito especial também, quer dizer, teve a década de setenta, oitenta, produções muito importantes, ganhando prêmio em Cannes e tudo. Talvez o cinema brasileiro tenha ficado um pouco abalado e acho que agora a gente  tá numa safra especialíssima do cinema brasileiro e o BNDES tem muito orgulho de estar nesse trabalho de cinema e a gente está tentando exportar, seria a novidade pro cinema, o Banco, o Governo Federal, estamos no esforço de exportação pro produto brasileiro, trazer divisas pro Brasil e sem dúvida que o cinema é um produto de exportação. É evidente que os recursos não vão ser igual a exportar um avião da Embraer, mas eu acho que tá indo nossa cultura, tá indo Brasil, então tem um valor agregado aí muito maior do que aquele dos dólares estarem comprando nossas produções, é uma indústria muito empregadora de mão de obra, geração e manutenção de emprego é uma das missões do BNDES. Então o Banco não apoia cinema pra fazer marketing cultural, eu até brigo, se sair um filme sem o nosso logo, mas é muito mais fazendo desenvolvimento e tomara que a gente consiga manter esse apoio ao cinema, esses valores, e conseguir exportar o cinema brasileiro. E o outro trabalho da outra lei de incentivo, ambos são benefícios fiscal, é um trabalho de restauro que aí é com a lei Rouanet, é uma lei muito ampla e abriga todas as manifestações da cultura, teatro, cinema, canto, música, meio ambiente, restauro, e o Banco escolheu restauro de patrimônio e nada mais bem escolhido para ter uma identidade com o trabalho do Banco que esse trabalho de restauro. Nós somos o Banco do investimento fixo, do longo prazo e não tem nada melhor do que restauro de patrimônio, que fica lá mais duzentos anos, eu acho que não existia muitas empresas apoiando essa área, porque todo mundo quer dar show na praia, evidente que eu também acho válido, mas eu acho que o Banco escolheu muito bem esse restauro e é um trabalho que hoje a gente já tem um portfólio de projetos, nós temos uns 35 projetos apoiados pelo Banco que ficam pra mais duzentos, quinhentos anos. E o importante é que a gente não vai lá e embeleza o monumento só, na análise do projeto nós temos a preocupação da viabilidade do projeto, da auto sustentabilidade do projeto, porque não adianta consertar uma igreja, linda, barroca, fazer todo o douramento e daqui há dez anos ela vai tá novamente com infiltração e cupim e tendo que fazer novo restauro, então é uma das variáveis da análise  a auto sustentabilidade do projeto, como? A gente reforma um museu pra pagar ingresso e fazer manutenção, uma igreja que ela passe a dar recital, concerto, tenha salão de casamento de recepção, isso tudo pode ser contemplado nos projetos sempre visando que aquele trabalho de restauro possa ser conservado, e isso gera emprego, gera renda não só na época da obra como na sua continuidade. A gente tem dado conta, a gente acabou de inaugurar Tiradentes, que tá uma beleza de igreja, O BNDES não tem expertise nisso, ninguém fez concurso pra saber fazer restauro, então na nossa regra é restauro de patrimônio tombado pelo IPHAN e dado a má conservação a gente prioriza do período colonial  e imperial, que são monumentos mais antigos, pela própria ação do tempo estão em estado mais precário de conservação.

E nessa área cultural, pra encerrar, quando eu cheguei na área o Banco tem que ter um centro cultural, então vamos fazer acontecer, é óbvio que tem que ser a Fundição Progresso que tem aqui na Lapa, por todo o relacionamento do BNDES com a fundição. Pra mim isso era cristalino, comecei estudar e comecei achar muito banal abrir mais um centro cultural no Rio de Janeiro, eu acho que em outras capitais ou em outros municípios é uma ação de maior relevância, mas no Rio de Janeiro a gente tendo aquele centro do Banco do Brasil, é uma maravilha, com a quantidade de museu público, a maioria dos museus públicos do IPHAN, tão no rio de janeiro, o de Petrópolis, o Museu de Belas Artes, o Paço Imperial, então não fazia sentido abrir mais um centro cultural, a gente não estaria oferecendo nada de diferencial pra sociedade carioca, pro brasileiro. A gente não tem orçamento, não pode contratar ninguém, eu fui ao Banco do Brasil na época pra ver como eles faziam o CCBB, eles tem um departamento que é do Banco, não é uma Fundação, e tem uns duzentos funcionários. Como é que o Banco ia conseguir uma turma toda com expertises em cultura que não é o nosso foco? Então fizemos essa opção assumida de não ter um centro cultural e de investir na arte existente, então a gente tem uma arte existente da maior importância, museus com infiltração, molhando, essa é a nossa linha, nós somos mantenedores do MAM, do Paço Imperial, a gente usa os dois, até mais o paço que é um museu público, como nosso espaço cultural e estamos inaugurando por ocasião do aniversário do Banco, uma exposição “Os últimos cinquenta anos de artes plásticas”, junto com a exposição do Museu da Pessoa, vai arrasar, a gente tem as duas exposições. Com a exposição do Museu da Pessoa a gente vai fazer a História do Banco, dentro desse briefing, que eu falei de mostrar o que foram esses cinquenta anos de desenvolvimento e na área do paço a gente vai mostrar também, dividido em cinco décadas o que rolou em artes plásticas nos últimos cinquenta anos. É uma exposição com a curadoria deles,  o Lauro Cavalcanti que eu acho que vai ser imperdível. Na área cultural nossa proposta é essa, o novo presidente, o Eleazar, conversei com ele o que ele achava dessa linha que a gente tava adotando, ele acha que esse é o caminho mesmo, o que não quer dizer que se o Banco achar que deve abrir um Centro Cultural, sei lá, em Recife, ou onde não tem nenhum, eu acho importantíssimo, mas aqui no Rio não fazia sentido.

 

P/2- No Recife o BNDES restaura aquele teatro Santa Isabel, né?

 

R- A gente tá restaurando uma igreja deslumbrante para o cinquentenário do Banco, que é a igreja Nossa Senhora dos Prazeres, é linda, dos monges beneditinos lá do Mosteiro de São Bento.

 

P/2-  E agora do ponto de vista pessoal, filhos, nomes, profissão.

 

R- Eu tenho dois filhos translumbrantes (risos), um de dezenove anos, que tá fazendo Economia na PUC, já está trabalhando e tá na área de mercado de capitais, e se Deus quiser, ano que vem vai ser estagiário do Banco, por obrigação e aí eu espero, porque ele teve uma oportunidade, igual a mim ele é o primeiro da turma dele que tá trabalhando, e meu filho que é surfista, tá trabalhando, o nome dele é Antônio Pedro de São Paulo Simonsen, é lindo. Eu fico dizendo “legal aprender um pouco da ousadia do mercado” porque nós no Banco somos mais conservadores, até por ser um banco público você não pode ousar muito, eu acho que ousou muito nas idéias, mas to falando da área de mercados, então acho legal ele ver a coisa do mercado, mas eu acho que um bom profissional de qualquer profissão, tem que passar pelo BNDES, ele preenche todas os requisitos, então tomara que o ano que vem seja selecionado pra ser estagiário, pra ter pelo menos um ano de BNDES, ver o outro lado da moeda, eu queria que ele fosse mais pra área de planejamento ou de análise de projetos e aí depois ele faz a opção dele.

Minha filha é a Maria Cristina, o apelido dela é Kiki, ela diz que não tem sobrenome, ela é tão especial que se você perguntar no mundo que ela circula, é a Kiki. Aconteceu uma coisa engraçada, há alguns anos ela foi dormir na casa de uma amiga que eu não conhecia os pais, eu não queria deixar, e ela foi: “Kiki, quando chegar lá me liga”, era na Barra, ela não me ligou, aí eu comecei a ligar pra mãe, ninguém atendia, ninguém atendia, aí quatro horas da manhã eu peguei o carro fui lá, cheguei na casa berrava, batia, ninguém atendia. Era naquele condomínio da Barra, na última rua, na última casa, aí ela não tava, mas eu vi dois carros, eu disse claro que ela deve tá, fui com meu filho que me achou maluca, aí voltei pra casa. No outro dia cedinho acordei e fui pra lá, tem duas pessoas do Banco que moram nesse condomínio. Eu ligava pra eles, ninguém atendia, aquela coisa do telefone tá quebrado. Quando eu cheguei na casa do cara de manhã eu vi pelo buraco, veio um homem grandão que era o pai da amiga aí eu falei: “a Maria Cristina tá aí?” Ele falou: “quem?”. Aí eu desmaiei, quando eu acordei ele soube que era Kiki, eu acordei com todo mundo me dando água com açúcar e a Kiki descendo a escada, “ai mãe, que mico”, enfim, a Kiki faz teatro no Tablado, ela é toda das artes, ela tem dezesseis anos, ainda tá na escola, é muito doce, super querida, é uma das pessoas mais generosas com a vida, com as pessoas, que eu conheço, é muito criativa e ainda não sabe direito o que quer ser, até pouco tempo queria ser médica, adora ver desastre, faz curativo super bem, agora como ela tá no Tablado há muito tempo ela quer ser artista, ela diz que vai entrar em medicina, trancar a matrícula e enquanto tiver gatinha vai ser artista e quando ficar velha volta pra Medicina (risos). É muito difícil escolher carreira.

 

P/2- Você é casada?

 

R- Eu não.

 

P/1- Da sua trajetória no Banco eu queria que você fizesse uma síntese de tudo isso de sentimento, o que o BNDES é pra você?

 

R- Pra mim, eu fico até emocionada, eu acho o BNDES uma glória, é bom demais. Chega.

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