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História

Camisa 10 de Ñanderu faz gol de placa pela luta indígena

História de: Jonas Worcman de Matos
Autor: Werá Kunumi
Publicado em: 06/12/2019

Sinopse

A pomba branca da paz ia ser solta na abertura da copa do mundo? Mas quanta paz é dada para o povo indígena no Brasil? Isso era o que questionava o cacique da aldeia Kurukutu que entregou uma faixa pra Werá. Werá então abre a copa do mundo no Brasil dom “Demarcação Já” fazendo voltar os olhos do mundo para a questão indígena, para as histórias indígenas. Você sabia que a bola é guarani? Esse é o tema de um dos livros de Werá Kunumi, que, com apenas 18 anos, publica seus livros de temática e de vida indígena, canta rap na sua língua e declama poemas de protesto. Com um pai escritor, foi da aldeia pro mundo.

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História completa

Meu nome é Werá Tupã, fui batizado assim, mas também tenho outro nome, que está na minha certidão de que é Dieguaká Mirim, mas o meu nome artístico, pois sou cantor de rap e tenho um nome artístico, que é Wera Kunumi. E eu tenho 18 anos e nasci na aldeia Krukutu. Meu pai sempre me incentivou a escrever histórias indígenas, minha mãe também sempre conta, até hoje, histórias indígenas guaranis, pois ela conta, tem uma habilidade muito boa pra contar história, ela ouviu desde pequena, quando tinha uns dez anos e ela guarda na cabeça, a minha mãe, as histórias. 

E a gente também fuma o cachimbo, em que a gente coloca o tabaco e a gente usa o cachimbo pra os espíritos maus não se aproximarem. Também pra pedir força a Ñanderu. Sempre quando a gente vai pra mata tem que levar seu cachimbo, porque toda a mata também tem um ser que a protege, aos rios, tudo.  Então, a gente vai e leva o cachimbo, quando vai pegar um animalzinho pra comer, a gente tem que pedir primeiro. Ou quando vai pescar um peixe, né, tem que pedir a essa entidade. E também a nossa cultura é diferente. Cada um tem a cultura, a língua diferente e, na nossa cultura, a gente também casa cedo. Eu casei quando eu tinha 15 anos. E estou até hoje casado, tenho 18 anos e já tenho um filho que está com dois anos e se chama Werá Mirim.

 

Em 2014, quando eu estava com 13 anos, fui convidado pra participar na Copa do Mundo. O pessoal da Fifa foi lá na aldeia, estavam querendo levar uns indígenas pra participar, só que na época não sabia que ia ser ao vivo, que ia aparecer na TV . Mas fiquei feliz também.  Tinha mais duas pessoas que iriam participar na Copa do Mundo pra remar, assim, no barco e eu era pra estar soltando uma pomba da paz. A gente foi lá, estava o cacique também que estava nos acompanhando, a gente foi no Itaquerão, pra fazer um ensaio e eu soltei a pomba pra fazer o ensaio, a gente foi na aldeia. Voltamos e aí estava uma semana pra acontecer a Copa do Mundo de 2014, só que eu era o menor , pra mim, tanto faz se eu fizesse aquilo ou não.  

E antes de eu fazer aquilo, de soltar a pomba pra representar a paz, o Fabinho, o cacique me levou pro canto, pros seguranças não verem, ele então me deu a faixa porque se eu não fizesse já era... Ele falou assim: “Se você soltar essa faixa, não é importante pra você, mas é importante pra todos os indígenas. Porque hoje as lideranças indígenas estão lutando pra salvar nossa terra, que um dia já foi nossa! A gente quer um pouco da terra pra nós vivermos,  pra criar os nossos filhos e salvar a natureza, porque a natureza não merece sofrer e isso que está escrito aqui “ Demarcação Já” é muito importante você soltar, mostrar pra todo mundo, porque você vai mostrar nesse momento soltando a pomba da paz, mas também você vai mostrar que não existe muita paz pros indígenas”.

 Eu fiquei assim, arrepiado, né, de ouvir isso e aí eu fui no meio do campo e aí percebi, naquele momento, que era uma coisa planejada só dele, só que  coragem...Eu era menor e fiquei com medo de fazer isso, só que pensei no que ele disse, porque também eu era pequeno, mas já via que nós, indígenas, sofríamos na mão dos não indígenas, né? Porque eles nos veem como que a gente fosse um ser diferente, mas a gente é diferente, porque a gente tem uma cultura diferente, língua diferente, mas também somos todos iguais, né? Então eu fui no meio do campo,  e estava escondendo uma faixa no shorts, pra ninguém ver e eu fui no meio do campo, junto com um menino branco e uma menina negra e estava eu, que era indígena, né? A gente foi no meio do campo e soltamos a pomba da paz, né? Logo em seguida eu tirei a faixa e mostrei, só que estava olhando pra baixo, né, porque estava com medo, mas muita gente, logo em seguida, me aplaudiu, porque na hora que eu soltei a faixa, aplaudiram e fiquei com o coração tuc tuc tuc tuc tuc, tuc, tuc, tuc. Acelerou muito, né? E aí saí do campo e os seguranças pegaram de mim aquela faixa, né? Eram dois seguranças grandões, só que estava com medo também, porque o cacique não estava perto de mim, estava lá no estádio vendo o jogo, né? Aí, só depois que me levaram lá no cacique e aí a gente ficou só no primeiro tempo do jogo, vendo o jogo e depois a gente foi embora pra casa, né? E voltando em casa o meu pai disse assim: “Foi muito bom, né?”, só que ele não viu o ato que eu tinha feito, né, porque aí percebi que a TV do Brasil não mostrou. Só que muitos europeus, fora do Brasil, viram, né? E aí, no outro dia, veio muita imprensa de fora do Brasil querendo saber o que era Demarcação Já, né? E eu só falei como foi que aconteceu, porque eu não tinha nem noção o que era essa palavra “Demarcação Já”, nem sobre as lutas indígenas, não sabia de nada, né, a importância disso, mas só falei como foi, né? Como estou contando agora, né? E aí meu pai achou estranho, né? O que aconteceu? Porque ele recebeu a notícia, cheguei em casa dez horas, meia noite, ele recebeu uma notícia nas redes sociais, de uma foto de minha soltando uma faixa escrita “Demarcação Já” e aí percebi que a TV do Brasil não mostrou, só no Brasil mostrou. No dia seguinte tinha gente do mundo inteiro querendo saber o que era Demarcação Já;

Aí o Xeramoi escutou, benzeu a cabeça e falou assim: “Você não é diferente, todos nós somos iguais”. Porque é isso, todos nós somos iguais. 

A partir desse momento que eu lancei o meu primeiro livro, junto com meu irmão, que é de contos indígenas. Que é o conto dos curumins guaranis. Depois disso eu lancei o meu segundo livro, que é de quase autobiografia, né? Se chama Kunumi Guarani. E foi ali que eu decidi escrever poesias.  E eu cantei essas minhas poesias e tinha uma força grande, né? Porque falava principalmente da luta que a gente luta, fiz um rap em homenagem aos nossos parentes Guarani Kaiowa

“Aí o Xeramoi escutou, benzeu a cabeça e falou assim: “Você não é diferente, todos nós somos iguais”. Porque é isso, todos nós somos iguais.” Esse é um trecho de uma ficção da origem da bola, que a bola é Guarani e pouca gente fala disso.

A prova que tem é porque tem um antropólogo do Paraguai que também prova que a bola é dos indígenas. Só que a gente mostrou essa bola e os ingleses viram e patentearam e hoje existe o futebol, né? Só que sem inventar uma bola não existiria o futebol

E o que não é nosso, mesmo, mas a gente usa pro bem, porque antigamente eles já deram muita coisa pra nós, né? Então, só que a gente também deu muita coisa pra eles, né? Tipo muitas histórias indígenas foram copiadas, né? Só que não falam que é dos índios, né? E os remédios também, que a gente vai na farmácia hoje e vê muitos remédios, só que foram copiados dos indígenas e tem muita coisa também: os cachimbos, as comidas indígenas também. Só que não falam que é do índio, dos indígenas. Então, isso que, pra nós, é muito triste, porque eles usam muitas coisas nossas, só que não viram índios. E a gente não vai virar não indígena porque usamos coisas que vocês usam.


 

Meu nome é Werá Tupã, fui batizado assim, mas também tenho outro nome, que está na minha certidão de que é Dieguaká Mirim, mas o meu nome artístico, pois sou cantor de rap e tenho um nome artístico, que é Wera Kunumi. E eu tenho 18 anos e nasci na aldeia Krukutu. Meu pai sempre me incentivou a escrever histórias indígenas, minha mãe também sempre conta, até hoje, histórias indígenas guaranis, pois ela conta, tem uma habilidade muito boa pra contar história, ela ouviu desde pequena, quando tinha uns dez anos e ela guarda na cabeça, a minha mãe, as histórias. 

E a gente também fuma o cachimbo, em que a gente coloca o tabaco e a gente usa o cachimbo pra os espíritos maus não se aproximarem. Também pra pedir força a Ñanderu. Sempre quando a gente vai pra mata tem que levar seu cachimbo, porque toda a mata também tem um ser que a protege, aos rios, tudo.  Então, a gente vai e leva o cachimbo, quando vai pegar um animalzinho pra comer, a gente tem que pedir primeiro. Ou quando vai pescar um peixe, né, tem que pedir a essa entidade. E também a nossa cultura é diferente. Cada um tem a cultura, a língua diferente e, na nossa cultura, a gente também casa cedo. Eu casei quando eu tinha 15 anos. E estou até hoje casado, tenho 18 anos e já tenho um filho que está com dois anos e se chama Werá Mirim.

 

Em 2014, quando eu estava com 13 anos, fui convidado pra participar na Copa do Mundo. O pessoal da Fifa foi lá na aldeia, estavam querendo levar uns indígenas pra participar, só que na época não sabia que ia ser ao vivo, que ia aparecer na TV . Mas fiquei feliz também.  Tinha mais duas pessoas que iriam participar na Copa do Mundo pra remar, assim, no barco e eu era pra estar soltando uma pomba da paz. A gente foi lá, estava o cacique também que estava nos acompanhando, a gente foi no Itaquerão, pra fazer um ensaio e eu soltei a pomba pra fazer o ensaio, a gente foi na aldeia. Voltamos e aí estava uma semana pra acontecer a Copa do Mundo de 2014, só que eu era o menor , pra mim, tanto faz se eu fizesse aquilo ou não.  

E antes de eu fazer aquilo, de soltar a pomba pra representar a paz, o Fabinho, o cacique me levou pro canto, pros seguranças não verem, ele então me deu a faixa porque se eu não fizesse já era... Ele falou assim: “Se você soltar essa faixa, não é importante pra você, mas é importante pra todos os indígenas. Porque hoje as lideranças indígenas estão lutando pra salvar nossa terra, que um dia já foi nossa! A gente quer um pouco da terra pra nós vivermos,  pra criar os nossos filhos e salvar a natureza, porque a natureza não merece sofrer e isso que está escrito aqui “ Demarcação Já” é muito importante você soltar, mostrar pra todo mundo, porque você vai mostrar nesse momento soltando a pomba da paz, mas também você vai mostrar que não existe muita paz pros indígenas”.

 Eu fiquei assim, arrepiado, né, de ouvir isso e aí eu fui no meio do campo e aí percebi, naquele momento, que era uma coisa planejada só dele, só que  coragem...Eu era menor e fiquei com medo de fazer isso, só que pensei no que ele disse, porque também eu era pequeno, mas já via que nós, indígenas, sofríamos na mão dos não indígenas, né? Porque eles nos veem como que a gente fosse um ser diferente, mas a gente é diferente, porque a gente tem uma cultura diferente, língua diferente, mas também somos todos iguais, né? Então eu fui no meio do campo,  e estava escondendo uma faixa no shorts, pra ninguém ver e eu fui no meio do campo, junto com um menino branco e uma menina negra e estava eu, que era indígena, né? A gente foi no meio do campo e soltamos a pomba da paz, né? Logo em seguida eu tirei a faixa e mostrei, só que estava olhando pra baixo, né, porque estava com medo, mas muita gente, logo em seguida, me aplaudiu, porque na hora que eu soltei a faixa, aplaudiram e fiquei com o coração tuc tuc tuc tuc tuc, tuc, tuc, tuc. Acelerou muito, né? E aí saí do campo e os seguranças pegaram de mim aquela faixa, né? Eram dois seguranças grandões, só que estava com medo também, porque o cacique não estava perto de mim, estava lá no estádio vendo o jogo, né? Aí, só depois que me levaram lá no cacique e aí a gente ficou só no primeiro tempo do jogo, vendo o jogo e depois a gente foi embora pra casa, né? E voltando em casa o meu pai disse assim: “Foi muito bom, né?”, só que ele não viu o ato que eu tinha feito, né, porque aí percebi que a TV do Brasil não mostrou. Só que muitos europeus, fora do Brasil, viram, né? E aí, no outro dia, veio muita imprensa de fora do Brasil querendo saber o que era Demarcação Já, né? E eu só falei como foi que aconteceu, porque eu não tinha nem noção o que era essa palavra “Demarcação Já”, nem sobre as lutas indígenas, não sabia de nada, né, a importância disso, mas só falei como foi, né? Como estou contando agora, né? E aí meu pai achou estranho, né? O que aconteceu? Porque ele recebeu a notícia, cheguei em casa dez horas, meia noite, ele recebeu uma notícia nas redes sociais, de uma foto de minha soltando uma faixa escrita “Demarcação Já” e aí percebi que a TV do Brasil não mostrou, só no Brasil mostrou. No dia seguinte tinha gente do mundo inteiro querendo saber o que era Demarcação Já;

Aí o Xeramoi escutou, benzeu a cabeça e falou assim: “Você não é diferente, todos nós somos iguais”. Porque é isso, todos nós somos iguais. 

A partir desse momento que eu lancei o meu primeiro livro, junto com meu irmão, que é de contos indígenas. Que é o conto dos curumins guaranis. Depois disso eu lancei o meu segundo livro, que é de quase autobiografia, né? Se chama Kunumi Guarani. E foi ali que eu decidi escrever poesias.  E eu cantei essas minhas poesias e tinha uma força grande, né? Porque falava principalmente da luta que a gente luta, fiz um rap em homenagem aos nossos parentes Guarani Kaiowa

“Aí o Xeramoi escutou, benzeu a cabeça e falou assim: “Você não é diferente, todos nós somos iguais”. Porque é isso, todos nós somos iguais.” Esse é um trecho de uma ficção da origem da bola, que a bola é Guarani e pouca gente fala disso.

A prova que tem é porque tem um antropólogo do Paraguai que também prova que a bola é dos indígenas. Só que a gente mostrou essa bola e os ingleses viram e patentearam e hoje existe o futebol, né? Só que sem inventar uma bola não existiria o futebol

E o que não é nosso, mesmo, mas a gente usa pro bem, porque antigamente eles já deram muita coisa pra nós, né? Então, só que a gente também deu muita coisa pra eles, né? Tipo muitas histórias indígenas foram copiadas, né? Só que não falam que é dos índios, né? E os remédios também, que a gente vai na farmácia hoje e vê muitos remédios, só que foram copiados dos indígenas e tem muita coisa também: os cachimbos, as comidas indígenas também. Só que não falam que é do índio, dos indígenas. Então, isso que, pra nós, é muito triste, porque eles usam muitas coisas nossas, só que não viram índios. E a gente n


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