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História

Cantando e brincando pra ficar mais leve

História de: Hilda Maria de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2002

Sinopse

Lembranças de Minas Gerais. Memórias sobre os avôs. Memórias sobre os festejos religiosos na cidade de origem. Lembranças sobre a chegada ao Rio e a chegada ao Morro dos Prazeres,ao encontro da irmã que já vivia no Morro ,na década de 1970. O Casarão. A dificuldade de água no Morro e a ida para buscar água no Chororó.

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História completa

P1 – Boa tarde dona Hilda, eu gostaria de começar o depoimento pedindo que a senhora diga o seu nome completo, quando nasceu e onde?

 

R – Minas Gerais, sou de 1937, nascida em 25 de setembro.

 

P1 – Seu nome completo?

 

R – Hilda Maria de Oliveira, vim pro Rio de Janeiro porque não aguentei na roça, na roça não, morava num pequeno patrimônio, vim embora porque eu criava cinco filhos sem marido, passei muita fome para criar cada um, vim aqui pro Rio de Janeiro o pessoal me ajudou muito, foi muita luta, eles quase não estudaram principalmente os mais velhos, ela e o outro mais velho, porque não tiveram oportunidade, tinha que me ajudar. Essa entrou no emprego muito cedo, o outro também entrou cedo, foi muita luta quando cheguei no Rio de Janeiro, morei uns dias na casa da minha irmã, depois saí da casa da minha irmã aluguei um quarto, deixava os meus filhos sozinhos dentro de casa, pedia pros outros dar uma olhadinha, eu ia trabalhar, eu cozinhava no fogão de querosene, tinha medo de sair e deixar eles, eles comiam comida fria, porque eu tinha medo de acender o querosene.

 

P1 – Aqui no Morro dos Prazeres?

 

R – Aqui no Escondidinho, morava no Escondidinho. Eu deixava a comida pronta, e falava “vocês não acende o fogo não, pode comer comida fria, a mamãe quando ela chegar faz comida fresquinha e vocês comem”, minha luta foi muito grande eu tive a minha vitória, mas foi com muita luta pra criar meus filhos, com muita luta mesmo pra criar eles, foi com muita luta, todo mundo queria eles, eu não dava meus filhos pros outros de jeito nenhum, eu falava: “eu morro de fome, mas não dou meus filhos pra ninguém”,e aí passou, ela casou com 16 anos, o outro casou com 21, o mais velho, agora os outros não casaram, enrolou.

 

P1 – Mas porque que a senhora veio pra essa região aqui no Rio de Janeiro?

 

R – Eu vim aqui porque eu vim passear na casa da minha irmã e gostei, quando eu estava subindo a serra, descendo a serra de Petrópolis eu vi o Rio de Janeiro, era muita lâmpada, eu pensei, vou voltar pro Rio, eu vou chegar na casa da minha irmã, se ela aceitar e ter um lugarzinho eu vou voltar, cheguei, conversei com ela, ela disse: “não, você pode vir, a gente vai lutar para arrumar um lugar pra você”.

Assim que cheguei no outro dia  eu entrei num emprego, aqui na rua Áurea, ali perto daquela igreja da rua Áurea, eu trabalhei acho que uns 2 anos na casa de uma moça e botei meus meninos tudo pra trabalhar, ela trabalhando, ela trabalhou aqui no tal de Franccino, eu deixei ela trabalhando. Depois de três meses que eu estava no Rio de Janeiro eu recebi um telegrama que meu pai estava entre a vida e a morte, cheguei lá ainda peguei o meu pai vivo e fiquei, aí meu irmão foi, a minha irmã foi e eu vim embora, no dia que eu cheguei aqui o meu pai morreu lá, quando fez 6 dias que meu pai morreu, nós viemos pro Rio quando eu cheguei aqui a missa do meu pai, a primeira missa foi aqui dentro do Casarão, a primeira missa de 7 dias do meu pai.

 

P1 – Conta um pouquinho, vocês pediram para rezar a missa?

 

R – Pedimos pra rezar a missa do meu pai aqui no Casarão, eu e minha mãe que também estava comigo. Eu trouxe ela de Minas.

 

P1 – Como era o nome do seu pai?

 

R – Orgentino José de Oliveira.

 

P1 – Argentino?

 

R – Orgentino José de Oliveira e Maria Rosa de Jesus, aí ela ficou uns dias com a gente  e voltou pra Minas, minha mãe, ela chegou em Minas e ficou lá trabalhando na roça, aí passou uns tempos eu fui lá, aí ela disse assim: “Minha filha eu to doente, eu estou trabalhando na roça, mas eu não estou trabalhando na roça”, eu falei: “O que a senhora tem minha mãe?”, ela falou assim: “Eu estou crescendo o peito igual uma mocinha”, mas eu falei; “mas o que que é?”, ela falou assim: “não sei, é um caroço que eu to com ele no seio”, então eu falei: “então vamos embora mamãe comigo pro Rio, pra senhora tratar”, ela falou: “não, que eu tenho que resolver minhas coisas, depois você vem me buscar”, eu falei: “então eu venho minha mãe”, aí eu vim embora pro Rio trabalhei uns dias e voltei, eu deixava sempre ela trabalhando no emprego, fiquei uns dois meses ou três aqui e fui lá buscar ela, cheguei aqui e eles falaram que essa doença é incurável e não podia operar ela, porque era muito fraquinha, minha mãe era muito magrinha, ele disse; “eu não posso operar ela não, porque se eu operar ela, ela vai morrer na mesa de operação, vamos fazer tratamento”, mas era mentira aquilo ali, e foi só crescendo, foi uma luta muito grande com a minha mãe, aí ela morreu, com nove meses que ela tava doente ela morreu, depois de 4 anos que meu pai morreu eu perdi a minha mãe, aí eu fiquei lutando assim mesmo e o meus meninos tudo jogado, mas eu sempre dava conselho, meu filhos foram filhos muito bons pra mim graças a Deus, nesse ponto eu sou rica, meus filhos não me deram trabalho pra eu ficar chamando atenção “não vai que não pode”, se eu falasse alguma coisa era só olhar pra eles que eles sabiam que eu queria com eles e eu não batia muito neles não, aí eles foram crescendo, aí casou essa daí, aí veio casou outro, agora os outros, o mais novo mora com uma moça, o caçula mora com outra, a outra mora comigo, a moça que tem um defeito no braço ela mora comigo.

 

P1 – Você sabe quando sua irmã veio pra cá?

 

R – Eu acho que foi em 67, não sei se é 66 ou 67.

 

P1 – Você sabe por que sua irmã veio pra cá?

 

R – Porque era muita luta, ela não tinha as coisas direito, ela não tinha nada, só tinha filho, aí veio embora pro Rio chegou aqui começou em um emprego que trabalha até hoje, o marido dela agora é encostado, os filhos dela são todos casado não tem nenhum solteiro. É só ela e o marido.

 

P1 – Mas você sabe porque ela escolheu o Morro dos Prazeres?

 

R – Ela não mora no Morro dos Prazeres, ela morou, mas não mora mais.

 

P1 – Mas ela morou aqui.

 

R – Morou no Escondidinho, lá embaixo onde eu morei com ela, agora ela mora lá no Morro da Coroa, mas ela tá bem tem a casinha dela lá, tá sossegada.

 

P1 – E as suas lembranças do Casarão, a senhora lembra dona Hilda? 

 

R – O Casarão, era uma casa velha, depois que os padres largou aí, ficou aquela casa abandonada todo mundo morando, mas depois eu não conheci mais o pessoal que estava morando, porque eu mudei.

 

P1 – Mas a senhora vinha na missa aqui? 

 

R – Vinha, eu assisti muita missa aqui embaixo, o altar era lá naquele cantinho assim, a porta era assim naquele lugar mesmo.

 

P1 – Quer dizer vocês entravam por onde é a varandinha hoje...

 

R – Naquela porta mesmo, naquela varanda mesmo. Aquela varanda era de tábua, a escada era de tábua.

 

P1 – A varanda também era de tábua.

 

R – Tudo de tábua, tinha mesas assim com aquelas tábua comprida, assim como aquela ali, era bonita a igreja, era muito bonita. Mas o padre não tem jeito de lembrar quem era, eu tinha que lembrar o nome dele.

 

P1 – Ninguém lembra.

 

R – Mas ninguém?

 

P1 – Eu não encontrei ainda quem lembrasse o nome dele. Era da igreja católica?

 

R – Era igreja católica, sempre foi igreja católica aqui, depois que entrou crente.

 

P1 – A senhora viu algum casamento aqui?

 

R – Vi casamento, todos os domingos tinha missa aqui. Aqui era muito bom, eu gostei muito daqui, eu carregava muita água de tarde no sábado porque no meu serviço eu trabalhava de sábado e lavava roupa de tarde, ia lá pro Xororó, tinha  bastante mulher, a gente botava a bacia na cabeça e botava a roupa tudo no ramo pra secar, pra ficar leve, porque era pesada a roupa molhada, ficava conversando, levava café às vezes, levava até comida pra comer lá, os meninos ficavam, depois falavam; “você vai depois leva vazia pra eu trazer água”, aí as roupas eles aguentavam trazer, porque eu botava numas bolsas na bacia, eles botavam na cabeça e ficava com lata d'água na cabeça, Deus me livre a minha luta foi muito grande.

 

P1 – Vocês levavam café, levavam comida, porque passava o dia inteiro lá?

 

R – Levava, ficava o dia inteiro lá, porque era muita gente tinha que ir um de cada vez pra pegar água, a gente botava a lata pra encher um pegava, outro pegava botava na bacia e nós cantando e brincando, era muito bom a nossa vida.

 

P1 – Cantando, é mesmo.

 

R – Cantando lá no meio do mato, mas era muito gostoso.

 

P1 – Era duro a vida, mas vocês faziam...

 

R – Tinha um guarda lá que tomava conta, mas depois sumiu o guarda. Nós pegávamos a água na biquinha, agora não tem nem bica lá mais acabou tudo, os bombeiros davam bastante água pra gente, porque nós tínhamos muito conhecimento com eles, eles davam água, diziam: “pode pegar água aí”, às vezes eles falavam assim; “não tem água hoje”, aí a gente ia lá pro Xororó.

 

P1 – Qual é a distância daqui pro Xororó?

 

R – Não sei, é quase o ponto final do 16, é ponto final praticamente, por exemplo você tá aqui lavando roupa anda mais um pouquinho tá lá no ponto final dele que é perto do hospital, é hospital aqui lá? 

 

P1 – É silvestre?

 

R – É uma distância como daqui na cidade.

 

P1 – Tá bom Hilda, então pra finalizar o que significa aqui o Morro dos Prazeres?

 

R – Ah, eu gostava muito daqui, só não dá pra eu morar porque estou muito cansada, eu trabalho muito e, eu mudei daqui já faz uns 20 anos, não tem Rosa, já tem uns 20 anos? Acho que tem mais de 20 anos que eu mudei daqui.

 

P1 – A senhora mora aonde?

 

R – Agora eu moro na chácara.

 

P1 – Mas a chácara é aqui pertinho?

 

R – Agora que é, mas eu morava lá no bondinho, lá na Lapa, depois eu mudei já vai fazer 2 anos que moro aí. 

 

P1 – E como é que a senhora vive, a senhora ainda trabalha?

 

R – Trabalho, eu vendo cerveja, quinta, sexta e sábado, mas eu não estou aguentando mais.

 

P1 – Aonde é que a senhora vende?

 

R – Eu vendo ali no alto, não tem show ali.

 

P1 – No alto da Lapa.

 

P1 – Eu entro 7 e meia e largo 6 horas, 6 e meia, a noite todinha e to morta de cansada, já não estou aguentando, eu estou louca pra  poder arrumar o meu INPS e eu tenho muito pouco INPS pago e estou pagando.

 

R – E qual é o dia que a senhora mais vende cerveja, a senhora se lembra?

 

R – Que eu vendo mais? Sexta feira é muito tumulto tem mais de 5 mil pessoas. Os dias bons mesmo que eu vendo é quinta e sábado, sexta não, além de ter muito camelo tem muito tumulto, mas quinta e sexta é o melhor dia pra eu vender.

 

P1 – Tá bom, então pra finalizar o que a senhora acha desse projeto que estamos desenvolvendo, recuperando histórias antigas da comunidade.

 

R – Gostei muito de fazer o meu depoimento, minha entrevista com você, gosto muito do pessoal do Morro, gosto muito de todo mundo aqui qualquer lugar que eu chegar tem muita coisa, que eu sinto que eles gostam de mim e eu também gosto. Eu gostei daqui mas não pude ficar, fiquei com pena de deixar minha filha aqui.

 

P1 – Mas a senhora tá sempre aqui no Morro dos Prazeres, vem vê a filha, vem vê os netos não é isso?

 

R – Venho muito.

 

P1 – Então tá bom, obrigada Hilda pelo depoimento.



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