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Caminhos da educação

História de: Márcia Loduca
Autor: Nádia Lima
Publicado em: 06/04/2019

Sinopse

Márcia Loduca Fernandes nasceu no Estado de São Paulo no dia 28 de setembro de 1954. Filha única de duas pessoas muito fortes desenvolveu com o pai e com a mãe muita autonomia. Nunca quis enveredar-se para a escola, detestava esse tipo de brincadeira na infância, porque achava muito mais divertido jogar bola. Depois da primeira faculdade de Sociologia desejava ganhar o seu dinheiro, afinal queria essa independência econômica até mesmo para se casar. Mas caminhar por aquilo que desejava e aquilo que a sua formação lhe permitiria foi difícil, e se deparou com uma situação de discriminação feminina, porque as pessoas lhe disseram: “Olha, as qualificações até você tem, só que a pessoa que a recomendou não atentou para o fato que nós queríamos um homem. A área de Sociologia é masculina e não feminina”. Com 21 anos, começou a dar aulas para classes onde a idade média era de 30, 40, metalúrgicos. Estava começando a verificar as pessoas que mais tarde montariam o Partido dos Trabalhadores. Esses jovens que tiveram todo o respeito e entenderam perfeitamente que eu não sabia nada, foram extremamente respeitosos, extremamente compreensivos e aí, eu começou a perceber uma possibilidade no Magistério.Realizou outra graduação, em Geografia, passou no concurso do Estado entre os primeiros colocados e começou a dar aula. Em 1984, ingressou na Prefeitura e em 1990, recebe uma indicação para dar aula em uma escola técnica no Centro Paula Souza. Começou com 12 aulas e eu já era uma professora com 40 horas no Estado mais 20. Assumiu a direção da Etesp no final de 95, disputou as eleições e ficou lá até 2004. Em 2005 teve uma experiência única que foi também dirigir uma escola técnica na antiga FEBEM. Diz que aprendeu muito e teve a certeza absoluta que não há outro caminho que não a Educação para a ressocialização, para a integração de qualquer pessoa e em particular, do jovem, que tá começando a sua vida. Saiu da FEBEM e veio para o Carandiru em meados de 2006 e em 2007 implantar a ETEC de Artes e ETEC Parque da Juventude. Ela nunca teve medo de aceitar desafios e acredita que a Educação é o grande caminho, é onde de pode conseguir a salvação. Segundo ela: “Não existem salvadores da pátria. Existem pessoas que estão dispostas a batalhar pela Educação, tá? Não vejo outra saída nisso”.

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História completa

Sou Márcia Loduca Fernandes, nasci em São Paulo, Estado de São Paulo e lá nos idos de 1954, dia 28 de setembro. Uma libriana. Uma infância bastante comum, filha única de duas pessoas muito fortes, a mãe particularmente forte. Ambos com pendores artísticos, o meu pai era cantor lírico, minha mãe pianista. A filha única que aprendeu com o pai e com a mãe muita autonomia, menina que brincou na rua o tempo todo, que naquela época era muito comum, tinha lá os coleguinhas, a gente brincava aí até às nove horas da noite. Sinceridade? Eu nunca quis enveredar para a escola. Quando na infância e tinha muito isso, vamos brincar de escolinha e tal, eu era aquela que fugia. Eu detestava esse tipo de brincadeira, eu ia brincar com os meninos, era muito mais divertido jogar bola.

 

Depois da minha primeira faculdade e eu já namorava o meu marido, eu queria ganhar o meu dinheiro, eu queria essa independência econômica até para me casar. E naquela oportunidade, isso foi nos idos de 76, o Brasil passava por uma situação caótica, não é, difícil. E enveredar por aquilo que eu desejava, aquilo que a minha formação me permitiria foi difícil, porque eu tinha um desejo de trabalhar em indústria. Através de um estágio que eu fiz na Cosipa e de lá,consegui uma recomendação para Volkswagen. E quando eu fui verificar essa possibilidade na Volkswagen, eu me deparei com uma situação de discriminação feminina, porque as pessoas disseram: “Olha, as qualificações até você tem, só que a pessoa que a recomendou não atentou para o fato que nós queríamos um homem. A área de Sociologia é masculina e não feminina”. Bom eu não ia conseguir mesmo. Nisso, eu me volto à universidade e falo essa experiência e aí, a orientação é: “Olha, vamos terminar…”, porque a gente fazia antes a graduação e depois, a licenciatura. ”... Faça a licenciatura e você vai ter mais uma possibilidade”.

 

Nesse curso de licenciatura, uma das professoras, o nome dela era Rosa, sabendo do que eu desejava, que era trabalhar, ela disse: “Olha, verifico que você tem essa proatividade e nessa escola, lá em São Caetano do Sul, eles precisam de uma professora de Geografia” “Mas eu não fiz Geografia” “Estuda um pouquinho, quem sabe você se encontra, não é? É uma oportunidade”. E com os meus 21 anos, né, eu me deparei com classes onde a idade média era de 30, 40, metalúrgicos. E eu estava começando a verificar as pessoas que mais tarde montariam o Partido dos Trabalhadores. Esses jovens que tiveram todo o respeito e entenderam perfeitamente que eu não sabia nada, foram extremamente respeitosos, extremamente compreensivos e aí, eu comecei a entender que talvez eu tinha a possibilidade no Magistério.

 

Meu pai era uma pessoa extremamente politizada, me colocava no colo e lia para mim os editoriais, quando pequena. Esse período é o da Ditadura Militar, o medo era uma constante, particularmente, isso mais tarde, por volta de 68, 69 em particular, onde conhecidos nossos, filhos de conhecidos começaram a ser perseguidos, eles tiveram que fugir do país. Então, o meu pai sempre foi muito atento àquilo que ele imaginava que ele poderia me colocar ou a família dele em perigo, ele acabava dando um freio e imaginem o que foi quando a filha dele, a filha única que até 1971. Eu fiquei muito encantada com uma professora de Sociologia no colégio e eu chego em casa toda feliz e digo: “Pai, mãe, descobri o que eu quero fazer”, o meu pai assim torcendo: bom, ela vai fazer Medicina, se não fizer, sei lá, vai para outra… quem sabe Arquitetura, ela tem jeito para desenho… “Vou fazer Sociologia” (risos). O meu pai alto, ele desmoronou: “Como? O quê que você tá dizendo? Por que você quer isso?” “Pai, porque eu gosto muito de politica, porque eu sempre te ouvi falar”.

 

Eu comecei a escola, lá na PUC da Marquês de Paranaguá, depois que nós fomos transferidos para Perdizes. Tinha uma voz corrente que nós seriamos todos fichados pelo DOPS, não sei exatamente se nós fomos, mas isso era voz corrente e na dúvida, era bom a gente ficar atento. Isso acabou, esse pesadelo acabou se concretizando mais tarde na invasão da PUC pelo Coronel Erasmo Dias, onde eu vi padecer muitos colegas de sala, uma delas, inclusive, extremamente judiada, que ela quase foi a óbito, da surra que ela levou. Quando eu prestei a universidade, eu também entrei na USP e muitos colegas do mesmo colégio acabaram indo para a USP, só que pelas perseguições políticas que haviam, praticamente, Ciências Sociais foi fechada na USP, ela persistia, mas os professores já não mais existiam, quer dizer, eles precisaram ir para outros lugares, eles foram, entre aspas, convidados a deixar o país. E muitos deles foram acolhidos pela Universidade Católica. Então, nesse sentido, ter optado pela Católica foi um ganho em minha formação. Eu tive pessoas ícones, de fato, da Educação, da História da Sociologia nesse país, eu venho com isso até hoje. Aquilo que os meus pais me ensinaram, a questão da autonomia e que foi ratificado ao longo da vida, hoje também, no meu trabalho diário, eu sempre exalto muito a busca da autonomia pelos alunos que eu tenho, pelos professores que eu também tenho uma honra imensa de dirigir, pela escola que hoje estou, essa busca constante da autonomia.

 

Em 1990, eu estou em casa e recebo um telefonema de um querido amigo, ele disse: “Márcia, você não quer vir até a escola onde eu estou trabalhando, que o professor de Geografia está indo embora para a Universidade de Mato Grosso, ele passou num concurso e as aulas estão vagas, você não quer conhecer?” “Eu vou, sem problemas” “Então, venha”, aí ele me deu o endereço, mas eu não conhecia, Centro Paula Souza, mas eu sabia que era uma escola técnica. A Etesp, começou muito pequenininha e eu fiz o concurso, eu passei. Aliás, uma experiência superbacana, porque era uma prova prática e eu tinha que dar aula. E quem que era a minha plateia? Os próprios alunos. Eles já numa atitude de muita vanguarda, né, um vanguardismo muito grande, eram os alunos que decidiam: “Esse professor fica, este não”. Em 1990, eu consegui aprovação daqueles alunos, dei aula durante uns 60 minutos, eles me aprovaram. Comecei, eram 12 aulas e eu já era uma professora com 40 horas no Estado mais 20 na Prefeitura, e embarquei no sonho da Etesp, no Centro Paula Souza.

 

Assumi a direção da Etesp no final de 95 , disputo as eleições, ganho e lá fico até 2004. Em 2005, me é dada a oportunidade de ter uma experiência única que foi também dirigir uma escola técnica na antiga FEBEM, aprendi muito a sensibilização é algo incomparável com aqueles jovens, e lá, eu tive a certeza absoluta que não há outro caminho que não a Educação para a ressocialização, para a integração de qualquer pessoa e em particular, do jovem, que tá começando a sua vida. Eu fui agraciada com esse projeto no local onde nós estamos, que eu acho que é sina, eu sai da FEBEM e vim para o Carandiru, para implantação… era uma classe descentralizada que viria ocupar o antigo Carandiru, isso em meados de 2006 e em 2007, a gente começa nesta área e em 2008, eu tive também a oportunidade de implantar a ETEC de Artes. No Espaço Memória Carandiru, quando entram alguns, se repararem, eles fazem o sinal da cruz, então… é uma situação, enfim, que eu acho que tá no imaginário, respeito, mas não, eu sempre digo que a gente tem mais é que ter medo dos vivos, os mortos realmente… agora, um momento difícil pra nossa escola foi o momento da invasão que aconteceu em 2015, foi isso. Foi difícil, até porque havia um movimento e isso todo mundo sabe, quando você está imerso num movimento, você não consegue avaliar a amplitude, as possibilidades, a capacidade e as consequências, isso é natural, todo historiador sabe, não dá para avaliar, analisar aquele momento, a gente tem… pode se ter considerações, mas a analise sempre é feita posteriormente. E esta escola que sempre foi aberta, que sempre buscou no diálogo toda a sua… o seu fazer, e sempre teve confiança total nas pessoas, um dia se vê surpreendida por algo que nunca nós pensávamos. E hoje, eu entendo perfeitamente, acho que se tivesse no papel do adolescente, eu teria feito, era um momento deles se apresentarem, deles demonstrarem aquilo que eles mais queriam para a sociedade. Mas foi muito difícil pra gente aceitar porque sempre nos perguntávamos: “Onde erramos? Por que eles não conversaram conosco? Por que nos sentíamos meio traídos?”, e não era nada disso. Nessa escola que sempre tivemos essa convivência mais aberta, nos parecia algo inusitado porque, mas essa ideia dessa escola não era a ideia e nem a prática das outras escolas. E é evidente que eles tiveram essa facilidade, justamente, por ser tudo aberto e aqui, eles puderam demonstrar aquilo que eles desejavam, que era maior liberdade e aí, a gente se perguntava: “Mas maior liberdade exatamente do quê?”. O que nós não fazíamos na grande maioria era fazermos esse movimento para fora, havia um contestar, eles contestavam, aqui, mas não era exatamente daqui, era do todo. Enfim, então eles ficaram… lembro bem, foi no dia primeiro de dezembro. E eu vi os garotos fora em roda, mas uma coisa muito comum pra mim. Eu olhei e falei: “Não sei porque mas tem algo meio equivocado aqui”, mas eu não sabia o que e larguei mão. Fomos, saímos, eram umas 20 horas e como eles sempre… essa escola é assim, ela foi sempre invadida e não evadida, eu não tenho problemas de evasão, eu tenho problema de invasão no bom sentido como sempre. E às seis e pouco da manhã do dia seguinte, eu recebo um telefonema de alguém, de uma pessoa muito querida que está conosco desde sempre, Dona Maria, ela desesperada, soluçava no telefone e ela dizia: “Professora, o que mais temíamos aconteceu. A escola foi invadida”. Os meninos no rompante do adolescente, plenamente entendível, eles pegaram as chaves dos seguranças e chavearam a parte de fora, o portão e foram abrindo todas as salas. Eles se fecharam dentro da escola e não admitiam uma conversa, nós estabelecemos aí junto a professores, a gente entende que momentos como esse, às vezes, a direção, a figura da diretora ou do diretor é uma figura muito forte que eles rechaçam, plenamente compreensível, então existia aí um grupo de professores que intermediavam essa conversa, mas eles também não queriam muito. Na verdade era assim: “Estamos acolhendo todos os nossos colegas que se sentem oprimidos e tal…”, então isso daqui ficou do dia primeiro de dezembro até o dia 19 de dezembro, um Woodstock, foi ótimo! Eles cantaram muito, eles discursaram muito, só que assim como os movimentos têm o seu tempo, eles acontecem e aí, ganham força e depois, vão perdendo, naturalíssimo também, não deixou de ser diferente, até porque começavam-se as perguntas, as pessoas começavam a perguntar: “Por que vocês exatamente estão fazendo?” “Nós somos solidários aos nossos colegas de não sei onde” “Mas o que vocês reivindicam?” “Maior liberdade” “Do quê?” “De fala” “Aqui não tem?” “Tem. A gente não quer a questão das aulas…” “Como é que elas são aqui?” “São abertas” “Vocês são obrigados a entrar na hora que vocês querem?” “Não”, então as próprias reinvindicações começam a não ter muita consistência, mas é plenamente entendível e eles estavam corretos em fazer isso.

 

No dia 19, eles têm que entregar o prédio, porque havia um acordo, mas entregar para quem e o quê? Então, foi um chororô porque eles tentavam estabelecer uma negociação, eu acho que era parte da mídia, eles percebem as negociações de longa duração e não se teria uma longa duração para isso. E eu lembro que eu vim para cá porque nós continuamos trabalhando em outras unidades, a gente não podia entrar na escola, mas a gente continuou trabalhando em outras unidades até em respeito àqueles outros alunos que desejavam também continuar. Perfeito. Nenhuma critica nem a um lado e nem a outro. E aí, a devolução do prédio estava prevista para às nove horas, oito, nove horas e aqui estávamos. E aí começa: “Não, temos essas exigências” “Quais são as exigências?”, eu disse: “Eu preciso entrar no prédio para saber se está tudo legal, tá tudo em ordem, mas eu tenho que entrar com duas outras pessoas” “Tá bom” “Então vamos entrar com outras duas pessoas da instituição e vocês vão com os seus colegas” “Não, não, não é mais desse jeito que a gente quer, agora a gente quer de outro jeito”, então acabamos ficando pelo menos… um sol terrível, era sei lá, 13 horas, 14 horas e a coisa não ia, eu já: “Olha, vamos fazer o seguinte, vocês entregam o prédio para quem vocês desejarem, a gente vai sair. A hora que vocês entrarem num acordo, tudo bem”, aí eles ficaram assim… jovens, né, normal. Bom, no dia seguinte, estava tudo em ordem, tava tudo bem, vale dizer que eles tomaram conta bonitinho do prédio, não teve nada. O que nós tivemos em termos de vandalismo foi na frente do prédio que hoje não mais, mas naquela época, era aberto completamente, então, ninguém pode dizer que foram eles, ou coisa que o vale, não sabemos quem, mas de qualquer maneira, aqui estava tudo em ordem, mas é claro que foi um momento de muita tensão. E aí, você me perguntou a questão para mim, foi uma grande… um grande momento porque você é colocado à prova: “O que você vai fazer? O que você, gestora vai fazer? Vai chamar a policia?”, porque muitas escolas chamaram e eu disse: “Eu não quero a policia aqui”, porque eu recebi a policia aqui. A primeira coisa: “o que a senhora quer que a gente faça? Que a gente entre aqui para tirá-los?”, eu falei: “Mas nem um dedo. Por favor, nós não precisamos, eles vão compreender a situação, eles terão o tempo, mas eu não quero a policia aqui. Eles são jovens, eles são adolescentes, eles estão experimentando a vida, o movimento politico e não pode”, então várias vezes foi solicitado isso, nós vamos entrar, outras pessoas também exigiam isso, pais exigiam, eu disse: “Não pode, tem o tempo necessário, os professores vão conversando, a gente vai observando”, o nosso medo era se tivesse alguma coisa aqui dentro, né? No sentido de excessos e que pudessem redundar em alguma pessoa sendo agredida e tal, porque outras pessoas de fora, alheios à escola entraram nesse momento.

 

Então, foi, eu acredito, um dos momentos cruciais para a minha gestão, que é quando você se defronta com o inusitado, o imprevisto, nenhum diretor de escola tem como possibilidade, no seu plano de trabalho, uma invasão, principalmente de alunos. Você pode até ter de outras pessoas que aí, os encadeamentos serão completamente diferentes. Na Etesp, na época da Etesp, houve uma invasão de alunos da faculdade onde nós tivemos que ser evacuados às pressas, porque a tropa de choque entrou, mas outra situação, outro contexto e aí, foi a minha… foi aquele momento mais marcante, o que fazer com essa situação que durou bastante e quais as providências futuras, como é que você se reorganizaria. Depois de uma situação dessa, seria ingenuidade imaginar que o dia posterior ou os meses posteriores fossem iguais, você passa uma borrachinha, esqueceu tudo. Não, outras reorganizações tivemos que fazer. Outras formas de agir tivemos que enfrentar, né? Mas nessa perspectiva de não perdermos o espirito da escola, outras demandas surgiram, as coisas foram se encaminhando e hoje, a gente tem, de novo a, uma situação que eu já tô esperando, também, porque é de altos e baixos, né, que eu acho ótimo também, não dá para ser numa linha continua, a vida da gente não é isso. A gente entra dentro de uma normalidade, dali a pouco, dá uma ruptura e a gente vai aprendendo com esses momentos.

 

O Espaço Memória Carandiru, algumas pessoas sabem, mas esse espaço, ele esteve muito perto a ser destruído e pavimentado completamente, mas ele ficou mais ou menos no limbo porque ninguém sabia com quem ficaria esse espaço. Durante muito tempo, ficou um espaço fechado, mofado, mal cheiroso, cheio de ratos, até que a ideia era a organização desse espaço por uma secretaria criada pelo governo do Estado, Secretaria de Relações Institucionais. Essa secretaria durou quanto? Seis meses? Dois anos. Mas assim, ela durou nominalmente, porque de fato, ela nunca chegou a existir. O governo acabou esbarrando em impeditivos e isso realmente ficou assim: “Para quem vai?”, se a gente não tem uma verba para montar, se a gente não tem uma situação de fato, quem vai administrar, então em 2008 há um Decreto passando para o Centro Paula Souza e a Secretaria de Relações Institucionais é extinta. Mas não mudou muito a situação pelo fato de ter vindo para o Centro Paula Souza, porque as dificuldades permaneceram. E digo que se a gente não tivesse uma heroína que no caso, é a Professora Cecilia Machado, que se colocou à frende desse projeto e ela bravamente, batalhou desde então para organização, sem ter nenhum tipo de projeto que a subsidiasse financeiramente, não.

 

Foi por uma vontade mesmo e aquele olhar de historiadora de fazer com que esse espaço permanecesse vivo para contar a sua historia, né? E a Maureen também batalhou muito e ambas, junto com outras pessoas bastante importantes também tá completando um ano a inauguração desse espaço e aquilo que era desde sempre, a abertura ao público, porque essa foi sempre a grande dificuldade. Aí, a gente encontrou a Nádia, a Professora Cecília encontrou uma mocinha tão, tão impetuosa e voluntariosa no melhor dos adjetivos, aí, como a Cecilia e ela vem levando aí a frente esse programa de acompanhar as pessoas, comunidades, alunos, enfim, que desejam conhecer o Espaço Memória Carandiru. O curso de Museologia começa… primeiro, o nome não era esse, era Museu, curso Técnico de Museu. Ele foi formatado, inicialmente, lá em 2005 para os funcionários dos museus, que pessoas abnegadas a seus trabalhos, eles não tinham uma formação mais técnica e precisavam dessa formação. E aí, junto ao Centro Paula Souza que tem essa sensibilidade de ouvir sempre o mercado, aquilo que se precisa e tal, as pessoas, os gestores de museus, os técnicos, enfim, os trabalhadores buscaram ajuda do centro Paula Souza e eles formataram esse curso que teve inicio lá na Etesp.

 

Foi um projeto piloto que se encerra no final de 2006, ele começou, se não me falha a memoria, com cerca de 30, 35 alunos para terminar com talvez, dez e tanto. E hoje o que se tem é a grande batalha que a Professora Cecília tem é pelo menos, parte dele se transformar em EAD, dando chance tanto a profissionais aqui de São Paulo, quanto de outros locais do Brasil poder ter essa formação profissional. Nesse sentido, o Espaço Memória Carandiru surge como este elemento de infraestrutura que faltava, quer dizer, se nós tínhamos no caso, os profissionais, nós não tínhamos exatamente a infraestrutura. Mas com tantos museus em São Paulo? Sim. Mas como nós queríamos atingir um público noturno, como é que a gente faz com o museu? Ele não tá aberto. Como fazer com que estes alunos pudessem trabalhar determinados… por exemplo, higienização de materiais, se a gente não tinha nada formado? Como trabalhar com estas pessoas na concepção de uma exposição ou da guarda ou embalagem de um objeto? o Espaço Memória Carandiru passa a contar com estes profissionais ou futuros profissionais que estudavam os seus objetos dentro do espaço como também, profissionais que começavam a montar esse espaço. Então, a Professora Cecilia teve uma sacada genial: “Olha, eu não tenho espaço de laboratório, ele pode ser um espaço de laboratório. Os alunos vão aprender? Muito, eles vão pôr a mão na massa. Mas eu também não tenho dinheiro para montar isso. Mas os alunos estão aqui trabalhando”, ou seja, não há de forma nenhuma exploração, muito pelo contrário, o que a gente tem é uma adequação das necessidades de formação profissional à formação de um espaço. Então, o Espaço Memória Carandiru surge nesse sentido, como um laboratório que atendeu e até hoje, atende as necessidades de formação do profissional e também, as necessidades de colocar uma comunidade em contato com aquilo que já existia.

 

Posteriormente, a escola vai conseguindo através da Associação de Pais e Mestres montar um outro laboratório para a Museologia. Nesse interim, o Espaço Memória Carandiru começa a evoluir para um outro cenário. Maureen Bisiliat cruzou essas fronteiras durante anos, fotografando o cotidiano aqui, recolhendo ou porque era dado a ela ou porque de repente, ela também se interessava e isso vinha ou porque ia ser jogado fora e ela recolhia, enfim… acervos muitas vezes são assim constituídos. Mas ela não tinha onde colocar e aí, existia já antes da construção do próprio… da reconstrução do prédio, existia esse espaço, já era algo pensado para isso, só não era o trabalhado. A Maureen, que batalhou muito e até hoje, batalha muito. Foi atendida? Não. Teve o espaço, mas não do jeito que ela imaginava, né, que ela tinha imaginado já todo um local propício.E nós ficamos muito temerosos: como é que nós vamos receber, porque se todas as pecas são suscetíveis a intempéries e tal, e mesmo à falta de uma refrigeração adequada, de uma purificação adequada, mas ainda a gente consegue trabalhar m pouco, as fotos não. As fotos, se a gente deixasse nessa situação, de fato, elas estariam perdidas. Elas foram para o MIS e eu quero acreditar que lá, elas estejam… eu quero acreditar que lá estejam sendo tratadas com o devido respeito que merecem. O Espaço Memória não foge a esse cenário.

 

Continuaremos a pedir, continuaremos a solicitar verbas, continuaremos a buscar possíveis concursos, necessariamente parcerias, mas não significa que esse espaço vai ter autonomia financeira para os próximos passos, mas ele continuará existindo, tenho certeza porque as pessoas que aqui estão, continuarão e assim como eu vou montando ao longo do tempo equipes de trabalho e que abraçam a ideia, também no caso, o curso de Museologia, os seus colaboradores abraçam a ideia e ele continuará. Não dá pra gente simplesmente, porque aí também seria terrível, não é, imaginar que por mais que é um fato, das pessoas, algumas não desejarem pensar sobre o que era, existem muitas outras que dizem com propriedade: “A historia não pode ser sedimentada, a historia não pode acabar num buraco. A gente precisa dela até para entendermos para onde caminhamos. Sendo assim, o Espaço continuará vivo e forte e com muitas outras atividades e colaboradores, certamente. Eu aprendo tanto com os alunos daqui, de outros locais, aprendo tanto com os professores. Eu tenho uma menina aqui, a Priscila Leonel, olha a carinha dela, é um bijuzinho, novinho, depois você mostra, tá? Depois você foca aí. E é uma doutoranda. Olha o que essa menina me ensina cada dia! É impressionante. A gente senta lá de sábado e ela fala da experiência dela, experiência de vida, do que ela aprende, do que ela aprendeu, como é a visão de mundo dela e eu fico assim, extasiada, falo: “Gente, como é que uma menininha tão nova pode ter tanta coisa importante para falar?”. Aí, eu me deparo com a Cecilia, mas aí brincadeira, porque superculta. A Cecilia tem uma cultura tão grande, tão grande, tão vasta, que é complicado falar com ela. A Nádia é impressionante. Pena que ela não está aqui, mas ela é uma pessoa incrível, uma voluntária inacreditável o que ela faz, a disponibilidade dela, não tem tempo ruim. Eu acho isso fantástico. Por isso que eu achei curioso, eu disse: “Eu não tenho nada para contar, eu só tenho a aprender”, eu disse que se é que eu tenho algum talento, o talento né formar equipes, eu acrescentaria uma coisa, eu acho que eu tenho um dom de facilitar as coisas para os outros. nunca tive medo de aceitar desafios. Foi assim com a FEBEM: “Você vai dirigir uma escola”, eu saía de lá 11 horas da noite, todo mundo dizia: “Você é louca de sair do Complexo Tatuapé assim, sozinha”, eu nunca tive problema nenhum. A única coisa que eu acho assim, que todo mundo tem que reafirmar, pelo menos aqueles que entendem que isso é possível, que a Educação é a nossa grande meta, é o nosso grande caminho, é onde a gente pode conseguir a salvação. Não existem salvadores da pátria. Existem pessoas que estão dispostas a batalhar pela Educação, tá? Não vejo outra saída nisso.

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