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História

Capela Santa Luzia

História de: João Ivo Caleffi
Autor: João Ivo Caleffi
Publicado em: 13/12/2019

Sinopse

Minha homenagem a Capela Santa Luzia, a capela da minha infância, de doces memórias.

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História completa

Escrever sobre a Capela Santa Luzia, assim como sobre a escolinha rural Isolada Getúlio Vargas, da estrada Marialva quilômetro dez, é para mim uma grande emoção, afetividade, amor mesmo. Traz-me belas recordações afetivas, de uma época que vivi ali minha infância, marcou-me profundamente. Está marcado na minha memória. Tudo ali é recordação afetiva. O ambiente, a natureza que nos envolvia, o terreno, a paisagem, a geografia, o ar, a chuva, o sol que iluminava a todos, as pessoas, as construções, a vida que explodia, enfim, tudo é agora recordações, lembranças afetivas, memórias vivas. Lembranças de vida vivida. Vida plena vivida no seu em torno, que ficou em minha alma, na minha memória, grudou em mim e não sai mais, faz parte dos momentos bons que vivi, quem sabe os melhores de toda uma vida. Por isso, eu tomo a liberdade e a coragem, de escrever singelamente, sobre a Capelinha Santa Luzia e sobre a minha escolinha da beira da estrada Marialva, da curva da estrada, ali no quilômetro dez, como era conhecida por todos, do dez. Por isso, que, se alguém por ventura ler este texto, que escrevo, em homenagem a Capela Santa Luzia e a minha escolinha, tem que levar isso em consideração, esse amor desmedido, para poder tentar entender, tem que ler de peito aberto, de coração aberto, com a alma. Tem coisa que a gente só entende com o olhar do amor. É da minha parte, uma relação de amor profundo, que só quem passou por experiência parecida, pode compreender, em toda sua profundidade. A Capela Santa Luzia, é para mim, um símbolo de um tempo bom de minha vida. Não sei exatamente o ano que ela foi construída, mas, provavelmente, foi lá pelo início da década de 1960, início da década que eu também nasci. Nem sei porque foi consagrada em homenagem a Santa Luzia, santa protetora dos olhos. O que sei é apenas que vivi ali , em seu em torno, no em torno da capelinha. Tenho lembranças desde de muito novo, ela sempre foi uma referência para minha família, para toda a comunidade, que vivia ali no seu em torno. É uma capela muito simples, feita de alvenaria. Fica localizada bem na curva da estrada Marialva, no quilômetro dez, estrada que vem da cidade de Marialva, passa em frente a capelinha e segue adiante, em direção aos distritos de Aquidaban e de São Miguel do Cambuí. A Capela fica bem na curva da estrada Marialva, no centro de uma pequena comunidade, um verdadeiro patrimônio. Local que todos frequentavam, ela era o centro de tudo, a comunidade girava em seu em torno. Ali tinha também uma escolinha rural, a escola Municipal Rural Isolada Getúlio Vargas, além de uma venda de beira de estrada, que era bem movimentada, uma cancha de bocha, um grande campo de futebol, onde sempre tinha torneios, ao seu lado havia um grande salão de festas. Pelo menos uma vez por ano, havia uma grande festa ali, com baile, churrasco, e tudo que uma festa popular tem direito, que o camponês sabia fazer. Nós participávamos sempre. Minha família, assim como a maioria dali, era descendente de imigrantes italianos, portanto católicos. Não perdia uma festa de jeito nenhum. Nosso sítio ficava a uns dois quilômetros de distância da Capela Santa Luzia. A Capela Santa Luzia foi construída com a ajuda de toda a comunidade. Geralmente, uma vez por mês o padre rezava uma missa ali. Lembro, que o Cônego Vicente Magalhães Teixeira, rezava missa sempre que podia na capela. Ele era um homem grande, forte, chamava a atenção das crianças, mas era afável, parecia ser um homem muito bom. Lembro das missas que Cônego Vicente, rezava ali na nossa Capela Santa Luzia. Toda a comunidade se reunia na capela, ficava lotada, muitas pessoas tinham que participar da missa em pé, até de fora da igrejinha, pois a capela era pequena, para acomodar tanta gente, mas ninguém reclamava. Era lindo de ver, era uma festa. O Cônego Vicente no dia três de janeiro sofreu um acidente, com seu fusca, quando estava voltando para Marialva, para a Paróquia Nossa Senhora de Fátima, onde ele era pároco. A Paróquia Nossa Senhora de Fátima era a igreja matriz, da qual pertencia a nosso Capela Santa Luzia. O acidente ocorreu no quilômetro oito da estrada Marialva, bem na curva da estrada, na curva do oito, como era chamada, perto da venda do oito, perto da máquina de beneficiar arroz, trigo, milho, de propriedade da família do senhor Clemente Carabelli. Era o dia três de janeiro de 1972. Todos ficaram muito tristes. Outro acontecimento que ficou na minha memória, foi a visita dos Missionários Xaverianos, que foram lá na Capela Santa Luzia, realizar uma semana de uma Missão Evangelizadora. Lembro bem, eram vários missionários. Todos com suas batinas pretas. Faziam pregações para os camponeses e para as suas famílias, rezavam terços, missas, faziam benzimentos com água benta, realizavam confissões e sessões de conversão. Não esqueço, que no encerramento da Semana da Missão dos Missionários Xaverianos, lá na nossa Capela Santa Luzia, até o bispo Dom Jaime Luiz Coelho, foi lá rezar uma missa campal, de encerramento da Missão Xaveriana na capela. Tinha muita gente, uma verdadeira multidão de camponeses. Foi uma missa longa, como era costume ser as missas rezadas por Dom Jaime. Teve até uma procissão, pela estrada Marialva. Caminhamos com velas acesas na mão, cantando hinos, os dois quilômetros entre a Capela Santa Luzia até a venda do quilômetro oito. Chegando lá, voltamos até a Capela Santa Luzia. Dom Jaime, terminou a missa, abençoando uma imensa cruz de madeira, feita de peroba maciça, pelos camponeses, pela comunidade Santa Luzia. Era uma cruz enorme. Ela foi levantada por muitos homens, bem perto da estrada Marialva, bem na curva da estrada, quase em frente a capela. Toda a comunidade estava lá, vendo levantar a cruz enorme, no entorno da imensa cruz de madeira. Foi levantada com o esforço de todos. O Bispo Dom Jaime Luiz Coelho, estava no meio do povo, benzendo a todos, benzendo a enorme cruz de madeira. A enorme cruz, bem no centro da comunidade, era chamada, ficou conhecida por todos, por toda a comunidade de Santa Luzia, de cruzeiro. Lembro, que havia uma frase escrita no alto da cruz enorme, era uma cruz preta, a frase foi escrita em letras garrafais de tinta branca, bem visível, dizia assim: "Salve a Tua Alma." Todos que passavam por ali podiam ver, ler. Esse cruzeiro virou um símbolo da comunidade Santa Luzia. Um símbolo para todos. Quando minha família mudou-se dali, do nosso sítio, lá no Município de Marialva, o cruzeiro ainda estava lá. Muitos outros momentos marcantes ocorreram ali na Capela Santa Luzia, da estrada Marialva quilômetro dez. Como esquecer?! Narrar é resistir. O mundo só é verdadeiramente vivido quando pode ser narrado.

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