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Canto do povo de um lugar

História de: Antônia Nunes Café (Antônia Fogo)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/02/2009

Sinopse

Quando percebeu que não se acostumava com a vida na agrovila de Serra do Ramalho, para a qual tinha sido obrigada a se mudar depois da construção da Barragem de Sobradinho, a baiana Antônia Nunes Café fez valer seu apelido, Antônia Fogo, e não se conformou. Resolveu convencer os vizinhos para retornarem à região de origem, nos arredores do antigo bairro de Barra da Cruz, mesmo sabendo que a maior parte da área estaria alagada e que não mais teriam as antigas casas e pertences. O grupo, que ficou conhecido como “os arrependidos”, voltou e se estabeleceu novamente por ali, mas as dificuldades que encontrariam seriam talvez tão grandes quanto às que haviam enfrentado na agrovila. Em detalhes emocionantes, Dona Antônia conta essa história em que expectativas e realidades quase nunca se coincidiram.  

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História completa

Sempre, toda vida, eu fui terrível. Toda vida, eu fui assim, eu nunca levei desaforo para casa. E estou com essa idade que estou, eu nunca bati e nem nunca apanhei, mas também nunca tive medo de ninguém, de homem nenhum, nem de mulher nenhuma. Nunca tive medo. Por causa disso, me botaram o apelido de Antônia Fogo. E, por Antônia Fogo, eu vou morrer, porque o meu nome é Antônia Nunes Café e botaram o apelido de Antônia Fogo e por isso ficou. Que até de São Paulo vem carta minha sobrescrito Antônia Fogo.

Meus pais nasceram no Piauí, numa cidade chamada Canindé. Eles vieram para cá em 33. A seca foi muito grande no Piauí na época, e eles casadinhos novos, com três filhos. Atravessaram esse mundo a pé, com esses filhos nas costas. É, um no braço, outro nas costas. Sacolinha com as bolsinhas nas costas. Eu não sei nem quantos dias eles passaram até quando eles chegaram aqui em Pau a Pique. Quando chegou em Pau a Pique, ele era muito trabalhador, que ele trabalhava de roça, começou a trabalhar e começou a criar os filhos, começaram a chegar mais filhos. Eu mesma nasci aqui no município, Pau a Pique.

Eu nasci em 39. Morava num sitiozinho, carregando de tão longe água salgada, sofrendo no sol quente. A gente carregando água para sobreviver, criando bode, plantando roça, criando galinha. E a gente viveu um tempo até que a gente ficou moça na época. A gente morava na estrada de Pau a Pique. A gente achava tão gostoso, uma casinha sozinha, sem luz sem nada, mas a gente achava, moça, rapaz, achava tão gostoso aquilo ali. E depois a gente casou, cada quem foi embora para os seus lugares.

Quando eu me casei, meu esposo era da Barra da Cruz, eu fui embora para Barra da Cruz. Passei o quê? Uns 20 anos morando lá. Maravilhoso, beira do rio, os ilhotes lá, a gente atravessava um rio para ir plantar. Era meio mundo de feijão de arranca, abóbora, melancia, milho-verde. Naquele ilhote. A gente passava a seca toda. Quando o rio enchia, a gente carregava as coisas cá para a cidadezinha, para o povoado. A gente morava cá. Cá, a gente plantava muita mandioca. Quando o rio enchia, a gente tinha aquele trabalho de arrancar, de mexer farinha, de fazer aquilo, aquele movimento. Movimentava. Todo mundo vivia. Não tinha firma, não tinha nada, mas todo mundo vivia tranquilo. É sobre a planta do rio e sobre o peixe do Rio do São Francisco que a gente, que os maridos da gente pegavam bastante peixe, vendiam, faziam dinheiro, e dava para a gente sobreviver. Agora, hoje, a gente está aqui num lugar mais difícil. Mais difícil. Era melhor do que hoje.

Essa mudança nossa foi o quê? Uma tragédia. Para uns, foi muito boa e, para outros, foi a morte. Eu mesma não me sinto feliz, não. Foi o tempo que chegou essa barragem, e a gente se mudou para Bom Jesus da Lapa. O que aconteceu é que a gente vendeu as besteiras que a gente tinha. E a gente foi para lá para o Bom Jesus da Lapa. Quando chegou lá, a gente não se deu, por conta do lugar. Tudo lá era diferente de nós aqui, de onde nós morávamos.

Viajando daqui para a agrovila, um vapor levava três, quatro famílias. Quando chegava lá, quando você saía daqui, você já saía com o número da sua casa, que eles mandaram fazer as casinhas para a gente. Cada quem, a sua casinha. Mas, quando a gente saía daqui, quando a gente pegava o vapor, a Dulce, que era chefe, ela já dava o cartãozinho com um número e a chave da sua casa. Quando chegava lá, iam levar na porta. Só que, quando a gente saiu, deixou tudo: ficou casa, ficou roça, ficou planta, ficou tudo. A gente só conseguiu vender uma besteirinha, que tinha um gadinho, uma coisa, assim, que a gente tinha, a gente conseguiu vender. Mas o resto ficou tudo lá.

Fomos justamente porque diziam que lá era muito boas as terras para trabalhar. São, mas se chover bastante; se não chover, a planta morre tudo. E aí ele iludiu o povo, que lá era muito bom e que, quando a gente chegasse, tinha seis meses de salário para a gente receber enquanto a pessoa plantava, chegasse a colher alguma coisa. E, com isso, o pessoal trazia umas amostras das espigas de milho, eram deste tamanho, de melancia, de feijão, tudo aquelas coisas bem grandes. O pessoal, com aquilo, disse: “Oxe, vamos trabalhar. Esse que é o lugar da gente trabalhar!” Mas, quando chegou lá, tudo foi o contrário. Se chovesse, dava planta. Se não chovesse... Uma água ruim, salgada a água. Adoecia o povo. A água não prestava, a água era ruim, a água era salgada. A água, você lavava um pano, ela cortava o sabão. Você lavava aquele pano com a água, cortava o sabão, não dava espuma para você lavar o pano. Agora, água tinha bastante, tinha não sei quantas lavanderias de água para o povo. Só que a água não prestava. Você botava a água numa vasilha de barro, quando era no outro dia, tinha um dedo de sal. Aquele negócio branco no vaso, tinha um dedo de sal na água quando ela assentava.

Lá tinha muita gente. Agora, tinha gente de todo canto, todos os lugares. Não fizeram um povoado para dizer “aqui é só uma localidade”. Não, porque era bastante casa, não sei nem a quantia, não sei se eram 300 casas, não sei a quantia. Mas não localizaram todo mundo. Que era bom assim: essa rua aqui toda da Barra da Cruz, aquela outra toda da Barra da Cruz, aquela outra toda do Pau a Pique. Não, ficaram misturando. Acontecia que tinha até gente que botava vizinho da gente que não dava certo com a gente. Não dava certo com a gente.

O chefão de lá, eu fui encarar foi com ele, eu encarei foi com ele. Que eu ia embora e fui cobrar, eu queria que ele pagasse era o dinheiro da minha casa. Mas ele não pagou, não. Eu queria que ele pagasse o dinheiro da minha casa porque eu ia embora, que não estava dando certo, que eles mentiram, que eles disseram que era uma coisa e era outra, e eu perdi o dinheiro de minha casa. Eu queria ir-me embora para minha terra.

Chegava um conterrâneo, eu: “Vamos embora. Rapaz, nós estamos fazendo o quê aqui? Nós estamos passando nossa vida, nós estamos é nos acabando aqui, nós vamos é morrer com essa água e nós vamos morrer aqui. Vamos embora?” “Vamos.” “Você vai mesmo?” “Vou.” E, quando chegava outro, fazia do mesmo jeito. Eu sei que, de repente, junto comigo, vieram quatro famílias, vieram quatro famílias junto comigo.

Nós tomamos a decisão pensando que, se nós voltássemos, nós íamos encontrar o mesmo que nós tínhamos. Porque dois anos que nós passamos lá. A gente achou terra muito próxima, a gente achou que, quando a gente chegasse trabalhando, a gente ia encontrar novamente o que a gente tinha perdido, a gente ia receber de volta. Mas foi engano, foi engano.

Quando voltamos, foi chorar, foi chorar. Porque eu... Uns vieram visitar, ainda passearam, vieram ver como era o rio. E eu deixei para vir só de uma vez, só quando eu vim embora. Quando eu vim embora, que não tinha ninguém no lugar, só um monte de água, você não via mais nada, o rio encobriu tudo. Os pés de árvore tudo morreram, tudo encoberto, que você nem enxergava nada. Ai, meu Deus, chorei tanto quando eu vim. Só sabia a direção, que ali era a minha casa, ali era a casa de fulano, por cima da areia, do morro. Que a gente subia no morro e pegava lenha em cima do morro e botava os bodes de cima do morro para cá. Aí, a gente sabia a direção, de cima do morro. E marcava: ali era a casa de fulano, ali era a minha casa. Ah, chorei um bocado.

A gente não se sente feliz, ninguém tem uma tranquilidade, ninguém tem aquele amor como tinha antigamente. E a gente está lutando com a vida até quando Deus vai preparar a gente para viver. E a gente, como é que diz, vive do trabalho. O lugar muito atrasado, mas a gente vive do trabalho, com essa falta de chuva, não tem chuva, rio está muito longe. E hoje a gente vive por aqui, mas não se sente bem, não se sente feliz, mas já estamos velhos, no fim da vida. Nós não temos mais para onde ir. Os tempos vão passando, as coisas vão mudando, e a gente tem que enfrentar a vida porque a gente não morre antes que não chegue a hora, a gente só morre na hora certa. Nem que peça, porque eu já pedi muito. Mas não morre. Só morre na hora certa, né?

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