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História

Capuava, sonho e resistência

História de: Benedito Alves da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/02/2013

Sinopse

Benedito Alves da Silva, o Ditão, fala sobre as transformações na cultura do Quilombo de Ivaporunduva, em Eldorado, onde nasceu e cresceu. Relata seu envolvimento com movimentos sociais e com a luta pela demarcação e titulação do território quilombola onde vive.

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História completa

Benedito Alves da Silva – Ditão Meu nome é Benedito Alves da Silva, nasci no dia 11 de fevereiro de 1945, aqui mesmo no Quilombo de Ivaporunduva. A minha família vem de descendência de escravos, os escravos que foram utilizados aqui no trabalho na época da escravidão. Meus avós, minha mãe, até chegar à minha pessoa. Meus antepassados bem lá atrás foram escravos aqui nessa comunidade. Segundo levantamentos históricos, por volta de 1600 já tinham negros aqui, não sei exatamente a data, mas existem alguns indicativos de 1630, então a gente fala que desde 1630 eles já estavam aqui. Eles vieram para o trabalho escravo e, com a morte da Maria Joana, que era dona dos escravos, eles ficaram se defendendo dessa condição. Primeiro de outros senhores de engenho que viessem para lhes capturar, depois trabalhando para viver, em um primeiro momento com a mineração de ouro, no segundo na agricultura. E essa agricultura está até hoje aqui. Eu só conheci o meu avô, pai da minha mãe. Meu avô por parte de pai, quando ele morreu, meu pai tinha sete anos. Minha avó, mãe do meu pai, quando ela faleceu, ele tinha dezoito anos. E a minha avó, mãe da minha mãe, quando morreu, eu não sei a data, mas ela ficou pequena, ela conheceu bem a mãe dela, mas parece que ficou pequena, mocinha. E o meu avô morreu em 63, meu avô pai da minha mãe, esse eu conheci bem porque sou de 45, então tinha oito anos quando ele morreu. Ele contava muita história. Era um homem bom, bom pescador, bom caçador de capivara. Ele jogava um arpão na capivara no rio, com dez metros ele acertava o arpão bem nas costas da capivara e não escapava, o melhor jogador de arpão que tinha aqui na comunidade. Tinha história dele! Um plantador de milho, plantava bastante milho, criava porco. Ele não era de caçar no mato, caçava no rio, e capivara que é um animal que está mais na água do que em terra. Peixe também, ele gostava muito de comer peixe, a minha mãe e os outros filhos dele ele criou comendo bastante peixe, muito peixe no rio. Meu pai o nome dele é Ernesto, nasceu em 32 e ganhou o apelido de Paulista, porque no dia da guerra do Paraná contra São Paulo, no dia que os paulistas passaram na casa do meu avô, meu pai estava nascendo, minha avó estava dando a luz a meu pai. Daí eles chegaram e com a carabina deram um tiro numa leitoa, mataram-na, passaram a faca na barriga, tiraram a tripa e sem pelar foram jogando sal, fizeram uma fogueira assando e comendo. Eles estavam com fome e foram comendo aquela carne, e o pessoal apelidou meu pai de Paulista, exatamente por conta desse fato. O nome dele é Ernesto, mas na região aqui todo mundo conhece ele por Paulista. Era um cara trabalhador, bom, criou todos nós, morreu novo, morreu com 47 anos, e eu que era o mais velho acabei de criar meus irmãos. E a minha mãe está viva, está com 80 anos e está viva, ela nasceu em 31, completou 80 agora em março, 20 de março. Naquele tempo era muito diferente de hoje, conheciam-se através das festas, nos bailes que tinham. Naquele tempo não era baile, era fandango, que tinha através dos mutirões. Iam os homens e as mulheres, eles para bater fandango e elas para dançar uma dança, chamada, eu esqueci agora, fugiu da cabeça, tinha que ser o homem e a mulher, o homem é por fora sapateando e a mulher é por dentro na roda. Nessa dança que os casais se conheciam e começavam o namoro. Depois o homem mandava uma carta para o futuro sogro pedindo a filha em casamento. E o casamento acontecia. Não é igual hoje com esse negócio de se enrolar e tal, abraçar, beijar e lamber, e dormir com a mulher antes de casar, isso não existia naquele tempo, era mais radical, bem diferente de hoje. Mas era assim, cresceu, nos criou e educou, foi difícil, por aqui nesta época era muito difícil, não tinha estrada, não tinha energia elétrica, não tinha nada, então, era uma época muito difícil, mas ele conseguiu dentro de seu esforço dar uma boa educação para todos nós. Aqui não tinha nada. Não tinha escola. A minha primeira letra que fiz foi com meu lápis de carvão, e meu caderno foi taboa. Tinha aqui um tio que sabia ler e escrever e ensinava a gente, assim, escrevia lata, palavras com quatro letras, lata, tatu, faca. Quando fui para a escola em 64 eu já sabia fazer o meu nome, ler algumas coisinhas. Estudei até 68, fiz até o quarto ano e voltei a estudar agora, tem pouco tempo que voltei para escola, depois que acabei de criar meus filhos, eles foram para a faculdade e eu fui para a escola para terminar o ciclo escolar. Terminei agora o segundo grau do EJA, escola de jovens e adultos, que chegou aqui na comunidade. Meu tio não era professor, ele gostava bastante de ler a bíblia, lia um trecho, e a gente pra ele: “Como é que faz isso?”E ele ensinava: “Faz assim.” Ia ensinando devagarzinho. Aos poucos ele foi pegando algumas pessoas para ensinar. Falam que foi dessa forma que aprenderam no passado. Depois tinha uma mulher chamada Olímpia aqui na comunidade, ela sabia ler e escrever. Ela se cadastrou na prefeitura e foi nos dar aulas. Chamava-se Escolinha Modesta da Roça, como falavam naquele tempo, foi nesse tipo de escola que estudei até o quarto ano. Era num galpão da igreja que tinha aqui na comunidade, galpão onde aconteciam as festas, as culturas, essas coisas, e ela utilizava uma sala para dar aulas para os jovens, às crianças daqui da comunidade. Depois esse tipo de escola acabou e começaram as com professores mesmo, formados, e eu já não estava mais na escola, foram meus irmãos mais novos, crianças daqui da comunidade que estudaram já com professores mesmo. Minha infância... Nós éramos muito malvados! Atravessávamos o ribeirão nadando, um quilômetro e meio, dois quilômetros de rio para nadar, era brincadeira rio abaixo, atravessava para lá e para cá no rio, mergulhava. Não tinha bola, a gente chutava, brincava de bola com a laranja, uma laranja azeda, grande assim. A gente se juntava ia lá e colhia umas dez, quinze laranjas, e quando furava pegava outra, todos descalços... Cada bicuda na laranja! Batia peteca feita de palha de milho, brincava de roda. Eu tinha esse tipo de infância, brincava de cavalinho, cortava um bambu, lascava assim no bambu e colocava um pau atravessado e colocava uma corda e dizia que era rédea, e saia a cavalo dizendo que estava andando a cavalo, juntávamos dez a doze cavaleiros! Eram divertidas essas brincadeiras, era uma coisa bem simples, sem nenhum tipo de malícia, a coisa era bem simples naquele tempo, brincava moleque e menina tudo junto, não tinha nada de malícia. Hoje não tem mais, hoje é outro tipo de brinquedo, acabou essa brincadeira. A comunidade mudou bastante. Vamos pensar há 30 anos. Nem se compara, mudou demais. Não tinha energia, estrada, não tinha nada, não tinha televisão, não tinha rádio, não tinha revista, não tinha nada. Hoje tudo isso tem. O contato que tínhamos com a cidade, há pouco tempo, era ir de canoa até uma altura e dali pegava um ônibus, que era jardineira. No segundo momento, que foi na década de 60, quando já havia a estrada de Iporanga, íamos de ônibus daqui. Como aqui na comunidade fica do outro lado do rio, demorou um pouco mais para a estrada chegar dentro da comunidade, a gente tinha que aumentar o tamanho da balsa para carregar carro, para atravessar máquina, para poder fazer a estrada, porque a balsa era pequenininha, era só para atravessar gente. Fizeram o aumento da balsa, atravessou a máquina para cá e a estrada chegou, mas muito precária, demorou muito tempo para um caminhão chegar à comunidade. O avanço foi nos últimos, vamos dizer assim, últimos dez anos. Nos últimos dez anos houve uma mudança bastante grande aqui na comunidade em relação à infraestrutura. Antigamente, quando alguém passava mal, no primeiro momento eram os médicos caseiros, com remédio caseiro, plantas medicinais. O pessoal conhecia, as “multi misturas” de plantas medicinais. Essa era a forma de tratar, com os benzedores, as pessoas que faziam garrafadas, não sei se você sabe o que é isso, é aquela pessoa que tem o conhecimento, assim, do seu antepassado, e que reconhece o tipo de doença só olhando para a pessoa, a pessoa está sofrendo e conhece qual o tipo de mato que cura, ele faz a mistura de mato que ele conhece, esses matos que eu estou falando são plantas medicinais, e eles sabem a dosagem certa, quantas folhas, quantos pedaços de raiz, se for semente quantas sementes, duas ou três ou quatro ou mais, se é torrado, se é crua, se é cozida, enfim, sabiam certinho. Colocavam na garrafa com água e essa garrafa dava a dosagem, como se compra um remédio na farmácia, você tem que beber uma colher de sopa a cada seis horas, a cada oito horas, a mesma coisa, você tem que tomar meia canecada desse remédio, uma vez por dia, duas vezes por dia, esses remédios que era o tratamento de mato, o médico não existia. E havia as promessas. Faziam promessas para o santo, que o santo olhasse para a pessoa, que curasse aquela pessoa, e em troca prometia uma leitoa, uma galinha, uma dúzia de ovos, para pagar o benefício que o santo tivesse feito para aquela família. Como a fé era muito forte, às vezes valia, e o cara sarava. Eu mesmo passei por isso, uma época deu um sarampo na turma aqui muito grande, o sarampo matou muita criançada. Eu era criança, eu e meu irmão, meu pai foi numa casa de um homem chamado Arpídio, era um curador esse homem, já morreu faz tempo, mas todos que foram na casa dele não morreram. Se chegasse lá e a pessoa estivesse viva não morria. Ele falava: “Pode ficar sossegado.” “Eu tenho que ir embora agora por causa do meu filho que está ruim.” “Não, eu estou vendo daqui ele brincando, fica sossegado que não vai morrer mais.” Esse era bom, sabido mesmo. Era um negão, meio careca, velhão. O negão era bom, o negão sabia mesmo! Ele mandou meu pai trazer o remédio, bebemos e saramos, passaram três, quatro dias e estávamos bons. Aqui no quilombo tinha muito esse tipo de curador, mas depois devido à descriminação, esses curadores acabaram porque os mais novos foram educados de outra forma, ouvindo que curador é feiticeiro, que o curador matava, que curador era isso e aquilo, ele acabou não aprendendo, e hoje a gente se arrepende de não ter aprendido porque é uma cultura muito importante, mas naquele tempo a gente era criança, a maioria não sabia nem ler e nem escrever não sabia o que era certo, o que era errado dentro da cultura. A pessoa letrada que vinha de fora e pregava isso. E acabávamos acreditando e deixando essas coisas de grande valor ser perdidas. Isso foi perdido por conta de conversa de fora. Eram várias as pessoas que falavam isso, a Igreja era uma delas, mas eram várias pessoas: “Feiticeiro! Não quero nem passar perto da casa dele!” “Ele rogou uma praga que vai matarvocê, entendeu?!” Era o entendimento de bastante gente, e acabava passando aquilo para a gente. “Como o cara curou uma pessoa e não é Deus?! Deve ser feiticeiro mesmo!” Acabamos acreditando nisso. Depois aprendemos, buscamos entender a nossa origem, nossa cultura, tudo aquilo que é nosso, e voltamos a valorizar aquilo que é uma riqueza nossa, mas os grandes valores já se foram, já passaram para o andar de cima e a gente ficou sem essa riqueza aqui, mas ainda têm alguns, não são bons como os de antigamente, mas têm alguns deles. Parteira tem bastante aqui, ainda hoje. Quando não dá tempo da mulher chegar ao hospital para ser atendida pelo médico ela é atendida aqui mesmo, a mulherada sabe como cuidar. O problema é que teve uma época que foi proibida a prática, as parteiras foram proibidas de atender as mulheres. Se a mulher morresse no parto eles falavam que aquela mulher podia ser presa. Elas ficaram com medo, falavam em cadeia, em prisão, ficaram com medo e todo mundo largou mão. Foi quando o pessoal começou a levar a mulher para o hospital, pré-natal, antigamente não existia nada disso e as crianças nasciam gordas, fortes, nutridas. Meu avô dizia que a criança quilombola, criança negra que nascesse raquítica morria antes dos dez anos, e aquele que nascesse bom com saúde morria depois dos 70, era um dizer popular. Mas é verdade, hoje não morre porque desde que a criança é o feto ainda na barriga da mãe ele já começa a receber todos os atendimentos médicos, ele nasce, cresce, mas cresce uma criança fraca, igual frango de granja. A criança é fraca, não é a criança forte que bate com a mão cai de costas e se levanta, a criança cai se machuca e destronca o pé, quebra uma perna muito fácil, porque é só remédio, é só química, naquele tempo não era uma pessoa, que a gente usa falar assim: revenido. Pessoa revenida, na nossa linguagem significa uma pessoa forte, sadia, uma pessoa que tem os ossos preparados para qualquer tipo de coisa que não quebra tão fácil. A turma falava que quando a gente ia jogar, quando era mais novo, jogava bola na cidade e dava canelada, era a mesma coisa que bater numa brejaúba! O osso do povo negro da roça ele é mais forte, bem mais forte, isso está na genética, a geração desde que veio de lá para cá. Na comunidade teve um momento que diminuiu muito a população, foi quando a pressão política, os governos emitiram regras para o país e ao estado, e que nos pegou aqui e detonou. A única forma que as pessoas encontraram foi juntar a mulher, os filhos, juntar os trapos e ir para a cidade. Tem muita gente daqui que mora em São Paulo, em Santos, em São Vicente, em Sorocaba, em Curitiba, em Santa Catarina, em Registro, cidade vizinha aqui, tem muita gente que mora em Eldorado, Iporanga, e por quê? Porque a pressão política foi muito difícil, e a sobrevivência chegou ao limite de não ter o que comer. O pessoal vivia da roça e a legislação proibiu de fazer a roça, então como iam comer se não plantavam? Isso foi uma dificuldade, e quem teimasse e fizesse isso era multado. Hoje não batem mais, mas naquele tempo batiam, íamos presos, aconteceu muito aqui de quilombola ir para a cadeia, apanhar da polícia florestal. Então, teve muitas pessoas que não aguentaram essa pressão política e foram embora. Aqueles que ficaram foram para a clandestinidade cortar palmito para vender. O governo fez uma safadeza muito grande com o povo naquele tempo. As fábricas de processamento de palmito eram todas legais, a legislação deixou em dia para aquelas fábricas, e os donos dessas fábricas a maioria foram de Santos e de São Paulo, empresários dessas duas cidades que vieram aqui e em todas as cidades do Vale do Ribeira, todas, Iporanga, Eldorado, Registro, Sete Barras, Jacupiranga, Iguape, Cananéia, Miracatu, Juquiá, em todas havia fábricas. Tinha cidade que tinha uma fábrica, em outras cidades havia duas, três, e ainda aquelas com mais de três fábricas, como em Registro mesmo. E uma curiosidade: O palmiteiro tinha que cortar o palmito e proteger o palmito até colocar no caminhão do dono da fábrica, assim que estivesse dentro do caminhão acabava o problema. A polícia não pegava mais, podia ir até de carona, com o dono da fábrica para a cidade. E o palmiteiro tinha que proteger o seu produto, por quê? Porque era o palmito que ia garantir o feijão na mesa para sustentar as crianças, filhos, mulher. Ele fazia tudo escondido, ninguém via, então, quando chegava aqui na beira do rio das casas, a clareira, tinha que esconder até escurecer. O caminhão vinha sempre de noite porque sabia que o palmiteiro não podia atravessar o rio com o palmito de dia, era nesse momento que a polícia o flagrava e prendia. O dono da fábrica escapava, ficava lá, “Não tô nem aí, o palmiteiro que se lasque”. Isso gerava um problema social muito grande na comunidade porque ficava mulher sem comida, com muitos filhos para tratar, isso era difícil. Quem ficou na comunidade passou por essas dificuldades porque teve que ter essa resistência de entrar no mundo da clandestinidade para garantir o feijão na mesa, se não, passava fome, não tinha alternativa. Não tinha lugar para você trabalhar na fazenda naquele primeiro momento, se você não ganhasse dinheiro não podia comprar um anzol, uma rede para você pescar o peixe no rio, então, não tinha saída. Um pouco mais tarde que as coisas mudaram, começou a melhorar aqui no quilombo. Hoje as famílias que foram embora querem voltar, já tem bastante família que voltou da cidade e mora aqui na comunidade. O parque foi criado aqui na década de 50, 60. Eles criaram o parque através do mapa, olharam no mapa: “Está verde, vamos decretar parque!” E não sabia que dentro dessas áreas tinham várias comunidades, muita gente morando, e aí começou o conflito, começou a briga, porque a lei diz que dentro do parque não pode ter presença humana, moradia ali não pode ter, mas como fazer se o cidadão já estava ali? Desde os seus antepassados há 200 anos? No caso de Ivaporunduva, 400 anos? É difícil, e por outro lado o povo que está na cidade tem uma forma de viver dentro dela, o povo da roça não aprendeu a viver na cidade, ele sabe viver na roça, se ele vai para a cidade, olha o que o sistema criou, ele criou uma confusão danada, porque eles vão para a favela, e na favela você já sabe, lá está o tráfico, é nela que os grandes empreendedores brasileiros levam o seu crime para quem não está preparado para viver ali dentro. Levam maconha, cocaína, um monte de coisa, e é assim, vão trabalhar para ele. O cara que não sabe ler, é analfabeto, mas ele não tem avião, não vai buscar essa droga na Colômbia, nesses outros países que vendem, não tem dinheiro, não tem aeroporto, não tem carro sofisticado, não tem meio de comunicação, de inteligência para falar com o mundo para distribuir a sua mercadoria, que no caso é a droga, é o tráfico, mas quem é que faz o serviço sujo para os empreendedores? A maioria é o pessoal que está desempregado que veio da roça, que é bobo, que é comprado por qualquer tostão, isso porque está faltando o feijão na panela. Então, nós aqui já percebíamos isto, era bastante claro, e não queríamos fazer parte dessa massa. Por isso que o pessoal preferiu cortar palmito porque o palmito é ilegal dentro da legislação dos homens, mas é um alimento, é gostoso o palmito, um produto gostoso de comer, pode comer assado, pode comer cozido, pode fazer farofa, pode picar ele in natura e comer, feito salada, cru sem cozinhar, é um alimento gostoso que mata fome de muita gente, então, no nosso entendimento era uma coisa que para nós era legal. Até o meu tio Constantino, que está aqui vivo, um dia ele foi multado por fazer uma roça, estava dentro da igreja na hora da missa junto com o padre, a polícia foi lá dentro e meteu a caneta nele, não deu moleza, lembro disso, por ter feito uma roça, e ele argumentava: “Como é que eu vou fazer para sustentar o meu filho com arroz, com feijão, com mandioca, com milho, com carne de porco, com galinha?” “Tenho que plantar para poder produzir o que faço!” “Compro a roupa deles porque vendo arroz e compro a roupa para vestir, vamos andar nus?” “Vou andar com fome?” “Como é que eu faço?” “Não queremos nem saber, a lei diz isto e estou aplicando e não quero nem saber, se vire!” Então, era assim que faziam. Isso aí chegou bastante forte para a gente, de repente, porque em 68 ligaram a estrada de Eldorado à Iporanga. Até 68 o pessoal andava de canoa. Com isto apareceu dono de terra, toda essa área aqui tinha um dono, e a legislação chegou para expulsar mesmo o pessoal daqui para tudo isso virar parque. Só que o pessoal resistiu, e estamos aqui até hoje, graças a Deus. Uma época difícil! Houve ocupação ilegal de terceiros para criar boi, então, chegava um cara com papel e dizia: “Essa terra aqui era do meu tataravô, é minha e eu vou ocupar.” “Mas como que eu faço? Eu nasci e cresci aqui?” “Não vou mexer com você, vai trabalhar para mim, fique aqui e trabalhe para mim, eu te pago um salário e você continua trabalhando.” “E o terreno é pouco, é só 20 alqueires.” Dentro de cinco ou seis anos ele tinha 200 alqueires, porque a cerca de fazendeiro tem perna, toda às vezes que roça o pasto aumenta três ou quatro metros, toda às vezes que vai reformar a cerca, aumenta mais quatro metros, então, dentro de dez anos tinha mais de 200 alqueires. Isso acabou com o nosso povo. Como essas pessoas estão ligadas ao poder judiciário da cidade, em cidade pequena, município pobre é assim, sempre foi e é no Brasil inteiro, eles se unem com o poder judiciário da cidade, com o poder político, econômico e tudo mais, e soltam os bois deles na roça dos pobres, comem todo o arroz, comem do feijão, mói tudo, e aí, você vai para a polícia, vai cobrar dele e não te paga: “Mas me deu prejuízo de tantos sacos de feijão, ele comeu tudo...” “Não vou pagar, então, procura o seu direito, vai na polícia”. Mas há uma grande dificuldade de conversar com a polícia, com o delegado, com juiz, por falta de escolaridade, eles acabam engolindo a gente e nos expulsando. O boi deles expulsa a gente para a cidade. Houve muito isso aqui. Aqui não é um lugar que teve esse conflito de matar fazendeiro, aqui não teve, aqui teve fazendeiro que matou quilombola, no quilombo de São Pedro, aqui vizinho, aconteceu isso. O fazendeiro mandou matar o quilombola, por causa de terra. Aqui em Ivaporunduva não aconteceu isso, mas houve expulsão das pessoas para a cidade por conta de fazendeiro. Nós temos lá em Eldorado, na nossa cidade, o Aurélio de Vasconcelos Leitão, português Aurélio, dono daquele posto da entrada, agora não é mais dele, era na entrada da cidade em Eldorado. Aquele foi um cara que na minha vivência que pressionou o povo daqui, tomou boa parte da terra do quilombo, hoje nós ocupamos e tomamos de volta dele, não pagamos um tostão, mas ele foi um dos que primeiro tomou as terras aqui, expulsou muita gente para a cidade, porque o lugar onde as pessoas trabalhavam ele soltou boi, e muita gente foi embora. Da década de 60 para cá houve muita confusão, quando ligaram as estradas vicinais acabou a tranquilidade do povo. Por um lado foi bom, que veio o desenvolvimento, por outro lado não, não veio a política que favorecesse esse povo, a política que veio foi uma política que excluía o povo da região, então, aquele que tinha dinheiro ficou e aquele que não tinha foi embora, e foi assim que foi tratado, quem não estava organizado foi o primeiro a sair, houve muita confusão. A minha luta começou na década de 70. Em 1975 eu tinha vinte anos e fui trabalhar na Rodovia dos Bandeirantes. Eles estavam construindo aquela estrada de São Paulo para Campinas. Antes eu fui trabalhar numa firma aqui numa cidade vizinha, em Cajati, melhorando a estrada Régis Bittencourt. Nós entramos nela para trabalhar e dali nos levaram para lá. Foi quando eu comecei a perceber a desigualdade, a situação econômica do povo, como era e como não era, e que as confusões que existiam não eram só aqui na zona rural, na cidade também tinha, foi quando eu comecei a conhecer os movimentos sociais, o movimento negro. A gente começou ali na época da ditadura militar a ter esse primeiro contato, quem nos ajudou nesse primeiro momento foi a Igreja Católica daqui do Vale da Ribeira, de Registro, através do bispo. Eles pagavam para a gente passagens para acompanhar o movimento, para participar, então foi ali que começamos. O movimento negro lutava também por melhorias da qualidade de vida, contra a política massacrante existente ao longo da ditadura militar, só que era uma luta escondida porque não podia ser clara, na época da ditadura militar se você falasse de política poderia ser preso, ser degolado, enfim, tinham várias formas de você desaparecer do mapa. E a igreja estava ajudando nesses movimentos sociais, algumas igrejas católicas no Vale do Ribeira estavam, a nossa igreja estava. A gente ia para São Paulo e eles nos levavam para dentro de uma igreja e fechavam a porta, ficávamos lá dois, três dias conversando sobre a situação, como é que ia ser, como é que não ia ser. Foi a partir dali que conhecemos como que funcionava um pouco da política, começamos a acompanhar os movimentos que estavam acontecendo em São Paulo, os movimentos sindicais que estavam ficando fortes naquele tempo, e que foi quando tudo começou, o Lula, grande líder na época, prenderam ele na cadeia. Então, teve assim um momento meio que decisivo na minha vida, para entender que se a gente cruzasse os braços não iríamos nunca ter sossego na vida, e nunca iríamos buscar a verdadeira libertação, nunca, porque o poder econômico não estava de brincadeira e tinha o apoio da polícia, da justiça brasileira, se a população não se revoltasse contra isso para mudar a política iria ser difícil. E aí teve aquela revolução, quando houve a mudança, a quebra da ditadura militar, a questão, por exemplo, um pouco da eleição de Tancredo Neves. E depois disso aí vieram outros políticos, a transformação política no Brasil que aconteceu, e dentro de tudo isso a criação de novos partidos, Partido dos Trabalhadores, por exemplo, foi um deles, a revitalização do PC do B, que era comunista. Tudo isso foi na época que teve essa reviravolta, e nós aqui juntos percebendo que ali era o caminho, que seria demorado, mas que nós tínhamos que criar uma figura que viesse para ser o salvador da pátria. Todos os movimentos dos mais pobres, as pessoas que trabalhavam em fábrica em São Paulo, nas empresas, os mais pobres percebiam que havia possibilidades no presidente, se um dia o Lula fosse presidente do governo. Esse movimento começou já no início dos anos 80, depois que ele já tinha sido preso, que tinha saído da cadeia e tudo mais, com a criação do partido. E a gente participou disso, da criação do partido, participamos na época que estava preso, a comunidade participou e eu também participei! Fizemos abaixo-assinado para tirar ele da cadeia, isso aconteceu com nós. No final dos anos 80 veio a constituição federal, que a comunidade novamente participou. Conheci o Luiz Alberto, deputado federal da Bahia, que foi o pai do artigo 68. Hoje, se você for pesquisar, vai ver que o pai do artigo 68 foi um deputado que depois foi governador do Pará, esqueço o nome dele, porque ele era o relator na época, então, ficou como o pai da criança, mas o verdadeiro autor do artigo 68 foi dos movimentos sociais quilombola e negro no Brasil, baseado no Luiz Alberto Benedito da Silva, do Rio de Janeiro, foi um grande militante no Rio de Janeiro, conhecido naquele tempo também aqui em São Paulo. Ele já morreu. Também tinha a primeira advogada negra chamada Penha, eu conheci muito ela, conversei bastante com ela, tive com ela um dia na carreata na Paulista. No dia 20 de novembro eu estava na cabine junto com ela. Essas pessoas foram personagens que lutaram com mais força, que tinham o poder, também algumas pessoas que estavam na televisão. Foram pessoas que lutaram para que o artigo 68 nascesse, e o que é o artigo 68? A lei que determina que os territórios ocupados por negros quilombolas sejam deles. E essa lei veio como resultado de uma grande luta do povo negro brasileiro, e também várias outras pessoas que não eram negras, mas que eram solidários a luta, então, isso nasceu. Tem outra lei que veio também para reforçar como o artigo 215, o artigo 216, que trata da manutenção e da proteção da cultura do povo negro brasileiro, isso reforça bastante a forma de nós vivermos, as formas de nós trabalharmos, valoriza muito essas duas leis. E aí a gente vem sempre aprimorando para que se garanta a fixação do nosso povo onde ele está, e eu sou um personagem que sempre tive junto dessa luta, e continuo até hoje lutando para essa mudança que está tendo nos quilombos. Eu conheci muita gente que vive a nossa mesma situação, buscando formas de sobrevivência. Nesses encontros a gente topava com baiano, mineiro, pernambucano, pessoas de vários estados, da cidade de São Paulo, das favelas, do entorno da cidade, muita gente que não tinha como. E essas pessoas trocavam ideia, conversavam e tal. Existia essa necessidade de luta, porque se não era difícil. Eu conheci muita gente, faz tempo, mas eu lembro que a primeira reunião em que eu participei do Vale do Ribeira fui eu, o Victor Chapéu, de Pedro Cubas, Pedro Pereira, do Sapatu, têm algumas pessoas que já morreram do São Pedro, como por exemplo, o finado Vandir, finado Joaquim Capanga. Eu era moleque naquele tempo. E tinha uma igreja, ela existe ainda em São Paulo, é um patrimônio histórico, lá no Paissandu, e ali era um local de reunião. Tem outro local ali perto da Praça da Sé, na Tabatinguera também, espaço que a gente ficava lá e a porta era fechada. Nesse tempo a gente conheceu o movimento social negro, conheci lá o Gilson Negrão, que é do movimento negro de São Paulo, conheci o Flavinho que faz parte deste movimento que é o MNU, Movimento Negro Unificado. O Gilson Negrão é do Movimento Fala Negrão. Existem vários movimentos sociais que a gente conhece, às vezes eu estou em São Paulo e encontro alguns deles, alguns já morreram, outros estão vivos, mas a minha luta começou ali, quer dizer, um pouco antes tinha vários outros personagens que já vinham de outros estados, incluindo São Paulo mesmo. Mas para nós do Vale do Ribeira acredito que começou ali. Nós tivemos problemas com a repressão militar somente um pouco antes, na época do Lamarca. Eles ficaram no município de Jacupiranga, que hoje é Cajati. Chamamos de Cajati, mas é vizinho, vizinho daqui de eldorado. Algumas vezes ele veio aqui na comunidade em busca de saída, conversando conosco. Meu pai, por exemplo, teve dificuldades com a polícia militar porque queriam prendê-lo, acharam que ele era da turma dele, mas não era, e também não prenderam. Ele tinha um patrão que o defendeu, falou que não era, era funcionário dele de Jacupiranga e tal. O Lamarca veio aqui, tomou café com a gente, tocou sanfona, ajudou a socar arroz no pilão. A primeira vez que veio, veio vestido de madre, de freira, estava com medo. E a comunidade é aquilo que eu falei, no primeiro momento, o que é que a mídia colocava? Que ele era ruim, que ele era um inimigo. Mas o que a gente conversa e ele conversava com o pessoal não tinha nenhuma ligação com o que a mídia colocava. Ele era amigo do povo, principalmente, do povo mais sofrido. Ele era inimigo do sistema porque o sistema massacrava, era massacrante, era disso que ele era inimigo. Era um cara legal para caramba, gente finíssima. Ele foi à igreja, fez uma oração, lá na comunidade, depois ele percebeu que nós não oferecíamos nenhum risco, e aí ele mandou um bilhete pedindo perdão para nós, desculpas, identificando quem era ele, e estávamos dispostos a recebê-lo outras vezes. Nós conversávamos sobre política porque a gente começou a entender que essas coisas aconteciam só para o pessoal mais pobre. Quem é que é o pessoal de favela da cidade de São Paulo? Vamos falar só de São Paulo, por enquanto. Quem é? São as pessoas da roça! Por quem eram expulsos? Aí vem uma série de situações. Expulsos por fazendeiro que ia ampliar o seu; grandes empresas nacionais e internacionais, que vinham para o Brasil fazer hidrelétrica e ganhar dinheiro. Isso move uma quantidade de dinheiro muito grande, têm muitos atingidos de barragem na cidade grande, e onde ele está? Está no entorno da cidade, que é onde coube ele, no centro não dá capacidade para morar, não está preparado para morar no centro, então, está no entorno. São da roça, vieram para a cidade sem estudo, são despreparados e entraram no caminho que acharam mais fácil. A gente começou a perceber que tinha que ter outro lado, tinha a Arena naquele tempo. Não dá para saber por que o PSDB saiu do PMDB, então, não dá para saber, PTB saíram da Arena, são cria da arena. Nasceu o PT, que era um partido de esquerda. Naquele tempo tinha uma proposta bastante radical, mas que vinha ao encontro das necessidades. Nós fomos num bairro chamado Meninos, que tem perto do Eldorado, fomos bater palma para o governo do Laudo Natel, ele era dono do projeto da hidroelétrica que ia acontecer perto do Eldorado. Mataram boi para nós comermos e nós fomos muito alegres, pois ia revolver a vida do povo. Mas a partir dessa vinda do governador no Vale do Ribeira, a gente começou a ouvir outras conversas e a refletir sobre isso. “Mas espera aí, barragem... Quem está no lago para onde que vai?” Depois houve uma confusão e eles mudaram um pouco mais rio acima, no eixo batatal, porque lá a quantidade de várzea que seria inundada era muito grande, então, eles entenderam que aquele local não dava para ser feito ali e mudaram mais para cima, e aí nos pegou diretamente. Nós íamos ser expulsos da terra. A gente ocupou a CESP (Companhia Energética do Estado de São Paulo) lá em São Paulo. Fizemos passeata dentro da cidade de São Paulo. Criamos um transtorno para o paulistano porque nós queríamos que nos enxergassem. Um pouco mais tarde a CESP foi privatizada, e daí eles disseram que não tinham nenhum interesse na hidroelétrica. No caso eram quatro projetos: Projeto Batatal, que ficava para baixo de nós um pouco, depois tinha o Funil, que fica bem dentro de um quilombo chamado Praia Grande, no município de Iporanga, e depois tinha o Itaoca, levando o nome da cidade de Itaoca, e o último era lá em cima no Tijuco Alto, esse que está em evidência até hoje. E aí a gente foi visitar e conhecemos o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), sua força era no sul, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. O MAB estava no Brasil inteiro, mas o foco mais forte que tinha, assim, uma inteligência muito grande em relação a isso eram esses três estados, eles que estavam ajudando outros estados levando para outros estados. E foi quando a gente conheceu melhor o assunto barragem. Percebemos que se acontecesse isso, nós iríamos ter de desocupar a área para inundar com água, aí, criamos um movimento MOAB, Movimento dos Ameaçados de Barragem. Começamos por aqui no Eldorado e foi crescendo, crescendo, que hoje o MOAB está no Vale do Ribeira inteiro, tanto no vale do estado de São Paulo quanto no Vale do Ribeira no estado do Paraná. O movimento está forte e tem apoio, vários apoios, das organizações ambientais do estado, como por exemplo, o Instituto Sócio Ambiental (ISA), o SOS Mata Atlântica. Têm algumas organizações, algumas universidades, o MST também é parceiro nessa luta. O pessoal que está aqui mais perto da região, por exemplo, Apiaí de Capão Bonito, também são parceiros nessa luta. Tem bastante gente que é contra essa barragem, muita gente que conhece a região sabe que aqui é uma região que tem uma diversidade muito rica, por essas razões não pode ser inundada, devem ser preservadas, são várias cavernas existentes na região do Vale do Ribeira, e que pode se perder com essas barragens. Têm as questões dos quilombolas, patrimônio histórico cultural brasileiro, está na lei federal, isso aí a partir do seu reconhecimento passa a ser patrimônio histórico brasileiro, podem desaparecer inúmeras aldeias indígenas que tem no Vale do Ribeira, e na mata atlântica, a biodiversidade é muito grande sabe? A história do Vale do Ribeira, a fatia da mata, a gente sabe que começava no Rio Grande do Norte e ia até o Rio Grande do Sul, e acabou, não tem mais. Os ambientalistas falam que tem cerca 7,7% de Mata Atlântica existente no Brasil, e desses 7,7%, 27% está aqui na região. Então, o estado de São Paulo tem uma restinga bastante considerável, que se deve preservar, a fauna é rica, aqui no Vale do Ribeira Têm muitas coisas que tem que se considerar, na região aonde querem desenvolver o projeto de Tijuco Alto, o bioma está bastante pobre, então, lá tem que recuperar, e não acabar com o que tem, então, são vários os fatores. Se fizerem a primeira que está lá para cima de nós vai fazer as outras quatro, porque o projeto dentro da ANEEL (agência nacional de energia elétrica), do plano energético brasileiro, o plano 2025... Esses quatro projetos estão lá no plano, quando você entra lá no site deles, você percebe que entre as barragens que estão projetadas no Brasil, essas quatro aparecem, então, se fizer uma farão as outras, onde passa um boi passa uma boiada, não podemos deixar que façam a primeira, senão farão as outras. Por outro lado, nos perguntamos: A energia é para nós? Isso é o maior complicador. Esta energia é para a empresa do Grupo Votorantim do doutor Antônio Ermírio de Moraes, para gerar alumínio e exportar. É a desgraça do povo, não é para ficar energia mais barata para nós, não é para ter mais energia, não é para isso, é para ele, para simplesmente obedecer a necessidade da empresa dele, então, tem mais aí um fator que o povo deve ser contra. Essas questões estão na justiça, está para ser liberado. Nós vamos lutar para não acontecer, mas por quanto está travado na justiça, mas vamos ver. Aqui já era parque, mas é aquilo, quem manda é o poder, a ditadura militar acabou no papel, mas na prática ainda tem muitas empresas no Brasil que a forma de agir é dentro da ditadura militar. “Eu mando, eu tenho dinheiro, pago e acabou.” “Quem manda sou eu, não tem lei e não tem nada, quanto custa para remover as comunidades? Quanto custa essa caverna? Eu pago ela. Quanto custa a mata atlântica eu pago, quanto custa o crime ambiental? Eu pago.” A mata atlântica é uma reserva que pode ainda estar escondida a cura de muitas doenças, e se a gente acabar com tudo isso, muita doença existente hoje, e outra doenças que podem no futuro aparecer, vão continuar sem solução. A água também, a mata atlântica é muito rica em água potável. Nós acabamos vendemos água no Brasil. Daqui mais uns anos, a água vai ser o petróleo lá, conta do petróleo, há estudiosos que falam que daqui há 50 anos o Brasil vai ser a “galinha dos ovos de ouro”, porque todo mundo virá de olho no Brasil por conta da água, porque ela está acabando no restante do mundo, mas em nosso país ainda tem uma reserva boa. Mas se nós que estamos no local não nos preocuparmos com isso... As empresas brasileiras que deveriam se preocupar. Então, são nessas coisas que a cidade deve se envolver, também pensando nisso. A barragem acho que foi a principal pressão exercida na região. Têm as mineradoras também, o pessoal que quer minerar na região, existe uma pressão das mineradoras. Se você entrar lá no DNTN você vai perceber lá os pedidos de mineradoras que querem minerar aqui na região, inclusive tem pedido em cima de quilombo, está parado, mas o pedido está lá e de repente pode ser liberado tudo isso aí. A gente tem que ficar atento, não pode dormir, temos que ficar com um olho fechado e outro aberto. No passado nós não nos chamávamos de quilombolas. Essa palavra quilombola foi a própria constituição que trouxe, que colocou. Apareceu alguém, não sei quem foi que traduziu a palavra quilombo, no nosso entendimento: Capuava. E o que é capuava? Lugar de difícil acesso. Eu moro aqui, mas trabalho lá na capuava, lá naqueles fundos, lá é minha capuava, eu moro aqui na vila, na beira da ribeira, na beira de um rio, mas trabalho daqui a 500 metros. Alguém traduziu capuava como difícil acesso, nós falávamos que aqui na comunidade nossos antepassados foram escravos, mas nós chamávamos de Ivaporunduva, não chamávamos de quilombo de Ivaporunduva. A partir de 88, como reforço ao nosso direito, todo mundo se acostumou a falar quilombo de Ivaporunduva, para reforçar a constituição e o artigo 68 da constituição federal de 88. E isso aí se nacionalizou no Brasil inteiro, todo mundo chama quilombo hoje. É chamado quilombo do São Pedro, ninguém fala Lavrinha, é para reforçar, Pedro Cubas era só Pedro Cubas, mas agora é quilombo de Pedro Cubas. Todo mundo fala para reforçar e auto se declarar mesmo como quilombola, a palavra ganhou corpo para defender o nosso direito. Nós ajudamos a criar o movimento quilombola, nós também somos pais do movimento. Hoje, os movimentos sociais quilombolas estão no Brasil inteiro. Se não me engano, nos vinte e cinco estados existe a presença de quilombos, e o movimento está distribuído e têm vários tipos de organizações. Aqui no Vale a gente tem as organizações quilombolas, que está em cada comunidade, e temos uma organização regional que a gente chama de FAQVAR, Federação dos Quilombos do Vale do Ribeira. Ela foi registrada na semana que passou, faz tempo que ela existe, mas ela virou instituição só agora, virou uma ONG. Tem a coordenação estadual que está dividida no estado em três setores, no litoral sul, que somos nós aqui, está junto com o Vale do Ribeira; no litoral norte, que é a região de Ubatuba; e sudoeste que vai desde Sorocaba, Itapeva, até o quilombo de Brotas, região de Campinas. A organização está dividida em três espaços do estado, então, cada região tem a sua organização regional, e dessas três saíram os coordenadores estaduais, que fazem um papel mais político, não é o papel de resolver o problema de cada comunidade, cada região resolve os seus problemas, a função gira em torno do papel político. As três se reúnem para encaminhá-lo. Tem ainda a coordenação nacional dos quilombos ou a CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) que está presente em vários estados do Brasil, entre eles, no Rio de Janeiro, Bahia, não pode estar em todos os estados porque não pode ser uma coordenação muito ampla, porque fica difícil, e de tempo em tempo ocorrem reuniões que acontecem devido às necessidades que vão surgindo, e também para se falar dos problemas dos estados e para a CONAQ tomar algumas medidas, assim, esta ONG também tem um papel mais político. O movimento está nesse pé. Aqui tudo aconteceu por meio do judiciário. Não foi o governo do estado que mandou os documentos para o governo federal e titulou. Nós, em um primeiro momento, fizemos uma demarcação nas terras, e nós fomos os únicos quilombos que fizeram isto, e colocamos a história no papel, o relatório técnico científico não foi o governo que fez. Contratamos um profissional, contratamos pessoas, profissionais, para fazerem isso. Nós juntamos a comunidade que ajudou com a demarcação da terra. Fomos nós que fizemos toda a divisa da terra, roçando, toda a comunidade participou e pagamos um topógrafo para fazer a parte da demarcação, para a topografia. Juntamos todo esse material, desde 91 até 94, e o caminho encontrado foi o Ministério Público Federal do Estado de São Paulo. Em 1997 a gente foi reconhecido, e em 2000 a gente foi titulado pela Palmares, e aí foi pelo meio legal, só que o título não valeu, o título foi ilegal porque eles titularam uma terra que tinha dono, dono da terra era uma tal de Alagoinha, do Rio de Janeiro, que era dono antes de eu nascer. Continuamos a briga na justiça. Ganhamos em 2008 a ação, anulamos o título da Alagoinha em 2008, e por que é que anulamos? Porque não existe Alagoinha. Ela acabou em 1960, até 1960 existia registro dela na receita, a partir dali desapareceu, então, brigamos com um fantasma por oito anos! Ganhamos em 2008 e em 2010, um ano atrás, agora em julho fez um ano, a gente registrou. Foi uma luta difícil, não foi fácil, estou falando rápido, mas muita água rolou por debaixo dessa ponta. Essa questão da justiça foi uma delas, a gente foi para a Brasília, todos alegres, voltamos de lá com o documento de baixo do braço, chegamos aqui e quando fomos registrar tinha um dono. Você vem com um documento que é seu e de repente não é. Foi uma luta brava! E têm várias outras coisas. Em 98 criam uma lei que São Paulo já passa a fazer o relatório técnico científico, e também a demarcação de terra. Tiveram várias etapas que a gente participou, que ajudamos porque o estado de São Paulo foi o primeiro que saiu com lei estadual para resolver a questão dos quilombos, têm muitos estados que até hoje não tem lei, só está mesmo no federal, mas no estadual não tem nenhuma normalização, isso dificulta um pouco mais. Mas São Paulo foi um estado que deu esse passo, que é essa ferramenta que foi criada para ajudar e junto com esse passo veio aí também esse programa do governo. Vários quilombos de São Paulo têm uma assistência do governo, não é aquela assistência, mas tem uma assistenciazinha para poder fazer alguma coisa. Nós conseguimos, no Vale do Ribeira, quarenta casas para o quilombo de São Pedro, quarenta casas em Pedro Cubas, e no quilombo dos Pilões de Maria Rosa, não sei se foram sessenta casas para duas comunidades com setenta casas, mas ganharam casa também. Temos conseguido algumas coisas, melhorar as estradas através da CODASP (Companhia de Desenvolvimento Agrícola de São Paulo)... E aí, no governo do Serra brecou, freou tudo, parou tudo. Agora o governo Alckmin voltou, vamos ver, não sei, está meio devagar, ele criou uma lei que a gente vai defender agora, que é a questão da agricultura familiar, seria um passo, vamos ver lá na frente. Voltando lá no começo da história, a lei áurea foi mais um passo rumo à libertação, o primeiro passo rumo à libertação foi quando o negro tirou o pé da senzala e falou: “Eu não vou ser mais escravo, nem que eu morra.” Muitos morreram no meio do mato, por falta de remédio, falta de alimentação. Foi o começo. Depois veio a lei do ventre livre. Foi bom? Não foi. Foi ruim. Mas alguém tentou fazer alguma coisa. Depois veio a Lei do Sexagenário. Foi bom? Não foi. Foi uma forma dos barões se livrarem dos velhos da senzala, mas de qualquer forma, depois veio a lei áurea. Foi bom? Mais ou menos, e por que é que foi mais ou menos? Porque a lei áurea só acabou com a escravidão, não deu terra para ninguém, não garantiu escola, não garantiu nada, então, foi tirar da senzala e jogar no meio da rua. Depois veio a Constituição de 88 com as leis de reparação, porque isso é reparação, então, é isso que eu estava trabalhando. Depois veio o decreto 4887 de 2003. Depois veio a questão da lei 10.639 que é a educação africana na escola, quer dizer, são passos, são passos e a gente tenta trabalhar esses passos obrigando, de certa forma, talvez obrigar não seja a palavra correta, mas para fazer com que a verdadeira libertação aconteça, porque existe o projeto de igualdade racial, reafirmando que todos nós temos o mesmo direito, mas não temos, é mentira, não temos o mesmo direito, não ganhamos a mesma coisa, enfim, o que é que a gente quer? Queremos que as coisas sejam conforme tem que ser. Para isso tem uma confusão danada, eu não digo briga de matar, mas briga de você lutar, correr atrás do direito, se juntar com o pessoal, buscar informações, entender como que é isso aí, de que forma, e o que é que eu tenho que fazer para acessar isso. É isso que nós fazemos, e de vez em quando a gente vai mudando, vai avançando. Em Ivaporunduva, há 20 anos tinha um índice de analfabetismo bastante grande, hoje não tem, deve ter umas três ou quatro pessoas que não sabem ler e escrever, mas é porque não querem. Nós temos um grande corpo técnico na comunidade, temos administrador quilombola, gestor ambiental dentro da comunidade, professores dentro das escolas, têm muitas pessoas que se formaram dentro da escola, dentro da comunidade, e isto não existia há alguns anos. Isso é mudança. O discurso hoje da comunidade é muito mais qualificado do que o discurso de dez ou quinze anos atrás. O pessoal entende a linguagem, a política, as pessoas sabem o que é que acontece, acompanham o processo, vão para as reuniões, então, essa é a forma de você ir fazendo mudança. Conseguimos uma ponte aqui na comunidade, hoje o carro entra na comunidade. Isso há 20 anos era um pensamento louco, maluco, ninguém pensava, hoje é realidade. Temos energia elétrica em quase 100% da comunidade, faltam só algumas casas. Não é, por exemplo, igual como foi em 2005, que 40% da comunidade tinha energia e 60% não tinha, o que dava mais da metade. Então, quer dizer, isso é avanço que está acontecendo. O pessoal viaja, vai passear. Eu fiquei alegre esse ano porque saiu daqui três ônibus para ver o réveillon em Santos. O pessoal da cidade vem para cá nas cachoeiras durante o feriado, não no final de ano, vêm para as cavernas, já o pessoal do sítio, do quilombo, quer ver o mar, ver outras coisas que não estão acostumados. Isso era impossível, o pessoal daqui lotou carro e foi para a praia com dinheiro no bolso, para se garantir lá dentro, comer, beber, isso é um avanço! São coisas que não se pensava uns anos atrás, hoje é normal, uma pessoa sai daqui para chegar a Congonhas e pegar um avião e ir para qualquer estado do Brasil, antigamente não tinha. Falar nisso? Era uma loucura. Falar em andar de avião? O avanço é mostrar que nós não somos diferentes de ninguém, a cor da pele é uma coisa, a carne e o sangue é a mesma coisa, então, por que é que nós temos que ser inferiores? Por que é que a sociedade nos trata dessa forma? Por que é que o sistema coloca na escola que quando a coisa está ruim a coisa está preta?Por que é que não fala outro nome? Quer dizer, é uma forma que o sistema coloca para diminuir o negro. Isso é uma coisa que tem que mudar. Vai ser amanhã? Não vai. Vai demorar anos e anos. Se está comemorando 500 anos de Brasil, mas a nossa ideia é que mude, que vá avançando, que uma hora chegue lá, de pedaço em pedaço, não dá para todo mundo chegar ao mesmo tempo, mas vai mudando. Hoje é um, amanhã é outro, mas o importante é que o pessoal entenda o recado, que o recado é esse. Eu vejo aqui para nós que a maior cultura é a união. A maior cultura nossa é organização e união do povo, entender isso aí. Se você não tiver união não existe cultura. A união faz com que você construa outras coisas, resgate outras coisas que às vezes perdeu. Essa é a nossa maior riqueza. A questão de ter a terra coletiva num país onde se aplica o individualismo, isso é uma grande vitória. Uma das maiores vitórias que a comunidade tem é entender que a terra coletiva para nós é o melhor caminho, não pensar para terra o pensamento imobiliário, não pensar dessa forma, pensar na terra como mãe, que vamos precisar dela para viver em cima, para nos sustentar até o final da nossa vida e deixá-la para quem virá. O dinheiro que a gente ganha é só para nossos filhos e irmãos. Pegou a terra e vendeu, nunca mais volta para nós, perdemos, acabou, tchau, já era. Você pega aquele dinheiro e não come, quando você morrer não vai colocar no caixão. Não vai fazer você reviver, então, a melhor vida é essa, ser amigo de todo mundo, ter liberdade, poder andar por aí, tomar banho de cachoeira sossegado, andar pelas trilhas, essas coisas que eu acho que é legal. Pescar. Não ter inimizade com ninguém. Concordar, não concordar é direito, questionar, isso acho que também é direito. É isso, acho que não devemos pensar na terra no sistema imobiliário, “Vou ter um alqueire que dá não sei quantos lotes, cada lote tantos mil, então, vai dar não sei quantos milhões, vou comprar tal carro, vou comprar um apartamento...” “O que eu faço com isso?” “Vou comprar dez, vinte apartamentos, neguinho” “Opa! o cara lá tem dinheiro, vamos sequestrá-lo.” Eu não vou ser prisioneiro do meu dinheiro, vou ter que ter fiscal tomando conta de mim dia e noite, minha casa será monitorada por câmeras para ver quem entra e quem sai. Eu mesmo crio o problema, mas aqui não preciso disto, eu ando por aí e ninguém nunca me roubou, até hoje, graças a Deus. Na atual conjuntura, nosso sangue a gente recebe. Pessoas que são ligadas à comunidade, pessoas que têm parentes aqui, que saíram para lá, recebemos. Só que tem regras, não é a mesma coisa, quando a bucha ficou difícil eles fugiram, hoje a gente já garantiu a situação. Temos aquele que não conseguiu nada e está voltando, mas também há aqueles que conseguiram apartamento, que tem uma vida boa lá fora, de repente, quer vir aqui para fazer uma casa para ficar de férias? Aí, não. Porque ele não lutou, ele não vai repartir o que ele ganhou lá fora com quem está aqui, porque o que ele adquiriu lá é dele, então, o que adquirimos aqui é nosso. Nesse caso não aceitamos. Agora, aqueles que estão lascados, que não tiveram condição, que estão sofrendo e precisam, com este caso a gente é solidário. E quem não é da comunidade também não deixamos porque aqui é uma área particular, não tem jeito. Chegamos a ter pessoas de fora que quiseram entrar, mas o povo está bem preparado e não tem jeito de entrar não. A venda de terra no passado, a gente entende de duas formas: Por exemplo, eu tinha um alqueire de terra, uma comparação, eu vendi um alqueire de terra aqui e comprei um alqueire num outro lugar. A minha venda foi justa. Mas se eu vendi um alqueire de terra aqui e não deu para comprar um metro quadrado em um lugar, quem comprou de mim me enrolou. Dentro do estado de São Paulo, dentro da disputa de terra, tem um entendimento da compra de má fé e compra de boa fé. A compra de má fé é essa compra que o cara vai lá e enrola o dono do território e se apodera da terra a troco de mixaria. A compra de boa fé é aquela que o cara queria vender e ele queria comprar e comprou num valor justo. Se for uma terra cultural e tem que devolver para o quilombo, que não é do indivíduo é da comunidade, se ele comprou de má fé ele tem que perder porque ele criou problema, desmatou, criou vários problemas para a comunidade. Igual aqui, essa área aqui, quem está nesta área vai ter que nos devolver ainda, está no INCRA, não demora. Na verdade, esse terreno é de um cara que trabalha no banco Itaú, lá de São Paulo, essa área aqui nós a teremos, porque é uma área que não pode plantar, é uma área que não tem condição, a legislação não permite o pessoal utilizar em um relevo acima de 45 graus, não permite. A área aqui que não é área agricultável, não tem água, é seco. Eles põem uma mangueira e tem boi nesses morros, e quando mata é só músculo, porque é só morro. O rapaz está aí, um cara legal, não tem nada a ver, é funcionário coitado, pior do que nós, mas o dono ele sabe, e ele não saiu, só esse um que está aqui, tem mais ou menos uns trinta alqueires de terras que ainda estão nas mãos deles... E aí, na hora que nós pegarmos essa terra teremos que recuperá-la. Ele pegou um tio velho aqui de baixo e arrendou a terra, foi um outro, arrendou a terra dele, arrendou acho que dois alqueires de terra. Esse cara foi embora e vendeu para outro, e quando o cara veio para cá veio com documento tudo na mão que tinha registrado em Eldorado e já era dono. O cara estava velho, até morreu, e assim foi passando, passou por quatro, cinco donos essa terra. E agora nós estamos com a titulação e o registro da terra, já pedimos para o INCRA e está no processo de desapropriação. Acho que não vai pagar nada ao antigo dono. Existe uma confusão com outros donos, mas sempre mudam de dono, eles estão o tempo todo vendendo isso aí. Com a gente é tranquilo, não tem problema nenhum, veio para cá um cara que não cria problema para nós, se precisar de umas caixas ele arruma, aqui no quilombo ele arruma, se precisar do trator dele, às vezes o nosso quebra, agora nós temos três, mas quando nós tínhamos um só ele arrumava, é um cara que não cria problema. A divisão da propriedade é justamente o rio. Quando eu falo em recuperar é isso, recupera o território. Tem muitas áreas que acabam sendo um passivo ambiental, enquanto você não recuperar ela é um passivo ambiental. Se o documento da terra está no nosso nome, nome da comunidade, o passivo ambiental não fica em nome do terceiro fica no nome da comunidade, porque o território tudo está titulado, tem terceiro ali dentro, mas o cara não vê isso, então esse que é o problema. Já fizemos várias recuperações de várias áreas. A gente simplesmente a abandona. Aqui é uma região que tem muita chuva, essa chuva favorece rapidamente a recuperação. Se você deixar uma área por três anos, com três anos tem madeira com dois a três centímetros de diâmetro, é muito rápida a recuperação. A Embaúva, Guarapiruvu, o Jacatirão, o Manacá, aliás, é uma madeira mole sabia? São madeiras brancas de rápida recuperação, então, são as primeiras. Depois ficam dez, quinze, vinte anos e vão secando e dando lugar para outras madeiras. Começam a secar e dar lugar para essas outras, a primeira vegetação são sempre essas plantas mais moles. Se eu deixar aquele campo ali esse ano, ano que vem o mato está com dois metros de altura. Aquele morro lá, essa mata, aí era tudo cafezal, eu conheci, e era cafezal. Quando eu era criança a gente ia prender o jacu que comia café. Finado Sérgio morava ali da parte daquele pessoal, mais na frente. Depois que ele morreu o Constantino que mora ali abriu esse pasto e abandonou. Só que já deve fazer mais ou menos quarenta anos que foi abandonado. Era um grande cafezal, de uma altura para baixo. Para lá era mata verde e é até hoje. E aqui dá para ver a divisa, o que está um mato mais branco, verde mais preto, verde mais branco para baixo, essa parte para baixo era o lugar que se fazia roça, plantavam arroz e milho. Hoje a lei do relevo não deixa roçar 45 graus, então a gente recuperou. Mas era lugar que o pessoal plantava. Eu lembro que nós íamos buscar lenha para queimar, no fogão a lenha. Eu morava aqui, e tinha cada cacho de arroz assim, bonito pra caramba. Esse arroz que nós temos aqui, segundo alguns historiadores, pesquisadores, só tem na malásia e aqui. Arroz cerqueira que dá em qualquer morro por aqui, não é arroz de várzea, dá também na várzea, mas às vezes dá melhor do que na várzea. Até caiu o pé de tão bonito que era, e ele é mais resistente à chuva, dá de cinco meses, seis meses, dependendo do lugar. Ele agüenta, não tem problema de tempo para ele, único problema de tempo para ele é para crescer, quanto mais chover melhor, depois que ele cresceu e deu o cacho acabou o problema. Então, esse lugar antigamente era tudo ocupado, era tudo roça, isto acabou com a legislação. Hoje você tem alternativa, tem a banana orgânica, certificada, vende um pouco mais caro, mas utiliza um pedaço menor de chão, o turismo que é um potencial que a gente tem, está utilizando, assim, temos outros planos, tem água que pode ser utilizado com turismo também. A banana é o carro chefe da comunidade porque turismo aqui é temporário. Agora, por exemplo, está parado, férias escolares, parou. Vai recomeçar agora, dia quatro vai ter a primeira visita do segundo semestre. O turismo não sustenta, ajuda a complementar a renda familiar, não dá para viver só de turismo, nem é de uma empresa, não é de uma pessoa, é da comunidade, então, de certa forma o dinheiro tem que chegar para todas as pessoas, de uma forma ou de outra, têm várias formas do dinheiro chegar nas pessoas, e isso que é o importante. A parte mais importante é a história, esse é o prioritário, é a maior demanda das escolas. A história vem em primeiro lugar, depois a forma de vida, como é que era antes, como que é hoje, enfim, algumas práticas da época da escravidão que a gente faz aqui com eles, algumas práticas que ainda existem e que a gente faz. Por exemplo, barreação de casa de pau-a-pique. Eles fazem. Colher arroz com canivete, de cacho em cacho, não usar colheitadeira, porque também não dá para usar colheitadeira, cortar dá, mas ninguém corta, é cacho por cacho. Caça e pesca, mostrar para eles como era a sobrevivência na época da escravidão no meio do mato, as armadilhas que o pessoal sabe fazer até hoje. Levamos os alunos no meio do mato e mostramos como são as práticas, a utilização de plantas medicinais, quais são as plantas, levamos no meio do mato e mostramos as plantas medicinais que são utilizadas. Aqui a gente é acostumado no meio do mato. Não tem muita aventura no sentido radical. Eu passei um frio daqueles um dia, dormimos no mato - tinha que cortar palmito, naquele tempo - e deu três dias de frio e nós ficamos três dias no mato, e não cortamos nenhum palmiteiro. Fomos embora, a coberta era muito ruim, e tinha fogo e aquele fogo era a garantia de aquecer o osso da perna sem ficar encarangado. Isso eu lembro, mas não tem outras aventuras, a gente está acostumado no mato e não tem problema nenhum, é tranquilo. Agora, para o turista tem muita aventura, o que para nós é normal para ele é aventura, muita aventura. Constantino tinha uma roça para lá daquele morro. Preparou um mutirão para fazer a roça, tinha mais ou menos umas oitenta pessoas. Comida feito na roça, levaram uma cangalha no burro, no cavalo, de um lado uma lata de feijão, lata de vinte litros, feijão temperado, do outro lado uma lata de arroz cozido, lata de vinte litros, isso porque era bastante gente. Em cima, um volume grande de carne feito farofa. Chegou lá e o cavalo caiu! Derramou todo o feijão! O cavalo era de Martim que já morreu, ele era o violeiro. As outras coisas não derramaram, mas o pessoal almoçou sem feijão, e quando foi de noite, ele era violeiro, tocava viola e trocava uns versos, e ele trocouum verso - quem puxava o mutirão era cunhado dele, compadre dele - ele falou algo do tipo: “Na hora do almoço comeram arroz com carne, mas foi por falta do feijão, que tinha derramado, coitado do Constantino que ficou meio avexadão, por isso toco essa moda aqui no meu violão.” Hoje o pessoal faz mutirão, mas essa música antiga acabou, não tem mais. Naquele tempo o pessoal ainda cantava, assim, travava versos, chamava de Graciana. Isso acabou não tem mais. Antigamente tinha o pessoal que tocava, e só dançava se um bom violeiro tocasse, se não tocasse não começava o baile, mas tinha uns violeiros muito famosos, morreu agora a pouco tempo, um ou dois anos que ele morreu, Martinzinho, morreu com quase cem anos. Esse tempo que estou contando eu era moleque, eu não trabalhava ainda, mas acompanhava lá a roça, comer carne cozida, almoçar junto com a turma, eu ia para roça com a turma, só que eu não trabalhava, nesse tempo era criança, mas a gente se lembra bem. Eu acho que a comunidade vai crescer daqui pra frente. Com a ponte muita gente que estava desacorçoada voltou a se animar, e com isso ele está replanejando a vida. A gente ouvia falar de pessoas que iam embora, que estava difícil, tinham dificuldade para vender a produção. Esse negócio de canoa, de balsa era uma complicação danada, uma deterioração da produção, você não podia vender a produção por um valor justo. Com a ponte você está conseguindo escoar a produção bem sossegado, e com isso estão aparecendo outros compradores que também querem comprar a mercadoria, quer dizer, as portas estão se abrindo. Eu acho que daqui a alguns anos a comunidade vai melhorar. Já temos vereador na comunidade, acho que em breve poderemos melhorar na questão política, para poder ajudar mais ainda. Tem que estar envolvido se não, não adianta. Se você não fizer o lobby político para poder puxar para região, para você ser favorecido, vai ser difícil, esperar de mão fechada, com braços cruzados, está dando varada água, como dizia meu avô. Acho que tem que ir para a luta, colocar candidato, ir para a campanha, conversar com as pessoas, antes conversa, faz o plano político, primeiro, porque tem que ser desenvolvido aquele plano que o pessoal entenda que vai melhorar a situação da população e depois se você ganhar coloca o plano em prática, corre atrás de recurso, briga com político maior para injetar dinheiro ali, mostra que aquele é o caminho, acho que é isso. Uma coisa que aconteceu que foi muito legal foi colocar o Vale do Ribeira no território da cidadania, isso foi uma coisa muito legal, porque tem recurso específico para o território da cidadania, e aí, tem que brigar para ser bem repartido o bolo porque se não fica difícil. Para nós aqui no Vale, vamos falar só no nível de município, é muito difícil. O PT ele é massacrado no município, é o menor partido que tem, não cresce de jeito nenhum, não vai para frente. Eu fiquei na presidência do PT por cinco anos, municipal, a gente não conseguiu avançar. Quando a gente elege um vereador, e tem que fazer uma bruta coligação, muito forte para poder eleger um vereador, quando você elege um vereador que não é um vereador da comunidade, que é um vereador que não tem esse envolvimento político, social, ele acaba de ganhar e muda de partido porque às vezes ele entrou ali só para ser favorecido. Deu trabalho para o pessoal perceber isso, ele filia no partido, mas ele está ali só para ganhar a eleição, e quando você coloca um candidato negro, quilombola para ser candidato, sofre uma discriminação muito forte, o racismo, na hora o cara é massacrado mesmo, depenado mesmo, não votam nele de jeito nenhum porque o cara é preto, acham que ele não é capaz, não está preparado ou não tem capacidade de ocupar aquele cargo. Isso é uma complicação. Acho que não é só aqui que acontece, eu estava conversando esses dias atrás em São Paulo na assembleia com um deputado lá, ele falou: “Nós só temos dois negros aqui, só eu e a Leci Brandão.” Essa dificuldade o nosso município tem, o próprio povo negro não vota no negro, não confia, ele escuta e acha que a palavra é aquele ditado: “Santo de casa não faz milagre.” O povo pensa ainda assim e vai demorar tempo para mudar, mas perceba que se não tiver envolvido é pior, seja ruim ou bom, tem que estar no meio, pelo menos você sabe de que forma está andando, para você se defender, criar estratégia mesmo, se não, não tem jeito. Dentro dessa leitura que faço, daqui mais alguns anos aqui vai mudar bastante, agora tem que mudar e o pessoal crescer junto, para não ficar a comunidade lá na frente com um entendimento cá atrás, tem que crescer de acordo como entendimento do povo, para ele não sofrer. Em época de eleição os cabos eleitorais da cidade dormem aqui para não deixar outro entrar, tomam conta do eleitorado com medo de outro candidato de outro partido ocupar aquele espaço, acontece um terrorismo muito forte, essa estrada fica branca de papel no chão, é complicado. Acabou a eleição ninguém te conhece mais. Na época da campanha toma café na canequinha preta, não tem problema nenhum, senta com a bunda no chão. “Tem banco?” “Não tem”. “Tem cadeira?” “Não tem.” Senta no chão nas cinzas, não tem problema nenhum, abraça qualquer um, você pode chegar suado da roça, fedendo de carvão da queimada da fogueira da roça, abraça e não te borra, mas quando ganha a eleição, pode estar perfumadinho que vira a cara e não te conhece, é triste, isso aí é complicado. A gente tem que estar por dentro disso para poder saber como encarar essa situação. Uma experiência que fiquei bastante impressionado foi quando fiz uma visita lá nos quilombos do Pará, fique na região de Oriximiná. A forma de se viver, eu não achava se poderia viver daquela forma, mas vivem, e é especificamente dos recursos naturais, não plantam arroz, nem feijão, nem milho, só plantam mandioca, a única plantação que tem é mandioca. Não sei agora, tem mais de 12 anos que fui naquela região. A comida que eles comem é peixe e carne, carne do mato, pula uma manada de porco do mato na água, que chama javali, e eles vão lá e matam oito ou dez, e repartem na comunidade. O dinheiro não tem valor, estão muito longe da civilização, vamos dizer assim, e eles conseguem viver da melhor maneira possível. São negros muito fortes. Lá pelo Rio Trombeta, que eu viajei, morei dentro do barco, visitei doze comunidades, nos primeiros três dias eu participei da coordenação do encontro deles e depois fui visitar as comunidades, colocaram um barco a minha disposição, um grande, da organização deles, com cozinheiro, cheio de redes, dava para dormir trinta, quarenta pessoas em cada barco, daqueles grandes que eles usam. E aí eu tive uma experiência, assim, com a tartaruga, eles matam cada tartaruga de setenta quilos, oitenta quilos, e eles pegam a tartaruga e tiram a casca dela, temperam toda aquela carne, limpam o bucho, não perdem nada, tripa, não perde e depois coloca ali dentro da casca e cozinha ali, faz um prato bonito, sabe? Mas eu passei apertado porque eu nunca tinha comido! E quando colocaram no meu prato a nadadeira dela eu peguei assim grudou na minha mão: “Como é que eu vou fazer?!” Eu passei um sufoco, mas também, depois do primeiro pedaço, que é gostoso, eu não tive mais problema. Tive dificuldade para colocar aquele negócio na boca porque eu nunca tinha comido! Foi uma experiência que eu achei muito bonita e importante, por que são realidades totalmente diferentes da nossa, a luta é a mesma, por terra, luta por um pedaço de chão, mas vive de uma forma diferente, e uma coisa que aqui é muito importante, o dinheiro, para eles não tem importância nenhuma, os Oriximiná recebem uma boa quantidade de dinheiro com impostos de uma empresa que mexem com bauxita, então, é muito rico o município. A cada dezesseis horas sai um navio carregado de bauxita que vai descarregar lá no porto de, não descarrega em Belém, tem uma briga política, descobri isso lá, vai lá para o porto de São Luiz, lá para o Maranhão, vai para lá, então, a cada dezesseis horas sai um "naviozão" carregado de bauxita. Então, é muito rico, tem um aeroporto da firma lá, os aviões que vão para lá, a gente para ir para lá tem que ter uma ordem aqui de São Paulo para descer nesse aeroporto, tem um único hotelzinho da empresa, foi lá que eu dormi no primeiro dia que cheguei e no último dia que vim embora, cheguei à noite e saí de manhã, então, tive que dormir lá. O prefeito dá para cada pessoa, cada um tem um barquinho pequeno e quantidade de óleo para ele navegar, mas de repente alguém usou mais e faltou óleo, eles não vendem, não emprestam, doam, vão gastando até acabar o de todo mundo, isso eu achei legal. Lá tem aquele projeto de preservação dos peixes da água, então, têm muitos peixes naquele rio, Pirarucu e outros peixes, o próprio Piracajá, a tartaruga é proibida a pesca para comércio, então, esses quilombolas ajudam a preservar e denunciam quando entra alguém para caçar. Eles podem pegar para comer, não podem para vender. Eles pegam um Pirarucu, por exemplo, um peixão que vai daqui lá, um peixão grande, não é para aquela família que pegou, eles repartem na comunidade, eles só vão pegar outro quando acabar, porque lá é só ir pegar. “Eu vou pegar um Pirarucu”; dentro de uma hora, hora e meia, ele já trás. E ele pega um só porque é um peixe grande, ele vai cozinhando na sopa, depois cozinha os ossos, fazem sopa com a farinha que eles comem que é cheio de bolotinha. Eu não gostei muito daquela farinha, mas eles gostam, cheia de bolotinha a farinha, não é igual a nossa, fininha. Uma experiência que marcou minha vida. Eu vivi uns dias lá de forma diferente da que eu vivo, isso marcou muito, carne e peixe é o que eles comem, não tem outra coisa, inclusive no nosso barco tinha um pouco de arroz, macarrão algumas carnes porque nós fomos aqui de São Paulo para um lugar chamado comissão pró-índio de São Paulo, uma ONG, fomos por intermédio deles. Tivemos um intercâmbio com eles lá, eles vieram nos visitar aqui e nós fomos para lá visitá-los. Foi uma experiência que marcou muito na minha vida. Outra experiência foi de lá para cá, acho que, antes de chegar a Brasília estava um mau tempo e o avião começou a passar por uma turbulência muito forte, que eu nunca tinha passado daquele jeito. Eu passei um apuro dentro do avião! Teve uma hora que o avião foi lá embaixo e o pessoal bateu com a cabeça no teto lá em cima. Todo aquele negócio de alimento caiu, espatifou no meio do avião e elas vieram rapidamente, levaram para lá aquele negócio. Aí o avião ficou dando uma volta lá, até mudar a rota para sair dessa frente de mau tempo. A luz estava toda vermelha, daí, a luz ficou verde e o pessoal bateu palmas, tinha acabado o sufoco! Descemos em Brasília, aqui foi feita uma escala, e todo mundo ficou contente. Eu vinha uma vez, não me lembro se foi de Pernambuco para São Paulo naquele antigo avião da VASP, aquele aviãozinho velho. Eu estava nele e sacudiam as asas. Passei um aperto, filho da mãe! Nós temos comunidades indígenas na região, nas nossas reuniões a gente convida os caciques, eles sempre vêm, sempre estamos juntos, embora seja coisa diferente, a legislação do índio não tem nada a ver com a legislação do quilombo, é diferente, mas a política é a mesma. Então, a gente dá uma mão para eles, engrossamos a luta deles, e eles também em relação a nossa. Conhecemos os caciques, eu conheço os caciques deles, não tenho como falar com o resto deles porque da maioria só o cacique fala português, o restante fala guarani, língua própria, aí fica difícil entender o que eles falam, mas estão aqui entre nós, no Pariquera tem, no Eldorado tem, estão distribuídas por aí as aldeias deles. Acho que está bom, eu já falei bastante, bem conversado. História a gente tem para uns três ou quatro dias! Eu também agradeço por poder contar um pouco da nossa história para vocês.

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