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História

Capoeira para crianças

História de: Wagner Felizardo da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/07/2021

Sinopse

Família, infância em Ribeirão Branco (SP) e adolescência em Nova Campina (SP). Projeto Guri e aulas de capoeira. Trabalhos e experiência com confecção. Paixão pela capoeira e tornando-se professor na Casa da Criança. Mudança de rotina com a pandemia de Covid-19. Experiência e mudança de vida em dar aula para crianças.

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História completa

P1 – Boa noite, Wagner, tudo bem? 

R1 – Boa noite! Tudo bem, e você? 

P1 – Tudo bem. Eu vou começar com a pergunta básica: o seu nome completo, o local de nascimento e a sua data de nascimento. 

R1 – Meu nome é Wagner Felizardo da Silva, eu nasci em Ribeirão Branco (SP), dia 01 de junho de 1994. 

P1 – Qual o nome dos seus pais? 

R1 – Meu pai se chama Amauri Felizardo da Silva e minha mãe Neuza Aparecida da Silva. 

P1 – Qual era, qual é a atividade dos seus pais? 

R1 – Minha mãe é doméstica e meu pai é mecânico, trabalha numa fábrica de calcário.

P1 – Então, eu vou começar a fazer algumas perguntas a respeito da sua infância: qual era o dia a dia na sua casa quando você era criança? Você se lembra da casa onde passou sua infância, também? 

R1 – Sim. Na verdade, eu morei, na minha infância, passei em dois lugares diferentes: uma fase eu morei em Ribeirão Branco, do 0 aos 9 anos; e dos 9 aos 17, eu morei em Campinas (SP), que é outra cidade do interior. Mas a convivência em casa, a gente era em cinco irmãos e era boa a convivência, assim, calma.

P1 – E quais os nomes dos seus irmãos? 

R1 – Tenho quatro irmãos: o mais velho se chama Alessandro, daí tem o Leandro, Jaqueline e o mais novo é Alexandre.

P1 – Então, você é o penúltimo filho, penúltimo irmão? 

R1 – Eu sou o penúltimo.  

P1 – Certo. O que você gostava de brincar, quando você era criança? 

R1 – Nossa, eu brincava de tudo! Jogava bolinha de gude, futebol, taco, esconde-esconde, pião, soltava pipa. Nossa, brincava de todas as brincadeiras que existiam: polícia e ladrão... 

P1 – E você brincava bastante na rua ou existia algum quintal onde você brincasse? Onde você brincava? 

R1 – Não, era rua mesmo. O parquinho era na rua. 

P1 – Você tinha muitos amigos nessa rua, brincava com muitos amigos, muitos vizinhos? 

R1 – Tinha. Sempre, à tarde, assim, depois das 18 horas, reunia a galera na rua. Sempre vinha bastante criança brincar. A gente brincava bastante. 

P1 – E alguém contava histórias pra você, quando você era criança? 

R1 – Geralmente entre nós mesmos, sabe, quando a gente sentava na beira da calçada, depois que brincava, a gente ficava contando histórias. Um contava uma história que ouviu do pai, outro contava a história que ouviu do vô e tal, entre crianças mesmo, a gente contava. Tinha esse hábito de sentar, se reunir na beira da calçada, à tarde, e contar histórias. Geralmente eram histórias de terror. 

P1 – Você se lembra de alguma até hoje? 

R1 – Nossa! Tinha... Falava de lobisomem, tinha daquela da loira do banheiro, essas histórias que são bem conhecidas, mesmo. 

P1 – Certo. E você teve contato com seus avós, conviveu com eles? 

R1 – Sim. Vivos, eu tenho uma avó e um avô. A minha avó materna e o meu avô paterno. Eles são vivos. Mas eu tive convivência, contato com eles na infância. Pouca, mas tive, porque eles moravam mais longe de mim, né? Eles moravam em outra cidade. Daí a gente não tinha uma condução pra poder estar indo sempre, geralmente era mais uma ou duas vezes por ano. Mas a gente tinha, sim, contato.     

P1 – E em que cidade que eles viviam? 

R1 – Eles vivem ainda em Ribeirão Branco. O meu avô paterno mora num bairro e minha avó materna mora na cidade. 

P1 – Você tinha algum sonho de infância? Tipo: “Quando eu crescer, eu quero ser tal coisa”? 

R1 – Sim. Eu acho que a maioria das crianças, geralmente os meninos têm vontade de ser policial quando crescer, né? E eu tinha essa vontade também. Há algum tempo, eu estava cursando pra fazer a prova. Na verdade, eu fiz duas vezes o concurso da PM (Polícia Militar). Daí eu acabei ‘batendo na trave’: por causa de um ponto, meio ponto, eu não passei. Daí eu desisti de fazer, porque daí apareceu a oportunidade pra eu trabalhar na escola. Daí é uma coisa que é minha prioridade hoje e eu acabei deixando de lado, um pouco, esse sonho. 

P1 – A sua família era mesmo de Ribeirão Branco ou seus pais vieram de algum outro lugar?   

R1 – Até onde eu sei, eles são naturais de lá, mesmo, do interior, de Ribeirão Branco. Eles mexem muito com lavoura, com colheita de tomate, esse tipo de coisa, e são de lá mesmo. 

P1 – E lá você tinha contato, em Ribeirão Branco, com outras pessoas da família? Com tios, primos... 

R1 – Sim, tinha uns primos que a gente brincava lá, mas eu vivi até os 9 anos, só, [em Ribeirão Branco], então foi a primeira infância ali. Tenho pouca recordação, mas eu lembro que tinha bastante primo que a gente brincava no quintal e tal, mas é bem pouco. 

P1 – E falando um pouquinho sobre o início da sua vida escolar, qual a primeira lembrança que você tem de ter ido pra escola ou de algum evento que aconteceu na escola?

R1 – Minha primeira recordação é quando eu morava em um sítio, em Ribeirão Branco. Era uma salinha e bem simples, uma sala só pra quatro séries. Tinha a primeira, segunda, terceira e quarta séries numa sala só. Daí a professora fazia grupinhos separados: num cantinho o primeiro ano; segundo ano, terceiro ano; e quarto ano. Ela dava aula pras quatro turmas de uma vez só. Isso, no sítio. 

P1 – Então, em Ribeirão Branco, você morava em um sítio? 

R1 – Sim, morava em um bairro. 

P1 – E como você ia pra escola? Era muito longe de onde você morava, ou era perto? 

R1 – Não, era pertinho. A gente ia a pé, mesmo. Iam várias crianças ao mesmo tempo, juntas, que é um bairro pequeno. Então, numa sala, ali, tinha umas vinte crianças, mais ou menos, de idades variadas, acho que de 7 a 9, 10 anos. Mas a gente ia a pé. 

P1 – Certo. E com 9 anos você saiu dessa cidade, foi morar em outra cidade. Como foi essa mudança pra você? Você se lembra [de] alguma coisa que te marcou nessa mudança, no início? 

R1 – Era novidade. Que a gente morava no sítio, né, daí a gente partiu pra um lugar bem mais longe, longe dos amigos que a gente conhecia, pra ir pra um lugar que você não conhecia ninguém. No começo, é difícil, né? Toda mudança é difícil, no começo. A gente acaba se acostumando depois, mas no começo sempre é difícil. 

P1 – E era um lugar mais urbano, mais cidade mesmo, ou ainda era uma área um pouco rural, como Ribeirão Branco?  

R1 – É uma cidade pequena, [mas] não chegava a ser rural. Uma cidade com, hoje, acho que está com uns quinze mil habitantes. É uma cidadezinha pequena, do interior, mesmo, mas nada de cidade grande. Bem simples também.

P1 – E aí eu imagino que você tenha mudado de escola também, né, tenha se matriculado em uma outra escola. Foi em Nova Campina (SP), você disse, né, a cidade? 

R1 – Isso.

P1 – Está certo. E como foi, então, essa entrada numa outra escola, numa outra cidade? Que recordações você tem desse período? 

R1 – Tenho boas recordações. A gente [se] mudou pra Nova Campina [quando] eu estava no terceiro ano. Eu me lembro que todo dia que chegava de manhã, reunia todas as crianças na escola, assim, no pátio, pra cantar o Hino Nacional e fazer uma oração. Era bem legal. Tinha muita brincadeira, fiz bastante amizade. Bem interessante. 

P1 – Era perto, também, de onde você morava? 

R1 – Sim, era perto. Íamos eu e meus irmãos, juntos, na escola. E eu era o penúltimo. Então, o pequenininho não ia ainda, e íamos nós quatro juntos. 

(10:44) P1 – E você tinha alguma matéria que você gostava, na época, mais? Ou um professor que te marcou, nesse período do ensino fundamental?

R1 – Eu gostava muito de Educação Física, jogar bola. Eu acho que a grande maioria das crianças, dos meninos, gostam de Educação Física. Mas eu sempre, também, gostei muito de Matemática. 

P1 – Certo. E você tinha, fora da escola, que tipo de convivência, nesse período? Você também brincava com as crianças na rua, em Nova Campina? Você tinha alguma atividade no bairro, alguma coisa que você fazia? 

R1 – Então, que nem eu falei pra você aquela hora: essa parte da brincadeira na rua, de contar histórias e tal, essas brincadeiras foram em Nova Campina. Quando eu morava no sítio, não tinha essas brincadeiras. Eu fui conhecer essas brincadeiras em Nova Campina. Daí, na zona urbana. Na zona rural, a gente não brincava, porque nem tinha iluminação direito lá, no bairro. Então, à noite, quando escurecia, ficava um breu. 

P1 – Entendi. E depois, passando, então, esse período do ensino fundamental, você já emendou no ensino médio? Foi numa escola na mesma cidade? Como foi isso? 

R1 – Eu cursei o fundamental e o médio na mesma escola. Só muda, acho, o nome, né? Porque daí é “Fundamental” o nome da escola. Acho que muda o nome, né, “Fundamental” e “Ensino Médio”, mas é a mesma escola e base.

P1 – E o que mudou pra você, nesse período? Você já [estava] chegando na adolescência, como foram as alterações de hábitos? Conheceu outras pessoas ou manteve as mesmas pessoas do ensino fundamental como amigos? O que você gostava de fazer nesse período da sua adolescência? 

R1 – Eu mantive os mesmos amigos, porque a gente foi indo juntos, né, pro ensino médio. Do fundamental pro médio, os amigos continuaram os mesmos e a gente se via sempre na escola, então não mudou muita coisa. São mais os hábitos que mudaram: eu começava a ir brincar em lugares diferentes, mais longes, que nem: Nova Campina tem bastante grutas e cachoeiras, e a gente gostava sempre de estar lá explorando essas cavernas que tem lá. Mudou mais o hábito do que os amigos. 

P1 – Entendi. E a sua relação com os seus irmãos? Eles já eram mais velhos que você. Houve alguma alteração nesse período, ou vocês mantinham também proximidade, continuavam saindo juntos? 

R1 – Não. Com os meus irmãos, era só no começo, pra ir pra escola, no fundamental, mesmo. Depois, a gente não... Que irmão briga muito, né? Então, a gente não ‘se batia’ muito, não. Eu tinha os meus amigos, eles tinham os deles e a gente ficava meio assim: dentro da casa a gente era família, mas a gente não brincava junto, não. Dificilmente, a gente saía pra algum lugar junto, porque sempre um queria chamar atenção do outro, e ninguém gosta, né? (risos) 

P1 – E em que período surgiu a capoeira pra você?   

R1 – Nova Campina tinha um projeto social que [se] chamava Projeto Guri e lá tinha aula de capoeira, nesse projeto. Minha mãe me colocou pra participar. Daí eu tive um contato de alguns meses, sabe? Eu tinha acho que uns 12 anos. Daí eu fiz alguns meses [de] capoeira, esse projeto foi cancelado e a gente perdeu as aulas. O primeiro contato que eu tive com a capoeira foi com 12 anos. 

P1 – E depois desse encerramento que você teve, nesse período, depois de alguns meses, quando você voltou a ter contato com a capoeira? 

R1 – Depois, na fase adulta, que aí eu saí de casa, fui morar em outra cidade, sozinho. Daí, com 18 anos, eu comecei a praticar em Taguaí (SP), numa academia. Só depois dos 18 anos. Hoje já faz nove anos que eu pratico capoeira, na cidade que eu moro hoje, Taguaí. 

P1 – E como foi essa sua mudança de cidade? Foi depois do ensino médio que você saiu de casa e veio pra Taguaí? 

R1 - Na verdade, eu fiz 17 anos e queria ter independência, queria ser independente. Daí minha mãe me autorizou a sair de casa, com 17 anos. Eu mudei pra Taguaí e vim morar com uns amigos. A gente morou um mês em cinco amigos. Só que esses amigos desanimaram, porque a gente levou um calote de uma fábrica que a gente trabalhava. O rapaz, no dia de receber, fechou as portas e encerrou o serviço. Aí os meninos desanimaram e voltaram. Daí eu fiquei sozinho um tempo. Até depois, eu consegui encontrar outro amigo em Taguaí, aí a gente ficou morando junto, dividindo aluguel juntos. Daí consegui me firmar mais em Taguaí, não voltei embora, mas os meus amigos que vieram comigo ficaram um mês e voltaram pra trás. Eu fiquei e estou até hoje aqui.

P1 – Esse primeiro emprego, o qual você veio pra Taguaí com seus amigos e acabou fechando, foi seu primeiro emprego, ou você teve algum trabalho antes?      

R1 – Não, tive vários. Na verdade, eu trabalho desde cedo. Desde os 11, 12 anos eu já trabalhava, só que não em emprego registrado, tal. Eu vendia salgado, picolé, sucata. Sempre gostei de me virar. Meu primeiro emprego... Eu trabalhei na Voz também, um tempo. [Na] fase da minha infância foi mudando de serviço, mas dos 12, 13, 14 anos... Dos 12 aos 13, mais ou menos, eu vendia picolé na rua, sucata, salgado. Daí, dos 14 aos 15, eu comecei a ir pra roça: no tomate, no pepino. Com 16 anos, eu fiz um curso. Na cidade que eu morava, dava um curso de confecção, de seis meses. Eu fiz esse curso [por] seis meses, depois comecei a trabalhar na fábrica lá. Me contrataram na firma, pra trabalhar lá. Trabalhei mais alguns meses e daí que eu decidi mudar pra Taguaí, pra trabalhar com isso mesmo: confecção. Que Taguaí é a capital da confecção, né? A cidade que eu moro hoje é a capital das confecções, emprega muitas pessoas, tem muito emprego aqui nessa cidade, mas voltada pra área da confecção. 

P1 – Certo. E depois dessa empresa que fechou, você conseguiu arranjar outro emprego na área de confecção? 

R1 – Sim. Taguaí é muito fácil, pra quem sabe costurar ou quem não tem medo de trabalhar. Você sai de um serviço e na mesma hora você está entrando em outro. Já aconteceu comigo de sair de um emprego [e] depois do almoço já estar em outro emprego, que aqui não falta serviço. Então, foi fácil! Quando essa fábrica fechou, já, no outro dia, eu estava em outra confecção, trabalhando. 

P1 – E o que você fazia no seu trabalho de confecção? Durante esse período que você trabalhava, que tipo de atividade você fazia? 

R1 – Eu era costureiro. Fazia a parte de costura, de todas as máquinas. [Em] quase todas, na verdade, eu trabalhava. Fazia bastante serviço na fábrica, bastante operações - que na confecção são operações. - A calça vem toda desmontada: daí vai passando de mão em mão e vai montando, até chegar no final [e] estar pronta. A gente vai aprendendo [sobre] máquinas diferentes. Mas eu trabalhei nove anos nas confecções, [então] deu pra aprender bastante coisa, bastante máquina.     

P1 – Então, mais ou menos nesse período, quando você foi pra Taguaí, você voltou a trabalhar com confecção e também voltou a praticar a capoeira, certo? Numa academia. 

R1 – Isso mesmo. 

P1 – E você chegou a ter alguma atividade… Por exemplo: alguma competição, alguma coisa nesse sentido, em relação a capoeira? Ou era só um treino mesmo que você fazia na academia, que você fazia toda semana? 

R1 – A capoeira, a gente treina toda terça e quinta-feira, duas vezes por semana. E, geralmente, tem eventos de outros mestres de capoeira que a gente pega e viaja. Vai, faz, participa do evento, onde esse tal mestre gradua os alunos dele e a gente participa da festa da graduação. Esses campeonatos, no caso, que a gente participa, [são] eventos. Campeonatos, mesmo, de capoeira, eu não participei. São mais os eventos que tem. A gente viaja muito com a capoeira, vai pra vários estados: Paraná, Curitiba, São Paulo. Sempre tem evento longe, a gente pega e vai. A gente é convidado e ou lota uma van, um micro-ônibus ou pega o carro, divide os gastos e sai [a] viajar. 

P1 – E o que te atraiu na capoeira, Wagner? Você começou a fazer com 12 anos, foi uma questão de pegar gosto? Com o que você se identificou? 

R1 – Ah, eu gostei de tudo, cara. Gostei da parte dos instrumentos, daquela energia boa que aquela bateria transmite, sabe? Dos saltos mortais. Da parte da luta, do companheirismo... A gente faz muita amizade. Tem muita disciplina dentro da capoeira. Tudo isso acaba atraindo. As crianças, geralmente, gostam muito da parte das acrobacias, né, dos saltos, da instrumentação. É mais o que atrai. 

P1 – Certo. E, depois disso, você acabou tendo contato com a Casa da Criança. Como foi o seu primeiro contato com a Casa?  

R1 – Então, eu trabalhava... Faz dois anos, já, que eu trabalho na Casa da Criança. Um amigo meu, que conheço, [me indicou. Ele] é professor de dança e educação física lá. A diretora da escola entregou na mão dele, pra ele achar um profissional da capoeira pra dar aula lá. [Aí] que surgiu uma vaga, uma oportunidade. E ele veio atrás do meu mestre, que [se] chama… O nome dele é Alemão. - O apelido dele é Alemão, né? O nome dele é Evandro. - E ele me sugeriu, indicou pra Casa da Criança. Eles queriam um professor de capoeira e eu já estava graduado, há um tempo, podia dar aula, e ele me indicou. Porque na academia eu sempre, também, ajudei a dar aula pras crianças. Daí ele me indicou, esse meu amigo, eu o conhecia também, o Wiliam, veio até mim e marcou uma reunião com a diretora lá da Casa da Criança, com a Iracema. Isso faz dois anos. Daí eu fui lá fazer uma reunião com ela - ele estava junto, deu uma força; tinha mais um amigo meu também, que foi junto - pra conversar. Faz dois anos. 

P1 – E como foi esse início? Você falou que você já tinha uma certa experiência na academia, de também dar aula pras crianças, de também colaborar ali. Como foi pra você começar a dar aula pras crianças, na Casa da Criança? Como isso foi se desenvolvendo? 

R1 – No começo, foi difícil, porque trabalhar com criança você precisa muita paciência, né? Ainda mais que ali, na escola, os pais entregam pra escola o que eles têm mais importante na vida deles, né, que são os filhos. Eles esperam que a gente trate os filhos deles com todo carinho e respeito possível. E é obrigação da gente fazer isso mesmo. Tem momentos que você, às vezes, tem que chamar atenção, só que tem que ter o tom certo: não pode alterar a voz com a criança. Não pode, de forma alguma, assustar a criança. Difícil trabalhar, no começo mesmo, que você não tem muita experiência. Tem que ter muita paciência. Mas foi rápido, o Wiliam me ajudou bastante, já trabalhava lá há um tempo, me aconselhava. E foi rápido, as crianças gostaram muito, também, da aula. Então, eu não tive muito trabalho pra conseguir ensinar capoeira lá. 

P1 – E qual a faixa etária das crianças as quais você dá aula? 

R1 – Eu dou aula pras crianças de 0 a 6... Meses. 

P1 – Desculpa, cortou um pouquinho. Você pode repetir? 

R1 – É de 0 a 6 anos e 11 meses.     

P1 – Ah, entendi. Tinha cortado os "6 anos". Desculpe. E como funcionam as oficinas de capoeira, as aulas de capoeira, na Casa da Criança? Como vocês... Os horários, quanto tempo dura? Me conta um pouco os detalhes dessas aulas. 

R1 – As minhas aulas são das oito às cinco, de segunda a sexta-feira. Daí eu pego turmas, né? Tem uma sala que eu dou aula. São cinquenta minutos de aula. Cada turminha vai na minha sala, fica cinquenta minutos, faz a minha aula, aí sai. Vem outra turminha, e assim vai o dia todo. Dou em torno de oito aulas por dia. 

P1 – Mais ou menos quantas crianças por aula, Wagner? 

R1 – Em período normal, sem pandemia, é em torno de 25, trinta crianças, 35 crianças. Agora, com a pandemia, reduziu bastante, né? Cinco, no máximo dez crianças por sala. 

P1 – Certo. E pelo que a gente tem de informação, isso fica dentro de um projeto chamado "Brincando e Aprendendo''. Eu queria que você me contasse um pouquinho como é esse projeto da Casa da Criança, [e] que outras opções ele inclui. 

R1 – O "Brincando e Aprendendo" inclui, tem muitas... Não sei se você sabe, mas a Casa da Criança tem muitas aulas diversificadas, que são custeadas por projetos. Lá temos aula de inglês, educação física, dança, balé, artes, música, capoeira. São essas sete aulas, se eu não me engano. Tem fisioterapeuta, nutricionista, dentista, assistentes sociais. Fora as pedagogas, que cada sala tem a sua pedagoga. Creio eu que esse projeto "Brincando e Aprendendo" custeia, não sei se são todos, mas a grande maioria das aulas diversificadas. 

P1 – Entendi. E você vê a resposta das crianças, que se encaixam em vários cursos ou elas têm as preferências delas? Como isso funciona? 

R1 – A grande maioria aceita todas as aulas, porque a gente planeja aulas pra elas gostarem. Nossas aulas são voltadas ao lúdico, ao pedagógico. Então, a gente sempre volta as nossas aulas pro infantil, pra elas gostarem. A gente ensina brincando, e a grande maioria gosta de todas as aulas. Dificilmente, a criança não quer fazer uma aula, às vezes, só quando não está muito bem. Mas, no geral, mesmo, todas as aulas são bem recebidas pelas crianças. 

P1 – E você começou, nesse meio tempo, a fazer faculdade de Educação Física? Ou você já estava fazendo antes de entrar, de começar dar aula na Casa da Criança?      

R1 – Não. Eu sempre tive vontade, mas nunca tive coragem de fazer. Sempre colocava obstáculos no caminho, falava às vezes que eu não ia conseguir fazer, porque é corrido [e] caro. Sempre acabei empurrando e nunca fazia. Daí, quando eu entrei lá pra Casa da Criança, eu vi aquele pessoal todo estudando, a grande maioria fazendo faculdade. Daí, isso me deu, despertou a vontade também de correr atrás, né? Foram meses [lá] e eu já comecei a cursar Educação Física. Alguns meses trabalhando lá, já comecei a cursar. 

P1 – E o que você acha que mudou na sua percepção de atividade física, depois que você começou a fazer o curso? O que você acha que isso mudou em você? 

R1 – Mudou bastante a minha visão, né? Porque, na capoeira, a gente envolve a parte de instrumentação, de movimento, expressão corporal, o contexto histórico. Daí, eu cursando Educação Física, já engloba outras modalidades, né? A gente começa a aprender sobre o basquetebol, voleibol, handebol, xadrez, dama. São outras áreas, né, pra gente trabalhar com as crianças. Mas, no momento, eu só estou estudando, né? Faz um ano que estou fazendo, então eu ainda não estou lecionando Educação Física. Eu trabalho só com a capoeira, mesmo. 

P1 – Certo. E essa faculdade fica na mesma cidade? Fica onde você está agora, Taguaí?  

R1 – Não. É uma faculdade de Taquarituba (SP), onde eu trabalho. A Casa da Criança, a sede dela é em Taquarituba. E a faculdade que eu trabalho é virtual, à distância, mas ela fica em Taquarituba. 

P1 – Certo. E como a pandemia acabou afetando pra você o seu trabalho, não só na Casa da Criança, mas também a sua faculdade? Houve alguma alteração? O que isso acabou impactando pra você? 

R1 – Na escola impactou bastante, porque é muito diferente você dar aula olhando pras crianças, ensinando as crianças, e fazer uma vídeo aula, pra mandar pras crianças verem. Não é a mesma coisa, né? Você dar aula "online" e presencial é muito diferente. Você não sente a energia das crianças, não está ali vendo se ela está fazendo, ou não está fazendo. Agora, na faculdade, não mudou muita coisa, porque já é à distância.Daí não mudou muito, mas nas minhas aulas mudou bastante. Ter que dar aula à distância é muito difícil. 

P1 – Você mantém esse esquema de aulas "online" pras crianças até agora ou houve um retorno às aulas presenciais, com menos alunos ou algo nesse sentido? 

R1 – Então, no momento, agora, em Taquarituba, houve um "lockdown" e a escola teve que dar uma pausa. Mas, no momento, a gente está trabalhando... A gente vai trabalhar com as crianças com uma porcentagem pequena e a porcentagem que fica na Casa [da Criança]; e a gente faz vídeo aulas e manda pra elas poderem fazer na casa [delas]. Então, a gente está trabalhando com crianças e faz vídeo aulas pra mandar pras crianças na casa, que não estão indo. Às vezes, o pai não assinou o termo de responsabilidade ou não está à vontade pra mandar a criança. Daí, as crianças que optaram [por] ficar em casa, fazem a aula à distância. E as [crianças] que estão presencialmente fazem aulas [na Casa da Criança], com a gente. 

P1 – E as crianças que estão fazendo essas aulas "online", têm gostado, reagido bem a essa nova forma de ter aula? 

R1 – Até que temos [um] bom retorno. Não são todos que fazem, porque a criança não tem tanta paciência, igual adulto, de ficar olhando a aula e tendo que reproduzir depois. As crianças são hiperativas. Mas temos uma porcentagem que devolvem as aulas pra gente. 

P1 – Certo. Então, eles comunicam pra vocês, devolvem as aulas, comunicam que eles estão fazendo os exercícios, mostram que estão aprendendo? Vocês ainda conseguem manter essa relação, de alguma forma? 

R1 – Sim. A gente pede, toda aula, um retorno pros pais, com fotos e vídeos, pra gente poder estar, também, passando pra diretoria, pra coordenação, pros parceiros da escola. Mas as crianças sempre mandam retorno das aulas, das atividades. 

P1 – Certo. E qual você acha que é o impacto pras crianças, desse projeto? Você vê um resultado, uma coisa que elas gostam, uma evolução nas crianças? O que você acha desse projeto? 

R1 – O projeto ajuda muito as crianças. Eu vejo muita evolução das crianças que estão lá e as que entram. As que estão são um pouco mais avançadas, têm mais ritmo, mais coordenação, são mais espertas, digamos, porque elas são muito incentivadas, tem muita informação pra elas. Estão o tempo todo sendo estimuladas com aulas de balé, de educação física, de dança, de inglês, de arte, música, capoeira. É muita informação pra elas. Elas conseguem absorver essas informações, e você vê que são crianças inteligentes.  

P1 – E passando um pouco pra sua vida pessoal, foi nesse período que você começou a namorar, da sua entrada na escola, [ou] foi depois? 

R1 – Não. Com a minha mulher, faz sete anos. Desde 2015 eu estou com ela. Já faz um bom tempo. Foi bem antes de eu entrar na escola. 

P1 – E como vocês se conheceram? Foi em Taguaí, mesmo? Foi antes disso? 

R1 – Não, foi em Taguaí, mesmo. Ela mudou pra Taguaí e, por coincidência, foi perto da minha casa. E a gente se conheceu. 

P1 – E há quanto vocês estão morando juntos? 

R1 – Morando juntos, faz uns quatro anos. 

P1 – E vocês têm projetos de ter filhos? Algum projeto que o casal tem pro futuro? 

R1 – Sim. Inclusive, a gente já tem um filho. Temos um menininho de 1 ano e 8 meses. Ela já tem [um] filho de outro casamento - que eu crio já faz um tempo também, que é meu filho - e a gente tem um menininho de 1 ano e 8 meses, que é meu filhinho que está dormindo agora, Arthur. 

P1 – Ah, certo. O Arthur, então, é o seu filho mais novo. E o nome do mais velho?   

R1 – É Pedro Henrique. 

P1 – Pedro Henrique. Certo. E vocês moram longe de onde você dá aula, da Casa da Criança? É um trajeto longo pra você chegar lá? 

R1 – É, porque eu moro em outra cidade. Eu resido em Taguaí e trabalho em Taquarituba, são vinte quilômetros. Daí eu vou todo dia de moto, pro serviço. 

P1 – Certo. Leva mais ou menos quanto tempo pra você chegar lá? Só pra gente ter uma ideia aqui, que a gente não sabe muito bem a distância. 

R1 – Então, são vinte quilômetros. Daí eu levo em torno de vinte minutos, de moto. Todo dia eu vou trabalhar de moto. 

P1 – E como foi ser pai, pra você? Como você se sentiu com o fato de ter se tornado pai?

R1 – Ah, melhor coisa do mundo! Eu sempre tive vontade, sempre gostei de criança. Até por isso que eu me dou bem lá na escola, trabalho com as crianças porque eu gosto de estar com elas, de estimular, brincar. Ser pai é a melhor coisa do mundo!

P1 – Eu gostaria que você me contasse, primeiramente, o que a capoeira significa pra você. 

R1 – A capoeira, pra mim, é um estilo de vida. Hoje, eu não consigo viver sem capoeira. Faz bem pro meu psicológico, pro corpo, pra tudo. Mente. Pra mim, capoeira é um estilo de vida. 

P1 – E que efeito teve você ter ido trabalhar na Casa da Criança? Você acha que isso mudou a sua percepção em alguma coisa? Mudou sua vida, de alguma forma? 

R1 – Ah, mudou muito minha forma de viver, de pensar. Eu trabalho com pessoas - que nem eu comentei aquela hora - que procuram, almejam um ensino superior, estão sempre batalhando por algo maior, né? Quando eu trabalhava na confecção, a gente trabalhava… Não tinha, a gente não olhava pro lado: era só aquilo ali. E você não passa daquilo ali. Você vai, não consegue ter um cargo melhor, uma condição financeira melhor. Agora, lá dentro da Casa da Criança, a gente é bem valorizado pela escola, eles estão sempre dando cursos pra gente se especializar, sempre investindo nos professores. Mudou muito a minha forma, não só de ver, e sim, de pensar também. Bastante. Eu creio que eu evoluí muito como ser humano, como pessoa, trabalhando lá com aquela galera, com aquelas crianças.    

P1 – E o trabalho com as crianças também ajudou, você acha, em algo? Talvez, sei lá, te preparar pra você ser pai, alguma coisa assim? 

R1 – Sim. Até quando minha mulher estava grávida, eu tinha o hábito de ir na sala dos bebês, no horário do almoço, ficava lá tocando berimbau pra eles, pros bebezinhos, e via a reação deles. Eles ficavam tudo quietinhos, observando, ouvindo. Eu sempre gostei de criança. Eu ia lá e ficava fazendo perguntas pra auxiliar que cuida dos bebês, como ela faz quando o bebê está nervoso, chorando. Daí eu aprendi muita coisa. Até hoje eu aprendo muita coisa lá na Casa da Criança, que me preparou pra ser pai. 

P1 – Então, a gente vai agora pras últimas perguntas: quais são as coisas mais importantes pra você, hoje em dia? 

R1 – A minha família. 

P1 – Certo. E quais os seus sonhos pro futuro? 

R1 – Então, eu pretendo me formar em Educação Física e, daqui alguns anos, abrir uma academia de artes marciais. Continuar trabalhando com a capoeira, na Casa da Criança, mas abrir uma academia de artes marciais, que eu vivo da capoeira, mas eu pratico outras artes também. Eu faço jiu-jitsu também, que há algum tempo estou fazendo. E, futuramente, pretendo abrir uma escola de artes marciais pra eu trabalhar à tarde, à noite e de dia dar aulas com a capoeira ou com educação física. 

P1 – Tem algo que você queira dizer, que eu não tenha perguntado? Algum aspecto da sua vida, algum trecho da história que a gente acabou, no bate papo, não entrando, que você gostaria de comentar? 

R1 – Não. Que eu me lembre, não. No momento, não tinha alguma coisa que passou… Foi bastante coisa, então eu não consigo lembrar de alguma coisa que ficou em branco.

P1 – Está certo. Então, vamos pra última pergunta: como foi contar a história da sua vida pra gente? 

R1 – Foi diferente. Fico um pouco nervoso, que vai falando com pessoas que a gente não conhece e tal, mas também foi uma reprise: passou um filme na minha cabeça. Fui recordando coisas que a gente acaba não falando o tempo todo nesse assunto, e você recordar coisas lá do passado é bem interessante. 

P1 – Então, em nome do Museu da Pessoa e do projeto [da] CPFL, nós agradecemos seu depoimento. Muito obrigado! 

R1 – Eu agradeço o convite, tá? Fiquem com Deus, vocês também. Muito obrigado!

[Fim do depoimento]

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